quinta-feira, 3 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil deve reagir com serenidade a tarifaço de Trump

O Globo

À primeira vista, país foi poupado ao ser incluído na menor ‘tarifa recíproca’ — mesmo assim a imposição é injusta

Donald Trump anunciou enfim seu tarifaço sobre importações. O anúncio marca uma inflexão na política comercial americana desde o fim da Segunda Guerra. Em vez de promover o livre-comércio, Trump aposta numa versão mercantilista de protecionismo, com a promessa de elevar investimentos na indústria e criar empregos. Sem dar ouvidos a quem avisa que as tarifas aumentarão a inflação e não resultarão no renascimento industrial prometido, ele deflagrou sua guerra comercial. É esperado — inevitável até — que haja retaliação.

À primeira vista, o Brasil parece ter ficado em posição confortável. As exportações brasileiras foram incluídas na menor “tarifa recíproca”, 10% em média. Mesmo assim, foi uma imposição injusta, já que a balança comercial é favorável aos americanos. O déficit brasileiro em 2024 foi de US$ 250 milhões, em trocas de R$ 81 bilhões. Esse déficit fica ainda maior incluindo a balança de serviços, cujo resultado foi de US$ 3,8 bilhões negativos em 2023 (para transações de US$ 26 bilhões). Em termos comparativos, o Brasil não depende tanto de vendas aos Estados Unidos, terceiro mercado para nossas exportações (12% do total, ou 1,7% do PIB). Uma análise atenta, porém, revela uma realidade mais complexa.

Mal-intencionado – Merval Pereira

O Globo

Não adianta fazer propaganda e pôr Lula para falar a toda hora, porque o sentimento da população é contrário ao governo

A pesquisa Genial/Quaest, mais do que os números desastrosos em pontos importantes para o presidente Lula, revela pela primeira vez em anos uma repulsa a seu governo baseada na desconfiança de sua postura. A maioria já considera que o outrora líder político mais popular do país não é bem-intencionado, o que explica que a imagem de Lula na maioria da população esteja desgastada neste terceiro mandato.

Até a eleição de 2022, quando derrotou Bolsonaro por pequena margem, Lula foi aceito pela maioria como um político que defendia a democracia conspurcada pelo governante anterior, já em pleno processo golpista, como se viu depois da derrota eleitoral. Não há informação ainda sobre os efeitos dessa percepção na eleição presidencial de 2026, mas há indícios demonstrando a desagregação de seu eleitorado.

Deputado que propôs cassar Glauber Braga por agressão já agrediu escritor na Câmara - Bernardo Mello Franco

O Globo

Sobrinho de ACM, Paulo Magalhães deu soco e pontapés em autor de livro contra o tio

O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) está ameaçado de perder o mandato por agredir um militante do MBL que xingou sua mãe de “corrupta” e “safada”.

Ele deu empurrões e pontapés em Gabriel Costenaro, que costuma aparecer em eventos da esquerda de celular em punho para causar tumulto e viralizar nas redes sociais.

No ano passado, Costenaro usou essa tática para se projetar como candidato a vereador do Rio pelo Partido Novo. Ele teve pouco mais de 12 mil votos e não conseguiu se eleger.

Nesta quarta, em reunião tumultuada do Conselho de Ética da Câmara, o deputado Paulo Magalhães (PSD-BA) apresentou relatório a favor da cassação de Glauber.

O erro de Trump atingirá o mundo - Míriam Leitão

O Globo

Brasil continua negociando porque acha que já teve efeito, e que contra nós foi “o mal menor”, mas a bomba nuclear tarifária atingirá o mundo

A decisão do presidente Trump de erguer muros contra o mundo não é nova e nunca deu certo. A consequência mais provável é inflação e queda do crescimento. O Brasil teve a tarifa punitiva mais baixa. No governo, a avaliação feita durante o anúncio é que os argumentos técnicos usados nas conversas bilaterais haviam conseguido algum sucesso. De qualquer maneira, uma bomba nuclear tarifária como essa lançada contra tantos países terá efeitos globais deletérios.

— Como é uma tarifa alta contra todos os países e o Brasil ficou com a menor tarifa é um mal menor. O Brasil estava sendo muito citado no começo como um país alvo, mas acabou ficando com a tarifa menor dos países que têm relações mais equilibradas com os Estados Unidos — disse uma fonte do governo.

Muros contra a extrema direita - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Países europeus tentam blindar suas democracias contra o radicalismo antissistema

No começo de fevereiro, milhares de alemães saíram às ruas pela permanência do "Brandmauer". Muro corta-fogo, em tradução literal, ou cordão sanitário, em versão livre, é o acordo pelo qual os principais partidos alemães, de todas as cores, se comprometeram a isolar as organizações extremistas, excluindo-as das coalizões de governo. Em certas ocasiões, o acerto obrigou direita e esquerda democráticas a governar juntas.

As manifestações de fevereiro tinham como alvo o novo chanceler, Friedrich Merz, líder dos democratas cristãos, que tentara aprovar no Bundestag, o Parlamento, um projeto de lei anti-imigração com o apoio da AfD (Alternativa pela Alemanha), agremiação de extrema direita de ostensiva orientação neonazista.

O Brandmauer é consequência, no plano da política parlamentar, da arquitetura institucional inspirada pela ideia de "democracia militante", que prega a defesa ativa do sistema representativo por meio de dispositivos que dificultem a expressão eleitoral do extremismo —como o sistema eleitoral misto e a cláusula de barreira— ou permitam a responsabilização jurídica de líderes antidemocráticos e, no limite, o banimento de partidos que os acolham.

Reação do Brasil tem de ir além de Trump - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

País tem de lidar com EUA e mundo novo pensando na reviravolta política e econômica geral

Faz meses, há falação sobre como o governo do Brasil deve reagir ao aumento do imposto de importação americano sobre produtos brasileiros. No caso do Brasil, o tributo fica em 10%, o piso. Saiu até barato —vai ficar em 10%, ante 20% para a União Europeia, 24% para o Japão, 34% para a China e 46% para o Vietnã.

