quarta-feira, 31 de março de 2010

Vannuchi afirma que imprensa age como "partido de oposição"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Presidente da ANJ rebate críticas e diz que jornalismo deve ser livre e pluralista
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, criticou ontem a imprensa ao dizer que, no Brasil, ela vem agindo "como uma espécie de partido de oposição". "[A imprensa] vem confundindo um papel que é dela -informar, cobrar e denunciar- com o papel do protagonismo partidário, que é transformar isso em ações de conteúdo unilateral", disse, durante apresentação do 3º PNDH (Programa Nacional de Direitos Humanos) na Procuradoria Geral da República.

Vannuchi citou associações ligadas a jornais, revistas e TVs e também a presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Judith Brito, que é diretora-superintendente da Empresa Folha da Manhã S.A., que edita a Folha

. Ele fez uma referência à participação da presidente da ANJ durante um evento realizado em São Paulo, há duas semanas, para discutir o plano de direitos humanos.

"A presidente da ANJ, Judith Brito, fala exatamente o que eu vinha dizendo como crítica. Ela fala: "Na situação atual, em que os partidos de oposição estão muito fracos, cabe a nós dos jornais exercer o papel dos partidos. Por isso estamos fazendo [isso]"", disse Vannuchi.

Desde o início deste ano, o Plano Nacional de Direitos Humanos é alvo de críticas de diversos segmentos, inclusive da imprensa. Entidades ligadas a jornais, revistas e TVs questionaram itens do plano que poderiam colocar em risco a liberdade de imprensa.

Apesar das críticas, o ministro declarou que a liberdade de imprensa precisa ser "ampla, plena e completa" e negou que o plano vise limitá-la.

A presidente da ANJ, Judith Brito, respondeu às críticas dizendo que o que a entidade tem feito é "defender a liberdade de expressão, frente às seguidas tentativas do governo de criar regras para controlar os veículos de imprensa e os jornalistas". "Nos últimos anos, foram vários os projetos nesta direção, como o Conselho Nacional de Jornalismo, medidas da Confecom e tópicos polêmicos do Programa Nacional de Direitos Humanos", afirmou.

"O jornalismo sério num país democrático precisa ser livre, porque sem liberdade não há investigação, nem opinião. Deve também ser pluralista. Esse papel da imprensa é exercido igualmente em relação ao governo e à oposição", disse a presidente da ANJ.

Substituta de Dilma terá de depor sobre dossiê anti-FHC

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Erenice Guerra, que assume a Casa Civil, mandou fazer pesquisa sobre gastos de tucanos


Planilha foi confeccionada para defender o governo em CPI que investigou os gastos de ministros do governo Lula com cartões corporativos



Fernanda Odilla e Andreza Matais


Da sucursal de Brasília


A nova ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, será convocada a prestar esclarecimentos no processo que investiga a confecção e vazamento de um dossiê com gastos do governo Fernando Henrique Cardoso.

Erenice, que assume hoje no lugar de Dilma Rousseff, e outras seis pessoas serão ouvidas pela Polícia Federal, a pedido do Ministério Público Federal. Depois de um ano e três meses suspensa, a investigação será retomada com acareação e novos depoimentos.

Como a Folha revelou em 2008, foi Erenice, como secretária-executiva da Casa Civil, quem mandou confeccionar o dossiê que reuniu informações sigilosas de gastos do casal FHC e Ruth Cardoso com cartões corporativos. Ela sempre negou se tratar de um dossiê, classificando o documento como "banco de dados".

O arquivo com observações políticas foi montado para municiar congressistas aliados do governo na CPI dos Cartões Corporativos, criada para apurar irregularidades no governo Lula. O dossiê era uma resposta às denúncias envolvendo ministros que usaram dinheiro público para gastos pessoais.

