Cúpula deve ampliar combate à destruição da Amazônia
Valor Econômico
É importante que a integração ganhe ímpeto
e bons propósitos se consumem em políticas eficazes
Da preservação da Amazônia, a maior
floresta tropical do mundo, depende o sucesso ou fracasso das iniciativas
contra o aquecimento global. A Cúpula da Amazônia, que reunirá está semana os 8
países por onde ela se espraia (Brasil, Peru, Equador, Venezuela, Colômbia,
Bolívia, Guiana e Suriname), traz a promessa de mudar o jogo contra o
desmatamento e, com políticas adequadas, zerá-lo até 2030. Esse é um dos
resultados possíveis do encontro da Organização do Tratado de Cooperação
Amazônica (OTCA), o primeiro desde 2009.
O governo brasileiro tem interesse na aprovação de medidas urgentes para conter a destruição acelerada da floresta, que encontrou seu auge recente no governo de Jair Bolsonaro. Belém, a capital de um dos Estados que mais desmatam no país, sediará a cúpula, assim como a COP30, em 2025. Politicamente, o governo Lula quer garantir uma posição internacional de destaque realizando um continuum de ações em um calendário no qual o país assume em breve a Presidência do G-20 e termina abrigando o encontro global anual sobre o clima daqui a dois anos.
Buscar uma coordenação de ações entre os
países que hospedam a floresta é a coisa certa a fazer. A OTCA, há 13 anos sem
se reunir, tem sido um daqueles órgãos que parecem continuar existindo por
inércia. Boa parte da inação reflete o relacionamento exíguo entre seus
membros, sempre às voltas com mazelas políticas que os tornam mais distantes
entre si do que sugere a proximidade pela presença comum de uma vegetação
exuberante. A união em torno de propostas comuns é fundamental diante da
magnitude da ameaça. Ao Brasil, porém, cabe o protagonismo: 75% da área
desmatada no bioma está no país, que abriga 59% do território da floresta.
Segundo o MapBiomas, 109,6 milhões de hectares, ou 21% da Amazônia brasileira,
foram destruídos até agora.
A troca de governo pôs um fim à devastação
acelerada. Os alertas de desmatamento caíram 42,5% de janeiro a julho deste
ano, com o retorno de políticas robustas de combate ao desmate. Seu sucesso,
porém, não foi completo. A destruição do Cerrado, a mais biodiversa savana do
mundo, segundo Ana Crisostomo, da WWF, aumentou 21,7%. Resta pouco mais da
metade da vegetação nativa no bioma.
O esforço que deve nortear os governos tem
na orientação de diversas ONGs ambientais um norte seguro de ação. O objetivo
deve ser impedir a todo custo o ponto de não retorno da Amazônia, quando, pela
magnitude do desmatamento, a floresta perderá sua capacidade de absorver
carbono e se tornará, ao contrário, um emissor líquido, o que já foi detectado
nas zonas mais atingidas pelos cortes de árvores.
A derrubada da floresta é expressiva a
ponto de tornar o não retorno uma ameaça real e iminente. Segundo Luciana
Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 15% da Amazônia
transnacional já foi desmatada e 21% da porção brasileira da floresta - 10 mil
km2 - deixam de existir a cada ano. As motoserras ceifaram 230 mil km2 no
Nordeste da floresta e 600 mil km2 no Sudeste. De acordo com a pesquisadora, a
plantação de soja no bioma cresceu 70% nos últimos anos e a de milho, 60%. O
rebanho bovino aumentou na região, enquanto diminuiu no resto do país (Valor, 3
de agosto). “A Floresta Nacional do Tapajós está ilhada por soja. Isso tem que
parar”, diz ela.
Evitar a degeneração das condições naturais
dos biomas é a principal tarefa brasileira. Ao contrário da maioria dos países
desenvolvidos, a grande fonte de emissões de gases de efeito estufa não é a
produção de energia, nem a poluição industrial e dos transportes, mas as
alterações no uso do solo. Isso exige um trabalho gigantesco em um país
continental, recentemente vítima da aniquilação de políticas ambientais pelo
governo Bolsonaro.
