domingo, 15 de fevereiro de 2015

O novo velho enredo de Dilma

• O governo bota seu bloco na rua para estancar a perda de popularidade. Vai soltar um pacote anticorrupção para fingir que não tem nada a ver com o Petrolão e fazer muito barulho para esconder o estelionato eleitoral de 2014

Josie Jerônimo - IstoÉ

Se dependesse dos governantes, o espírito inebriante do Carnaval se estenderia pelo ano inteiro. O ambiente de fantasias e as multidões alegres nas ruas propiciam uma sensação de euforia que não necessariamente têm base na vida real. Mesmo as troças com personagens e pilhérias com escândalos com dinheiro público carregam a marca do bom humor, ambiente em nada parecido com as manifestações que ocuparam ruas do País nos últimos tempos. Como não é possível baixar um decreto prolongando a duração da folia para os brasileiros, a presidente Dilma Rousseff resolveu lançar mão de alguns artifícios para tentar manter o Brasil em clima de festa. A estratégia não é original. Pelo contrário, esse samba já cansou de atravessar a avenida petista. Para estancar a vertiginosa queda de popularidade, apontada pela última pesquisa Datafolha, a presidente recorre aos truques do marqueteiro João Santana, folião de destaque no carro alegórico governista. Em dias de Carnaval, é possível comparar o papel de Santana – conhecido no governo como o 40º ministro – ao de um carnavalesco. Cabe a ele criar o enredo que inebria a plateia. Na esfera política, como acontece toda vez em que se vê em apuros no meio da passarela, Dilma se escora no ex-presidente Lula, que depois de deixar o Planalto se transformou numa espécie de animador de bateria do governo.

Tanto Santana quanto Lula estiveram com a presidente no final da última semana. Deles, Dilma ouviu que ela vai ter que gastar muita sola de sandália se quiser reverter uma rejeição de 44%. A evolução é a seguinte: fazer mais política, viajar com mais fre¬quência pelo País, conceder entrevistas e anunciar medidas para sair da agenda negativa. Lula e Santana consideram "preocupante" o cenário apontado pelo Datafolha. De acordo com essa consulta, em pouco mais de um mês a avaliação positiva sobre Dilma caiu bruscamente. Metade da população a considera falsa (54%), indecisa (50%) e desonesta (47%). Em dezembro, 23% dos brasileiros avaliavam o governo como "ruim" ou "péssimo". Este índice agora subiu para 44%.

A cúpula petista atribuiu a percepção de "falsa" ao contraste entre o discurso do "Brasil das maravilhas" adotado na campanha eleitoral e a prática depois de reeleita, que trouxe medidas amargas, como o reajuste da gasolina e as alterações em benefícios sociais. "Há uma diferença entre o discurso da presidente quando ela lia o que escrevia João Santana e agora, quando lê o que escreve o ministro da Fazenda, Joaquim Levy", afirma o senador Cristovam Buarque (PDT). A avaliação de "desonesta", também segundo os assessores palacianos, guardaria relação com os recentes escândalos do Petrolão, que ainda não a atingiram diretamente, mas reforçam a sensação de impunidade, contra a qual Dilma prometera lutar durante a campanha.

Para voltar a subir no conceito do irritado júri de brasileiros, a presidente escolheu como abre-alas o anúncio de um "pacote anticorrupção". Depois do Carnaval, os brasileiros receberão uma compilação de antigos projetos de lei sobre combate aos malfeitos. Trata-se de um recurso já conhecido. Foi exatamente assim que o governo reagiu contra a revolta das ruas em junho de 2013. O pacote engloba temas bem familiares. Além de prometer punir com rigor agentes que enriquecem ilicitamente, o conjunto de propostas pretende tornar crime a prática de caixa 2, o velho ilícito utilizado como argumento pelo PT ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar escapar das penas do mensalão. O governo também prometerá agilizar o julgamento de processos de desvio de recursos públicos e acelerar investigações e processos movidos contra autoridades com foro privilegiado. No pacote ainda está prevista a criação de uma nova espécie de ação na Justiça para possibilitar o confisco de bens adquiridos de forma ilícita ou sem comprovação. Nenhuma das propostas que serão apresentadas por Dilma é inédita. Projetos idênticos ou com a mesma intenção permaneceram esquecidos nos quatro anos de seu primeiro mandato. Muitos deles de autoria até de parlamentares governistas. Mas a presidente nunca mobilizou sua base aliada na Câmara e no Senado para votar as propostas agora vendidas como inovadoras.

Outra preocupação do governo é desconstruir a característica de "indecisa" atribuída à presidente no levantamento do Datafolha. Esse traço da personalidade estaria relacionado à notória falta de habilidade política de Dilma. Neste início do ano, a presidente e seu ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, em flagrante desarmonia com o Congresso, deixaram o comando da Câmara parar nas mãos do controverso deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A falta de gingado da dupla palaciana trouxe Lula de volta para a avenida. Além de viajar pelo País, em agendas combinadas com Dilma, o ex-presidente atuará como bombeiro na tentativa de pacificar a base governista. Um de seus trunfos é a negociação da composição do segundo escalão do governo. Sem Lula, a bateria perdeu o ritmo e o cortejo desandou. Atualmente, cada ala desfila em seu próprio compasso. É assim no Congresso e na Esplanada dos Ministérios. As bancadas do PT na Câmara e no Senado quase nada fazem para defender decisões que Dilma tomou sem ouvir auxiliares e aliados. A medida provisória que muda regras do seguro-desemprego é o maior exemplo. Nenhum parlamentar, por mais leal que seja, abraçou o projeto da presidente publicamente por temer perder votos por uma proposta que desagrada aos trabalhadores. Dilma demonstra ter pouca influência até mesmo sobre os líderes do Congresso.

O projeto de criar uma alegoria para melhorar a imagem do governo passa ainda pelo esforço de reinventar a fantasia do PT, que agora se vê com mais um tesoureiro, desta vez João Vaccari Neto, envolvido num escândalo de corrupção, o Petrolão. O partido trabalha nos bastidores a fim de resgatar a imagem e viabilizar a candidatura de Lula ao Planalto em 2018. Para reforçar o resgate da imagem, o PT vai levar ao ar este mês uma web-TV. Estúdios foram montados em São Paulo e Brasília. A intenção é criar um canal em que o PT possa dar sua versão para os principais fatos políticos. Outra medida concreta será a qualificação do perfil dos dirigentes, hoje em sua maioria egressos da burocracia partidária. Livrar-se da pecha de partido pragmático, alimentada ao longo de 12 anos no governo, é outro objetivo, mas nesse caso a legenda teria de voltar a encampar suas velhas teses de esquerda. É aí que os interesses de Dilma e PT se chocam. Até se entrelaçarem novamente, como ocorre agora.

Quando venceu as eleições, Dilma deixou vazar a informação de que Lula exerceria menor influência no novo mandato. Nos bastidores, dizia-se também que a presidente não gostou de saber que João Santana se atribui imensa importância pela vitória na campanha da reeleição, versão propalada na biografia do marqueteiro recém-lançada. Pouco mais de um mês depois do início do segundo mandato, os dois estão de volta para tentar salvar a apresentação. Como se percebe, apesar dos esforços, não será fácil para o governo prolongar a animação momesca dos dias de folia. É como se Dilma procurasse pôr em prática a atmosfera ilusória cantada no samba "Sonho de um Carnaval", do compositor Chico Buarque. "Carnaval, desengano/ Deixei a dor em casa me esperando". Mas, para a tristeza do bloco do governo, a realidade impõe um outro verso da obra de Chico: "Na quarta-feira sempre desce o pano".

As maldades do Rei Momo
O Rei Momo é sempre a alegoria que abre o Carnaval. Tornou-se tradição as autoridades entregarem ao símbolo mitológico a "chave" de suas cidades, autorizando a "desordem" típica da festa. No Carnaval da República, o personagem cai bem no figurino adotado pelo novo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Ele não recebeu a chave da Casa de boa vontade. Ao contrário, conquistou o posto graças a uma astuciosa articulação junto a colegas magoados com o PT e com o governo.

As primeiras semanas de trabalho de Cunha, eleito para o cargo no dia 1° de fevereiro, guardam semelhanças com a mitologia de Momo, deus sarcástico banido do Olimpo depois de tanto criar confusões. O presidente da Câmara levou a plenário e aprovou projeto que gera despesas fixas de pelo menos R$ 9,6 bilhões anuais para o governo com o pagamento de emendas parlamentares. O Orçamento Impositivo, como é conhecido esse mecanismo, é um pleito antigo de deputados e senadores, mas até a gestão Cunha se evitava levar adiante uma afronta tão forte ao governo. Ele também não se acanhou em ler o ato de criação de uma nova CPI da Petrobras, comissão que se empenhará nas investigações do esquema de propina que atingem em cheio o PT e a base governista. Cunha ainda deixou no ar a possibilidade de mobilizar o PMDB e seu bloco majoritário para disputar os postos de presidente e relator da CPI, monopolizando assim os trabalhos de apuração.

Esse foi só o início das mensagens de inauguração do carnaval legislativo. Nesse ritmo, Cunha vai ter em sua administração mais contatos com os 39 ministros do que a presidente Dilma Rousseff. A Casa aprovou na última semana a convocação de todo o primeiro escalão governista. Farão rodadas de apresentações que ocorrerão às quintas-feiras. Um calendário está sendo elaborado para definir a ordem das sabatinas. Os ministros terão que guardar espaço na agenda, pois o chamamento é compulsório. É convite para não ser deselegante logo de início, mas quem não comparecer será convocado, avisou. A medida vai afetar a vida dos parlamentares, que geralmente registram presença na manhã da quinta-feira e embarcam para seus Estados de origem. Como a comissão geral é realizada em plenário, a exposição dos ministros será transmitida pela TV Câmara e a população saberá se seu representante está ausente.

As travessuras de Momo atingiram ainda a principal bandeira do PT para se reconciliar com a sociedade. Desde o escândalo do mensalão, o partido tenta emplacar no Congresso um modelo de reforma política que privilegia alteração no método de financiamento de campanha.

O PT insiste em barrar doações de empresas privadas e alega que as eleições patrocinadas com recursos públicos podem ser mais equilibradas. Mas Cunha se apressou em montar uma comissão para analisar o modelo contemplado pela PEC 352/2013, que prevê o fim da reeleição para presidente, governadores e prefeitos, extingue o voto obrigatório e adota um sistema misto (privado e público) para o financiamento de campanhas. A bancada do PT avisou que votará contra o projeto.

