terça-feira, 29 de junho de 2021

Andrea Jubé – Darandina

Valor Econômico

Estratégia é concentrar esforços nas mobilizações

Parafraseando Guimarães Rosa (1908-1967), que teria completado 113 anos no domingo, podemos afirmar que os portentosos fatos explodiram a semana passada na política nacional de “chinfrim, afã e lufa-lufa”. Ou em português claro, foi uma semana de muita confusão, corre-corre e aflição no governo e na base governista.

Na quinta-feira, em cena de filme de ação, ou de comédia, o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) tentou pular o muro de sua casa para escapar da Polícia Federal, mas recuou ao se deparar com um agente que estava à espreita.

Também na quinta-feira, em uma imagem dantesca, o presidente Jair Bolsonaro arrancou a máscara de uma criança que levou ao colo, em mais um dos diversos atos com aglomeração que vem promovendo.

O gesto causou indignação, com o agravante de que o Brasil aparece em segundo lugar no ranking de crianças vítimas da covid-19, atrás apenas do Peru, segundo um levantamento divulgado pelo jornal “O Estado de S. Paulo” no começo do mês. Até meados de maio, 948 crianças de zero a nove anos morreram de covid-19 no país, segundo dados do Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe).

Um dia depois, Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro, foi flagrado perambulando pelo Senado sem máscara. Para driblar os repórteres, trancou-se no banheiro privativo das senadoras. Advertido pelos seguranças, teve de sair e enfrentar a imprensa.

Também na sexta-feira, o senador Marcos do Val (Podemos-ES), em cena deplorável, deu empurrões com o peito no deputado Luis Miranda (DEM-DF) no plenário da CPI da Covid. As provocações dos senadores eram mais maduras nos tempos em que Heráclito Fortes escondia os sapatos de Tasso Jereissati (PSDB-CE), quando o tucano cochilava nas sessões, e despertava, atordoado, ao se descobrir de meias no plenário. Ou quando o mesmo Heráclito temperava com laxativos os chocolates de Geddel Vieira Lima, que, afortunadamente, não os dividia com os amigos.

Na sexta-feira, o clímax da novela se consumou quando a senadora Simone Tebet (MDB-MS) obteve do depoente, Luis Miranda, a revelação do nome do deputado que o presidente Bolsonaro teria mencionado, ao ser advertido do suposto esquema envolvendo a compra dos imunizantes indianos Covaxin: Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara.

Com isso, as redes sociais indagaram se a denúncia da eventual compra superfaturada da Covaxin seria a “Fiat Elba do Bolsonaro”. O carro foi considerado a prova material que faltava ao impeachment do presidente Fernando Collor, e que o levou à renúncia.

Se a Covaxin será o “Fiat Elba” da vez, é preciso aguardar os próximos capítulos. A denúncia serviu, entretanto, como um verdadeiro “plot twist” do enredo: deflagrou a nova linha de investigação da CPI da Covid, que agora se volta para eventual corrupção no governo; a convocação de novos atos de rua pela oposição, antecipados para o dia 3; o protocolo do superpedido de impeachment amanhã, reforçado pela denúncia dos irmãos Luis Cláudio e Luis Ricardo Miranda; a notícia-crime dos senadores contra Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo crime de prevaricação.

Essa sucessão de fatos sugere que a oposição decidiu abandonar a estratégia de deixar Bolsonaro perder fôlego político para disputar com um presidente fragilizado nas urnas, e somar forças pelo impeachment aqui e agora. O impasse é como ultrapassar a “muralha” Arthur Lira (PP-AL), que blinda o presidente.

Para o vice-presidente nacional do PT, deputado José Guimarães (CE), “o que fará Arthur Lira deferir o pedido de impeachment é a pressão social”. Segundo o petista, a oposição deve “concentrar todos os esforços nas mobilizações de ruas, porque não tem essa de deixar sangrar para facilitar nossa vida em 2022”. Guimarães acredita que Bolsonaro não se sustentará até o ano que vem num ambiente de instabilidade: “Vamos apostar todas as fichas no impeachment”.

Apesar do entusiasmo, um experiente dirigente de sigla do centro político adverte que será preciso muito mais do que “povo na rua” para afastar Bolsonaro do cargo. Será necessário algo “marcante, escandaloso”.

É preciso lembrar que o cenário econômico, apesar da onda de desemprego e inflação em alta, é promissor. Bolsonaro e Lira entregaram a principal demanda do mercado financeiro para este ano: a capitalização da Eletrobras. Além disso, o setor demanda, pelo menos, compromisso com o rigor fiscal, a manutenção do ministro Paulo Guedes, e o cumprimento da regra de ouro.

Em paralelo, a popularidade de Bolsonaro está em franca corrosão, mas ainda não atingiu os níveis alarmantes que contribuíram para defenestrar Fernando Collor e Dilma Rousseff. Segundo a última pesquisa Ipec, a reprovação do presidente subiu dez pontos percentuais, de 39% para 49%, e a aprovação caiu de 28% para 24% em quatro meses.

Quatro meses antes de Eduardo Cunha autorizar a abertura do impeachment, em agosto de 2015, o governo Dilma amargava 71% de reprovação. A taxa de aprovação estava em 8%, segundo o Datafolha.

Acrescente-se que há resistência feroz de deputados e senadores a uma Presidência sob o comando do general da reserva Hamilton Mourão. Bolsonaro já aparelhou a administração federal com militares de todas as patentes, mas Mourão simbolizaria o efetivo retorno dos generais ao poder, desde a redemocratização.

Sobre esse empecilho, Guimarães diz que não é problema da oposição. “Não queremos conversa com as vozes do além, quem pariu Mateus que o embale”, diz o dirigente petista.

“Darandina”, que significa lufa-lufa, afã, ou corre-corre, é o título de um conto pouco conhecido de Guimarães Rosa, publicado em uma coluna que ele assinou em “O Globo” em 1961. Trata-se de uma sátira política, em que o protagonista, um secretário de Finanças, desperta de um surto, e atordoado, se vê nu em pelo, no alto de uma palmeira, cercado por uma multidão. Para não dar “spoiler”, posso afirmar que a mensagem de Rosa ao final é que só há escapatória para um político se ele cair nos braços do povo.

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