sábado, 20 de setembro de 2014

Para Aécio Neves, PT põe credibilidade do IBGE em xeque

• Em nota, candidato diz que governo federal vem causando danos às instituições do País

Beatriz Bulla - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Ao comentar o erro assumido nesta sexta-feira, 19, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, classificou de "impressionante o dano que o governo federal vem causando às instituições do País".

Em nota encaminhada pela assessoria do tucano, o candidato diz que "na ânsia de se manter no poder, o governo não hesita sequer em colocar em xeque instituições que são guardiãs da memória e da sociedade brasileira".

No início da noite desta sexta-feira, o IBGE confirmou "erros extremamente graves" em dados de sete Estados na Pnad, divulgados na quinta-feira, 18. Com a correção dos dados e alterações no índice de Gini - o indicador que mede a concentração de renda no País - , a desigualdade social teria apresentado queda discreta em 2013.
Na nota, Aécio relembra o erro recente na pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), quando levantamento sobre violência contra mulheres também precisou ser corrigido.

Nas palavras do senador, a "pressão do governo sobre os pesquisadores e demais profissionais de institutos como o IBGE e Ipea e o sucateamento desses acabam colocando em dúvida todos os dados apresentados, inclusive, e sobretudo, os positivos".

"Os erros não são pequenos. É o governo do PT acabando com a credibilidade de nossas mais sérias e conceituadas instituições", afirmou Aécio.

Aécio: ‘ânsia pelo poder’ leva PT a colocar em xeque instituições

• Candidato tucano à Presidência da República se manifestou por nota erro no Pnad

Maria Lima - O Globo

BELO HORIZONTE — O candidato a presidente pelo PSDB, Aécio Neves, divulgou na noite desta sexta-feira nota para criticar o recuo do IBGE, que disse ter errado em um cálculo estatístico da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2013, e agora, ao contrário dos resultados anteriores, mostra que a desigualdade no país caiu, em vez de subir. O candidato tucano disse ser “impressionante” o dano que o governo federal vem causando às instituições do país para camuflar resultados negativos da gestão da presidente Dilma Rousseff.

“Na ânsia de se manter no poder, o governo não hesita sequer em colocar em xeque instituições que são guardiãs da memória da sociedade brasileira. A pressão do governo sobre os pesquisadores e demais profissionais de institutos como o IBGE e IPEA e o sucateamento desses acabam colocando em dúvida todos os dados apresentados, inclusive, e sobretudo, os positivos. Os erros não são pequenos. É o governo do PT acabando com a credibilidade de nossas mais sérias e conceituadas instituições."

Mais cedo, em entrevista, Aécio disse que a presidente Dilma conseguiu com os últimos dados do Pnad colocar um ‘carimbo de fracasso’ em sua gestão.

— Fracassou na economia, ao nos deixar como herança um quadro de recessão e de retorno da inflação. E fracassou nos indicadores sociais, as desigualdades do Brasil pararam de cair, o analfabetismo parou de cair — declarou ele.

Aécio promete fim do fator previdenciário

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, assumiu, na sexta-feira (19), uma série de compromissos com sindicalistas, entre eles a discussão de uma fórmula para substituir o fator previdenciário, que reduz o valor de aposentadorias precoces.

O fim do fator é uma das principais reivindicações do movimento sindical. O "compromisso com os trabalhadores" divulgado na sexta --durante ato na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, com o apoio de dirigentes da Força Sindical-- será explorado no próximo programa de Aécio na TV.

O tucano gravou um debate com cerca de 50 sindicalistas sobre trabalho e economia. Na peça, Aécio dirá que será o presidente do "diálogo", enquanto a presidente Dilma Rousseff (PT) será descrita como uma gestora que "virou as costas" ao sindicalismo.

FHC diz para Aécio que 'ainda dá tempo'

• Um dia depois de pesquisa mostrar sua leve recuperação, tucano recebe torpedo com estímulo do ex-presidente

• Presidenciável agora grava os programas de TV na véspera para 'pegar bem o clima' e só fala de improviso

Daniela Lima - Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Um dia depois de a primeira pesquisa mostrar sua leve recuperação no cenário eleitoral, Aécio Neves (PSDB) repassou, dentro do avião em que viajava de São Paulo à Bahia, as últimas mensagens que tinha em seu celular. "Continue firme. Ainda dá tempo. Há instabilidade nos votos", dizia um torpedo enviado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O tucano estava animado com os números do Ibope -- que apontaram alta de quatro pontos percentuais em sua votação, de 15% para 19%-- e ansioso com o Datafolha que sairia no dia seguinte (e lhe deu 17%).

"Se eu der uma embicada, agora faz muita diferença. Pesquisa tem efeito psicológico não só no eleitor, mas nos aliados. Realmente acredito que quem vai para o segundo turno sou eu", comentou, enquanto folheava os jornais.

O tucano colocou na ponta do lápis o tamanho do desafio que terá de vencer em 15 dias para ter chance. Pelas pesquisas internas, precisa ganhar ao menos cinco pontos em São Paulo, outros seis no Rio e voltar ao patamar mínimo de 38% da preferência do eleitorado mineiro.

Não é fácil, e seu maior problema é o Sudeste --região mais populosa do país e onde os tucanos têm, tradicionalmente, bom desempenho. Ele ainda está abaixo.

Mas Aécio tem se animado com a perda de votos de Marina Silva (PSB) em eleitorados estratégicos. Avalia que, mantida a tendência de queda dela, e de recuperação gradual dele, pode chegar às vésperas da eleição "embolado".

Prepara uma ofensiva: tenta obter autorização para regionalizar programas de TV. Agora, grava as propagandas na véspera, para "pegar bem o clima" do que está acontecendo. E fala de improviso. "Não leio mais."

Com o avião taxiando, atendeu uma ligação do economista Arminio Fraga, que será seu ministro da Fazenda, caso eleito: "Vou gravar um programa e temos que simplificar ao máximo a linguagem, explicar o que está acontecendo no país. Separa umas ideias?".

Antes de desligar, fez um acréscimo. "Outra coisa, quero ter um anúncio forte pra fazer no programa. Queria que você me dissesse muito claramente o que dá pra fazer. Tem essa reunião com os trabalhadores... Se puder me dar um plus, tá na hora", encerrou, aos risos.

Na sexta (19), gravou a propaganda em que se reúne com sindicalistas, garante a correção do Imposto de Renda pela inflação e a manutenção da política de reajuste real do salário mínimo. Por fim, sinaliza que vai acabar com o fator previdenciário.

Criado por FHC em 1999, a revisão do mecanismo é controversa pelo impacto que pode trazer à Previdência. Arminio deu o seu "plus". O programa vai ao ar neste sábado (20).

Depois que desligou o telefone, Aécio comentou: "Eu tenho que fazer isso, sabe? Simplificar mesmo. Não dá mais pra ficar insinuando".

Lembrou que, em uma de suas investidas na TV, citou o mensalão e disse que Marina, então filiada ao PT, não reagiu com indignação ao episódio, apenas com um "obsequioso silêncio".

"Obsequioso, né? É o improviso... Mas não tinha o carnavalesco Joãosinho Trinta que dizia que o povo gosta de luxo? Vai que tem gente que pode até não entender, mas pensa: esse cara fala bonito.'"

PPS pede à PGR investigação sobre distribuição de panfletos de Dilma

• Representação protocolada pelo deputado Rubens Bueno (PR) se baseia na Lei de Improbidade Administrativa

Daiene Cardoso - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O líder do PPS na Câmara dos Deputados, Rubens Bueno (PR), encaminhou nesta sexta-feira, 19, pedido para que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, instaure inquérito civil público para investigar a entrega de material de campanha da presidente Dilma Rousseff pelos Correios.

O Estado revelou que foram distribuídos 4,8 milhões de panfletos da campanha da petista sem chancela. A estampa, prevista em norma da própria estatal, serve para demonstrar que houve pagamento para o envio, de forma regular, da propaganda eleitoral. Sem ela, é difícil atestar que a quantidade de material distribuído corresponde ao que foi contratado pelo partido.

A representação protocolada pelo deputado se baseia na Lei de Improbidade Administrativa. "A entrega de panfletos da candidata Dilma pelos Correios sem chancela ou comprovante de postagem oficial demonstra uma ilegal utilização de bens e serviços públicos prestados pela empresa estatal, além de ofender o princípio da legalidade inscrito na Constituição Federal", argumenta o líder no documento.

Para Bueno, o PT "aparelha" os Correios em benefício da candidata governista. "O aparelhamento das estatais é evidente no governo do PT, motivo pelo qual estamos pedimos ao procurador-geral, Rodrigo Janot, a instalação de inquérito civil público para apurar as irregularidades na entrega da propaganda de campanha da presidente", disse o líder em nota divulgada pela assessoria de imprensa da bancada.

Nesta sexta-feira, a presidente Dilma negou que tenha havido irregularidades na distribuição. Disse que o serviço foi pago e que foi feita 'outra forma' de chancela. Afirmou ainda que, se houver falhas, os envolvidos responderão.

