sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Destino, vocação e estilo


Nelson Motta
DEU EM O GLOBO


A primeira morte simbólica do Rio de Janeiro foi em 1960, com a mudança da capital para Brasília. A segunda, em 1976, na fusão, forçada pelo governo militar, da metrópole cosmopolita com o Estado do Rio atrasado e dominado pelo coronelismo. A terceira, em 1998, quando Lula, Zé Dirceu e Genoino intervieram no diretório carioca do PT, destituíram a candidatura de Vladimir Palmeira e se aliaram ao brizolista Garotinho, entregando o estado e a cidade para oito anos de atraso e populismo provinciano.

Brizola era gauchíssimo, nunca entendeu o Rio de Janeiro e o espírito carioca. Costeava o alambrado e passava mais tempo em sua fazenda no Uruguai do que na cidade. Se sentia melhor no interior, mais próximo de suas raízes e metáforas rurais, terreno fértil para o crescimento do populismo trabalhista, que se apoderou do espólio do clientelismo chaguista.

O populismo provinciano de Garotinho uniu as bases brizolistas e petistas e conquistou o governo do Estado, com a massa dos votos do interior, porque na cidade do Rio de Janeiro o marido de Rosinha jamais ganhou eleição. Pior: no Rio sempre foi ridicularizado, como na sua famigerada greve de fome. Castigou a cidade com rancor e ressentimento, além de entrar em guerra com a prefeitura e o governo federal. No meio do tiroteio, o Rio pagou o pato.

Que metrópole resistiria a dois governos Brizola e dois Garotinho/Rosinha, com um Moreira Franco no meio? Eles teriam quebrado Tóquio, Madri ou São Paulo. O Rio de Janeiro conseguiu não só sobreviver como continuar lindo.

Não por acaso o seu nome completo é Mui Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, e seu padroeiro um santo crivado de flechas. É destino, vocação e estilo.

Porque, depois das três mortes, o destino do Rio é renascer, se reinventar como metrópole, viver sua vocação para a natureza, as artes, a convivência e a inovação. A cidade precisa desesperadamente de um novo estilo de fazer política, de tentar uma nova forma de governar democraticamente, com independência e transparência, criatividade e eficiência. Quem sabe o renascimento começa domingo?

NELSON MOTTA é jornalista.

Quadrilátero da saia-justa


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

De cada ângulo que se olhe, essa eleição municipal revela fatos e consolida evidências que derrubam teorias eleitorais recentemente elaboradas a partir de um único dado: a popularidade do presidente Luiz Inácio da Silva.

A campanha do segundo turno revogou a crença inabalável de políticos e marqueteiros na doutrina “paz e amor” e, no caso das disputas mais excitadas, vai levando ao chão também a tese de que o contraditório é coisa do passado - quando não de gente golpista - e o consenso, sinal de evolução cívica, uma meta a ser perseguida pelos adeptos da “nova política”.

No primeiro turno as urnas já haviam derrubado o mito do “poste”, desmentido assertivas sobre a transferência automática de votos e arquivado a idéia do Palácio do Planalto de transformar o resultado da eleição de prefeitos numa interpretação plebiscitária sobre o governo Lula, com o objetivo de estabelecer desde já as balizas para a armação do jogo da sucessão presidencial em 2010.

Nas capitais dos quatro maiores colégios eleitorais do País, a eleição produziu surpresas e muitas divergências às quais o eleitorado aderiu com tanto entusiasmo que, à exceção de São Paulo onde o quadro é praticamente de definição, a final de domingo será disputada voto a voto.

São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador desenham um legítimo quadrilátero da saia-justa para o governo federal. Sejam quais forem os resultados, o Planalto não colherá amenidades. As derrotas serão estrondosas e as vitórias vão requerer uma administração de prejuízos.

Salvador é o caso típico. O governador petista Jaques Wagner trava embate direto com o ministro pemedebista Geddel Vieira Lima em clima de acirramento tal que, ganhe o PT ou o PMDB, o dia seguinte será de lamentações na base governista.

Por mais que o eleitorado faça sua opção entre dois candidatos obviamente aliados ao presidente Lula, o placar de 40% (PT) a 50% (PMDB) nas intenções de voto exibe um eleitor capaz de distinguir entre um e outro. Escolhe pelas diferenças evidentes na vida real, não pelas semelhanças existentes só no jogo da política congressual e palaciana.

Belo Horizonte, na teoria fadada à tranqüilidade da homologação do escolhido pela união entre o governador tucano Aécio Neves e o prefeito petista Fernando Pimentel, na prática ocorreu na base do supetão.

No início, Márcio Lacerda subiu de 6% para mais de 30% em uma semana, foi atropelado nos últimos cinco dias pelo adversário Leonardo Quintão que começou o segundo turno com 18 pontos porcentuais na frente e, em 10 dias, a vantagem virou desvantagem.

Não houve mágica: governador e prefeito desceram do pedestal, deixaram o candidato aparecer, expuseram o perfil do adversário e explicaram o sentido das escolhas.

O mocinho bonito do PMDB significa a volta das velhas estruturas simbolizadas na figura de Newton Cardoso e o senhor circunspecto patrocinado por eles representa uma aliança administrativa construída ao longo de seis anos com a aprovação de 80% da população.

Caso consigam mesmo consolidar a dianteira, como parece, Aécio e Pimentel só fazem maiores os equívocos do primeiro turno, pois teriam ganhado bonito com um pouco de empenho e atenção ao fato de que ninguém está dispensado de combinar com os russos as regras do jogo.

Em São Paulo, os 17% pontos porcentuais de vantagem de Gilberto Kassab são os mesmos de dez dias atrás, antes de o PT pôr em prática a estratégia mediante a qual seria desconstruída a imagem do prefeito, conquistada a classe média e desmontado o alegado preconceito dos conservadores contra Marta Suplicy.

Não aconteceu nada. As pesquisas não registraram nem sequer o efeito do notório questionário a respeito da ausência de mulher e prole dentro da casa de Kassab. Para a biografia de Marta ficou péssimo e para o ato do voto tanto faz como tanto fez.

Se as pesquisas conferirem com as urnas, a tão falada “baixaria” terá passado ao largo da sensibilidade do eleitor e valido uma equação muito mais simples: a divisão dos tucanos no primeiro turno virou soma no segundo.

Só uma vez o PT conseguiu os votos dos não-petistas: quando Marta - na ocasião uma novidade sem o ranço da antipatia que viria a acompanhá-la - concorreu contra um Paulo Maluf já descendente em 2000.

No Rio acontece o confronto mais interessante. Ali, a força bruta deu resultado. O candidato do PMDB, Eduardo Paes, abriu mão de qualquer delicadeza de caráter e assim conseguiu sustentar um empate, com ligeira vantagem, na base da manipulação de preconceitos, subserviência política e até uma mal ajambrada luta de classes.

Se ganhar, será ao preço do conceito: sai menor do que entrou, enquanto Fernando Gabeira, no caso de ser o perdedor, fica com a marca da grandeza para futuros investimentos.

A longa espera de três dias


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


De hoje até a noite de domingo, com os resultados oficiais das eleições para prefeitos e vereadores, quem tiver um pingo de juízo fecha ou fiscaliza a boca para não cair no atoleiro das cobranças.

Se o presidente Lula nem sempre é bom exemplo de sabedoria e bom senso e andou perdido nas contradições e erros táticos grosseiros na reta final da campanha antes de recolher-se à clausura do seu gabinete no Palácio do Planalto, esta semana caiu na realidade – que é dos tombos mais perigosos com os riscos de escoriações e fraturas – fechou a torneira dos palpites e seguiu a receita de "trabalhar, trabalhar e trabalhar".

Deve estar exausto, mas de alguma maneira aliviado, pois a campanha parece empenhada em desmentir ou enlouquecer os institutos de pesquisa com as cambalhotas dos índices em pelo menos três das grandes capitais.

A começar pelo Rio – a nossa abandonada ex-Cidade Maravilhosa, que passa pela mais grave crise de inchaço caótico, com a superpopulação que transborda para as favelas dominadas pelas gangues do tráfico, trânsito infernal, o centro invadido pelos trombadinhas e, à noite, pelos catadores de papel e pela mendicância, e que chega às vésperas do voto mais atordoada do que ao longo da enganosa coerência do favoritismo do candidato Fernando Gabeira, do anêmico Partido Verde.

E com o Eduardo Paes, o candidato duplamente oficial, o único a merecer a entronização solene no gabinete presidencial, com a presença de Lula, do governador Sérgio Cabral e do ungido, com a cobertura da sua equipe, para levar ao eleitorado, nos horários de propaganda eleitoral gratuito, pagos com o nosso dinheiro, a louvação das vantagens da sintonia dos três níveis de governo, com o presidente, o governador e o prefeito juntos no mutirão para salvar o Rio da decadência.

Fernando Gabeira foi a novidade que encantou o Rio e liderou as pesquisas com o favoritismo consensual até anteontem, quando o Ibope e o Datafolha, em números quase iguais, o que sugere a cautela de uma prévia troca de informações, registram a queda de Gabeira de três pontos percentuais e a subida de um ponto e a ascensão de Eduardo Paes de três e quatro pontos.

Como o que mais importa é a tendência do eleitorado, mais do que os voláteis índices percentuais, uma análise isenta acolchoada pelas cautelas da prudência, aponta para o favoritismo do candidato do presidente Lula e do governador Sérgio Cabral. O que, se confirmado pelas urnas, será uma das grandes surpresas da campanha.

O mesmo não se pode dizer do infortúnio eleitoral da candidata do PT, Marta Suplicy, à prefeitura de São Paulo. Nem os socorros de Lula, comparecendo a comícios para os improvisos da vigorosa eloqüência, taparam os buracos abertos na rota pelos escorregões dos sapatos altos da elegante candidata petista. O prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição, alvejado pela ironia da candidata e dos seus batedores pela torpeza de insinuações sobre seu estado civil de solteirão, disparou a chega à véspera das urnas com 17 pontos de vantagem sobre a sexóloga dissidente.

Mas é em Minas que a mais surpreendente reviravolta desafia a análise dos especialistas. O candidato a prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, do PSB, apoiado pelo governador tucano Aécio Neves e pelo atual prefeito, Fernando Pimentel, um petista das arábias, virou o jogo nas três últimas semanas e chega à reta final com um ponto à frente de Leonardo Quintão, candidato do PMDB.