Vale a pena "reagir" a esse imposto maluco de Trump ou repensar o lugar do Brasil nessa nova situação global?

Pouca gente pergunta "reação ao quê?". Discute-se em geral retaliação tributária ou medida qualquer que pudesse provocar dores em negócios americanos. O contra-ataque renderia alguma concessão, se imagina ou fantasia.

O Trump que Bolsonaro seria - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O primeiro mandato ensina como chutar a porta, distribuir tabefes e pôr o sistema contra a parede

Hollywood era formidável em filmes de tribunal. Para ficarmos só nos clássicos, "O Vento Será Tua Herança" (1960) e "Julgamento em Nuremberg" (1961), ambos de Stanley Kramer; "Anatomia de um Crime" (1959), de Otto Preminger; "O Sol É para Todos" (1963), de Robert Mulligan; e o talvez melhor de todos, "Doze Homens e uma Sentença" (1957), de Sidney Lumet. Em suas disputas entre advogados ou jurados, sempre a luta por uma causa perdida. Em todas, a vitória da Justiça, baseada num princípio inarredável: a lei.

Biblioteca oficial do crime bolsonarista - Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

País sempre cedeu ao seu maior delinquente. Se punido agora, está barato

Não é só o curriculum vitae de pessoa cruel, incivil e indecorosa, que exibe indignidade com orgulho e raiva. Não é só a biografia de cultivo da violência contra todo apelo por liberdade e inclusão. Contra qualquer interesse não privado e familiar.

Se você está desconfiado da delação de Mauro Cid, como se tijolinho de barro fosse alicerce do arranha-céus de provas contra Bolsonaro; se leu notas de imprensa céticas à denúncia da PGR, versão palpiteira e diletante de garantismo; se fica admirado com a coragem moral da advocacia bolsonarista para dizer o que diz, renove a biblioteca e acione a memória.

A delinquência foi documentada e televisionada. A tentativa de golpe veio também na forma impressa, à moda de Jair. Coisa tão grande que alguns se recusam a ver. A sociologia chamou essa atrofia sensorial de cegueira supraliminar.

Socorro do governo virá de saídas colegiadas - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Consensuado entre Poderes e repartido na federação, modelo projetado para a segurança é, até aqui, maior aposta para o governo sair das cordas

Ainda tem muita conta pra ser feita, mas o que sobrou para o Brasil de uma cerimônia cheia de operários com capacete e colete e indiferente ao destino de países pobres sobretaxados (Cambodja, Madagascar, Laos e Sri Lanka), é a inclusão do país no rol dos mais poupados pelo tarifaço americano. Ficou ainda bem posicionado para ocupar o mercado dos atingidos (China, UE, Índia, Japão, Coreia do Sul e Vietnã) nos EUA.

A vantagem comparativa pós-tarifaço não prescindiu da aprovação da lei de reciprocidade, vencendo a obstrução da pauta da Casa pela bancada da anistia. A aprovação ofereceu um exemplo claro do quanto o governo, para dar resultado, tem que se abrir, nem que seja com a divisão de louros.

Sem reação nas pesquisas, tornará reeleição inviável - César Felício

Valor Econômico

Prognóstico para candidatos com menos de 30% de ótimo e bom é muito ruim

O saldo das pesquisas Genial/Quaest e Atlas/Bloomberg divulgadas na quarta e na terça-feira, respectivamente, converge para o mesmo quadro: a queda de avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi estancada depois da troca do ministro de Comunicação Social, com a nomeação de Sidônio Palmeira e a demissão do deputado federal Paulo Pimenta, no começo de janeiro.

Ambos os levantamentos também mostram que toda a repercussão do processo por golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro está sendo benéfica para a sua imagem. O hoje inelegível e réu antecessor de Lula é hoje uma figura com mais aceitação na opinião pública do que o petista, de acordo com a pesquisa da Atlas, ainda que ambos sejam no momento impopulares. Na pesquisa Genial/Quaest esta informação é dada de maneira inferida. Pela primeira vez desde o início da série há mais pesquisados considerando que o governo Lula é pior que o de Bolsonaro (43% a 39%). Há um ano, este escore era de 47% a 38% a favor de Lula.

Para o Brasil, a tarifa mínima, mas impacto ainda grande - Assis Moreira

Valor Econômico

Argentina e India, com Milei e Modi amigos de Trump, não foram poupados do choque tarifário

O Brasil, Austrália e Reino Unido, as maiores economias com as quais os EUA tem superávit comercial, vão sofrer menos do tarifaço sobre as importações anunciado por Donald Trump.

No entanto, apesar de o Brasil ter sido atingido somente com a alíquota mínima de 10% do imposto de importação, ainda assim haverá um impacto grande nas exportações brasileiras. O especialista em comércio Rodrigo Pupo nota que, considerando as exportações brasileiras aos EUA em 2024 (US$ 40,4 bilhões), os importadores americanos teriam que pagar assim mais de US$ 4 bilhões de tarifas de importação apenas para produtos brasileiros.

Se ficar só nos 10%, tarifaço deixa Brasil menos desconfortável -Eduardo Belo

Valor Econômico

Preocupação é que as medidas contra o Brasil podem não ter parado por aí

O temor de que o dia da libertação dos Estados Unidos pudesse aprisionar o Brasil em uma armadilha tarifária não se concretizou. Não, pelo menos, na magnitude que se esperava. E não por enquanto. Ao impor 10% de taxação sobre os produtos brasileiros, contra mais de 20% para asiáticos (34% no caso da China) e 20% da União Europeia, Trump sinalizou claramente seu alvo principal e referendou a tese de Brasília de que o Brasil não é um problema para o comércio com os americanos.

