sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Religião na política do golpe, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Há risco para a democracia em grupos organizados no poder que creem e decidem que a Bíblia se sobrepõe à Constituição

A abordagem pela Polícia Federal, no Aeroporto do Galeão, de um pastor pentecostal carioca que voltava de Portugal lançou luz sobre um dos nossos mais graves problemas políticos. O da promiscuidade entre religião e política ou a infiltração da religião na política e na estrutura do Estado laico.

Até o fim do Império, a Igreja Católica era religião do Estado. Vigia o chamado regime do padroado. O governo nomeava os bispos, e o papa os confirmava. Portanto, o governo controlava a igreja. E a religião controlava as mentes. Os religiosos recebiam a côngrua, um salário, como se fossem funcionários públicos.

A igreja aspirava a independência em relação ao Estado, o que o governo não apoiava. Veio daí a chamada Questão Religiosa, na década de 1870, que culminou com a prisão de alguns bispos.

O Brasil republicano, já antes da Constituição de 1891, havia produzido legislação que fazia do Estado um Estado não confessional.

A batalha das ruas na festa de 7 de Setembro, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Julgamento e a tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras darão o tom das manifestações neste ano

O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado, com início na próxima semana, terá a festa da Independência no meio do caminho, e o simbolismo da data, tão caro ao bolsonarismo, ofuscado pelo cinza chumbo do tarifaço americano. Haja verde e amarelo para resgatar o azul anil do céu da pátria brasileira.

Os bolsonaristas sairão às ruas no dia 7 de Setembro para protestar em defesa da liberdade, da democracia, e cobrar do Congresso a lei da anistia, que favoreceria Bolsonaro, os demais réus na ação da trama golpista e os presos pelos atos de 8 de janeiro. Da mesma forma, apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, partidos de esquerda e movimentos sociais sairão às ruas, na mesma data, para protestar em defesa da democracia, da soberania nacional e contra a anistia.

As máfias e a blindagem, por Vera Magalhães

O Globo

Operação Carbono Oculto mandou para o lixo a PEC que visava a tornar parlamentares cidadãos acima de qualquer investigação

Poucas vezes a realidade assolou de forma tão definitiva um plano dos políticos para enfiar goela abaixo da sociedade um projeto inaceitável. A deflagração da Operação Carbono Oculto mandou para a lata do lixo a vergonhosa Proposta de Emenda à Constituição que visava a tornar os parlamentares cidadãos acima de qualquer investigação, ainda que sob suspeita. O que a ação conjunta da Polícia Federal, da Receita Federal e do Ministério Público desnudou foi uma sofisticada engrenagem financeira, com óbvios sustentáculos na política e no próprio aparato estatal ainda por aprofundar, comprovando que não há mais ambiente a salvo do crime organizado.

A coincidência entre a revelação da teia complexa de crimes — com um braço bilionário de movimentação de recursos ilícitos por meio de fintechs bem instaladas em endereços nobres — e a pressa com que deputados agiam para tocar adiante a PEC da Blindagem foi fatal. Jogou por terra a desfaçatez daqueles interessados em impunidade, que, até a véspera, enchiam a boca para evocar a Constituição de 1988 e a pomposa palavra “prerrogativas” para disfarçar os reais objetivos.

Pacote da retaliação, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Assustados com investigações, deputados articulam retrocesso em causa própria

A Câmara prepara um pacote de medidas para blindar parlamentares de investigações. O objetivo é mudar a Constituição para deixar deputados e senadores fora do alcance da Justiça. Se possível, bem longe do Supremo Tribunal Federal.

A votação estava prevista para a noite de quarta, mas foi adiada por risco de derrota. Se depender de Hugo Motta e de seu padrinho, Arthur Lira, voltará à pauta na próxima semana —ou quando os ventos de Brasília soprarem a favor. A articulação não é nova, mas ganhou força com o avanço dos inquéritos que apuram desvios em emendas parlamentares.