As extravagâncias políticas do peemedebista permitiram, até mesmo, que ele apoiasse um cabo eleitoral do senador Aécio Neves (PSDB-MG) – adversário de Dilma nas eleições – para liderar o PMDB na Câmara. Aecista declarado, Leonardo Picciani (PMDB-RJ) comandará a bancada de 68 parlamentares em um ano em que a presidente Dilma dependerá da base para aprovar projetos imprescindíveis para o governo. Esse Momo...

O Bloco da resistência
Quando o assunto é revisão de regras trabalhistas, Dilma Rousseff canta sozinha. O corte de benefícios foi a solução encontrada pela presidente para conciliar o fraco desempenho da economia e o crescimento das despesas com seguro-desemprego, abono salarial, auxílio doença e pensão por morte. A resistência às medidas da presidente foi expressa por uma nota assinada pelo Diretório Nacional do PT.

No documento, a legenda de Dilma acusa uma espécie de estelionato eleitoral praticado na campanha de 2014, quando ela usou seu tempo de propaganda para reafirmar a manutenção da política social da administração petista. "O partido decide propor ao governo que dê continuidade ao debate com o movimento sindical e popular, no sentido de impedir que medidas necessárias de ajuste incidam sobre direitos conquistados, tal como a presidenta Dilma assegurou na campanha".

Sem o aval do partido, o clima entre os líderes da base no Congresso é de total paralisia em relação à articulação política para aprovação do pacote de cortes de benefícios, materializados nas Medidas Provisórias 664 e 665, que estão na fila de apreciação. O constrangimento é geral. Em meados de janeiro, o PT até tentou colocar panos quentes na polêmica. O ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, surgiu com argumentos de que a política de cortes do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, avalizada pela presidente, seria um "ajuste social".

A polidez durou pouco. Assim que as centrais trabalhistas colocaram os carros de som na rua para protestar, parlamentares do PT mais ligados aos movimentos sindicais aderiram ao bloco da oposição e se instalou uma confusão.

O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) afirma que o ajuste econômico deveria atingir as parcelas mais abastadas da sociedade e sugeriu a tributação de grandes fortunas como alternativa para ampliar receitas em vez de diminuir despesas. O deputado Vicentinho (PT-SP), ex-líder do PT, critica a nova regra que reduz o tempo de pagamento de pensão por morte para evitar que viúvos ou viúvas jovens recebam o benefício por grande parte da vida.

A bancada do PCdoB na Câmara, liderada pela deputada Jandira Feghali (RJ), também marcou posição contrária às MPs. De acordo com Jandira, o governo deveria investir em mecanismo de combate a fraudes para reduzir os custos dos benefícios e não os direitos conquistados pelos trabalhadores.

Até mesmo a Central Única dos Trabalhadores (CUT), entidade irmã do PT, partiu para o ataque contra a presidente Dilma. O presidente da CUT, Vagner Freitas, afirmou que o Planalto "meteu os pés pelas mãos" e criou uma imagem negativa para o histórico da administração petista. "O governo cometeu um equívoco estapafúrdio, uma coisa desorientada, de editar medidas provisórias sobre assuntos que nós estávamos negociando desde 2007."

Apesar do bloco da resistência cada vez aumentar mais, internamente, o presidente do partido, Rui Falcão, defende apoio ao governo. O principal argumento é que revoltas internas em um momento de fragilidade política só facilitam a vida da oposição.

Onde está Dilma?

• A presidente perdida entre o ministério e o ajuste liberal

Fernando de Barros e Silva - Piauí

"Juntos, chegaremos lá." Era esse o slogan da campanha de Guilherme Afif Domingos, candidato à Presidência da República pelo então Partido Liberal em 1989. Foi o ano em que surgiu o "Lula lá". "Brilha uma estrela, cresce uma esperança, o Brasil criança" – quem não se lembra? O lá chegou. Aqui estão eles, juntos.

Remanescente do primeiro mandato de Dilma Rousseff, Afif Domingos é um ministro periférico. Mal se pode notá-lo na foto oficial do gabinete interminável da presidente reeleita. Responsável pela pasta da Micro e Pequena Empresa, ele é tido como um militante incansável da causa liberal, um soldado do consumidor indefeso contra a voracidade do Estado. Voracidade, no caso, só a dele, que conseguiu a proeza de ser ao mesmo tempo vice-governador de Geraldo Alckmin e ministro de Dilma, transformando-se, na prática, em algo como um representante modelo flex do velho patrimonialismo, egresso ainda por cima da escola malufista.

Gilberto Kassab entrou para a política pelas mãos de Afif. Elegeu-se vereador no início dos anos 90 pelo mesmo PL do padrinho. Os dois foram secretários da prefeitura do finado Celso Pitta, mais uma obra de Paulo Maluf. Kassab ainda era um profissional obscuro da política quando José Serra o catapultou a uma altura que jamais poderia alcançar pelas próprias pernas. São Paulo ficou sob seu comando durante mais de seis anos. Foi a lástima que se sabe.

Quando Kassab saiu, sua popularidade estava lá embaixo, mas ele não tinha as mãos vazias. O cargo, entre tantas oportunidades, serviu-lhe para realizar um grande negócio: o Partido Social Democrático, que ele criou e comanda desde 2011. Tornou-se um político de peso. Quase não tem votos, mas isso pouco importa. O PSD conseguiu eleger a quarta maior bancada da Câmara. Resultado: o afilhado de Afif virou ministro das Cidades. Nascido no malufismo e cevado por Serra, já os deixou para trás – seu sustento agora está nas águas profundas do petismo. Ele também chegou lá.

O dublê de ministro e fazedor de partidos está agora empenhado em ressuscitar o PL. Quatro anos depois de conceber e parir o PSD em tempo recorde – um partido que segundo ele próprio não é nada, "nem de esquerda nem de centro nem de direita" –, Kassab articula outra legenda, em estágio avançado de gestação. A intenção é cooptar quadros da oposição e atrair políticos insatisfeitos da base governista para aumentar o seu cacife no comércio partidário – simples assim. O DEM e o PMDB são os principais alvos do assédio. A manobra tem a simpatia do Planalto, que vê a possibilidade de diminuir sua dependência do partido de Eduardo Cunha – em relação ao qual Kassab e o PSD já operam como uma espécie de medicamento genérico.

O líder ruralista Ronaldo Caiado não se conteve diante de tamanha disposição para procriar. Com a sinceridade rude do homem do campo, o senador pelo DEM goiano afirmou que Kassab, "em vez de se comportar como ministro, adota postura de cafetão e acha que deputados são garotas de programa". Quando vingar, o novo-velho Partido Liberal será a 33ª legenda do país – uma prova viva de que na política brasileira tudo se cria, tudo se perde e nada se transforma.

O PL desapareceu oficialmente em 2006, ano em que se fundiu ao Prona de Enéas para dar origem ao Partido da República. Seu presidente era Valdemar Costa Neto, um dos peixes graúdos condenados no mensalão, na cadeia até outro dia. Desde que Lula chegou ao poder, em 2003, o PL/PR está instalado no Ministério dos Transportes. Descobriu-se em 2011, enfim, que havia algo de podre no feudo. O ministro Alfredo Nascimento acabou afastado por Dilma Rousseff. A crônica política, à época encantada com a seriedade e os modos circunspectos da nova mandatária, aplaudiu nos jornais o empenho pela ética. Dilma foi logo batizada de "faxineira" (era, em certo sentido, um sinal de boas-vindas da elite local à empregada eficiente e discreta que chegava para substituir aquele abusado sem educação).

O ministro caiu, mas o PR continuou lá. Quatro anos depois, eis que a presidente coroa a pantomima da limpeza nomeando o republicano Antonio Carlos Rodrigues para o cargo. O novo titular dos Transportes chegou ao Senado na garupa do PT, como suplente de Marta Suplicy. Nascido em berço malufista (também ele), liderou durante anos um agrupamento multipartidário da vereança paulistana que se intitulava Centrão Futebol Clube. Era um time da várzea da política. Aguerrido e numeroso o bastante para negociar o placar de cada jogo no Legislativo municipal travado contra ou a favor do governo de turno. É essa a expertise que o craque dos Transportes agrega à seleção escalada por Dilma Rousseff.

A trajetória desses personagens de rodapé pode parecer ociosa, mas serve, no mínimo, para ilustrar como a política vem se remendando na prática enquanto suas lideranças, a cada escândalo ou período eleitoral, procuram embromar a plateia com a conversa fiada sobre a urgência de reformá-la. No que depender do governo e seus sócios, não há reforma no horizonte. O que existe é a foto acima.

"Venceu o sistema de Babilônia e o garção de costeleta." A fórmula de Oswald de Andrade continua atualíssima. Kátia Abreu, em seu modelo verde-pamonha, está aí para não deixar o modernista falar em vão. Já em seu discurso de posse, a agroministra decretou que não existe latifúndio no Brasil. Aldo Rebelo, seu colega comunista, foi além. O aquecimento global, segundo ele, é como o latifúndio – não existe. "Não há comprovação científica das projeções do aquecimento global, e muito menos de que ele estaria ocorrendo por ação do homem", escreveu o novo ministro da Ciência e Tecnologia em 2010, no curso de uma polêmica sobre o Código Florestal. Para não deixar dúvidas, dizia ainda que "o chamado movimento ambientalista internacional nada mais é, em sua essência geopolítica, que uma cabeça de ponte do imperialismo". Entre as suas novas atribuições, Rebelo terá que assinar os relatórios que o governo encaminha ao Painel de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, responsável pelo monitoramento do problema em âmbito global. Mas podemos dormir tranquilos: tudo não passa de panfletagem a serviço de Tio Sam e seus satélites. Sistema de Babilônia é isso.

George Hilton, por exemplo, apesar do nome, que pode evocar alguma cadeia de hotel inspirada no federalismo americano, pertence ao Partido Republicano Brasileiro, mas representa na verdade a bancada evangélica no governo. Foi escolhido ministro por ser pastor da Igreja Universal. Calhou de ficar com os Esportes. Em 2005, a Polícia Federal o flagrou com 600 mil reais em espécie no aeroporto de Belo Horizonte. Sua familiaridade com o universo olímpico resume-se a essa modalidade de carregamento. O feito lhe rendeu a expulsão do PFL. O STF, registre-se, depois arquivou o caso.

O Ministério da Pesca (o peixinho feio da Esplanada) foi concedido a Helder Barbalho, filho de Jader, um dos quadros notórios do PMDB, cuja especialidade eram as rãs. A lista de sapos do gabinete é inesgotável. Os disparates se acumulam em compromissos com o atraso, figuras ineptas, conveniências da pior espécie – a sensação de que chegou a hora da xepa é incontornável diante do retrato oficial do ministério. De fato, quase tudo aqui soa como ridicularia. Mas é difícil saber o que é periférico e o que é central quando a própria presidente dá a impressão de habitar o escalão inferior de seu governo.