O escândalo derrubou a ministra Matilde Ribeiro (Igualdade Racial), que usou o cartão corporativo num free shop. O ministro Orlando Silva (Esportes) utilizou dinheiro público para comprar tapioca. Depois da revelação, devolveu a verba.Na sexta passada, o Ministério Público Federal encaminhou ofício à Justiça, pedindo que, em 90 dias, a polícia faça acareação entre duas pessoas que já prestaram depoimento e interrogue sete, entre elas, Erenice. Ontem, a Justiça remeteu o inquérito à PF para que sejam feitos os interrogatórios.

As investigações da PF estavam suspensas desde julho de 2008, quando o juiz José Aírton de Aguiar Portela (12ª Vara Federal) decidiu remeter o inquérito ao STF (Supremo Tribunal Federal), por achar que havia indícios para incluir ministros entre os investigados.

Em junho de 2009, o STF devolveu o inquérito sigiloso à primeira instância por entender que não havia elementos para incluir entre os suspeitos nem Dilma nem os ministros Tarso Genro (Justiça), Paulo Bernardo (Planejamento) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). Desde então, o inquérito estava parado no Ministério Público Federal.

Como Erenice deverá assumir o ministério amanhã, o processo pode retornar ao STF caso a Justiça entenda que ela teve participação.

Até agora, 16 testemunhas depuseram. O único indiciado foi o então secretário de Controle Interno da Casa Civil, José Aparecido Pires, por quebra de sigilo funcional. Segundo a polícia, foi ele quem repassou o dossiê por e-mail ao Senado. À PF Pires reconheceu que o e-mail saiu da máquina dele "sem dolo ou má-fé".

Ao delegado Sérgio Menezes, promovido e transferido no meio do caso de Brasília para São Paulo, Pires disse que não dispunha da informação de que a ordem para fazer o levantamento partiu de Erenice.

A declaração contradiz o depoimento de André Fernandes, o funcionário do Senado que recebeu o e-mail com a planilha. Fernandes contou à PF que, num almoço, Pires disse ter sido Erenice a responsável pelo dossiê. A acareação será entre Pires e Fernandes.

Serra entrega obra que 'passou por crivo do TCU'

DEU EM O GLOBO

Tucano inaugura Rodoanel com críticas indiretas a Lula e Dilma, que têm reagido às fiscalizações do tribunal

Flávio Freire


SÃO PAULO. Numa inauguração antecipada do trecho sul do Rodoanel, que será aberto amanhã de manhã ao tráfego, o governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, deu estocadas no governo federal e na petista Dilma Rousseff, sua adversária. Em cima de um palanque montado sobre a ponte que atravessa a Represa Billings, Serra criticou indiretamente o governo Lula, ao citar a situação jurídica da obra.

Esta obra passou pelo crivo do TCU, do TCE e do MP, o que prova que nós temos competência disse ele.

O presidente Lula recebeu críticas da oposição por ter inaugurado obras que estariam inacabadas e que estão sob investigação do TCU por suspeita de irregularidades como a Refinaria Presidente Getúlio Vargas, no Paraná. Lula também já criticou os tribunais de contas por interromperem projetos sob suspeita de sobrepreço, entre outros problemas.

Serra também alfinetou indiretamente o governo Lula, que vem sendo acusado de usar a máquina pública com fins eleitorais, na série de inaugurações e visitas feitas por Lula e Dilma. Ontem, do alto do palanque, ele pediu aos trabalhadores da obra para que deixassem de gritar o slogan Brasil urgente; Serra presidente e que fosse evitado o clima de campanha antecipada.

Aqui não queremos campanha eleitoral antecipada, nem de um lado, nem do outro.

Se o outro faz, a gente fica quieto disse ele.

A cerimônia reuniu dezenas de assessores, secretários de estado e prefeitos da região, entre eles o ex-ministro Luiz Marinho (PT), de São Bernardo do Campo.

A festa teve ainda lançamento de bolas de gás, desfiles de caminhões da Formula Truck.