As 'cartas sem selo' do PT: O Estado de S. Paulo - Editorial

Quando discutem os prós e os contras do direito à reeleição dos detentores de mandatos executivos, costuma-se pôr em um prato da balança os ganhos de estabilidade política e coerência administrativa proporcionados, nos regimes presidencialistas, pela possibilidade aberta a prefeitos, governadores e presidente da República de conquistar um segundo período de governo. No outro prato, contrapõe-se o inevitável desequilíbrio de oportunidades eleitorais que a modalidade acarreta.

À parte quaisquer outros fatores e as eventuais medidas para aplainar por igual o campo da disputa, mesmo o mais austero e ético dos candidatos incumbentes dificilmente abrirá mão dos seus recursos de poder para percorrer com o máximo de conforto a nova jornada rumo às urnas. O fato de, nos Estados Unidos, a regra ser a reeleição do ocupante da Casa Branca e a grande exceção ser o seu despejo não resulta de uma improvável superioridade intrínseca dos mandatários de turno sobre os rivais empenhados em desalojá-los.

A menos que carreguem nas costas quatro anos de governo desastroso ou sejam responsabilizados por um único fiasco de grandes proporções - como o patético fracasso da expedição ordenada em abril de 1980 pelo então presidente Jimmy Carter para resgatar 52 reféns americanos no Irã, o que acabou com as suas chances de reeleição -, o tiro de largada das corridas presidenciais já encontra o ocupante do cargo à frente dos adversários de prontidão na raia.

Mas, conforme a mentalidade do interessado e os usos e costumes de seu partido, não há preço que pague manter, se não ampliar, essa vantagem. A expressão, nesses casos, não se esgota no sentido estrito de gastança desabrida pelo voto nem tampouco na posta em marcha de grandes baixarias para solapar, entre as parcelas mais desinformadas do eleitorado, eventuais preferências por um ou outro dos demais candidatos. Abrange também um vasto rol de malandragens comparativamente miúdas.

Quando vem a público um desses "pequenos assassinatos", entende-se melhor o que significa, no nível da sarjeta, "fazer o diabo" para ganhar eleições, na inesquecível confissão da petista Dilma Rousseff. O exemplo da hora é o trambique armado nos Correios pela sua campanha. Quando um usuário se prepara para despachar um grande número de mensagens do mesmo tipo - a chamada "mala direta postal domiciliária" -, deve ele próprio chancelar, uma a uma, as peças a serem enviadas.

Ou seja, imprimir os seus dados. Tratando-se de propaganda eleitoral, devem constar ainda o nome do remetente, o CNPJ, o ano do pleito e a origem da postagem. Isso é necessário para que os Correios saibam quantos exemplares farão chegar aos destinatários e cobrar de acordo. Mas, como apuraram os repórteres Andreza Matais e Fábio Fabrini, da sucursal de Brasília do Estado, a estatal aceitou entregar alegados 4,8 milhões de folhetos pedindo votos para Dilma sem o necessário registro de controle. "Alegados" porque, embora a campanha tenha pago pelo serviço, não se tem como conferir se o total foi de fato aquele ou maior.

"O cara entrega 1 milhão de impressos para serem distribuídos", argumenta o ex-presidente dos Correios João Henrique de Almeida Souza. "Se não tiver a chancela, como é que eu sei se a quantidade é essa mesma?". "É como entregar uma carta sem o selo", resume o coordenador-geral do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telégrafos, Luís Aparecido de Moraes. Quem autorizou, "em caráter excepcional", a remessa daqueles milhões de cartas sem selo foi um departamento da empresa chefiado por um certo Wilson Abadio de Oliveira, afilhado político do vice de Dilma, o peemedebista Michel Temer.

Em nota, os Correios justificaram a facilidade a pedido do PT para não ter de inutilizar o material. A autorização, prevista nos seus procedimentos, já teria sido dada a clientes, não identificados, "de diversos partidos políticos". De todo modo, é sabido que a estatal se tornou um feudo do PT desde que, em fins de 2010, Dilma nomeou para comandá-la o sindicalista Wagner Pinheiro, filiado à legenda no Rio de Janeiro. Os petistas radicalizaram a lei de Gérson: nada é pequeno demais para dele não se tirar vantagem.

PT ampliará ação para 'desconstruir' Marina

• Campanha de Dilma avalia que ofensiva iniciada há 20 dias resultou na vantagem obtida sobre a rival nas pesquisas

• Comitê da presidente quer explorar na TV e na internet os pontos considerados "frágeis" da candidata do PSB

Andréia Sadi – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O comitê eleitoral de Dilma Rousseff vai ampliar a operação para "desconstruir"" a imagem de Marina Silva (PSB) na corrida presidencial, explorando na TV e nas redes sociais o que chamam de "dubiedades"" e "fragilidades"" da principal adversária do PT na campanha deste ano.

O partido decidiu reforçar a estratégia --em prática desde o começo do mês-- após o resultado da pesquisa Datafolha desta sexta-feira (19) mostrar vantagem de Dilma sobre sua concorrente.

Na avaliação de assessores de Dilma, a ofensiva contra Marina é o principal motivo da vantagem inédita de sete pontos da presidente sobre a adversária. A pesquisa registrou 37% de intenção de voto para a petista contra 30% de Marina Silva.

Nos últimos 20 dias, Marina tem sido alvo de críticas e acusações exibidas pela propaganda de Dilma na TV.

Entre outras coisas, a ex-senadora foi comparada com presidentes que não terminaram o mandato, acusada de ser aliada dos banqueiros e de desprezar a camada pré-sal do petróleo.

A articulação de atacar a candidata do PSB foi traçada após debate do SBT/Folha/Uol, no começo do mês, em reunião com o ex-presidente Lula, em São Paulo.

Desde então, a campanha se concentrou em "tirar Marina do pedestal" e "trazê-la para o debate". "Queremos bater na tecla de que Marina é uma política, candidata, e não um mito", disse à Folha um dos mais próximos auxiliares da presidente.

Para colocar em prática a tática de desidratar"" Marina, os marqueteiros da campanha petista tiveram que antecipar peças de TV que somente iriam ao ar no segundo turno, em princípio.

A equipe de Dilma havia testado alguns temas tendo Marina como alvo pensando na etapa final da eleição.

Como exemplos, citam a abordagem de falta de governabilidade, a ideia de colar Marina a uma política tradicional e de ter trocado de partido duas vezes.

Insegurança
As pesquisas qualitativas do PT, relatadas à reportagem por coordenadores da campanha, mostram que o eleitorado rejeitava o que considerava ataques pessoais --como ter trocado de partidos--, mas mostrava interesse em temas que falam da insegurança em um eventual governo Marina Silva.

Primeiro, a governabilidade e, em um segundo momento, o poder dos bancos e fim da prioridade ao pré-sal. Por isso, investiram na tática.

Um dos próximos alvos do comitê dilmista na TV é a educadora Maria Alice Setubal, a Neca, acionista do banco Itaú e uma das coordenadoras da campanha de Marina. A equipe de João Santana gravou um comercial tendo Neca como foco, mas o material está no freezer"".

Assessores da presidente afirmam que estão guardando a peça para não "queimar todos os cartuchos" e que sua exibição está prevista ainda para o primeiro turno.

Em berço do PT, Marina diz ter compromisso com direito dos trabalhadores

• Ex-ministra rebate críticas de que vai flexibilizar leis trabalhistas em ato de campanha em São Bernardo do Campo

Isadora Peron e Carla Araújo - O Estado de S. Paulo

A candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, escolheu o berço do sindicalismo no País para se defender nesta sexta-feira, 19, das críticas de que flexibilizaria as leis trabalhistas. De cima de um palanque na Praça da Igreja da Matriz, em São Bernardo do Campo, cidade onde vive o ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT), Marina se disse comprometida com os direitos dos trabalhadores e seu candidato a vice, Beto Albuquerque, prometeu que a dupla vai colocar em discussão o fim do fator previdenciário.

Apesar do simbolismo do local escolhido, faltou planejamento da campanha de Marina, que decidiu organizar o evento em cima da hora. O resultado foi um comício esvaziado, que reuniu cerca de 200 pessoas, a maioria delas militantes pagos. Sob uma chuva que insistia em cair na cidade do ABC paulista, a candidata apressou o discurso. Em menos de dez minutos, fez diversas promessas e voltou a pedir ajuda dos eleitores para combater “as fofocas e mentiras que o PT tem espalhado”.

“Nós fizemos questão de vir até aqui (São Bernardo do Campo) para dizer do nosso compromisso de continuar avançando nas conquistas que o povo brasileiro a duras penas alcançou. O nosso compromisso é com o direito dos trabalhadores”, afirmou a candidata do PSB.

Antes mesmo de começar o ato, a equipe de Marina teve de realizar uma operação de emergência e retirar as placas de um candidato a deputado federal do PPS, partido que integra sua coligação. O motivo: o material exibia a presidenciável ao lado do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição.

Desde o começo da campanha, quando ainda era vice de Eduardo Campos, Marina foi contra a aliança com os tucanos em São Paulo. Além de se recusar a dividir o palanque com o governador, a candidata do PSB proibiu o uso da sua imagem ao lado da de Alckmin em placas, banners e panfletos.