Dilma não formou uma equipe; parece, antes, conformada (ou deformada) por ela. Cercada de amigos da onça por todos os lados, provavelmente nunca esteve tão só. Em artigo para a Folha, o cientista político André Singer escreveu, ainda sob o primeiro impacto da divulgação do ministério: "A presidente parece uma personagem de Kafka, condenada a cumprir papel que sabe não ter sentido." A questão talvez seja saber se Dilma ainda tem alguma noção de seu papel – e qual é ele.

As concessões aos partidos que parasitam o Estado se explicariam pela necessidade de criar um cordão político capaz de preservar a presidente o mais distante possível do escândalo do petrolão. O ministério é uma estrutura montada em boa medida para resolver as demandas do próprio governo, e não para enfrentar problemas do país. Quanto mais vulnerável for a presa, no caso Dilma, maior é a ousadia dos predadores. É assim que funciona. E todos, inclusive os predadores, estão sob ameaça. Em parte porque o ecossistema alimentado pelo lulismo chegou ao limite de sua capacidade. Em parte, também, porque há muita gente aliada ao governo implicada na pilhagem bilionária da Petrobras. O cerco vai apertar, todos sabem.

A hostilidade aberta que Dilma enfrenta dentro do próprio PT é inédita. Em direções opostas, contra e a favor da nova política econômica, gente como José Dirceu e Marta Suplicy cospem fogo na presidente. Alguém dirá que o primeiro é um condenado pela Justiça e a segunda é uma estrela cadente no céu do petismo. Tudo bem. Mas se o presidente fosse Lula seria impensável ouvir da boca de figuras como eles (ou de peso político equiparável) a décima parte do que disseram.

Dilma entrincheirou-se no Planalto com sua patota do PT gaúcho, à qual se junta Aloizio Mercadante, o cavaleiro do bigode solitário. Ao contrário do que se disse, ao expelir do núcleo físico do poder os remanescentes do lulismo e transplantar a sua aldeia gaulesa dos pampas para Brasília, Dilma paradoxalmente reforça a sensação de acuamento. Eles de fato estão em minoria no PT e não há poção mágica de João Santana capaz de dar conta do recado. O constrangimento e a tensão da presidente, sua dificuldade de elocução na primeira reunião ministerial, mesmo no ambiente controlado de um pronunciamento oficial, foram muito mais significativos do momento atual do que as palavras burocráticas e ocas que ela conseguiu proferir diante de uma plateia igualmente desconfortável.

O maior incômodo de Dilma, entre tantos, está na percepção generalizada de que virou coadjuvante do ministro da Fazenda. Ou, talvez, menos do que isso, personagem secundária, cuja principal qualidade seria justamente a de não interferir onde não é chamada. O regozijo diante da rendição da petista, até anteontem estatólatra, ao programa liberal do candidato tucano, de quem Joaquim Levy era colaborador, está estampado diariamente nos jornais. Revive-se em certa medida a fantasia da faxina de 2011, agora em relação ao saneamento da economia.

E assim o estranho no ninho petista se vê convertido em dono do ninho. Apontado pela gerente-geral do FMI como um perfeito Davos man, Joaquim Levy arrancou suspiros aliviados da seleta plateia dos Alpes suíços ao frisar que sua missão é "restaurar a confiança" no Brasil. Confiança – nem foi preciso dizê-lo – que a política econômica ruinosa sustentada na marra pela presidente durante o primeiro mandato tratou de destruir. Ela foi inclusive orientada a não ir a Davos. Para não atrapalhar os negócios, bem entendido.

Enquanto Levy falava ao PIB global, Dilma também enfrentava o ar rarefeito das grandes altitudes, mas em La Paz, onde prestigiou a posse do terceiro mandato de Evo Morales. "Na Bolívia, não mandam os Chicago Boys", disse o líder bolivariano, punhos cerrados ao lado da presidenta. O Brasil está entregue a um deles, justamente. Afinal, aqui também a candidata de esquerda venceu a eleição, e fazendo da luta de classes o seu mote principal.

O novo operador das finanças brilha por contraste. É uma espécie de liberal no zoológico. Experimenta mais uma vez o sucesso que teve na gestão austera de Sérgio Cabral, o homem do guardanapo. O salvador da pátria está, na verdade, mais para funileiro ou síndico de falências: seu trabalho lembra o daqueles profissionais que recebem a carcaça de empresas quebradas e as remodelam para torná-las novamente atraentes ao mercado. Às vezes, quando é possível, recupera-se a massa falida. Outras vezes o melhor a fazer é negociar as partes desmembradas do monstrengo.

Quando iniciou, em 2003, seu ajuste fiscal, um dos mais severos da história brasileira, Lula tinha muito cacife político. O mensalão não existia, ele contava com enorme respaldo social e acreditava, além disso, na necessidade do que fazia. Joaquim Levy, o Mão de Tesoura, à época pertencia ao segundo escalão – era só um Palocci boy.

Dilma não tem quase nenhum cacife político. O PT é um partido coberto de óleo, moralmente corrompido. A presidente não tem nenhuma convicção de suas ações, entrou à força num enredo que não sabe representar. E Joaquim Levy virou galã. Tudo, no ajuste atual, lembra um filme B, uma versão degradada do original.

Recessão, apagão, falta d"água, Lava Jato – difícil, por ora, diante do caldo social que engrossa a cada dia, acreditar que a presidente terá condições de evitar o desmanche em curso. Saberemos melhor quando chegar a hora da revenda do país, em 2018. Talvez antes.

Paulinho entrega os companheiros

• Os delatores do petrolão afirmam que políticos do PT receberam propina. Os nomes de José Dirceu, Antonio Palocci e Cândido Vaccarezza aparecem nos depoimentos

Leandro Loyola - Época

"Bob". Quem é "Bob"? Em outubro do ano passado, o doleiro Alberto Youssef forçou sua memória em um dos muitos depoimentos prestados ao Ministério Público e à Polícia Federal no Paraná, para ajudar a desvendar os intrincados meandros do petrolão. Naquele dia, Youssef detalhou ao Ministério Público e à Polícia Federal a participação do lobista Júlio Camargo, representante da empresa Mitsui Setal, atual Toyo Setal, na rotina da corrupção. Youssef contou que Júlio tinha uma função semelhante à sua: fazer o dinheiro pago por empresas com o intuito de obter contratos na estatal chegar até os facilitadores desses negócios. Júlio trabalhava na ocasião para a Toyo e a Camargo Corrêa. Atuava na Diretoria de Serviços, comandada por Renato Duque, indicado pelo PT. Youssef disse que Júlio era próximo de José Dirceu, o padrinho político de Duque, e próximo também de outro ministro petista, Antonio Palocci. Segundo Youssef, Júlio tinha uma alcunha para Dirceu: "Bob".

O teor desse e de outros depoimentos da delação premiada de Youssef vieram a público pouco antes do Carnaval. Neles, petistas como Dirceu brilham em cores vivas, sempre ao lado de operadores como Júlio Camargo. Youssef disse que Júlio também fazia os pagamentos da propina do petrolão - especialmente ao PT. Segundo Youssef, o dinheiro era direcionado "para pagamentos da Camargo Corrêa e da Mitsui Toyo ao Partido dos Trabalhadores, sendo que as pessoas indicadas para efetivar os recebimentos à época eram João Vaccari e José Dirceu". De acordo com os depoimentos de delação premiada de Youssef, um funcionário de Júlio Camargo usava um pen drive protegido por senha, com nomes de pessoas indicadas para receber esse dinheiro. Youssef viu o conteúdo do pen drive. Havia uma lista na qual José Dirceu era simplesmente "Bob".

Dirceu e Júlio tinham uma relação mais próxima do que as transações financeiras apontadas por Youssef sugerem. Segundo Youssef, como muitos outros políticos ainda desconhecidos, Dirceu viajava no "avião do Julinho", um Citation Excel. No depoimento, Youssef diz que Dirceu e Camargo são amigos e que "o avião referido fica guardado no Hangar 1 da Companhia Aérea TAM, no Aeroporto de Congonhas". Por meio de nota, o ex-ministro José Dirceu negou ter recebido recursos do empresário Júlio Camargo e da Toyo Setal. Disse, ainda, que as declarações de Youssef são mentirosas e que sempre viajou em aviões de carreira ou empresas de táxi-aéreo.

O doleiro Youssef não entregou, pelo menos nos depoimentos conhecidos até o momento, provas documentais da participação de Dirceu. Os investigadores tentam provar que Dirceu, poderoso no PT e no governo, sabia que Duque, seu afilhado na Petrobras, trabalhava para cobrar um pedágio em contratos da estatal, de modo a direcionar o dinheiro para o caixa do PT e o bolso de alguns políticos escolhidos. Assim como no mensalão, suspeitas de que Dirceu tinha domínio da engrenagem começam a emergir com mais nitidez.

Aos poucos, as provas obtidas peia força-tarefa da Lava Jato permitem reconstituir o alcance e a proeminência do PT no esquema. No ano passado, Youssef e Paulo Roberto Costa afirmaram que Vaccari era o homem encarregado pelo PT de receber a propina destinada aos políticos da legenda. Há duas semanas, soube-se que o ex-gerente Pedro Barusco, subordinado ao diretor Renato Duque, contou à Justiça que o PT recebeu cerca de R$ 200 milhões em propinas da Petrobras, "com a participação de João Vaccari". O PT e Vaccari negam todas as acusações.

Também vieram à tona, às vésperas do Carnaval, depoimentos da delação premiada de Paulo Roberto Costa. Eles confirmam, em muitos pontos, o que diz Youssef sobre o PT. Neles, Paulo Roberto confessa a existência de um braço internacional do esquema, envolvendo algumas das maiores empresas de petróleo do mundo - conforme revelou ÉPOCA em abril do ano passado. Paulinho, como era chamado por Lula, rememora no depoimento algumas lições de vida. "Paulo, você é muito tolo, você ajuda mais os outros do que a si mesmo. E, em relação aos políticos que você ajuda, a hora que você precisar de algum deles, eles vão te virar as costas". Paulo Roberto diz ter ouvido esse conselho de Rogério Araújo, um diretor da empreiteira Odebrecht. Segundo Paulo Roberto, ali, em 2008, Rogério acertou que a Odebrecht depositaria recursos para ele diretamente no exterior, por fora dos acertos para os políticos, para "manter a política de bom relacionamento". A Odebrecht, em nota, nega qualquer irregularidade.