Hoje, o PSDB promete reunir no Palácio dos Bandeirantes cerca de 6 mil pessoas no evento em que Serra prestará contas de sua gestão, da qual se afastará para disputar a Presidência.

Numa prévia do que acontecerá hoje no Palácio dos Bandeirantes, ontem, no palanque do evento do Rodoanel, Serra lembrou de sua trajetória política.

O trecho sul do Rodoanel custou R$ 5,03 bilhões. O governo federal participou com 24% do investimento. A conclusão dessa obra (que inclui134 pontes, túneis ou viadutos) deve desafogar o trânsito da capital paulista, desviando o tráfego de caminhões que vem do interior rumo ao Porto de Santos. São 61,4 quilômetros de extensão; a previsão é que16,5 mil caminhões e 55,5 mil veículos de passeio devam passar no local diariamente.

Serra agradeceu o governo federal pelo aporte de dinheiro.

O governo federal investiu R$ 1,2 bilhão nessa obra. É um valor substantivo.

Serra fez questão de elogiar a sua equipe. Disse que a obra só foi possível porque o ex-governador Geraldo Alckmin deixou a casa arrumada. Afirmou que tem no vice-governador, Alberto Goldman, mais que um braço direito.

Ele é o lado direito do cérebro elogiou, referindo-se a Goldman, que assumirá o governo de São Paulo hoje.

Serra ainda destacou o trabalho do chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, que ficou à frente de todas negociações com os prefeitos e a base de deputados da Assembleia Legislativa. Aloysio deverá ser um dos coordenadores da campanha de Serra.

Um horário nada gratuito:: Stepan Nercessian

DEU EM O GLOBO

Costurar alianças talvez seja uma das expressões mais usadas na política.

Em tempos de eleição então nem se fala. Depois, costuram se alianças para garantir a governabilidade e a ingovernabilidade também. As alianças nem sempre são feitas de um mesmo metal. Tem ouro e lata. A arte da ourivesaria política é conseguir fazer dar liga entre materiais incompatíveis e de preferência que o resultado final guarde características de tudo que foi usado na confecção da obra, sem deixar que a lata destrua o ouro e vice-versa.

É bastante simples fazer política não estando na política. De fora, tudo é nítido. O conservador, o esquerda, o direita e o volver. Verde que te quero verde, o corrupto, o canalha, o idealista, o padre sem batina, o pastor do dízimo com quem andas que eu te direi quanto vales. De perto é que o foco começa a perder a nitidez.

Ganha um doce qualquer político ou eleitor do Brasil que conseguir dizer em dez minutos o nome de todos os partidos existentes na atualidade. Se conseguir decifrar a ideologia de cada um aí tem direito a passar 24 horas sendo o Eike Batista.

Aqui vai uma mostra para quem estiver interessado:
panpcopcdobpcbpdtdemphsprpmdbpmnpppronappsprtbprpprbpsbpscpsdcpslpsdb... e por aí vai.

Essa lista é de 2006. A esta hora alguns já podem ter sido abduzidos e outros criados. Mas se quer ganhar o prêmio vá pesquisar.

Pois bem. É com essa matéria prima que se constroem as alianças políticas no Brasil. E, também com ela, a governabilidade.

Todos têm em comum uma preciosidade que é o tempo de televisão.

Cada segundo vale ouro e muitas vezes a secretaria de saúde ou segurança pública.

Um minuto no horário eleitoral equivale, por exemplo, ao Ministério da Agricultura. Quem entrar com cinco minutos pra trocar leva Furnas, Petrobras, Banco do Brasil e uma mariola de gorjeta. E o bom é que ninguém fica de fora.

Se tiver mais partido do que cargos, criam-se mais e mais ministérios, secretarias, autarquias. As alianças não podem deixar nada de fora.

Trabalhando como ator há quarenta e dois anos, dirigindo uma coisa ou outra, aprendi que um dos mistérios do sucesso em TV, cinema, teatro é saber escolher o elenco, escalar o elenco. Quando isso acontece, a gente diz que deu liga, pintou a química.

