domingo, 24 de julho de 2016

Reta final - Merval Pereira

- O Globo

Os procuradores de Curitiba estão analisando, há 15 dias, os depoimentos por escrito de 35 executivos da empreiteira Odebrecht, inclusive o do presidente Marcelo Odebrecht, e os liberarão para homologação parceladamente. Eles estão analisando cerca de mil páginas datilografadas, e toda sexta-feira chamam alguns dos delatores para confirmar informações e tirar dúvidas.

Na sexta passada, o juiz Sérgio Moro homologou os acordos de delação premiada dos empresários Vinícius Veiga Borin, Luiz Augusto França e Marco Pereira de Sousa Bilinski, sócios em uma empresa de consultoria que, segundo as investigações da Operação Lava-Jato, era usada para movimentar contas de offshores da Odebrecht no exterior.

Eles calculam que até o final do mês todas as delações estarão checadas e aprovadas. O conjunto das delações implicará tanto o ex-presidente Lula quanto a presidente afastada, Dilma Rousseff, mas pegará também líderes da oposição como o senador Aécio Neves e dezenas de deputados e senadores.

Quando setembro vier - Dora Kramer

• Se efetivado, Temer falará ao País sobre passado recente, o presente e futuro do governo

- O Estado de S. Paulo

No dia seguinte à aprovação do impeachment de Dilma Rousseff - com 60 votos dos 81 senadores nas contas do governo - Michel Temer fará um pronunciamento à nação cujo esboço já se desenha em três temas: balanço sobre a situação que encontrou, o apanhado das ações executadas na interinidade e um conjunto de diretrizes para os próximos dois anos e meio.

“Não vou falar em herança maldita ou coisa parecida, como fizeram”, diz Temer, acentuando propositadamente a ocultação dos sujeitos na frase, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff, a fim de destacar o caráter institucional da declaração.

Atento às formalidades, Temer não senta, não despacha nem recebe pessoas na mesa presidencial, localizada a cinco passos de distância. Um móvel redondo de 12 lugares para reuniões. Só vai trocá-lo pelo assento presidencial quando, e se, o Senado confirmá-lo no cargo.

Por que democracias fracassam - Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

"Democracy for Realists", de Christopher Achen (Princeton) e Larry Bartels (Vanderbilt), é um livro importante. Os autores basicamente destroem nossas mais caras ideias sobre a democracia. E o fazem com a força de evidências.

O livro começa detonando o que os autores chamam de teoria popular da democracia. É a noção de que o indivíduo, na hora de votar, faz escolhas conscientes entre as várias propostas apresentadas pelos candidatos. Para Achen e Bartels, isso é muito mais religião do que ciência.

Uma luta que não é deles: Os estudantes e a greve na USP - José de Souza Martins

- O Estado de S. Paulo

A notícia do fim da greve dos funcionários da USP veio com uma ressalva. A de que poderá ser retomada após o término das férias do calendário escolar. Para quem, como eu, cresceu dentro de uma fábrica e presenciou a greve dos 300 mil, em 1957, soa estranho que alguém pare para descansar da paralisação e a ela retornar após o merecido descanso.

As greves universitárias do período pós-ditatorial fluem no cenário adverso da peculiar impotência do paredismo de classe média. Não incidem sobre atividades produtivas. Nenhuma riqueza deixa de ser criada, ninguém lamentará que alunos deixem de estudar, funcionários deixem de funcionar, professores deixem de ensinar. As perdas são invisíveis. Quem se importará com os enormes danos que bibliotecas fechadas durante meses causam a estudantes de pós-graduação que tem teses para concluir e prazos rígidos para cumprir na Universidade e nas agências de fomento que lhes concedem bolsas de estudo? Prazos que a greve não modificará. Em nossa cultura alienada, que de vários modos valoriza a ignorância, estudar não é necessariamente um bem. Para muitos é um castigo. Concretamente, ninguém perde com paralisações em setores que não produzem diretamente mais-valia, para irmos ao vocabulário que dá sentido às verdadeiras greves, as fabris. Ao contrário, são setores que vivem à custa de uma parcela da distribuição da mais-valia extorquida dos trabalhadores do setor produtivo.

Governo ambíguo - Míriam Leitão

- O Globo

Governo Temer tem reformas a prazo e aumento de gastos à vista A marca do governo Temer é a ambiguidade. Ele fala em ajuste e amplia gastos. Acusa o governo Dilma de ter sido gastador e provocado o rombo e solta uma nota dizendo que na administração da presidente afastada houve queda das despesas com salários de funcionários em proporção ao PIB. Anuncia como meta fiscal uma cifra astronômica e mesmo assim precisa recorrer à reserva de emergência.

O pouco crédito que começa a ser dado ao governo pode se estiolar em breve. Basta que alguém grite que o rei está nu. O frágil aumento da confiança se deve menos ao presidente interino e mais ao afastamento de Dilma. É fruto do alívio de um bode sair de uma sala cheia. Como a presidente afastada cometeu uma série de absurdos econômicos e fiscais e levou o país à pior recessão da sua história, qualquer sucedâneo parecia melhor. No segundo momento, é inevitável constatar que o governo Temer não tem compromisso com a estabilidade fiscal, mesmo tendo em sua equipe pessoas cuja marca é a responsabilidade com as contas públicas.

Copom sugere que formação de expectativas voltou a ter papel central – Samuel Pessôa

- Folha de S. Paulo

Na semana passada, houve a primeira reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central após a troca de guarda na presidência da instituição, de Alexandre Tombini por Ilan Goldfajn.

Depois da reunião, na quarta-feira (20) às 18h, a assessoria de imprensa do BC divulgou o comunicado com a decisão.

O comunicado, bem mais longo do que normalmente, estabeleceu os parâmetros que pautarão a política monetária do BC liderado por Goldfajn.

Reconhece que há sinais de estabilização da atividade com elevado nível de ociosidade e nota a enorme incerteza em relação ao cenário de recuperação da economia internacional.

Em seguida, em dois parágrafos, trata dos elementos-chave para a tomada de decisão de política monetária. Primeiro, lembra que as expectativas inflacionárias dadas pela pesquisa Focus, conduzida pelo BC com agentes do mercado financeiro, indicam que a inflação esperada para 2017 encontra-se acima da meta.

Da UTI à competição, um roteiro longo e difícil - Rolf Kuntz

• Depois de ajeitar as contas públicas, faltará reconstruir o governo e a economia devastada

- O Estado de S. Paulo

O primeiro e mais urgente desafio para o governo é tirar o País da UTI, mandá-lo para a recuperação e divulgar boletins animadores e críveis sobre a melhora de suas condições fiscais. Se tudo andar bem, lá por 2019 ou 2020 haverá sinais de controle da dívida pública. Será um trabalho politicamente complicado, mas o roteiro é mais ou menos conhecido. Será preciso, contudo, ir muito além do tratamento intensivo e da reabilitação inicial. Governo e setor privado terão de repor o Brasil em condições de competir no mercado internacional e de crescer em ritmo parecido com os de outros emergentes – na faixa de 4% a 6% ao ano, somente para reconquistar algumas posições. Falta saber como cuidar dessa parte: essa é, neste momento, a área mais obscura da política econômica. Será como reinventar o País, depois de muitos anos de equívocos e de ampla deterioração da capacidade de crescimento.

A máquina das mentiras da Sete Brasil - Elio Gaspari

- O Globo

Desde o final de 2014 sabe-se que a Sete Brasil, empresa que forneceria 29 sondas à Petrobras, era uma fabricação duvidosa na origem, anacrônica nos meios e perdulária nos fins. Ideia do petrogatuno Pedro Barusco, produziria equipamentos caros, porém nacionais.

Lula meteu no negócio de R$ 28 bilhões os fundos estatais (Previ, Petros e Funcef, mais as arcas do FGTS) e atraiu os bancos BTG Pactual, Bradesco e Santander. As coisas só iriam bem se o BNDES financiasse R$ 8,8 bilhões, mas o banco sentiu o cheiro de queimado e retraiu-se. Micou a Caixa Econômica, com R$ 700 milhões.

Até aí há apenas mais uma petrorroubalheira. No caso da Sete houve mais. Construiu-se uma catedral de patranhas indicativa de que, apesar da Lava-Jato, ainda há gente jogando com a boa-fé do público e as ilusões do mercado. Ao longo de dois anos, repetiu-se que o problema seria resolvido pelo BNDES. Fechada essa porta, tudo seria acertado com um redimensionamento do contrato pela Petrobras. Era tudo fantasia, e a empresa marchava para a recuperação judicial.

