O Estado de S. Paulo
A Economist já fez o foguete do Brasil
decolar. A estátua do Cristo ganhava os céus como expressão de destino glorioso
e inevitável. Numa época em que foguete não dava ré. Deu.
O País – agora com o mito chifrudo – está
novamente na capa da revista. Daria lição de maturidade democrática. O País –
do orçamento secreto – daria lição de maturidade democrática. O do juiz
empresário, do juiz líder de bancada, do juiz justiceiro – daria lição de
maturidade democrática. Etc.
Esse seria exercício infinito; e desnecessário. Bastará ler a reportagem para compreender que a Economist ignora o Brasil. O País – esmagado entre lulismo e bolsonarismo, e com liberdade defendida pelos métodos xandônicos – é retratado como “um exemplo para a recuperação de países afetados pela febre populista”. A febre populista brasileira dura mais de 20 anos e já contaminou as eleições de 2026.
O objeto da matéria é o julgamento do
golpista Jair Bolsonaro. Esse é o objeto explícito. Há o implícito: a situação
institucional dos EUA, o Brasil superficial como escada a que a revista
manifeste seu inconformismo por Trump ter podido se eleger presidente. A
inelegibilidade de Bolsonaro, fetichizada, desejada para o outro, produz
distorções como aquela segundo a qual os dois países pareceriam “estar trocando
de lugar”.
“Os EUA estão se tornando mais corruptos,
protecionistas e autoritários.” Como se o que ocorre lá – a degradação
americana – tornasse o Brasil menos corrupto, protecionista e autoritário. Os
EUA se aproximam do Brasil, estruturalmente corrupto, protecionista e
autoritário.
Corrupto – e com o combate à corrupção
submetido à repercussão geral das anulações de Dias Toffoli. Protecionista – as
nossas empresas, incapazes de competir, tendo assegurados os seus direitos à
improdutividade. E autoritário – o estado democrático de direito garantido pelo
delegadão cuja mão firme se constituiu na fonte do Direito.
“Paradoxalmente, uma tarefa fundamental é
controlar o STF, apesar de seu papel como guardião da democracia brasileira.” O
caso da existência de uma Corte que, sendo protetora da democracia, precisa ao
mesmo tempo ser controlada. A Economist nega o que enuncia.
“Às vezes, os próprios juízes iniciam
processos, incluindo um inquérito sobre ameaças online, algumas delas contra o
próprio tribunal – tornando-o vítima, promotor e juiz.” Mais: “Há amplo
reconhecimento de que juízes não eleitos, com tanto poder, podem corroer a
política, bem como salvá-la de golpes”. Podem, com tanto poder. Podem tudo.
Podem até golpear a política salvando-a de golpes.
Esse jogo de sorte – ou de azar – não
perturba a revista porque, tendo marcado seu ponto sobre os EUA, está se
lixando para o Brasil. O que a conclusão “apertem-o-cinto-o-piloto-sumiu”
confirma: “Pelo menos temporariamente, o papel do adulto das Américas mudou
para o sul do continente”. Ou seja: não há adultos. Ou: se o adulto é o Brasil,
imagine as crianças.
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