Laboratório Brasil, por Pablo Ortellado

O Globo

Cabe-nos decidir se seremos objeto do experimento ou parte do desenho de sua contenção

Nas últimas semanas, tentamos entender por que, diferentemente dos outros países, as tarifas americanas impostas aos produtos brasileiros foram tão elevadas e tiveram declarada motivação política, e não econômica. Além das tarifas, houve a aplicação da Lei Magnitsky e a restrição de vistos de entrada, imposta a diversas autoridades brasileiras.

Na direita, esse tratamento especial é evidência dos flagrantes abusos da Justiça, que efetivamente transformaram o país numa ditadura judicial, despertando a resposta americana. Na esquerda, é prova do sucesso da reação institucional brasileira às ameaças à democracia, que ativou vínculos de solidariedade política entre trumpistas e bolsonaristas para impedir que essa resposta se torne modelo internacional. Porém talvez o Brasil não seja um caso excepcional, mas apenas um caso-teste, um laboratório da política externa de Donald Trump.

Soberania além da propaganda, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Seria uma pena se o tema soberania se limitasse apenas ao lado simbólico das manifestações de afeto pelo Brasil

A momentânea crise entre Brasil e EUA colocou a soberania no topo da agenda. É o tema central do discurso do governo, deve se tornar slogan e, possivelmente, ocupar um espaço de destaque na campanha presidencial. Mesmo sem subestimar a importância simbólica da soberania com seus discursos e bonés, é preciso aproveitar a oportunidade para um exame objetivo da real independência de um país. De nada adianta apenas cantar: “Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”. É preciso examinar, serenamente, os caminhos da soberania, e isso inspira um bom debate para o ano eleitoral que se aproxima.

A União faz a força, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Efeito virtuoso da operação contra as facções criminosas: empurrar adiante o pacote da segurança

Além de ser a maior e mais impactante operação contra o crime organizado no Brasil, a ação conjunta da Polícia Federal, de PMs estaduais, da Receita Federal e das Receitas estaduais tem um efeito colateral virtuoso: joga luzes sobre a necessidade e a urgência do pacote da Segurança Pública que o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, tenta a duras penas aprovar. Um projeto imprescindível para unir forças – aliás, as forças de segurança – contra uma praga que não é apenas nacional, mas transnacional.

Julgar Bolsonaro é sinal de maturidade democrática, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Provável condenação é passo tenso, mas necessário para superar ambiguidades históricas do Brasil diante da democracia

Marcado para começar no próximo dia 2 de setembro, o julgamento dos acusados de tentativa de golpe de Estado no Brasil terá como ápice a decisão que envolverá seu principal personagem, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A proximidade do evento, como disse Luís Roberto Barroso, atual presidente do Supremo Tribunal Federal, envolve o país em "momento tenso", o que é compreensível dado o ineditismo da situação.

Afinal, como também pontuou o ministro, trata-se do encerramento de um ciclo "em que se considerava legitimo e aceitável a quebra de legalidade constitucional por não gostar do resultado eleitoral". Na realidade, mais do que um ciclo e mais do que mera insatisfação com escolhas das urnas, o julgamento prenuncia um passo maduro no acerto de contas do Brasil com a estabilidade democrática.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Asfixia financeira é melhor método para combater PCC

O Globo

Operação contra a facção mostra que, com inteligência e cooperação, é possível sufocar crime organizado

Foi exemplar a operação deflagrada nesta quinta-feira por uma força-tarefa incluindo Polícia FederalReceita Federal e Ministério Público de São Paulo, com o objetivo de asfixiar financeiramente a facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). A ação, considerada a maior do tipo já realizada no país, visa a desmantelar redes usadas para lavar dinheiro do crime organizado. A operação mobilizou mais de 1.400 agentes em oito estados e mirou 350 alvos de busca e apreensão, alguns no centro financeiro paulistano, a Avenida Faria Lima.