Pois bem, assistindo a um programa eleitoral, com as escalações atuais, o diretor seria demitido. Fica incompreensível para o espectador, não dá para entender a trama.

Tem de tudo um “porco”.

Que mera bucha vira canhão, o mocinho abraça o bandido, a mocinha beija o vilão, o vilão é amado, o herói vaiado e nem Janete Clair daria jeito na trama.

Só que desta vez o espectador é eleitor também. Ele precisa escolher entre tantos produtos o que vai levar pra casa. Casas legislativas, palácios, mensalões. Mas, pobre eleitor consumidor, a trama está confusa, tá difícil de escolher. E pior: muitos dos produtos oferecidos sequer têm garantia de quatro anos.

Tal qual em um BigBrother ele é chamado a participar, opinar, escolher e para por aí. O vencedor leva um mandato, os eliminados serão recompensados. Um carguinho aqui, um carguinho acolá.

Infelizmente o horário eleitoral virou moeda de troca. Nada de alianças programáticas, nada de coerência ideológica e de princípios. O importante é garantir audiência. E ainda há quem tenha coragem de chamar este horário de gratuito! Ele custa caro, muito caro. Mas neste mundo de celebridades o importante é aparecer.

Quanto às alianças, cuidado, geralmente se transformam em algemas quando o casamento não é feito por amor.

Stepan Nercessian é ator, vereador (PPS) e vice-presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Gabeira hesita sobre apoio à candidatura de Maia ao Senado

DEU EM O VALOR ECONÔMICO

Paola de Moura, do Rio

Depois de quase sacramentada a aliança entre PV, DEM, PSDB e PPS, o candidato a governador na coligação, deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), ameaça roer a corda. Gabeira disse ao Valor que ainda está estudando se vai apoiar a candidatura do ex-prefeito Cesar Maia (DEM) ao Senado.

Ancorado na última pesquisa do Instituto Vox Populi, encomendada pelo jornal carioca "O Dia" e divulgada na sexta-feira, que o mostra com 18%, contra 38% do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e 20% do ex-governador Anthony Garotinho (PR), Gabeira agora diz que seus eleitores têm um forte sentimento negativo em relação ao ex-prefeito. Em janeiro, para aceitar a candidatura a governador impôs a condição de ter uma coligação ampla, que daria mais tempo de televisão.

Gabeira disse, na segunda-feira, não gostar de comentar pesquisas, mas admitiu que "começar com 18% já é bastante animador". Isso sem fazer qualquer propaganda, ressaltou. "No momento, o espaço todo é do governador". Quanto à aliança com o DEM, Gabeira diz que vai conversar com mais políticos e partidários na Páscoa.

No meio da discussão, está o PSDB, grande interessado em dar palanque forte no Rio ao seu pré-candidato à Presidência, José Serra. O partido trabalha para que a aliança leve Gabeira ao segundo turno. No Rio, os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas - Cabral e Garotinho - apoiam Dilma Rousseff, pré- candidata do PT.

O deputado estadual Luiz Paulo Correa da Rocha (PSDB) diz que, desde o início das conversas para a coligação, estava explícito que o PV daria o candidato a governador, o PSDB, o vice, o PPS, um senador e o DEM, o outro. "E alguns nomes já estavam fechados: Gabeira para governador e Maia para senador". Para vice, fala-se no diretor-presidente da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), Márcio Fortes (PSDB), e para senador, no ex-deputado Marcelo Cerqueira (PPS).

O deputado lembra que, desde o início das negociações, houve a oposição do presidente do PV, Alfredo Sirkis. "Mas partido é assim, não é necessário que todos pensem o mesmo. É uma democracia, temos que fazer acordos e ver o que é melhor para todos", conclui. "A aliança tripla deu um excelente resultado na campanha para prefeito", lembra Correa da Rocha, referindo-se à eleição à Prefeitura do Rio, em 2008, quando Eduardo Paes (PMDB) venceu Gabeira por uma margem muito apertada: 50,83% dos votos válidos contra 49,17%.