Os percalços de Marina na terra de Lula, de quem foi ministra do Meio Ambiente por mais de cinco anos, ficam mais evidentes quando o ato de ontem é comparado ao comício realizado pelo PT no mesmo local, no início do mês. Naquele dia, a praça ficou lotada para receber o ex-presidente e sua sucessora, Dilma Rousseff, candidata à reeleição. Na ocasião, a dupla não economizou as críticas à ex-aliada.

Nesta sexta, em entrevista a jornalistas antes do início do ato político, Marina voltou a dizer que jamais terá uma atitude de desrespeito com Lula, com quem conviveu por mais de duas décadas quando era filiada ao PT. Ela disse também que manterá até o fim da campanha a atitude de “oferecer a outra face” diante dos ataques que sofrer.

Ataques. Desde que a candidata do PSB começou a subir nas pesquisas e a ameaçar a reeleição de Dilma, o PT pôs em prática uma estratégia para tentar desconstruir a imagem da adversária. Nesta semana, depois de Marina defender uma atualização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), os petistas usaram o mote para atacá-la.

A candidata, porém, tem deixado claro que essa atualização não significa redução dos direitos dos trabalhadores.

Como parte da defesa de Marina, coube ao vice da chapa ontem destacar que o PSB defende a revisão do fator previdenciário, uma reivindicação antiga das centrais sindicais que até hoje não foi atendida.

“O governo tem medo de falar desse assunto. Nós vamos colocar em debate a revisão do fator previdenciário, porque o trabalhador tem o direito de se aposentar recebendo aquilo que contribuiu”, disse Beto.

A proposta aparece no programa de governo de Marina, mas o documento não deixa claro como o sistema seria modificado. “Uma fórmula numérica que elimine o fator negativo, ou seja, a redução do benefício, parece ser defensável e suficiente para mitigar os efeitos perversos do fator”, diz o texto.

O fator foi implementado durante o segundo governo do tucano Fernando Henrique Cardoso e desestimula a aposentadoria antes da idade mínima. Quanto mais cedo a pessoa decidir se aposentar, menor será o valor do benefício.

O principal motivo para o governo não extinguir o fator é causar um desequilíbrio nas contas públicas. Segundo o Ministério da Previdência, essa medida traria um impacto de R$ 40 bilhões, segundo cálculos de 2012.

Aécio aposta em Minas para subir '5 ou 6 pontos' e 'virar' eleição

• Além da própria candidatura, o tucano tenta alavancar a do ex-ministro Pimenta da Veiga ao governo de Minas

Marcelo Portela - O Estado de S. Paulo

BELO HORIZONTE - O candidato Aécio Neves (PSDB) aposta nos votos de Minas Gerais, sua principal base eleitoral, para tentar passar Marina Silva (PSB) na corrida presidencial e conseguir chegar a um eventual segundo turno contra a presidente Dilma Rousseff, que disputa a reeleição pelo PT. Ao participar de ato em Belo Horizonte, o tucano afirmou que, se conseguir avançar "cinco, seis pontos" nas pesquisas eleitorais no Estado, "será" o presidente da República.

Depois de cair nas pesquisas eleitorais e ver Marina se aproximar de Dilma, que lidera os levantamentos, Aécio lentamente conquista terreno. Apesar de ainda aparecer em terceiro, o Ibope mostrou que o tucano subiu dos 15% que tinha em pesquisa do último dia 12 para 19% em levantamento divulgado dia 16, enquanto Dilma caiu de 39% para 36% e Marina oscilou de 31% para 30%. A pesquisa tem margem de erro de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos.

Segundo Aécio, a coordenação de sua campanha fez uma "análise profunda" dos últimos levantamentos e constatou que, nos "últimos quatro dias", a candidatura cresceu "de forma muito sólida no Estado de São Paulo, que é o mais populoso". E agora a campanha vai investir no seu Estado natal - e também da presidente Dilma -, que tem o maior segundo colégio eleitoral do País e no qual o senador aparece em segundo lugar nas pesquisas, atrás apenas de Dilma.

"Semana que vem estaremos avançando ainda mais nas pesquisas. Mas a virada tem de se dar em Minas Gerais. Minas tem a possibilidade hoje de nos dar a grande vitória no Brasil", avaliou. "Se nossa candidatura avançar na próxima semana cinco, seis pontos em Minas Gerais, que acredito ser claramente possível, serei presidente da República para fazer o maior governo da história", acrescentou o tucano, ao participar de caminhada com apoiadores na Rua Padre Pedro Pinto, a área comercial mais movimentada da região de Venda Nova, em Belo Horizonte.

Aliado. Além da própria candidatura, o tucano tenta alavancar a do ex-ministro Pimenta da Veiga ao governo de Minas. Segundo o Ibope, o também ex-ministro Fernando Pimentel (PT) tem 43% das intenções de voto no Estado, contra 23% do candidato tucano. Para impulsionar as candidaturas do PSDB, Aécio participará de uma maratona de eventos em Minas nos próximos dias. Além do ato desta sexta na capital, o senador visitará neste sábado Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo, no Vale do Aço.

Após cumprir agenda no Rio de Janeiro no domingo, Aécio volta na segunda-feira, 22, para a região metropolitana de Belo Horizonte, onde participará de eventos em Contagem e Betim, e, na quarta-feira, 24, cumpre agenda em Uberaba, no Triângulo Mineiro, de onde segue no mesmo dia para outro evento na capital mineira.

De acordo com o tucano, se cada aliado seu conseguir "mais quatro ou cinco votos" na próxima semana, a vitória é certa. "Venho a Minas Gerais, à minha terra, para fazer a convocação dos mineiros para uma grande virada. Uma virada em favor do Brasil, mas também de Minas", declarou. "O mineiro experimenta várias coisas e no fim toma sua posição definitiva. Tenho certeza de que nos próximos dias vai haver uma grande reversão nas intenções de voto", completou Pimenta da Veiga.

Adversárias. Além de conclamar os aliados a manterem o ânimo da campanha em Minas, Aécio repetiu ataques que tem feito a Dilma e a Marina. Para o senador, não há diferença entre as adversárias e Marina, apesar de estar no PSB, "é, na essência, do PT". Ele lembrou novamente que a socialista foi colega de ministério de Dilma na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e repetiu o mantra que adotou nas últimas semanas: "Existe uma candidatura que representa mudança clara no Brasil e o início de um novo ciclo".

PSDB vai processar Dilma por panfletos entregues pelos Correios

• Será protocolada no TSE na uma ação por abuso de poder político contra a candidata petista

Carolina Brígido – O Globo

BRASÍLIA – O PSDB anunciou que vai entrar na segunda-feira com ação por abuso de poder político no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, pelo uso dos Correios para a distribuição de panfletos eleitorais. Nesta sexta-feira, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) fez uma representação na Procuradoria da República do Distrito Federal contra Dilma, o presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, e o diretor regional da empresa no interior paulista, Divinomar Oliveira da Silva. O tucano quer que os três sejam processados na Justiça comum por improbidade administrativa.

Segundo reportagem do jornal “O Estado de São Paulo”, foram entregues em São Paulo 4,8 milhões de panfletos sem a chancela dos Correios. Segundo Sampaio, a atitude de Dilma e dos dirigentes dos Correios fere os princípios constitucionais da moralidade e da impessoalidade. Para o deputado, a quantidade postada é muito alta e tem o potencial para afetar a legitimidade das eleições. Conforme a análise do tucano, cada panfleto foi entregue em um endereço e, portanto, deverá ser lido por mais de uma pessoa.

_ Essa distribuição de folders se deu em total discordância das normas dos Correios, por um expediente que impede o controle da propaganda e os gastos. Houve abuso de poder político porque foi usada a estrutura dos Correios, um órgão da administração pública indireta, a seu favor, contrariando as regras impostas aos outros candidatos. Esse proceder dela dá condição privilegiada a Dilma em relação a outros candidatos _ explicou o parlamentar.

Em nota divulgada nesta sexta-feira, os Correios revelam que foram postados objetos durante o processo eleitoral deste ano, nas mesmas condições, para candidatos de outros partidos: PSDB, PMDB, PT, PR, Pros, PTN, PP, PV, DEM, PT do B, PDT e PTN. “Em todos os casos, os serviços foram prestados conforme previsto nas normas da empresa”, afirma a nota. Em defesa dos tucanos, Sampaio negou que o fato tenha ocorrido em relação ao PSDB.

_ Os Correios não comprovaram essa informação. É uma tentativa de justificar uma conduta injustificável _ reclamou.

Na nota, os Correios informaram que a entrega de mala direta com propaganda eleitoral “segue rigorosamente procedimentos padronizados”, estabelecidos no “Manual de Comercialização e Atendimento”. Ainda segundo os correios, o procedimento é publicado no “Guia Comercial Eleições publicado pelos Correios”.