Na Amazônia, há uma vasta conspiração
contra a natureza, e enfrentá-la envolve coordenação de todos os países
vizinhos. A devastação da floresta une vários tipos de ações criminosas que
potencializam a exterminação ambiental. Madeireiras ilegais e grileiros são a
face mais visível, em torno dos quais se disseminam garimpos e, mais
recentemente, de forma avassaladora, o crime organizado e seu bilionário
tráfico de drogas. Ameaças às comunidades indígenas e trabalho escravo são o
resultado direto do domínio do banditismo na região.
Nesse sentido, a cúpula tem a oportunidade
de forjar uma união das polícias para o combate conjunto à criminalidade - uma
“Interpol amazônica”. Arquitetar projetos econômicos de sustentação das
populações nativas e de infraestrutura não agressiva ao ambiente é outra missão
que pede iniciativas transnacionais.
Mais de 50 organizações sociais vão propor
que a OTCA assuma o desmatamento zero até 2030, o que não é um consenso entre
países. Os riscos de exploração de petróleo na região também divide governos
como o da Colômbia, contra a iniciativa, e do Brasil, que é favorável a ela.
Divergências à parte, é importante que a integração ganhe ímpeto e bons
propósitos se consumem em políticas eficazes.
Escola em tempo integral deve ser
prioridade
O Globo
Lula sancionou avanço que impõe urgência na
implementação da reforma do Ensino Médio
Num instantâneo da educação pública
brasileira, há problemas sérios. Se analisarmos o filme ao longo de 25 anos,
porém, é inegável que, desde a redemocratização, a atuação conjunta de diversos
governos federais, estaduais e municipais, com apoio de organizações da
sociedade, tem melhorado o ensino, tornando-o mais atraente e produtivo para
crianças e jovens. Embora ainda haja muito a fazer, na semana passada foi dado
um passo importante na melhoria da escola pública com a sanção, pelo presidente
Luiz Inácio Lula da
Silva, da lei do Programa Escola em Tempo Integral.
Como qualquer mudança na área educacional
envolvendo toda a Federação, será um desafio para Estado e sociedade estender
como norma o ensino de cinco para oito horas diárias, num único turno. Hoje,
apenas 18% dos alunos em 27% das escolas públicas estão submetidos a esse
regime.
As experiências em curso mostram não só a
importância de conceder mais horas ao ensino, mas também as dificuldades de
implementação. Como lembrou o colunista do GLOBO Antônio Gois: “No cenário
ideal, 100% de nossas crianças e jovens deveriam estudar sem preocupação de
complementar a renda familiar ou com o cuidado de familiares”. A realidade é
bem outra. A necessidade de trabalhar é a explicação dada por 52% dos homens
para o abandono da escola, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios Contínua, do IBGE. Para 33% das mulheres, destacavam-se entre as
razões do trancamento de matrícula a gravidez e também a necessidade de
trabalhar.
A partir da nova lei, o ensino em tempo
integral deixa de depender da sensibilidade de governadores e prefeitos. O
governo federal, por intermédio do MEC, passará a oferecer recursos para a
ampliação da carga horária e a dar apoio técnico aos secretários de Educação.
Uma das expectativas é que caia o elevado
índice de evasão no ensino médio. De acordo com as últimas informações
disponíveis, relativas a 2020, a taxa de abandono escolar foi de 1,5% e 3,1%,
respectivamente, nos ensinos fundamental 1 e 2. No ensino médio, chegou a 6,9%
(e a 8,2% no primeiro ano do ciclo). Para efeito de comparação, em 2008 os
índices eram de 3,2% e 7,2% no fundamental 1 e 2 e de 14,2% no ensino médio.
Melhorou, mas ainda é pouco.
No campo pedagógico, espera-se que a
reforma do ensino médio, cuja implantação foi suspensa pelo governo, consiga,
com a flexibilização, atrair os jovens para o turno integral, inclusive aqueles
que desejam um curso técnico profissionalizante.
