terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dilma sobe, mas ainda depende de Ciro para levar disputa ao 2º turno

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

CNT/Sensus mostra Serra com 33,2% das intenções de voto ante 27,8% da ministra, em quadro de empate técnico

Clarissa Oliveira

Alvo de ofensiva do Palácio do Planalto para viabilizar uma eleição plebiscitária em outubro, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) ainda tem força para ditar os contornos da disputa entre o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), na corrida presidencial. Números da última pesquisa do Instituto Sensus, divulgada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), apontam um crescimento de 6,1 pontos para Dilma, colocando-a em situação de empate técnico com Serra. Esse quadro, entretanto, só existe com a permanência de Ciro na corrida presidencial.

O levantamento, que tem margem de erro de três pontos porcentuais para mais ou para menos, mostra Serra com 33,2% das intenções de voto, ante 27,8% de Dilma. Ciro aparece com 11,9%, seguido da pré-candidata do PV, senadora Marina Silva (AC), que tem 6,8%. Em novembro do ano passado, data do último levantamento divulgado pela CNT, Dilma tinha 21,7%. Serra, por sua vez, contabilizava 31,8%, tendo oscilado 1,4 ponto na nova pesquisa.

O efeito da entrada de Ciro na disputa persiste apesar de o deputado ter recuado na comparação com a pesquisa anterior. Afastado da mídia depois de esticar as férias de fim de ano, ele tinha 17,5% das intenções de voto em novembro. Marina, por sua vez, tinha 5,9%.

O empate técnico entre Dilma e Serra desaparece quando o nome de Ciro é retirado da simulação. No cenário traçado sem a candidatura do deputado, a vantagem do tucano sobre a petista passa a ser de 12,2 pontos. Serra vai a 40,7%, enquanto Dilma aparece com 28,5% e Marina com 9,5%.

Apesar da tendência, o Palácio do Planalto trabalha há meses para tirar Ciro da corrida. O governo e o PT apostam na polarização de projetos para impulsionar a candidatura de Dilma e preferem eliminar o risco de Ciro crescer em cima do eleitorado da ministra. Lula, que ainda aguarda uma resposta do deputado, prefere vê-lo como candidato ao governo de São Paulo.

CAMPANHA

Empenhada desde a virada do ano em comandar uma extensa agenda de pré-campanha, Dilma ultrapassou Serra, por exemplo, no Nordeste, reduto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no cenário que contempla quatro candidatos. Teve 38% das intenções de voto, contra 25,4% do tucano. Na pesquisa anterior, a performance da ministra na região era bem diferente - ela tinha 29,5% e o tucano, 30,7%. Dilma cresceu também no Sudeste, que inclui o Estado comandado por Serra. Foi de 17,4% para 22,7%. Mas o tucano mantém-se na dianteira na região, oscilando de 34,4% para 34,7%.

Dilma e Serra também aparecem tecnicamente empatados na pesquisa espontânea. Mas, pela primeira vez, a petista está na frente em números absolutos. Lula ainda lidera, com 18,7%. Dilma tem 9,5% e Serra segue com 9,3%. O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), que já se retirou da corrida, tem 2,1%, Marina tem 1,6% e Ciro, 1,2%.

Serra continua favorito caso a disputa vá ao segundo turno. No primeiro cenário, o tucano vence Dilma por 44% a 37,1%. Em novembro, ele tinha 46,8% e ela registrava 28,2%. Num segundo turno entre Serra e Ciro, o tucano venceria por 47,6% a 26,7%. Um terceiro cenário, prevendo embate entre Dilma e Ciro, dá a vitória à petista, por 43,3% a 31%.


João Bosco Rabello::Pesquisa reflete um só candidato em campanha

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Uma pesquisa reflete necessariamente uma tendência ou um resultado. No contexto eleitoral, o primeiro caso só ocorre com a campanha em estágio mais avançado, com todos os candidatos definidos, alianças regionais seladas, horário gratuito em curso e candidatos expondo, em debates e palanques, suas idéias e propostas para o País.

Não é, decididamente, o cenário em que pesquisas como a divulgada nesta segunda-feira, 1º, pela CNT-Sensus, se desenvolvem. Elas refletem, por enquanto, aquilo que a lógica indicava: a única candidata em campanha ostensiva, ao lado de um presidente com a popularidade na casa dos 80%, cresceu em relação ao seu percentual inicial e ultrapassou a casa dos 20%, meta que se impusera em curto prazo.


Os outros três candidatos não estão em cena – um deles, José Serra, nem mesmo se admite como tal. De Ciro Gomes, até dias atrás em férias no exterior, nem se sabe se manterá a candidatura. Marina Silva, embora assumida, e com o menor índice, ainda não pôs o pé na rua. Portanto, os números não surpreendem e refletem apenas o resultado de uma etapa preliminar em que Dilma não teve concorrentes e contou com o apoio de um cabo eleitoral privilegiado: o presidente Lula.

Mas a pesquisa se presta a reflexões importantes. A primeira delas, a de que a candidatura Ciro Gomes, nesse momento, ajuda mais do que atrapalha Dilma. Sem o seu nome na planilha dos entrevistadores, Serra sai de um empate técnico para um percentual de 40%, que teoricamente indicaria sua vitória no primeiro turno. O que é improvável se confirmar no curso da campanha.

Os votos de Ciro, portanto, migram para o candidato do PSDB, pelo menos nesse momento. O que não deixa de ser curioso, já que declaradamente seu alvo principal é José Serra. Também fica claro que Ciro não se consolida como candidato, pois cai para 11%, o que o aproxima mais de Marina do que de Dilma. Provavelmente ficará a serviço do que for melhor para Lula. Por enquanto, ele se mostra decisivo para levar Dilma ao segundo turno.

Outra reflexão importante, mas também prematura , diz respeito à transferência de votos de Lula para sua candidata. Considerando que a fase atual da campanha é a de construção, pelo Presidente, da candidatura de sua ministra, é razoável dar como seu o percentual de intenções de voto que a pesquisa registra em favor de Dilma. Se os votos prometidos a Dilma são de Lula, resta saber se ele, há um ano em campanha, chegou ao limite dessa capacidade de transferência ou ainda pode mais.

A leitura da pesquisa nos detalhes mostra que a distribuição dos votos de Dilma entre as regiões e os segmentos da população não são uniformes. Ela fica abaixo de Serra em quase todos os segmentos e regiões, exceção para o Nordeste. Isso pode variar para pior ou para melhor para a candidata.

As alianças regionais serão decisivas para dar contornos mais definidos às candidaturas e projetar cenários mais precisos. Há Estados onde Dilma nem precisaria disputar, se os números, nessa pré-campanha, fossem imutáveis. Caso de Pernambuco, por exemplo, onde se beneficia da popularidade de Lula e do governador Eduardo Campos. Mas, e se o senador Jarbas Vasconcelos entrar na disputa estadual e abrir um palanque para Serra?

O quadro em Minas, segundo maior colégio eleitoral não está igualmente definido. O lançamento do ex-presidente Itamar Franco ao Senado, em claro acordo com Aécio Neves, põe em dúvida novamente a anunciada decisão do governador de não ser vice na chapa tucana.

Ainda há muito por acontecer. Deve se esperar mais das primeiras pesquisas feitas após a desincompatibilização de Dilma, quando estará por sua conta e risco, e a entrada em campo de seu principal oponente, o governador José Serra.

Pesquisa pode dar problema para Ciro e ao governo, diz Freire

Estadão.com.br

Para presidente do PPS, 'sem Ciro, o eleitorado tende a dar o voto a Serra. A questão é se vai ter 2º turno'


Rodrigo Álvares

SÃO PAULO - O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (PE), afirmou nesta segunda-feira, 1º, que a pesquisa do Instituto Sensus, realizada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), não acreditar que o deputado Ciro Gomes (PSB-SP) continue como candidato à Presidência da República. Para ele, "a questão é se vai ter segundo turno".

De acordo com Freire, a queda da diferença entre o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT-RS) não atinge a oposição. "A pesquisa pode trazer problema para o Ciro e para o governo. A presença dele não tira votos de Serra. Sem Ciro, o eleitorado tende a dar o voto a Serra. Mas isso é hoje", ressaltou.

No cenário com Ciro, se computada a margem de erro de 3 pontos porcentuais para cima ou para baixo, Serra e Dilma ficam tecnicamente empatados. Serra subiu de 31,8%, em novembro, para 33,2%, em janeiro; Dilma foi de 21,7% para 27,8%; já Ciro, caiu de 17,5% para 11,9%.

O deputado acredita que as articulações estaduais serão decisivas para as eleições: "O PT ainda precisa escolher candidato em São Paulo". Como exemplo, Freire usou as alianças com o candidato do PSDB ao governo de Minas Gerais, Antônio Anastasia, e com o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB) que concorrerá à sucessão de Yeda Crusius (PSDB) no Rio Grande do Sul.

Fernando de Barros e Silva:: Choque de biografias

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - O discurso eleitoral do PT já se fixou em torno da comparação entre os governos de Lula e FHC. Simplificado ao máximo, ele insiste na ideia de que "eles" (tucanos) governavam para os ricos, e "nós" (petistas) governamos para os pobres (ou para todos).

Essa estratégia está em curso e foi usada de maneira ostensiva no programa de TV petista, no final do ano passado. Dizer, à moda tucana, que o mundo real é mais complexo ou que tudo na vida é "um processo" pode até sensibilizar a USP, mas dificilmente vai atrair os votos que importam.

O mote do contra-ataque que o PSDB ensaia na verdade é outro. Interessa aos tucanos contrastar as biografias, não os governos. Serra contra Dilma, e não Lula contra FHC. É o que fez no domingo o cientista político Sergio Fausto, diretor-executivo do iFHC, no artigo "Liderança à altura", publicado em "O Estado de S. Paulo".

Lá, Fausto diz que Serra, ao contrário de Dilma, é alguém "cuja liderança não terá de ser forjada a golpes de marketing eleitoral", pois já "precede a sua candidatura". O tucano teria, além da legitimidade formal para governar, que se conquista nas urnas, uma "legitimidade substantiva", que "só a biografia política pode conferir".

Sobre Dilma, o tucano questiona: "Que cargos eletivos disputou? Quando e onde foi testada nas habilidades que se requerem de uma pessoa que almeja ocupar o principal cargo político do país?". Diante da temeridade de enfrentar Lula, o PSDB busca descredenciar sua pupila.

Vejam -dizem eles- o "artificialismo" dessa candidatura, que nasce da escassez de nomes no PT.

