Valor Econômico
Os rumores do ocaso político do chefe do clã
podem ser exagerados, seja porque muita gente acredita no radicalismo, seja
porque os governadores ditos moderados estão esperando herdar o espólio sem
custos políticos
A morte política de Jair Bolsonaro tornou-se
a aposta do momento. Sua possível condenação e prisão, somada à sua
inelegibilidade, retiraram seu nome das urnas eletrônicas de 2026. Além disso,
sua maquinação com o filho Eduardo em prol de sanções americanas contra o Brasil,
especialmente o tarifaço, aumentaram sua toxidade entre políticos e eleitores.
Para piorar, pesquisas têm demonstrado uma queda em sua popularidade,
especialmente quando comparada à do presidente Lula. Diante desse inferno
astral, é possível decretar o funeral político do ex-presidente?
Há realmente motivos para se ter uma sensação de processo sucessório. Em 2026, Jair Bolsonaro será, no máximo, um líder na prisão. Ademais, os efeitos da política trumpista contra o Brasil vão gerar dificuldades eleitorais para o bolsonarismo. Mas o maior sinal dessa crise aparentemente mortal da liderança política de Bolsonaro é a corrida de seus aliados governadores para definir um novo nome à eleição presidencial.
Caiado, Zema e Tarcísio já se apresentam
publicamente como candidatos a presidente, e Ratinho Júnior é apontado por
Kassab como possível nome do PSD. Todos eles se colocam como sucessores
moderados do bolsonarismo, mas não são capazes, por ora, de romper com ideias e
posições de seu líder, nem mesmo em temas que tiram votos. São ainda liderados
à espera do ocaso do ex-presidente, mas cada vez mais seguem o velho ditado:
“Rei morto, rei posto”.
Os sinais de esgotamento da liderança de
Bolsonaro, no entanto, convivem com elementos que ainda dão fôlego e vigor a
ele e aos aliados fiéis. Os Bolsonaros e seu séquito raiz sabem disso e vão
resistir bastante para não perder a centralidade que tiveram nos últimos sete
anos no sistema político brasileiro. Quatro pontos revelam a possibilidade de
uma sobrevivência mais longeva do que imaginam os que pretendem destroná-lo. O
primeiro deles é a própria dificuldade de a direita dita moderada se
desvencilhar de vez de Bolsonaro.
Mesmo sabendo do efeito tóxico presente em
algumas ações passadas e presentes do clã Bolsonaro, os governadores
bolsonaristas temem perder votos se falarem mal ou discordarem do líder maior e
até de seus filhos. Quem é popular no Brasil inteiro é Bolsonaro, que tem votos
em todas as classes sociais. Num cenário pessimista, se houver o nome de alguém
da família na urna eletrônica, é muito difícil imaginar que tenha menos que 20%
da votação presidencial. Imagine uma situação um pouco melhor, nem precisa ser
a mais otimista, e já se entende as razões de seus pretensos sucessores terem
medo de cortarem o cordão umbilical que os une a Bolsonaro.
A força do bolsonarismo garante o arranque
inicial dessas possíveis candidaturas, porém, pode ser o limite para a vitória
dos governadores ditos moderados. Ficar com Bolsonaro em qualquer situação é
ganhar e perder votos. Mais do que isso, ao não defenderem o Brasil do ataque
especulativo do governo Trump, ficam numa posição muito desconfortável, de quem
é liderado, e não líder do país. Vivem uma espécie de Síndrome de Estocolmo:
foram sequestrados pela liderança de Bolsonaro e não conseguem se desgarrar
dela mesmo que isso cause danos políticos.
Se a família Bolsonaro adiar ao máximo a
definição de seu caminho político, os governadores de direita podem se tornar
reféns, situação que os enfraquece perante o eleitorado. Mas por qual razão
Bolsonaro tenderia a atrasar a escolha de seu destino? Aqui entra o segundo
ponto que pode gerar uma sobrevivência maior dessa liderança: ela não está
sozinha.
O bolsonarismo existe como força política não
só por causa de seu líder, mas porque conseguiu congregar atores sociais e
políticos que não querem ser parecidos com o Centrão. Não se pode esquecer que
Bolsonaro, mesmo mais fraco hoje do que no passado recente, mobilizou milhares
de pessoas em sua defesa nas ruas do país. A força bolsonarista nas redes
sociais não é derivada da moderação, mas do radicalismo. Muita gente se
mobiliza por essa visão de mundo, e embora não tenha a maioria do eleitorado,
faz um barulhão na internet, em igrejas e espaços públicos em várias partes do
Brasil.
No front político institucional, para cada
Valdemar que apoia o ex-presidente, há centenas de Zé Trovão ao seu lado. Essa
é a cara mais distintiva dos bolsonaristas, a que foi capaz de definir um lugar
de destaque no sistema político, que significou não só a vitória de 2018, como
também, mesmo com a derrota da reeleição, a eleição da maior bancada da Câmara
dos Deputados em 2022. O PL, hoje, é a maior força da oposição ao governo Lula
e tem uma cara mais próxima de Bolsonaro do que de Zema, Caiado ou Tarcísio.