Antes tarde do que nunca – Editorial / O Estado de S. Paulo

A imagem pública dos parlamentares brasileiros e dos políticos em geral nunca foi exatamente positiva e piorou muito a partir dos escândalos revelados pela Operação Lava Jato e congêneres. Deputados e senadores consideram-se perseguidos e injustiçados pelo estigma da corrupção e não se conformam, muitos com razão, com a generalização dessas acusações. Esse sentimento majoritário de repulsa dos brasileiros aos desvios de conduta de seus representantes no Congresso Nacional está hoje tão enraizado que certamente levará um bom tempo para mudar a partir do instante em que houver razões para tanto.

Mas aos deputados, em particular, está sendo oferecida uma excelente oportunidade de acelerar o processo de reconquista do apoio e respeito populares: a discussão do pacote de medidas contra a corrupção. Ele está travado há mais de um ano na Câmara e agora o novo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), anuncia que quer vê-lo aprovado até 9 de dezembro, Dia do Combate à Corrupção.

Crise força o fim do injusto ensino superior gratuito – Editorial / O Globo

• Os alunos de renda mais alta conseguem ocupar a maior parte das vagas nos estabelecimentos públicos, enquanto aos pobres restam as faculdades pagas

Numa abordagem mais ampla dos efeitos da maior crise fiscal de que se tem notícia na história republicana do país, em qualquer discussão sobre alternativas a lógica aconselha a que se busquem opções para financiar serviços prestados pelo Estado. Considerando-se que a principal fórmula usada desde o início da redemocratização, em 1985, para irrigar o Tesouro — a criação e aumento de impostos — é uma via esgotada.

Mesmo quando a economia vier a se recuperar, será necessário reformar o próprio Estado, diante da impossibilidade de se manter uma carga tributária nos píncaros de mais de 35% do PIB, o índice mais elevado entre economias emergentes, comparável ao de países desenvolvidos, em que os serviços públicos são de boa qualidade. Ao contrário dos do Brasil.

Laboratório eleitoral – Editorial / Folha de S. Paulo

Com início legal marcado somente para o dia 16 de agosto, a disputa eleitoral pelas prefeituras já começa a ganhar corpo à medida que os principais candidatos têm confirmadas suas postulações.

Em São Paulo, por exemplo, PRB, PSOL, PT e PSDB lançam os nomes que pretendem levar ao comando da maior cidade brasileira: Celso Russomanno, Luiza Erundina, Fernando Haddad e João Doria, respectivamente. No próximo sábado (30), será a vez do PMDB, com Marta Suplicy.

Além disso, o Tribunal Superior Eleitoral divulgou na última quarta-feira (20) os valores máximos que poderão ser gastos pelas campanhas. Os tetos variam de R$ 45,4 milhões, no caso da capital paulista, a R$ 108 mil, para os quase 4.000 municípios com menos de 10 mil eleitores.

A esses limites, uma novidade desta eleição, se acrescentam outras regras aprovadas em 2015: o veto a doações de empresas privadas (restrição imposta antes pelo Supremo Tribunal Federal), a diminuição do período de campanha (de 90 dias para 45) e a redução do horário eleitoral na TV (de 45 dias para 35), entre outras medidas.

Sentimento do tempo – Paulo Mendes Campos

Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce.

Domingo azul no mar - Oscar Castro Neves e Leila Pinheiro

sábado, 23 de julho de 2016

Opinião do dia - Jürgen Habermas

"Todas as formas de exploração são idênticas, porque elas se aplicam, todas iguais, o objeto mesmo: o homem."

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Jürgen Habermas (1929), filosofo e sociólogo alemão

Dilma repete o ‘não sabia’ de Lula

Presidente afastada diz que não tinha conhecimento de caixa 2 confessado por seu marqueteiro; para Moro, Lula deu motivos para ser preso

‘Eu não sabia’ versão Dilma

• Presidente afastada repete Lula e diz não ter conhecimento de caixa dois admitido por João Santana

Daniel Biasetto e Paulo Celso Pereira – O Globo

BRASÍLIA E RIO - Um dia depois de o ex-marqueteiro do PT João Santana admitir em depoimento ao juiz Sérgio Moro ter recebido US$ 4,5 milhões por meio de caixa dois no exterior para saldar uma dívida de campanha de Dilma Rousseff em 2010, a presidente afastada adotou tom cauteloso. Ao ser perguntada ontem, em entrevista à rádio Jornal do Commercio, de Pernambuco, se estava preocupada com a confissão de Santana, a presidente negou ter autorizado ou saber da existência do caixa dois, mas não descartou que ele tenha existido, como fizera em outras oportunidades.

— Não me preocupa pelo seguinte: porque eu não autorizei pagamento de caixa dois para ninguém. Pelo contrário, na minha campanha eu procurei sempre pagar o valor que eu achava que devia a ele. Se houve pagamento no caixa dois, não foi com meu conhecimento — disse Dilma, repetindo o tom adotado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005, quando o escândalo do mensalão veio à tona.

Desde sua primeira campanha presidencial, Dilma cultivou com Santana e a mulher dele, Mônica Moura, que também negocia delação premiada, uma relação de grande proximidade. Em março, após a prisão do casal, Dilma disse ao jornal espanhol “El País" que não se preocupava com uma eventual delação do marqueteiro, pois ele não teria o que delatar da campanha.

A negação categórica da existência de ilícitos em sua campanha era o padrão até agora. Foi o que ocorreu em maio, quando foi divulgado um áudio no qual o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado dizia que a delação da construtora Odebrecht atingiria Dilma, pois ela teria pedido que a empresa pagasse João Santana:

“Os valores destinados ao pagamento do publicitário, conforme indica a prestação de contas, demonstram por si só a falsidade de qualquer tentativa de que teria havido outro pagamento não contabilizado para a remuneração dos serviços prestados”, respondeu em nota, na época.

Em 2015, acidez
Ano passado, a presidente afastada havia sido ainda mais dura ao responder à acusação do empreiteiro Ricardo Pessoa, da construtora UTC, que dizia ter feito repasses irregulares para sua campanha. Dilma negou as acusações, prometeu tomar providências se voltasse a ser citada pelo empreiteiro, e lembrou que aprendeu cedo a não gostar de Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da Inconfidência Mineira:

— Em Minas, na escola, quando você aprende sobre a Inconfidência Mineira, tem um personagem que a gente não gosta porque as professoras nos ensinam a não gostar dele. Ele se chama Joaquim Silvério dos Reis, o delator. Eu não respeito delator.

João Santana afirmou em depoimento a Sérgio Moro, quinta-feira, ter omitido o caixa dois ao ser preso pela Polícia Federal para não “destruir a presidente”, que enfrentava, na ocasião, o início do processo de impeachment. No depoimento, Santana e Mônica negaram saber se o dinheiro tinha como origem propina de contratos da Petrobras, o que foi admitido apenas pelo operador Zwi Skornicki, que representava o estaleiro Keppel Fels.

— Esse pagamento foi referente a uma dívida de campanha que o PT ficou devendo da campanha de 2010, da primeira campanha da presidente Dilma. Ficou uma dívida de quase R$ 10 milhões de reais, que não foi paga, foi protelada. Cobrei muito, eu fiquei com muitas dívidas. Depois de dois anos de luta conversei com o Vaccari (João Vaccari Neto, tesoureiro do PT), que era quem acertava comigo os pagamentos de campanha, e ele me mandou procurar um empresário que queria colaborar — disse Mônica.

Skornicki, porém, admitiu que o depósito feito a Santana era dinheiro de propina. Ele também prestou depoimento a Moro e confirmou ter pagado propina em todos os contratos firmados pela Keppel com a Petrobras. Skornicki, que fechou acordo de delação, contou que Mônica esteve em seu escritório indicada por Vaccari.

