sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Direita facilita vida do crime, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Operação federal e paulista também deve chegar a políticos envolvidos com o crime

O ataque federal e paulista contra o PCC e seus associados foi a maior e a melhor notícia sobre o combate ao crime em décadas, a perder de vista no passado. Foi grande, bem pensada, recorreu a instrumentos técnicos inteligentes e acertou alvo certo, em investigação de mais de dois anos. Começou com a finança do crime, deve chegar a políticos estaduais e federais dos direitões.

Lamentáveis foram disputas mesquinhas a respeito de protagonismo, além de conflitos mais discretos, mas problemáticos, quanto a atribuições e prerrogativas de cada instituição envolvida na operação.

Esses ciúmes e até discordâncias legítimas são outro sinal de que um programa contra o crime ainda precisa de reorganização institucional. O país civilizado precisa chegar a algum acordo quanto à coordenação nacional.

O formato desse sistema é assunto enrolado; demanda muita conversa com especialistas, em governos, polícias, Ministério Público, centros de pesquisa e universidades. Mas há gente para pensar e fazer, como em tantos outros assuntos, quando há debate racional, não importam as divergências fundamentadas.

É possível fazer, ressalte-se, desde que se criem condições políticas para a implementação do programa. Fez-se assim reforma tributária importante, que sobreviveu mesmo às avacalhações do Congresso dado a lobbies.

Ou ainda: é possível fazer se não houver forças políticas desleais, dadas à depredação institucional, hordas bárbaras dedicadas a suprimir a deliberação democrática, que demanda disposição para a controvérsia racional. Parece tudo óbvio. Na prática, mais e mais se trata de situação rara no que deveria ser o debate público, com efeitos práticos.

Em janeiro, uma norma da Receita Federal passava a exigir de "fintechs" e similares informações sobre operações de clientes, o que já era obrigação dos bancos. Era apenas uniformização normativa justa. Era uma das normas necessárias para fechar brechas que facilitam picaretagens financeiras —há outras lacunas normativas que dificultam o rastreamento das andanças do dinheiro.

A propaganda mentirosa das direitas, da bolsonarista em particular, acabou por derrubar a norma. Dizia, em suma, que o governo Lula quereria espionar os "Pix", armação destinada a facilitar uma fantasiosa cobrança de impostos sobre essas transações. Era um ataque destrutivo à possibilidade de debate e deliberação democrática.

A propaganda da direita facilitou a vida do PCC. Continuou difícil saber o que se passa em uma "fintech", ou pelo menos ficou muito mais difícil do que no caso dos bancos. Obviamente, a coisa vem de longe.

Porém, considerem-se as consequências das ações dessa gente lunática, perturbada, ignorante, violenta e dada à política de terra arrasada. Foram criminosamente nocivas na epidemia de Covid, na vacinação, no 8 de janeiro e na repressão do PCC e de seus associados.

As e-financeiras bandidas permitiram a criação de fundos de financiamento do crime e do aumento do poder econômico dessa gente, que passou a ter terminal portuário, frota de centenas de caminhões, centenas de postos, usinas e empresas de importação de combustíveis, sabe-se lá quantos imóveis, para nem falar de empresas de ônibus e de fundos de financiamento político.

É uma emergência nacional. Vai ser um desastre nacional caso o crime e outras degradações possam ainda a contar com o auxílio das direitas bárbaras, bolsonarista em particular.

 

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