A diferença é insignificante, mas a inversão da tendência do voto não pode ser desprezada. Candidato à sucessão de Lula, o governador Aécio Neves apostou o seu cacife no candidato Márcio Miranda e espera a hora de soltar o suspiro de alívio.

Ora, com tais dúvidas e sinais de possíveis surpresas, até a última palavra dos números, a cautela recomenda evitar exageros do fanatismo, pois os números não mentem jamais...

Rumo a 2010 com o freio de mão puxado


Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O adversário número 1 do candidato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à sua sucessão, em 2010, é governador de Estado. O número 2 também. Numa crise financeira que leve o país a pôr o pé no freio, brecam todos. Se a retração econômica for forte o suficiente para gerar um eleitor insatisfeito, não é em direção a governantes que soprarão os ventos da mudança em 2010.

Num cenário de tantas condicionalidades, o cerco dos policiais civis ao Palácio dos Bandeirantes ofereceu uma conjuntura de rara concretude. Ainda não se sabe o tamanho da crise, mas é líquido e certo que, para enfrentá-la, será preciso conter gasto com pessoal e investimento. A manifestação dos policiais grevistas em São Paulo é apenas uma amostra da avalanche de reivindicações que podem vir a eclodir. Num Estado em que os salários são mantidos congelados numa conjuntura de crescimento, é de se imaginar que se mantenham no gelo em tempos de retração.

No governo federal, a generosidade das medidas provisórias que concederam reajustes escalonados ao funcionalismo até 2010, tinham tudo para dar uma trégua às ameaças de greve. Para ficar numa única carreira, o de advogado-geral da União, o salário inicial em dezembro de 2002 era de R$ 4 mil. Seis anos de governo Lula depois, o piso da categoria passou a R$ 14 mil, um aumento nominal de 250%, a partir da MP 441 que já está em vigor.

Em um grande número de carreiras, as gratificações por desempenho, que não eram incorporadas ao benefício dos inativos, passaram a sê-lo. O impacto fiscal dos reajustes concedidos a ativos e inativos até 2010 pode chegar a R$ 100 bilhões.

A certeza de que não seria difícil absorver esse aumento de folha num país que bate recordes sucessivos de arrecadação foi atenuada pelo discurso do contingenciamento que já arrebatou até o incorrigível otimismo do presidente da República.

As medidas provisórias do funcionalismo que ainda tramitam no Congresso abrigam dispositivos que permitem ao governo adiar os reajustes previstos para os próximos anos. Se optar por esta saída, Lula comprará uma briga sem fim com a burocracia estatal sem a qual não se governa.

Além do setor público, o presidente também jogou, nesses seis anos de governo, para acumular cacife no movimento sindical do setor privado, com iniciativas como a lei do salário mínimo. Pelo crédito que também dispõe junto ao setor financeiro, pode se gabar de sua equação singular de poder que o leva a circular com galhardia entre metalúrgicos e banqueiros.

Poucos dias antes da passeata que levou dois mil policiais às colinas do Morumbi, onde o PSDB ganhou a tradução de Pior Salário Do Brasil, o governador de São Paulo, José Serra, havia deixado seus aliados em Brasília de cabelo em pé com suas críticas ao Banco Central pela condução da política monetária.

A crise é grande mas não a ponto de se imaginar que o governador paulista pretenda equilibrar-se numa equação às avessas. A hipótese de que esteja em curso uma campanha para desmoralizá-lo em pleno curso de uma vitória eleitoral quase assegurada em São Paulo, é tão provável quanto uma chapa presidencial com Henrique Meirelles na cabeça e Paulo Pereira da Silva na vice.

Antes que a preferida de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, venha a demonstrar dotes de negociadora tão reconhecidos quanto os de José Serra, o agravamento da crise obrigará Lula a testar seu cacife no movimento sindical. E também emparedará governadores que, a exemplo de Serra, não têm gordura para queimar em sua relação com o funcionalismo e suas entidades.

Nos Estados, não bastasse o agravante de um grau de liberdade orçamentária menor do que o da União, há a pressão por novos gastos como o decorrente do piso nacional dos professores, outra categoria com forte poder de mobilização que também já andou atanazando o governo paulista.

Ainda é desconhecido o impacto da crise sobre a arrecadação, mas o que se sabe é que dois dos setores que mais têm contribuído para os recordes da Receita - bancos e montadoras - também deverão estar entre os mais afetados.

O Ministério da Fazenda tem em mãos estudo encomendado ao FMI e não divulgado com projeções muito pessimistas para a arrecadação numa conjuntura em que a economia nacional cresça menos que 4%.

É na escassez que cresce a necessidade de negociação. Os governantes que serão obrigados a lidar com receitas decrescentes, também terão a chance de identificar as lacunas de setores do sindicalismo acomodados tanto pela bonança econômica quanto da cooptação desmobilizante exercida pelo governo federal.

Enquanto a Esplanada dos Ministérios está apinhada de sindicalistas, a única pasta do governo de São Paulo que, pela lei da gravidade, deveria ser ocupada por um deles, a Secretaria de Emprego e Relações de Trabalho, é comandada por um ex-dirigente de associações patronais. Guilherme Afif Domingos tem tudo para, depois de domingo, rumar para uma bem-sucedida candidatura ao governo paulista, mas não parece talhado para segurar a batata quente dos trabalhadores paulistas em tempos de crise.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

A ditadura não morreu


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - Nicolas Sarkozy, o presidente francês, é difícil de ser enquadrado nas casinhas que tradicionalmente usamos para definir os políticos, tipo "direita", "esquerda", "populista", "liberal" e por aí.

A única que definitivamente se aplica a ele é hiperativo.

A sua mais recente frase de efeito é de ontem -e é daquelas que faz a alegria de qualquer editor de jornal incumbido de produzir títulos. "A ditadura do mercado sobre os poderes públicos está morta, com a crise", decretou.

Até gostaria que fosse verdade, não por amor ao Estado ou por ódio ao mercado, mas porque ditadura é ruim em qualquer circunstância, qualquer que seja ela. E Sarkozy tem razão ao dizer que os mercados se impuseram de forma absoluta sobre os poderes públicos nos últimos muitos anos. Mas, se o diagnóstico está correto, não quer dizer que a situação vá evoluir no rumo imaginado por Sarkozy. Pode até ser que, no susto, os poderes públicos recuperem capacidade de ação e tratem de promover uma melhor distribuição de poderes.

Mas o que se está vendo, até agora, continua sendo a ditadura dos mercados. Os governos estão, sim, agindo, estão, sim, intervindo (mais até do que gostariam), mas o fazem sob pressão dos mercados, para salvá-los.

Se você duvida, anote aí o que disse ontem um dos comissários europeus, Günther Verheugen: "Não será fácil para os políticos explicar aos trabalhadores porque centenas de bilhões de euros estão disponíveis para o sistema bancário, mas não estão quando uma indústria inteira está com problemas" (refere-se à indústria de autos).

Não é preciso ser especialmente esperto para aumentar a lista de setores com problemas. E seria demagógico dizer que os trabalhadores de todos esses setores têm problemas ainda maiores -e nenhum pacote à vista?

ESTE É O LULA

Que crise? Pergunta para o Bush
(16/9/2008)

Até agora, graças a Deus, a crise não atravessou o Atlântico
(22/9/2008)

Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar
(4/10/2008)

Não posso assumir o compromisso de que, se houver uma crise econômica que abale o Brasil, a gente vá manter todo o dinheiro dos ministérios
(21/10/2008)

Nós não estamos dando dinheiro para qualquer empresa e qualquer banco. E não vamos dar dinheiro. É importante saber que quem errou pagará pelo seu erro
(23/10/2008)

Da marola ao tsunami


Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


A cortina de fumaça não paralisou o BC, que tomou medidas para lidar com a liquidez dos bancos menores

A CRISE financeira mundial chegou ao Brasil com todo o seu impacto destrutivo. Em setembro, os primeiros ventos dessa tempestade já podiam ser sentidos no âmbito mais restrito do mercado financeiro. A volatilidade dos ativos brasileiros, negociados aqui e no exterior, começou a aumentar de forma desordenada. Mas esses sentimentos não chegavam ao lado real da economia, que vivia ainda as doces brisas de um longo verão de crescimento.

A posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ajudou muito para preservar esse entusiasmo. Qualificando a crise financeira como uma questão dos países do Primeiro Mundo, ele reforçava a impressão de que as dificuldades enfrentadas eram coisa de ricos. Mas essa cortina de fumaça rósea desapareceu agora em outubro.

Primeiro, a questão pontual das empresas que especularam com o real tornou-se um problema bancário sério. Depois, a consolidação do cenário de recessão global trouxe a crise financeira às economias emergentes. Com a velocidade e a força de um tsunami, foram atingidos nos últimos dias os papéis da dívida externa (privada e pública) de vários países, trazendo de volta os fantasmas das crises asiática em 1997 e da Rússia/Brasil em 1998.

A flutuação irracional dos preços tem causado prejuízos imensos em todos os segmentos do mercado financeiro. Em razão desse estado de coisas, os bancos brasileiros reduziram de forma agressiva a concessão de crédito. Os números deste mês mostram claramente um fenômeno de descontinuidade no mercado de crédito, no momento em que a atividade produtiva da economia e a febre de consumo de milhões de brasileiros atingiam seu ponto mais alto.Os ventos externos -agora gelados e fortes- chocaram-se com o ar quente do otimismo de todos. Podem estar certos os leitores da Folha que o impacto sobre as empresas e os consumidores vai ser muito duro e duradouro.

Felizmente para todos nós, a cortina de fumaça não paralisou o Banco Central. Enquanto o ministro da Fazenda seguia o tortuoso e perigoso caminho de negar os problemas reais, o Banco Central agiu.

Tomou medidas agressivas para lidar com a questão da liquidez dos bancos de médio porte, reduzindo o compulsório e criando incentivos para a venda de carteiras de crédito dos bancos em dificuldades. Disponibilizou dólares de sua reserva para destravar as operações de financiamento ao comércio exterior. Injetou liquidez nos mercados de câmbio, agindo nos mercados "spot" e de derivativos.