Em tese, a confissão de Santana não afeta diretamente o processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode levar à cassação da chapa Dilma-Temer porque o marqueteiro afirma que os recursos eram referentes à campanha de 2010, enquanto a Corte julgará a suposta prática dos crimes de abuso de poder político e econômico no pleito de 2014. As informações sobre os pagamentos feitos a Santana, porém, já tinham sido encaminhadas em junho pela Lava-Jato à corte, porque Zwi Skornicki afirmou que os recursos teriam relação com a campanha de 2014. Os repasses foram feitos entre setembro de 2013 e novembro de 2014. (Colaborou Eduardo Bresciani)

Ponto final - Opinião

- O Globo

A CONFISSÃO do marqueteiro João Santana, acompanhado da mulher, Mônica Moura, ao juiz Sérgio Moro de que recebeu mesmo dinheiro de caixa dois proveniente da campanha de 2010 de Dilma Rousseff parece um golpe fatal nos resquícios de esperança que a presidente afastada poderia ter de escapar do impeachment.

É CERTO que o assunto não consta das acusações do processo de impeachment em julgamento pelo Senado. Mas como a avaliação também será política, difícil imaginar que os senadores não levem em consideração que pelo menos o primeiro mandato de Dilma está manchado pela marca da corrupção. Ocorreu também na campanha do segundo mandato, cuja marquetagem igualmente foi de responsabilidade do casal Santana, segundo delações premiadas.

E O fato, de acordo com depoimentos de Santana e Mônica, de o dinheiro ter saído de contas no exterior de Zwi Skornicki, um dos operadores apanhados pela Lava-Jato, liga de vez a recatada Dilma ao escândalo do assalto lulopetista à Petrobras, empresa na qual ela presidiu durante muito tempo o Conselho Administrativo. Fechou-se o círculo

Para Moro, Lula deu em diálogo motivos para ser preso

• Interceptação revelou intenção do petista de obstruir investigações, afirma juiz

Renato Onofre - O Globo

SÃO PAULO - Em resposta aos advogados do ex-presidente Lula, o juiz Sérgio Moro não só contestou a afirmação de que deveria se colocar em suspeição nas investigações da Lava-Jato como afirmou que havia nas gravações feitas em março elementos suficientes para decretar a prisão temporária do petista, mas que optou por uma medida “menos gravosa”, a condução coercitiva. Defensores de Lula criticaram interceptação telefônica, obtida, segundo eles, de forma ilegal e usada de maneira parcial.

“Rigorosamente, a interceptação revelou uma série de diálogos do ex-presidente nos quais há indicação, em cognição sumária, de sua intenção de obstruir as investigações, como no exemplo citado, o que por si só poderia justificar, por ocasião da busca e apreensão, a prisão temporária dele, tendo sido optado, porém, pela medida menos gravosa da condução coercitiva”, afirmou o juiz, em seu despacho.

“Falta de seriedade”
No documento de 15 páginas protocolado ontem, Moro disse que não vai abrir mão do caso e que “falta seriedade” à argumentação de advogados de Lula.

“Não há nenhum fato objetivo que justifique a presente exceção, tratandose apenas de veículo impróprio para a irresignação da defesa do excipiente (Lula) contra as decisões do presente julgador e, em alguns tópicos, é até mesmo bem menos do que isso”.

Os advogados do petista afirmam que que Moro prejulgou Lula ao prestar informações ao Supremo Tribunal Federal sobre reclamação feita por eles. Ontem, os advogados voltaram a atacar Moro: “O juiz Sérgio Moro recusou-se a reconhecer que perdeu a imparcialidade para julgar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e apresentou sua defesa para futuro julgamento pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região. A defesa apresentada por Moro, todavia, apenas deixou ainda mais evidente a sua parcialidade em relação a Lula, pois a peça: (a) acusa; (b) nega, de forma inconsistente, as arbitrariedades praticadas; (c) faz indevidos juízos de valor; e, ainda, (d) distorce e ignora fatos relevantes”.

Moro diz que grampos poderiam justificar prisão de Lula

• Juiz da Lava Jato não abre mão das investigações sobre o ex-presidente e fulmina argumentos da defesa do petista que queria tirar o caso de suas mãos por meio de exceção de suspeição criminal

Fausto Macedo, Julia Affonso e Mateus Coutinho – O Estado de S. Paulo

Em despacho de quinze páginas, o juiz federal Sérgio Moro fulminou, um a um, os argumentos da defesa do ex-presidente Lula que pedia sua suspeição para continuar na condução das investigações sobre o petista. Moro decidiu, taxativamente, não abrir mão do caso e disse que ‘falta seriedade’ à argumentação da defesa.

O magistrado afirmou ainda que os grampos que pegaram o ex-presidente em março deste ano, na Operação Aletheia, poderiam justificar a prisão temporária de Lula, mas que na ocasião, acabou-se optando por ‘medida menos gravosa’, no caso, a condução coercitiva do petista.

As interceptações telefônicas mostraram um Lula irado com a Lava Jato.

“Não há nenhum fato objetivo que justifique a presente exceção, tratando-se apenas de veículo impróprio para a irresignação da defesa do excipiente (Lula) contra as decisões do presente julgador e, em alguns tópicos, é até mesmo bem menos do que isso. Rigorosamente, apesar do direito à ampla defesa, não se justifica o emprego da exceção de suspeição sem que haja mínimos fatos objetivos que a justifiquem.”

Lula é alvo da Operação Lava Jato. Os investigadores atribuem a ele a propriedade do sítio Santa Bárbara, em Atibaia, e do tríplex 164/A do Condomínio Solaris, no Guarujá – o petista nega ser dono dos imóveis.

Por decisão do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, a investigação sobre Lula voltou para as mãos de Moro, titular da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, base da Lava Jato.

Aliados de Lula temem que Moro poderá decretar a prisão do ex-presidente. Em março, dia 4, Lula foi conduzido coercitivamente pela Polícia Federal para prestar depoimento. Seus defensores querem tirar as investigações das mãos do juiz símbolo da Lava Jato.

Dilma diz que não autorizou caixa 2 em campanha; delações preocupam PT

Marina Dias, Gustavo Uribe – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A presidente afastada, Dilma Rousseff, afirmou nesta sexta-feira (22) que não autorizou pagamento de caixa dois durante suas campanhas eleitorais e que, se houve esse tipo de acerto, não foi com seu conhecimento.

"Não autorizei pagamento de caixa dois para ninguém. Se houve pagamento, não foi com o meu conhecimento", disse Dilma em entrevista para a rádio Jornal Commercio.

A declaração da petista aconteceu um dia após o publicitário João Santana e sua mulher, Mônica Moura, afirmarem em depoimento à Justiça que receberam dinheiro de caixa dois para fazer a campanha de Dilma em 2010. O total, segundo eles, chegou a US$ 4,5 milhões.

Os relatos de Santana e Mônica, assumindo a prática de caixa dois como recorrente em campanhas eleitorais, deixaram a cúpula do PT preocupada. Isso porque, presos há cinco meses em Curitiba pela Lava Jato, ambos negociam um acordo de delação premiada, para tentar atenuar suas penas.

Petistas acreditam que as delações em série podem estimular o ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto a também colaborar com a Justiça. Ele tem sido pressionado por familiares a contar o que sabe.

A mulher de João Santana, que cuidava das finanças do casal, disse que, após a campanha de Dilma em 2010, o PT não pagou tudo o que devia e protelava uma dívida de R$ 10 milhões.

Mônica afirmou que tentou resolver o caso "de várias formas" junto a Vaccari, que a orientou a procurar Zwi Skornicki, representante no Brasil do estaleiro asiático Keppel Fels, com negócios com a Petrobras.

Ficou acertado então que o débito seria saldado por Zwi em dez parcelas, em uma conta não declarada no exterior.

Na entrevista nesta sexta, Dilma, por sua vez, disse que as declarações do publicitário e de sua mulher não a preocupam mas, nos bastidores, aliados temem repercussões negativas diante do já bastante difícil cenário para tentar reverter o impeachment no Senado.

Paulo Bernardo agiu como 'operador' de Gleisi na Lava Jato, diz Procuradoria

Márcio Falcão – Folha S. Paulo

BRASÍLIA - A Procuradoria-Geral da República afirmou ao STF (Supremo Tribunal Federal) que o ex-ministro Paulo Bernardo agiu como o "verdadeiro operador" da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), sua mulher, na Lava Jato.

A afirmação consta no pedido da Procuradoria para que o tribunal receba denúncia contra o casal e o empresário Ernesto Kugler Rodrigues, abrindo uma ação penal pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

A acusação é que a campanha de Gleisi ao Senado, em 2010, teria recebido R$ 1 milhão do esquema de corrupção da Petrobras.