É um argumento válido. Mas alguém deve perguntar se o fenômeno Gilberto Kassab não é uma liderança sem "legitimidade substantiva", forjada "a golpes de marketing"? A não ser que os tucanos digam que a Prefeitura de São Paulo é desimportante e qualquer um pode ocupá-la, ainda precisam defender a escolha da "Dilma de Serra", inclusive debaixo d"água.

Eliane Cantanhêde: Pau a pau

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - José Serra que se cuide, porque as pesquisas começam a dar respostas às duas principais indagações de 2010: o quanto Lula será capaz de transferir sua poderosa popularidade para Dilma Rousseff e quem ganha e quem perde com a desistência de Ciro Gomes.

O pulo de Dilma registrado pela CNT-Sensus confirma a expectativa governista de que, sim, há bastante transferência de voto de Lula para sua candidata, que, de novembro até agora, saiu de 21,7% para 27,8% no cenário que inclui Ciro e de 23,5% para 28,5% sem ele.

A segunda resposta começa a se delinear, mas é cedo para certezas.

O que parece hoje pode não se confirmar amanhã.

Comparando os dois cenários atuais, com e sem Ciro: Dilma varia menos de um ponto (27,8% para 28,5%) quando ele está fora, enquanto Serra salta mais de sete (de 33,2% para 40,7%). Significa que, neste momento, a saída de Ciro favoreceria o tucano. Mas isso depende da campanha. Principalmente da percepção do eleitor de que Ciro é Lula, logo... será Dilma.

Ainda sem Ciro: a soma de Dilma (28,5%) com Marina Silva (9,5%) é menor do que o total de Serra. Equivale a dizer que, se a eleição fosse hoje, Serra estaria eleito já no primeiro turno. Mas é uma hipótese improvável, porque o desempenho de Serra se mantém estável, e o de Dilma é ascendente.

Se o problema do governo é calcular se convém ou não manter Ciro na disputa, o problema do próprio Ciro é outro: a desidratação.

Seu risco é definhar mês após mês, a ponto de chegar ao final comprometendo um futuro promissor.

No mais, um dado da pesquisa é particularmente importante: 20,4%, quase um quarto do eleitorado, anularam o voto ou se declararam indecisos. Dilma está no ataque, conquistando esses votos. Serra está na defensiva, derrapando nas enchentes e mortes em São Paulo. O clima e a temperatura estão mais para ela do que para ele.

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Biruta de aeroporto


Pesquisas eleitorais são como biruta de aeroporto. Servem para os marqueteiros e analistas políticos avaliarem o cenário eleitoral e servem também para orientar o pouso ou a decolagem de quem quer transitar em segurança de um governo para o outro. Por isso, quase sempre, determinam a direção e o ritmo do realinhamento das forças políticas que normalmente ocorre nas eleições. Quando divulgadas, são lidas e interpretadas de diferentes maneiras, não importam os números, de acordo com a conveniência de cada um.

Por exemplo, no caso da pesquisa CNT/Sensus divulgada ontem, uma margem de erro para mais ou para menos de 3% coloca a ministra Dilma Rousseff (PT), com 27,8%, em empate técnico com o líder da disputa, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), que tem 33,2%. Liquida o favoritismo absoluto do candidato tucano e joga uma pá de cal nas pretensões de Ciro Gomes (PSB), com 11,9%. Marina Silva (PV), com 6,8%, se consolida como candidata exótica.

Margem

Porém, considerando a margem de erro no sentido inverso, Serra pode subir para 36,2%; ou Dilma cair para 24,8%; ou Ciro alcançar 14,9%; ou Marina (foto) cair para 3,8%, alterando todo o cenário. Se essa possibilidade existe estatisticamente, como devemos proceder? Como no caso de um exame de Aids que deu positivo com margem de erro de 1/1000. A chance de ser um falso positivo leva o suposto portador do vírus HIV a fazer um novo exame. A repetição confirmará ou não o diagnóstico. É o que acontece com as pesquisas de opinião, com margem de erro muito maior. As últimas mostram que Serra oscila ao manter a liderança (novembro/31,8%, janeiro/33,2%), enquanto Dilma, inequivocamente, consolida-se como sua principal adversária (novembro/21,7%, janeiro/27,8%). Ciro está cada vez mais em segundo plano (novembro/17,5%, janeiro/11,9%). E Marina cresce (novembro/5,9%, janeiro/6,8%).

Expectativa

Qual é o efeito biruta de aeroporto? A maior expectativa de poder em torno de Dilma Rousseff, o que facilita o esforço de Lula no sentido de coerir a base do governo em torno da candidata petista. Por isso, Dilma comemora, mesmo sabendo que Serra , como na pesquisa anterior, ganharia no primeiro turno com Ciro fora da disputa. O tucano teria 40,7% dos votos, mais do que a soma dos votos de Dilma (28,5%) e Marina (9,5%).

Fricção

Na cozinha da ministra Dilma, assessores avaliam que Ciro cumpriu o papel de neutralizar a expectativa de poder que o favoritismo de Serra havia gerado. Agora, é preciso esperar até março e torcer para que ele desista da disputa. Companheiro de viagem, Ciro é a maior fricção na estratégia de transferência de votos de Lula para Dilma, pois não poderia ser atacado. Nesse caso, o fenômeno de transferência de votos de Ciro para Serra poderia se repetir no segundo turno.

Corredor

A Força Sindical calcula que cerca de mil sindicalistas estarão em Brasília hoje para recepcionar os deputados. Cem deles darão as boas vindas aos parlamentares ainda no aeroporto. E a ofensiva continua com 100 banners no caminho até o Congresso, onde os militantes ficarão em vigília pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais

Sombra

O problema da biruta de aeroporto é que ela aponta o rumo do vento, mas não elimina a sombra do futuro. Atores importantes no processo, como Ciro Gomes e o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), dentre outros, se movimentam não apenas em função de 2010. Eles têm estratégias próprias, que miram o pós-Lula, com Serra ou Dilma no poder. Por exemplo, se Dilma ganhar as eleições, será candidata à reeleição ou apoiará a volta de Lula. Se perder, Serra vai querer governar por oito anos. Aparentemente não faz diferença, mas tanto Ciro como Aécio viverão contingências diferentes em qualquer dos dois governos. Por isso, são parceiros de uma estratégia do tipo “viva e deixe viver”.


Perigo/ O Ministério Público Federal no Maranhão investiga o que levou a Secretaria de Saúde a deixar faltar medicamentos de alto custo nos postos do estado, mesmo tendo recebido os repasses do governo federal. Entre 2007 e 2009, o imunossupressor sirolimus sumiu das prateleiras dos postos três vezes. O remédio — que não é vendido em drogarias — é vital para os transplantados.

Hamlet/ Mesmo tendo sido sondado como alternativa para a sucessão do governador José Roberto Arruda (sem partido), o ex-secretário do Trabalho do GDF deputado Bispo Rodovalho (PP-DF) vai deixar a vida pública. Foi decisão dos bispos da Igreja Sara Nossa Terra.

Azebudsman/ O leitor Paulo Cesar Batista contesta a nota intitulada Refluxo, publicada sábado passado, na qual comparamos o Fórum Social Mundial, realizado semana passada, em Porto Alegre, com os anteriores. Argumenta que participaram 30 mil ativistas porque este ano o evento foi descentralizado. É, pode ser.

Imperdível/ Invictus, de Clint Eastwood, com Morgan Freeman no papel do ex-presidente sulafricano Nelson Mandela, é uma lição de marketing político e esportivo por uma causa justa.

Transferência

A oposição e analistas independentes não concordam com esta interpretação, mas a avaliação do Palácio do Planalto é de que a eleição está polarizada e marcha para se tornar um plebiscito sobre o governo Lula. Sem Ciro na disputa, Dilma acabaria beneficiada pelo peso da aprovação do atual governo (71,4%) e do apoio popular ao presidente Lula (81,7%).

Desafetos pressionam Chávez

DEU EM O GLOBO

Ex-aliados isolam presidente ao pedirem que deixe o governo, que consideram ilegítimo

CARACAS – Cresce a pressão sobre o governo de Hugo Chávez. Depois do vice-presidente e ministro da Defesa, Ramón Carrizález, ter pedido demissão na semana passada, e de milhares de estudantes oposicionistas irem às ruas por dias seguidos protestar contra as restrições a canais de TV a cabo, ontem foi a vez de um grupo de ex-aliados — incluindo antigos ministros e militares — pedir a renúncia do presidente, alegando que tudo o que Chávez argumentara para chegar ao poder em 1999 “hoje o torna ílegitimo”. Cada vez mais isolado, o governo ampliou ontem o plano de racionamento elétrico na capital, para contornar a crise de energia do país: a obrigatoriedade de diminuir consumo em 20% se estenderá a mais categorias de grandes consumidores, como hotéis, indústrias e escritórios.

Pequenos comércios e residências não seriam afetados.

Segundo o texto de protesto publicado ontem em diversos jornais por ex-chavistas, o presidente “não tem autoridade moral e material para governar, porque não responde à satisfação das exigências do povo”. Entre esses antigos aliados que hoje formam o chamado Polo Constitucional, que assina o documento, destacam-se o ex-chanceler Luis Alfonso Dávila, o exchefe militar e ministro da Defesa Raúl Baduel, e os militares Yoel Acosta e Jesús Urdaneta, que eram do comando das Forças Armadas e participaram, junto com Chávez, da tentativa de golpe de Estado em fevereiro de 1992.

Líderes estudantis denunciam abusos

O grupo cita como argumentos que Chávez usou para chegar ao poder em 1999 os princípios de Simón Bolívar e a luta contra a insegurança, a pobreza e a corrupção.

— Tudo o que o senhor argumentou para chegar ao poder hoje em dia o ilegitima. O povo sofre com a insegurança pessoal, com menos liberdade, com menos segurança jurídica e social. E se aprofunda a pobreza de nossa gente — leu o exchanceler Luis Alfonso Dávila ao apresentar o manifesto.

Ainda segundo o texto opositor, após mais de uma década de governo, os serviços públicos “são um caos”; a economia “vive uma de suas crises mais profundas apesar da abundância de petróleo”, e a corrupção, “que constitui o estigma moral de um governo e foi bandeira de sua proposta política”, favorece “o enriquecimento ilícito mais obsceno já presenciado”.

O texto condena ainda a repressão contra meios de comunicação e jornalistas, tachando-a de “violação descarada e permanente dos direitos humanos”, e contra manifestações de estudantes. Ainda ontem, líderes de três das principais universidades venezuelanas se reuniram para denunciar a repressão que vêm sofrendo, como o ataque de vândalos contra a Universidade Católica Andrés Bello na última sexta.