Com o ensino em tempo integral, será
preciso que os governos federal, estaduais e municipais criem bolsas para
alunos do Novo Ensino Médio, como já existem em estados como Alagoas. É a única
maneira de permitir ao jovem que precisa trabalhar que estude, complete o
ensino médio e possa entrar na universidade.
É difícil executar uma política educacional
eficiente em um país de dimensões continentais com enormes desigualdades
sociais. Exemplos internacionais de sucesso têm eficácia limitada. “Se
trouxerem para o Brasil uma escola da Finlândia, ela não vai funcionar”, diz um
especialista em educação. Precisamos encontrar nosso caminho, e a escola em
tempo integral é um passo no rumo certo.
Efeitos das mudanças climáticas na saúde
exigem atenção dos cientistas
O Globo
Doenças outrora restritas a regiões
tropicais, como a dengue, já se espalham para áreas temperadas
Os efeitos do aquecimento global não se
esgotam na alta do nível do mar, nos danos à agricultura, nas ondas de calor,
enchentes e outros eventos climáticos extremos. Também no campo da medicina o
clima terá impacto. Os cientistas
alertam sobre o avanço de doenças típicas de regiões mais quentes que começam a
se alastrar por todo o planeta à medida que as temperaturas sobem. É
o caso da dengue e
de outras doenças classificadas como arboviroses — como zika ou chicungunha —,
transmitidas pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. Elas começam a
produzir surtos em novos lugares no planeta, para onde passaram a migrar devido
às altas temperaturas.
O Ministério da Saúde informa que o Sul do
país foi a segunda região com maior incidência de dengue em 2022 e liderou as
estatísticas nacionais no primeiro semestre do ano. Os três estados da região
estão entre os cinco onde a doença mais matou em 2022, quando o Brasil
registrou 1.016 mortes, um recorde. A dengue e doenças similares ganharam
notoriedade em áreas tropicais de estados como Rio ou São Paulo, mas passaram a
se expandir por regiões outrora mais frias, conforme o planeta aquece.
“É
algo que vemos na Europa e também no Sul do Brasil, onde hoje temos surtos de
chicungunha e casos contínuos de dengue, ano após ano”, afirma o bioinformata
Gabriel Wallau, pesquisador do Instituto Aggeu Magalhães, em Pernambuco. Ele
integra um grupo de 74 cientistas de 54 países que defendem a “necessidade
global e urgente” de usar a plataforma de vigilância genômica criada para a
gripe e adotada com sucesso na pandemia da Covid-19 — chamada Global Initiative
on Sharing All Influenza Data (Gisaid) — com o intuito de ampliar para além do
Brasil o monitoramento da dengue e de outras arboviroses.
A Gisaid foi criada por cientistas de
vários países em 2008 para divulgar o genoma do vírus influenza, responsável
por surtos mundiais periódicos da gripe. Tornou-se o maior banco de dados de
sequenciamento dos vírus da Covid-19 e provou ser um espaço essencial para a
troca e coleta de informações científicas no enfrentamento de epidemias e
surtos mundiais. É usado para facilitar a produção rápida de vacinas — como
aconteceu na pandemia — e de outros medicamentos que enfrentem qualquer agente
que ameace levar ao colapso sistemas de saúde pública.
De acordo com Wallau, o sequenciamento genômico dos arbovírus é feito por vários grupos em diversos países de forma desorganizada. A maior parte das informações está dispersa em diferentes bancos de dados, muito heterogêneos. “Para alguns genomas, não temos informações, para outros somente parte delas”, diz ele. Daí o pedido do grupo de cientistas para os pesquisadores de todo o mundo se conectarem à Gisaid. É crucial que a ciência use os recursos da era digital o mais rápido possível quando está em jogo a saúde da população.
Anistia escandalosa
Folha de S. Paulo
Garantir punição a partidos que violaram
uso de verba pública é exigência básica
A atitude de perdoar quem infringe as
regras legais possui efeitos colaterais bastante conhecidos. Quando a anistia
ocorre com frequência, ela estimula nos atores o não cumprimento da legislação,
pois fixa-se a expectativa de que as eventuais punições serão extintas adiante.