Por fim, criou mecanismos legais no caso de ser necessária uma infusão de capital nas instituições com problemas de solvência. Apesar da grita contra uma possível estatização de prejuízos, não existe no momento uma alternativa para evitar a quebra de bancos e o aprofundamento da crise. Enfrentamos hoje os mesmos resmungos ouvidos nos Estados Unidos e na Europa há poucos meses. Sugiro a leitura da revista inglesa "The Economist" desta semana para que se possa digerir com menos dificuldades a medida provisória nº 443, assinada na terça-feira.

Aqui, como no exterior, vamos ter de usar o Estado para evitar o mal maior de uma recessão profunda. O que a sociedade deve exigir é que esse movimento, se necessário, seja feito com transparência e fiscalização externa. Como nos Estados Unidos, o Congresso Nacional deve criar uma comissão para acompanhar a utilização desse mecanismo extraordinário.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Crise: PPS e PSDB rebatem Lula e afirmam em nota que quem torcia pelo pior era PT na oposição


DEU NO PORTAL DO PPS

O PPS e o PSDB emitiram nota conjunta repudiando as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que atribuiu à oposição uma torcida para que as medidas relativas à crise financeira não funcionem. “Nunca torcemos por crises”, afirma o documento, assinado pelos presidentes dos dois partidos, Roberto Freire, e Sérgio Guerra. A nota lembra que quando militava na oposição, Lula e o PT “apostaram várias vezes no quanto pior melhor”.

Os dois partidos, afirma o texto, querem que o governo trabalhe com seriedade. A nota condena ainda “abordagens equivocadas sobre a extensão da crise, assim como as afirmações demagógicas sobre problemas graves e concretos”. A afirmação refere-se às várias negativas do presidente Lula sobre os efeitos da crise no Brasil. (Leia a íntegra da nota abaixo).

“Nota à Imprensa

O PSDB e o PPS repudiam a declaração do presidente Lula em relaçâo à responsabilidade da oposição diante da crise.

Trata-se de uma declaração que não se coaduna com a responsabilidade de um presidente da República. Nunca torcemos por crises, muito menos crises profundas.

No passado, quando era oposição, o presidente Lula e seu partido apostaram várias vezes no quanto pior, melhor. Não é o nosso caso.

Desejamos que o presidente e seu governo trabalhem sério e condenamos, sim, abordagens equivocadas sobre a extensão da crise, assim como afirmações demagógicas sobre problemas graves e complexos.

Medidas estruturantes serão apoiadas sempre que fizerem sentido para o interesse nacional.

O presidente deve parar de escamotear suas responsabilidades e tratar com seriedade os problemas que se apresentam, uma vez que a crise internacional ainda pode trazer sérias consequências para a economia brasileira - no presente e nos próximos anos."

Roberto Freire – presidente do PPS

Sérgio Guerra – presidente do PSDB

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1127&portal=

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

GABEIRA NA ZONA OESTE


Gabeira e Luiz Paulo tiveram uma extensa agenda na Zona Oeste na terça e quarta-feira.

Começaram pela comunidade de Antares, na terça, e dormiram em Bangu, seguindo na quarta para o Jabour, Rebu, Miguel Gustavo e Vila Vintém.

Por onde passavam, a alegria das crianças encantava e estimulava o trabalho do corpo-a-corpo.

É a cidade unida que aplaude seus candidatos!

Contas não fecham


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Faltando exatamente 12 dias para as eleições presidenciais, sendo que em vários estados a eleição antecipada já começou, com um amplo comparecimento, a disputa agora está resumida aos estados que não têm uma posição definida, os chamados "estados campos de batalha", onde qualquer um dos dois partidos tem condição de se impor. O democrata Barack Obama tem aumentado sua votação em quatro estados que são considerados fundamentais - Nevada, Carolina do Norte, Ohio e Virginia -, estados em que George W. Bush venceu em 2004.

Um ponto importante para análise de tendências é a indicação de que Barack Obama está tendo uma votação crescente nos subúrbios pelo país, sinal de que está conseguindo erodir a liderança tradicional dos republicanos nesses nichos eleitorais. Os subúrbios dos Estados Unidos e suas derivações representam hoje cerca de 50% da população, e os seus eleitores foram considerados decisivos para a vitória de George Bush em 2004. Hoje, eles representam a parcela da classe média mais atingida pela crise, tanto pelo preço da gasolina quanto pela falta de crédito.

Mesmo cidades em áreas rurais, mas ligadas às grandes metrópoles por auto-estradas, transformaram-se em redutos dessa classe média que se refugiou no campo em busca de uma melhor condição de vida, com menos estresse e mais segurança.

A população desses centros é majoritariamente branca, de trabalhadores de classe média com uma renda anual abaixo de US$75 mil, sendo que somente 17% têm renda acima de US$100 mil.

O colunista do "New York Times" David Brooks, que publicou um livro sobre essas comunidades intitulado "On paradise drive" ("No paraíso do automóvel", em tradução livre), registrou em recente coluna no jornal a transformação por que passam esses subúrbios, com os moradores mais preocupados com a má distribuição da renda e compreendendo melhor a necessidade de uma transformação da sociedade americana.

Os eleitores americanos, incluindo aí os suburbanos, diante da crise financeira, estariam mais inclinados a aceitar ações governamentais que visem a uma ajuda aos necessitados, mesmo que isso represente um aumento da ação do Estado.

Talvez esteja aí o grande obstáculo para uma reação de McCain, pois esses são redutos eleitorais considerados como apoios certos pela candidata a vice Sarah Palin, que se descreveu como uma "hockey mom" dos subúrbios, aquela que vai acompanhar o filho no jogo de hóquei no fim de semana.

O "populismo econômico", traduzido por uma política fiscal mais frouxa, de gastar mais e tributar mais os mais ricos, tem sido a marca dos democratas nas últimas eleições congressuais.

E é devido a ele que chegaram à maioria do Congresso, que devem ampliar largamente nas eleições deste ano.

Já o "populismo social", a marca dos republicanos, atribui ao cidadão a responsabilidade de produzir riqueza para a sociedade, sem que o governo interfira.

Foi uma explicação de Obama baseada no "populismo econômico", de usar os impostos dos que ganham mais para espalhar a riqueza pela sociedade, que fez Zé, o encanador, se rebelar contra os democratas e se tornar o emblema da campanha de McCain nas últimas semanas.

Mas, assim como o Zé não era nem encanador, também os eleitores conservadores parecem estar aceitando mais algumas medidas "socialistas" para amenizar a crise financeira.

Segundo as últimas pesquisas, Barack Obama teve ganhos em duas cidades que podem trazer os votos de Nevada e Carolina do Norte para os democratas, de acordo com o levantamento do site Politico/Insider Advantage. Os eleitores de Washoe County estão escolhendo Obama por 50% a 40%, e em Wake County ,na Carolina do Norte, onde estão Raleigh e seus subúrbios, Obama vence de 52% a 43%.

Os dois são os mais populosos condados de suas regiões. Para se ter uma idéia do que isso representa, George W. Bush venceu em ambos os condados em 2000 e 2004, apesar de que na reeleição a vitória tenha sido bastante apertada, já antecipando uma mudança de comportamento do eleitorado suburbano.

Esses dois estados tradicionalmente republicanos ainda estão em disputa, mas a boa performance dos democratas é um indício de que alguma coisa está mudando por lá. Mesmo com a atuação de Sarah Palin, ou talvez por causa dela, Obama está sendo o preferido das mulheres nesses dois condados.

Iowa, Novo México e Colorado, todos estados em que Bush venceu em 2004, já estão sendo dados por perdidos pela campanha de McCain. As contas estão sendo feitas pelos republicanos para tentar vencer a eleição sem esses estados tradicionais, mas, a cada colégio eleitoral que perdem, fica mais difícil a substituição dos votos para chegar aos mágicos 270 votos que dão a vitória no Colégio Eleitoral.

Mesmo perdendo Colorado, é possível ganhar, mas será preciso substituir os tantos votos eleitorais do estado por outros de um estado tradicionalmente democrata como Pensilvânia, com seus 21 delegados.

Ou vencer em Minnesota e Wisconsin, onde está perdendo por larga margem. E não perder em Virginia, Nevada e Florida, estados "vermelhos" (republicanos) que estão a ponto de se tornarem "azuis" (democratas).

A conta está ficando cada dia mais difícil de fechar para McCain.

Uma leve compressão


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, corre para desmentir qualquer interpretação de que a disputa entre PT e PMDB na eleição de Salvador possa ter conseqüência sobre a aliança nacional que sustenta o governo Luiz Inácio da Silva.

Nega com veemência que haja a mais remota intenção de pressionar o presidente quando pediu que ele e seus ministros ficassem longe da Bahia no primeiro turno e permanecessem distantes da capital na etapa final, para não dar ao eleitor a impressão de que só o candidato Walter Pinheiro, do PT, poderia assegurar benefícios federais à cidade.

“Conheço o meu lugar e não quero parecer chantagista. Ele é o juiz das suas decisões”, diz.

Mas, e se o presidente não atendesse e desembarcasse em Salvador para defender o candidato do PT?

“Eu faria minhas malas e iria embora do ministério, porque, nesse caso, não seria um deputado do PMDB, mas um ministro dele que estaria sendo desautorizado.”

Como se vê, quem conclui pela existência de pressão parte de uma premissa sem fundamento.

E já que está tudo ótimo, na maior leveza e santa paz, reformulemos o raciocínio para denominar de “leve compressão” a reação do ministro diante da conduta do parceiro de coligação nacional nessas eleições municipais, particularmente em Salvador: “O PT sinaliza que em 2010 tudo é possível”.

Refere-se a projetos eleitorais e mudanças de rumo, evidentemente, mas não dá passo maior do que lhe permitem as pernas agora: “Trabalho pela manutenção do PMDB na aliança do presidente Lula”, avisa, ressalvando que não representa todo o partido, cujos interesses são múltiplos. E voláteis, como está registrado na trajetória recente da substanciosa agremiação.

Na visão do ministro da Integração Nacional, as críticas à conduta do PMDB são duras na proporção inversa da tolerância com que são vistos os gestos do PT. “Salvador é o símbolo da falta de compromisso com os aliados.”