Tarifa de serviço bancário sobe até 33 vezes acima da inflação, diz Idec

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Levantamento do Instituto aponta alta de até 328% entre abril de 2008, quando BC apertou regras do segmento, e março deste ano

Leandro Modé,

SÃO PAULO - As tarifas avulsas de serviços bancários subiram até 328% entre abril de 2008, quando o Banco Central (BC) instituiu novas regras para o segmento, e fevereiro deste ano. O porcentual supera em 33 vezes a inflação do período (9,88%). No caso dos pacotes de serviços, a maior variação foi de 65,8%, sete vezes superior à inflação.

Os números integram estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), obtido com exclusividade pelo Estado. O levantamento, realizado pela economista Ione Amorim, foi feito com base nas informações que as instituições publicam em seus sites na internet. Participaram da amostra os dez bancos brasileiros que têm mais de 1 milhão de clientes.

"A principal conclusão que tiramos é de que as maiores variações são explicadas pelo realinhamento das tarifas com a média do setor", diz Ione. "Isso mostra que os bancos não trabalham pela menor tarifa, mas sim para estar junto dos outros, o que demonstra pouca concorrência."

Campeões

No ranking de tarifas avulsas, o campeão do reajuste é o Banrisul, que pertence ao Estado do Rio Grande do Sul. Das dez primeiras posições, seis são ocupadas pelo banco estatal. Em primeiro lugar, com variação de 328,6%, ficou o fornecimento de folhas avulsas de cheques. Em abril de 2008, cada folha custava R$ 0,35. Em 28 de fevereiro deste ano, R$ 1,50.

No ranking de pacotes de serviços, o resultado foi mais pulverizado, mas também com preponderância do Banrisul – dono de cinco das dez colocações. Nesse levantamento, o campeão do reajuste foi o Banco Real, com o pacote Real Serviços Simples. A tarifa, que custava R$ 12,00 em abril de 2008, passou para R$ 19,90 no dia 5 de março deste ano – variação de 65,8%.

Os altos ganhos com tarifas e a falta de um padrão de cobrança levaram o BC a reorganizar as normas do segmento. A principal mudança se deu pela Resolução 3.518, que entrou em vigor em 30 de abril de 2008.

Padrão

Entre outros pontos, a nova regra definiu a padronização das tarifas, de modo a facilitar o entendimento dos clientes. Além disso, todos os bancos são obrigados a divulgar em seus sites os valores que cobram pelos serviços – tanto avulsos quanto pacotes.

A economista do Idec ressalta que é impossível calcular o impacto das tarifas sobre os ganhos gerais do setor, pois cada instituição adota critério próprio nas demonstrações financeiras.

Um dos que discriminam as tarifas no balanço é o Banrisul. Segundo Ione, essas receitas cresceram 13% entre 2008 e 2009, para R$ 226 milhões. O lucro no período foi de R$ 541 milhões.

Marina: PAC-2 é 'colagem de obras eleitoreiras'

DEU EM O GLOBO

Em Recife, ela critica uso eleitoral de inaugurações por Lula e Dilma e lembra que presidente já foi multado duas vezes

Letícia Lins

RECIFE. Um dia após o lançamento do PAC-2, a senadora Marina Silva(PV-AC), pré-candidata a presidente, classificou ontem o programa como uma colagem de obras com finalidade político eleitoreira. Ela disseque o PAC é uma marmita com muitas coisas requentadas. Ao lembrar que o PT, partido ao qual foi filiada, sempre reclamou muito desse tipo de conduta, Marina disse que o presidente Lula deveria dar o exemplo, para que isso não ocorresse.

Em meu entendimento, a Justiça já demonstrou que há o uso político dessas inaugurações, uma vez que o presidente já foi multado duas vezes por ter tratado a ministra Dilma Rousseff como candidata nesses eventos disse Marina, durante entrevista na sede da Federação das Indústrias de Pernambuco.