O problema se acentua quando os políticos
que detêm o poder de decidir o perdão são os beneficiários diretos da medida.
Os cidadãos que não dispõem desse privilégio passam a
enxergar os legisladores com compreensível antipatia.
O fato de os congressistas estarem
dispostos a abonar a transgressão de regras que eles mesmos aprovaram para
regular a sua própria atividade eleitoral apõe uma camada adicional de
indignação.
Fecha o quadro de uma anistia escandalosa
saber que os partidos políticos, que pretendem ver-se livres de pagar multas à
Justiça por suas faltas, sacaram do bolso dos contribuintes R$ 6 bilhões apenas
no ano passado e dele retirarão outro bilhão neste ano não eleitoral.
O projeto de emenda constitucional que começou
a tramitar em comissão especial na Câmara dos Deputados incorre em todos esses
vícios. Apenas para começar, a amplíssima anistia em discussão
faria evaporar a obrigação de partidos ressarcirem o erário em R$ 40 milhões
pelas irregularidades na administração de recursos públicos no exercício de
2017.
Isso porque o Tribunal Superior Eleitoral
julga a prestação de contas das agremiações com cinco anos de atraso. Se o
perdão das punições sair como deseja a grande maioria do Congresso Nacional, a
corte poderá perder seu tempo se tentar apurar os desvios ocorridos de 2018 a
2022, pois todo o período estará abrangido na anistia.
Passará impune a desobediência sistemática
das regras que obrigam os partidos a sustentarem uma proporção mínima de vagas
e de custeio para candidaturas de mulheres, pretos e pardos. A destinação de
recursos públicos para finalidades absolutamente incompatíveis com o propósito
de um partido político também será relevada.
Sem assegurar a sanção da Justiça,
desembolsos como os já flagrados das verbas partidárias com compra de aviões,
reforma de residências e aquisição de toneladas de carne permanecerão como um
acinte ao pagador de impostos, que financia inadvertidamente a farra.
Está completamente fora de esquadro a
dimensão que tomou no Brasil a apropriação de recursos da sociedade pelas
oligarquias partidárias —escapa a qualquer princípio de boa representação
política.
Associar o saque à permissividade no uso do
dinheiro é tratar dezenas de milhões de brasileiros como otários. Os
legisladores precisam entender em que mundo vivem e desistir dessa anistia
absurda
Golpe no Níger
Folha de S. Paulo
Reação à queda da democracia no país
africano reflete tensão entre EUA e Rússia
Espremido entre o deserto do Saara ao norte
e as savanas africanas ao sul, o Sahel é uma zona árida e asfixiante em mais de
um sentido.
Nos últimos anos, países que compõem a
região foram palco do aumento da atividade de grupos terroristas islâmicos, da
brutalidade de mercenários e de uma sequência de golpes de Estado.
A última peça do dominó a cair é o Níger,
vasto país do tamanho do Pará e terceiro mais pobre do mundo, segundo a ONU.
Em 26 de
julho, o presidente eleito democraticamente em 2021, Mohamed Bazoum, foi
deposto por uma junta militar e submetido a prisão domiciliar.
Ele fora empossado após a primeira transferência pacífica de poder no país
desde a independência da França, em 1960.
A reação internacional ao golpe, numa
região em que quarteladas são fatos corriqueiros, desta vez foi
surpreendentemente dura.
Isso se explica pelo cenário geopolítico
tenso, agravado pela guerra da Ucrânia. O Níger era um raro aliado do Ocidente
na região contra a ameaça jihadista e atuava como uma barreira de contenção
à infiltração
do infame grupo russo Wagner, que já atua em países vizinhos como Mali,
Burkina Faso e, um pouco mais ao sul, a República Centro-Africana.
Os mercenários, notórios pelo envolvimento
na guerra da Ucrânia e pelo breve levante contra o presidente Vladimir Putin em
junho, atuam na África como uma espécie de braço da política externa russa,
fechando acordos com ditadores locais que muitas vezes incluem a expulsão de
tropas ocidentais.