Não quer dizer que Washington vá facilitar as coisas, mas dá alguma margem para uma negociação menos difícil. Com poder de barganha extremamente baixo em relação ao parceiro, o Brasil, que já tinha sinalizado o caminho da negociação, agora tem certeza de terá de ceder algo para manter ao menos uma fração das exportações para os Estados Unidos. Mas o prejuízo é bem menor do que poderia ser, especialmente levando-se em conta que era um jogo que os EUA já ganharam de antemão, já que são os donos da bola, do campo e das regras. Restava saber o placar. Agora dá para intuir que não será uma goleada. A menos que novas sanções ao Brasil venham a ocorrer nos acréscimos. E isso não está descartado.

Estados e municípios em descontrole fiscal - Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

Os investimentos subnacionais parecem seguir os ciclos políticos, aumentando antes das eleições e caindo depois delas

As discussões sobre a questão fiscal focam usualmente no caso federal e só muito raramente alcançam Estados e municípios. Assim, foi com prazer e surpresa que em jornais do dia 1.º de abril – e não é mentira –, quando escrevia este artigo, achei dois textos mostrando ser preciso cuidar também da área fiscal de Estados e municípios, além da federal.

O primeiro foi um informativo artigo de Luiz Schymura, pesquisador do Ibre-FGV, no jornal Valor. Ele aponta que “(...) o que se constata é o governo federal contendo gastos, enquanto Estados e municípios aumentam suas despesas. Com isso, (...) a fragilidade fiscal não cede”. Eles também aumentaram as suas receitas. No seguinte, trechos entre parênteses são de minha iniciativa ou do autor.

O martírio da universidade brasileira começa lá - Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

O que não falta hoje, seja no Congresso Nacional, seja no Palácio dos Bandeirantes, é gente engravatada que mal vê a hora de copiar o ‘authoritarian takeover’

O fato de maior peso para o futuro da universidade pública brasileira não acontece no Brasil. Acontece lá fora. Acontece na Casa Branca, em Washington, epicentro de um tsunami radioativo que se alastra pelos campi de Columbia, em Nova York, de Tufts, em Boston, e de Yale, em New Haven. Leio numa reportagem de Jamil Chade, publicada no UOL, que o Departamento de Educação de Trump investiga 45 das mais respeitáveis instituições de ensino superior nos Estados Unidos, incluindo a Universidade de Kansas, a de Utah e a de Cornell.

Nas adjacências do Golfo do México – nome que está ameaçado de extinção – muitas bibliotecas escolares já convivem com a censura. Trata-se de uma caçada. As autoridades alegam que perseguem agentes do antissemitismo, sem apresentar provas circunstanciadas. Falam também que combatem o racismo – contra brancos. Em sua mira, entra tudo aquilo que desafine da doutrina obtusa do trumpismo. É uma nuvem de gafanhotos de silício que começou a devorar a liberdade acadêmica.

Doença de alma - William Waack

O Estado de S. Paulo

Sem dúvida é histórica a data na qual Donald Trump anunciou um tarifaço. Ela marca no calendário o fim de uma era, e não apenas de políticas comerciais. Mas é enganador o alívio sentido em Brasília pelo fato de o País ter sido contemplado com “apenas” 10% a mais de tarifas.

Pois, em vez de tentar corrigir distorções do sistema multilateral de comércio do qual muitos se aproveitaram – a China é o melhor exemplo –, Trump decidiu explodir o sistema. Que nunca existiu sozinho. Nas grandes alianças das quais os EUA fizeram parte (ou lideraram) nos últimos 80 anos, comércio formava o terceiro pilar junto de inteligência e defesa.

Trump demoliu os três, abrindo caminho no seu lugar para a lei da selva – aquela na qual leva vantagem quem é mais forte e tem mais força bruta. Como o Brasil é uma potência regional média com escassa capacidade de projeção de poder, e responsável por irrisórios 1,5% de todo o comércio mundial, o mundo com um mínimo de regras seria mais favorável.

O tarifaço e seus efeitos sobre o Brasil - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

A primeira sensação é de alívio. Quem esperava uma paulada apocalíptica sobre o Brasil viu que os alvos mais importantes são China, União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e o Vietnã.

Os produtos brasileiros ficaram com a “tarifa recíproca” média de 10%, a ser acrescentada às existentes – a mais baixa que passará a ser cobrada.

Do ponto de vista da economia global, além de mais inflação, o tarifaço é uma bomba atômica sobre os países economicamente mais importantes. Não ficou claro se a tarifa média enfileirada na tabela mostrada nesta quarta-feira será uniforme. Pode ser distribuída com altos e baixos, dependendo do produto. E, se o objetivo não é só revidar às atuais tarifas, mas também às barreiras não tarifárias (exigências de qualidade e de condições), como disse Trump, não dá para saber qual será o impacto imediato. Muitos países ou grupos já anunciaram represálias.

Desaprovação do governo Lula está perto do não retorno – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A superexposição de Lula por meio de entrevistas e eventos não neutralizou a percepção negativa que a população tem da economia. A causa é a inflação

Por onde quer que se olhe, o apoio da população ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua em queda livre. Apesar de o governo adotar medidas com o propósito de melhorar a própria imagem, como o empréstimo consignado para assalariados, a bolsa de estudos Pé-de-Meia para jovens adolescentes de baixa renda e a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco salários mínimos, Lula não consegue estancar a sua queda nas pesquisas.

A Pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira, mostra que a desaprovação do governo Lula subiu de 49% para 56% entre 25 de janeiro e 25 de março, enquanto a aprovação caiu de 47% para 41%. Os números são brutos. O esforço de marketing realizado pelo ministro Sidônio Palmeira (Comunicação Social) até agora não surtiu efeito. A tese de que o problema do governo era sobretudo não se comunicar com a sociedade está sendo posta em xeque pelas pesquisas.