Em uma dessas contas, em 2009 ou 2010, segundo Paulo Roberto, a empresa Sargent Marine depositou US$ 192.800 em propina. Meses antes, a empresa havia sido apresentada a Paulo Roberto por Jorge Luz, um dos mais antigos lobistas da Petrobras. No governo Lula, Luz construiu boas relações com chefes do PMDB e do PT. Uma delas com o então deputado petista Cândido Vaccarezza, amigo de Lula e influente na Petrobras. Em sua delação premiada revelada às vésperas do Carnaval, Paulo Roberto diz que, em troca da propina, deu um contrato sem licitação à Sargent Marine. Segundo o depoimento, Paulo Roberto foi avisado por Jorge Luz que, do valor do contrato, R$ 400 mil seriam entregues ao deputado Cândido Vaccarezza, do PT paulista, então líder do PT e, depois, do governo na Câmara. "Nunca em minha vida apresentei nenhuma empresa a ele ou tive contato com essa empresa Sargent Marine", diz o ex-deputado Cândido Vaccarezza.

As quatro contas reveladas por Paulo Roberto foram abastecidas não só pela Sargent Marine, mas por outras gigantes do mundo petrolífero, como publicou ÉPOCA. Paulo Roberto recebeu US$ 10 mil da Glencore, em uma conta administrada por Youssef no banco UBS do principado de Luxemburgo. Outra empresa, a Trafigura depositou US$ 600 mil em propinas em uma conta do banco Lombard Odier-Gen, na Suíça. Novas revelações das delações premiadas podem ajudar a esclarecer esses casos.

Especialistas acham debate sobre impeachment de Dilma prematuro

• Não há protestos nas ruas como Collor enfrentou, e faltam provas que liguem presidente a desvios

• Ives Gandra, que estimulou discussão com parecer jurídico, diz não ver 'ambiente' para afastar petista

Fernando Canzian – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Manifestações de rua programadas para o próximo mês poderão encorajar a oposição a voltar a falar na abertura de um processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, tema que entrou nas conversas dos políticos com a queda da sua popularidade e as dificuldades que ela enfrenta na economia.

Grupos oposicionistas organizados nas redes sociais que promoveram protestos contra a presidente no fim do ano passado, logo após sua reeleição, convocaram novas manifestações contra Dilma para o dia 15 de março, um domingo, em pelo menos 50 cidades, incluindo São Paulo e as principais capitais.

Segundo especialistas ouvidos pela Folha, três fatores costumam contribuir para esse tipo de pressão: crise econômica; uso indevido de recursos públicos; e a presença massiva do povo nas ruas.

"Prematura", "imoral", "golpista" e "fora de hora" são expressões usadas hoje por especialistas para qualificar a tese do impeachment.

Até o jurista Ives Gandra Martins, que estimulou a discussão com parecer favorável à abertura de um eventual processo, afirma não ver "ambiente" para isso.

A Folha revelou que o parecer em que Martins diz haver fundamentos para o impeachment por causa do escândalo da Petrobras foi encomendado por José de Oliveira Costa, advogado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Mesmo se levado adiante, Martins vê como mínimas as chances contra Dilma. "Diante da necessidade de dois terços dos votos de parlamentares para o impeachment (ver quadro), até o Collor teria se livrado se tivesse trabalhado um pouco", diz. O ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992) foi o único mandatário deposto em um processo desse tipo no Brasil.

Para o jurista Tales Castelo Branco, considerar a possibilidade de impeachment hoje é uma atitude "imoral por parte dos derrotados na eleição e totalmente contrária à ética política".

Segundo vários especialistas, não há provas concretas do envolvimento de Dilma nas duas frentes que poderiam gerar um processo: sua participação direta nos desmandos da Petrobras, ou que ela soubesse que parte do dinheiro desviado da estatal teria ido parar no caixa do PT, financiando sua reeleição.

O cientista político Fábio Wanderley Reis considera "prematura" a discussão neste momento. Mas não partilha da opinião de que seria "golpe" abordar o tema.

'Tempestade perfeita'
Assim como outros, o cientista político Marcus Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, lembra que processos de impeachment costumam ser "políticos". Ele considera que Dilma pode estar ingressando no que chama de "tempestade perfeita".

"Dilma sofre de perda massiva de popularidade, de fratura na sua base de sustentação e enfrentará uma situação econômica extremamente adversa", diz Melo. "E há um componente importante de 'estelionato eleitoral' (ao adotar medidas amargas no pós eleição) que pode colocar a população contra ela."

Melo cita estudo de sua colega canadense Kathryn Hochstetler, da Universidade de Waterloo, mostrando que, entre 1978 e 2007, 40% dos mandatários latino-americanos sofreram tentativas de impeachment tendo como "pré requisitos" crise econômica, indícios de irregularidades e manifestações.

O cientista político Cláudio Gonçalves Couto afirma que "não é a hora" de falar sobre impeachment e que isso seria "temerário". Ele espera, porém, um desgaste cada vez maior de Dilma na área econômica e um "aumento da insatisfação, com cada vez mais gente na rua".

Seu colega da FGV-SP Fernando Abrucio diz não existir "nenhuma implicação legal" contra Dilma que justifique um processo de impeachment. Embora afirme que esse tipo de processo seja predominantemente político.

"O futuro de Dilma está mais para uma 'sarneyzação' do que para um Collor", diz Abrucio, em referência ao fim melancólico em termos de popularidade e de caos econômico do governo de José Sarney (1985-1990).

O que eles diziam em 1999
(Em meio à desvalorização cambial e juros altos)
"Não é possível assistir calado ao governo Fernando Henrique destruir o país. Vivemos uma crise moral e ética sem precedentes. Por muito menos o Collor sofreu um impeachment e o Nixon renunciou"
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

"Reagiremos com a mesma violência com que vierem os ataques. Não estamos defen-dendo o presidente propriamente, mas a democracia. O mo-vimento se trans-formou na busca da quebra institucional"
Aécio Neves (PSDB)

... E o que pensam agora
(Em meio ao escndalo na Petrobras e revés na economia)
"Eles falharam na tentativa de voltar ao poder pelo voto. [...] Não querem mais esperar outra derrota: partem claramente para a desestabilização [...]. Na falta de votos, buscam atalhos para o poder"
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

"Não está na pauta do nosso partido, mas não é crime falar sobre o assunto"
"[Não vejo] hoje elementos jurídicos ou políticos para um pedido de impeachment"
Aécio Neves (PSDB)

Luiz Sérgio Henriques* - Mãos limpas à brasileira

• Faltando freios legais, a sedução do poder é fatal, não há quem dela se esquive...

- O Estado de S. Paulo

Dados os acontecimentos em torno da Petrobrás e suas conexões com o sistema político e empresarial, tornou-se regra a referência à Operação Mãos Limpas, que nos anos 1990 abalou a primeira República italiana, nascida sobre os escombros do fascismo, levando de roldão partidos solidamente enraizados, como, em particular, a Democracia Cristã e o Partido Socialista.

No cenário delineado pela queda do Muro de Berlim e pela dissolução do socialismo real, a famosa operação judicial desvendou boa parte da intrincada rede de corrupção no país que fora uma das fronteiras mais "quentes" da guerra fria. Ruía assim, estrepitosamente, a "Tangentopoli", a cidade da propina, que mantinha azeitado um poderoso sistema de poder, sustentado, ainda por cima, pela relação de forças internacionais típica do período.

Os democratas-cristãos dirigiram o Estado e o próprio processo de modernização do país, administrando de modo "transformista" - cooptando e recrutando para funções em geral subalternas - forças moderadas da esquerda, como o tradicionalíssimo PSI. O principal partido de oposição, com toda a sua progressiva "heresia" em relação ao monolítico mundo soviético, era o PCI. Um partido de cultura política e intelectual acima do comum, participante ativo da modernização, especialmente por administrar com espírito plural algumas das regiões mais ricas e por protagonizar embates como o do divórcio e o dos direitos reprodutivos da mulher. E, apesar disso, condenado a uma situação "eternamente" minoritária e oposicionista.

Mais além dos escandalosos casos de malversação do dinheiro público e do comprometimento entre máfias, lojas maçônicas suspeitas e altas esferas da política e da economia, esta era a raiz de "Tangentopoli": a interdição da competição democrática, com o veto - contrário à legalidade, mas amparado pela "constituição material" do país - à presença de uma importante força popular na área de governo, fosse ainda nas condições do cauteloso "compromisso histórico" pactuado entre dirigentes da envergadura de Aldo Moro e Enrico Berlinguer, para fazer referência à conjuntura de meados dos anos 1970, anterior às "mãos limpas".

Como não pode deixar de ser, entre o mundo de ontem e o nosso mundo há todo um enredo tecido de continuidades e descontinuidades. Para apontar um dado de total descontinuidade, caíram por terra, mesmo na turbulenta América Latina, os vetos que impediam à esquerda, em sentido lato, aceder aos governos e conquistar vistosas bancadas parlamentares, além de buscar a correspondente implantação social. Uma novidade "epocal", que passou a legitimar, de uma só vez, todos os atores que se dispusessem a jogar o jogo das instituições, articulando a partir desse terreno privilegiado propostas, concorrentes entre si, de reforma do Estado e da sociedade.

Só personagens egressos da guerra fria, que, deixados a si mesmos, guardariam até uma certa bizarrice, podem atribuir aos sucessivos governos petistas a intenção de "implantar o comunismo", mediante programas como o Bolsa Família, abençoados por instituições financeiras globais. Inversamente, só os ideologicamente alucinados podem detectar nas dificuldades enfrentadas pelo regime chavista a mão pesada do "império", como se houvesse algum termo de comparação possível entre os males que afligiram ou afligem os bolivarianos Hugo Chávez e Nicolás Maduro e as sangrentas vicissitudes que derrubaram Salvador Allende.

Mas continuidades também existem e não é anedótico ou irrelevante, por exemplo, que um dos governos petistas - para não mencionar a "sociedade civil" que sustenta esse partido - tenha acolhido controverso personagem da esquerda armada italiana dos anos 1970, aparentando escassa compreensão da pacífica circunstância eleitoral que o trouxe ao poder de Estado a partir de 2003. Ao mesmo tempo, a solidariedade com os regimes ditos bolivarianos, nos quais a alternância parece um verbete cancelado, faz temer que no cerne do petismo também operem categorias de uma esquerda atrasada, para a qual as dinâmicas institucionais contam pouco - e tudo se resolve em "disputa política" na qual estão franqueados golpes abaixo da linha da cintura.

Segundo os parâmetros dessa luta, e a exemplo das realidades bolivarianas, constrói-se agressivamente uma resposta à questão clássica de um arquiconservador: "Quem é meu inimigo?". O inimigo seria a social-democracia à moda do PSDB, travestida pura e simplesmente de neoliberal, assim como outrora stalinistas estigmatizavam social-democratas como "social-fascistas". E assim como, entre nós, "neoliberais" ou "golpistas" serão todos os adversários - Marina, Aécio ou quem quer que se apresente como ameaça eleitoral.