A empresa também esclareceu que a entrega de material sem chancela está prevista no manual e no guia. “Não há registro de nenhum tipo de irregularidade na entrega de material alusivo a esse segmento de negócios”, diz a nota. Ainda segundo os Correios, o serviço prestado a Dilma foi pago à vista.

A nota ainda afirma que a postagem e entrega de material sem chancela é a terceira maior chancela da empresa e segue padrões adotados pelo mercado. Ainda segundo a empresa, no ato da postagem é feito o controle da quantidade de objetos e cobrado o valor correspondente.

Para analistas, ataques a Marina surtiram efeito nas pesquisas

• Ida de tucano ao segundo turno, no entanto, seria movimento inédito

Nilson Hernandes – O Globo

SÃO PAULO — A estratégia da presidente Dilma Rousseff (PT) de “bater” na adversária Marina Silva (PSB) na propaganda de rádio e TV foi, segundo analistas políticos, determinante para ampliar para sete pontos a vantagem da petista no primeiro turno e encurtar a vantagem da pessebista no cenário de segundo turno.

— Marina caiu em alguns segmentos importantes, como os menos escolarizados, e entre os mais ricos. Os ataques veiculados pela candidatura de Dilma foram determinantes — disse o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino. — Mas, se observarmos a curva de intenção de voto, não houve alteração, pois a tendência de consolidação de voto é clara. Seu eleitorado está convicto.

O Datafolha apontou também para o crescimento da rejeição ao nome de Marina. Dilma mantém a dianteira nesse quesito, com 33% de rejeição, mas Marina teve o nome rejeitado por mais eleitores do que na pesquisa anterior, de 9 de setembro. O índice cresceu de 18% para 22%, passando numericamente à frente do candidato Aécio Neves (PSDB), que caiu de 23% para 21%.

— A rejeição a Marina Silva dobrou em relação às outras pesquisas. Entre os outros candidatos, é a única curva ascendente — disse o diretor do Datafolha, fazendo referência ao resultado de 15 de agosto.

Paulino comentou o crescimento do candidato tucano, e disse que uma ida dele ao segundo turno seria algo inédito no país desde a redemocratização:

— Aécio está numa clara curva ascendente, mas, faltando apenas duas semanas para o primeiro turno, seria um feito inédito o candidato conseguir ultrapassar Marina. Na primeira eleição pós-ditadura, em 1989, Lula e Brizola disputaram palmo a palmo a vaga para o segundo turno, mas isso se deu desde o inicio da campanha. Nessa fase, o tempo é curto para Aécio conseguir retirar a diferença de Marina.

Migração dos votos
Fernando Abrucio, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), também acredita que os ataques efetuados pela campanha de Dilma surtiram efeito na queda das intenções de votos em Marina.

— Essa tática adotada pela candidata Dilma teve sim algum efeito nas intenções de voto da candidata Marina.

O professor avalia que a migração das intenções de voto do eleitorado das regiões Sul e Sudeste contribuíram para esse desempenho negativo de Marina.

— Esse eleitor do Sul e do Sudeste havia migrado do Aécio (Neves) para a Marina (Silva), agora parte dele voltou para o tucano, pois não havia consistência na mudança.

Cientista política e professora na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Maria do Socorro Sousa Braga compartilha da posição de seu colega da FGV sobre a queda nas intenções de voto de Marina Silva, por conta dos ataques feitos por Dilma. Ela, porém, avalia que as constantes mudanças de opinião da candidata do PSB sobre seu plano de governo também contribuíram com a queda nas pesquisas.

A respeito da ligeira recuperação de Aécio Neves na pesquisa Datafolha, a professora da Ufscar afirmou que isso demonstra um quadro estável. — Para subir de fato, o PSDB precisa demonstrar uma unidade em torno do nome do candidato (Aécio Neves). Se isso ocorrer, talvez aconteça o chamado voto racional em prol do tucano.

Luiz Werneck Vianna: A sucessão presidencial e seus riscos

- O Estado de S. Paulo

Era para ser uma eleição disputada com bola murcha, diante da descrença generalizada do eleitorado na política. Os scripts dos principais candidatos, todos empenhados em apresentar argumentos sistêmicos sobre o estado atual da nossa economia e o que fazer para projetá-la à frente, não pareciam ter o condão de precipitar uma competição eleitoral que viesse a inflamar a atenção da opinião pública. Esperava-se uma disputa morna e vazada em termos racionais. Para isso também conspiravam o perfil e o histórico dos três principais candidatos, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos, uma presidente disputando uma reeleição em defesa de suas práticas governamentais e dois jovens ex-governadores bem avaliados em seus Estados, todos personalidades não carismáticas, formadas politicamente no terreno da gestão em administração pública.

Nesse cenário, não estaria equivocado quem a identificasse como uma competição eleitoral travada sob o signo da previsibilidade, diante da crença de que se tinha pela frente uma eleição em dois turnos - estilo das imediatamente anteriores -, cálculo reforçado pela candidatura de Eduardo Campos, recém-saído da coalizão governamental de que tinha sido um dos esteios. Quase consensualmente, admitia-se que caberia a Dilma vencer no primeiro turno. Eduardo Campos, pouco conhecido fora de sua região, o mais jovem dos opositores, parecia apostar mais na sucessão presidencial seguinte, enquanto Aécio contava com uma campanha que o credenciasse para o segundo turno como o melhor intérprete da insatisfação reinante com o atual governo.

As tramoias do destino, com a tragédia que vitimou Eduardo Campos, viraram, como se constata, de ponta-cabeça o cenário previsto para a competição, com o retorno à cena política da assombração do carisma, agora de saias, na pessoa da candidatura de Marina Silva, com sua história pessoal de superações e seu sobrenome tão comum aos "simples", com o dom de aliciar, por si só, empatia no mundo popular. Sua aparição, com seu discurso desconforme a "tudo isso que aí está" em nossas práticas políticas, trouxe de novo à ribalta o espírito dos idos de junho de 2013, que jazia embaixo do tapete, estranho aos discursos das três candidaturas originais, que tinham selecionado como mote os temas econômicos.

Invocados os sentimentos difusos em favor de "uma nova sociedade" e de uma "nova política", que tinham encontrado vocalização naquelas inéditas manifestações, logo acabaram por encontrar em Marina, tanto por sua figura não convencional quanto pelo discurso que adotou, o seu natural portador. Junho de 2013, para tantos um episódio remoto, passou a participar da sucessão presidencial. Tal identificação projetou-a meteoricamente nas pesquisas eleitorais, salvo outras intervenções do Sobrenatural de Almeida, para a disputa no segundo turno. A economia foi obrigada a compartilhar seu tradicional lugar de primazia na campanha eleitoral com razões de outras procedências, deslocando Aécio, que, preparado para outro tipo de embate, não teve condições de reciclar seu discurso. Restou-lhe, ao menos até aqui, a dignidade de permanecer fiel ao seu programa e à sua história.

O debate entre os candidatos, sem desconhecer as questões econômicas, passou a gravitar em torno de um elenco novo de questões, com ênfase especial nos temas políticos - nosso degradado presidencialismo de coalizão foi chamado à berlinda - e nas questões de fundo ético-moral, estas últimas, desta vez, sem serem desqualificadas sob a designação de moralismo vazio. Outros ecos de junho de 2013 também se fizeram ouvir, como nas discussões sobre a necessidade de ampliar a esfera pública a partir de mecanismos de participação popular. A agenda do moderno de algum modo se infiltrou nos debates eleitorais, reduzindo o papel tradicionalmente ocupado pelas políticas de modernização e pelo papel do Estado na condução da economia, aliás, em defensiva em muitos dos seus momentos.

Bem antes do seu desenlace em outubro, estas eleições, qualquer que seja o vitorioso nas urnas, já nos deixam resultados tangíveis. O principal deles está na confirmação de que a via régia para as mudanças reclamadas difusamente pelas ruas se encontra nas instituições da democracia política, cujo aperfeiçoamento se tornou imperativo. Um longo ciclo, de Fernando Henrique Cardoso aos governos do PT, em que o moderno vem tendo de pagar pedágio às forças do atraso e às tradições do mando oligárquico, calculando e moderando cada passo com vista a manter sua coalizão com ele, já esbarrou nos seus limites.

Este ciclo encontra quem o defenda na presente competição eleitoral e a coalizão política, que ainda preconiza a sua continuidade, parece ser a favorita para vencê-la. Mas está exangue e tem contra si, a esta altura, uma consciência crescente por parte da população dos seus efeitos perversos sobre a vida social e a política. Nesse sentido, com a sociedade alinhada em direção oposta, consiste numa política de alto risco conceder mais uma oportunidade a ela.

Aécio e Marina têm exercido um papel pedagógico na denúncia dessa política desastrada, que a tudo sacrifica em nome de uma governabilidade cuja razão de ser é manter tudo isso que aí está. Decerto que uma ética de responsabilidade não pode desconhecer as circunstâncias inóspitas em que atua. Contudo, se ela abdica de valores éticos, degrada-se em pragmatismo estéril se não souber preservar valores de convicção diante dos valores de sucesso, tal como sinaliza, em sua interpretação de Weber, Wolfgang Schluchter em seu clássico Paradoxos da Modernidade (Unesp, 2010). Os riscos, na situação atual, para os governantes que não desertam de suas convicções são bem menores do que seguir adiante com as práticas degradadas que ora nos arruínam.