Quaest: Lula ganharia em todos os cenários na eleição de 2026

Por Francisco Artur de Lima e Pedro Grigori / Correio Braziliense

O candidato com melhor desempenho contra Lula seria Jair Bolsonaro (PL), com 40% das intenções de voto, contra 44% do petista

Mesmo com a queda na popularidade, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seria reeleito presidente do Brasil em todos os cenários projetados para as eleições de 2026, de acordo com a nova pesquisa Genial Quaest, divulgada nesta quinta-feira (3/4). Além de se sair melhor na pesquisa espontânea, o presidente conseguiria a reeleição nos sete cenários hipotéticos de segundo turno que foram traçados pelo instituto.

A disputa mais acirrada seria um segundo turno entre Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está inelegível por condenação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De acordo com a Quaest, o petista seria reeleito com 44% dos votos, enquanto Bolsonaro teria 40%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos, o que significa que os dois candidatos podem ficar empatados no limite da margem. 

Poesia | Nesta vida, em que sou meu sono, de Fernando Pessoa

 

Música | Carlos Lyra - "Benção Bossa Nova" com Wanda Sá, Roberto Menescal e Leila Pinheiro

 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Erros no Pé-de-Meia expõem descontrole de programas sociais

O Globo

Em pelo menos três cidades havia mais alunos recebendo o benefício do que matriculados nas escolas

O governo Luiz Inácio Lula da Silva tem sido pródigo em criar programas sociais, seguindo a receita que funcionou em seus mandatos anteriores para conquistar popularidade. A despeito da relevância de várias iniciativas, é óbvio que, por mais bem-intencionadas que sejam, não prescindem de controle rigoroso. Os programas precisam ter foco, para que recursos públicos não sejam destinados a quem não precisa ou desviados. Não é o que se tem visto. Vira e mexe, surgem indícios de descontrole.

O exemplo mais recente é o Pé-de-Meia, lançado no ano passado para incentivar, por meio de poupança, a permanência de alunos do ensino médio em sala de aula — a evasão é um dos maiores problemas do segmento. Um levantamento realizado a partir de dados do programa mostrou que, em pelo menos três cidades de três estados (Bahia, Pará e Minas Gerais), o número de beneficiários era maior que o de matriculados na rede pública. Em 15 municípios de cinco unidades da Federação, o programa atende mais de 90% dos estudantes do ensino médio, percentual que chama a atenção. Em alguns casos, há indícios de que os contemplados têm renda acima da permitida.

Direita vive maré baixa, mas Lula não aproveita - Vera Magalhães

O Globo

Nem dificudades de Bolsonaro nem medidas pensadas para melhorar popularidade do presidente conseguem levar o governo a retomar o comando da agenda legislativa e política

Pela primeira vez em algum tempo, a direita e a extrema direita brasileiras parecem desorientadas diante do agravamento da situação judicial de Jair Bolsonaro e seu entorno. O surpreendente é que nem isso tem sido suficiente para que o governo Lula, que já navega sem bússola há mais tempo que seus opositores, encontre o rumo da retomada da agenda do país e da popularidade perdida.

O presidente foi à Ásia e voltou, se fez acompanhar de todos os responsáveis pelo andamento do Congresso e, ainda assim, não há garantia de que conseguirá de novo assumir o comando da agenda legislativa, algo que não tem desde o fim de 2023.

Lula tinha a faca e o queijo na mão para — depois de tanto tempo de conversas ao pé do ouvido com Hugo Motta, Davi Alcolumbre e seus antecessores, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco — voltar com a reforma ministerial resolvida e a pauta de votações acordada. Mas o que os viajantes encontraram foi uma pressão do PL pela votação da anistia para os condenados do 8 de Janeiro, que está longe de ser um clamor popular e interessa apenas a Bolsonaro e aos seus.

A rinha dos governadores - Bernardo Mello Franco

O Globo

Com Jair Bolsonaro mais perto da cadeia, a direita começa a viver um clima de prévias presidenciais. Quatro governadores sonham com o espólio do capitão em 2026. O mais ansioso é Ronaldo Caiado, de Goiás. Na sexta-feira, ele voará 1.200 quilômetros para lançar sua pré-candidatura em Salvador.

Caiado é uma velha novidade. Já concorreu ao Planalto em 1989, como porta-voz dos ruralistas. Sua campanha ficou marcada por lances pitorescos. Ele aparecia no horário eleitoral montado num cavalo branco, como se estivesse num filme de faroeste. Em debate na TV, escancarou o elitismo ao ostentar uma especialização médica na Europa. “Essas mãos foram adestradas em Paris”, jactou-se.

O goiano tentou se vender como antagonista do PT, mas foi atropelado pelo furacão Fernando Collor. Terminou em 10º lugar, com menos de 1% dos votos. Três décadas e meia depois, seu desafio é garantir legenda para ser candidato de oposição. Ele é filiado ao União Brasil, que controla três ministérios no governo Lula.

O MEC deve defender o Pé-de-Meia – Elio Gaspari

O Globo

Expandir a denúncia é o melhor remédio

O Pé-de-Meia é o melhor programa social do terceiro mandato de Lula. Ele busca incentivar jovens carentes a permanecer nas salas de aula do ensino médio, oferecendo-lhes bolsas de R$ 1.000 ao fim de cada ano letivo concluído. O repórter André Shalders mostrou que o programa está contaminado por fraudadores. Numa balbúrdia de estatísticas, há cidades onde o número de bolsistas é maior que o de estudantes. Riacho de Santana, na Bahia, teve 1.231 bolsistas. A direção do único colégio público da cidade informa que há só 1.024 matriculados no ensino médio. A Secretaria de Educação do estado diz que os alunos são 1.677. Para o MEC, seriam 1.860. Seja qual for o número certo, há gato na tuba.