Na opinião dele, o comportamento dos petistas na capital não foi até agora corretamente analisado. “O PT participou da prefeitura do João Henrique (ex-PDT, candidato à reeleição pelo PMDB) durante 40 meses e, de uma hora para outra, resolveu ter candidato próprio e atacar a administração como se não tivesse nada a ver com ela.”

E mais: “Passou a se comportar como se só ele fosse aliado do governo federal, como se o presidente fosse dar tratamento privilegiado aos municípios onde o PT fizesse o prefeito, como se os outros partidos, ganhando, ficassem reduzidos a pão e água”.

A única maneira de o eleitor não tomar a insinuação como verdade absoluta, defende-se o ministro, seria evitar a presença do presidente e dos ministros. Com Lula lá, a disputa ficaria “injustamente” desequilibrada.

E não porque a Bahia seria exceção à regra que pelo País afora não confirmou o fenômeno da transferência automática de votos. “O problema está na mensagem nem sempre sutil de que ou o eleitor vota no PT ou a cidade fica sem nada.”

Passemos batido pelo caso do Rio de Janeiro, onde o candidato Eduardo Paes faz campanha dizendo que a cidade só “sai do isolamento” em relação ao repasse de verbas federais se o eleitorado escolher o PMDB.

Guerra é guerra. A questão é saber se depois de segunda-feira ela fica restrita ao âmbito municipal ou se sobrarão espaço e confiança para recomposições federais firmes o suficiente para resistir a ataques e contra-ataques nas disputas pela Presidência da República e os governos de 27 Estados. Um jogo bem mais poderoso que as batalhas de província ora prestes a se encerrar.

“Em 2010 tudo é possível”, disse acima o ministro sobre o efeito futuro da atual conduta petista; o que tanto pode significar abandono da aliança quanto a permanência ao lado de Lula, mas sem resquício de compromisso com os projetos do PT.

Adaptação

Se vai ser candidato e quer mesmo presidir a República, o governador José Serra precisará adquirir mais agilidade - e por que não dizer, um quê de virtualidade política - no trato de movimentos reivindicatórios se não quiser pagar sempre a fatura no final.

No ano passado, quando a reitoria da USP foi invadida por estudantes, ficou olhando a cena de longe, tal como acabou de fazer por mais de 30 dias com a greve da Polícia Civil de São Paulo até ser pressionado pela baderna produzida nas cercanias do Palácio dos Bandeirantes por sindicalistas e políticos eleitoralmente engajados.

Independente da justeza dos movimentos ou da razão da passividade - na USP, o receio do governo era ferir a autonomia universitária e, no caso da polícia, estava em jogo a pressão armada sobre uma autoridade -, aos olhos da opinião pública a responsabilidade não aceita nuances: recai sobre o chefe do Executivo, junto com o desgaste.

Ademais, se um tucano for eleito terá o PT na oposição, o que indicará tempos de muitos blocos na rua.

Fadiga de material


Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Nada como uma eleição depois da outra para confirmar a máxima de que resultado, só depois de contados os votos. Em São Paulo, o "demista" Gilberto Kassab começou o processo eleitoral na lanterna das preferências de voto; no segundo turno, vai para a eleição ostentando grande diferença nas pesquisas em relação à candidata que no início da campanha eleitoral era a favorita, Marta Suplicy (PT). Em Minas, havia uma certeza quase arrogante, confirmada pelas pesquisas depois do início da campanha eleitoral gratuita, de que o eleitor de Belo Horizonte seguiria cegamente os seus dois líderes, o governador Aécio Neves (PSDB) e o prefeito Fernando Pimentel (PT), e elegeria ainda em primeiro turno o candidato Márcio Lacerda (PSB), apoiado por ambos. Houve segundo turno e, em bom momento do processo eleitoral, o deputado Leonardo Quintão (PMDB) esteve na frente nas pesquisas. A vitória de Lacerda, se ocorrer, não será mais um passeio. No Rio, a certeza de que o voto evangélico é majoritário elevou as apostas no candidato-bispo Marcelo Crivella (PRP), que sequer foi para um segundo turno que está sendo disputado, voto a voto, por Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV).

É difícil estabelecer um padrão para as eleições das capitais dos três maiores Estados do país, mas existem algumas coincidências. Em São Paulo, a campanha de Marta concentrou-se na tática de nacionalizar a disputa, na tentativa de quebrar os índices de rejeição que a candidata ostenta com a aprovação que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desfruta. Enquanto a aprovação de Lula ultrapassava os 80% nas vésperas do primeiro turno, Marta não conseguiu superar os 37%, uma marca que parece ter se tornado o seu teto. As características pessoais da candidata que desagradam o paulistano e a mantêm com alto índice de rejeição não foram reavaliadas pelo eleitor em função do apoio direto e militante de Lula à petista. Da mesma forma, o eleitor de Belo Horizonte rejeitou votar simplesmente por procuração - e, enquanto na propaganda eleitoral Lacerda abria mão de apresentar-se como um candidato com qualidades próprias, contentando-se em ser um projeto de criatura de dois criadores, Quintão subiu nas pesquisas expondo-se ao eleitorado. No caso das duas capitais, o voto foi pessoal e intransferível: Lula, ao que parece, não transferiu votos para Marta; assim como Lacerda não se tornou automaticamente o depositário das escolhas da maioria dos eleitores belo-horizontinos - está tendo que despender esforços para isso. No Rio, Eduardo Paes, embora apoiado pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), que por sua vez é da base de apoio de Lula, emergiu do nada no primeiro turno mais pelo fato de ser uma novidade do que propriamente pelo padrinho que tem; no segundo turno, a ansiedade do carioca por novas lideranças parece estar favorecendo Gabeira. Os dois disputam voto a voto não pelo que os vincula aos velhos líderes, mas pelo que deles estão separados.

O que une as três capitais nesse segundo turno, ao que parece, é o fato de que as questões nacionais e estaduais não estão tendo quase influência na decisão de voto; os padrinhos políticos tiveram pequeno poder de transferência; e há uma tendência a privilegiar atores políticos com menor experiência e, em consequência, também com uma rejeição menos consolidada. Em São Paulo, embora Kassab seja o prefeito, é a primeira vez que disputa uma campanha para cargo executivo (é prefeito porque era vice de Serra, quando este saiu para disputar o governo do Estado), isto é, tinha antes uma exposição pequena, que lhe garantiu inclusive um índice de rejeição muito inferior ao de Marta. Em Minas, Quintão e Lacerda são novidades, mas Quintão, em algum momento, pareceu novidade maior que Lacerda - agora ele tem de provar que a novidade é ele. No Rio, Gabeira é mais novidade, já que nunca antes exerceu cargo político, é oposição e entrou nessa sem padrinhos, mas terá que provar que é mais novidade que seu adversário.

Talvez sejam sobre esses dados que os partidos devem refletir até a próxima eleição. O país vive, nesse momento, uma exaustão das lideranças que se formaram durante a ditadura e no período pós-redemocratização; os políticos que se tornaram competitivos às custas de terem se exposto a várias competições eleitorais seguidas estão dando sinais de desgaste. Os partidos não estão conseguindo manter uma taxa de renovação apropriada, tornando-se redutos dos mesmos políticos. Se a renovação não for feita em profundidade, pelos mecanismos partidários, será feito mais à frente, pelo voto, e a despeito dos partidos.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

Corre, mundo, corre


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


MADRI - Na segunda-feira, 13, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva puxou uma cadeira de ferro no jardim do "Cigarral de las Mercedes", o mais luxuoso salão de festas de Toledo, onde almoçara, pronto para uma entrevista coletiva.

Comecei perguntando se seu governo entraria na onda de estatizações de bancos então recém-inaugurada na Europa e nos Estados Unidos e fechei com uma provocação, ao lembrar que era isso, mais ou menos, o que o PT de antigamente defendia. Lula sorriu, mas não caiu na provocação.

Demorou um tempão até chegar à seguinte frase: "Depende, depende, depende se tiver um banco numa situação que avaliarmos que precisa". Mas, antes, o governo estimularia outros bancos a comprar a carteira de quem estivesse em apuros e/ou atuaria via redesconto do Banco Central.

Bom, ontem, apenas nove dias depois da conversa em Toledo, o "depende" acabou. É mais uma demonstração de que a crise é de uma velocidade e de uma voracidade assustadoras. Prova-o o fato de que, na mesma entrevista, Lula jurou que "tudo vai ser mantido", sendo o "tudo" as obras e investimentos programados pelo governo. Anteontem, acabou admitindo que nem "tudo" vai ser mantido.

A velocidade pede que Lula seja otimista, como deve ser, mas menos vezes por dia. Não desgastaria a sua palavra e o seu otimismo.

Título da coluna de Martin Wolf ontem reproduzida pela Folha: "Mundo desperta do sonho do descolamento". Wolf é o mais badalado colunista do mais badalado jornal financeiro do planeta, o "Financial Times".

Título da modesta Folha em 24 de janeiro de 2008, nove meses antes portanto: "Tese do descolamento tem enterro de luxo em Davos". Pena que a Folha seja escrita em português.

Surfando na "marolinha"


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - O Brasil vai sediar na próxima segunda uma reunião extraordinária de ministros do Exterior e da Economia de dez países da América do Sul. São dois objetivos.

Um, econômico: discutir a crise financeira internacional e o que cada um está fazendo para tentar se safar. Outro, político: ratificar sua posição de líder no continente.

O Brasil como a Inglaterra; Lula como Gordon Brown, primeiro-ministro inglês. A Inglaterra saiu à frente, injetando bilhões de euros para salvar e estatizar bancos em dificuldades, sendo seguida em grande estilo pela União Européia -aliás, como o Prêmio Nobel Paul Krugman sugerira em artigos. Agora é o Brasil quem sai à frente, com uma medida provisória que, na prática, permite ao governo sair estatizando tudo e toda empresa que passar pela frente, via Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

Essa MP, publicada no "Diário Oficial" da União que circulou ontem, deverá ser a estrela do encontro de segunda, com participação de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Equador, Bolívia, Chile, Peru e Colômbia. Ou seja, desde os amigos brasileiros mais à esquerda até os dois mais à direita.

Se o momento é tenso no mundo inteiro, não seria diferente por estas bandas de acá. E com particularidades que interessam diretamente à política, à economia e à diplomacia brasileiras.