*Professor pesquisador do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio

Merval Pereira: Os caminhos do voto

- O Globo

Por caminhos distintos, Ibope e Datafolha chegaram aos mesmos números na corrida presidencial. Acontece que a esta altura da campanha, importa muito a tendência dos votos. No Ibope, a presidente Dilma Rousseff chegou a 36% caindo três pontos, enquanto Marina chegava a 30% caindo um. Pelo Datafolha, Dilma chegou a 37% subindo um ponto percentual, e é Marina quem cai 3 pontos para chegar aos mesmos 30% encontrados pelo Ibope dias antes.

Só as próximas pesquisas esclarecerão qual pé a tendência correta.

O candidato do PSDB Aécio Neves cresceu nas duas pesquisas, e embora tenha no Ibope uma melhor atuação, pois cresceu 4 pontos, é no Datafolha que encontra o melhor cenário para sua candidatura, pois cresce em cima de Marina, que perde pontos.

Se pegarmos os números da pesquisa do Datafolha de um mês atrás, pouco antes do início da propaganda oficial no rádio e televisão, a presidente tinha 36%, Marina tinha 21% e Aécio tinha 20%. Isso significa que a presidente Dilma, com cinco vezes mais tempo de propaganda eleitoral do que Marina Silva, não ganhou votos em um mês de alta exposição, enquanto a candidata do PSB foi a única que subiu nesse período.

O candidato tucano está na faixa dos 20%, dentro da margem de erro. O resultado de dias atrás do Ibope possibilitava a interpretação de que a campanha agressiva do PT contra Marina não dera resultado, pois naquele levantamento fora a presidente Dilma quem caíra. Mas vem o Datafolha e mostra que não apenas Dilma subiu um ponto, como Marina caiu três.

Na análise das últimas pesquisas, de um mês para cá, nota-se, porém, que a propaganda petista pode sim ter afetado o crescimento de Marina Silva, ao mesmo tempo em que o candidato do PSDB, com uma estratégia menos agressiva, mas bastante crítica, conseguiu retomar eleitores que haviam migrado para Marina Silva. Há uma migração grande de votos entre Dilma e Marina, e entre Marina e Aécio, mas a pesquisa Datafolha mostra que os votos acrescidos à candidatura tucana nesta rodada saíram principalmente de quem estava com Marina.

Um dado importante é constatar que a propaganda oficial, que mostra um país tão bom que já virou até propaganda viral na internet com a música sarcástica “Quero morar na propaganda do PT”, não conseguiu reduzir a taxa de rejeição da candidata Dilma Rousseff, que se mantém na faixa entre 33% e 35%.

Seus dois opositores estão na faixa dos 20%, sendo que Marina teve dobrada a sua rejeição desde que se apresentou: era a menos rejeitada com 11% em agosto e hoje tem 22%. Os petistas comemoram essa mudança de patamar como se fosse um efeito colateral precioso da campanha de desconstrução de Marina, e de fato a candidata do PSB já entrou na campanha como uma das mais conhecidas candidatas, graças ao recall da eleição de 2010, e por isso não pode alegar que aumentou sua taxa de rejeição por estar mais conhecida do eleitorado.

Pode ter, isso sim, aumentado o foco sobre sua candidatura com a possibilidade de vitória, mas de qualquer maneira é uma notícia negativa para sua campanha. Quem tem a comemorar é o candidato do PSDB Aécio Neves, que passou a ser o menos rejeitado, com 21%, e o único a subir nas duas pesquisas mais recentes. A próxima semana é decisiva para as aspirações da candidatura tucana, que ainda se apresenta como alternativa contra o PT, insistindo em que Marina representaria uma mudança de forma, não de conteúdo, em relação ao governo petista que está no poder por 12 anos.

Incoerência
A presidente Dilma diz com orgulho que são órgãos do seu governo que estão investigando os escândalos de corrupção na Petrobras: Polícia Federal, Ministério Público. Mas, contraditoriamente, pede, através do Ministro da Justiça, acesso aos depoimentos de Paulo Cesar Costa ao juiz Sérgio Moro.

O Procurador-Geral da República negou o acesso, alegando que o processo corre sob segredo de justiça. Isso tudo acontece por que, diferentemente do que pensa a Presidente, o Ministério Público e a Polícia Federal são órgãos do Estado brasileiro, não do governo deste ou daquele partido.

Cláudio Couto: Debate estéril?

- O Estado de S. Paulo

Em todo ano de eleição há uma notável regularidade: antes que se inicie a campanha oficial e, sobretudo, a propaganda no rádio e na TV, o eleitorado de um modo geral dá pouca atenção à disputa. Mesmo depois disso a coisa não melhora tanto, o que fica patente em dois dados das pesquisas de opinião.

O primeiro é o número de eleitores que declaram interesse na disputa. Numa pesquisa do Ibope de abril deste ano, 56% dos eleitores diziam ter pouco ou nenhum interesse pelos pleitos de outubro. No final de agosto último, decorrida uma semana de propaganda, eram ainda 51% os que continuavam desinteressados. E na pesquisa do último dia 15, passado quase um mês da propaganda eletrônica, esse número caiu apenas quatro pontos, para 47%. É de se esperar que esse número decline mais acentuadamente apenas às vésperas do pleito.

O segundo dado são as intenções de voto nos diferentes candidatos. Alguns meses antes da campanha oficial começar, os números das pesquisas são mais reveladores das condições do governante que concorre à reeleição (que é muito conhecido e está sob avaliação constante) do que da situação de seus desafiantes.

A já citada pesquisa do Ibope de abril mostrava que, considerados os três candidatos principais que hoje polarizam a disputa, Marina Silva era superada por Aécio Neves (15% x 13%) e ficava bem atrás de Dilma Rousseff (39%). Note-se que a situação da presidente não mudou muito, mas a de seus adversários sim. Num eventual 2.º turno, Dilma superaria Marina por 41% a 25% e Aécio por 43% a 22%. Esses números também mudaram bastante, sobretudo pela redução dos que diziam votar nulo, em branco ou não sabiam e quem votariam. A drástica mudança é sinal de que a campanha na rua (e, principalmente, na TV e no rádio) faz muita diferença, ainda que a maioria dos eleitores continue pouco interessada pela disputa.

Há um fluxo de informações proporcionado pela propaganda, pelos debates entre candidatos e pela discussão existente na sociedade que efetivamente faz com que mesmo os desinteressados acabem se posicionando. Aliás, pode-se dizer que os menos afetados por esse fluxo de informações talvez sejam os muito interessados. Esses normalmente já dispõem de muitas informações prévias, certas ou erradas, resultado de reflexões ou preconceitos. Diante disso, a propaganda eleitoral, os debates e as discussões de véspera tendem a afetar-lhes menos.

Isso não quer dizer que nesse público mais envolvido não haja os que mudem de opinião. Se tiverem uma razoável dúvida prévia sobre as alternativas, muitas vezes causada justamente por já terem se informado, podem ser convencidos pelo debate, pela apresentação de novos argumentos ou pelo surgimento de dados adicionais, antes desconhecidos. Para esses, faz muito sentido a noção de que uma democracia requer debate público, sendo a eleição um momento especialmente profícuo para isso.

Entretanto, há outros para os quais contra fatos sempre haverá não apenas argumentos, mas convicções e preconceitos. Daí, o debate aberto tem pouca serventia para o aprimoramento das ideias e a revisão crítica das próprias opiniões; ele serve apenas como oportunidade para a mobilização emocional e para o reforço do partidarismo - seja em sua forma positiva ou negativa. E como as eleições envolvem a questão crucial de ganhar ou perder - e do time para o qual eu torço (ou contra o qual eu torço) ganhar ou perder - elas frequentemente deixam de promover o bom debate, dando lugar ao bate-boca.

Desponta aí um paradoxo da despolitização. Boa parte do eleitorado inicialmente menos interessado e informado, justamente por dispor de menos preconceitos, abre-se à informação e à argumentação alheia. Sua ignorância prévia faz-lhe desconfiar dos convictos agressivos, tornando-lhe mais racional do que os dotados de excessivas certezas.

Fernando Rodrigues: Dilma, JK e o lago Paranoá

- Folha de S. Paulo

A campanha de Dilma Rousseff comemorou muito o resultado da pesquisa Datafolha que coloca a petista com 37% das intenções de voto, contra 30% de Marina Silva (PSB). Sem contar o quase "fora do jogo" Aécio Neves (PSDB), com 17%.

Logo cedo ontem (19), às 7h38, chegou ao meu celular uma mensagem do QG dilmista. Reescrevo e traduzo o conteúdo: "Lembra-se do telegrama de Juscelino Kubitschek ao escritor Gustavo Corção sobre o lago Paranoá? Encheu, viu". Adaptando esse episódio para a estratégia de Dilma atacar Marina: funcionou, né"?".