Aos trancos e barrancos, por Orlando Thomé Cordeiro

Correio Braziliense

Nos últimos 30 anos, tem sido possível aprimorar o Código Eleitoral. Tivemos progressos e retrocessos, mas é fundamental reconhecer que o Congresso vem cumprindo seu papel nesse assunto

Semana passada a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o novo Código Eleitoral, consolidando sete legislações sobre o tema. Ele ainda terá que ser submetido ao plenário e, posteriormente, reenviado para a Câmara dos Deputados, sendo que, para valer nas eleições de 2026, precisará ser promulgado até o próximo dia 3 de outubro.

Infelizmente, uma das mudanças mais relevantes foi deixada de lado: a adoção do sistema distrital, puro ou misto, com as candidaturas sendo apresentadas à população em listas partidárias. Dessa forma, continuamos com a anomalia representada pelo sistema proporcional em que a maioria dos votos acaba sendo para quem não se elege, além de dificultar sobremaneira o controle social de cada mandato pelo eleitorado.

É hora de esmiuçar quem é o "andar de cima" do PCC, por Roberto Fonseca

Correio Braziliense

A megaoperação desta quinta-feira demonstrou que o foco deve ser a asfixia financeira, pois é o dinheiro que impulsiona a evolução e a expansão do crime

Como a italiana Mãos Limpas, a megaoperação Carbono Oculto, ao lado da Quasar e da Tank, tem tudo para ser um ponto de virada no combate ao crime organizado no Brasil. Mais do que uma simples ação policial, a operação desvendou a mais ambiciosa e sofisticada estratégia de uma organização criminosa que não se limita ao tráfico de drogas e à violência urbana. O que emergiu dessa investigação é a imagem de uma verdadeira máfia brasileira, que opera não nas vielas e morros, mas nas salas de diretoria de empresas e nos corredores do mercado financeiro.

É, sem dúvida, uma mudança de paradigma em relação à atuação do Estado. Ao atingir o "andar de cima" do crime organizado, como enfatizou o ministro Fernando Haddad, as autoridades demonstraram que o combate efetivo não se limita a prisões, mas à desarticulação dos esquemas financeiros. Essa abordagem é a única capaz de enfrentar uma organização que se comporta como uma empresa.

Direita facilita vida do crime, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Operação federal e paulista também deve chegar a políticos envolvidos com o crime

O ataque federal e paulista contra o PCC e seus associados foi a maior e a melhor notícia sobre o combate ao crime em décadas, a perder de vista no passado. Foi grande, bem pensada, recorreu a instrumentos técnicos inteligentes e acertou alvo certo, em investigação de mais de dois anos. Começou com a finança do crime, deve chegar a políticos estaduais e federais dos direitões.

Lamentáveis foram disputas mesquinhas a respeito de protagonismo, além de conflitos mais discretos, mas problemáticos, quanto a atribuições e prerrogativas de cada instituição envolvida na operação.

Esses ciúmes e até discordâncias legítimas são outro sinal de que um programa contra o crime ainda precisa de reorganização institucional. O país civilizado precisa chegar a algum acordo quanto à coordenação nacional.

Conivência do Congresso sobre devedor contumaz abriu brecha ao crime organizado, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Operação Carbono Oculto deixa claro que crime organizado se instalou na brecha legal sobre sonegação

Há oito anos, começaram a tramitar no Congresso os primeiros projetos para tipificação do devedor contumaz. Não são contribuintes inadimplentes ou sonegadores comuns. São contumazes. Quando autuados, passam a operar por outros CNPJs.

Na ausência desta tipificação, o crime organizado se espraiou pela economia formal, principalmente no setor de combustíveis, valendo-se, além da sonegação contumaz, de mercadoria desviada, depósitos clandestinos, fraudes nas alfândegas, venda fictícia e empresas fantasmas. A operação Carbono Oculto deixou claro que o crime organizado se instalou na brecha aberta aos devedores contumazes que contou com a conivência do freio parlamentar.