Os poderes da nação têm que cumprir a lei. É muito negativo ter, ao tempo todo, essa sensação de extrapolação do cumprimento da legislação eleitoral.

O PT sempre reclamou muito desse tipo de conduta e é lamentável que aconteça.Marina foi recebida no aeroporto dos Guararapes, em Recife, por militantes do PV que agitavam bandeiras. Hoje, ela vai a cidades da região agreste de Pernambuco, como Garanhuns e Brejo da Madre de Deus. Em Brejo, vai ao vilarejo de Fazenda Nova, onde assiste ao espetáculo sacro da Paixão de Cristo, encenado na Nova Jerusalém.

Em Recife, ela cumpriu uma agenda carregada, que incluiu palestras, visitas a entidades culturais e empresariais, e ainda a participação no seminário Pós-Cop 15, sobremudanças climáticas, onde foi aplaudida de pé, depois de fazer críticas à atuação de Dilma Rousseff, durante a COP-15, a conferência mundial, que aconteceu em Copenhague.

Marina disse que Dilma perdeu uma boa oportunidade de lutar contra a agenda suja dos países ricos, e que a atuação da ministra chegou a deixar Lula preocupado: Se o Brasil, que é um país emergente, tivesse doado US$ 1 bilhão, teria provocado um constrangimento ético nos demais, que poderiam aumentar a contribuição lembrou, referindo-se ao fato de Dilma ter se negado a contribuir com o fundo internacional de US$ 10 bilhões, proposto pela União Europeia, para financiar iniciativas que possam minorar o aquecimento global.

Ela poupou outro adversário na eleição presidencial, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Até elogiou a proposta ousada com relação às mudanças climáticas, já que o Estado de São Paulo assumiu a meta de reduzir em 20% as emissões efetivas de gases poluentes.

Em encontro com a imprensa, ela voltou a criticar o PAC: Um programa voltado para a infraestrutura há de ser algo mais abrangente. Boa parte do que vem sendo feito é colocado legitimamente por governos e prefeituras, mas muitas vezes são obras que não ligam lé com cré. Na minha região, a BR 319 é uma estrada mais de cunho político eleitoreiro do que uma necessidade.

Investimento no PAC é visto com ceticismo

DEU EM O GLOBO

Analistas não creem que o Brasil conseguirá atingir a taxa de investimento de 21,5% do PIB em 2014, como prevê o PAC-2. Hoje, está em 16,7%. Para dar esse salto, seria preciso que a taxa de poupança subisse também quase 5 pontos.

Poupança empaca investimentos

Analistas duvidam da capacidade do país de poupar para alcançar metas do PAC-2

Cássia Almeida e Flávia Barbosa

RIO e BRASÍLIA
- As projeções econômicas do governo que amparam a nova versão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2), lançado anteontem, nãoencontramrespaldo nas contas do mercado financeiro. Analistas alertam que não há poupança suficiente no país para financiar o volume de investimentos previsto pelo PAC-2. Ao divulgar os números do programa, o governo se baseou em projeções de que o país vá ter uma taxa de investimentos de21,5% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pela economia) em 2014. Na conta dos analistas, para isso, seria preciso ter um nível de poupança de 19% do PIB ou seja, um salto de quase cinco pontos percentuais frente ao patamar atual, de 14,6%.

Economistas destacam ainda que o principal entrave para ampliar a poupança no Brasil são os gastos públicos enquanto famílias e empresas poupam mais do que gastam, a poupança do governo é negativa. No resultado final, o governo retira 15,9% do total poupado pelo país. Ou seja, para chegar ao crescimento econômico estimado pelo governo de 5,5% até 2014, o país precisará investir e poupar mais com o governo gastando menos. Como chegaremos lá é a pergunta que o economista-chefe da Convenção Corretora, Fernando Montero, fez ao olhar as projeções do PAC-2: A apresentação oficial desfilou uma economia com mais investimento e crescimento, inflação na meta, divida pública caindo, juros menores e superávit fiscal. Faltou o slide que aborda a poupança por trás desse feliz cenário. Se não temos essa perna, o resto cai como castelo de cartas: os juros serão maiores, o investimento e o PIB, menores, e a dívida menos benigna.