Trata-se de um caso pitoresco a respeito da construção de Brasília. Corção era um crítico da mudança da capital do Rio para o interior de Goiás. Engenheiro, dizia que a represa em torno da nova cidade não encheria nunca. O solo daqui seria muito poroso. Mas a água foi subindo e formou-se o lago Paranoá. Foi a razão de JK enviar o sucinto telegrama.

É mais ou menos o que teria se passado com Dilma e Marina. Há cerca de 20 dias, a petista iniciou a pancadaria contra a adversária direta. Houve dúvidas no PT sobre a eficácia da estratégia. Quando saiu a pesquisa Datafolha realizada nesta semana, os defensores da "narrativa do medo" para desconstruir a pessebista comemoraram: "Funcionou, né?".

A propaganda dilmista estimulou nos eleitores um dos sentimentos fundamentais no dia a dia das pessoas: o medo do desconhecido. Em certa medida, essa foi a força motriz que levou a Escócia a rejeitar a separação do Reino Unido --ninguém sabia ao certo como funcionaria na prática essa nova divisão política.

No caso de Dilma e Marina, faltam ainda cinco semanas até o segundo turno. É tempo suficiente para Dilma encher seu "lago Paranoá de votos" na base do medo das pessoas. E há também condições de Marina explicar para os eleitores como seria seu eventual governo, dissipando o temor do desconhecido que a impede, hoje, de fixar-se como favorita.

Alberto Carlos Almeida: Marina Silva perde terreno

- Valor Econômico – Eu & Fim de Semana

Há duas semanas, o favoritismo de Marina era bem maior. A perda de terreno nas intenções de voto não é o principal indicador de que Marina é hoje menos favorita do que foi. A perda de votos é, antes de tudo, consequência de acontecimentos de campanha que acabaram por deixá-la em posição menos confortável.

O fenômeno Marina pode ser explicado por três fatores combinados: o maior conhecimento de seu nome por parte do eleitorado, o fato de ela ocupar o terreno do voto de oposição e características que a aproximam da imagem de Lula. Note-se que esses três elementos dizem respeito à opinião pública, ao eleitorado. São as visões que o eleitorado tem de Marina.

No Brasil, o nível de conhecimento do candidato é uma formidável barreira ao sucesso eleitoral. Convencionou-se denominar isso, como se nossa língua não tivesse uma palavra adequada, de "recall". É muito comum que os políticos, quando se trata de serem eleitos para o Poder Executivo, disputem mais de um pleito. O processo eleitoral é caracterizado por um curto e intenso período de comunicação. Graças a isso, alguém que não é muito conhecido no início da campanha pode se tornar bem mais conhecido em seu final. Lula é o exemplo clássico. Disputou três eleições antes de vencer a quarta. A cada eleição que disputava, Lula se tornava mais conhecido do eleitorado.

Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, não há primárias no Brasil. O processo de escolha do candidato em eleições primárias faz com que seu nome se torne conhecido pela maior parte do eleitorado. Assim, quando um candidato democrata e outro republicano iniciam a corrida para a Casa Branca, devidamente escolhidos por seus partidos, ambos têm o mesmo nível de conhecimento. É como se dois atletas fossem correr os 100 metros rasos e os dois partissem da mesma linha de largada.

Na corrida eleitoral de 100 metros, Marina largou na frente de Aécio pelo simples fato de ter disputado a eleição de 2010. Ao colocar seu nome nacionalmente, há quatro anos, ela largou com cinco pontos percentuais de vantagem sobre Aécio, em termos de nível de conhecimento, assim que Eduardo Campos morreu. Parece uma vantagem pequena, mas não é. Considerando-se os seis meses que antecederam o acidente aéreo que vitimou Campos, Marina pouco havia aparecido na mídia nacional. Ainda assim, ela se manteve mais conhecida do que Aécio, que estava nos mesmos seis meses em plena campanha eleitoral. Apenas isso era suficiente para que Marina tivesse mais votos do que Aécio, como acabou sendo demonstrado pelas pesquisas.

No momento, o nível de conhecimento de Marina é pelo menos 10 pontos percentuais maior que o de Aécio. Isso praticamente soterra as esperanças do candidato do PSDB de ultrapassar Marina. Fica evidente que foi um grande erro o PSDB ter lançado Serra candidato a presidente em 2010. Aquela eleição, e o PSDB sabia disso, caminhava para ser ganha pela candidata de Lula. Estando isso claro, o melhor teria sido lançar Aécio em 2010, para que em 2014 o nome dele fosse nacionalmente conhecido. Como Serra foi candidato em 2010 e Aécio é o candidato de 2104, ficou aberto o caminho para Marina, que veio a ser candidata nas duas eleições. O PSDB foi punido por uma decisão tecnicamente equivocada, quando se considera a lógica da opinião pública.

Outro fator relevante para o sucesso de Marina é que ela atrai o voto de oposição. Por definição, só há um candidato governista, ao passo que podem existir vários candidatos de oposição. O eleitor sabe que Dilma representa o governo e que, portanto, todos os demais candidatos são contrários ao governo. Assim, aqueles que querem mudança dirigem sua atenção majoritariamente para Marina e Aécio. Como Marina sempre teve "recall" mais alto que o de Aécio, ela acaba conquistando imediatamente mais eleitores de oposição que ele. Dito de maneira talvez mais clara: para o eleitor, Marina é mais de oposição do que Aécio. Não importa que ela tenha feito a maior parte da carreira política no PT. Importa é que, hoje, na visão dos eleitores, representa a mudança em face do governo Dilma. A combinação entre "recall" mais elevado que o de Aécio e o voto de oposição faz com que Marina ocupe em definitivo o terreno que seria do candidato do PSDB.

O terceiro fator para o sucesso de Marina é o que denominamos de "Lula de saias" na coluna do dia 22 de agosto. De fato, a imagem de Marina, junto aos eleitores, é muito semelhante à de Lula. É por essa razão específica que Marina pode ser considerada o "Lula de saias". Os eleitores afirmam que as principais características pessoais de Lula e Marina são as de serem "gente como a gente" e entenderem "o problema dos pobres". Isso permite que Marina conquiste eleitores mais próximos de Dilma e do PT. O mais interessante é que Marina não vem se utilizando disso na campanha. Ela fez pouco uso, até agora, de sua trajetória política e pessoal, tampouco conectou isso com suas propostas de governo. Apesar de ter junto ao eleitorado a imagem de "Lula de saias", sua campanha vem posicionando-a mais como uma peessedebista repaginada. Marina não se utiliza de seu principal capital de imagem, e isso vem resultando na perda de favoritismo.

Além do enorme tempo de propaganda, muito maior que o de seus oponentes, a campanha de Dilma tem levado ao ar programas de rádio e TV primorosos, irretocáveis, tanto na forma quanto no conteúdo. Por isso, no primeiro mês de propaganda eleitoral gratuita, a avaliação positiva do governo melhorou: a soma de "ótimo" e "bom" aumentou algo em torno de cinco pontos percentuais. A melhoria da avaliação do governo é algo que Marina e sua campanha não controlam. Não é possível afirmar se o "ótimo" e o "bom" de Dilma continuarão aumentando. O fato é que isso dificulta a vida de Marina: quanto mais eleitores avaliam positivamente o governo, maiores as chances de crescimento de Dilma.

A melhoria da avaliação de governo não é algo trivial. Em 1998, graças à propaganda eleitoral, Fernando Henrique melhorou em cinco pontos percentuais a avaliação de "ótimo" e "bom" de seu governo. Lula conseguiu uma melhora de nove pontos percentuais em 2006, ano de sua reeleição.

Nas eleições para governador, ocorre de tudo. Há aqueles que melhoram a avaliação de seus governos e há os que não conseguem fazer isso. São raras as melhorias de avaliação muito acentuadas. Isso acontece quando o governador é pouco conhecido do eleitorado, quando disputa sua primeira eleição. Foi o caso de Anastasia em Minas Gerais e o de Pezão nesta eleição no Rio de Janeiro (como também de Gilberto Kassab, no Município de São Paulo).

Governantes que assumem no meio do mandato, que eram vices e acabam se tornando conhecidos no decorrer do processo eleitoral no qual disputam sua reeleição têm mais espaço para melhorarem sua avaliação do que aqueles que já foram votados quatro anos antes. Não significa que Dilma não possa melhorar ainda mais a avaliação de seu governo, mas isso não tem sido a regra. Pode-se argumentar que eleições para governador têm lógica diferente das eleições para presidente. É verdade. Mas é o que temos para analisar o que acontece no Brasil.

O que parecia se constituir em uma vitória bastante provável de Marina, deixou de ser. A eleição presidencial assumiu contornos de disputa acirrada. A trajetória de Marina em muito se assemelha ao Cruzeiro no campeonato brasileiro. Até pouco tempo atrás, sua vantagem sobre o segundo colocado era bem confortável. Caiu bastante, porém, e hoje é de somente quatro pontos. O time mineiro, assim como Marina, dependia e continua dependendo de seus próprios resultados. Há duas semanas, os erros e falhas da defesa não colocavam em risco suas respectivas lideranças. Não é o que acontece hoje.