Para esse grupo de bolsonaristas mais puros,
o enterro da liderança política de Bolsonaro, com o seu estilo próprio, pode os
levar junto com o caixão. A vitória de um governador dito moderado de direita
só pode significar duas coisas: ou a conversão dos bolsonaristas do PL para uma
linha mais próxima do Centrão ou o enfraquecimento da estratégia política que
os tornou fortes politicamente.
Olhando para as dezenas de deputados que
fizeram o motim na Câmara Federal, como também para os senadores que gritavam
pelo impeachment do ministro Alexandre de Moraes, é difícil imaginar que tal
grupo vai aceitar facilmente a acomodação e mudar seu perfil eleitoral. Se eles
não puderem continuar seguindo a lógica antissistema, em geral na linha da
extrema direita, morrerá a política do espetáculo instagramável que gera os
seus votos. No fundo, não basta a eles ser conservador no plano moral; é preciso
seguir um estilo histriônico e radical criado por Bolsonaro.
Uma liderança que substitua Bolsonaro e que
procure uma aliança mais com o Centrão do que com o radicalismo bolsonarista
seria a pá de cal no PL tal como o conhecemos hoje. E eis aqui o terceiro ponto
que pode dar maior sobrevivência ao bolsonarismo raiz: existe ainda uma forte
demanda eleitoral pelo discurso antissistema, e os bolsonaristas raiz não sabem
fazer política de outro modo. Pesquisas revelam a grande rejeição ao sistema e
às suas instituições, o que é péssimo para a democracia e ótimo para políticos
populistas.
Não só a lógica antissistêmica é atraente
para parte relevante do eleitorado, como a maioria dos políticos bolsonaristas
teria dificuldades comunicacionais e ideológicas de mudar de figurino. Citando
apenas um exemplo: um Nikolas Ferreira com jeito de Arthur Lira seria perder
toda sua singularidade eleitoral e, provavelmente, milhares de votos. Além
disso, vale frisar que boa parte do bolsonarismo é conscientemente de extrema
direita, gosta realmente de Trump e defenderá até o fim uma aliança
internacional extremista aos moldes dos sonhos de Steve Bannon, a começar pelos
próprios membros da família Bolsonaro. Por que deveriam mudar de rumo se suas
crenças e estratégias até agora lhes asseguraram centralidade no jogo político?
Se é difícil para os bolsonaristas raiz
moderarem seu discurso e suas práticas, imagine para a família Bolsonaro? A
luta pela sobrevivência desse clã poderoso passa por um quarto ponto: ninguém
os anistiará ou lhes entregará algum naco de poder se não resistirem e
mostrarem que precisam ser atores da próxima eleição presidencial. E a disputa
nacional precisa, ademais, ter coerência com as subnacionais, nas quais o
projeto é ter uma maioria de senadores radicais, e não moderados ou do Centrão,
para aprovar o impeachment de Alexandre de Moraes, no intuito de salvar
Bolsonaro da prisão e dar satisfação às massas que têm seguido o bolsonarismo.
O que está em jogo é saber se a família
Bolsonaro aceita entregar a sua posição de líder político e abdicar de crenças
e objetivos que garantiram a conquista de um conjunto enorme de apoiadores. O
medo da prisão e a perda da popularidade poderiam levar a essa decisão. Mas o
chefe do clã é forte porque, primeiro, a direita moderada não é capaz de se
desvencilhar completamente dele; segundo, o bolsonarismo raiz é grande o
suficiente para não ser tragado pela moderação de direita e não pode ser igual
a ela caso queira ainda ser relevante; terceiro, existe ainda demanda eleitoral
forte pela política antissistema e mesmo para o discurso de extrema direita; e,
por fim, abandonar o projeto próprio é encerrar uma dinastia política sem
garantir a liberdade de Bolsonaro ou de seu filho Eduardo.
É possível que o réquiem da liderança de Bolsonaro
esteja próximo. Mas há três meses declaravam que Lula seria um pato manco
(“lame duck”), um presidente que só teria o café frio no final do mandato.
Seria muito bom para a democracia a derrota do bolsonarismo. Mas, por ora, como
na notícia falsa sobre a morte de Mark Twain, os rumores do ocaso político do
chefe do clã podem ser exagerados, seja porque muita gente acredita no
radicalismo e na política antissistema como valor ou estratégia de
sobrevivência, seja porque os governadores ditos moderados estão esperando
herdar o espólio bolsonarista de forma natural e sem custos políticos. Será que
os Bolsonaros vão aceitar a passagem dócil do bastão, tendo um piso eleitoral
ainda invejável e não sendo contestados em suas posições por quem pretende
substitui-los?
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas
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