— A denúncia é que estamos sendo sistematicamente atacados por grupos violentos que não representam opção alguma, que são uma minoria — disse Roberto Patiño, presidente da Federação de Centros Universitários da Universidade Simón Bolívar, ao jornal “El Nacional”, acrescentando que a Promotoria investiga a universidade, sob a acusação de instigar a insurreição, devido a um comunicado em que a reitoria convocava professores a apoiar o movimento oposicionista. — Amanhã (hoje), o movimento estudantil estará na Promotoria para entregar provas de que somos inocentes. Os violentos são os outros.

Um dos líderes do movimento estudantil oposicionista, Roderick Navarro, da Universidade Central da Venezuela, também protestou: — Quanto mais nos reprimirem, mais iremos às ruas. Decidimos nos transformar nos protagonistas da mudança e deixar de ser espectadores da crise. Não podemos criticar, criticar e nada propor.

Presidente da Constituinte de 1999 e ex-chavista, Luis Miquilena também apoiou ontem a onda de protestos estudantis, defendendo que “é necessário enfrentar o poder Executivo e isso só é possível com a união de todas as forças cívicas que existem no país”.

Segundo o jornal local “El Universal”, o Foro Penal Venezuelano (FPV) e outras organizações não governamentais denunciaram ontem que, na última semana, 14 violações diretas dos direitos humanos foram registradas, assim como 85 prisões em sete estados do país — incluindo Mérida, onde dois jovens morreram em protestos na última terçafeira.

Integrante do FPV, o advogado Alfredo Romero afirmou que a semana passada foi de “grave repressão” e de forte perseguição política, e que nas manifestações em repúdio à suspensão do sinal da TV a cabo RCTV, as detenções foram feitas arbitrariamente por policiais e forças de segurança do Estado.

“Quanto mais nos reprimirem, mais iremos às ruas. Decidimos nos transformar nos protagonistas da mudança e deixar de ser espectadores da crise"

Roderick Navarro, líder estudantil

Chávez poupa residências de racionamento

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Plano para Caracas prevê que "grandes consumidores" reduzam consumo de energia em 20% e isenta "setores de alta sensibilidade social"

Governo não diz quem será afetado tampouco quando o projeto, o terceiro para tentar controlar a crise energética, entrará em vigor

Fabiano Maisonnave

CARACAS - Com a popularidade em queda e enfrentando dificuldades administrativas em pleno ano eleitoral, o governo Hugo Chávez divulgou anteontem à noite um novo plano de racionamento para Caracas, que deixará de fora setores de "alta sensibilidade social".A medida, que afeta a capital do país, foi divulgada só por uma nota no site da Agência Bolivariana de Notícias (ABN), apesar de Chávez ter tratado da falta de energia em boa parte do seu programa de TV dominical, "Alô, Presidente".

O novo plano prevê que os "grandes consumidores" de Caracas reduzam o consumo de energia em 20%, deixando de fora "pequenos comércios, o setor residencial e setores de alta sensibilidade social", segundo a ABN. O governo, porém, não especificou quem será afetado nem quando o plano entrará em vigor.

É o terceiro plano de racionamento para Caracas -nos anteriores, Chávez recuou devido à má reação da opinião pública.

Em dezembro, o governo determinara que os shopping centers fechassem às 21h, o que deixaria a cidade praticamente sem cinemas abertos à noite. Ao mesmo tempo, fechariam bares e outros centros de diversão noturna que funcionam nos shoppings. A restrição foi cancelada antes de ser implantada.

Em meados do mês passado, Chávez lançou um duro plano de racionamento, que deixaria praticamente todo o país, incluindo Caracas, sem luz durante quatro horas a cada dois dias, num sistema de rodízio por partes da cidade. Dessa vez, o novo recuo na capital (o programa foi mantido no resto do país) veio acompanhado da demissão do ministro da Energia Elétrica, Ángel Rodríguez.

Junto com o racionamento, Chávez vem tentando aumentar a produção elétrica do país.

Amanhã, conforme a Folha antecipou, uma comitiva venezuelana chega a Brasília para se reunir com técnicos brasileiros. Na agenda, a busca de apoio técnico para a usina de Guri, que abastece 70% do país, mas sofre com a falta de chuvas. O Brasil também deve ajudar a reformar as sucateadas usinas termelétricas do país.

Anteontem, Chávez anunciou um fundo emergencial de US$ 1 bilhão, para ser usado na produção de energia elétrica a curto prazo, por meio de usinas termelétricas.

A crise energética, o aumento da violência, o racionamento de água em Caracas e a pressão inflacionária vêm minando a popularidade de Chávez, que, segundo o instituto Datanálisis, está em 46%. Apesar de relativamente alta, é a primeira vez que se situa abaixo dos 50% em cinco anos.

Na capital venezuelana, a deterioração de sua popularidade remonta a 2007, quando Chávez foi derrotado no referendo sobre a reforma constitucional. Em 2008, a oposição venceu em 4 dos 5 municípios e ainda arrebatou o governo distrital de Caracas.

Em setembro, a Venezuela volta às urnas para eleger a nova Assembleia, hoje controlada pelo chavismo.

Arnaldo Jabor:: Nunca fomos tão felizes

DEU EM O GLOBO

O escândalo permanente está nos ensinando muito

Volto hoje de férias… (“nao fez falta alguma” — pensam meus inimigos…) e me sinto paralisado diante do tempo, das notícias. Um cansaço me toma: analisar o óbvio… CPIs, roubalheiras, gastos públicos, campanha ilegal, Dilma, stress de Lula, PMDB tomando conta das agências, TCU humilhado, PAC, PAC, PAC… Preciso mudar de repertório. Por isso, tento descobrir, com pinça e lupa, alguma melhoria nesses anos de tantos escândalos e desacertos.

Desculpem meu otimismo — que é visto com desconfiança (“ahhh… alguma coisa ele está querendo…”) —, mas várias coisas boas já nos aconteceram, apesar do país manipulado por interesses políticos sujos, apesar da lentidão de nossa história torta, que anda como bêbada em volta de nosso destino.

Mas, da bosta, muitas flores germinam.

A sociedade civil, na falta de nome melhor, ganhou consciência de sua importância. A sociedade já pensa em “nós” e não em “eles” , os remotos donos do poder. Apesar do populismo em alta, já deixamos de ser “vítimas” e passamos a ser “cúmplices”.

Já entrou na consciência da população a diferença entre “estatal” e “público”. O Estado esteve sempre dentro de nossa alma, muito mais que os burocratas, muito mais que as companhias estatais, o Estado está dentro de nós, em cada célula de nossa formação. Mas, hoje, já confundimos menos “governo” com “Estado”. A ideia do Estado como responsável por nossas vidas já se dissolve com a modernidade.

A quebra do Estado brasileiro, no meio dos anos 1980, foi ruim e boa. Deu-nos uma “orfandade” diante do gigante quebrado, mas despertou desejo de autonomia na sociedade.

Deixou claro que o Estado tem de existir para a sociedade e não o contrário, como ainda é.Raiou a noção de responsabilidade civil e fiscal; entrou em nossa consciência de coloniais “exilados em sua própria terra”, a ideia de que, em finanças, não se gasta mais do que se tem. O mesmo vale para a vida social e política: já existe em nossas cabeças a ideia do “possível”, em vez da velha bravata das utopias, que ficou apenas para malucos bolchevistas que ainda dormem nos buracos do poder.

Ao contrário do simplismo de ver tudo por uma ótica “macro”, generalizante, as crises na economia mundial nos ensinaram a importância dos detalhes “micro”, das pequenas causas que derrubam um universo. É mais importante a competência indutiva que as utopias dedutivas. Uns garotos comedores de hambúrguer de Wall Street podem arrebentar o capitalismo, com mais força que os velhos leninistas.

Sabemos que capital tem de ter limites.

Resta saber como.

Diminuiu a divisão ideológica entre direita e esquerda. Agora é pragmatismo e eficiência.

Mais importante que apontar causas para a pobreza é descobrir formas de combatê-la. O horror do Haiti talvez ensine (um pouco) que a miséria brutal não pode conviver com os satélites dançando entre os anéis de Saturno. Injustiça social dá prejuízo financeiro. O sonho de uma grande economia sem sociedade acabou, pois uma gigantesca fusão corporativa final excluiria a vida em nome do mercado. As corporações descobrem que a justiça social é uma necessidade de mercado.

A globalização da economia é um bonde carrregado de problemas novos, que pode nos jogar num vazio de excluídos. Mas tem a vantagem de nos colocar mais perto da verdade nacional, rompendo as paredes da “taba imaginária”, uma ilha ibérica de esperança vã.

A globalização nos trouxe o contato com métodos de gestão e administração mais anglosaxônicos, trouxe dinamismo para empresas, trouxe nova ética empresarial, nova ética contábil. Hoje, já podemos pensar em um novo nacionalismo sem cair nos antigos esquematismos.

A tal “mão invisível do mercado” pode nos dar bananas, claro. Mas o conceito de “mercado” dinamiza a autorregulação da vida social e econômica do país. “Mercado” como termômetro dos perigos da injustiça, mas também como sensor dos desejos sociais; “mercado” como amenizador de certezas burras; “Mercado” como relativizador de um poder público totalitário. Hoje, o inimigo principal não é mais a “burguesia” gorda e fumando charuto; o inimigo é a incompetência estatal e simbioses corruptas com um empresariado dependente.

Já entendemos que a ideia de “solução” para o país é um mito. Nunca se chega a uma “solução” histórica. Seria o tal “fim” do Fukuyama, que tantos filósofos amam em segredo.

E, pelo avesso, a ideia deprimida de “insolubilidade” é também um pretexto reacionário.Podemos, no máximo, limpar caminhos, sanear processos. A ideia de “solução” é substituída pela de “processo”.

A sordidez nacional que a democracia exibe, a corrupção, a falta de vergonha política, a violência, todas as falhas boçais do sistema sugerem que a contrapartida para combatêlas deveriam ser medidas boçais, violentas.

Só que, para desarmar a eterna bomba suja nacional, há que ter paciência e aceitar complexidades.

Radicalidade não é apelar para a ignorância. Grossura contra grossura se anulam mutuamente.

Já percebemos que os problemas do Brasil são muito mais complicados do que uma mera questão de injustica social, a ser resolvida apenas pela dinâmica de uma “luta de classes”.

A injustica é endêmica e de tal modo paralisante que inviabiliza até um embate de classes. A má distribuição de renda não é causa; é consequência de uma secular estrutura autocrática, de um Estado patrimonialista que tem de ser reformado.

Já sabemos que o Brasil é este país que está aí, com suas deficiências e políticos atrasados.Não há uma outra nação. Mudar o país tem de ser “por dentro”, e não uma intervenção mágica, ditatorial ou golpista.