Numa pincelada, porque o espaço é curto: 1) a crise pega a Argentina de jeito, muito mais desequilibrada economicamente do que o Brasil; 2) a Venezuela à beira de um ataque de nervos, com o preço do petróleo pela metade (e ele está para Hugo Chávez como os cabelos para Sansão); 3) Equador e Bolívia só tratam as empresas brasileiras nos cascos, como se os créditos internacionais estivessem fartos e fáceis; 4) o governo do Paraguai ainda engatinha e afia as garras.

Bela chance, pois, para Lula surfar na "marolinha" antes de "cruzar o Atlântico" e se reunir com o G-8.

Da “marolinha” ao corte do Orçamento

Jarbas de Holanda

Os efeitos da crise internacional começam a manifestar-se em múltiplos segmentos da economia, forçando o presidente Lula a trocar a desqualificação deles no Brasil pela admissão explícita ontem (em solenidade comemorativa dos 60 anos da SBPC) da necessidade de corte das dotações dos ministérios no Orçamento da União de 2009. Também ontem, o relator da proposta do Orçamento, senador Delcídio Amaral, defendeu um corte de até 20%, ou R$ 12 bilhões, nas despesas de custeio do governo e a utilização da economia numa Reserva de Estabilização Fiscal, que seria criada como resposta à crise.

Algumas das muitas evidências dos reflexos da crise: - apesar de o Banco Central já ter injetado US$ 22,9 bilhões no mercado de câmbio, o dólar segue valorizando-se (ontem em cerca de 5%, para mais de R$ 2,30), enquanto o risco-Brasil, mantém-se acima dos 500 pontos; - férias coletivas das montadoras de automóveis; -a decisão da Petrobras de alongar seus investimentos, diluindo-os do período 2009/2013 para até 2020, anunciada pelo presidente Sérgio Gabrielli, de par com o reconhecimento de que a piora do cenário também prejudicará os planos para a exploração do pré-sal; – o adiamento para o final de novembro do leilão pela Aneel da linha de transmissão das hidrelétricas do rio Madeira.

Quanto à percepção dos meios empresariais sobre as conseqüências da crise já este ano e em 2009, o primeiro indicador significativo, da CNI, foi divulgado ontem-ontem. Da Folha de S. Paulo, com o título “Confiança de empresários despenca: “A crise fez a confiança dos industriais brasileiros cair ao pior nível desde julho de 2005 e já indica pessimismo em relação ao desempenho da economia. O indicador geral ficou em 52,5 pontos, uma queda de 5,6 pontos em relação à pesquisa de julho e de 7,9 pontos na comparação com outubro do ano passado”. “Quando indagado sobre as condições atuais, os empresários não mudaram de opinião(positiva). Mas a percepção sobre as condição nos próximos seis meses caiu de 55,4 para 46,7 pontos. Segundo a metodologia da CNI, valores abaixo de 50 pontos indicam pessimismo”.

Na disputa das grandes cidades do Centro-Sul, Lula procura compensar fracasso do PT nas capitais

Paralelamente ao embate maior em torno da eleição dos prefeitos em dez capitais (inclusive as cinco mais importantes – São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador)) é intensa a batalha que se trava pelas prefeituras de 20 grandes cidades das Regiões Metropolitanas e do interior que também terão 2º turno no próximo domingo. Batalha que é especialmente acirrada nas que se localizam no Sudeste e no Sul por caracterizar-se pelo confronto entre candidaturas representativas do lulismo (do PT ou de aliados próximos) e dos partidos oposicionistas, inclusive o PMDB antipetista de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Dessas grandes cidades que estão sendo palco de forte confronto entre o lulismo e lideranças regionais e nacionais da oposição destacam-se Contagem, Juiz de Fora, Petrópolis, Santo André, São Bernardo do Campo, Guarulhos, São José do Rio Preto, Londrina, Ponta Grossa, Joinville, Pelotas e Canoas.

Para o presidente Lula, a conquista dos municípios em que se dá esse confronto compensaria a fragilidade evidenciada mais uma vez pelo PT no Sudeste e no Sul, mesmo com a intensa instrumentalização de sua alta popularidade. E atenuaria o impacto dos prováveis resultados adversos, no próximo domingo, das eleições de São Paulo e Porto Alegre (emblemáticas para o petismo e o lulismo) e também da de Florianópolis; bem como em Belo Horizonte e no Rio, de números finais que ele não poderá capitalizar, quaisquer que sejam, pois os ganhadores serão outros (restando Vitória como a única capital do Sudeste que elegeu um petista). Daí, o empenho com que o Palácio do Planalto está atuando em favor dos candidatos lulistas nesses municípios, empenho do qual os exemplos mais eloqüentes são mostrados em São Bernardo, Santo André e Guarulhos, em Contagem e Juiz de Fora, em Londrina e em Joinville, este último com embate entre o PT e o DEM, os demais entre o PT e o PSDB. E nas cidades do ABC paulista e de Guarulhos, com a intervenção pessoal de Lula, tendo em vista uma espécie de cerco (reforçado por Osasco, com prefeito reeleito do PT) à São Paulo antipetista que deverá eleger o candidato do governador José Serra, Gilberto Kassab.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1126&portal=

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

FRASE SELECIONADA

Em um sistema de produção onde toda a continuidade do processo de reprodução depende do crédito, quando este acaba subitamente e somente transações com dinheiro passam a ser aceitas, é inevitável que ocorra uma crise, uma tremenda demanda por meios de pagamento. É por isso que, à primeira vista, a crise inteira parece ser somente uma crise de crédito e de moeda. E de fato trata-se apenas da conversibilidade de letras de câmbio em dinheiro. No entanto, a maioria destes papéis representam compras e vendas reais, cuja extensão – para muito além das necessidades da sociedade – é, afinal, a base de toda a crise. Ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme destas letras de câmbio que representam mera especulação, que agora revela sua face e colapsa; especulação fracassada com o capital de outras pessoas, com o capital-mercadoria depreciado ou invendável, ou com ganhos que nunca mais poderão ser realizados. Todo esse sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução evidentemente não pode ser resolvido com um banco, por exemplo, o Banco da Inglaterra, entregando a todos esses especuladores o capital que lhes falta através de seus títulos, comprando mercadorias depreciadas a seus antigos valores nominais. Aliás, é nesse momento que tudo começa a parecer distorcido, já que nesse mundo de papel, o preço real e seus fatores reais desaparecem, deixando
visível somente metais, moedas, cédulas, letras de câmbio e títulos.


(Karl Marx, O Capital, vol. 3, cap. XXX.)

Moraes Moreira: Uma declaração de amor ao Rio


EM FORMA DE “CORDEL” UMA DECLARAÇÂO DE AMOR AO RIO E O MEU APOIO TOTAL À CANDIDATURA GABEIRA:

Pelo Rio de Janeiro
Declaro meu bem querer
Como tantos Brasileiros
Que aqui vieram viver,
Feliz é quem tem a manha
O jeito de alcançar
O topo dessa montanha
E a profundeza do mar

Provoca tanta cobiça
Essa cidade mulher
Encanta e nos enfeitiça
Como esse Rio dá pé!
Quem ama assim essa terra
Sabe o milagre que faz
Enxerga além dessa guerra
Os horizontes da paz

O orgulho bate no peito
Eu faço o V da vitória,
Que seja o nosso prefeito
Alguém que tenha uma história
Que venha noutra batida
Mudando o rumo da prosa
Em prol da nossa querida
Cidade maravilhosa

Sou de São Sebastião
Um verdadeiro devoto
Com muita satisfação
Declaro aqui o meu voto:
Sendo eleitor consciente
Meu nome é Moraes Moreira
Eu digo pra toda gente
Meu candidato é GABEIRA.

A bola fora de Paes

Pedro Motta Gueiros
DEU EM O GLOBO

Filho de Saldanha: candidato é retrógrado

Um pouco da polêmica que João Saldanha provocou em vida - seja como técnico de futebol, comentarista ou político - ressurgiu na campanha do segundo turno do Rio. Anteontem, o candidato do PMDB, Eduardo Paes, afirmou que seu adversário, Fernando Gabeira (PV), "lembra até o João Saldanha. Fica comentando as propostas que faço e não apresenta nenhuma". Um dia depois, parentes do "João Sem Medo" trataram de revivê-lo ao entrar no confronto com o peemedebista e manifestar apoio ao rival.

- É um absurdo que um candidato à prefeitura do Rio não saiba quem é João Saldanha e se refira a ele de maneira irônica. Isso nos revolta - disse Elza Saldanha Milliet, de 85 anos, irmã do ex-técnico do Botafogo e da seleção brasileira. - O Eduardo me parece que é uma pessoa que está por fora de tudo. Se esquivou além da conta. É uma coisa feia porque o João já está morto.

A família gosta de lembrar o temperamento forte de Saldanha. Quando comandava a seleção brasileira, João pôs Pelé no banco e enfrentou o regime militar ao se opor à convocação do atacante Dario, indicada pelo então presidente, o general Emílio Garrastazu Médici. Meses depois, o técnico foi afastado e Dario chegou à seleção junto com o técnico Zagallo.

Em vez de chuteiras, seu filho do mesmo nome calça sapatilhas, mas conserva o espírito de luta e a paixão pelo Botafogo. Para o coreógrafo João Saldanha, de 49 anos, a declaração mostra o descompasso de uma candidatura sob pressão.

- Isso revela que o Eduardo Paes está desesperado e que também não anda em muito boa companhia. Usar o nome do papai para atacar o Gabeira, sendo ele um político moderno, como se diz, é uma ação retrógrada, uma tática eleitoral atrasada - disse o filho, satisfeito com o desfecho do episódio. - O Gabeira já respondeu brilhantemente, ele sabe que tem o apoio de toda a família, e, quem sabe agora, de toda a torcida botafoguense. Acho que o Eduardo está precisando de mais alguns anos para amadurecer.

Em carta, assinada por Elza, pelas filhas Vera, Sonia e Ruth e pelo sobrinho Raul, a família responde à pergunta que apresenta no título: "Quem foi João Saldanha?". Além de responsável pelo lendário time do Botafogo de 1957, é apontado como o técnico que montou a base da seleção tricampeã do mundo em 1970. Na política, está registrado seu trabalho na defesa de camponeses e operários e sua liderança na construção do "maior projeto de democratização esportiva" do Brasil, o "Recriança" que atendeu mais de 500 mil crianças. O texto termina dizendo que "assim era João Saldanha, personagem que Eduardo Paes parece desconhecer."