Nas contas de Montero, para atingir o nível de investimento previsto (21,5%do PIB, ou R$ 525,8 bilhões em valores de hoje), a poupança precisaria ser de 19% do PIB. E isso já considerando o ingresso de poupança externa.

O professor da PUC São Paulo Antonio Corrêa de Lacerda destaca que enquanto alguns veem a poupança doméstica como pré-requisito para a expansão da economia, outros acreditam que a poupança é resultado do crescimento. Esta é a sua opinião, que não vê empecilhos para o país atingir o investimento projetado no PAC-2. O financiamento pelo BNDES, pelo mercado de capitais e pelos bancos públicos funcionaria como uma antecipação da poupança, afirma.

A poupança baixa é um problema estrutural do Brasil. A renda muito concentrada dificulta a acumulação de poupança.

O mundo quer financiar o Brasil, diz secretário

Para Montero, o caminho é reduzir os gastos públicos para aumentar a poupança do país.

Paulo Levy, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que o governo precisa elevar a parcela do investimento no gasto público.

A poupança é pró-cíclica. Se a economia cresce, aumenta também a poupança. Quem poupa mais são as empresas e, com o país crescendo, a rentabilidade delas aumenta. Já o governo é despoupador explica Levy.

Para o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, o que parte dos analistas está questionando é se o Brasil nãoterá de recorrer a muita poupança externa para catapultar o investimento. Isso significa ponderar o tamanho do déficit externo que é saudável para a economia. Barbosa desconversa sobre os números, mas a equipe econômica projetou uma taxa de investimento de21,5% levando em consideração um déficit em conta corrente (trocas como exterior) de 3%do PIB em 2014. Confirmado, este cenário produziria uma taxa de poupança de 18,5% em 2014, igual ao alcançado em 2004, que foi o pico dos últimos anos. Parte dos analistas, porém, acredita que este cenário não é factível e que o déficit externo chegará a 6% ou 7%do PIB. Barbosa considera exagerada esta projeção: Todo economista sabe, ou deveria saber, que investimento gera poupança. É absolutamente sustentável que parte desta poupança venha de fora. O mundo quer financiar o Brasil.

Debate com Fernando Henrique Cardoso

aliás, debate

Por ocasião do lançamento do livro Relembrando o que escrevi, de Fernando Henrique Cardoso, o jornal O Estado de S. Paulo, o Caderno Aliás e a Editora Civilização Brasileira convidam três acadêmicos para entrevistar o ex-presidente e debater com ele a trajetória do “intelectual público”.


Autor:

Fernando Henrique Cardoso



Debatedores :

José de Souza Martins (sociólogo, USP)

Renato Janine Ribeiro (professor de Ética e Filosofia Política , USP)

Renato Lessa (cientista político, (UFF e IUPERJ)



31 de março de 2010, às 20h

19h – Café de boas vindas

Centro Universitário Maria Antonio da USP

Rua Maria Antonia, 294 – Vila Buarque







Realização Parceria


O Estado de S. Paulo Editora Civilização Brasileira

West Side Story (1ª parte) - Orquestra Sinfônica Rio de Janeiro

O QUE PENSA A MÍDIA

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Morte e vida Severina (Auto de Natal Pernambucano) – parte 8::João Cabral de Melo Neto

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO


— Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

terça-feira, 30 de março de 2010

O fim da História do Brasil ou um novo começo para ela:: Luiz Werneck Vianna

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A sucessão presidencial já está na linha do horizonte. Na superfície dos fatos, nenhuma indicação de que ela venha apontar para contrastes duros nos programas das candidaturas envolvidas na disputa, nem sinalizar para mudanças relevantes nos rumos da política. Afinal, o País conhece nestes quase 16 anos de governos paulistas do PSDB e do PT uma forte linha de continuidade em termos de política macroeconômica e de políticas sociais e, entre as candidaturas concorrentes, duas delas, as mais credenciadas eleitoralmente, têm sua origem nesses partidos.