O problema com categorias anacrônicas é que se chocam com as exigências da política em situações complexas. Imaginando interditar o funcionamento natural das instituições, possibilitam a interpretação de que, em outra época e latitude, se tenta armar um sistema de poder espraiado pelos organismos de Estado e pelo sistema de empresas públicas, como na Itália antes das "mãos limpas".

Lá, a investigação judicial teve como alvo um sistema que girava em torno de democratas-cristãos e socialistas (dos tempos de Bettino Craxi), ao passo que, no núcleo duro da esquerda, havia um agrupamento que, não sem contradições, elaborou o lema (atualíssimo!) da "democracia como valor universal". Aqui, desgraçadamente, pode-se conjeturar que o eixo central girou, ou gira, em torno do principal partido de esquerda, como a confirmar que tentações autoritárias desconhecem cor ideológica. Faltando freios legais, a sedução do poder é fatal: não há quem dela se esquive, ainda que com doce constrangimento e dose maciça de sofismas.
-----------------------------
*Tradutor e ensaísta, é um dos organizadores das 'Obras' de Gramsci no Brasil

Fernando Gabeira - Valdirene Aparecida

- O Globo / Segundo Caderno

Os jornalistas, às vezes, chamam a atenção para os nomes estranhos que surgem nos escândalos políticos. Surgiu agora o de Valdirene Aparecida, que, apesar de inadimplente, teria recebido um empréstimo do Banco do Brasil, com dinheiro do BNDES. Os nomes parecem estranhos no noticiário, porque são nomes de batismo, de modo geral, como é comum na Bahia, uma fusão dos nomes do pai e da mãe.

Valdirene, por exemplo, muito provavelmente, é filha de Valdir com Irene. Tornou-se Val Marchiori, participou de um reality show, "Mulheres ricas", e é apresentada como socialite. Vi alguns fragmentos do reality show. Valdirene não parecia apenas uma mulher rica, mas alguém fugindo intensamente dos hábitos da população mais humilde, marcados inclusive no seu nome composto: Valdirene, de Valdir e Irene, e Aparecida, talvez em homenagem à padroeira do Brasil.

Suas matérias de viagem eram custeadas por ela, que viaja em jatinho próprio. Val ofuscou Valdirene e conseguiu um espaço como apresentadora, repórter, blogueira e celebridade. Além disso, tinha grana para produzir as próprias matérias. Dizem os jornais que Valdirene e Aldemir eram amigos, viajavam juntos, e, juntos, decidiram pelo empréstimo no BB, onde Aldemir era presidente.

Ele é um dos executivos ligados ao PT. Chegou ao máximo da carreira ao ser indicado para a presidência de uma Petrobras em transe. E teve esse caso na vida, uma loira como cliente bancária.

A senadora Marta Suplicy já registrou o problema da cor do cabelo no PT, ao afirmar que havia três candidatas mulheres à presidência, Dilma, Marina e ela. Mas observou que não tinha nenhuma chance, pois era a única loira.

No auge da crise internacional, Lula acusou os loiros de olhos azuis de terem arruinado a economia mundial. Se falou isso é porque, em alguma camada de seu inconsciente, acredita na maldade intrínseca dessa gente branca.

Valdirene também é loira. Sua trajetória de fuga da pobreza e a adoção entusiástica de um consumo de luxo aparentemente são sinais de afastamento da galáxia petista. No entanto, no fundo, têm tanto ela como o PT o mesmo deslumbramento com a riqueza. A passagem de Lula pelo Copacabana Palace, no período eleitoral, mostra que ele tem os mesmos e talvez mais caros hábitos que a própria socialite.

A sensação que tenho é de que Lula gostaria de ter a mesma trajetória de Val Marchiori. Sua fúria contra os ricos e os loiros de olhos azuis esconde um grande desejo de imitá-los.

No Brasil, há quem ganhe Bolsa Família, há quem ganhe bolsa Louis Vuitton do BNDES. A diferença, como tenho acentuado, é o sigilo do BNDES.

Sinceramente, espero que ela não se ofenda, mas a bolsa de Val Marchiori é uma mixaria perto do que os outros ricos empresários estão levando. E revela algo característico da burguesia brasileira, sobretudo aquela que o PT considera a elite do B porque o apoia, incondicionalmente. Eles esbanjam dinheiro.

Val tem dinheiro para viajar no próprio jatinho e financiar suas aventuras jornalísticas. Mas, quando precisa de uma graninha extra, vai ao Banco do Brasil, que, por sua vez, aciona o crédito do BNDES. Os donos da Friboi buscam dinheiro no BNDES e, ao mesmo tempo, destinam R$ 250 milhões à campanha do PT.

A trajetória de Aldemir e Valdirene passaria em branco para mim. Não me importo com a vida dos outros nem me disponho a patrulhar gastos alheios quando não se originam em dinheiro público.

No entanto, há uma trajetória comum dos ricos que orbitam em torno dos governos petistas e bolivarianos. Prosperam num discurso de amor à pobreza, mas, no fundo, querem apenas mais dinheiro.

Valdirene é uma exceção. Nunca a vi elogiar a pobreza, nos poucos minutos em que a ouvi, jamais manifestou amor pelos pobres, algo que é muito comum nos nossos salvadores populistas.

Ao contrário, encarna apenas um espírito elitista, que quer se diferenciar através do consumo de luxo e escolhas sofisticadas.

O PT ama os pobres, tão falsamente como é possível amar os pobres, a Humanidade e outras grandes abstrações.

Mas Valdirene e Lula navegam no mesmo transatlântico de luxo que está se afundando e não nos deixam outra saída, exceto seguir tocando nosso piano, humildemente, enquanto a farsa não se revela em toda a sua amplitude.

O ideal seria tocar a sirene enquanto o drama se precipita sem as máscaras do carnaval. Mas isso é uma tarefa para se pensar na Quarta-feira de Cinzas.

As últimas pesquisas sobre Dilma confirmam minhas intuições de repórter de rua. A confiança está desabando, e o edifício pode cair. Só nos resta repetir em escala nacional o conselho do prefeito do Rio aos moradores de área de risco: acreditem na sirene quando ela tocar.

Eliane Cantanhêde - Caindo do mapa-múndi

- O Estado de S. Paulo

Só se fala sobre o efeito interno das crises (política, econômica, Petrobrás...), mas o impacto é devastador também na imagem externa do Brasil. Na mídia internacional, nos governos, nas empresas, nas sociedades, aquele Brasil pintado de dourado deixou de brilhar.

Some-se a isso o desconhecimento da presidente Dilma Rousseff sobre política externa, o desprezo pela diplomacia, a queda de um chanceler atrás do outro, a pindaíba do Itamaraty e... temos um cenário constrangedor.

Goste-se ou não da política externa de Lula, goste-se ou não do seu chanceler, Celso Amorim, o fato é que o Brasil vinha embalado dos dois governos de Fernando Henrique, pegou o vento de popa mundial e o combustível da economia interna e disparou na era Lula.

Amorim costumava dizer que o chefe era o instrumento de política externa que qualquer diplomata pedia a Deus: um presidente carismático, com uma biografia pujante e uma verve inebriante. O céu era o limite. Não era para mudar com a primeira presidente mulher, mas mudou.

De queridinho dos países ricos, médios, pobres e miseráveis, o Brasil passou a enjeitado por uns e desimportante para outros a partir da posse de Dilma, descendo degrau por degrau até chegar onde está, num piso incompatível com suas dimensões geográficas e econômicas e com suas potencialidades políticas.

Dilma é incapaz de compreender a importância da política externa, não tem gosto pelas reuniões multilaterais e setoriais, não tem paciência com a linguagem excessivamente cautelosa da diplomacia e acha tudo isso uma chatice. E uma chatice cara. Nem manteve a firme aproximação de Lula com países emergentes, nem tratou de recuperar a aliança esgarçada com os ricos. Ficou no limbo.

Se fez bem em cancelar a visita a Barack Obama em 2013 e em reagir veementemente na ONU (ou seja, em solo norte-americano) à espionagem da NSA na vida de empresas, cidadãos e até governantes brasileiros, Dilma estica demais a corda. Protestar, sim. Eternizar a animosidade com a maior potência do planeta, não.

Primeiro, Lula ficava incomodado. Depois, perplexo. Agora, chegou à fase da irritação. Acha que seu legado na política externa foi para o ralo, que ninguém mais quer saber do Brasil e que até mesmo seus programas do peito na África estão sendo deixados de lado.

"O que está acontecendo?", perguntou ao então chanceler Luiz Figueiredo, antes de ele mesmo responder: "É a Dilma, não é?" E ainda tentou ensinar: "Com a Dilminha é assim: você fala a primeira vez, fala a segunda, fala a terceira, até ela ouvir". Mas Figueiredo não teve tempo de por a lição em prática. Logo em seguida, caiu.

Depois de jogar Antonio Patriota e Figueiredo ao mar, Dilma testa Mauro Vieira, um dos melhores quadros da ativa no Itamaraty, ex-embaixador em Buenos Ayres e Washington - os postos mais disputados em Brasília. Seu desafio é mostrar para Dilma que, com ou sem exageros, a rede de representações diplomáticas não pode parar por falta de verbas até para luz, água, papel higiênico. O efeito na imagem do País é devastador, num momento em que a crise da Petrobrás já não ajuda muito.

Vieira se reuniu com o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, e visitou a Câmara e o Senado, pedindo apoio e se preparando para argumentar com a urgência da situação quando despachar com Dilma. Não será uma conversa fácil, porque a presidente considera a diplomacia "supérflua" e reclama (até com razão) de gastos nababescos com residências de embaixadores em cidades ricas, como Nova York.

Pagam os justos pelos pecadores. Um exemplo é o Japão, e um experiente diplomata indaga: "A presidente Dilma vive dizendo que o Itamaraty serve para vender o Brasil, trazer investimentos, dinamizar o comércio. Como defender o país para investidores japoneses, se a embaixada não paga nem a conta de luz?". Taí, é uma boa pergunta.

Bernardo Mello Franco - O fantasma do distritão

- Folha de S. Paulo

Tudo o que está ruim pode piorar. A máxima, que nos últimos dias vitimou a Petrobras e o ex-bilionário Eike Batista, começou a assombrar o debate da reforma política. O maior fantasma responde pelo nome de distritão e ganha força velozmente no Congresso.

A proposta muda a forma como são eleitos os deputados. Hoje, no sistema proporcional, as vagas são divididas pela soma dos votos acumulados por cada partido ou coligação. Com a mudança, as cadeiras passariam a ser dos candidatos mais votados individualmente.