Nos últimos tempos, o MEC teve dois programas ambiciosos: o ProUni e o Fies. O primeiro matriculou em faculdades privadas estudantes bem colocados no Enem. Sucesso, não custou um centavo, pois as bolsas compensavam isenções tributárias concedidas havia tempo. O Fies, em tese, financiava estudantes de faculdades privadas. Fracasso, emprestava sem fiador a jovens com desempenhos medíocres no Enem. Na vida real, repassaram-se para a Viúva as carteiras de inadimplência dos maganos do ensino superior privado. O Fies resultou num rombo estimado em R$ 20 bilhões.

Brasil não deve despertar velhos ressentimentos dos paraguaios – Luiz Carlos Azedo

Correio Brasiliense

Funcionário da Abin revela que a agência fez invasões de hacker a sistemas do Congresso, da Presidência e de autoridades do Paraguai envolvidas nas negociações de Itaipu

Segundo volume da coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, Xadrez, Truco e Outras Guerras, do escritor José Roberto Torero, é inspirado na Guerra do Paraguai (1865-1870), o maior conflito armado em que o Brasil esteve envolvido no continente. Os demais livros, sem spoiler, são Mal Secreto, de Zuenir Ventura (Inveja); O Clube dos Anjos, de Luís Fernando Verissimo (Gula); A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro (Luxúria); Canoas e Marolas, de João Gilberto Noll (Preguiça); Terapia, de Ariel Dorfman (Avareza); e Voo da Rainha, de Tomás Eloy Martínez (Soberba).

O livro de Torero é uma sátira meio macabra envolvendo pessoas em conflitos durante a Guerra do Paraguai. Seu pecado capital é a ira. O livro narra de forma ficcional a implacável perseguição ao Mariscal (marechal) Francisco Solano López, o ditador do Paraguai, de mando do príncipe francês Gastão de Orléans, o Conde d'Eu, capitão de cavalaria na Guerra Hispano-Marroquina e comandante-chefe do exército imperial na Guerra do Paraguai, casado com a Princesa Isabel, a herdeira do trono brasileiro. O trauma dessa guerra até hoje alimenta ressentimentos dos paraguaios. Morreram 90% dos homens acima de 20 anos do Paraguai.

Golpe de 64: políticas de memória para a não repetição de ameaças à democracia -Ana Maria Oliveira ^

Correio Braziliense

Vivemos o julgamento de uma tentativa de golpe de Estado no Brasil, em pleno século 21. Nosso momento atual demonstra de forma cabal a necessidade de levarmos a sério a justiça de transição no nosso país

Na data em que relembramos os 61 anos do golpe de Estado de 1964, resultando em mais de duas décadas de ditadura militar e de terrorismo de Estado, o Conselho da Comissão de Anistia reafirma o papel fundamental das políticas de memória, verdade, reparação, justiça e reformas estruturais para a defesa da democracia e a produção de garantias de não repetição.

A Comissão de Anistia, nos dois últimos anos do governo Lula, retomou a apreciação de requerimentos de perseguidos políticos entre 1946 a 1988 que, no governo anterior, foram alvo de negacionismo histórico, com novas perseguições e revitimização de pessoas que, em vez de serem reparadas, como manda o Art.8º do ADCT da Constituição de 1988, foram constrangidas a ouvir que as torturas, arbitrariedades, cerceamento de direitos e liberdades fundamentais que sofreram não passaram do exercício de dever público e que não teríamos vivido uma ditadura entre 1964 e 1988, mas, sim, uma democracia. 

Tarifaço pode ajudar líderes com baixa popularidade - Fernando Exman

Valor Econômico

Nem mesmo adversários conseguem agora se alinhar totalmente a Trump

Um fenômeno tem sido observado, nas Américas e na Europa, e sua chegada ao Brasil não deve ser descartada a partir desta quarta-feira (2), quando o presidente Donald Trump anunciar o prometido choque tarifário sobre produtos importados pelos Estados Unidos. Líderes que adotaram uma postura de contraposição inteligente em relação ao americano estão mais populares dentro de casa.

A ameaça de Trump não é desprezível. A alta tarifária pode chegar a 20% ou 25% contra produtos de praticamente todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos, e seus impactos econômicos são ainda incertos.

Por enquanto, o Brasil tem se beneficiado com a desvalorização do dólar em relação ao real. E a maior exposição do México às erráticas políticas da Casa Branca favorece o mercado brasileiro, diante da possibilidade de os investidores globais repensarem a alocação de seus recursos.

De novo, socorro financeiro a Estados ¬- Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Uma solução estrutural de médio prazo para o problema dos avais não honrados deverá ser incluída em um decreto que regulamentará o Programa de Pleno Pagamento da Dívida dos Estados

Em janeiro de 1999, o então recém-empossado governador de Minas Gerais, Itamar Franco, provocou tumulto nos mercados e volatilidade no câmbio ao anunciar uma moratória de 90 dias nas dívidas de seu Estado com a União e com organismos internacionais de crédito.

Do ponto de vista político, o furdunço puxou uma onda de pressões dos Estados para renegociar as dívidas com o Tesouro Nacional, o que de fato acabou se concretizando em 2001.

Do ponto de vista financeiro, a suspensão dos pagamentos à União teve pouco efeito, pois as parcelas da dívida mineira estavam em “débito automático”. Por contrato, podiam ser deduzidas do Fundo de Participação dos Estados (FPE) ou da própria arrecadação do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Já a suspensão da dívida externa obrigou o governo federal a honrar as parcelas, pois a União é avalista nessas operações.

Centrais entregarão a Lula e presidentes de Poderes carta com reivindicações

Painel / Folha de S. Paulo

Entidades farão caminhada em Brasília como parte da programação do Dia do Trabalhador

Dirigente das principais centrais sindicais do país entregarão ao presidente Lula e aos chefes dos demais Poderes um documento com suas principais reivindicações, após uma caminhada em Brasília no dia 29 de abril.

Os encontros integram a programação das entidades em comemoração ao Dia do Trabalhador, que culminará em um ato no dia 1º de maio na praça Campo de Bagatelle, na zona norte de São Paulo.