O parecer assinado pela procuradora-geral da República em exercício, Ela Wiecko, afirma que Paulo Bernardo foi responsável por solicitar a propina para a campanha.

"O desempenho dessa função por Paulo Bernardo, como um verdadeiro operador de sua esposa –inclusive valendo-se da importância do ministério então por ele ocupado–, exatamente como dito por Paulo Roberto Costa [ex-diretor da Petrobras] e Alberto Youssef [doleiro], que o apontaram como solicitante da vantagem indevida em favor da codenunciada Gleisi", diz o texto.

Segundo Wiecko, "a denúncia aponta elementos concretos em relação à lavagem de dinheiro da propina repassada à Gleisi, com atuação de Paulo Bernardo e Ernesto Kugler".

Na manifestação, a Procuradoria reafirma que, entre julho de 2010 e outubro de 2010, "terminais vinculados a Paulo Bernardo realizaram 163 ligações para o telefone de Ronaldo Baltazar responsável pela administração financeira da campanha de Gleisi ao Senado em 2010, e 82 ligações para o PT no Paraná".

A acusação da Procuradoria leva em consideração a delação premiada do advogado Antonio Carlos Brasil Fioravante Pieruccin, que confirmou repasses de dinheiro para a campanha da petista.

Crise afasta parlamentares das eleições para prefeito

• Congresso. Número de deputados e senadores que vão concorrer em 2016 deve ser menor do que em anos anteriores; motivos são fim das doações empresariais e escândalos

Ricardo Brito, Julia Lindner - O Estado de S. Paulo

/ BRASÍLIA, - A maior crise política pela qual passou o Congresso desde a Constituinte de 1988 – aliada ao fim do financiamento das campanhas por empresas – terá efeito direto nas eleições municipais. O número de parlamentares que se lança candidato a prefeito e vice-prefeito este ano deverá cair em, pelo menos, 25% em relação a disputas anteriores.

Levantamento preliminar feito pelo Estado com lideranças e comandos partidários indica que 68 deputados federais de 20 partidos deverão concorrer em outubro. Nessa conta, que representa um universo de 476 dos 513 deputados, estão inclusas as maiores bancadas da Câmara. PSDB e PMDB, campeões em candidaturas na eleição municipal passada, com 13 cada um, devem lançar nove cada desta vez. O PT, que indicou 12 candidatos anteriormente, tende a ter sete candidatos. Somente sete partidos, pequenos e nanicos, não responderam aos contatos da reportagem.

Campanha começa com força de siglas menores

Coluna do Estadão – O Estado de S. Paulo

As primeiras convenções municipais se realizam neste fim de semana por todo o País e deflagram o início de uma campanha que pode mudar o perfil da política nacional. A pulverização partidária segue se impondo e legendas menos tradicionais podem surpreender.

A campanha apenas começou, mas o PRB lidera as pesquisas em São Paulo, com Celso Russomanno, e surge forte no Rio, com Marcello Crivella. Já o PSOL lidera em Porto Alegre, com Luciana Genro, e vai bem no Rio e São Paulo, com Marcelo Freixo e Luiza Erundina.

Candidatos travam disputa por apoio no Rio

• Crivella busca tirar PDT da chapa do PMDB, e Indio investe no PP; PSDB e PSC oficializam candidatos hoje

Fernanda Krakovics e Marco Grillo - O Globo

Na reta final para a definição das candidaturas, os partidos aceleraram a busca por alianças na disputa pela prefeitura do Rio. Legendas que prometeram apoio, mas ainda não formalizaram a entrada na ampla coligação do PMDB — a conta hoje está em 16 siglas —, vêm sendo procuradas por adversários do candidato peemedebista, o deputado federal Pedro Paulo. O senador Marcelo Crivella (PRB) almoçou ontem com o presidente do PDT, Carlos Lupi, que negocia a indicação do vice na chapa do PMDB. Já o deputado federal Indio da Costa (PSD) reuniu-se no Palácio Guanabara com o governador em exercício, Francisco Dornelles (PP), aliado dos peemedebistas nas administrações estadual e municipal. O PSB, por sua vez, tornou-se alvo de quatro partidos, após a desistência do senador Romário.

Hoje, serão oficializadas as candidaturas dos deputados estaduais Carlos Osorio (PSDB) e Flávio Bolsonaro (PSC). O PT deve indicar Edson Santos, ex-ministro da Igualdade Racial no governo Lula, para vice da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), cuja candidatura será confirmada amanhã.

Após o encontro com Lupi, Crivella disse que tem o “maior interesse” em receber o apoio do partido.

— O PDT tem bandeiras históricas, como a da habitação, que o meu partido também defende. Estou procurando apoios. Sobre as possibilidades, tem que falar com eles (PDT). Estou indo de partido em partido — disse Crivella.

Após a reunião, o presidente do PDT rechaçou a hipótese de abandonar a coligação com o PMDB.

— Temos um compromisso assumido. A gente tem palavra — disse.

O PDT definirá na segunda-feira o vice de Pedro Paulo. Os peemedebistas querem o deputado estadual e ex-jogador de futebol Bebeto. Mas o PDT tenta convencê-los a aceitar a professora Maria Amelia Reis, ex-auxiliar de Darcy Ribeiro no programa dos Cieps. Ontem, Pedro Paulo recebeu o apoio do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O DEM havia ratificado durante a semana, em convenção, a decisão de apoiar o PMDB.

Outro que saiu ontem em busca de alianças foi o pré-candidato do PSD, o deputado federal Indio da Costa. Ele foi recebido por Dornelles, presidente regional do PP. A movimentação causou irritação no PMDB. O governador telefonou já de manhã para o prefeito Eduardo Paes para dizer que receberia Indio como deputado federal e que não considerava a possibilidade de mudar de lado. Após o encontro, o pré-candidato do PSD disse que, além de pedir o apoio, foi manifestar solidariedade a Dornelles em razão da situação “caótica” encontrada por ele nas finanças do estado.

Apoio do PSB é cobiçado
Depois da desistência de Romário, o PSB já conversou com Osorio, Indio e com o pré-candidato da Rede, o deputado federal Alessandro Molon. Na segunda-feira, dirigentes têm encontro marcado com Crivella. O presidente do partido, Carlos Siqueira, reafirmou ontem que o partido não estabeleceu uma prioridade e que as negociações estão abertas. O deputado federal Hugo Leal, que deve assumir a presidência estadual do PSB, disse que o partido está avaliando não só o cenário eleitoral na capital, mas também negociando o apoio a seus candidatos em outros municípios do estado, como Niterói, além de levar em conta alianças nacionais. — Temos que ver o que agrega mais — afirmou. Esta semana também foi confirmada a candidatura do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Pelo menos sete candidatos devem disputar a prefeitura do Rio neste ano. Em 2012, foram oito.

De cabeça a vice

- Jornal Extra

• Cerca de um mês depois de lançar sua pré-candidatura à Prefeitura do Rio pelo nanico PRP, Rodrigo Amorim vai anunciar que mudou de ideia.

• O jovem cedeu aos intensos assédios e aceitou o convite para ser vice na chapa de Carlos Osório (PSDB).

• Os presidentes dos diretórios estadual e municipal do PSDB, Otávio Leite e Luiz Paulo, aprovaram a aliança.

• A turma aguarda Aécio Neves bater o martelo

MP do Rio pede acesso a dados da Lava-Jato para 15 investigações

• Promotores querem saber se o esquema de propina ocorreu em obras e contratos dos governo municipal e estadual do Rio

Renato Onofre – O Globo

SÃO PAULO - O Ministério Público do Rio de Janeiro pediu ao juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, acesso a documentos da Operação Lava-Jato. Os promotores querem usar os dados obtidos pela Polícia Federal durante as 32 fases da investigação para instruir 15 procedimentos instaurados no Rio que apuram supostas irregularidades em contratos assinados pelos governos estadual e municipal.

Um dos focos das investigações do MP do Rio é a renovação dos contratos da Supervia. A empresa, que administra a malha ferroviária da região metropolitana, é controlada pela Odebrecht Mobilidade, um dos braços da construtora. Em 2010, no final do primeiro mandato do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB), o estado renovou a concessão 13 anos antes do fim do contrato ainda em vigor. A antecipação do negócio chamou a atenção dos investigadores.