A fórmula é simples e agrada ao senso comum, mas enfraquece ainda mais o papel dos partidos. Se o distritão for adotado, o voto de legenda vai sumir e a eleição se tornará uma luta de todos contra todos. Dois candidatos filiados à mesma sigla serão tão adversários quanto dois que pertençam a siglas diferentes.

"Os partidos vão ficar absolutamente em segundo plano. No distritão, é cada um por si", resume Antonio Augusto Queiroz, diretor do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).

Os defensores do modelo, patrocinado pelo PMDB, dizem que ele corrigiria uma distorção atual: a eleição de candidatos quase desconhecidos graças ao desempenho de celebridades. Em 2002, Enéas Carneiro recebeu 1,5 milhão de votos para deputado e arrastou para a Câmara um aliado com míseros 275 votos.

O problema é real, mas podem surgir outros piores. Entre eles, o encarecimento das campanhas, já que cada candidato investirá o máximo para se eleger por conta própria, e o lançamento de mais famosos, como artistas e ex-jogadores. Se a coerência partidária já está em falta, um sistema eleitoral que só valoriza indivíduos pode condená-la à extinção.

O cientista político Jairo Nicolau, que considera o distritão uma ideia desastrosa, levanta um argumento adicional. O sistema só é adotado hoje em quatro países: Afeganistão, Jordânia, Vanuatu e Ilhas Pitcairn.

Miriam Leitão - Segredos sombrios

- O Globo

O juiz Sérgio Moro disse uma frase forte e justa. "Não cabe ao Judiciário ser guardião de segredos sombrios." Assim, explicou a divulgação de novas acusações feitas por duas pessoas: o doleiro favorito de um grupo da elite do poder político e empresarial, e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras. São eles e outros que têm contado os segredos sombrios.

Há processos que correm em segredo de Justiça. Não é o caso. E, se não está em segredo de Justiça, porque deveria a Justiça fazer segredo? A sombra só interessaria aos que rejeitam a luz sobre seus atos e os fatos. Foram separados todos os segredos sobre detentores de foro privilegiado, porque só quem pode decidir no caso dos políticos com mandato é o Supremo Tribunal Federal.

Segredos sombrios têm sido revelados em Curitiba pela ação da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça. E isso fará bem a um país que sempre os trancou, para melhor proteger a elite e, assim, perpetuar uma forma escusa de fazer negócios entre o setor público e o setor privado.

De certa forma, sabíamos, mas dessa forma nunca soubemos. Empreiteiras pagam por contratos porque assim corrompem pessoas em posição de decisão. Funcionários com esse poder achacam os fornecedores para favorecer o próprio bolso e o caixa dos partidos. Há uma diferença entre suspeitar que os negócios sejam feitos no Brasil e saber o que disseram os participantes do esquema nos depoimentos. A mesma diferença entre penumbra e luz do sol. Suspeitávamos; hoje sabemos.

Só o fato de decidirem falar mostra a força das instituições. Se não acreditassem na determinação da Polícia Federal, na autonomia do Ministério Público, na independência do Judiciário, eles não falariam. Se o fizeram foi porque se renderam ao fato de que, do outro lado da mesa, o Estado está cumprindo seu papel. Por isso, por mais que seja doloroso, é bom saber dos segredos sombrios. Alimenta a esperança de que seja profilática a exibição cirúrgica de como funcionava a corrupção na maior empresa do país.

A mesma esperança ocorreu em vários momentos do julgamento do Mensalão, e ele sempre será um marco. É um erro essa ideia de que um escândalo suplanta o outro pelo volume de dinheiro. O mensalão foi um esquema de propina e financiamento político de grandes proporções que também fez com que alguns admitissem segredos sombrios. O ex-diretor financeiro do PT Delúbio Soares confessou caixa 2, "dinheiro não contabilizado". Isso faz com que a declaração do presidente do PT, de que o partido sempre recebeu doações legais e declaradas, pareça desligada da realidade.

Do mensalão nasceu o caso Petrobras. Eles têm pontos em comum, repetição de comportamentos, engenharias financeiras parecidas e um período de concomitância temporal. Como se fossem duas células irmãs num processo de cissiparidade. Uma sai da outra e, por um tempo, intercalam-se. A mais antiga está na nova. O DNA é o mesmo, no fundo é o mesmo organismo. E é ele que está minando o Brasil, enfraquecendo a economia, solapando o sistema político.

O país está profundamente desgostoso, descrente até, do seu sistema político. A democracia surgiu de uma luta enorme que custou anos, levou vidas, machucou pessoas, selou destinos de forma trágica. Os depositários dessa herança a estão dilapidando de forma avassaladora e irresponsável. Os remédios que os políticos apresentam para os abalos no sistema de representação chocam pelo que revelam do que eles não entenderam. Vivemos uma crise política grave e perigosa. Não é hora de remendos para deixar tudo como está. Não é hora de acordos para garantir uma operação abafa.

A frase do juiz Sérgio Moro ilumina o horizonte turvo. Não se deve esconder, deixar em gavetas, trancar em armários, temer a luz do sol sobre os segredos sombrios. Só com sua divulgação lutaremos contra o mais antigo e perigoso dos males: o patrimonialismo. Só o velho vício explica que o PT tenha tido a audácia de chamar de sua a Petrobras dos brasileiros. Que tenha se achado no direito de dividir em partes, distribuir capitanias desse patrimônio a partidos da base e extraído para si bons bocados do bem coletivo. Sim, que o Judiciário não aceite ser o guardião dos segredos sombrios. Precisamos nos livrar desses erros, revelando-os.

João Bosco Rabello - Câmara no comando

- O Estado de S. Paulo

O desenho parlamentarista que ganhou a recém-iniciada gestão de Eduardo Cunha, com a transferência do poder político para a Câmara, é a expressão mais forte da consistência que o PMDB obteve em sua reação à tentativa do PT de reduzir seu espaço no contexto partidário.

Mas o curso dos acontecimentos na Câmara não pode mais ser atribuído apenas a essa disputa. Ela está na raiz do comportamento hostil do PMDB, mas encontra sintonia com o sentimento de reafirmação do Poder Legislativo, há anos subjugado pela força do Executivo, que Eduardo Cunha habilmente materializou em uma espécie de voto de desconfiança próprio dos regimes de gabinete.

Nesse aspecto reside a maior dificuldade do governo. A afirmação do PMDB, que tem motivação estritamente partidária, contaminou a Câmara e atinge frontalmente o PT, cujo comportamento sectário e excludente, tanto no governo quanto no ambiente legislativo, produz agora seus efeitos.

O insucesso da articulação política do governo, portanto, não se explica apenas pela insuficiência dos perfis com delegação presidencial para exercê-la, embora esta seja uma realidade indiscutível. É um enredo que o PT construiu na fase Lula ao dar ao aliado tratamento menor baseado em resultados políticos de vida curta.

De bela fachada, o governo era casa de alicerces frágeis. Quando explodiram as manifestações de junho de 2013, viu-se que o País não tivera gestão nos 12 anos de poder petista.

O PMDB assistiu à soberba do rival na base aliada com a paciência de quem sabe que o diabo é o diabo porque é velho e esperou o melhor momento para dar o bote. E o melhor momento do partido corresponderia necessariamente ao pior momento do governo.

Era, pois, uma questão de tempo que o PT não viu passar, consumido pelas denúncias de corrupção que o levou ao banco dos réus e à condenação pelo Poder Judiciário de seus dirigentes mais históricos. Passou à negação como método, perdeu capital político expressivo, e volta agora à mesma situação do mensalão, ampliada em dimensão e gravidade.

É nesse ambiente que prospera a tese do impeachment, que diverte o PSDB, mas que tem origem no mesmo PMDB que aprisionou o governo Dilma e que deverá perder força com a divulgação dos nomes de parlamentares do partido alcançados pelo inquérito do "petrolão"no Supremo Tribunal Federal, prevista para os próximos dias.

O que apenas nivela por baixo a base de sustentação do governo, o que não melhora a situação, apenas a agrava.

Vinicius Torres Freire- Impeachment, Sarney, FHC, Dilma

• Presidente Dilma corre o risco de 'sarneyzação', síndrome que quase afetou FHC e Lula

- Folha de S. Paulo

Aqui e ali se lê que Dilma Rousseff padece de "sarneyzação". O comentário é uma variante benigna daqueles que consideram ou até pregam o "impeachment" da presidente. Ambos derivam do mesmo menosprezo pela capacidade do governante, que teria perdido rumo e poder.

"Sarneyzação" era o que se dizia de FHC em 1999, outro ano de crise e da desvalorização do real, quebra de promessa de campanha, "estelionato eleitoral". Era o que se dizia de Lula em 2005, quando o espetáculo do crescimento era ensaio e o show do mensalão começava.

"Sarneyzação", claro, é a síndrome do governo que passa a se parecer com o dos anos finais da Presidência de José Sarney, de impotência e desastre econômico contínuo. A ruína decisiva de Sarney seria detonada pelo grande estelionato eleitoral de 1986, que deu nome e origem à série.

Popular devido a um plano anti-inflacionário, o Cruzado de preços tabelados e consumo doidivanas, Sarney e seu PMDB venceram a eleição em todos os Estados menos um e fizeram inédita maioria no Congresso. O Cruzado, porém, no final de 1986 era um embuste populista grosseiro. Dias após a eleição, o plano foi para o desmanche, uma fraude descarada (lembra alguma coisa?).

A seguir, o Brasil quebraria e se afogaria na hiperinflação. As lideranças políticas restantes do período 1950-80 se desmoralizaram. Collor e Lula, "outsiders", seriam os finalistas da eleição de 1989.

Na "sarneyzação", um governo parece um morto-vivo, mas alguns zumbis se recuperam. São parecidas as descrições jornalísticas da "sarneyzação" dos tempos de Sarney, FHC ou Lula, que tiveram destinos diferentes. Nas palavras "de época", como se descrevia a síndrome?

Paralisia decisória, falta de comando, inabilidade política, um presidente fraco, com autoridade minada pelos aliados. Deterioração de expectativas, envelhecimento precoce, falência de um pacto de poder, de um estilo de liderança. Esvaziamento político derivado de crises profundas, as quais provocam desfazimento da base política e debandada da coalizão parlamentar.

Collor não chegou a passar por "sarneyzação", apesar do caos que criou. Foi rápida e legalmente deposto. Não começou a cair apenas porque era impopular. Dois meses antes da explosão final de escândalos de seu governo, sob crise econômica horrenda (décimo ano de crise), era tido como ruim/péssimo por 48% da população.

Dilma está com 44% de ruim/péssimo. FHC chegou a 56% em setembro de 1999, ano de protestos de massa, "fora FHC", liderados pelo PT. Sarney terminou seu governo teratológico com 56% de ruim/péssimo.

