O Estado de S. Paulo
Falta, no Brasil atual, uma força democrática que se qualifique para apresentar um amplo programa de reformas para a sociedade
Não é nova a percepção de que a vida moderna
traria consigo ondas seguidas de mal-estar. Freud se referiu a isso em O
mal-estar na civilização, no qual enfatizou que os indivíduos modernos
reprimiriam (ou sublimariam) seus desejos e vontades (sua liberdade) para não
contestar a segurança e as normas sociais.
No início dos anos 90, o filósofo Charles Taylor revisitou o tema, para se referir ao “desconforto” que haveria nas sociedades modernas, invadidas pelo lado sombrio do individualismo e pela afirmação de um egocentrismo avesso ao interesse pelos demais. Mais tarde, Zygmunt Bauman aproveitou a tese de Freud para constatar que “o mal-estar na pós-modernidade” viria do fato de que os indivíduos se soltam de sua segurança para abraçar dimensões crescentes de liberdade, com as quais não sabem o que fazer.
Hoje, saturados pela oferta abundante de
informações, mercadorias, ondas de prazer fugaz, redes sociais tóxicas, os
indivíduos não sabem em que portos ancorar, atordoados pela insegurança
existencial, pelo desemprego estrutural, pela miséria de muitos, pelo vazio de
utopias e perspectivas políticas. A sociedade está viva, mas parece doente,
como se não soubesse aproveitar o que tem de bom, a começar da sua força
cultural, energética, ambiental. O mal-estar social incomoda e paralisa o País.
Invade a relação da população com o Estado. Alimenta o populismo de extrema
direita, com sua demagogia “patriótica”, agora desmentida ostensivamente pelas
estripulias agressivas de Trump.
Assim como o conceito de crise, mal-estar é
expressão escorregadia. Ambas sugerem desgaste, disfuncionalidade sistêmica,
desorganização, paralisia, desconforto, sofrimento. Referem-se a situações que
podem afetar uma sociedade inteira. Crises (políticas, econômicas, morais,
éticas) reverberam, atingem o mercado, a governança, os cálculos eleitorais, o
bem-estar da população, a democracia.
O Brasil está hoje num momento estranho,
analítica e politicamente desafiador. Ora parece uma bomba prestes a ser detonada.
Ora entra em aparente normalidade, que logo se desfaz. Há bastante gente
participando do jogo político miúdo, mas os times mal se compõem e não têm
liderança. Difícil captar o que virá da política, como se um véu recobrisse
tudo.
Os Poderes podem muito, mas não dirigem. Os
problemas se acumulam. As relações entre o Executivo e o Legislativo estão sem
sintonia, colidem entre si e com o Judiciário. Os partidos não organizam nem
interagem com a sociedade. Os campos políticos e ideológicos estão cortados por
desentendimentos. A disposição acentuada para o confronto político é o vetor
que mais se manifesta. Faltam moderadores e construtores de consensos.
Há muitas pessoas indignadas, revoltadas,
confusas, propensas a buscar um “salvador” ou descrentes de tudo, a começar da
política, dos políticos e dos governos. Há muitas vozes, mas pouca coordenação.
Muito medo, raiva e ódio, pouca disposição para o diálogo.
As atitudes e medidas de Trump prejudicam
nossa economia e agridem o Estado brasileiro. A extrema direita saúda a
bandeira dos EUA e bate continência para ela. Eduardo Bolsonaro conspira
abertamente nos EUA. A insensatez é completa, exibida em nome do combate ao
“comunismo” e a um “sistema viciado”.
O bolsonarismo age com estridência e
contestação generalizada, e, com isso captura muitos descontentes. Não se sabe
o fôlego que terá com Bolsonaro na prisão. Uma possibilidade real é que navegue
na onda trumpista e se marginalize, o que incentivará a direita a dele se
afastar. Mas isso não é certo. Seus seguidores batem bumbos que são ouvidos
pelos setores conservadores radicalizados.
Se uma centro-direita pósbolsonarista surgir,
ela poderá se afirmar de modo competitivo. Sabendo dosar sua postulação e atuar
com inteligência, terá como se converter em fator de agregação política
alternativa, capaz de apresentar um plano de governo para repor o País nos
trilhos e dissolver a polarização.
O terreno está dado. Exige passos largos, e
não há, no Brasil, boas lideranças políticas, nem uma população disposta a se
engajar na política. Com o governo Lula entregue a manobras eleitorais,
restringido por compromissos que não lhe dão rumo, o mal-estar tende a se
manter.
Quando diferentes crises se entrecruzam, sua
gravidade aumenta. Pode não ocorrer um desfecho e os estragos irem se
normalizando, com o mal-estar se tornando parte da vida e a sociedade ir
sangrando lentamente.
Os motores eleitorais estão a esquentar.
Políticos pragmáticos se movimentam. Não há como afirmar que evoluirão a ponto
de fornecer saídas para o País. O fato é que falta, no Brasil atual, uma força
democrática (liberais, socialistas, socialdemocratas) que se qualifique para
apresentar um amplo programa de reformas para a sociedade.
A esquerda democrática, hoje atarantada,
deveria dar sua contribuição, no mínimo apresentando um desenho estratégico de
País. Pouco adianta ter combatividade com intransigência e mãos vazias, sem
admitir que o mundo mudou e novas ideias são indispensáveis.
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