Neste caso, os promotores pedem acesso a dados da 23ª e 26ª fase da Lava-Jato, ambas tiveram como alvo o esquema de pagamentos de propina da Odebrecht. Eles querem saber se há relação do esquema com a renovação do contrato. Em março, o GLOBO mostrou que uma das planilhas encontradas com o executivo da empresa Benedicto Júnior revelava que Cabral pode ter sido um dos políticos beneficiados pela empreiteira.

O nome de Cabral aparece na lista associado ao codinome "Próximus". Ao lado do nome do ex-governador segue o número "500". Em outra planilha encontrada pelo investigadores na 26ª fase, batizada de "Xepa", a PF encontrou o mesmo apelido como destinatário de quatro parcelas no valor de R$ 500 mil, cada uma. Na época, assessoria do ex-governador informou que “todas as contribuições das campanhas eleitorais do ex-governador foram de acordo com o que estabelece a lei”.

O MP do Rio quer também dados relativos a obras do Parque Olímpico. Eles pediram a Moro dados relativos ao prefeito carioca Eduardo Paes e as construtoras Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Correa, Carvalho Hosken e Concremat, que foram o consórcio que fez as obras.

No documento encaminhado ao juiz, os promotores Liana Barros Sant'Ana, Flávio Bonazza de Assis, Alberto Flores Camargo e André Luiz Passos da Costa afirmam que a documentação pedida pode trazer provas materiais às investigações em curso.

Um golpe chegou - Cristovam Buarque

• Democracia brasileira caminha a passos trôpegos

- O Globo

Os golpes não nascem nas cabeças maquiavélicas dos candidatos a ditadores, mas nas pernas trôpegas de governantes democratas que não cumprem os compromissos assumidos nas eleições. Quando a democracia não atende às aspirações da nação e do povo, seus governantes cansam, e os golpistas se apresentam como alternativa.

Há décadas a democracia brasileira caminha a passos trôpegos, deixando aberta a necessidade de diversos golpes: contra corrupção, irresponsabilidade fiscal, aparelhamento do Estado pelo partido no poder, concentração de renda, causas da violência urbana, ineficiência e baixa produtividade da economia, sobretudo contra a deseducação geral de nossa população.

Só não necessitamos de golpes políticos contra a ordem democrática. Se estes necessários golpes sociais continuarem ausentes da prática política, será uma questão de tempo para a realidade fazer o golpe político que não desejamos. Se isto acontecer, duas causas serão identificadas: a resistência a pensar e o dogmatismo de colocar siglas, interesses pessoais e preconceitos ideológicos à frente dos interesses do Brasil.

Domingo, 3 de julho, esperava um voo, em Porto Seguro (BA), para voltar a Brasília, quando uma senhora aproximouse e perguntou: “O senhor é o senador Cristovam?”. Respondi que sim, estendendo-lhe a mão que ela recusou, dizendo “Não aperto a mão de golpista.”.

Perguntei como ela sabia qual será o meu voto se, como um dos juízes do impeachment, só decidirei ao fim do processo, depois de analisar todos os argumentos favoráveis e contrários, buscando qual a decisão menos comprometedora para o futuro do Brasil: cassar outra vez o mandato de presidente por crime de responsabilidade ou manter um mandato sem credibilidade nem rumo. Aquela senhora me respondeu com toda a convicção: “Dúvida é golpe. Se o senhor ainda não decidiu, é golpista”. Ou seja, refletir, pensar, julgar são atos golpistas.

Por formas diferentes, esse comportamento vem sendo comum há anos na sectária política brasileira. Não há espaço para dúvida e reflexão; nem simpatia para ouvir ideias divergentes. O golpe chegou derrubando o pensamento.

O julgamento do impeachment ao longo do prazo previsto pela Constituição seria apenas pró-forma: a decisão já deve estar tomada. De um lado, conforme a simpatia pela presidente, sem considerar seu governo, nem os crimes que por ventura tenha cometido; de outro, pelos que não querem a presidente, o impeachment deve ser definido logo, independentemente de ela ter ou não cometido crimes de responsabilidade.

A busca do melhor futuro para o Brasil está fora do “debate” entre as torcidas. Neste jogo, todos perdem a oportunidade de uma grande e coletiva reflexão sobre o que está acontecendo com o nosso país e o futuro que nos aguarda.

O processo de impeachment chegou golpeando o pensamento. Prova é que, ao ver o título deste artigo, a maioria provavelmente já tomou posição contra ou a favor, antes mesmo de ler o conteúdo.

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Cristovam Buarque é senador (PPS-DF)

Sábios e sabidos - Ana Maria Machado

• Quem acredita em qualquer coisa que lhe dizem, é porque não tem informação. Na hora das eleições, elege qualquer um

- O Globo

Dinheiro falso. Era esse o assunto no telejornal. Quadrilhas desenvolveram maneiras sofisticadas de falsificar notas de real, e métodos elaborados de distribuí-las, usando a internet. A reportagem mostrava que é possível fazer contato on-line com os falsificadores, encomendar dois mil reais mediante comprovação de depósito de R$ 250 em determinada conta, e receber o produto em casa pelo correio. Delivery express, como pizzarias gostam de anunciar. Não deveria ser espantoso ver uma coisa dessas num país onde grassam as mais diversas formas de larapio, a começar pelos mais altos escalões da nação. Mas mesmo assim surpreende. E sempre é possível alegar que, como no tradicional conto do vigário, a vítima queria ser sabida demais e também passar a perna nos outros, já que alguém alfabetizado e usuário da internet não cairia num golpe desses se não tivesse objetivos inconfessáveis.

Em seguida, outro caso. Este sem mediações digitais. Entrevistam uma aposentada moradora da periferia, que a duras penas conseguiu juntar R$ 900 para uma pequena obra doméstica. Ela conta que foi procurada em casa por um sujeito bem falante e respeitoso, que lhe disse vir em nome do banco para trocar seu dinheiro, pois em breve o que guardava não valeria mais, já que o governo está substituindo todas as notas, para mudar sua numeração. Mostrou-lhe que as cédulas têm números impressos, exibindo-lhe notas novas com números diferentes. Ela entregou suas economias. Quando descobriu o erro, já não tinha como consertar. Perda total.

Quem acredita em qualquer coisa que lhe dizem, a ponto de cair em golpes primários desse tipo, é porque não tem informação. Vai atrás de qualquer conversa. E, na hora das eleições, elege qualquer um — como o país constatou de forma chocante, ao ouvir um por um de seus representantes durante a cobertura ao vivo da votação na Câmara de Deputados sobre a admissibilidade do impeachment. De uma presidente legitimamente eleita pela maioria dos votos válidos. E ainda se descobriu que essa Câmara podia ser presidida por um Waldir Maranhão, legitimamente eleito. Substituto de um Eduardo Cunha, legitimamente eleito.

Mas não temos campanha eleitoral que deveria justamente fazer com que os candidatos ficassem conhecidos? Ajudar os eleitores a saber mais e se preparar para o voto, dar-lhes informação? E uma mídia livre, atenta e atuante, despejando notícias 24 horas por dia? E não estamos reduzindo os índices de analfabetismo?

É claro que parte da responsabilidade está no sistema eleitoral e seus mecanismos, propícios à mentira e ao engodo, com marqueteiros milionários, proteção a partidos de aluguel, coligações esquisitas, campanhas em que nada sério é discutido, e votos proporcionais distorcidos — em que o eleitor vota em um candidato e elege outro, enquanto deixa de eleger quem teve mais votos. Daí a importância da reforma nessa área, pela qual a democracia clama.

Há, sim, os eleitores metidos a sabidos, que querem se dar bem e vendem o voto por uma suposta benesse (como os que compraram dinheiro falso pela internet). E há os crédulos e desinformados, acreditando no que lhes diz o vizinho, o cabo eleitoral, o guru da hora, o miliciano, o “dono” da comunidade, ou o pastor de uma das tantas igrejas que proliferam, isentas de impostos e ligadas a partidos políticos.