Para a única dos cinco irmãos que ainda está viva, o desconhecimento do candidato, no entanto, é circunstancial.

- Se o João estivesse vivo, ele não ia abrir a boca - disse Elza.

Procurado, Paes não respondeu às declarações, pois estava num debate.

Dito pelo não dito


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Pode acontecer qualquer coisa na disputa pelas presidências da Câmara e do Senado em fevereiro de 2009, menos o acordo de rodízio firmado há dois anos entre PT e PMDB ser cumprido na sua integralidade.

Antes de prosseguirmos, uma explicação sobre a relevância do tema: os próximos presidentes das duas Casas do Congresso comandarão o Parlamento em pleno processo de sucessão do presidente Luiz Inácio da Silva, cujo sucesso em boa medida depende da preservação da harmonia na aliança partidária que sustenta o governo e tem naqueles dois partidos os principais parceiros.

Se uma briga os tornarem incompatíveis, a sustentação do projeto de Lula de eleger o sucessor corre sério risco. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, começou a perder a chance de ser substituído por um aliado dois anos antes, quando os então senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho quase se pegam a tapas no plenário.

A rixa quebrou o equilíbrio ecológico na aliança, repercutiu na disputa pelas presidências do Legislativo no ano seguinte, a combinada divisão dos cargos entre PMDB e PFL foi para o espaço, o PSDB fez de Aécio Neves presidente da Câmara, o PFL reagiu e ali considerou encerrado seu compromisso de lealdade com Fernando Henrique.

Daí surgiu a candidatura de Roseana Sarney, cujo fracasso foi atribuído pelo PFL a subterfúgios engendrados pelo candidato tucano José Serra e o resto da história está registrado nos anais da dispersão do campo governista até a derrota final para Lula.

Evidentemente, o atual presidente não vai querer que lhe aconteça o mesmo e, por isso, é de se supor que empenhe todos os esforços para manter o PMDB, que sai das urnas mais forte do que nunca, na sua base.

É este partido cheio de respaldo e disposição que desde já se rebela contra a eleição do senador petista Tião Viana para a presidência do Senado, conforme o anteriormente combinado. Pertence ao mesmo partido o atual presidente da Casa, Garibaldi Alves, que diz o seguinte sobre o acerto: “Acordos feitos com muita antecedência têm um risco”. Na visão dele, o pacto em questão “é um sério candidato a zebra”.

Garibaldi mesmo está no páreo. Fez uma primeira consulta sobre suas possibilidades legais e não teve uma boa resposta. Mas vai insistir, sob o argumento de que apenas cumpre o restante do período para o qual foi eleito Renan Calheiros. “Mudou o homem, mas o mandato é o mesmo.”

O próprio Calheiros trabalha contra Viana, põe na roda o nome de José Sarney (uma hipótese sempre levantada quando há sinal de confusão nas proximidades) e o PMDB, com isso, quer dizer uma de duas: ou que se acha no direito de dar as cartas e, portanto, reivindicar o comando das duas Casas ou que atira ao mar a candidatura de Michel Temer a presidente da Câmara.

Esta última é bem pouco provável. Primeiro, porque Temer é simplesmente o presidente do partido e, segundo, porque ele guarda na gaveta da escrivaninha o acordo assinado por escrito. Nele, em troca do apoio do PMDB a Arlindo Chinaglia (atual presidente), o PT se compromete a apoiar um pemedebista para o delicado período 2009/2010.

No caso de quebra do escrito, raciocinemos: fica na desvantagem o PMDB, cuja mercadoria será disputada a tapa no mercado da sucessão, ou o PT, cujo poder central estará em jogo e não tem nada a oferecer?

Até por uma questão de custo-benefício, se não for tudo resolvido na santa paz, Lula, na posição de quem parte e reparte, ficará com quem puder lhe propiciar a melhor parte.

Discretamente

Sem dar ao cenário o nome de confronto, o presidente Lula e o governador José Serra transferiram para São Bernardo o enfrentamento que não houve na capital de São Paulo.

Desde o primeiro turno, Lula aposta todas as fichas na eleição de Luiz Marinho. Agora, no segundo, Serra intensificou presença em prol da candidatura de Orlando Morando.

O petista é o favorito e talvez por isso não interesse aos tucanos chamar atenção para a existência do embate “de cima”. Mas se porventura a maré virar certamente farão grande alarde, pois Marinho é a última - e única - chance de o presidente creditar uma vitória em sua conta nessas eleições.

Além da cidade de origem e moradia de Lula, São Bernardo foi palco do maior investimento eleitoral do presidente que lá esteve inúmeras vezes.

Ironia do destino

Leonardo Quintão, o pemedebista que tirou do governador Aécio Neves a oportunidade de eleger Márcio Lacerda no primeiro turno em Belo Horizonte, foi escolhido candidato na convenção do partido com o apoio de aliados do governador.

Temendo a vitória do oponente Sávio Souza Cruz, a área de influência de Aécio no PMDB se mobilizou em prol do nome de Quintão, cujo grau de oposicionismo é próximo do zero e o potencial de perturbação na campanha era considerado, por isso, muito reduzido.

Relações que inspiram cuidados


Rosângela Bittar
DEU EM O VALOR ECONÔMICO


O governo está esperando a volta de deputados, senadores e ministros da campanha de eleição dos prefeitos para começar a juntar os pedaços da aliança que dá sustentação à gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A previsão que se faz no Palácio do Planalto é que será necessário um trabalho forte de reconstrução antes de convocar os partidos amigos a seguirem com a agenda do governo no Congresso.

Ao descrever esta agenda, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, cita duas prioridades de interesse do governo: a votação dos projetos de Fundo Soberano e de Reforma Tributária, nesta ordem. Há, também, o Orçamento para 2009, cuja aprovação, em todos os anos, serve aos mais baixos instintos do clientelismo de alguns partidos desta aliança.

As medidas de combate à crise econômica mundial já estão sendo negociadas, inclusive com a oposição, pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e até o momento, pelas reações, com sucesso.

Mas embora o ministro não admita que estas questões estejam na agenda do governo, há polêmicas no forno das intenções de líderes governistas no Congresso. Já se discute, por exemplo, a possibilidade de instituição de uma Constituinte para promover, entre outras mudanças, a reforma política. Aquela em que, para um grande grupo do PT, está sempre subentendida a possibilidade do terceiro mandato para o presidente da República. Menciona-se, ainda, outro projeto originado nas más idéias fixas: a recriação da CPMF, por intermédio do novo nome de contribuição social. Empreitada em que o governo precisará de uma base não só coesa como muito feliz.

Tanto para os mais, quanto para os menos polêmicos, o presidente precisará reunir em torno de si a base de quase 400 parlamentares. Lula não se envolveu nas disputas entre aliados no segundo turno das eleições municipais - ficou restrito aos amigos do peito que têm adversários de oposição - mas é com grande expectativa que aguarda o desenlace nas cidades onde os partidos que formam a base de apoio no Congresso concorrem entre si agora e passaram por uma refrega dura no primeiro turno.

O PSB, um dos principais partidos aliados de Lula que têm candidato à sua sucessão, precisa absorver, antes de fazer as pazes, principalmente a guerra aberta pelo PT nacional contra a aliança com o PSB em torno da candidatura de Márcio Lacerda em Belo Horizonte. Embora a sua disputa seja com o PMDB, o problema real foi e ainda é dentro do próprio PT, cuja cúpula negou apoio aos aliados.

A eleição em Porto Alegre, outro exemplo sobre a complexidade das relações a serem reconstituídas, possibilitou ao PT criar constrangimentos com vários partidos da aliança lulista, com o PMDB, na disputa direta, e com o PSB e o PCdoB, que ficaram unidos contra os petistas, esgarçando as relações desde o primeiro turno. Em São Paulo, o PCdoB, outro aliado histórico, só foi chamado a integrar a chapa de Marta Suplicy, como vice, depois que o PT perdeu o PMDB e o PR. No Rio, o aliado PMDB está na disputa final depois de um primeiro turno em que não houve possibilidade de conquistar o PT para a aliança municipal que negou apoio tambem ao PCdoB.

As campanhas de primeiro turno apresentaram desgastes acentuados dentro aliança lulista. Provavelmente premido por uma destas situações, a de Fortaleza, onde o PT manteve, desde 2004, um jogo duro com aliados, é que no fim de agosto, portanto ainda no início da campanha, o deputado Ciro Gomes (PSB), em viagens pelo Brasil, já previa que dificilmente a base de hoje ficaria unida em 2010. Um mês depois de Ciro foi a vez de o líder do PSB no Senado, Renato Casagrande, fazer o mesmo alerta. Ela previa maior facilidade para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolher um candidato e ir em frente com ele do que amarrar os apoios dos partidos aliados a esta candidatura do presidente à sucessão.

São praticamente 15 partidos nesta aliança: PT, PMDB, PP, PSB, PDT, PR, PCdoB, PTB, PSC, PRB, PTC, PCB, PTdoB, PMN, PV (em parte) e PHS. Entre todos eles foram registrados problemas durante a campanha, mas nada que se aproxime do que ocorreu entre os dois principais e maiores, o PMDB e o PT. Governadores, ministros, prefeitos, líderes nacionais e regionais se engalfinharam, disputaram do abraço presidencial às verbas federais, levando as campanhas a transcorrerem da pior forma possível.

Salvador, em segundo turno, é uma eleição considerada emblemática para o Palácio do Planalto no que diz respeito à possibilidade de reconstrução da aliança. Mais delicada do que qualquer outra em que o maior partido da base e mais bem sucedido nestas eleições, o PMDB, enfrenta o partido do presidente. Uma eleição tensa, disputada voto a voto, com um risco forte de deixar seqüelas. A expectativa do Palácio do Planalto quanto à volta do PMDB à base de apoio ao presidente, e à fidelidade à agenda de interesse do governo no Congresso, está inteiramente voltada ao que se passa na Bahia.