O texto contendo as pautas prioritárias da classe trabalhadora será entregue a Lula e aos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), do STF, Luís Roberto Barroso, e do TST (Tribunal Superior do Trabalho), Aloysio Corrêa da Veiga.

Entre os temas principais da pauta estão redução da jornada de trabalho sem redução salarial, fim da carestia, isenção do Imposto de Renda até R$ 5.000, menos juros e mais empregos, além da igualdade salarial entre homens e mulheres.

Também haverá programação a partir do dia 9 de abril, com a realização de debates, seminários e atividades culturais promovidos por sindicatos, federações e confederações.

A ação unificada, batizada de "Por um Brasil mais justo: Solidário, Democrático, Soberano e Sustentável", tem apoio de CUT, Força Sindical, UGT, CTB, CSB, Nova Central, Pública e Intersindical.

 

A antidemocracia não pode compensar - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

É hora de aplicar aos golpistas o mesmo punitivismo que o bolsonarismo sempre exigiu contra qualquer criminoso comum

Uma das características mais marcantes da extrema direita é a clareza com que defende que a punição severa e exemplar de qualquer comportamento desviante ou ilícito é o modo mais eficaz de manter a sociedade na linha. Um bom punitivista desdenha de quem busca compreender as causas sociais do comportamento e desconfia de garantias legais, como o devido processo, a presunção de inocência e o direito de defesa. Tudo isso —dirá— é parte da cultura de complacência progressista que mantém alta a criminalidade, a desordem e o desrespeito à lei no país.

Não tenho dúvida de que a abordagem punitivista do crime —muito mais próxima da percepção e do desejo da maioria dos brasileiros do que a exaurida perspectiva da esquerda— é uma das razões do sucesso popular do bolsonarismo.

Trump e EUA reclamam até da rua de 25 de Março - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Alvos americanos são variados, mostra relatório do Representante de Comércio dos Estados Unidos

O Brasil quase não tem o que fazer na hipótese de levar pauladas comerciais dos Estados Unidos. Para piorar, os ataques podem ir além de retaliações no comércio. É importante lembrar também que a discussão vai muito além de impostos de importação, "tarifas", apesar da simplificação midiática que se lê e ouve sobre o assunto, as "tarifas recíprocas".

Seja lá o tiro, a pancada e a bomba que venham de Donald Trump nesta quarta, responder com aumento de importação sobre algum produto americano seria providência burra. Apenas aumentaria custos de matérias-primas, partes, peças, máquinas, encarecendo a produção nacional e até exportações brasileiras de bens complexos, como aviões.

Le Pen, lawfare ou justiça? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Decisão que impôs inelegibilidade à líder da extrema direita francesa não parece caso de instrumentalização do Judiciário para objetivos políticos

Há duas maneiras de interpretar a inelegibilidade imposta a Marine Le Pen por uma corte francesa.

Na visão da extrema direita, o establishment encontrou uma forma de "roubar" previamente a eleição presidencial de 2027, para a qual a líder da Reunião Nacional (RN) já despontava como favorita nas pesquisas.

O que está por trás do projeto da anistia - Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Em mais um capítulo da queda de braço entre o Congresso e o STF, os alvos são Moraes e Dino

Engana-se quem pensa que somente o PL de Jair Bolsonaro pressiona o presidente da Câmara, Hugo Motta, para pôr em votação o projeto de lei que concede anistia aos envolvidos na trama golpista de 8 de janeiro de 2023.

Nos bastidores, partidos que compõem a base aliada do governo e controlam ministérios também iniciaram uma ofensiva para emplacar a pauta. A estratégia tem potencial para prejudicar votações de interesse do Palácio do Planalto em um momento de queda de popularidade do presidente Lula.

O apoio ao projeto em bancadas que vão do MDB ao núcleo duro do Centrão não é apenas para salvar Bolsonaro, que virou réu sob acusação de tentativa de golpe, ou mesmo para perdoar quem promoveu atos contra a democracia, o que já seria grave.

Na prática, trata-se de mais um capítulo da queda de braço do Congresso com o Supremo Tribunal Federal (STF). E os dois alvos são Alexandre de Moraes, relator do inquérito sobre a trama golpista, e Flávio Dino, magistrado que tenta fechar o duto do dinheiro público desviado por emendas parlamentares.

O Flâneur napolitano - Vagner Gomes*

Para Frida Pimentel Gomes de Souza, minha primeira leitora mais crítica.

O que estou pensando? Confesso que uma infinidade de “ruídos” estimulados após assistir a película “Parthenope: Os Amores de Nápoles” uma vez que sua mensagem ao contrário de “arrepiar” seria de “depilar” nas mais íntimas considerações. Confesso que não é um filme para ser assistido por “principiantes” do universo do cinema italiano. Aqueles que se emocionaram com “Ainda estou Aqui” poderiam se escandalizar com algumas mensagens, porém ainda está aqui, nesse filme italiano, o importante diálogo dos efeitos da ausência de uma maternidade.

O filme é um balanço de uma juventude que viveu a liberdade sexual nos anos 60 num mundo católico, mas com fortes bases culturais na história das ideias. Particularmente o pensamento republicano neorromano da liberdade individual que nasce na liberdade de uma cidade. Então, temos a personagem Parthenope nascendo nas águas napolitanas como se fosse envolta num mistério que a vincula ao corpo da cultura política de Nápoles. Imaginaria a reação de Quentin Skinner em seus 84 anos assistindo a essa película. O que ele estaria a pensar?

