Correio Braziliense
O Brasil, por força das circunstâncias,
precisou se levantar de seu berço esplêndido para manter o nível de crescimento
econômico. O grande teste vai ocorrer a partir da próxima semana, com o
julgamento de Bolsonaro
A eleição para o governo do país é o momento de crise do regime presidencialista. O sistema coloca nas mãos de uma única pessoa todo o poder do país, ressalvados os pesos e contrapesos que protegem o cidadão e as instituições. É muita pressão sobre uma só pessoa, que é obrigada a viajar de Norte a Sul, Leste a Oeste, no país de dimensões continentais, fazendo promessas e ouvindo queixas. O candidato fala sobre todos os assuntos, debate todas as questões e se envolve em questões pessoais, paroquiais e transcendentais. É um massacre que, no final, revela um vencedor. Aquele que resistir por mais tempo a cerveja quente, café frio e maionese vencida.
É uma crise anunciada. Acontece de quatro em
quatro anos no Brasil, quando, além da eleição, é permitida a recondução do
governante por uma vez. Na realidade, o candidato faz aquele esforço
monumental, gasta rios de dinheiro, porque pretende comprometer oito anos de
sua vida e garantir o futuro de seus amigos mais próximos. É o que ocorre agora
com o presidente Lula, veterano de três mandatos presidenciais. Ele terá mais
de 80 anos no momento da eleição, se decidir concorrer ao quarto mandato, como
parece que vai acontecer. O pessoal que cresceu na política ao redor dele não
possui alternativas. O PT não se preparou para a eventualidade de ser obrigado
a escolher outro nome. Assim, por razões políticas, partidárias e pessoais, só
há a alternativa Lula para o Partido dos Trabalhadores. Sem alternativas, está
decidido. Ele será candidato apesar da idade e das ideias ainda fixadas no
sindicalismo dos anos setenta. Não há escolha.
Lula é um homem de sorte. Surgiu no horizonte
dele o destemperado Donald Trump, presidente dos Estados Unidos que decidiu
ouvir sugestões e conselhos do filho de Jair Bolsonaro. Recorreu a medidas
extremamente violentas contra o Estado brasileiro, puniu ministros do Supremo
Tribunal Federal com a cassação de vistos, impôs a draconiana Lei Magnitsky
contra magistrados, além de sancionar o país com o tarifaço de 50%. Ou seja,
por causa de fofocas, intrigas e meias-verdades, o presidente dos Estados
Unidos fez renascer dentro do Brasil sentimentos nativistas, a defesa do país e
reabilitou o forte sentimento antiamericano. Lula, que estava em situação
eleitoral difícil, reabilitou-se e voltou a liderar as pesquisas de opinião
para Presidência da República.
Os tempos estão tão estranhos que The
Economist, revista inglesa de cunho liberal, diz que Brasil e Estados Unidos
mudaram de posição. O Brasil seria o líder da defesa da democracia no
continente, enquanto os Estados Unidos, de Donald Trump, tornaram-se um país
corrupto que anda pelo lado ruim da força política. O presidente dos Estados
Unidos, que reúne a fauna exótica da extrema-direita, persegue funcionários,
decidiu demitir uma diretora do Federal Reserve (o Banco Central deles),
decisão que vai provocar longa discussão judicial. O Federal Reserve é
autônomo. O presidente vive delimitando prazos para que a Rússia faça acordo ou
pelo menos um cessar-fogo com a Ucrânia. Todos os prazos são vencidos, e nada
acontece. O mesmo ocorre com Israel, que não para de matar palestinos,
crianças, mulheres e jornalistas, sem qualquer razão. Trump faz adversários
novos a cada dia dentro e fora de seu país. Não é boa política atacar várias
frentes ao mesmo tempo.
Surpreende a docilidade do americano médio
diante da agressão contra as tradicionais e seculares instituições
norte-americanas. Nada ali foi construído ao acaso. Os migrantes, europeus e
asiáticos, trabalharam muito para construir o país das liberdades individuais e
da democracia liberal. Substituíram a figura do rei por um presidente eleito
por período definido. Tudo isso para evitar o totalitarismo que existia na
Europa. Os fundadores do país decidiram criar uma sociedade fundamentada nas
leis. Mas não há como prevenir a ascensão de um desequilibrado à presidência do
país.
Essas novidades levaram o brasileiro a sair
de sua zona de conforto. O vice-presidente Geraldo Alckmin, designado como
negociador do governo, foi ao México, onde conseguiu compromissos de elevação
de compras de vários itens da pauta nacional de exportações. O governo do Japão
também se movimentou, a China apareceu e os vizinhos estão começando a perceber
que o comércio dentro do continente possui enorme espaço para crescer. A
ministra do Planejamento, Simone Tebet, elaborou minucioso projeto de
integração com os países na margem do Pacífico. O Brasil, por força das
circunstâncias, precisou se levantar de seu berço esplêndido para manter o
nível de crescimento econômico.
O grande teste vai ocorrer a partir da
próxima semana, quando o grupo de militares de civis que tentaram implantar uma
ditadura no Brasil começará a ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Os
marines vão invadir o Brasil?
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