Folha de S. Paulo
Operação federal e paulista também deve
chegar a políticos envolvidos com o crime
O ataque
federal e paulista contra o PCC e seus associados foi a maior e a
melhor notícia sobre o combate ao crime em décadas, a perder de vista no
passado. Foi grande, bem pensada, recorreu a instrumentos técnicos inteligentes
e acertou alvo certo, em investigação de mais de dois anos. Começou com a
finança do crime, deve chegar a políticos estaduais e federais dos direitões.
Lamentáveis foram disputas
mesquinhas a respeito de protagonismo, além de conflitos mais discretos,
mas problemáticos, quanto a atribuições e prerrogativas de cada instituição
envolvida na operação.
Esses ciúmes e até discordâncias legítimas são outro sinal de que um programa contra o crime ainda precisa de reorganização institucional. O país civilizado precisa chegar a algum acordo quanto à coordenação nacional.
O formato desse sistema é assunto enrolado;
demanda muita conversa com especialistas, em governos, polícias, Ministério
Público, centros de pesquisa e universidades. Mas há gente para pensar e
fazer, como em tantos outros assuntos, quando há debate racional, não importam
as divergências fundamentadas.
É possível fazer, ressalte-se, desde que se
criem condições políticas para a implementação do programa. Fez-se assim reforma
tributária importante, que sobreviveu mesmo às avacalhações do Congresso
dado a lobbies.
Ou ainda: é possível fazer se não houver
forças políticas desleais, dadas à depredação institucional, hordas bárbaras
dedicadas a suprimir a deliberação democrática, que demanda disposição para a
controvérsia racional. Parece tudo óbvio. Na prática, mais e mais se trata de
situação rara no que deveria ser o debate público, com efeitos práticos.
Em janeiro, uma norma da Receita
Federal passava a exigir
de "fintechs" e similares informações sobre operações de clientes,
o que já era obrigação dos bancos. Era apenas uniformização normativa justa.
Era uma das normas necessárias para fechar brechas que facilitam picaretagens
financeiras —há outras lacunas normativas que dificultam o rastreamento das
andanças do dinheiro.
A propaganda mentirosa das direitas, da
bolsonarista em particular, acabou por derrubar a norma. Dizia, em suma, que o
governo Lula quereria espionar os "Pix", armação
destinada a facilitar uma fantasiosa cobrança de impostos sobre essas
transações. Era um ataque destrutivo à possibilidade de debate e deliberação
democrática.
A propaganda da direita facilitou a vida
do PCC.
Continuou difícil saber o que se passa em uma "fintech", ou pelo
menos ficou muito mais difícil do que no caso dos bancos. Obviamente, a coisa
vem de longe.
Porém, considerem-se as consequências das
ações dessa gente lunática, perturbada, ignorante, violenta e dada à política
de terra arrasada. Foram criminosamente nocivas na epidemia de Covid, na
vacinação, no 8 de janeiro e na repressão do PCC e de seus associados.
As e-financeiras bandidas permitiram a
criação de fundos de financiamento do crime e do aumento do poder econômico
dessa gente, que passou a ter terminal portuário, frota de centenas de
caminhões, centenas de postos, usinas e empresas de importação de combustíveis,
sabe-se lá quantos imóveis, para nem falar de empresas de ônibus e de fundos de
financiamento político.
É uma emergência nacional. Vai ser um
desastre nacional caso o crime e outras degradações possam ainda a contar com o
auxílio das direitas bárbaras, bolsonarista em particular.
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