Soma-se a esse contexto o fato de o país
ter algumas das maiores jazidas mundiais de urânio, mineral necessário tanto
para bombas atômicas quanto para a descarbonização das fontes de energia.
Preso pela junta, mas ainda com meios para
se comunicar, o presidente deposto fez um apelo direto por uma intervenção
internacional na quinta-feira (3).
Países da Comunidade Econômica dos Estados
da África Ocidental cogitam uma força multinacional para restituir Bazoum ao
poder, possivelmente com apoio de cerca de 1.100 soldados americanos baseados
no Níger.
No entanto desfazer o golpe seria, na melhor das hipóteses, um pequeno alento para trazer alguma estabilidade. Em qualquer cenário, pobreza extrema, terroristas e disputas geopolíticas seguirão fazendo do Sahel uma das regiões mais irrespiráveis do planeta.
Violação contínua de direitos
O Estado de S. Paulo
Desde 2008 o CNJ realiza ‘mutirão’ para
tirar da cadeia quem já não deveria estar lá. O fato de que todo ano essa ação
é necessária mostra que o sistema de Justiça funciona muito mal
As prisões do 8 de Janeiro suscitaram, ao
longo deste ano, muitos questionamentos sobre a legalidade e a efetiva
necessidade da medida preventiva, bem como sobre o respeito aos direitos
humanos das pessoas envolvidas nos atos antidemocráticos. De fato, o sistema
prisional brasileiro é não apenas precário, mas desumano e degradante. Em 2008,
o Supremo Tribunal Federal (STF) qualificou a situação dos presídios como
“estado de coisas inconstitucional”, com “violação massiva de direitos
fundamentais” da população prisional, por omissão do poder público. Dessa
forma, é equivocado achar que o Estado viola direitos apenas em situações
pontuais, numa espécie de perseguição contra determinados grupos políticos ou
ideológicos. O problema é muito mais grave, muito mais abrangente.
Um dos grandes sintomas da violação
contínua dos direitos fundamentais por parte do poder público é a necessidade
de realizar periodicamente os mutirões carcerários. Neste ano, a previsão é de
que o mutirão revise, nos meses de julho e agosto, mais de 100 mil processos.
Essa revisão não é uma análise complexa, verificando, por exemplo, se houve
algum erro judicial no processo ou se a jurisprudência dos tribunais superiores
foi aplicada no caso concreto. O tema é mais básico. Trata-se tão somente de
verificar, por exemplo, se a pessoa deveria estar solta, mas ainda está presa
ou se tem direito a um regime de pena mais benéfico que, por erro, não lhe foi
concedido.
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
realizou o primeiro mutirão carcerário em 2008 e, desde então, promove esse
esforço concentrado de revisão num determinado período do ano. Eis o fato
absolutamente constrangedor. Infelizmente, continua havendo muitas situações
ilegais dentro dos presídios. O Estado não apenas pune o crime, mas também
produz, ele mesmo, ilegalidades contra as pessoas presas. E isso, que deveria
ser corrigido de forma habitual e imediata, é tão volumoso que demanda do poder
público uma medida excepcional, o mutirão carcerário.
Nos últimos anos, a sistemática do mutirão
foi modificada. Entre 2008 e 2014, juízes eram deslocados para diferentes
unidades da Federação, para analisar a situação processual das pessoas que
cumpriam pena e inspecionar unidades carcerárias. Agora, não há esse
deslocamento. São os magistrados da própria unidade que fazem a revisão dos
processos. Entre outros motivos, essa simplificação da sistemática foi possível
graças ao aperfeiçoamento tecnológico implementado pelo CNJ. Há uma ferramenta
que centraliza e unifica a execução penal em todo o País.
De toda forma, a implementação da
tecnologia continua coexistindo com violações sistemáticas de direitos das
pessoas presas. E, não se pode esquecer, uma vez que segue havendo nos
presídios situações degradantes e desumanas, inspeções com juízes de outra
unidade da Federação são uma oportunidade para trazer à tona esse gravíssimo
problema.