Operação mostra como PCC virou a máfia brasileira, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Ação sobre infiltração econômica pode chegar a políticos; até diesel da Rússia foi alvo

Em 1931, agentes do Tesouro conseguiram o impossível: levaram o gângster mais famoso dos Estados Unidos, Al Capone, à cadeia por evasão fiscal. Os dólares falaram mais alto do que o sangue derramado nos incontáveis massacres ordenados pelo bandido.

A história foi romantizada por Hollywood em "Os Intocáveis", premiado filme de 1987, mas inspiração primária permanece para os candidatos a Eliot Ness, o opaco agente fiscal à frente da caça ao bandido.

O espírito de Ness permeia a Operação Carbono Oculto, da Receita Federal com apoio de forças policiais. Trabalhando de forma incisiva em frentes pouco usuais no mundo investigativo brasileiro, ela pretende ir além da captura de um vilão: busca explicitar o caráter de máfia da facção criminosa Primeiro Comando da Capital.

Operação exemplar une entes do Estado, por Míriam Leitão

 

O Globo

megaoperação contra o crime organizado deflagrada nesta quinta-feira mostra como é fundamental que as instâncias de poder no Brasil atuem conjuntamente. Nos diferentes níveis do Estado (governos estaduais, governo federal e suas várias agências), muitas vezes existe competição, e isso atrapalha o objetivo. Nesse caso, a Receita Federal trabalhou com a Polícia Federal.

O fio inicial foi a Receita desconfiar de lavagem de dinheiro em fintechs. Esse foi o ponto de partida para se descobrir esse esquema enorme. Isso reforça a importância da atuação coordenada. Ao menos 40 fundos de investimentos, com patrimônio de R$ 30 bilhões, controlados pelo PCC, financiaram a compra de um terminal portuário, quatro usinas produtoras de álcool (mais duas usinas em parceria ou em processo de aquisição), 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis pelo Brasil.

Com que boné andas? Eu te direi quem és, por Ruth de Aquino

O Globo

"O Brasil é dos brasileiros" ou "MAGA - Make America Great Again" ? Escolha seu acessório para o verão

“O Brasil é dos brasileiros”. Ou dos americanos? Boné azul ou vermelho? O verão pré-eleição pode alçar o boné a acessório indispensável da moda praia, não pela proteção solar, mas pelo filtro ideológico. O MAGA – “Make America Great Again” – ameaça mofar nas prateleiras tropicais. Até o Tarcísio guardou seu boné no armário, depois que Eduardo o peitou.

Nessa guerra de egos, desconfio que ninguém com o boné vermelho MAGA do Trump tem condições de vencer a eleição presidencial do Brasil em 2026. Não sou estrategista política, mas está na cara – ou na cabeça – que o slogan trumpista se tornou tóxico por aqui após a chantagem do tarifaço. Reduziu em 50% as chances eleitorais da direita extremista e colonizada.

Lula usa e abusa, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Em campanha pela reeleição, presidente flerta abertamente com a transgressão às regras eleitorais

Se o uso que o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) faz do cargo para alimentar a campanha à reeleição não é abuso de poder, adiante ficará difícil a Justiça Eleitoral dizer o que é.

Com precisão, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tornou Jair Bolsonaro (PL) inelegível por entender como abusiva reunião do então presidente com embaixadores estrangeiros, nas dependências do Palácio do Planalto, para desqualificar o sistema eletrônico de votação.

A contribuição de Trump para a ciência, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ataques do presidente à ordem estabelecida servirão para testar teses de economistas ligados à escola institucionalista

Donald Trump não é muito benquisto no mundo acadêmico, mas ele está prestando um serviço à ciência, mais especificamente à ciência econômica. É que sua administração ataca tantos aspectos da ordem estabelecida e de forma tão espetacular que ela pode, a exemplo de terremotos e outras calamidades, ser vista como um experimento natural, útil para testar as previsões de economistas institucionalistas.

Poesia | Mauro Mota - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | Antônio Maria e a saudade do Recife