O prestígio fernandino ficaria baixo pelo resto do governo, até 2002, em torno de níveis parecidos com os de Dilma desde junho de 2013 --note-se que o padrão material de vida é muito melhor agora. Lula nem de longe jamais teve notas tão ruins quanto FHC ou sua afilhada.

Rejeição popular, economia ruim, "sarneyzação" mais ou menos aguda ou até corrupção escandalosa, por si sós ou combinados, não levam o povo para a rua nem definem destino presidencial. Realismo e concessões para colocar certa ordem no tumulto econômico e político podem evitar uma crise terminal. A "correlação de forças" socioeconômicas importa. Talvez o acaso também.

Elio Gaspari - Dilma, Lula e a rua

- O Globo

Com 39 ministros ao alcance de um telefonema, Dilma foi a São Paulo conversar com Lula, buscando os conselhos de Nosso Guia. Magoada e inconformada com os números da pesquisa do Datafolha que expôs o estilhaçamento de sua imagem, ela busca uma saída. Sabe-se lá o que Lula teve a oferecer, mas em menos de dois meses a doutora ficou na avenida com um desfile caótico. Seu enredo, anunciado durante a campanha eleitoral, está vencido, e algumas de suas alas desfilam com as fantasias da escola de Aécio Neves. Seu samba, com dois puxadores - Joaquim Levy na Fazenda e o PT no Planalto -, está atravessado. Isso tudo e mais uma arquibancada cética.

Essa bola rolará para o marqueteiro João Santana. Em 2013, quando o "monstro" foi para a rua, ele expôs uma corajosa ideia, segundo a qual a doutora estava blindada em relação aos protestos. Nas suas palavras, ao repórter Luiz Maklouf Carvalho:

"É honesta? Tem comando? O governo está gerindo bem? A economia está bem? (...) Os protestos não podiam ser em relação a Dilma. (...) Era emoção - e não sentimento".

De fato, as pesquisas indicavam que a doutora passava em todos os quesitos, e Santana acertou na mosca. E agora?

"É honesta?". Pode ser, mas 77% dos entrevistados pelo Datafolha acham que ela sabia o que acontecia na Petrobras. "Tem comando?". Pode ter, mas 44% acham seu governo ruim, ou péssimo, contra 23% em dezembro.

"A economia está bem?". Não. Tudo indica que não houve crescimento em 2014, nem haverá neste ano, com a inflação estourando a meta.

Se em 2013 havia mais emoção que sentimento, agora o que há é sentimento. Se houver emoção, será a do travo de quem foi iludido na campanha eleitoral, percebendo que Dilma Rousseff tem uma relação agreste com a verdade.

A doutora corre o risco de ouvir de novo o ronco da rua. Isso acontecerá quando os organizadores de protestos pedirem proteção da polícia para afastar mascarados e desordeiros que se infiltram nas manifestações. Afinal, a polícia não é paga para testemunhar o desvirtuamento de protestos pacíficos.

E a saída? Talvez Nosso Guia saiba onde ela está, mas tanto ele como a doutora estão aprisionados pela mentalidade do sítio. Acreditam que o mundo está contra eles.

Lula arma a cena para 2018 – Editorial / O Estado de S. Paulo

Extremamente preocupado com o andar da carruagem e cético quanto à possibilidade de que a presidente Dilma Rousseff aprenda a fazer política e a governar, Luiz Inácio Lula da Silva está entrando em campo para tentar salvar o projeto de poder que é a razão de sua existência política. A decisão do ex-presidente da República implicou a liberação, para o núcleo mais íntimo de suas relações, da notícia de que ele é, de fato, candidato à sucessão presidencial em 2018.

Quando Lula entra em cena, já se sabe o que esperar: uma extraordinária capacidade de comunicação, um enorme carisma e um raro dom de empatia, instrumentando o populismo e a megalomania que compõem a sua personalidade. Lula se considera acima do bem e do mal. Entende que, com uma carreira política vitoriosa que superou todos os obstáculos, desde sua origem humilde, conquistou o direito de seguir um código de ética próprio, flexibilizado por doses cavalares de pragmatismo. Compensa deficiências de instrução formal com uma mente ágil e sensibilidade política deliberadamente dirigidas para as questões sociais, das quais se autoproclama o maior e indisputado defensor.

Ninguém é infalível, porém. E Lula errou feio ao usar seu prestígio popular para eleger a candidata que escolheu para suceder-lhe na Presidência da República. Desse equívoco ele está com toda a certeza amargamente arrependido, principalmente a partir do momento em que se deu conta de que o "poste" adquiriu vida própria e tem sido capaz de cometer os mais desastrosos erros na condução do governo.

Lula deu o primeiro passo ostensivo na missão que se impôs de salvar o PT - ou a si próprio, o que para ele dá no mesmo - na festa de comemoração dos 35 anos do partido, em Belo Horizonte. Na presença de sua sucessora, começou por incorporar a personagem do pai severo e passou um enorme pito nos correligionários. Como se não tivesse absolutamente nada a ver com isso, acusou o PT de ter-se tornado "cada vez mais um partido igual aos outros". E teve a paciência de explicar o que queria dizer: "Cada vez mais deixando de ser um partido de base para se transformar num partido de gabinete".

E foi implacável com aqueles petistas que dizem o que ele diz e fazem o que ele faz: "Estão cada vez mais preocupados em se manter nos cargos. E essa é a origem dos vícios da militância paga". O que leva à conclusão inescapável de que, para Lula, "militância paga" é aquela que desfruta, em cargos públicos, à custa do contribuinte, a retribuição por sua dedicação ao partido. Uma prática que também costuma ser chamada de aparelhamento do Estado.

Lula também não deixou de fazer coro à indignação dos companheiros pela forma como o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, foi conduzido coercitivamente - depois de se ter recusado a abrir a porta de casa para os policiais - ao interrogatório sobre seu envolvimento com o escândalo da Petrobrás. Afinal, Vaccari cuida de assuntos transcendentais e não pode ser tratado como qualquer do povo.

Mas a especialidade do grande líder continua sendo fazer-se - e ao PT - de vítima. "Eles", sempre "eles", "trabalham com a convicção de que é preciso criminalizar o partido, não importa se é verdade ou não é verdade."

Mas em outra de suas especialidades, o cinismo, Lula também se esmerou no palanque da capital mineira, sob os aplausos da companheirada. Garantiu que a oposição "não tem autoridade para atacar o governo", saindo-se com uma delirante versão sobre quem são os responsáveis pela corrupção na Petrobrás e pela encrenca administrativa e financeira em que a empresa foi metida: "Não se incomodam (a oposição) do prejuízo que causaram à Petrobrás e ao Brasil. Eles vão prestar contas à história". Pois é: a responsabilidade pelas desventuras da Petrobrás é toda da oposição.

Essa performance de Lula dá uma ideia de até que ponto ele está disposto a ir na campanha presidencial que acaba de inaugurar prematuramente. Resta saber se a repetição de truques velhos engabelará de novo um povo que sofre com os desmandos administrativos e os desastres econômicos causados pelo lulopetismo.

As contas do Congresso – Editorial / Folha de S. Paulo

• Ajuste proposto pelo governo é duro, mas necessário; se quiserem refutar o pacote, parlamentares precisam apresentar alternativa viável

Depende do Congresso o destino de um terço do plano de ajuste de receitas e despesas do governo para 2015. A decisão dos parlamentares será um momento crucial do programa de contenção da crise econômica que o país atravessa.

Dadas as necessidades urgentes, quanto menor for o corte de despesas autorizado pelos congressistas, mais nocivas serão as medidas complementares às quais o governo terá de recorrer a fim de minorar o rombo nas contas públicas.

Talvez mais relevante, uma recusa do Congresso terá o caráter de um voto de desconfiança no governo, o que aumentará o descrédito das finanças nacionais e agravará as turbulências econômicas.

O governo planeja poupar cerca de R$ 55 bilhões em 2015, o equivalente a 1% do PIB. Ou melhor, afora desembolsos com os juros da dívida pública, esse é o valor que se pretende deixar de gastar no ano, o chamado superavit primário.

As autoridades econômicas pretendem atingir tal meta com o auxílio de um programa de redução de benefícios previdenciários e sociais que renderia R$ 18 bilhões neste ano, embora existam dúvidas sobre a precisão de tal estimativa.

O governo espera ainda arrecadar cerca de R$ 20 bilhões com aumentos já anunciados de impostos. O outro terço do superavit primário ainda parece de origem incerta, a depender de cortes de despesas, tais como subsídios à energia elétrica, e da reversão de desonerações, por exemplo.

Ressalte-se, porém, que a necessidade de economia de recursos deve ser maior, dado o saldo de 2014, ainda mais negativo do que o previsto nas estimativas pessimistas. Foi o pior resultado primário em 17 anos, contribuindo para um deficit federal de 5,3% do PIB (mais de R$ 271 bilhões).

No pacote enviado ao Congresso, trata-se de reduzir a despesa com seguro-desemprego, pensões por morte, auxílio para acidentados no trabalho e com o abono para trabalhadores de baixa renda.

Apesar de corrigirem distorções e excessos, as medidas têm inegável impacto social. Contudo, as alternativas podem ter efeitos sociais e econômicos piores: seria o caso da redução ainda maior dos investimentos públicos, o que agravaria a recessão que se avizinha.

O Congresso tem não apenas o mandato para definir a despesa pública mas também a responsabilidade de decidir o modo social e politicamente mais justo e conveniente de fazê-lo. É do mesmo modo responsável pelas consequências de seus atos para a estabilidade do país, não só a econômica.

Caso decida refutar o plano do governo, terá de apresentar uma alternativa viável de ajuste de despesas. Do contrário, mais do que lavar as mãos em relação à crise, a terá levado a outro patamar.

Impopularidade sem precedentes – Editorial / IstoÉ

Até que ponto o grau de desaprovação de um governante reflete a mobilização por mudança de uma sociedade? Essa parece ser a questão central dos debates após a divulgação da pesquisa que sinalizou uma impopularidade recorde de Dilma Rousseff. Críticos mais inflamados começaram a falar em impeachment, enquanto aliados planejam uma ofensiva de comunicação para atenuar os estragos. Vergada por uma rejeição sem precedentes entre presidentes em início de mandato, Dilma é vista pela maioria dos brasileiros (60% deles) como alguém que mentiu deliberadamente para vencer nas urnas e que depois de consumada a reeleição, com a soberba habitual, mostrou a verdadeira face dos fatos que antes tentava encobrir enquanto acusava adversários de terrorismo. A realidade nua e crua trouxe medidas que ela garantia não tomar "nem que a vaca tussa". E expôs ao mesmo tempo, sem retoques e sem a embalagem marqueteira dos programas de campanha, uma mandatária com claros sinais de hesitação e incompetência na condução do Executivo, isolada no poder, fazendo de conta que críticas e acusações não eram com ela.