Unidos para derrotar o adversário comum em 2006, PMDB e PT estão agora em campos opostos liderados, cada um, por um líder importante na equação política do governo federal. Geddel Vieira Lima (PMDB), ministro da Integração Nacional, considerado o novo rei da Bahia, que coroou 130 prefeitos nesta disputa municipal, trabalha para reeleger o atual prefeito da capital, João Henrique, do PMDB. Jacques Wagner, governador do Estado, ex-ministro do governo Lula, eleito com o apoio de Geddel, lidera a campanha do PT com o candidato Walter Pinheiro. O ambiente político é tenso em Salvador.

O PT, com sua militância que se agiganta em finais de campanha, é um partido que tem formas agressivas de buscar o voto. O PMDB, pela circunstância de ser o seu chefe quem é, está numa situação considerada delicada e sabe que não pode cometer erros que inviabilizem, desde agora, o início da articulação do dia seguinte tendo no horizonte a sucessão presidencial. No Palácio do Planalto sabe-se que, em campanha, o exagero é lugar comum, mas vê-se como delicada a situação na Bahia. Evita-se definir caminhos para reaglutinação de forças antes de ver como os dois partidos sairão desta campanha em Salvador. É ali que se joga a sorte da aliança.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

O vento rondou


Nas Entrelinhas: Por Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

A crise financeira mundial volatilizou o otimismo e disseminou a incerteza. Esse “fator psíquico” pouco influiu no resultado das eleições municipais, mas pode ser determinante na sucessão do presidente Lula

É temerário antecipar resultados eleitorais, mesmo com pesquisas idôneas nas mãos. Principalmente quando a eleição está muito polarizada e há um candidato com uma linha ascendente, ainda que esteja atrás do favorito. O imponderável, na reta final das campanhas, é o voto dos eleitores que se mantiveram indiferentes ao debate político e entram no processo às vésperas do pleito: escolhem um candidato e desequilibram a disputa. Muito do que está acontecendo no segundo turno se deve à ocorrência desse fenômeno.

As capitais

Feita a ressalva, vamos aos prognósticos. Em São Paulo, é previsível a vitória do prefeito Gilberto Kassab (DEM) contra Marta Suplicy (PT) apesar do empenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor da petista. No Rio, Fernando Gabeira (PV) mantém vantagem em relação a Eduardo Paes (PMDB), um cristão novo do governismo. Em Belo Horizonte, o prefeito Fernando Pimentel (PT) e o governador Aécio Neves (PSDB) tentam reverter a dianteira de Leonardo Quintão (PMDB) sobre Márcio Lacerda (PSB), mas está difícil. O prefeito José Fogaça (PMDB) caminha para se reeleger em Porto Alegre, derrotando a petista Maria do Rosário. Em Salvador, João Henrique (PMDB) também marcha para a reeleição, com vantagem em relação a Walter Pinheiro (PT).

Amazonino Mendes (PTB), em Manaus, atropelou o prefeito Serafim Corrêa (PSB), que está conseguindo a proeza de perder a reeleição. Em Belém, Duciomar Costa (PTB) e José Priante (PMDB) estão em empate técnico. Já em São Luís, José Castelo (PSDB) manteve o favoritismo em relação a Flávio Dino (PCdoB). Em Cuiabá, Wilson Santos (PSDB) deve se reeleger, derrotando Mauro Mendes (PR). Camilo Capiberibe (PSB) também confirma seu favoritismo contra Roberto Góes (PDT), em Macapá. E Dario Berger (PMDB), cujo adversário é o ex-governador Esperidião Amin (PP), provavelmente será mais um prefeito reeleito, em Florianópolis.

Nessas capitais, o foco dos debates foi a administração local. Não houve “nacionalização” do voto do eleitor. O fato de Kassab e Gabeira liderarem as pesquisas não significa que o povo está mandando um recado malcriado para o presidente Lula. Para o bem ou para o mal, a relação dos candidatos com os governadores José Serra (PSDB) e Sérgio Cabral (PMDB), respectivamente, teve mais peso nas eleições. A tese de que qualquer poste pode ser eleito se tiver apoio das máquinas de governo também foi rejeitada pelos eleitores. O candidato, mesmo ungido por poderes federal, estadual e/ou municipal, precisa provar que tem talento político e vocação eleitoral.

O rumo

Por tudo isso, é chover no molhado mitigar o papel do presidente Lula nas eleições municipais. Seu prestígio foi devidamente capitalizado pela base governista, mas não foi suficiente para garantir a vitória dos candidatos do PT em qualquer circunstância. O PMDB, por exemplo, soube faturar melhor a participação no governo e está sendo o partido mais bem-sucedido nas eleições. Manteve sua histórica implantação nos pequenos e médios municípios e voltou a disputar o poder em grandes cidades. Neste segundo turno, deve fazer de quatro ou cinco prefeituras de capitais.

Entre o primeiro e o segundo turnos, o que mudou não foi o eixo do debate eleitoral, mas a conjuntura econômica. Por causa da crise financeira, o real sofreu uma desvalorização, o crédito ficou mais difícil, os investimentos subiram no telhado. A economia crescerá menos e o fantasma do desemprego ronda comércio e indústria. Lula faz o que pode para manter o discurso do “nunca antes neste país”, mas crise é maior do que o seu carisma. A capacidade de absorvê-la dependerá mais do crédito oficial e do gasto público direcionado corretamente.

Na verdade, a crise financeira mundial volatilizou o otimismo e disseminou a incerteza. Esse “fator psíquico” pouco influiu no resultado das eleições municipais, mas pode ser determinante na sucessão presidencial em 2010. Tudo vai depender do ambiente econômico e do perfil dos candidatos para enfrentá-lo. Por enquanto, a crise já abalou a expectativa de poder em torno da candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que mergulhou na “marolinha”. Ao mesmo tempo, alimenta as articulações petistas para recuperar das cinzas, como fênix, a candidatura do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (PT-SP) à Presidência da República. É que o vento rondou e já não se sabe para que lado soprará.

Debates

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS



À medida que a comunicação eleitoral foi se profissionalizando e se tornando mais e mais parecida com a propaganda de produtos e serviços, os debates na televisão se tornaram uma das poucas maneiras através das quais os eleitores comuns podem ver os candidatos mais parecidos com o que são na vida real

Nas cidades onde se disputa o segundo turno das eleições municipais, os últimos dias estão sendo marcados por uma sucessão de debates entre os candidatos nas emissoras de televisão, na base de dois ou mais por semana. O número é maior que no fim do primeiro turno, mas nem tanto. Naqueles dias, como agora, cada uma organizou o seu.

Debates entre candidatos, transmitidos ao vivo, fazem parte da vida democrática moderna. Alguns foram memoráveis, alterando tendências de eleições que pareciam consolidadas ou afirmando lideranças novas, que os eleitores aprenderam a respeitar. Quem estuda a história política se lembra dos célebres debates entre John Kennedy e Richard Nixon, em 1960, nos quais aquela eleição americana se definiu.

Em nossa própria experiência, tivemos alguns decisivos, seja em eleições estaduais ou presidenciais. De todos, talvez o mais crucial foi o que aconteceu no fim do segundo turno da eleição de 1989. Há quem considere que foi nele que Collor assegurou sua vitória sobre Lula, que teve, naquela noite, seu pior momento de todas as eleições que disputou.

Os eleitores, de uma maneira geral, dizem se interessar muito por eles e considerá-los uma das melhores oportunidades para tomar suas decisões de voto, colocando-os, nas pesquisas, entre as principais formas para conhecer e avaliar os candidatos. Mesmo quem não se interessa muito por política acha que são relevantes.

As razões são previsíveis. À medida que a comunicação eleitoral foi se profissionalizando e se tornando mais e mais parecida com a propaganda de produtos e serviços, os debates na televisão se tornaram uma das poucas maneiras através das quais os eleitores comuns podem ver os candidatos mais parecidos com o que são na vida real. Fora dos estúdios, sem poder ler o que dizem, menos produzidos, ficam mais naturais (ou menos artificiais).

Por tudo isso, é pena que os debates entre candidatos na televisão continuem a sofrer os problemas que atualmente têm e que exista tão pouca disposição para resolvê-los. Enquanto sobra, em nossos legisladores, vontade para enfrentar questões sem nenhum significado (minúcias irrelevantes sobre o que se pode ou não fazer nas campanhas, por exemplo), ninguém se preocupa em criar condições para que algo tão importante e tão valorizado pelos eleitores possa cumprir suas finalidades.

A mais urgente é acabar com o falso igualitarismo que obriga as emissoras a convidar todos os que se registram na eleição, entre os quais há de tudo. Dele apenas decorre que os eleitores ficam privados de conhecer melhor os verdadeiros candidatos, vendo desfilar bizarrices que não possuem qualquer base na sociedade.

É claro que isso muda no segundo turno, mas o desejável é que debates verdadeiros aconteçam desde cedo.

A segunda questão é, uma vez estabelecido que apenas os que significam algo vão participar, desengessar as regras que se tornaram padrão nos nossos debates, com tantas filigranas que até os jornalistas que fazem sua mediação volta e meia se confundem. Debate é debate, sem limitações exageradas de tempo e amarras de réplicas, tréplicas, direitos de resposta e coisas parecidas.

Outra questão a tratar é a subordinação de uma instituição tão relevante às disputas de audiência e imagem entre as emissoras comerciais. A líder quer sempre fazer o “último debate”, para preservar um papel de pretensa centralidade no processo eleitoral. Todas as outras querem fazer “o seu”.

Isso é bom? Agora, na reta final, termos tantos debates, organizados na última hora, cada um mais rígido que o outro? Não existem soluções melhores?

Que tal analisar o exemplo americano, ao qual chegaram depois de passar por problemas parecidos com os nossos? Debates em rede, agendados com antecedência, com jornalistas de renome, regrados com bom senso, mais longos, cada um em torno de um tema central? Pode não ser a opção para o Brasil, mas que é melhor que o que temos, não resta dúvida.

Lula mergulha a barba no molho da prudência


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


"Bobo não senta nesta cadeira de presidente da república", ensinou o presidente Itamar Franco a dois assessores ansiosos e afoitos que o aconselhavam a assumir a articulação para a escolha do seu sucessor.

E de bobo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem nada, apesar dos muitos escorregões da língua solta na diluvial maratona diária de três, quatro, cinco improvisos.

