sábado, 30 de agosto de 2025

Sinceramente, Dona Economist, por Flávia Oliveira

O Globo

Sabe lá o que é ser uma nação nascida da brutalidade colonial e, sistematicamente, golpeada?

A revista britânica The Economist escreveu sobre o exemplo de maturidade democrática que o Brasil de Lula dá aos Estados Unidos de Trump. Só pensei em Vinícius de Moraes. Não se trata de “poesia a esta altura”, mas das situações em que brasileiros nadamos de braçada. No livro “Para viver um grande amor” (1962), Vinícius dedicou poema “a um americano simpático, extrovertido e podre de rico” que encontrara em Los Angeles (Califórnia) dias antes de retornar ao Brasil, depois de meia década nos Estados Unidos. Mister Buster não compreendia por que o poeta preferia voltar à Latin America, com prejuízo financeiro, mesmo podendo ficar um ano mais na América. Na resposta em poesia lambuzada de ironia, o brasileiro enfileira bens e serviços, propriedades e angústias que cercam a vida boa do gringo. E finaliza exaltando experiências que só o Brasil proporciona:

— Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:/O senhor sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?/O senhor sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?/O senhor sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

Dois meses atrás, em duro editorial, a Economist afirmou que a política externa de Luiz Inácio Lula da Silva “faz o Brasil parecer cada vez mais hostil ao Ocidente”. Em título, destacou que o presidente da República “perde influência no exterior e popularidade em casa”. Nesta semana, ciente da empreitada de Donald Trump em retaliar mercadorias e autoridades brasileiras por anistia de Jair Bolsonaro, aliado da extrema direita, a revista britânica — conservadora, desde sempre — mudou de tom. “O que o Brasil pode ensinar à América” foi o título de capa para uma encorpada reportagem sobre o julgamento, a partir de terça-feira, do núcleo crucial da trama golpista. Ao todo, são oito réus, entre os quais o ex-presidente, três generais e um almirante.

Contrastando com os Estados Unidos, o Brasil “dá um exemplo de maturidade democrática” por ter investigado criminalmente o ataque às sedes dos três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Nos Estados Unidos, o republicano Trump insuflou a violência contra o Congresso para tentar impedir a certificação da vitória do democrata Joe Biden nas urnas em 2020. Cinco pessoas morreram. Foi acusado de quatro crimes, livrou-se da condenação, elegeu-se para o segundo mandato. Empossado em janeiro último, concedeu indulto coletivo a 1.500 condenados, entre eles Jacob Anthony Chansley, o extremista que, torso nu, rosto pintado com a bandeira americana, pele de urso com chifres na cabeça, viralizou como imagem-símbolo da invasão do Capitólio. A indumentária remete ao tribalismo masculino (ou masculinismo), movimento que advoga a supremacia dos homens, em detrimento dos direitos de mulheres e pessoas LGBTQIA+.

Conhecido por Viking do Capitólio ou Xamã do QAnon — teoria da conspiração que marca o ultratrumpismo —, Chansley foi acusado de seis crimes, mas acabou condenado a 41 meses por obstrução de procedimento eleitoral, depois de acordo com a promotoria. Ficou preso por dois anos e esteve em regime aberto até ser indultado por Trump. Em liberdade, postou numa rede social:

— Fui perdoado, bebê. Agora vou comprar umas armas.

Foi essa figura caricata, radicalizada e anistiada que inspirou a ilustração de capa, em que Bolsonaro usa na cabeça idêntico adereço e traz o rosto pintado com as cores da bandeira do Brasil. A Economist informa que o processo pelo golpe tentado, entre outros crimes, avançou, mesmo sob a pressão dos Estados Unidos. Instado por Eduardo Bolsonaro, o governo Trump impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros, abriu investigação em meia dúzia de setores por concorrência desleal, revogou vistos de autoridades e aplicou a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal no Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro e o filho deputado já estão indiciados por coação no curso do processo.

Em discurso no início do mês, o presidente do Supremo, Luís Roberto Barroso, listou os momentos em que o Brasil enfrentou golpes, contragolpes, intervenções militares, tentativas ou rupturas institucionais. Em 136 anos de República, foram duas dezenas de ameaças, incluindo o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), os 21 anos de ditadura militar (1964-1985) e o plano bolsonarista de ficar no poder, que “fracassou por incompetência, não por intenção”, nas palavras da Economist:

— Os dois países parecem estar trocando de lugar. Os Estados Unidos estão se tornando mais corruptos, protecionistas e autoritários. (...) Em contraste, mesmo com o governo Trump punindo o Brasil por processar Bolsonaro, o país está determinado a salvaguardar e fortalecer sua democracia.

São as marcas de maturidade política a mostrar que, hoje, “o papel do adulto democrático do Hemisfério Ocidental mudou para o Sul”.

É, Dona Economist, sabe lá o que é ser uma nação nascida da brutalidade colonial e, sistematicamente, golpeada?

 

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