Em atos e palavras, a chefe da Nação foi ambígua e fugiu de suas responsabilidades pelos problemas, atribuindo a eles – como sempre fez – razões alheias a sua vontade. Por essas e outras é que dobrou o número daqueles que veem o seu governo como ruim ou péssimo, enquanto caiu pela metade a quantidade dos que avaliam a gestão como boa ou ótima. Em outro levantamento, o registro mais alarmante para os aliados das hostes petistas que lhe deram respaldo: um em cada cinco eleitores de Dilma, tomado por um sentimento de frustração e desencanto, não repetiria o voto. Estão arrependidos e temem pelo pior com o País sob o seu comando. Em suma: no hiato de apenas dois meses, Dilma, segundo as pesquisas, construiu uma imagem de desonesta, falsa e indecisa. Quase um desastre completo para uma autoridade pública. Marca difícil de apagar, mesmo com a máquina da comunicação oficial vendendo o mantra de que tudo não passa de intriga da oposição.

Seria natural, portanto, que nesse ambiente de insatisfação geral ocorresse o recrudescimento dos protestos contra a sua gestão. E eles estão nas ruas e nas rodas de conversas, em vários segmentos da sociedade. Para além dos apupos aqui e ali, uma grande manifestação em quase todo o País está agendada para o próximo 15 de março com a bandeira "Fora, Dilma!". É evidente que há uma enorme distância entre o anseio de muitos e o processo de suspensão de um mandato presidencial cuja titular foi levada democraticamente ao posto. Qualquer movimento no sentido de impeachment não coadunado com os princípios constitucionais soaria como golpismo – teria, antes de tudo, de estar baseado em evidências criminais de responsabilidade presidencial previstas em lei. Mas, da mesma maneira, é igualmente legítimo que o soar da inquietação dos brasileiros seja ouvido em alto e bom som e que daí decorram respostas à altura do que almejam e do que lhes foi prometido. Afinal, em última análise, em uma democracia deve ser dos cidadãos o direito de julgamento sobre seus representantes.

Sem ajuste fiscal não haverá emprego nem programas sociais – Editorial / Época

• Trata-se de uma obviedade. No Brasil, no entanto, nem todos enxergam o óbvio. É estarrecedor que o PT jogue contra os eleitores mais pobres, ao comandar a resistência às medidas saneadoras

Na quarta-feira, dia 11, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, divulgou um documento durante a apresentação do Plano Anual de Financiamento para 2015. "O reequilíbrio fiscal é crucial para preservar as conquistas no campo da inclusão social já alcançadas", escreveu Levy no texto. Ao longo do documento, Levy reiterou que, sem equilíbrio nas contas públicas, o país perde um dos pilares fundamentais para sustentar o crescimento da economia e buscar uma sociedade mais justa. A disciplina fiscal é necessária para estimular o crédito, fomentar a poupança doméstica e criar um ciclo virtuoso, em que os empresários se sintam encorajados a investir e em que os trabalhadores tenham mais oportunidades, mais empregos e mais renda, com a preservação dos avanços sociais dos últimos 20 anos.

Isso tudo deveria ser uma obviedade. Mas, no Brasil, infelizmente não é. No Congresso, crescem as resistências contra o programa de Levy. E é estarrecedor, para usar uma expressão cara à presidente Dilma Rousseff, que o próprio PT, partido do governo, comande essa resistência. Que é movida, em grande medida, por uma crença pueril de que ajuste fiscal é uma "política de direita" para atender aos interesses dos mais ricos. Uma leitura rasteira das lições econômicas de lorde Maynard Keynes e da realidade brasileira sustenta essa crença. Ela preconiza que o aumento dos gastos públicos leva ao crescimento econômico e combate o desemprego. Não é preciso ir longe para desmentir essa tese. É só olhar para o primeiro mandato de Dilma. Mesmo com gastos desenfreados, o país conheceu a estagflação, combinação de crescimento pífio e inflação alta.

Parte da resistência do PT ao ajuste também é pura demagogia populista. Ela começou a aparecer na forma de emendas apresentadas pelos parlamentares do partido às novas normas para a concessão de seguro-desemprego e pensões por morte, decretadas pelo governo no ano passado. Na terça-feira, dia 10, o PT divulgou um documento em que cobra de Dilma o cumprimento das promessas de campanha de "não mexer nos direitos trabalhistas". Como se as novas normas estivessem a retirar "direitos trabalhistas", e não corrigindo distorções injustificáveis.

No caso do seguro-desemprego, as despesas com o pagamento do benefício a quem perde o emprego cresceram, nos últimos anos, em proporção geométrica. Isso apesar de o país ostentar, segundo os dados oficiais, o menor índice de desemprego da história recente. Para diminuir a rotatividade no mercado de trabalho e desestimular quem pede demissão do emprego com o objetivo de receber o benefício, o governo aumentou o período de carência para a primeira solicitação do seguro de seis para 18 meses. O objetivo é preservar o benefício para quem mais precisa.

No caso das pensões por morte, as novas normas buscam adequar o país à realidade internacional e acabar com os excessos. Os gastos com pensões por morte no Brasil cresceram de R$ 39 bilhões, em 2006, para R$ 86,5 bilhões, em 2013, ou 3,2% do PIB. É mais do que gastam com pensões os países ricos da Europa Ocidental e o Japão - todos com população mais velha que a do Brasil. Não faz sentido que o Estado pague uma pensão vitalícia a uma pessoa jovem, em idade produtiva e sem filhos. Mas, pelas regras anteriores das pensões, isso era permitido. Se um homem de 80 anos se casasse com uma mulher de 20, pagasse um mês de contribuição à Previdência Social pelo teto e, em seguida, morresse, sua cônjuge, mesmo sem filhos e em condições de trabalhar, teria direito a uma pensão pelo resto da vida no valor do teto.

Apesar de distorções desse grau, até mesmo a senadora Gleisi Hoffman (PT-PR), ex-chefe da Casa Civil de Dilma, apresentou emenda para impedir as mudanças que o governo quer fazer nos cálculos das pensões das viúvas. O objetivo é torná-las temporárias para quem é mais jovem e tem condições de inserção no mercado de trabalho. Com amigos desse quilate, é difícil saber com quem Dilma e Levy poderão contar para tirar o país da rota da crise.

Em 2014, as contas do governo federal, antes de registrar as despesas financeiras com pagamento de juros e rolagem da dívida pública, fecharam no vermelho. Foi a primeira vez que isso ocorreu desde 2001. O deficit nominal, que inclui as despesas com juros e a dívida pública, está próximo dos 7% do PIB, mais que o dobro da meta fixada pelo Tratado de Maastricht para os países da União Europeia. A dívida pública chegou a R$ 2,3 trilhões no ano passado, o equivalente a 63,4% do PIB. Nos quatro anos do primeiro mandato de Dilma, houve uma alta de 10 pontos percentuais na dívida. Mantida essa trajetória, as consequências para o país poderiam ser trágicas. O Brasil perderia o grau de investimento dado pelas agências de classificação de risco para os bons devedores. Sem o grau de investimento, os custos para o Estado brasileiro se financiar aumentariam enormemente, com graves consequências econômicas e sociais. Trata-se de uma clara reação em cadeia: menos investimento, menos emprego - e menos dinheiro para políticas de combate à pobreza.

A necessidade de ajuste fiscal, portanto, é óbvia. Pena que no Brasil, muitas vezes, seja difícil para muitos enxergar o óbvio.

Escola de Samba Viradouro -2015

Carlos Drummond de Andrade - Canto Negro

À beira do negro poço
Debruço-me, nada alcanço
Decerto perdi os olhos
Que tinha quando criança

Decerto os perdi, com eles
É que te encarava, preto
Gravura de cama e padre
Talhada em pele, no medo

Ai, preto, que ris em mim
Nesta roupinha de luto
E nesta noite sem causa
Com saudade das ambacas
Que nunca vi, e aonde fui
Num cabelo no sovaco

Preto que vivi, chupando
Já não sei que seios moles
Mais claros no busto preto
No longo corredor preto
Entre volutas de preto
Cachimbo em preta cozinha

Já não sei onde te escondes
Que não me encontro nas tuas
Dobras de manto mortal
Já não sei, negro, em que vaso
Que vão ou que labirinto
De mim, te esquivas a mim
E zombas desta gelada
Calma vã de suíça e de alma
Em que me pranteio, branco
Brinco, bronco, triste blau
De neutro brasão escócio
Meu preto, o bom era o nosso

O mau era o nosso, e amávamos
A comum essência triste
Numa visguenta doçura
De vulva negro-amaranto
Barata! Que vosso preço
Ó corpos de antigamente
Somente estava no dom
De vós mesmos ao desejo
Num entregar-se sem pejo
De terra pisada
Amada
Talvez não, mas que cobiça
Tu me despertavas, linha
Que subindo pele artelho
Enovelando-se no joelho
Dava ao mistério das coxas
Uma ardente pulcritude
Uma graça, uma virtude
Que nem sei como acabava
Entre as moitas e coágulos
De letárgica bacia
Onde a gente se pasmava
Se perdia, se afogava
E depois se ressarcia

Bacia negra, o clarão
Que súbito entremostravas
Ilumina toda a vida
E por sobre a vida entreabre
Um coalho fixo lunar
Neste amarelo descor
Das posses de todo dia
Sol preto sobre água fria

Vejo os garotos na escola
Preto-branco-branco-preto
Vejo pés pretos e uns brancos
Dentes de marfim mordente
O alvor do riso escondendo
Outra negridão maior
O negro central, o negro
Que enegrece teu negrume
E que nada mais resume
Além dessa "solitude"
Que do branco vai ao preto
E do preto volta pleno
De soluços e resmungos
Como um rancor de si mesmo

Como um rancor de si mesmo
Vem do preto essa ternura
Essa onda amarga, esse bafo
A rodar pelas calçadas
Famélica voz perdida
Numa garrafa de breu
De pranto ou coisa nenhuma:
Esse estar e não estar
Esse ir como esse refluir
Dançar de umbigo, litúrgico
Sofrer, brunir bem a roupa
Que só um anjo vestira
Se é que os anjos se mirassem
Essa nostálgica rara
De um país antes dos outros
Antes do mito e do sol
Onde as coisas nem de brancas
Fossem chamadas, lançando-se
Definitivas eternas
Coisas bem antes dos homens

À beira do negro poço
Debruço-me; e nele vejo
Agora que não sou moço
Um passarinho e um desejo