O mutirão deste ano tem como temas
prioritários o tratamento de gestantes, mães, pais e responsáveis por crianças
menores de 12 anos e pessoas com deficiência; o cumprimento de pena em regime
prisional mais gravoso do que o fixado na sentença condenatória; a situação de
presos condenados pela prática de tráfico privilegiado e que estão cumprindo
pena em regime não aberto; e os casos de prisões provisórias com duração
superior a 12 meses.
É louvável que o CNJ promova esse tipo de
ação, mas não se pode ignorar que o cuidado com os direitos das pessoas que
estão sob o domínio do Estado deve ser medida habitual, corriqueira. Se todo
ano o mutirão é necessário, isso é a prova de que o sistema está funcionando
mal, com a produção ininterrupta de novas ilegalidades e de novas injustiças.
O mutirão carcerário revela também o real
estado do direito de defesa no Brasil. Apesar da atuação da Defensoria Pública,
frequentemente heroica, muitos presos continuam não dispondo de uma assistência
jurídica adequada. Se tivessem seus direitos bem representados, não seria
necessário nenhum mutirão.
‘Geringonça’ à brasileira
O Estado de S. Paulo
É de interesse da sociedade que Lula e o
Centrão se ajustem para formar uma coalizão de governo. Desde que, é claro, o
pacto seja firmado em torno de uma agenda virtuosa para o Brasil
“Geringonça” é como se chama a coalizão de
governo em Portugal, desde novembro de 2015, sob a liderança do
primeiro-ministro António Costa. Assim é chamada porque congrega um grupo de
partidos que, em maior ou menor grau, têm posições ideológicas e projetos para
o país distintos entre si. Contudo, malgrado essas diferenças, o
semipresidencialismo lusitano tem se provado bem-sucedido. Aqui, a ver se um
arranjo político parecido na forma, ora em construção pelo presidente Lula da
Silva e próceres do Centrão, em particular o presidente da Câmara, Arthur Lira
(PP-AL), resultará em ganhos para o Brasil como a “Geringonça” resultou para
Portugal, que é o que interessa.
A posse de Celso Sabino como ministro do
Turismo deu a feição dessa baralhada, chamemos assim, que Lula quer montar, a
exemplo da “Geringonça”, para governar com relativa tranquilidade até 2026.
Como se viu, a cerimônia foi um desfile da fina flor do governismo, marca
indelével das legendas que compõem o Centrão. Além do União Brasil, partido de
Sabino, líderes do PP e do Republicanos, entre outros partidos com interesse em
se aproximar do governo, também se fizeram presentes no Palácio do Planalto.
O sucesso dessa, digamos, “Geringonça” à
brasileira dependerá da resposta a uma pergunta assaz singela: o que une
partidos políticos de posições ideológicas e programáticas tão distintas das do
PT como União Brasil, PP ou Republicanos, por exemplo? Trata-se de uma coalizão
em torno de um plano de governo que representa consensos mínimos sobre uma
agenda virtuosa para o País ou de mera “acomodação dos mais variados interesses
privados e setoriais via cofres públicos”, como bem descreveu William Waack,
colunista deste jornal, há poucos dias?
Hoje, o governo Lula não tem um rumo bem
definido para o País, vale dizer, um plano estratégico que indique aonde o
Brasil chegará nos próximos quatro anos. Há platitudes, como “retomar o crescimento”,
“recuperar as áreas da saúde e da educação”, “gerar empregos”, etc. Como
atingir esses objetivos mantendo a higidez das contas públicas, não se sabe.
Lula em pessoa não cansa de acenar para o atraso ao louvar os erros que
marcaram governos petistas no passado e ameaçar o País com a sua repetição.
Move-se na direção contrária aos avanços legislativos aprovados enquanto o PT
esteve fora do poder.
Até aqui, a voz da ponderação quase isolada
no governo é a do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Em geral, têm vindo
dele, como um articulador político pragmático, as sinalizações positivas de que
algo próximo a um programa de governo bem estruturado, ao menos na seara
econômica, que é a que lhe compete, norteia a administração federal.