Alberto Carlos Almeida, sociólogo, é diretor do Instituto Análise e autor de "A Cabeça do Brasileiro".

Cristovam Buarque: O tamanho do pré-sal

• Brasil não cabe dentro de um poço de petróleo, nem deve esperar por ele

- O Globo

Não usar a riqueza do pré-sal seria uma estupidez, usá-la para iludir a nação é uma indecência. As estimativas para as reservas do pré-sal podem não ser exatas, mas não são mitos, são resultados de pesquisas geológicas; a exploração na sua profundidade não é um mito, a engenharia dispõe de ferramentas; a crença de que pode ser feita sem riscos para a ecologia não é um mito, embora haja exemplos de vazamentos em campos similares; a expectativa de que a demanda e os preços continuarão altos não é um mito, apesar das novas fontes.

Mito, contudo, é a afirmação de que o pré-sal mudará a realidade brasileira.

Se tudo der certo, em 2036 a receita líquida prevista do setor petrolífero corresponderá a R$ 100 bilhões, aproximadamente R$ 448 por brasileiro, quando a renda per capita será de R$ 27.800, estimando crescimento de 2% ao ano para o PIB. Apesar da dimensão da sua riqueza, o pré-sal não terá o impacto que o governo tenta passar. Explorá-lo é correto, concentrar sua receita na educação é ainda mais correto, mas é indecente usar o pré-sal como uma ilusão para enganar a nação e como mecanismo para justificar o adiamento de investimentos em educação.

O Brasil não cabe dentro de um poço de petróleo, nem deve esperar por ele.

Mito também é a afirmação de que a educação brasileira será universalizada e dará um salto de qualidade graças ao pré-sal. Em 2030, uma educação de qualidade universal custará cerca de R$ 511 bilhões, para o custo/aluno/ano de R$ 9.500. Se tudo der certo, a totalidade dos recursos do setor petrolífero destinada à educação corresponderá a R$ 37 bilhões, apenas 7,2% do necessário.

Também é um mito dizer que o atual governo teve a iniciativa da proposta de investir 75% dos royalties do petróleo em educação. A partir do momento da descoberta do pré-sal, 44 projetos de lei foram apresentados na Câmara e no Senado.

Mas foi com a aprovação do substitutivo PLC 41/2013 ao PL 323/2007, do deputado Brizola Neto, em 14/8/2013, após parecer favorável do deputado André Figueiredo (PDT-CE), que se determinou o destino de 100% dos royalties para a educação e a saúde. As atas mostram que os líderes da base de apoio ao governo tentaram impedir a aprovação, mas foram derrotados no voto.

Além de não serem destinados à educação os R$ 15 bilhões dos Bônus de Assinatura do Leilão do Campo de Libra, os recursos dos royalties não estão sendo aplicados. Até 28 de agosto, um ano depois da sanção da lei, apenas R$ 912 milhões foram efetivamente transferidos para o Ministério da Educação, ou seja, somente 13,5% do valor de R$ 4,2 bilhões previsto pela Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2014.

Enquanto o mundo vive uma revolução no conhecimento, estamos ficando para trás, eufóricos com a promessa de mudar nossa triste realidade educacional no futuro distante, com base em um recurso ainda na profundidade de sete mil metros e que não será suficiente. E o pouco prometido não está sendo cumprido.

Cristovam Buarque é senador (PDT-DF)

Rolf Kuntz: Quatro anos de fiasco, mas a culpa é dos outros

- O Estado de S. Paulo

O inferno é o outro, conforme escreveu há 70 anos um filósofo e dramaturgo francês. A presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, certamente concordam. Mas o outro, poderiam acrescentar, tem lá seu valor. Sem ele, em quem jogar a culpa de nossos males, especialmente daqueles produzidos por nós?

Para isso servem as potências estrangeiras, os bancos internacionais, os pessimistas de todas as nacionalidades e até o Banco Central do Brasil (BC), por sua insistência em manter os juros em 11%. Os maiores males deste momento ainda estarão por aí quando começar o próximo governo, em janeiro:

1) Os aumentos de preços ganharam impulso de novo. O IPCA-15, prévia da inflação oficial de setembro, subiu 0,39%, muito mais que o dobro da variação de agosto, 0,14%. A alta acumulada no ano, 4,72%, já ficou bem acima da meta, 4,5%. Em 12 meses chegou a 6,62% e dificilmente ficará abaixo de 6% no fim do ano.

2) Os economistas do mercado financeiro e das consultorias continuam reduzindo as projeções de crescimento econômico. A mediana das estimativas, na semana passada, ficou em 0,33%, de acordo com pesquisa do Banco Central. Coincidiu com a nova previsão divulgada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE): 0,3%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicará números atualizados em outubro.

A previsão para o Brasil será, com certeza, bem menor que a de julho, 1,3%.

3) As finanças do governo continuam virando farelo. Nem receitas especiais têm resolvido o problema. Pelas primeiras informações, a arrecadação inicial do novo Refis, o refinanciamento de impostos em atraso, ficou abaixo do valor previsto - algo na faixa de R$ 13 bilhões a R$ 14 bilhões. O pessoal do Tesouro deverá continuar recorrendo à criatividade contábil. Qualquer balanço razoável no fim de 2014 será uma surpresa.

4) As contas externas continuam fracas e o déficit em conta corrente, no fim do ano, deverá ficar ainda próximo de US$ 80 bilhões, segundo estimativas do mercado. Nada, por enquanto, indica resultados muito melhores em 2015.

5) O País ainda vai depender fortemente de financiamento externo para fechar o buraco das transações correntes. O investimento direto estrangeiro tem sido e provavelmente continuará insuficiente para isso. Faltarão uns US$ 20 bilhões neste ano e, segundo as projeções do mercado, uma quantia muito parecida em 2015. Essa diferença será coberta, em grande parte, por dinheiro especulativo. As condições internacionais de financiamento serão provavelmente menos favoráveis que as de hoje, especialmente se o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, confirmar a elevação dos juros básicos, atualmente na faixa de zero a 0,25% ao ano.

Mesmo com o desemprego bem mais baixo, o Fed provavelmente só começará a aumentar os juros se os seus diretores estiverem convencidos da firme recuperação econômica dos Estados Unidos. Essa recuperação será boa para todo o mundo. Atividade mais intensa na maior economia resultará em mais oportunidades comerciais para todos os parceiros - ou, pelo menos, para aqueles preparados para aproveitar a ocasião. A indústria brasileira tem mais perdido que aproveitado oportunidades, por falta de investimento, por excesso de custos e por erros da diplomacia comercial.

Mas o começo do aperto monetário, possibilitado pela recuperação americana, afetará os investimentos e o custo dos empréstimos. Juros mais altos atrairão dinheiro para os Estados Unidos. Isso poderá neutralizar, em boa parte, a sobra de recursos provocada pelo esperado afrouxamento da política do Banco Central Europeu.

Todo mundo espera essa mudança no quadro internacional. Governos competentes procuram tornar seus países menos vulneráveis a riscos financeiros e mais capazes de acompanhar a onda de crescimento liderada pelos Estados Unidos e acompanhada, com algum atraso, pelas economias europeias mais sólidas.

Economistas do FMI, em documento preparado para a conferência ministerial do Grupo dos 20 (G-20) neste fim de semana, na Austrália, chamam a atenção para os perigos e para os ajustes necessários. A recuperação continua, mas num ambiente de riscos. No Brasil, aponta o estudo, o baixo crescimento dificultará a execução da política fiscal e a redução da dívida pública. Além disso, a inflação elevada poderá tornar necessário um novo aumento de juros se as expectativas piorarem. Isso é exatamente o contrário do caminho apontado pelo ministro da Fazenda.

Mas o governo brasileiro, especialmente em caso de reeleição, sempre poderá atribuir parte dos problemas de 2015 ao Fed. O banco central americano foi responsabilizado por males brasileiros quando inundou os mercados com dólares, tentando estimular a economia dos Estados Unidos. A valorização do real, uma das consequências, encareceu as exportações brasileiras e barateou as importações. O ministro Mantega reclamou de uma guerra cambial.

Desde o ano passado o jogo mudou. Ao anunciar a redução dos estímulos monetários, o Fed mexeu nos fluxos de capitais, valorizou o dólar e, segundo Brasília, criou pressões inflacionárias. O impacto da mudança poderá ser mais forte no próximo ano, com o aumento dos juros. Bendito seja o Fed, um dos culpados de sempre.

A presidente Dilma Rousseff tem citado com insistência uma frase famosa de Nelson Rodrigues sobre o complexo de vira-lata. Não se sabe quantas páginas da obra rodriguiana ela realmente leu, mas a tal frase é importante no repertório presidencial. Não se sabe, também, quantas páginas de Sartre ela terá lido. Mas a ideia sartriana sobre inferno, reduzida a uma tosca simplicidade, tem servido à retórica defensiva de um governo fracassado. Benditos sejam os outros.