Ou seja, alegrai-vos otimistas. Há luz ao fim desse túnel imundo. Com suas alianças espúrias e com o método “contemporâneo” e a cínica praticidade com que Lula governou, enxergamos o país como “nunca antes”.

As duas grandes obras de Lula: por conciliador, impediu o poder dos jacobinos bolchevistas e, com suas alianças, mostrou que o Brasil é só um grande PMDB. Esta é nossa verdade.

Luiz Gonzaga Belluzo :: Um bom livro sobre a crise

DEU NO VALOR ECONÔMICO

A crise financeira desatou um movimento de críticas ao paradigma dominante na teoria econômica. Se a memória não falha, acho que já tratei nesta coluna do texto do biógrafo de Keynes, Robert Skideslsky, "The Return of the Master". No gênero, o jornalista inglês John Cassidy escreveu o livro "How Markets Fail", que merece mais do que um fim de semana dedicado à leitura. Nele o autor combina erudição, simplicidade e sobretudo capacidade de situar as teorias em seu ambiente histórico, social e político, o que torna a crítica mais consistente e afasta as tentações das manobras pseudocientíficas que o sociólogo americano Wright Mills chamava de "empirismo abstrato".

Cassidy começa com Adam Smith, celebrado fundador da Economia Política que, na Teoria dos Sentimentos Morais pretendia "provar que, anteriormente a qualquer lei ou instituição positiva, a mente estava dotada naturalmente da faculdade que permitia distinguir, em certas ações e afeições, as qualidades do certo, do louvável e do virtuoso e, em outras, aquelas do errado, do condenável e do vicioso...." É por meio da razão que descobrimos essas regras gerais de justiça que regulam nossas ações.

Na "Riqueza das Nações", Smith derivou a propensão para a troca a partir das inclinações naturais do indivíduo. Naquele "estado rude e primitivo da sociedade", a troca de mercadorias decorreria da disposição benevolente dos indivíduos ao relacionamento com o "outro". Os produtores privados de mercadorias, ao buscar o seu interesse, "constituem" a sociedade. Smith busca afirmar a autonomia da sociedade econômica em relação ao Estado sublinhando o caráter natural e "espontâneo" das relações fundadas no autointeresse coordenado pela sabedoria providencial e impessoal da Mão Invisível. Smith, diz Cassidy, recomendava restrições à liberdade para a operação dos bancos, "que podem colocar em perigo a segurança de toda a sociedade e, por isso, devem ser disciplinados pelas leis dos governos, desde os mais livres aos mais despóticos."

Ao longo do século XIX, a economia tomou como paradigma a imponente construção da mecânica clássica e como paradigma moral o utilitarismo da filosofia radical do final do século XVIII. O homo oeconomicus, dotado de conhecimento perfeito, busca maximizar sua utilidade ou os seus ganhos diante das restrições de recursos que lhe são impostas pela natureza ou pelo estado da técnica. Essa metafísica da corrente dominante supõe uma ontologia do econômico que postula certa concepção do modo de ser, uma visão da estrutura e das conexões da sociedade. Para esse paradigma, a sociedade onde se desenvolve a ação econômica é constituída mediante a agregação dos indivíduos, articulados entre si por nexos externos e não necessários.

Os modelos de equilíbrio geral, com informação perfeita e mercados competitivos para todas as datas e contingências, são replicantes do Demônio de Laplace. Em seu pecado original de orgulho iluminista, o deus-mercado se pretende "uma inteligência que abarcaria, na mesma fórmula, os movimentos dos maiores corpos do universo e do menor átomo: para ele nada seria incerto e o futuro e o passado estariam sempre presentes sob seus olhos."

Cassidy mostra com clareza e simplicidade que nos anos 70, o "nobelizado" Robert Lucas juntou o suposto das expectativas racionais ao modelo de equilíbrio geral para reintroduzir, na contramão da Revolução Keynesiana, o Demônio de Laplace no universo da moderna teoria econômica. Com esse movimento, Lucas expulsou do paraíso da respeitabilidade acadêmica as ideias keynesianas de incerteza e de instabilidade da economia capitalista.

A propósito de capitalismo, John Cassidy ironiza a concepção "lucasiana" da sociedade e da economia: "Ele criou um capitalismo sem capitalistas, em que as empresas são meras abstrações que transformam insumos em produtos". Nesse capitalismo sem capitalistas, Lucas adotou a teoria dos mercados eficientes para o conjunto da economia. Eugene Fama e outros estenderam tal hipótese para os mercados financeiros. "Lucas assumiu que os mercados de bens, de trabalho, todo e qualquer mercado, eram igualmente eficientes."

A suposição fundamental das teorias novo-clássicas, com expectativas racionais, assegura que a estrutura do sistema econômico no futuro já está determinada agora. Isso porque a função de probabilidades que governou a economia no passado tem a mesma distribuição que a governa no presente e a governará no futuro.

Cassidy discorda. Para ele, a ação econômica numa sociedade capitalista é definida pelo caráter crucial das antecipações do grupo social que detêm o controle da riqueza e que deve decidir o seu uso a partir do critério da vantagem privada. Os planos privados de utilização da riqueza são racionais do ponto de vista individual, mas o turbilhão de ações egoístas, ao modificar irremediavelmente as circunstâncias em que as decisões foram concebidas, pode levar a um processo cumulativo de erros.

Cito Cassidy: "A ideia de que o comportamento racional do investidor pode levar a um resultado coletivamente irracional - um bolha, por exemplo - é tão antiga quanto a famosa South Sea Bubble de 1720. Muitos investidores sabiam que as informações sobre os ganhos do comércio entre a Espanha e a América Latina eram exageradas e as empresas que lançavam ações no mercado de Londres eram fraudulentas."

Nos mercados financeiros, as decisões são comandadas por impulsos, medos e súbitas mudanças no estado de expectativas. Os investidores e os senhores da finança têm a faculdade de usar o poder conferido pelo controle do dinheiro e do crédito para beneficiar o conjunto da sociedade ou simplesmente entregar-se ao "amor do dinheiro" e à proteção patrimonial, produzindo crises e desigualdade.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras.

BOM DIA! - André Rio - De Chapéu de Sol Aberto / Juventude Dourada / Cala a Boca Menino / Oh! Bela (Capiba)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Reflexão do dia – José de Souza Martins

“A devolução dessas empresas saneadas ao mercado e à competição enfraqueceu o clientelismo político ao suprimir privilégios, um dos grandes passos do governo de FHC no sentido de fortalecer a representação política e o Estado democrático e republicano. Ora, justamente aí está o recuo do governo Lula que, espontaneamente refém das oligarquias e dos partidos oligárquicos, regenerou amplamente a dominação patrimonial e o clientelismo que lhe corresponde. Na companhia de sua candidata Dilma, ainda ministra, Lula não tem feito outra coisa senão distribuir recursos e afagos que viabilizam essa ressurreição do passado e do atraso como meio de obstar e condicionar o processo democrático. “


(José de Souza Martins, ontem, em artigo O Estado de S. Paulo /Aliás)

Fernando de Barros e Silva: Que esquerda é essa?

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Como retrato da esquerda, o Fórum Social Mundial nos oferece uma imagem melancólica. De um lado, o evento, encerrado ontem, se presta a ser um palco de aclamação do lulismo; de outro, reitera sem mais dogmas anticapitalistas, fazendo tabula rasa do legado ruinoso dos experimentos coletivistas do século 20.

Em sua 10ª edição, o fórum agrega uma esquerda que transita entre o novo pragmatismo e a utopia de antigamente, sem que se detenha na crítica de nenhum dos polos. Adesista e fundamentalista ao mesmo tempo, essa esquerda age como quem quer usufruir todos os benefícios possíveis deste mundo (lulista), sem prejuízo de manter intacto o clichê do "outro mundo possível".

Entre o radicalismo vazio e o apego ao poder, haveria uma trilha menos cômoda. Algo como o compromisso com a redução das desigualdades, com o combate à corrupção em todas as suas formas e a defesa da democracia e do pluralismo -tudo combinado numa perspectiva reformista, que se paute pelo realismo sem abrir mão de princípios.

Não é isso, como se sabe, o que seduz os funcionários da utopia. Mas que esquerda é essa que vira as costas aos estudantes venezuelanos e não se manifesta contra a escalada autoritária de Chávez? Que esquerda é essa, para quem o mensalão não existiu ou acha que "a vida é assim mesmo"? Que esquerda é essa, capaz de defender a barba de Fidel Castro e o bigode de José Sarney?

Não há dúvida de que existe uma maioria bem intencionada entre os participantes do fórum.

Mas o evento se tornou coisa de profissionais. Com raríssimas exceções, os intelectuais que contam não perdem mais tempo por lá. Restou um lúmpen "pensante" que fez do fórum o seu negócio. Gente, aliás, que cansou de esperar Godot e hoje enche as burras à custa do lulismo. São parasitas do Estado que adoram ressuscitar o fantasma neoliberal diante de plateias embasbacadas para manter viva a sua boquinha.

Será possível ainda ser de esquerda sem parecer idiota ou espertalhão?

PPS e PMN lançam comitê pró-Jarbas

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Com o intuito de trabalhar os nomes dos pré-candidatos a governador de Pernambuco, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), e a presidente da República, José Serra (PSDB), que é governador de São Paulo, os integrantes dos diretórios regionais do PPS e do PMN aprovaram, sábado (30), a formação de um comitê suprapartidário. A ideia é percorrer todos os municípios da Região Metropolitana do Recife e do interior do Estado para defender o projeto dos partidos que fazem oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As reuniões estão sendo agendadas e a primeira ocorrerá na semana seguinte ao Carnaval, em Jaboatão dos Guararapes.

Mesmo sem a oficialização das duas pré-candidaturas, o PPS e o PMN não cogitam outra hipótese que não seja Serra para a Presidência e Jarbas para o Palácio do Campo das Princesas. “Temos convicção de que existe uma chance concreta para ganhar a eleição nas esferas estadual e federal”, discursou o presidente regional do PPS, o deputado federal Raul Jungmann. O líder maior do PMN no Estado, Sílvio Barbosa, também está otimista. “Não conseguimos visualizar outros nomes, mas temos logo que mostrar as fraquezas dos adversários”, opinou.

De acordo com a leitura feita pelas duas agremiações, as pesquisas de opinião que apontam um crescimento da pré-candidatura de Dilma Rousseff (PT), ministra da Casa Civil, registram a transferência de votos do presidente Lula, mas nenhum candidato se elege em cima de “muletas”. A expectativa deles é que esses índices se estabilizem e que Serra cresça. Em nível estadual, os oposicionistas consideram que há “insatisfações latentes” na esfera do governo, o que pode provocar uma reação de parte dos prefeitos governistas. Um grupo pode migrar para o “outro lado”.