Mas há também, e com relevo, o efeito de uma educação deficiente, incapaz de provocar comparações e reflexões, desenvolver o espírito científico e a capacidade de análise crítica baseada na observação da realidade. Seja por insistir em fórmulas prontas a que o aluno deve aderir, seja por deficiências na formação do professor. A imposição do conformismo acaba perpetuando crenças incompatíveis com a racionalidade, ainda mais deletérias quando se somam à certeza absoluta, vinda da ilusão do conhecimento. Exemplos disso estão na tentativa de impor dogmas e interditos religiosos e políticos. E em teorias constrangedoras como a externada recentemente por sábia filósofa, de respeitada universidade, que leva a negação do real ao ponto de afirmar que não houve corrupção sistemática e institucionalizada na Petrobras, mas apenas o juiz Sérgio Moro foi treinado pelo FBI para a Lava-Jato, com o fim de desestabilizar o país e entregar o pré-sal aos EUA. Ou para cumprir os desígnios do Ocidente e ocupar nosso mercado, apoiou outro sábio, doutor pela mesma universidade.

Precisamos de mais abertura para a realidade, mais exame dos fatos. Para aprender. Palmas para a bem-humorada Fernanda Torres, que anuncia um programa chamado “Minha estupidez”, focalizando temas e ângulos em que se sente ignorante. Recente estudo do historiador Yuval Harari, “Sapiens”, sustenta que o reconhecimento da própria ignorância foi que propiciou a revolução científica da modernidade, ao rejeitar dogmas e ideias prontas. Atitude que foge da arrogância e se aproxima da máxima socrática que há séculos ensina: “Só sei que nada sei". Caminho da sabedoria.
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Ana Maria Machado é escritora

Acabou o dinheiro - João Domingos

- O Estado de S. Paulo

Tanto caixa 2 fizeram candidatos, partidos e doadores nas eleições passadas, tantos escândalos causaram, que o financiamento de campanhas políticas por empresas não corre mais o risco de voltar. “E se voltar, ninguém mais vai querer doar. Os empresários já estão dizendo isso. Para eles, acabou. Doar dinheiro para campanhas políticas no Brasil tornou-se uma atividade perigosa”, alerta o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Até há um tempo não era. Mas se tornou. Tanto é que boa parte dos dirigentes empresariais e de partidos políticos do País ou está na cadeia ou usa tornozeleira eletrônica. João Santana, o marqueteiro de uma campanha de Lula e de duas de Dilma Rousseff, todas vitoriosas, acaba de confessar ao juiz Sérgio Moro que parte de seus ganhos veio do caixa 2, e que mentiu anteriormente sobre a origem do dinheiro porque, tendo ajudado a eleger Dilma, não queria destruí-la.

Relator da última e frustrada reforma política, Maia é defensor do financiamento privado de campanha. Mas ele se diz pé no chão. Sabe que não tem volta. “O jeito é tentar aprender com o caos que se transformará a eleição municipal deste ano, sem a doação de pessoas jurídicas, e verificar o que pode ser melhor adaptado ao financiamento público.”

Na terça-feira, Maia e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), jantaram com o presidente em exercício Michel Temer. A ideia era fazer um pacto de colaboração entre Executivo e Legislativo, de forma que a proposta de interesse do governo que for aprovada por uma das Casas deverá ser apreciada logo pela outra. Uma forma de ganhar tempo.

Mas não houve jeito. As consequências da Operação Lava Jato na política logo entraram na conversa. Renan disse que era preciso fazer uma reforma política para a eleição presidencial de 2022. Maia rebateu. Afirmou que algo precisa ser preparado já para 2018, para a sucessão presidencial. O presidente interino concordou. Fazer o quê?

Os três concluíram que o atual sistema político e eleitoral está condenado pela sociedade. O eleitor hoje rejeita as campanhas caríssimas que acabam por levar ao caixa 2. Falaram sobre o fim das coligações para as eleições proporcionais e a instituição da cláusula de desempenho de voto para que um partido possa existir e ter representação no Congresso. É um remendo, concluíram, um remendo apenas.

Sem uma saída à vista, os três ficaram de chamar os presidentes de todos os partidos para dar início à busca de uma solução para a questão partidária e eleitoral.

A princípio, não há como fugir do financiamento público de campanha, visto que o financiamento de pessoa jurídica está proibido.

A questão é criar as regras para que esse tipo de financiamento seja regulamentado, além de um enorme trabalho de publicidade para convencer o cidadão de que, a partir de agora, ele é que vai financiar as campanhas eleitorais por intermédio do imposto que paga. Não será fácil, principalmente no momento, com o País tão quebrado.

Com o financiamento público das campanhas, é bom esquecer o voto aberto, como é hoje, em que o eleitor vota no candidato de sua preferência e não no partido. É excessivamente caro.

Pelas fórmulas conhecidas no mundo, restariam o sistema distrital, em que cada Estado é dividido em distritos, o distrital misto, com votos em distritos e em todo o Estado, e o voto numa lista fechada, estabelecida pelo partido.

De todos os três sistemas, o mais barato é o voto em lista, pois não exige propaganda dos candidatos, mas dos partidos. Será uma novidade e tanto. Mas talvez a única a se enquadrar dentro das possibilidades oferecidas pelo financiamento público.

Santana e Mônica Moura dão empurrão para impeachment de Dilma - Leandro Colon

- Folha de S. Paulo

"Não autorizei pagamento de caixa 2 a ninguém. Se houve pagamento, não foi com o meu conhecimento", reagiu Dilma Rousseff à confissão do marqueteiro João Santana de que recebeu por debaixo do pano US$ 4,5 milhões da campanha dela de 2010.

A presidente afastada recorre a poucos caracteres para adotar a estratégia lulista de defesa: a falcatrua pode até ter ocorrido, mas se de fato ocorreu, foi sem a ciência do seu maior beneficiário — no caso, a própria Dilma, eleita presidente e sucessora de Lula naquele ano.

No depoimento ao juiz Sérgio Moro na quinta (21), Mônica Moura, mulher de João Santana, contou que inventou, na ocasião da prisão do casal, a versão de que recebera os US$ 4,5 milhões como um pagamento de uma campanha feita no exterior.

Alegou que escondeu a informação de que era caixa 2 da campanha de Dilma para não incriminar a petista em meio ao processo político em curso contra ela. "As coisas que estavam acontecendo em torno da presidente Dilma, não preciso falar sobre isso, todos sabem", disse. "Eu queria apenas poupar de piorar a situação do que estava acontecendo naquele momento", ressaltou Mônica.

O casal foi preso no dia 23 de fevereiro. Na época, o debate sobre o impeachment circulava — novamente — sob temperatura morna, num certo estado de dormência no Congresso.

Aquela mentira contada por Mônica Moura aos investigadores pode ter ajudado de alguma maneira a adiar a saída temporária de Dilma, mas a revelação agora do caixa 2, mesmo que tardia, enfraquece uma presidente afastada, abandonada por aliados, e vivendo dias de isolamento no Alvorada.

A pouco mais de um mês do julgamento do impeachment no Senado, João Santana e Mônica Moura contribuem politicamente para tornar ainda mais remota a chance de retorno ao Palácio do Planalto da cliente que ajudaram, por duas vezes, a ser eleita presidente da República.

- O Globo Propina no caixa dois - Merval Pereira

Há um erro fundamental em tratar o pagamento do marqueteiro João Santana como mais um caso de caixa dois de campanha eleitoral. O engenheiro Zwi Skornicki, representante do consórcio Fels Setal/Technip que vendia plataformas para a Petrobras, pagou US$ 4,5 milhões em parcelas a Santana a pedido do tesoureiro João Vaccari, para quitar uma dívida do PT da campanha presidencial de 2010, que elegeu pela primeira vez Dilma Rousseff.

Ninguém recebe dinheiro por fora em uma conta no exterior de uma pessoa que não conhece, muito menos quem, no caso de João Santana, era um dos principais artífices do projeto político que estava no poder.

Caixa dois também foi a desculpa dada por Lula quando, em 2005, o esquema do mensalão foi descoberto. Há uma antiga piada política que diz que o candidato honesto usa o dinheiro de caixa dois para fazer a campanha eleitoral, e os desonestos embolsam o dinheiro. Mas o que diferencia o esquema tradicional de caixa dois do mensalão e do petrolão é que o dinheiro era desviado de obras das empresas estatais controladas pelo PT, e declarado pelas empresas como doações legais, declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Uma “tecnologia” criada pelo PT que desafia as autoridades dos órgãos de controle e da própria Justiça. Nesse caso, há um novo tipo de falcatrua: João Santana recebeu propina pelo caixa dois. Ele tem razão ao declarar ao juiz Sérgio Moro que “o marketing eleitoral não cria corrupção, não corrompe, e não cobra propina”. Mas não há como negar que o papel de Santana nos governos petistas, a partir da eleição presidencial de 2006, era muito mais central do que a simples orientação marqueteira nas campanhas.

