Folha de S. Paulo
Disputa entre Lula e Tarcísio por protagonismo
em ações anti-PCC ilustra um dos problemas da democracia
São importantes as operações
policiais deflagradas contra o PCC. A
infiltração da economia formal e do próprio poder público pelo crime organizado
é um fenômeno que precisa ser combatido com urgência, já que, quanto mais
avança, mais difícil se torna seu enfrentamento.
É pena que a boa notícia institucional tenha sido maculada pelo que parece ser uma disputa eleitoreira entre Lula e Tarcísio de Freitas, que provavelmente se enfrentarão no pleito presidencial de 2026, pela paternidade das ações.
Apesar de lamentável, o episódio ilustra bem
um dos problemas da democracia. Na maioria das situações, o eleitor atua no
escuro. Isso é óbvio quando os cidadãos escolhem alguém novo para um cargo. Os
mais conscienciosos ainda procurarão se informar, analisando o passado e as
ligações do postulante, mas a maioria não se dá ao trabalho, formando seu voto
por outras vias.
No caso de reeleições, o cidadão opera com
uma carga maior de informações, já que teve a oportunidade de avaliar o
desempenho do governante. É esse o motivo por que alguns cientistas políticos
são contra o fim da reeleição. Nós eliminaríamos uma das poucas situações em
que o eleitor não agiria às cegas.
O problema é que não é tão fácil separar o
que, numa administração, resulta de virtudes ou de vícios do governante e o que
se deve a outros fatores. Essa é uma tarefa difícil até para cientistas
montados em toneladas de dados. De um modo geral, o eleitorado acaba
recompensando ou punindo o gestor por coisas que ele não fez ou sobre as quais
tem parcela diminuta de responsabilidade.
É bem esse o caso dessas operações anti-PCC.
Elas foram conduzidas por órgãos como o Ministério Público paulista, PF e
Receita Federal, que são compostos por servidores com carreira de Estado e que
operam com grande autonomia. Em muitos casos, até para evitar vazamentos, só
informam suas chefias políticas das operações vindouras na undécima hora.
A democracia funciona não porque gere bons
líderes, mas porque assegura transições pacíficas de poder.
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