Os diretórios do PPS e do PMN aprovaram, também na reunião de sábado, o nome do médico Guilherme Robalinho (PPS) para o Senado. Salientando que essa estratégia não representa nenhum tipo de resistência aos nomes já postos – como os dos senadores Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB), que são candidatos à reeleição –, os líderes das siglas frisaram que Robalinho é uma opção “mais à esquerda” e vai “trazer votos” da RMR.

Bolsa-Família e eleição - Editorial

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A regra definida pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) para as famílias inscritas no programa Bolsa-Família continuarem recebendo o benefício era clara: as que não tivessem atualizado seu cadastro há mais de dois anos teriam o benefício cancelado. Mas, no fim do ano passado, quando constatou que, apenas no primeiro grupo recadastrado, havia quase 1 milhão de famílias que deveriam ter o benefício cancelado, o MDS discretamente mudou a regra, por meio de uma simples "instrução operacional". Essas famílias continuarão a receber o Bolsa-Família, mesmo sem a atualização cadastral. Tomada pouco antes do início de um ano em que haverá eleição presidencial, na qual a candidata oficial certamente utilizará o Bolsa-Família como um de seus principais temas de campanha, a decisão do MDS deixa no ar um cheiro de oportunismo eleitoral.

No ano passado, cerca de 3,4 milhões de famílias, de um total de 12,4 milhões beneficiadas pelo Bolsa-Família, deveriam atualizar seus cadastros. Entre fevereiro e outubro de 2009, as prefeituras, convocadas pelo MDS para colaborar nessa tarefa, conseguiram atualizar o cadastro de 2,2 milhões de famílias. Estas continuarão a receber normalmente o benefício. Algumas inscritas no programa não foram encontradas, outras foram excluídas por estarem fora do perfil, outras, ainda, tiveram o benefício cancelado porque não cumpriram as exigências (em matéria de educação e saúde) para o recebimento.

Sobraram 975 mil famílias que não atualizaram o cadastro e, "por isso, tiveram o benefício bloqueado na folha de pagamento de novembro pelo motivo "encerramento do prazo para revisão cadastral"", como anunciou nota do MDS, no dia 10 de dezembro.

A instrução do Ministério para o eventual desbloqueio nesses casos era precisa: "Para desbloquear o benefício dessas famílias, o gestor deve atualizar o cadastro da família no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) do governo federal e aguardar de dois a quatro dias, quando esta informação será incorporada ao Sistema de Gestão de Benefícios e o benefício será desbloqueado automaticamente." Não foi preciso o gestor tomar essas providências. Menos de duas semanas depois de ter anunciado os resultados do recadastramento, que implicavam a exclusão de quase 30% das famílias pesquisadas, a Secretaria Nacional de Renda de Cidadania (Senarc) do MDS baixou a instrução operacional com informações sobre procedimentos para atualização e revalidação cadastral das famílias inscritas no CadÚnico.

A instrução estabelece "novos conceitos" para a revisão cadastral. O mais interessante é o de "validade do benefício". Por meio de um complicado jogo de palavras, esse "conceito" estabelece que, por determinado período, as famílias inscritas no programa que não atualizaram o cadastro ou que passaram a ter renda familiar per capita superior ao teto de R$ 140 mensais "poderão continuar recebendo os benefícios financeiros do Bolsa-Família".

Resumidamente, durante a "validade do benefício", a regra de exclusão não vale para 1 milhão de famílias, formadas por um número ainda maior de eleitores que em outubro votarão para presidente, governador, senadores, deputado federal e deputado estadual.

Talvez seja mera coincidência, mas é sugestivo que a "validade do benefício" termina no dia 31 de outubro de 2010, quando, se houver necessidade, será realizado o segundo turno da eleição para presidente da República e para governador. Encerrado o prazo, "caso os cadastros ainda estejam nessas condições (desatualizados), caberá, respectivamente, bloqueio e cancelamento do benefício", diz a instrução do MDS.

O Bolsa-Família tem sido elogiado por seu impacto na redução da pobreza e por sua exigência de contrapartida das famílias beneficiadas, como a manutenção dos filhos na escola e o cumprimento de normas de saúde e higiene. Mas a falta de limites claros para o término do pagamento dos benefícios e seu caráter assistencialista o tornam vulnerável às críticas. Seu uso com aparente interesse eleitoral, como nesse caso, o enfraquece ainda mais.

Fernando Rodrigues:: Anistia à brasileira

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Está em curso desde 2008 no Supremo Tribunal Federal uma ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil contra a Lei da Anistia. A OAB argumenta não ser correto estender o perdão para "crimes comuns praticados por agentes da repressão".

Nesses casos, o STF pede pareceres aos órgãos envolvidos. A Advocacia Geral da União manifestou-se pela validade integral da lei, ou seja, a favor do artigo que perdoa crimes "de qualquer natureza" praticados por motivação política no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979.

No último sábado, a Procuradoria Geral da União divulgou seu parecer. Embora também seja no sentido de manter a validade da Lei da Anistia, traz uma nuança relevante. A PGR exorta o Supremo Tribunal Federal a reconhecer a legitimidade da lei, mas, "no mesmo compasso, afirmar a possibilidade de acesso aos documentos históricos como forma de exercício do direito fundamental à verdade".

Faz toda a diferença. O país não tem como fazer as pazes com seu passado sem conhecer exatamente a história dos 21 anos da ditadura militar, de 1964 a 1985.

Calcula-se que 50 mil pessoas tenham sido presas somente no início do período autoritário. Perto de 20 mil brasileiros foram submetidos a torturas. Cerca de 400 acabaram mortos ou estão desaparecidos até hoje. Milhares de prisões políticas não tiveram registro oficial. Mandatos políticos cassados passaram de 4.800.

Com os pareceres já emitidos, o Supremo está pronto para votar a ação sobre a Lei da Anistia. Ainda que opte pelo perdão para tantas atrocidades, dará um passo importante se determinar a revelação de toda a documentação existente. Com mais transparência, as famílias dos desaparecidos poderão, pelo menos, saber o que se passou -e, a partir daí, individualmente, tentar a reparação devida.

CHARGE


Jornal do Commercio (PE)

Ricardo Noblat:: Dilma aperta Serra

DEU EM O GLOBO

O que disse Lula quando o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, pediu socorro na última quarta-feira para tornar viável a candidatura a presidente da República do deputado Ciro Gomes (PSB-CE)? Os dois conversaram a respeito antes de Lula ser internado às pressas no Hospital Português do Recife. Sua pressão arterial era de 18 por 12.

Eduardo havia argumentado com Lula que a candidatura de Ciro seria vital para impulsionar o crescimento do PSB e ampliar as chances de Dilma Rousseff derrotar José Serra (PSDB) em um possível segundo turno. Dos 10 candidatos do partido a governos estaduais, cinco lideram as pesquisas de intenção de voto. O PSB tem 29 deputados federais. Imagina eleger entre 40 a 45.

Como presidente do PSB, Eduardo pretendia que Lula cedesse a Ciro o passe de dois pequenos partidos, talvez o PCdoB e o PP. Sem tal favor, Ciro não será candidato, garantiu Eduardo. É mínimo o tempo de propaganda eleitoral do PSB no rádio e na televisão. Só aumentará via coligação com outros partidos. Lula também poderia indicar fontes de financiamento para a campanha de Ciro.

E o que respondeu Lula? Primeiro elogiou Ciro, seu ex-ministro da Integração Nacional. Chorou ao afirmar que nenhum ministro foi mais leal do que ele. Segundo admitiu carecer de autoridade para exigir que companheiros desistissem de ser candidatos – logo ele, que disputou cinco eleições presidenciais seguidas. Por último, esqueceu de responder ao pedido de ajuda de Eduardo.

"Não disse sim nem disse não”, contou Eduardo a um assessor. “Se não disse sim nem não é porque é não”. Para o público externo foi oferecida a desculpa de que Eduardo e Lula adiaram a decisão sobre o destino de Ciro. O programa semestral de propaganda do PSB na televisão irá ao ar no próximo dia 18. Eduardo espera que ele sirva para Ciro amealhar mais votos. Se isso ocorrer – quem sabe?

Em dezembro do ano passado, quando o Datafolha sondou a intenção de voto dos brasileiros ouvindo 11.429 pessoas em todos os Estados, Ciro apareceu como o cara capaz de empurrar para o segundo turno a escolha do sucessor de Lula. Sem ele no páreo, Serra derrotaria Dilma no primeiro turno com 51,9% dos votos válidos contra 33,8%. Com Ciro no páreo, Serra ficaria com 45,6% dos votos válidos, e Dilma, 28,4%.

Ao limitar a disputa pela vaga de Lula a Serra, Dilma e Marina Silva (PV), o Datafolha descobriu que 43% dos eleitores de Ciro votariam em Serra, 15% em Dilma e 13% em Marina. Os 28% restantes se dividiriam entre não votar em nenhum dos três e não saber em quem votar. Na medida em que se identifique cada vez mais com Lula, é razoável que Dilma subtraia votos de Ciro.

Mas é verdade também que Ciro candidato, disposto a criticar Serra sem dó nem piedade, contribuiria para fazer minguar o número de eleitores dele capazes de votar em Serra no segundo turno. Na simulação do segundo turno produzida pelo Datafolha, Serra atrairia os votos de 55% dos eleitores de Ciro, e Dilma, de 29%. Os votos de Marina se repartiriam assim: 45% para Dilma e 37% para Serra.

A cabeça de Lula está feita. Ele quer uma eleição simplificada na base do “nós contra eles”. Se for o caso, prefere ver Dilma vencida por Serra direto no primeiro turno a se arriscar a assistir a um segundo turno disputado por Serra com outro candidato – Ciro, por exemplo. Pegaria mal para ele. De resto, Lula parece convencido de que a eleição acabará liquidada no primeiro turno com a vitória de Dilma.

Tem motivos para pensar assim. Um deles: o fato de Aécio Neves (PSDB), governador de Minas Gerais, recusar o lugar de vice na chapa de Serra. “Aécio se engajará na campanha de Serra, mas não será vice dele”, repete Lula, convicto e animado, entre amigos. Outro motivo: pesquisas recentes, encomendadas por bancos, registraram a queda da vantagem de Serra sobre Dilma. Ela ficou abaixo dos 10 pontos percentuais.

Partidos articulam suas estratégias para as eleições

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

BRASÍLIA – A proximidade da eleição presidencial fez com que o Palácio do Planalto e os partidos aliados e de oposição adotassem a mesma estratégia para montar seus times no Congresso. A escolha dos novos líderes, que serão oficializados amanhã, na reabertura dos trabalhos do Legislativo, foi fruto do “ajuste eleitoral” nos campos governista e de oposição.