Agora, por exemplo, Lula não está inventando a roda, mas aplicando as regras do bom senso e da experiência para pular a fogueira da campanha justamente na semana decisiva da eleição, com o quadro enrolado em indefinições em muitas capitais e grandes cidades e os institutos de pesquisa batendo cabeça na contradição embirutada dos índices que mais confundem do que ajudam a entender as chances dos favoritos.

Lula usa bem a sua facilidade de comunicação, com a invejável popularidade batendo na lua. Joga o seu xadrez político movendo as pedras com a experiência das suas muitas campanhas, com três derrotas na briga pela Presidência e as duas vitórias sucessivas que lavam a alma e só não apagam a nódoa da implicância com o seu antecessor e alvo predileto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Embalado pela aprovação popular e com o afago de importantes êxitos administrativos, o presidente esperou a hora para entrar na campanha e, com meia dúzia de discursos, decidir a parada nas capitais duvidosas, nas quais os seus candidatos necessitavam da sua palavra para apontar o rumo ao voto.

No primeiro turno, pagou o preço da arrogância e da mesquinharia quando ameaçou expelir do Congresso o senador José Agripino Maia, líder da bancada dos Democratas, na eleição para a prefeitura de Natal. Caiu do pangaré com a eleição de Micarla de Sousa, lançada pelo Partido Verde para promover a legenda.

O castigo foi bem aproveitado. Na reta do segundo turno com os institutos de pesquisa enlouquecidos pelas súbitas correções do rumo do eleitorado, o presidente consultou o espelho, acariciou as barbas grisalhas antes de mergulhá-las no caldo da prudência.

E entre três ou quatro lances, liquidou a fatura com os candidatos que não podem perder e anunciou que se retirava da campanha do segundo turno, recolhendo-se ao seu gabinete para "trabalhar, trabalhar e trabalhar". A tríplice repetição é uma tática para dissipar a névoa da incredulidade com o impacto de uma mudança da água para o encorpado vinho de castas nobres.

Não precisava tanto. Mas, nunca é demais exagerar na ênfase. Motivos é o que não faltam para o presidente assumir o comando das articulações da equipe econômica enquanto a crise vai e vêm, na ressaca dos grandes do mundo ensandecido.

E o eleitorado, ou parte dele, parece que resolveu escolher o seu candidato dispensando os feitores que se consideravam insubstituíveis. Ninguém pode estar certo da vitória. Talvez, com a ressalva do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição, muito ajudado pela desastrada adversária Marta Suplicy, que se envenenou ao morder a língua.

No Rio, a crescente violência dos ataques do Eduardo Paes (PMDB) é um golpe de faca de dois gumes.

È melhor esperar pela palavra final das urnas eletrônicas de domingo.

E saborear a sagacidade da lição do presidente Lula do seu retiro no Palácio do Planalto: "Pode ser que não tenha muita diferença ideológica entre democratas e republicanos. Mas, do ponto de vista simbólico, este mundo eleger um torneiro mecânico pela segunda vez, eleger um índio na Bolívia e um negro nos Estados Unidos é demais".

Como se vê, uma panacéia que serve para tudo.

Obama avança


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. À medida que se aproxima o dia da eleição presidencial, a vantagem do democrata Barack Obama se consolida, e os debates tiveram parte importante nesse trajeto. A mais recente pesquisa do Pew Institute, divulgada ontem, mostra uma liderança de nada menos que 14 pontos percentuais para o candidato democrata depois do terceiro debate, exatamente o dobro do resultado verificado na pesquisa feita após o primeiro debate, que se realizou em 26 de setembro. O mais grave para o adversário republicano McCain é que ele teve em Hempstead, na quarta-feira passada, sua melhor atuação nos debates, e isso está registrado em algumas pesquisas, embora em todas elas Obama tenha vencido.

A questão é que McCain foi melhor que ele mesmo, se superou no derradeiro debate, mas não teve capacidade de jogar seu oponente na lona. Ele saiu daquela noite na Universidade de Ofstra com dois motes que estão sendo explorados nesses últimos dias antes das urnas: a afirmação de que não é o presidente Bush, e o personagem de Zé, o encanador, para tentar atrair os votos da classe média trabalhadora.

Depois disso, em todos os comícios em que comparece, e mesmo nos anúncios pela televisão, McCain repete o mantra "eu não sou George Bush" e fala dos impostos que supostamente Obama vai tirar da classe média empreendedora.

Mas, o que fez com que McCain se saísse melhor do que nas vezes anteriores foi justamente a retomada do homem cordial que ele era no início da campanha, o republicano ameno e independente que dava aos eleitores independentes uma alternativa de voto.

Mas, McCain não conseguiu levar sua campanha para uma trajetória mais leve, e teve que assumir a candidatura de Sarah Palin como vice-presidente para recuperar os eleitores da base direitista do partido que estavam decepcionados com sua "mão leve" nos ataques a Obama.

Palin cada vez mais representa essa interferência pesada da direita política na campanha de McCain, e cada vez mais afasta os eleitores independentes. A mesma pesquisa do Pew Institute indica que a presença de Palin na chapa republicana parece enfraquecê-la contínua e crescentemente: 49% dos eleitores têm uma impressão desfavorável a ela, contra 44% que a vêem de maneira favorável.

Esses números eram, em meados de setembro, favoráveis a Sarah Palin por 54% a 32%. Pior: as mulheres, especialmente as de menos de 50 anos, tornaram-se crescentemente críticas a Sarah Palin, chegando a 60% as que não gostam dela, quando esse número era de 36% em meados de setembro.

Quando Sarah Palin aparece como na noite de sábado no programa humorístico "Saturday Night Live", aceitando com bom-humor as críticas do programa e participando das brincadeiras, sua popularidade melhora.

E a situação para McCain piora porque, ao contrário das opiniões sobre Joe Biden, o vice de Obama, as sobre Sarah Palin têm uma influência na decisão de voto republicana, para o bem ou para o mal.

A confiança do eleitor republicano em uma vitória de McCain decresceu sensivelmente desde a última pesquisa, há um mês: hoje, cerca de 40% dos republicanos acreditam em uma vitória de McCain, contra 70% da pesquisa anterior. Naquela ocasião, apenas 13% dos republicanos admitiam uma vitória de Obama, número que agora já é de 35%.

Obama já aparece como o candidato que inspira mais confiança nos eleitores em assuntos em que antes ele era uma interrogação, como Iraque e terrorismo, o que mostra que a tentativa da campanha republicana de transformá-lo em uma escolha arriscada, e as sugestões de seus laços com um ex-terrorista não surtiram efeito.

A pesquisa do Pew Institute detectou um movimento que pode ser decisivo entre os eleitores: nada menos do que 31% deles planejava votar antes do dia da eleição, o que pode indicar que McCain terá ainda menos tempo para reverter o quadro. E mais: entre os que votarão antecipadamente, beneficiando-se de um sistema eleitoral que permite o voto pelo correio, 58% apóiam Obama.

Uma das esperanças dos estrategistas republicanos é que a situação econômica, que tem beneficiado os democratas, acalme-se até o dia 4 de novembro, permitindo que o eleitor analise as opções longe dos impactos das más notícias financeiras.

Obama também está ganhando nos chamados "estados decisivos" por uma margem de 52% a 37%, nos mesmos estados onde o atual presidente George Bush venceu na maioria, por margens que chegaram a ser de 21% em Indiana. O candidato democrata John Kerry venceu em cinco deles, todos com pequenas margens.

Esses resultados, embora em alguns estados como Nevada e Carolina do Norte McCain continue competitivo, só tornam mais crucial uma outra vantagem de Obama: a arrecadação de fundos para a campanha.

O democrata acaba de bater um novo recorde, recebendo US$150 milhões de dólares de doações em setembro, o que lhe permite utilizar mais a propaganda eleitoral paga na televisão nos estados em que a disputa está acirrada.

De acordo com a avaliação de um grupo independente de análise de mídia, os anúncios de Obama na TV são na proporção de 4 para 1. Só na última semana a campanha de Obama transmitiu 50 mil spots de 30 segundos em cadeias nacional, local e TV a cabo, o que representaria, segundo a mesma análise, cerca de 17 dias de anúncios seguidos.

Na Flórida, por exemplo, um estado importante e que está mudando para apoiar os democratas, a campanha de McCain não transmitiu nenhum anúncio em Miami na última semana, enquanto Obama colocou na TV 1120 spots. Na internet, o massacre foi maior ainda: no mês passado, foram colocados nada menos que 914 milhões de anúncios, contra 7,8 milhões de Obama.

A Flórida latina


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


MIAMI - Os EUA elegem neste ano o primeiro negro ou o mais idoso presidente do país. Será uma decisão de relevância histórica sem precedentes. Mas há outras complexidades regionais com grande riqueza simbólica e política.

É o caso do voto latino aqui na Flórida. Cerca de 20% do eleitorado do Estado é de origem hispânica.

Grande parte tem raiz em Cuba e no anticastrismo. Por décadas, esse foi um reduto republicano. Agora, há sinais de mudança.

Pesquisas mostram os latinos divididos ao meio entre o democrata Barack Obama e o republicano John McCain. É impossível prever o desfecho, mas é clara a trajetória declinante do eleitorado pró-linha dura em relação a Cuba.

Na região de Miami, onde estão os latinos, observa-se um abismo geracional e de entusiasmo entre as duas campanhas. Na segunda-feira à tarde, o comitê central republicano estava calmo. Mulheres na faixa dos 60 anos e com laquê no cabelo recebiam os poucos visitantes -apenas dois em uma hora.

"Posso olhar a sala dos telefones?", perguntei. Trata-se de um galpão onde os voluntários se revezam para fazer ligações e conquistar eleitores. A assessora pediu alguns minutos. Percebi quando funcionários foram levados para o local. Sentaram-se em frente às mesas. Fingiram estar telefonando.

Ainda assim, muitos aparelhos ficaram desocupados.

No mesmo momento, uma massa de 50 mil pessoas participava de um comício de Obama na cidade de Tampa. Ontem, mais 50 mil eram esperadas à noite num evento obamista no centro de Miami.

Os democratas só venceram duas das dez últimas eleições na Flórida.

Desta vez, o eleitorado conservador mostra-se mais frágil. Há menos terror no ar contra Cuba.
Esse cenário pode não se transformar em realidade já, mas tem pinta de ser inevitável no futuro.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1125&portal=