Russificação ou putinização - Aylê-Salassie Filgueiras Quintão*

Tem louco pra tudo. Vladimir Putim acaba de anunciar , num encontro  chamado de International Artic Forum, o domínio russo sobre o   território da Groelândia, que, legitimamente,  pertence a Dinamarca. Em sua fala, ele anexava praticamente  a Groelândia, a maior ilha do mundo (2,1 milhões de quilômetros quadrados) à Federação Russa, numa clara respostas às intenções de Donald  Trump, dos Estados Unidos,  de também ocupar o território. Putim tem um projeto chamado de  Rota do Ártico, similar á tal Rota da Seda, dos chineses, que, segundo ele, já está sendo executado, e que dá volta à terra atravessando o Polo Ártico.

Sai de  Murmansk, no extremo norte da Rússia, divisa com a Finlândia (eles está preocupados),  passa pelo  estreito de Bhering, ao lado do Alasca, e chega a Vladivostok, maior porto da Rússia no Oceano Pacífico, onde vai encontrar-se com  a ferrovia Transiberiana (7,6 mil quilômetros de extensão). Por  meio dela a tal Rota do Ártico atinge Moscou e São Petersburgo. Dizendo-se preocupado - talvez para não assustar - , com o meio ambiente   na majestosa ilha do Ártico, ele parece visualizar um grande negócio no derretimento do gelo no polo Ártico. 

Poesia :: Tempo vivo - Marcelo Mário de Melo

Abrindo abril

pulsam lembranças

molhadas de sangue

e cicatrizes

impressas no corpo

calcando a mente.

 

Tempo 

de terror e treva 

tensão 

tortura 

e mantos mortuários 

percorrendo os cárceres 

e a prisão domiciliar 

de todo o povo.

 

Tempo

de canteiros clandestinos

e vaga-lumes insurgentes

em rodas de ciranda 

 multiplicando as mãos 

na dança.

 

Tempo

de restos insepultos 

que advertem

na travessia 

dos abris de agora.

terça-feira, 1 de abril de 2025

O que a mídia pensa: editoriais / opiniões

Lei mais dura não bastará para conter roubo de célula

O Globo

É positivo punir receptadores com mais rigor, mas o essencial é a polícia ser eficiente na investigação

No tempo necessário para ler este texto, três celulares terão sido roubados ou furtados no Brasil. É um problema endêmico: 107 aparelhos por hora, quase 1 milhão ao longo de um ano, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Dada a quantidade de informações sensíveis ou vitais que os dispositivos hoje armazenam, é incalculável o prejuízo causado às vítimas — isso quando não acabam mortas ou feridas. Roubos acontecem nos bairros nobres e nas periferias, de dia e à noite, do verão à primavera. Diante desse descalabro, o Ministério da Justiça planeja enviar ao Congresso um Projeto de Lei que aumenta a pena para receptadores de aparelhos. A proposta altera o tempo máximo de prisão de seis para 12 anos, a pena mínima de três anos para quatro anos e facilita os flagrantes.

As mudanças são bem-vindas. O endurecimento das penas sem dúvida pode funcionar como fator de dissuasão para os criminosos. Mas seria uma ilusão acreditar que apenas mudar a lei resolverá o maior incentivo aos roubos: a impunidade. Sem a polícia investigar e prender as redes de receptadores, de nada adiantará a pena mais dura. Para conter os roubos, policiais civis precisam ser equipados, treinados e cobrados, com base em estatísticas confiáveis e públicas. A taxa de solução de crimes no Brasil é vergonhosa. Menos de 10% dos roubos são esclarecidos, segundo pesquisadores do FBSP. Nos Estados Unidos, a polícia é no mínimo três vezes mais eficiente. Por aqui, o problema maior não é a legislação permissiva que atrapalha o trabalho de uma força policial eficiente. Os dados e fatos disponíveis sugerem o contrário.

Lula destaca 40 anos de democracia ao lembrar golpe de 1964 - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

É importante a reflexão sobre 1964 para que os fatos não se repitam como tragédia, ou seja, para que outra tentativa de golpe não tenha êxito

Desde a redemocratização, há 40 anos, nunca foi tão importante relembrar o golpe de 1964. Embora nossas instituições democráticas tenham revelado resiliência ao debelar a intentona de 8 de janeiro de 2023, o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) dos envolvidos na conspiração golpista, entre os quais o ex-presidente Jair Bolsonaro, três generais de Exército e um almirante de esquadra, não é um tema pacífico no Congresso Nacional, mesmo tendo sido um dos palácios invadidos e depredados por bolsonaristas inconformados com a eleição do petista.

As articulações para aprovação de uma anistia aos envolvidos, o que inclui o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está inelegível, são a comprovação de que o passado sombrio precisa ser levado em conta no presente. Foi o que fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ontem, sem alimentar ressentimentos em relação às Forças Armadas, que foram fundamentais para que fracassasse a tentativa de o destituir, uma semana após a posse.

“Hoje é dia de lembrarmos da importância da democracia, dos direitos humanos e da soberania do povo para escolher nas urnas seus líderes e traçar o seu futuro. E de seguirmos fortes e unidos em sua defesa contra as ameaças autoritárias que, infelizmente, ainda insistem em sobreviver”, escreveu Lula no seu perfil do X.

Bolsonaro por ele mesmo - Míriam Leitão

O Globo

Bolsonaro é um réu que facilita o trabalho da acusação, pois suas próprias declarações acabam servindo como provas contra ele

Desde que se tornou réu, Jair Bolsonaro tem se esforçado para progredir para a situação de réu confesso. A entrevista à Folha de S.Paulo vai nessa direção. Ele disse que não esperava o resultado das eleições e, por isso, passou a pensar em alternativas. O único caminho possível após uma derrota eleitoral é respeitar a decisão, reconhecer a derrota e preparar a transição. Não foi o que ele fez.