Na Câmara, a cúpula do DEM optou por um nome afinado com a candidatura presidencial do governador tucano de São Paulo, José Serra, enquanto o governo buscou uma alternativa com melhor trânsito no PMDB.

O novo líder do DEM na Câmara será o deputado Paulo Bornhausen (SC). Depois da troca pública de farpas entre o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), e o governador Serra, a escolha do filho do ex-senador Jorge Bornhausen para liderar a bancada sinaliza a proximidade do candidato tucano.

Paulo Bornhausen segue o script do pai, que conversa semanalmente com Serra e foi peça fundamental na costura do acordo de paz entre o DEM e PSDB, depois da disputa pela prefeitura de São Paulo.

Também não por acaso, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) deixa o comando da bancada do PT para assumir a liderança do governo na Câmara. Em tempos de costura da aliança nacional com o PMDB, o governo optou por desalojar o líder gaúcho Henrique Fontana (PT). Em resumo, trocou o deputado de um Estado onde PT e PMDB vivem às turras, pelo paulista Vaccarezza, que integra a seleta lista dos “queridinhos do PMDB” no PT.

Governo e oposição querem afinar seus times de líderes no Congresso com o candidato a presidente. Encarregada de ler a mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso, a ministra Dilma Rousseff é presença certa na sessão solene que marcará o início do ano legislativo, às 11h30 de amanhã. Será recepcionada por Vaccarezza e seu provável sucessor na liderança do PT, deputado Fernando Ferro (PE).


Lula deixa atritos diplomáticos para o seu sucessor

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Substituto do presidente terá ao menos 8 imbróglios na política externa, entre eles a relação com os EUA

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA

O sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva herdará na política externa brasileira uma agenda tão ativa que camuflou omissões, como nas relações com os Estados Unidos e no aprofundamento do Mercosul. Lula deixará de herança pelo menos oito imbróglios que tendem a piorar ao longo deste último ano de mandato.

Observador atento da política externa, o embaixador Rubens Ricupero avalia que, no terreno internacional, Lula foi favorecido por sua personalidade carismática e por sua história de vida. Mas o presidente igualmente teve a sorte de atuar em um período de escassez de figurantes emblemáticos na cena global. O quadro, entretanto, tende a mudar especialmente no caso de eleição de José Serra (PSDB) ou de Dilma Rousseff, pré-candidatos considerados mais tocadores de obras que Lula e menos dotados do gosto retórico e do protagonismo que o atual presidente.

"Sem desconhecer seu mérito pessoal, Lula tem jogado sozinho. Todos os atores da cena internacional, inclusive no Oriente Médio, são meia-tinta", afirma Ricupero, que atuou como embaixador do Brasil em Washington e Genebra e hoje dirige a Faap. "Qualquer que seja seu sucessor, o pêndulo voltará a pender para uma política externa mais normal. Ou seja, menos ativista", completou.

A possível normalização da política externa, porém, não eliminará a tarefa do futuro governo de lidar com o espólio deixado por Lula. O embaixador José Botafogo Gonçalves, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, acredita que o principal desafio será a afirmação do Brasil como principal país da América do Sul. Ele avalia que Lula abandonou o Mercosul para apostar nos acertos bilaterais com seus sócios, errou na dose da reação à Bolívia e, agora, se omite diante das recentes iniciativas do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, de restringir a liberdade de imprensa. "Nesse sentido, a herança deste governo é ruim. Mas não é catastrófica nem irrecuperável."

Ricupero acentua que as apostas do Brasil de Lula na América Latina não prosperaram, e o País se omitiu em atuar em conflitos nos quais poderia ter papel mediador - Argentina-Uruguai, no caso da fábrica de celulose, Colômbia-Equador, no caso do abrigo à guerrilha. O panorama tende a se complicar, com a eleição do candidato de direita para a Presidência do Chile, o desgaste interno de Chávez e o fiasco da posição brasileira em Honduras. O ingresso da Venezuela como membro pleno do Mercosul tende a piorar o cenário. "Se Chávez continuar no Poder, o Mercosul será cada vez menos operacional. Se Chávez deixar o Poder, a Venezuela sairá do Mercosul, e isso será um desastre para o bloco", avalia o embaixador.

AMADURECIMENTO

Nos círculos diplomáticos de Brasília, a aposta está em uma atuação mais madura do futuro governo na área externa. Para o economista Renato Baumann, diretor da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) no Brasil, a pretensão brasileira de atuar em conflitos de outras regiões, como na mediação dos conflitos Israel-Palestina, é algo totalmente novo.

Mas o pior desafio do sucessor de Lula, avaliam os especialistas, será dar um rumo positivo à relação Brasil-EUA, cuja estagnação é frequentemente disfarçada no Itamaraty com retórica de que foi construída a "cooperação mais densa da história". Para Ricupero, a relação bilateral foi prejudicada e estressada por provocações gratuitas do governo brasileiro que, muitas vezes, tiveram terceiros países como causas. Entre elas, a recente disputa do Brasil pelo comando da reconstrução do Haiti, o embate sobre a crise política em Honduras e a reação ao acordo de cooperação militar entre Colômbia-EUA.

A decisão do governo Lula de preterir os caças F-18 da americana Boeing e de optar pelos Rafale, da francesa Dassault, tenderá a engrossar esse passivo, uma vez que estão em jogo alianças mais amplas na área de defesa. Mas, dentre todas as rusgas alimentadas, até mesmo diplomatas brasileiros reconhecem que a aproximação do Brasil com o Irã terá um preço grande, que deve ser cobrado especialmente pelos EUA. Deverá ainda repercutir na posição brasileira no Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde o País detém uma cadeira não-permanente, e na Conferência de Revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), em maio.

"Haverá algum movimento em direção ao Irã em 2010. O Irã representa para Israel uma ameaça infinitamente mais grave que o Iraque de Saddam Hussein", avalia Ricupero. "O Brasil se colocou na pior posição possível. Esse é um problema concreto. Não é uma bobagem platônica." Baumann argumenta que a posição do Brasil sobre questões de ordem multilateral devam ser separadas dos temas de sua relação com os Estados Unidos.

Mas há pouca evidência de que a Casa Branca será pragmática a tal ponto, especialmente neste momento em que perdeu a maioria dos votos no Senado para o Partido Republicano. Ainda pendentes, as visitas do presidente Barack Obama e da secretária de Estado, Hillary Clinton, neste semestre, podem dar alguma luz sobre essa reação.

Serra intensifica "devoção" a assalariados

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

De olho em fatia do eleitorado de Lula, tucano investe em discurso de que tem origem humilde e administra para trabalhadores

Estratégia segue resultado de pesquisa que mostra que Dilma não desponta como herdeira de votos do petista nas classes mais baixas

Catia Seabra
Da Reportagem Local


Disposto a conquistar fatia do eleitorado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governador de São Paulo e pré-candidato à Presidência, José Serra (PSDB), investe, ostensivamente, no discurso de que tem origem humilde e dedica sua administração à "população assalariada".

Antes diluído nas declarações de Serra, o argumento ganhou força na semana passada, quando enalteceu sua devoção ao trabalhador em três solenidades na capital paulista.No sábado, durante a inauguração da estação Sacomã do Metrô, na região sul da cidade, Serra frisou que a obra "serve à população assalariada, à população trabalhadora".

""Conseguimos expandir, mais ainda, o investimento. É o investimento que serve à população trabalhadora, o investimento na área de transportes urbanos", discursou Serra, minutos depois de o secretário de Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, comparar a origem do tucano à de Lula.

A estratégia nasce da constatação de que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, ainda não desponta como herdeira dos votos de Lula nas camadas mais populares do eleitorado.

Segundo o último Datafolha, Serra conta com 35% das intenções de voto entre os eleitores com renda familiar mensal de até dois salários mínimos. Dilma tem 23% nessa faixa.A vantagem de Serra (37%) sobre Dilma (23%) é de 14 pontos na faixa do eleitorado de dois a cinco salários mínimos.

Essa será a primeira vez em 21 anos que Lula estará fora da disputa pela Presidência da República. E, segundo o Datafolha, 14% dos eleitores com renda mensal de até dois salários mínimos estão indecisos.

O discurso também é um antídoto. Ao repisar sua criação em vila operária, Serra tenta se imunizar da associação à classe alta, imagem que já aderiu ao PSDB. Além disso, dizem tucanos, Serra não é visto pelo eleitorado como filho de feirante.

Origem

Na quarta-feira passada, durante inauguração de uma escola técnica na zona leste, Serra falou de sua infância na Mooca e descreveu sua origem como "das classes mais pobres da população". Em discurso, o governador disse que, na infância, sua aspiração "era fazer o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial]".

"Isso mostra a importância que tinha na cabeça da juventude ligada aos setores mais pobres da população, daí vem minha família, com o ensino técnico, ter uma profissão."

No dia seguinte, ao anunciar a ampliação do Banco do Povo -que faz empréstimos de R$ 200 a R$ 7.500, a 0,7% ao mês-, Serra disse que "as pessoas humildes, trabalhadores, são melhor pagadores".

"Pobre paga dívida com mais pontualidade que rico", discursou Serra, que, em entrevista, perguntou qual é o sinônimo popular para "inadimplência".

Sábado, Serra citou obras na favela de Heliópolis e encerrou o discurso afirmando que o sentido da vida pública é mudar "o país, integrando a população toda no progresso".

"Nunca mais teremos no Brasil progresso excludente."

Emendas vetadas pela base aliada

DEU NO INFORME DO DIA – O DIA

Único vereador de oposição ao governo Lindberg Farias, Thiago Portela (PPS) teve todas as suas emendas ao orçamento vetadas pela base aliada. As 14 sugestões não modificavam os valores propostos. Até as correções de erros ortográficos e de cálculos foram rejeitadas.

Morde e assopra

DEU NO INFORME DO DIA – O DIA

José Camilo Zito, que anda afinado com Sérgio Cabral e Jorge Picciani, surpreendeu tucanos de alta plumagem. Andou elogiando Fernando Gabeira nos últimos dias, depois de inúmeras críticas.

Pesadelo Gabeira

DEU EM O GLOBO – Elio Gáspari

Fernando Gabeira criou um pesadelo para Sérgio Cabral. O ex-governador Anthony Garotinho conseguiu 20% na última pesquisa do Vox Populi, e Gabeira teve 18%. Somados, encostam em Cabral, com 39%.

Cabral tem força no Grande Rio e Garotinho no interior. Se Gabeira avançar na cidade, Cabral corre o risco de morrer no primeiro turno.

Cabral, contudo, tem uma arma secreta: Lula.