Ele comandava os pronunciamentos públicos dos presidentes Lula e Dilma e orientava a ação governamental, garantindo a popularidade dos presidentes que ajudara a eleger. Ele entrou no esquema petista substituindo outro marqueteiro, Duda Mendonça, que também foi pago pelo PT com dinheiro no exterior, esse, sim, caracteristicamente um pagamento em caixa dois saído de contas secretas do PT.

A confissão de Duda foi dos pontos mais dramáticos do escândalo do mensalão, e provocou choros de petistas na tribuna da Câmara. Vários deles depois deixaram o partido para fundar o PSOL. Portanto, não é crível que João Santana não soubesse onde estava pisando quando assumiu as tarefas de criar a imagem e as mensagens do segundo governo Lula e dos dois mandatos de Dilma.

Assim como não se pode levar em consideração a afirmação da presidente afastada, Dilma Rousseff, de que não autorizou nenhum pagamento de caixa dois em suas campanhas, e que, se foi feito, não foi de seu conhecimento. Não é de hoje que Dilma afirma não saber de nada do que acontece de errado em seu entorno, o que deixa apenas duas opções: ou é uma irresponsável que não controla os que trabalham com ela, ou está mentindo.

Desde que era ministra de Minas e Energia, comandando o Conselho de Administração da Petrobras, coisas erradas acontecem à sua volta sem que ela tenha tomado providências, desde a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, passando pelos escândalos de corrupção na Petrobras, terminando nas denúncias de financiamentos com dinheiro desviado das estatais, sobretudo da Petrobras.

Mas o problema do pagamento de João Santana, que construiu a imagem de Dilma e agora a destruiu com as revelações de pagamentos irregulares, não terminou nessa admissão de culpa. Há um outro processo em que a empreiteira Odebrecht é acusada de ter pagado, por ordem do PT, parte da campanha presidencial de 2014 ao marqueteiro em uma conta na Suíça.

Santana e sua mulher, Mônica Moura, estão negociando com os procuradores da Lava-Jato delação premiada específica sobre esse caso, que vai reafirmar a repetição dos procedimentos irregulares. Difícil acreditar que, mais uma vez, Dilma não soubesse de nada, e que Santana achasse que se tratava apenas de caixa dois.

Olimpíada, um fracasso anunciado - Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

O futuro é incerto? Eu apostaria que sim. O demônio de Laplace, isto é, a ideia de que um intelecto superpoderoso que conhecesse as leis da física e as posições atuais de todos os átomos do Universo saberia automaticamente o passado e o futuro de tudo, perdeu popularidade do século 19 para cá.

Não apenas não nos é possível na prática reunir tamanho conhecimento como, diante do inegável sucesso da mecânica quântica, há motivos para acreditar num Universo menos determinista, que traz algum grau de incerteza inscrito em seu âmago.

Apesar desses problemas intratáveis, há situações em que é relativamente fácil prever o futuro. A percepção de que a Rio-2016 se revelaria um péssimo investimento entra nessa categoria. Em 2009 escrevi a coluna "Pesadelo olímpico", na qual antecipava algumas das encrencas fiscais agora evidentes. Dois anos antes, por ocasião do Pan, já anunciava, no texto "Entregando o ouro", meu receio pelo buraco financeiro que contrataríamos caso o Rio viesse a ser escolhido para sediar os Jogos.

Obviamente, não tenho parte com o demônio de Laplace. Minhas previsões eram fáceis por uma razão bastante simples: no agregado, pessoas e governos se comportam de modo muito semelhante. A esmagadora maioria das cidades que hospedaram uma Olimpíada, quando fizeram as contas na ponta do lápis, constataram que haviam feito um péssimo negócio. A tendência é tão saliente que os economistas já haviam até cunhado a expressão "maldição olímpica" para designar o fenômeno. E, se nem países desenvolvidos se deram bem nesse jogo, no caso do Brasil o sensato a fazer era multiplicar por "n" o tamanho do prejuízo.

Há aí uma lição para a vida. Nunca confie em projeções interessadas e nem mesmo em como sua imaginação pinta o futuro. Se você quer um guia um pouco menos incerto, verifique como se encontram aqueles que já passaram pela situação.

O tamanho da paradeira - Celso Ming

- O Estado de S. Paulo

A ociosidade da indústria atingiu no primeiro semestre seu nível recorde e daqui para frente deve diminuir. É o que conclui um estudo da Confederação Nacional da Indústria – CNI. (O gráfico mostra como o setor foi perdendo capacidade de utilização.)

Primeiramente, os conceitos. Toda fábrica detém certa capacidade de produção. É o que consegue produzir com a utilização de todas as suas máquinas, equipamentos e instalações, já deduzidas as paradas para reparos e revisões.

A ociosidade é determinada por vários fatores: aumento da concorrência, importações e, especialmente, por queda da demanda por seus produtos. E começou a acontecer no Brasil desde o último trimestre de 2013.

Quanto maior a ociosidade de uma unidade de produção, maiores os prejuízos (ou as perdas de renda), especialmente se vierem acompanhadas de acumulação de estoques. Máquina parada é faturamento que deixa de acontecer. Mas não é só isso. Toda indústria tem custos fixos que acontecem independentemente do nível de produção, como aluguéis, despesas com mão de obra, custos com dívidas, compromissos com acionistas e fornecedores, etc. Se o faturamento cai em consequência da baixa utilização de capacidade, aumentam os custos fixos por unidade produzida. Também crescem despesas de capital de giro em caso de encalhe de produto acabado (estoques).

As consequências não terminam aí. Indústria com grande capacidade ociosa contamina outras. Se está semiparalisada, uma confecção deixará de fazer encomendas de tecidos, aviamentos e outros materiais. Também procurará dispensar mão de obra, o que contribuirá para aumento do desemprego e adiará investimentos (veja gráfico noConfira). Em outras palavras, a baixa utilização de capacidade tende a espraiar-se pela economia. Os levantamentos da CNI verificam como a ociosidade da indústria evoluiu setor por setor. Começou com a produção de bens de maior valor (veículos, máquinas, informática, etc.) e se espalhou para os demais.

Em geral, problemas desse tipo quando disseminados não acontecem apenas por falha na administração dos negócios, embora esse fator possa agravá-los. Têm como causa distorções macroeconômicas, como crise global ou mudança de ciclo. Mas esta crise por aqui, que começou um tanto bruscamente com a queda da demanda por ocasião da Copa do Mundo de 2014, tem mais a ver com graves erros de política econômica durante o primeiro período Dilma, os mesmos que produziram os rombos nunca vistos nas contas públicas e o estouro da inflação. À medida que o ajuste se firmar e que a confiança aumentar, também se espera a recuperação da indústria.

A CNI identifica agora uma certa estabilização dos níveis de capacidade ociosa em 36%, que, associada ao aumento da confiança do empresário, sugere retomada gradual da utilização da capacidade instalada. Primeiro, caem os estoques e, em seguida, o ritmo da produção tende a aumentar.

Mudança de sinais - Míriam Leitão

- O Globo

Uma pesquisa feita no setor de eletrônicos mostrou que 42% dos associados esperam aumento das vendas neste segundo semestre, percentual maior do que os 33% que esperam queda. A confiança na indústria subiu pelo quinto mês. Os sinais de mudança de humor, como temos dito, estão espalhados pelo mercado e pela economia real. Mas ainda são frágeis e dependentes do quadro político.

A sondagem foi feita pela Abinee (Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica) em junho, mas ainda não havia sido divulgada. Além desse sinal positivo, houve desaceleração nas demissões do setor em maio, que caíram ao menor nível desde fevereiro de 2015, segundo a entidade.

— Há muito tempo não víamos indicações de vendas superarem as de queda em nossas sondagens. Esta semana ouvi de um empresário que ele já está com crescimento das encomendas. A melhora de ânimo que se vê no mercado financeiro pode estar começando a chegar na economia real —afirmou Humberto Barbato, presidente da Abinee.

Na visão do executivo, a partir de setembro será possível medir a intensidade desse processo, porque nesse mês a indústria começará a receber os pedidos para o Natal. Ele avalia que a interinidade do governo Temer é um impeditivo para a volta mais forte da confiança porque a incerteza continua elevada. Além disso, ainda não houve a aprovação de nenhuma reforma relevante no Congresso.