“Eu conversei com as pessoas, dentro das quatro linhas, que vocês estão cansados de ouvir. O que a gente pode fazer? Daí foi olhado lá, sítio, defesa, 142, intervenção”, disse ele à repórter Marianna Holanda. Está aí a confissão. Nada havia de anormal no país para se pensar em alternativas. As figuras constitucionais do estado de defesa e do estado de sítio têm que ter uma causa: “comoção grave de repercussão nacional”. Quem estava em comoção era ele, que “não esperava o resultado”, apesar de ter ficado atrás em todas as pesquisas, durante todo o tempo da disputa eleitoral. O problema era dele e não do país. Sobre o artigo 142, já havia encomendado uma interpretação torta, mas que evidentemente não se sustentou. Por fim, ele próprio usa a palavra autoexplicativa “intervenção” como alternativa analisada nesse momento pós- eleitoral.

Criação do Gaeco Nacional é inconstitucional - Luciano Leiro*

O Globo

Combate ao crime organizado exige atuação coordenada de instituições fortalecidas e com competências bem definidas

A recente decisão do Conselho Superior do Ministério Público Federal (MPF) de criar o Grupo Nacional de Apoio ao Enfrentamento ao Crime Organizado (Gaeco Nacional) suscita graves questionamentos jurídicos e institucionais. Primeiramente, a proposta nem sequer foi amplamente debatida com as forças de segurança pública e suas associações. A medida — aprovada sem fundamentação legal e constitucional — levanta dúvidas sobre sua legitimidade e eficácia.

A Constituição Federal, nos artigos 128 e 129, delimita as competências do Ministério Público, sem prever um órgão como o Gaeco Nacional. Criado por resolução do Conselho Superior do MPF, o grupo deveria ser submetido a uma lei específica. A ausência de base legal pode abrir margem a questionamentos judiciais futuros.

Fragilidade democrática - Merval Pereira

O Globo

Nos Estados Unidos, a reação a Trump tem sido muito branda por parte do Judiciário, embora em alguns estados o presidente autocrático já tenha sofrido derrotas importantes

É surpreendente a fragilidade das instituições dos Estados Unidos diante do avanço autocrático do governo Donald Trump. A classe política demora a reagir, especialmente o Partido Democrata, que deveria ser o contraponto a esse ataque à democracia, mas até agora se mostra acovardado institucionalmente, embora alguns de seus membros, aqui e ali, comecem a explicitar críticas aos desmandos do governo, de resto considerados aceitáveis por firmas de advocacia ou universidades, que se dobram à visão de mundo trumpista.

Guardadas as proporções, o que acontece nos Estados Unidos aconteceu no Brasil, com a tentativa permanente de Bolsonaro de sobrepujar as instituições republicanas. Ao contrário de lá, porém, aqui tivemos uma reação firme não apenas da sociedade civil, como do sistema judiciário, liderado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que limitou as ações autoritárias de Bolsonaro. Nos Estados Unidos, a reação tem sido muito branda por parte do Judiciário, embora em alguns estados o presidente autocrático já tenha sofrido derrotas importantes.

Acionista majoritário do BRB vive de mesada da União – Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Oferta pelo Master vem de um banco público cujo acionista majoritário, o DF, vive de mesada da União

Na votação do pacote fiscal em dezembro do ano passado, a proposta cuja rejeição mais frustrou a estimativa de corte foi o enquadramento do Fundo Constitucional do Distrito Federal nas regras do arcabouço, que atrela a correção dos recursos à inflação. Com isso, o fundo, que custa à União R$ 25 bilhões por ano (eram R$ 15 bi em 2021), continuou a ser corrigido pela variação da receita corrente líquida da União. Foi a segunda tentativa fracassada, em dois anos, de mudar esta correção.

Convergiram pela exclusão do FCDF das regras fiscais vigentes parlamentares da direita à esquerda. Na votação do ajuste, o relator, deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL), foi efusivamente cumprimentado tanto pela deputada Erika Kokay (PT-DF) quanto pelo deputado Alberto Fraga (PL-DF). O fundo, regulamentado em 2002, aporta recursos à segurança, educação e saúde públicas do DF porque a Constituição o trata como uma unidade da federação cujos “compromissos financeiros” cabem à União.

Estados e municípios são os novos vilões do descontrole fiscal - Luiz Schymura

Valor Econômico

Nos últimos dez anos, os gastos primários trimestrais dos governos subnacionais subiram da média anual de R$ 500 bilhões no período de 2015 a 2021 para R$ 650 bilhões nos três últimos trimestres de 2024

O acompanhamento das contas públicas nacionais tem virado tema rotineiro na pauta de economia dos principais veículos de imprensa. A atenção ao equilíbrio fiscal estrutural é assunto recorrente também nos debates políticos. A cada novo dado divulgado, novas projeções e análises de técnicos especializados são aguardadas ansiosamente para que se tenha um novo norte da solidez fiscal do país. O que se constata é o governo federal contendo gastos, enquanto Estados e municípios aumentam suas despesas. Com isso, apesar de a arrecadação estar crescendo, a fragilidade fiscal não cede. Como veremos adiante, a elevação dos dispêndios dos governos subnacionais é, na verdade, a grande responsável pelo preocupante crescimento da despesa primária pública, com o agravante de trazer grandes problemas também para a gestão fiscal no futuro.

Firmas dos EUA temem retaliação e menos ganhos no exterior - Assis Moreira

Valor Econômico

Alguns setores americanos chegam a obter mais de 50% de seus ganhos nos mercados internacionais

A inquietação global aumenta à véspera do choque tarifário que Donald Trump vai impor aos países, na quarta-feira. O banco Goldman Sachs aponta risco maior de recessão no rastro de uma escalada na guerra comercial.

O banco americano diz agora esperar que Trump anuncie tarifas de 15% na média contra todos os parceiros comerciais dos EUA. Assessores trumpistas ontem falavam em alíquotas de até 20% por país.

Com seu dito ‘dia da liberação’, Trump quer ao mesmo tempo aumentar a receita fiscal com as tarifas e usá-las para impor às outras nações que baixem suas alíquotas de importação aplicadas sobre produtos americanos, ou fazer mudanças em suas políticas comerciais.