Jornalista

Miriam Leitão: Além do limite

- O Globo

A inflação voltou a subir e deve ficar acima do teto da meta até o fim do período eleitoral. Pode ser que fique um pouco abaixo de 6,5% no final do ano, se não houver aumento de gasolina. A falta de reajuste fará a Petrobras continuar tendo perdas na importação do combustível. O cobertor só ficou curto porque o governo errou muito na condução da política econômica.

Há cinco anos a inflação roda em torno de 6%. É esse seu novo patamar, e a cada novo fato negativo a taxa estoura o teto de 6,5%. Pelo IPCA-15 divulgado ontem, que deu 0,39% em setembro, o índice em 12 meses foi para 6,62%. Essa prévia deve se confirmar no IPCA de setembro que será divulgado dia 8 de outubro. Pelos cálculos do professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, o número do mês fechado ficará em torno de 0,45%, o que deixará o acumulado em um ano nos mesmos 6,62% da prévia.

A notícia boa é que a inflação está menos dispersa. O índice de dispersão caiu um pouco, de 58% para 56%. Isso na prática quer dizer que quase metade dos preços não subiu. No entanto, o que subiu afeta diretamente o bolso das famílias, como carne bovina, alimentação fora de casa e energia. Junto com passagens aéreas e empregado doméstico, esses cinco itens representam 75% do aumento no IPCA-15.

Não se espera um fim de ano tão ruim quanto foi o do ano passado porque as excelentes safras americanas de soja, milho e trigo ajudam a reduzir o item alimentação. O preço da carne de frango, por exemplo, tem a ver diretamente com a cotação do milho. O trigo afeta as massas e os pães. No ano passado, a safra foi ruim, e isso elevou muito a cotação dessas commodities. Há risco, como sempre nesse período do ano, de que os hortifrúti subam, ora pela seca prolongada, ora pelas chuvas, quando elas chegarem. Os reajustes de serviços estão em 8,6% em um ano.

Mais importante do que verificar o que foi que subiu é notar que temos ficado nesse ambiente de inflação alta há tempo demais. Isso vai reduzindo a renda disponível, principalmente quando bate em produtos que não podem ser suprimidos do orçamento. Confirmando-se no índice oficial o que essa prévia mostra, o mês de setembro será o 12º do governo Dilma em que se estoura o teto da meta.

O governo diz que só trabalha com o ano calendário e que ficou sempre em 6,5% ou menos. Mas o Banco Central não cumpriu o mandato de levar o índice para o centro da meta e já avisou que isso só ocorrerá em meados de 2016. E isso apesar de o governo reprimir alguns preços a ponto de criar dificuldades financeiras para as empresas. A redução da tarifa de energia em 2013 foi um tiro que saiu pela culatra.

Como foi que em um ambiente de economia em desaceleração, sem pressões inflacionárias externas relevantes, com a deflação rondando países europeus, com taxas abaixo de 2% nos Estados Unidos e números moderados em países como Chile, Colômbia, México, o Brasil não consegue reduzir a inflação?

Esse é um dos pontos fracos da administração Dilma. Felizmente, a taxa não está descontrolada, mas é alta demais por tempo demais em uma economia que está desaquecendo o nível de atividade.

O governo não conseguiu convencer o país do seu compromisso de levar a inflação para o centro da meta, os sinais da equipe econômica foram sempre ambíguos, a política fiscal foi expansionista, e o Banco Central foi visto como tendo menos autonomia do que no período Lula. Tudo isso instalou a inflação perto de 6,5%, o que faz com que qualquer choque de preços, como o que houve no ano passado em alimentos, leve o índice a ficar além do limite permitido pela política de metas.

Demétrio Magnoli: Os perdedores

• O PT investe na indignida-de e na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu

- Folha de S. Paulo

A semente transgênica e o Código Florestal; a hidrelétrica e a licença ambiental; os evangélicos e os jovens libertários; o Estado e as ONGs; os serviços públicos e os tributos; a "nova política" e o Congresso; a política e os partidos; o PSB e a Rede. Na candidatura de Marina Silva, não é difícil traçar círculos de giz em torno de ângulos agudos, superfícies de tensão, contradições represadas. O PT preferiu investir na indignidade, na mentira, na difamação. Por isso, perdendo ou ganhando, já perdeu.

As peças incendiárias de marketing, referenciadas no pré-sal e na independência do Banco Central, inscrevem-se na esfera da delinquência eleitoral. A primeira organiza-se em torno de uma mentira (a suposta recusa de explorar o pré-sal), de cujo seio emana um corolário onírico (a "retirada" de centenas de bilhões de reais supostos e futuros da Educação). A segunda converte em escândalo um modelo que pode ser legitimamente combatido, mas está em vigor nos EUA, no Canadá, no Japão, na União Europeia, na Grã-Bretanha e no Chile --e que, no Brasil, surgiu embrionariamente sob Lula, durante a gestão de Henrique Meirelles.

Na TV, o partido do governo acusa a candidata desafiante de conspirar com banqueiros para lançar os pobres no abismo da miséria. O fenômeno vexaminoso não chega a causar comoção, pois tem precedentes. Contra Alckmin (2006) e Serra (2010), o PT difundiu as torpezas de que pretendiam privatizar a Petrobras e cortar os benefícios do Bolsa Família, ambas já reprisadas para atingir Marina. A diferença, significativa apenas no plano eleitoral, está na circunstância de que, agora, a ignomínia entrou no jogo antes do primeiro turno. A semelhança, por outro lado, evidencia que o PT aposta na ignorância, na desinformação, na pobreza intelectual --enfim, no fracasso do país.

Algo se rompeu quando eclodiu o escândalo do mensalão. Naquela hora, os intelectuais do PT depredaram a praça do debate político, ensinando ao partido que a saída era qualificar a imprensa como "mídia golpista" e descer às trincheiras de uma guerra contra a opinião pública. A lição deu frutos envenenados. O STF converteu-se em "tribunal de exceção", e os políticos corruptos, em "presos políticos". Os críticos passaram a ser classificados como representantes da "elite branca paulista" (se apontam as incongruências da "nova matriz econômica"), "fascistas" (se nomeiam como ditadura todas as ditaduras, inclusive as "de esquerda") ou "racistas" (se objetam às leis de preferências raciais).

O projeto de um partido moderno de esquerda dissolveu-se num pote de ácido que corrói a convivência com a opinião dissonante. Do antigo PT, partido da mudança, resta uma sombra esmaecida. As estatísticas desagregadas das sondagens eleitorais revelam o sentido da regressão histórica. A presidente-candidata tem suas fortalezas no Nordeste e no Norte, nas cidades pequenas e entre os menos escolarizados, mas enfrenta forte rejeição no Centro-Sul, nas metrópoles e entre os jovens. Não é um "voto de classe", como interpretam cientistas políticos embriagados com um economicismo primário que confundem com marxismo. É um voto do país que, ainda muito pobre, depende essencialmente do Estado. A antiga Arena vencia assim, espelhando um atraso social persistente.

Obviamente, a regressão tem causas múltiplas, ligadas à experiência de 12 anos de governos lulopetistas que estimularam o consumo de bens privados, mas não produziram bens públicos adequados a um país de renda média. A linguagem, contudo, ocupa um lugar significativo. O país moderno, cujos contornos atravessam todas as regiões, sabe identificar a empulhação, a mistificação e a truculência.

Na sua fúria destrutiva, a campanha de Dilma explode pontes, queima arquivos. O PT pode até triunfar nas eleições presidenciais, mas já perdeu o futuro.

Camarão que dorme a onda leva

Murilo Mendes: Poema dialético

I
Todas as coisas ainda se encontram em esboço
Tudo vive em transformação
Mas o universo marcha
Para a arquitetura perfeita.

Retiremos das árvores profanas
A vasta lira antiga.
Sua secreta música
Pertence ao ouvido e ao coração de todos.
Cada novo poeta que nasce
Acrescenta-lhe uma corda.

II
Uma vida iniciada há mil anos atrás
Pode ter seu complemento e plenitude
Numa outra vida que floresce agora.

Nada poderá se interromper
Sem quebrar a unidade.

Um germe foi criado no princípio
Para que se desdobre em plenos múltiplos.
Nossos suspiros, nossos anseios, nossas dores
São gravados no campo do infinito
Pelo espírito sereníssimo que preside às gerações.

III
A muitos só lhes resta o inferno.
Que lhes coube na monstruosa partilha da vida
Senão um desespero sem nobreza, e a peste da alma?
Nunca ouviram a música nascer do farfalhar das árvores,
Nem assistiram à contínua anunciação
E ao contínuo parto das belas formas.
Nunca puderam ver a noite chegar sem elementos de terror.
Caminham conduzindo o castigo e a sombra de seus atos.
Comeram o pó e beberam o próprio suor.
Não se banharam no regato livre...

Entretanto, a transfiguração precede a morte.
Cada um deve realiza-la na sua carne e no seu espírito
Para que a alegria seja completa e definitiva.

IV
É necessário conhecer seu próprio abismo
E polir incessantemente o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:
Nossa existência é uma vasta expectação
Onde se tocam o princípio e o fim.
A terra terá que ser retalhada entre todos
E restituída um dia à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita.
A aurora é coletiva.