No outro lado da mesa de negociação para a
formação dessa coalizão está o Centrão e sua notória amorfia, uma junção de
partidos cujos movimentos se ajustam ao tempo presente e aos interesses de
ocasião, seja qual for a orientação política do governo instalado.
É da concertação entre essas duas forças –
Lula, com seus 60 milhões de votos, e o Centrão, como grei indispensável para a
formação de maiorias no Congresso – que resultará a conformação do governo que
levará o País até a próxima eleição geral. Tanto ao Executivo como ao
Legislativo interessa essa aproximação, como mostrou Carlos Pereira, também
colunista do Estadão, ao tratar das razões que tornam tão difícil a vida dos
partidos que se dispõem a ser oposição no Brasil.
À sociedade, em boa medida, também
interessa essa aproximação, desde que dela resulte o acordo sobre a aprovação
de projetos de interesse do País. Ou seja, desde que a negociação se estabeleça
em termos republicanos.
É um grande equívoco condenar, a priori,
quaisquer negociações políticas que visam à formação de uma base de apoio
congressual ao governo de turno. Esse tipo de troca, ou divisão de poder, é da
própria essência da democracia. Afinal, é fácil governar um país à força, sob
regime de partido único. Não há conflitos, não há sobre o que transigir. O busílis
são os pilares que sustentam essa acomodação.
Para o Estado contratar bem
O Estado de S. Paulo
Em análise no Senado, lei geral de
concursos públicos contribui para funcionamento da burocracia
Há mais de 20 anos tramita no Congresso uma
proposta de marco jurídico para os concursos públicos. O projeto original (PL
92/2000) foi apresentado em 2000 pelo senador Jorge Bornhausen. No ano passado,
a Câmara aprovou o projeto substitutivo (PL 2.258/2022), que agora está em
análise pelo Senado. Trata-se de tema importante, que regulamenta as
disposições constitucionais. Apenas contratando bem, o poder público terá
condições de funcionar bem, prestando bons serviços à população.
Após estabelecer os princípios gerais da
administração pública – legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência –, o art. 37 da Constituição dispõe que “os cargos, empregos e
funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos
estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei”. Tem-se
aqui um parâmetro fundamental: as regras para o preenchimento dos cargos
públicos são oriundas da lei, e não da vontade do governante ou de quem está no
cargo público.
Mas a Constituição vai além, dizendo que “a
investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso
público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a
complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei”. Ou seja, com
exceção dos cargos em comissão, todos os outros devem ser preenchidos por meio
de processo seletivo público, aberto em tese a todos.
A realização de concurso público é um dos
grandes meios de aperfeiçoamento do poder público. No entanto, até hoje, o País
nunca teve uma lei geral de concursos públicos. Entre outros efeitos, essa
ausência suscita uma forte judicialização, com o Judiciário intervindo na
escolha dos candidatos, o que é disfuncional. O PL 2.258/2022 é caminho para
prover maior segurança jurídica.
Outro aspecto disfuncional dos concursos
públicos atuais é a tendência a sobrevalorizar títulos educacionais e
conhecimentos teóricos, em detrimento de habilidades que, muitas vezes, são
decisivas para o exercício do cargo público. Há uma seleção desalinhada com as
necessidades reais da administração pública.
No atual panorama dos concursos públicos,
há baixa diversidade entre os aprovados. A renda pessoal e familiar do
candidato é ainda um dos elementos preponderantes na definição do desempenho.
Um dos objetivos do PL 2.258/2022 é justamente ampliar a diversidade no setor
público, tornando os processos seletivos mais acessíveis, também do ponto de
vista financeiro. Uma das medidas para isso é fomentar, por meio de uma
regulação adequada, concursos públicos digitais.
Fruto de intenso diálogo com a academia, o PL 2.258/2022 dispõe sobre as diversas etapas de um concurso público, desde a autorização, o planejamento, a execução até a avaliação, na União, nos Estados e nos municípios. Ao fixar critérios gerais, o marco regulatório dos concursos pode contribuir para modernizar a administração pública, assegurando que os servidores públicos tenham as competências necessárias para os respectivos cargos. Todos ganham.
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