— Mesmo com a melhora da confiança, ninguém vai tirar da gaveta projetos de investimento em um governo interino — afirmou.

No setor de papelão ondulado, que é considerado um termômetro do nível de atividade, o mês de junho apontou alta de 3% sobre o mesmo mês de 2015, e tudo indica uma nova alta em julho, segundo Sergio Ribas, diretor da ABPO. Mas ele ressalta que a base de comparação é muito fraca e não está claro se esses números são uma nova tendência. Ele também avalia que a interinidade do atual governo é um entrave para a recuperação.

— Tivemos dois meses estáveis, em abril e maio, crescimento em junho, e acredito que julho terá nova alta. Percebo que há uma vontade muito grande do empresário de que a recuperação dê certo. É muito importante que o governo deixe de ser interino e apresente propostas concretas. Se acontecer, acredito que a recuperação pode se intensificar — disse Sérgio Ribas.

Outro problema para a retomada, na visão da ABPO, é o medo do desemprego. O consumo vai demorar a reagir porque mesmo quem está empregado tem preocupação de perder a vaga. Com isso, evita as compras e os financiamentos. Além disso, avalia que as empresas estão com muita ociosidade e vão tentar aumentar a produção com as equipes mais enxutas.

— O desemprego não vai cair na mesma intensidade que subiu, e isso vai afetar o consumo, e consequentemente, os investimentos — disse Ribas.

O setor de máquinas continua sofrendo muito com os juros elevados, a pouca confiança para os investimentos e, agora, a valorização do real. O presidente da Abimaq, José Velloso, acha que o governo Temer está emitindo sinais ambíguos na questão fiscal e isso está impedindo a redução dos juros, como ficou claro na decisão do Copom deste semana.

— O governo está aceitando dar aumento de salários para vários grupos. Quanto mais tempo demorar para equilibrar o Orçamento, mais tempo levará para derrubar a Selic. Meu setor está sem capital de giro e asfixiado pelas taxas de financiamento — disse.

Os três executivos ouvidos pela coluna temem que o BC utilize a valorização do real no combate à inflação. Isso tiraria a competitividade dos exportadores e aumentaria a presença dos importados.

— Já há empresas levando prejuízo porque exportaram com câmbio em R$ 3,60 e agora a taxa voltou para R$ 3,25. Uma forma de crescer na crise é tentar substituir as importações. Meu setor já perdeu mais 80 mil postos de trabalho em quatro anos. Com esse câmbio e esses juros, não vai se recuperar — explicou Velloso.

Há as reclamações de sempre dos empresários, e as preocupações novas. Os sinais de melhora precisam se consolidar. A confiança está voltando, mas com um pé atrás.

A volta da política – Editorial / O Estado de S. Paulo

Pretende-se que o jantar realizado na terça-feira passada entre o presidente em exercício Michel Temer e os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Rodrigo Maia, represente a volta da política como protagonista da cena nacional. O gesto mostraria a disposição de alcançar o quanto antes o entendimento necessário para debater e aprovar as medidas de que o País tanto necessita para superar essa infausta quadra de sua história. Espera-se que este seja o primeiro sinal de que a prática política tenha começado a deixar para trás o caráter de mera ferramenta de assalto ao Estado para enriquecer gatunos e financiar projetos delirantes de poder.

Um encontro como o de Temer, Calheiros e Maia, no qual foi discutida uma agenda de amplo alcance, especialmente as medidas econômicas e as reformas previdenciária e trabalhista, seria impensável até pouco tempo atrás, quando a Presidência da República era ocupada por Dilma Rousseff e a Câmara era presidida pelo deputado Eduardo Cunha.

Prevenção e imagem – Editorial / Folha de S. Paulo

Diante da prisão de dez brasileiros suspeitos de planejar um ataque terrorista na Olimpíada do Rio, hesita-se entre os sentimentos do alívio e da desconfiança.

Sem dúvida, a ação da Polícia Federal dá mostras de que não eram vazias as declarações de que havia preocupação real com a segurança nos Jogos. Evidenciou-se, ao menos, a existência de um monitoramento eletrônico sobre eventuais simpatizantes do extremismo muçulmano.

Ao mesmo tempo, não se exclui a possibilidade de que a ofensiva das autoridades tenha se revestido de algum componente midiático.

De acordo com o relato oficial, havia indícios consideráveis a pesar contra alguns dos detidos —estratégias de ataque debatidas pela internet; celebração dos atentados em Nice e em Orlando; uso de pseudônimos; em pelo menos quatro casos, juramentos de lealdade ao Estado Islâmico.

Combate ao terrorismo não tem volta – Editorial / O Globo

• A mobilização dos organismos de segurança precisa ser mantida depois da Olimpíada, porque o perigo do terror é mesmo uma ameaça mundial e constante

Os ataques ontem na cidade de Munique, na Alemanha, confirmaram a existência de uma onda de terror no mundo, concentrada na Europa, alvo prioritário do sectarismo islâmico, junto com os Estados Unidos.

Mas eles não seriam necessários para justificar a acertada decisão do governo brasileiro de, na quinta-feira, cumprir 12 mandados de prisão temporária de brasileiros defensores do Estado Islâmico, segundo demonstram as mensagens trocadas entre eles e que vinham sendo monitoradas pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

A operação da Polícia Federal para fazer prisões em vários estados (Amazonas, Ceará, Paraíba, Goiás, Mato Grosso, Minas, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul), batizada de “Hashtag”, foi deflagrada, explicou o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, porque o grupo passou a planejar ações, com a compra de pelo menos um fuzil, no Paraguai, pela internet. Nisso ficou evidenciado o seu caráter amadorístico. Mesmo assim, o governo resolveu agir, e fez bem.

Um legado de Dilma – Editorial / O Estado de S. Paulo

A ironia é irresistível: como é que esse pessoal tem coragem de fazer isso com uma mulher honesta? Essa deve ser a pergunta que estão fazendo os estupefatos brasileiros que tomaram conhecimento da surpreendente revelação de que havia caixa 2 nas campanhas eleitorais de Dilma Rousseff. É inacreditável, porque Dilma, a honesta, e o PT não se cansam de repetir que todos os recursos financeiros que passam por suas campanhas eleitorais são “recebidos na forma da lei e registrados na Justiça Eleitoral”. Mas a fonte é insuspeita: o marqueteiro João Santana e sua mulher e sócia, Mônica Moura, que acham tudo isso muito feio, mas confessaram ao juiz Sérgio Moro que tiveram que fazer o que fizeram porque, senão, “vem outro e faz”. Não por coincidência, é assim que pensam também os políticos gananciosos, bem como os maus empresários que antes preferem competir à margem da lei, pelo atalho da corrupção, do que pelo aumento da qualidade e a redução dos custos e dos preços de seus produtos e serviços.

Recuperação dos trens é deixada de lado na Olimpíada – Editorial / O Globo

• Melhorias no ramal de Deodoro, onde há estações perto dos locais de competição, beneficiariam os 330 mil usuários por dia e atrairiam mais passageiros

O questionamento do legado da Olimpíada, rebatido com vigor pelo prefeito Eduardo Paes, precisa incluir os investimentos nos trens do Grande Rio. Não só devido ao público que vai a Deodoro, Engenhão, Maracanã e Sambódromo, mas principalmente porque melhorias nos trens da Central beneficiariam os 330 mil usuários por dia do ramal de Deodoro, onde há estações próximas aos locais de competição.

É perto da metade dos 700 mil passageiros de todo o sistema, com malha de 270 quilômetros, 102 estações e presença em 12 municípios do Grande Rio, onde há nove milhões de habitantes.

A SuperVia gastou R$ 250 milhões com a modernização de seis estações para os Jogos. Enquanto isso, a extensão da Linha 1 do metrô Ipanema-Jardim Oceânico consumiu mais de R$ 8 bilhões do estado — um exemplo do quanto a expansão da cidade rumo à Zona Oeste, em vez do investimento na revitalização do Centro, é onerosa para um poder público sufocado pela crise fiscal e, portanto, sem capacidade de investimento.

Cidadezinha qualquer - Carlos Drummond de Andrade

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

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Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 34)

Teresa Cristina - O Sol nascerá (Cartola)