Tensão à vista na volta do Congresso

DEU EM O GLOBO

BRASÍLIA. O Congresso retoma os trabalhos amanhã com uma agenda pesada e contaminada pelo processo eleitoral, que esgarçou as relações entre o governo e a oposição. Projetos de interesse do Planalto, como o que trata da partilha da renda do pré-sal, tendem a ficar empacados, porque a oposição promete obstruir votações. Além disso, o veto do presidente Lula ao Orçamento da União, para liberar recursos a obras irregulares, atropelando o TCU e o próprio Congresso, acirrou ainda mais os ânimos dos parlamentares.

Francisco Foot Hardman::Prêmio de exibição

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

Ciro Gomes sabe que não ganha a Presidência, mas candidatando-se terá garantida a exposição de seu narcisismo em rede nacional

O presidente Lula teve outro bom motivo, além dos aventados, para ver sua pressão arterial disparar, lá no Recife. No cardápio do jantar com o governador Eduardo Campos havia prato dos mais indigestos: o destino eleitoral do deputado Ciro Gomes. Repasto cujos ingredientes mais incômodos foram curtidos em salmoura nada melíflua pelo próprio Lula e confrades próximos.

Tantas foram as siglas partidárias por que já circulou que é mister reconhecer, na trajetória do governador, ministro e deputado cearense, um traço político que lhe sobressai pela permanência: o personalismo. Este o torna capaz de transitar, aventureiramente, impávido e impudico, entre as modernas oligarquias empresariais do Nordeste e as elites sindicais do moderno corporativismo do Sudeste. Fácil, para quem não possui projeto nem programa que não seja o da proeminência exibicionista de um ego sempre deslumbrado com o destempero das próprias palavras, com a autoimagem algo canastrona de animador provocativo e espetaculoso de auditórios medíocres.

As raízes mais remotas dessa encenação não se encontram nas ideologias políticas que se constituíram em modelos de referência na história contemporânea do Ocidente. A chave compreensiva desse protagonismo fincado em rompantes tempestuosos e na violência tirânica - mais ou menos contida - estaria, antes, na figura do caudilho gauchesco latino-americano tão bem desenhada por Sarmiento, a partir da paisagem dos pampas, nas páginas memoráveis de Facundo - Civilização e Barbárie. A ela pertencem, igualmente, Chávez ou Collor, Brizola ou Jânio, tão diferentes pareçam todos entre si, à primeira vista.

Ciro não é nenhum deles em particular, mas possui algo de todos no geral. Não enverga bombachas, nem farda, nem medalhas, nem óculos, nem foi gerado de início pela grande mídia televisiva. Mas como se parece com Collor, ainda mais assim, lado a lado nessa imensa e gelatinosa base governista!...

Se Collor sempre reafirmou um falacioso moralismo da mais reacionária estirpe, Ciro navega sempre em ventos da retórica mais esquerdizante. Mas reencontram-se ambos ao final de curta vereda de exaltações calculadas, no sonho comum de playboys de província. Não por acaso, comentava-se ainda nessa semana que, submetido o PSB a seu projeto presidencialista, Ciro buscava, agora, perdidas as chances de apoio do PC do B e do PDT, já bandeados para o barco de Dilma, a adesão do PTB de Collor-Jefferson e do PP de Maluf.

Alguma incoerência? Sim, se permanecermos iludidos com os rótulos supérfluos da representação partidária no Brasil. Não, se percebermos que, assim como Juan Facundo Quiroga fazia de seu bando e de seu punhal as vezes da lei e do Estado, esses neocaudilhos fazem do estardalhaço midiático e dos conchavos neocoronelísticos a forma de repetir o antigo e manter o mesmo.

Ciro, justiça se faça, jamais fez uso do bando ou do punhal. No caso de sua candidatura completamente artificiosa ao governo de São Paulo, por exemplo, nada fez, a não ser ceder, transferindo seu título eleitoral, às artimanhas de outro cacique, esse sim, de muitos cacifes, a ponto de enquadrar o PT e sua máquina paulista. No cenário estadual, porém, muitas peças se movem. Quem quer de fato queimar candidaturas prováveis a postos mais amenos e menos disputados a ter que enfrentar, em posição de jogo de azar, o elevado favoritismo de Geraldo Alckmin para a volta ao Palácio dos Bandeirantes? Quem deseja ficar com o mico? O PT desfila nomes de figuras queimadésimas no mensalão, no episódio do caseiro Francenildo, no rumoroso caso dos aloprados. Parece não querer, de fato, anunciar uma candidatura competitiva. O senador Suplicy, que talvez pudesse cumprir esse papel, ao que consta recebeu o niet da censura papal, leia-se, lulal.

Ciro, porém, deixa claro que quer mais que o mandato paulista, até porque talvez perceba, de há muito, na armadilha que lhe armou o presidente, que se tentar, de fato, perderá. Fidelidade ao lulismo, tudo bem, mas sem exageros. Seus olhos se voltam, pois, para o horizonte vasto de Brasília e as alturas do Planalto. Será que, aqui, a ambição egótica não percebe que também muito certamente irá perder a corrida? Mas, sim, só que nessa esfera o que vale mais é a exposição escancarada de seu narcisismo em cadeia nacional. Teima em lançar-se, por razões que, embora pareçam paradoxais, somam-se na equidistância a um ideal bonapartista, à sombra, como ele mesmo sugeriu, do modelo perde-e-não-desiste do "filho do Brasil".

Assim, que ameaça, de um lado, levar Serra à lona, conduzindo-o para um indesejável segundo turno; de outro, na casa dos dois dígitos, subtrair votos preciosos da ministra Dilma, levando-a, no mínimo, a ceder a algum de seus caprichos - se, antes das convenções, quem sabe a uma vice-presidência, diante de sua arrogante insistência e ante eventual imbróglio dos chefetes e chefões do PMDB; e, se depois, quem sabe a um ministério maneiro, pós-eleição.

Com Ciro-cá, Ciro-lá, é fato que o fantasma da velha política ainda teima em assombrar os descaminhos de nossa triste República.

Professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

Luiz Carlos Bresser-Pereira:: Conferência na Índia

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Dois temas dominaram os debates: a regulação e como emergentes devem financiar o seu desenvolvimento

Na última semana participei em Chennai, na Índia, de uma conferência internacional organizada por IDEAs, um "network" de economistas do desenvolvimento com sede em Déli (http://www.networkideas.org/), e patrocinada pela Ford Foundation. Dois temas dominaram os debates: como todos os países e principalmente os Estados Unidos e o Reino Unido devem regular melhor o sistema financeiro internacional e como os países em desenvolvimento devem financiar seu desenvolvimento de forma a evitar crises financeiras.

Em relação ao primeiro tema, a visão dominante foi a de que a opinião pública nos países desenvolvidos demanda maior regulação dos governos, de forma que haverá mudança substantiva no processo de regular os bancos e demais agentes financeiros. Não é realista esperar a separação entre a atividade dos bancos comerciais e a dos bancos de investimento, porque se retiraria uma fonte importante de lucros dos bancos comerciais, mas é razoável esperar uma maior limitação de todos os bancos em realizar operações especulativas, e a proibição de uma série de "inovações financeiras" que criam liquidez excessiva e riqueza fictícia ao embutir riscos elevados para as empresas e bancos nelas envolvidos. Por outro lado, ficou clara a importância de cada país fortalecer seu sistema nacional de financiamento.

Quanto ao problema de como os países em desenvolvimento devem evitar crises financeiras, foi quase unânime a tese de que esses países devem evitar deficits em conta-corrente ou a política de "crescimento com poupança externa". Esse tipo de política aumenta muito pouco a capacidade de investimento do país; em vez disso, aumentam o consumo e a dívida externa, de forma que o país fica sujeito a crises financeiras crônicas.Nessa linha de pensamento, os participantes da conferência ficaram interessados em minha exposição sobre a doença holandesa e sobre o "tripé do novo desenvolvimentismo" da estratégia nacional de desenvolvimento baseada em: (1) crescer com poupança interna, não incorrendo em deficits em conta-corrente; (2) provar responsabilidade fiscal, não incorrendo em deficits públicos crônicos; e (3) dar ao Estado um papel estratégico no desenvolvimento econômico e no desenvolvimento social.

Há uma diferença importante na estratégia dos países do leste da Ásia (China, Coreia do Sul e Taiwan) e dos países do sul e do sudeste da Ásia (Índia, Indonésia, Tailândia e Malásia), porque os primeiros se abriram menos aos investimentos externos do que os segundos, mas todos compartilham uma forte resistência ao endividamento externo. Não usam os investimentos externos para financiar deficit em conta-corrente, mas para aumentar reservas ou para financiar seus próprios investimentos no exterior.

Fiquei surpreso quanto à atitude dos economistas indianos em relação ao desenvolvimento econômico de seu próprio país. Depois que reformas neoliberais foram impostas à Índia no início dos anos 1990, o país experimentou uma forte redução em sua taxa de crescimento.

Entretanto, no final da década, recuperou-se, e desde então vem crescendo a taxas elevadas. Os economistas indianos, porém, não parecem seguros quanto à sustentabilidade do atual crescimento, talvez porque o atual primeiro-ministro foi o responsável pelas reformas do início dos anos 1990. Não tenho, porém, notícia de que Manmohan Singh tenha voltado a elas nesta segunda gestão.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Globalização e Competição".

Entrevista Laureano Márquez: O modelo de Chávez para a Venezuela é o de uma sociedade que seja unânime

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Cientista político e humorista acusado pelo governo diz que Venezuela caminha por rumo que lembra o das ditaduras

Mistura de cientista político, humorista e ator, Laureano Márquez, 46, não perdeu a cabeça na última sexta, quando a ministra da Comunicação, Blanca Eekhout, o acusou de "golpista, genocida e terrorista" por um artigo no qual imagina uma Venezuela sem Hugo Chávez. Colunista do jornal "Tal Cual", Márquez atuou por dez anos no mais antigo programa humorístico da TV local, que era transmitido pela RCTV, colocada fora do ar pelo governo Chávez.

Fabiano Maisonnave
De Caracas

Laureano Márquez recebeu a Folha em sua residência:

FOLHA - A Venezuela vive protestos pela saída do ar da RCTV e pela crise energética, mas houve períodos parecidos nos últimos anos. Qual a diferença atual?

LAUREANO MÁRQUEZ - Chávez passou por diferentes momentos em sua evolução como político e como dirigente do país. Sinto que a sociedade venezuelana vai percebendo que cada vez há mais deterioração em sua segurança pessoal, no abastecimento de produtos de primeira necessidade, no problema do fornecimento de energia. Ele tem sido eficiente para manter o controle político, mas muito pouco eficiente para a administração da sociedade. Ele é muito bom para manter o poder, mas não é muito bom para exercer o poder solucionando os problemas do povo.

