O Globo
Moro num condomínio da Barra da Tijuca. É
mais ou menos como viver num cruzeiro do Wesley Safadão em terra firme
Experimente comentar que foi ao oncologista (eu fui) por causa de uma mancha esquisita, e não são desprezíveis as probabilidades de alguém lembrá-lo de que esse é um típico problema de gente branca. Não porque a incidência de câncer de pele seja menor em pessoas pretas — até é, já que mais melanina oferece maior proteção —, mas porque, comparado a um tumor no pâncreas ou a um AVC, seu mal é, literal e metaforicamente, epidérmico.
Há sempre uma dor maior que a sua, um perrengue
mais cascudo que o seu. E os white people problems, ou WPP, vieram, na onda das
pautas identitárias, para ridicularizar os queixumes de gente privilegiada (=
aquela que possui algo que você ainda não conseguiu ter). Quem reclama de
trocar pneu embaixo de chuva devia pensar nos que não têm carro e chacoalham
nos trens ou se ensardinham em ônibus lotados. Reclame do trem ou do ônibus e
alguém mencionará os que não têm dinheiro sequer para a passagem — ou condições
físicas de pular a catraca — e precisam ir a pé. Isso quando têm pé (sim,
sempre haverá alguém menos branco na escala Pantone da desgraça). Os WPP nunca
foram mais que isso: a hierarquização do sofrimento, a negação da empatia. Um
desprezo reverso, de quem tem menos em relação a quem tem mais.
Moro num condomínio da Barra da Tijuca, o que
é mais ou menos como viver num cruzeiro do Wesley Safadão em terra firme.
Trabalho (tento trabalhar) de janelas fechadas, fone de ouvido e ar ligado (“No
ar condicionado e reclama...”) por causa das estridentes senhorinhas e dos
tonitruantes personal trainers nas aulas de hidroginástica, dos esganiçados
professores de tênis, dos coprolálicos adolescentes nas quadras (“Tem quadra e
piscina e reclama...”). Como nas quebradas, rola baile funk nas churrasqueiras
e festa no apê vizinho, madrugada adentro. Civilidade e lei do silêncio, lá
como cá, são letra morta.
Há, claro, momentos de paz, como as saídas
diárias com os cachorros. Basta evitar os pit bulls, que circulam soltos ou sem
focinheira, exatamente como nas periferias sem lei. Ninguém teve ainda o braço
arrancado ou o pet engolido — só taquicardia ao ver a besta (me refiro ao cão e
a seu tutor, indistintamente) vindo na direção contrária. A taxa de condomínio
é alta (“Mas não é cobrada pela milícia...”), e o IPTU dispensa comentários
(“Mas pelo menos tem segurança”). Não, não tem.
Nesta semana, dois bandidos levaram celular e carteira de um passeador —
o sujeito que ganha a vida andando o dia inteiro, chova ou faça sol,
administrando o ritmo de labradores e buldogues franceses, se abaixando
infinitas vezes para catar cocô. Um cara que não é rico ou branco, mas talvez
não possa reclamar: é um privilegiado que passeia cachorro na Barra (na Baixada,
talvez tivesse levado um tiro).
Por prevenção, agora saio com Duda e Tião sem
levar o celular, desconectado do mundo virtual, curtindo os ciclistas
desembestados, o pancadão que vaza da academia de crosfite, o megafone da Kombi
do ferro-velho, as motos com escapamento adulterado, a brisa do mar. Um
privilégio, não?
Não vou reclamar da espera pelo atendimento
do médico do convênio (“Uma hora? Vá ao SUS...”). E ninguém precisa lembrar que
milhares morrem todo ano de malária, tuberculose ou doença de Chagas. Não era
câncer de pele — esse problema de gente branca, do tipo que se queixa do
barulho, da incivilidade e dos assaltos na Barra da Tijuca.
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