O descontentamento aumenta em todos os setores, inclusive entre seus partidários. A popularidade de Chávez está em processo de decadência, e ainda que seja alta para continuar no poder, o governo percebe a tendência. Isso deixa o presidente muito nervoso, e a eleição parlamentar [de setembro] se aproxima.

Há também fatos pontuais que desatam as manifestações, principalmente nos setores estudantis. Há muita sensibilidade com relação à liberdade de expressão. O fechamento da RCTV tem sido um ponto de inflexão. Nas duas vezes que ele fechou a RCTV, na primeira com sinal aberto, e na segunda, com sinal via cabo, houve grandes problemas. E ele está vivendo este momento -pior do que o anterior-, pois também há muitos elementos acumulados.

FOLHA - Chávez perdeu o referendo sobre a reforma constitucional em 2007, mas depois implantou praticamente tudo o que estava contido nela. Em 2008, a oposição conquistou vários governos, que foram mais tarde esvaziados. O resultado das urnas perdeu relevância?

MÁRQUEZ - Não, acho que, pelo contrário, as pessoas estão dando mais importância às eleições. Se as pessoas notam que Chávez se sentirá afetado pelas eleições, elas se entusiasmam mais. Agora, há uma percepção na sociedade de que Chávez tem muito medo das eleições que se aproximam. E Chávez não para de pedir "façam um referendo revogatório contra mim", quase suplica. Então as pessoas dizem: "Se Chávez quer isso, não me convém".

A sociedade democrática venezuelana não tem outra saída que não seja a eleitoral. E, como não há outra saída, é preciso apostar tudo. Nós já tivemos a experiência de não ter ido às eleições [parlamentares de 2005]. Foi um erro grave.

FOLHA - Os chavistas falam em democracia direta, parte da oposição diz ditadura, e agora surge o conceito de autoritarismo popular. Como define o regime venezuelano?

MÁRQUEZ - Uma das características deste sistema é que é difícil classificá-lo. É uma ditadura? Bom, neste momento, estou falando com você e emitindo conceitos contra o governo. Poderia ser perseguido, mas tenho emitido as minhas opiniões com relativa liberdade. Outra coisa distinta são as consequências de ter uma opinião como a minha, mas isso é um tema à parte.

Formalmente, a Venezuela continua funcionando como democracia. Se alguém vê, de São Paulo, e pergunta: há eleições? Sim. Há partidos de oposição? Sim. Há imprensa livre? Sim. Isso é uma democracia.

Mas se alguém vê, de Caracas, e pergunta: há divisão de Poderes? Sim, mas todos os Poderes estão nas mãos do Executivo. Na prática, há uma imposição do Executivo sobre os demais Poderes. Há imprensa livre? Sim, todos os dias saem artigos contra o governo, mas o que acontece aos articulistas contrários ao governo? Estão cada vez mais cercados, cada vez mais perseguidos, cada dia mais limitados em sua capacidade de ação.

Aqui, há cada vez menos liberdade. Mas a diferença com uma ditadura é que lá há perda brutal da liberdade. A Venezuela vive uma coisa progressiva, gradual, lenta, muito medida, mas vai na mesma direção.

FOLHA - O que Chávez quer para a Venezuela?

MÁRQUEZ - Chávez aspira a reformar a Venezuela, e não duvido de suas intenções, que podem ser boas. O problema é o tipo de modelo que Chávez está instalando. Na minha opinião, o modelo pelo qual a sociedade assina o cheque em que ele é o povo, em que tudo que ele diga ou fale é em favor do povo. Isso é muito oneroso para a sociedade. Nenhuma sociedade deve endossar um homem para representar o povo. "Como eu sei o que é melhor para a Venezuela e estou convencido de que é a verdade, quem se opõe a mim é um idiota, um traidor, um fascista, é um golpista e quer me matar". Cada vez que alguém não está de acordo, o presidente reage. O modelo de Chávez é o da unanimidade, ele quer uma sociedade unânime.

FOLHA - A oposição já tentou golpe de Estado, greve nacional, boicote eleitoral. Como ela está agora?

MÁRQUEZ - A oposição é muito complexa porque, à diferença do oficialismo, não há apenas uma voz. Ha muita discrepância, como ocorre num ambiente democrático. Isso não significa que a oposição não tenha cometido falhas gravíssimas. O primeiro erro foi tentar buscar uma via rápida, não democrática. Um segundo erro, não participar de processos eleitorais. Outro erro, a falta de coordenação. A ameaça que vive a Venezuela é muito particular. Isso exige que a oposição tenha um senso de patriotismo. Eu não gosto da palavra patriotismo, mas é preciso que a oposição entenda que há algo superior, acima das parcialidades eleitorais, que é a nação. Outro erro é não oferecer um projeto alternativo que chegue aos setores mais sofridos, que apoiam o presidente e podem estar cansados desses dez anos de estresse, de luta e de confronto.

FOLHA - Como Chávez mantém a sua popularidade alta?

MÁRQUEZ - Em primeiro lugar, Chávez é um excelente comunicador. Fala como as pessoas falam, de forma coloquial, e conta as suas histórias e faz piada. Além disso, Chávez representou, e continua representando em boa medida, a esperança de que quem está no poder "sou eu". As pessoas sentem que Chávez é alguém delas e as representa contra os setores poderosos da sociedade.

Por outro lado, Chávez colocou muitos recursos para gerar a solução de alguns problemas, como a saúde nas favelas, o que antes não havia. Isso não resolve a pobreza, apenas põe panos quentes, mas isso é outra discussão. As pessoas percebem que o presidente está preocupado com elas.

E Chávez tem um bom controle midiático do assunto. Em cadeia nacional, alguém se aproxima, ele diz: "Qual é o seu problema?" "Uma casa." "E de que casa você precisa?" Ele se dedica meia hora para resolver um problema. Um presidente não deveria dedicar meia hora para resolver um problema. Ele não deveria se dedicar a resolver a casa de Juan Rodríguez, mas das 100 mil casas que deve construir. Mas o efeito comunicacional disso é bárbaro.

FOLHA - O presidente Lula tem hoje bastante prestígio internacional e muitas vezes apoia Chávez em momentos difíceis. Trata-se de "realpolitik" ou de afinidade ideológica?

MÁRQUEZ - Lula é um homem muito inteligente, conhece Chávez muito bem e se aproveita disso, sem querer ofender. Lula defende os interesses do Brasil, o que é muito respeitável, mas Lula vê os interesses do Brasil exageradamente. Eu acho que Lula sabe que Chávez falha em um montão de coisas e deve saber que esse apoio gera um benefício importante ao Brasil. Lula se comporta como um hábil malabarista, vai tentando fazer Chávez acreditar de que está de fato com ele. Mas, como se diz na Venezuela, se há um louco na rua distribuindo dinheiro, quem agarra é dele. E Lula o agarrou.

FOLHA - Qual a vantagem de ver a política do ponto de vista do humor?

MÁRQUEZ - O humorismo é uma parte importante de uma sociedade, é uma forma de crítica, e é uma crítica pacífica. Um humorista venezuelano dizia que o humor é uma forma de fazer pensar sem que aquele que pensa perceba que está pensando. Quando a sociedade tem senso de humor, é porque está pensando a si mesma.

FOLHA - Chávez é informal, quebra protocolos e está sempre rindo, mas o sr. está enfrentando o segundo processo vindo do seu governo. Ele tem senso de humor?

MÁRQUEZ - Tenho pensado muito sobre isso. É preciso o senso de humor do senso de chacota. A chacota não é necessariamente senso de humor, ainda que possa parecer simpático e provoque graça.

O senso de humor passa por fazer piadas de si mesmo e de aceitar piadas contrárias. O presidente Chávez faz muito bem ao ironizar, fazer chacota dos outros, mas não tem necessariamente senso de humor.

FOLHA - O sr. foi multado em 2007 e agora está de novo envolvido em polêmica com o governo por causa de texto humorístico. Como vê a reação do governo a seu trabalho?

MÁRQUEZ - É uma reação exagerada, que atribui coisas ao meu texto que eu não disse e que nem sequer tem a ver com o meu pensamento político, que não é da intolerância nem da agressão nem da conspiração. Mas tem a ver com o momento em que vive o país. O governo quer dizer aos opositores que está disposto a ir muito longe se alguém insiste em se opor ao seu projeto. Mas, quando uma sociedade é tão arbitrária com o humor, algo de ruim está ocorrendo.

FOLHA - Até porque, na sua história, Chávez não morre.

MÁRQUEZ - Exato, ele vive por muitos anos. Eu quero que o presidente tenha uma longa vida, mas não no governo.

FOLHA - Depois da Venezuela sem Chávez, qual será o tema do seu próximo artigo?

MÁRQUEZ - Estava pensando em escrever um artigo sobre o cultivo de couve-flor na Dinamarca, é um tema que me interessa neste momento.

Frases
"Aqui há cada vez menos liberdade. Mas a diferença com uma ditadura é que ali há uma perda brutal da liberdade. A Venezuela vive uma coisa progressiva, gradual, muito medida, mas vai na mesma direção"

"A ameaça que vive a Venezuela é muito particular. Isso exige que a oposição tenha um senso de patriotismo. [...] [Um] erro é não oferecer um projeto alternativo que chegue aos setores mais sofridos"

"Chávez representou e continua representando em boa medida a esperança de que quem está no poder "sou eu". As pessoas sentem que Chávez é alguém delas e as representa contra os setores poderosos da sociedade"

"O senso de humor passa por fazer piadas de si mesmo e aceitar piadas contrárias. Chávez é muito bom ao ironizar, fazer chacota dos outros, mas não tem necessariamente senso de humor"

Graziela Melo:: Coração ferido

Filho,
Por onde andas?

Como estás?

Barba,
Já tens?

Te quero
sempre,
Te espero
Sempre...

Porque
Não vens?

Às vezes
Sinto
Como se
Estivesses
Ao meu lado...

No
ônibus,
No
Supermercado,
Na rua...

Alguma voz,
Se escuto,
Me parece
A tua...

Aí no céu,
Tem muita gente?

Bom,
Qualquer hora dessa,
Nos vemos!!!

Te cuida
Meu Anjo
Querido...
Aqui
Se despede

Uma alma
Triste,

Um coração
Ferido!!!

(do livro Crônicas, contos e poemas, pág. 124 - Abaré Editorial/ Fundação Astrojildo Pereira, Brasília, 2008)

BOM DIA! - Frevo da Saudade -Nelson Ferreira e Aldemar Paiva