A continuidade na condução dessas políticas passou pelo teste severo da grande crise internacional, que abalou mercados e a própria economia capitalista, suportada pelo País sem maiores traumas. Passada a crise, consagrou-se, com razão, o diagnóstico de que seus piores efeitos teriam sido evitados graças aos "sólidos fundamentos da nossa economia" e do que seria o padrão de excelência vigente na regulação do nosso sistema financeiro, frutos, sem dúvida, de uma obra comum do PSDB e do PT, formatada e aperfeiçoada no curso dos seus governos.

Para essa impressão concorre também o estilo das duas principais candidaturas, Dilma Rousseff e José Serra, quadros com perfil forjado nas altas tarefas da administração pública, mais do que nos debates político-ideológicos. Nada surpreendente, portanto, que venham a ser, em boa medida, fiéis a esse estilo em suas campanhas eleitorais, impróprio, por sua natureza, às paixões. Vale dizer, nessa sucessão não se terá nem Jânio, nem Collor, nem Lula.

De modo mais geral, essa expectativa de uma disputa eleitoral destituída de agonística se alimenta, sobretudo, da difusa percepção de que os êxitos recentes na expansão do capitalismo brasileiro estariam a significar que a História do País, afinal, encontrou uma solução feliz. As conquistas econômicas e sociais teriam serenado o campo da política, cujas controvérsias girariam em torno de temas da administração e da gestão da coisa pública. Caberia, agora, escolher entre os candidatos o mais preparado para continuar o script consagrado no sentido do seu aprofundamento e, uma vez que o País já se acharia com suas instituições estabilizadas e assentado o seu caminho futuro, lançar-se na aventura da sua imposição no cenário internacional.

A marca forte desse script estaria no reconhecimento de que a tarefa imediata imposta pelas circunstâncias seria a de completar a longa revolução burguesa no País, cuja mais forte indicação estaria na penetração do moderno capitalismo no mundo agrário, sede tradicional dos protestos sociais mais virulentos, de caráter moderno ou não, contra o sistema da ordem da propriedade. O sucesso econômico do agronegócio, sua elevação à arena política constituída, em particular, no Norte e no Centro-Oeste do País, sua presença no governo - federal e de Estados - teriam removido de vez as tensões que antes ameaçavam o campo, como nos idos de 1960, com o fantasma da revolução.

Sob essa nova marcação da conjuntura, em que o tema agrário teria sido deslocado da sua antiga centralidade nos conflitos de classes no País, os trabalhadores urbanos estariam circunscritos a uma agenda de reformas, personagens plenos do moderno, restando incorporar ao sistema da ordem, por meio de políticas públicas, as grandes massas sujeitas, no campo e nas cidades, a trabalhos precários e intermitentes e a uma vida sem direitos. Posto nessa plataforma segura, caberia ao capitalismo brasileiro reestruturar-se, sob a liderança do Estado e de suas agências, num processo audacioso de concentração e de centralização de capitais, transitando para uma forma superior de organização.

No governo Lula, o impulso nessa direção foi intensificado, instituindo-se numa estratégia definida, principalmente, a partir da crise financeira mundial de 2008. Vencido seu teste de resistência sob condições extremas, o que era apenas um esboço, ainda um experimento de ensaio e erro, uma estratégia ainda inominada, ganha corpo e alma. O que vinha sendo uma navegação numa linha quase reta, na rota traçada pelos governos do PSDB e do PT, mudou o seu sentido e já percorre outro caminho.

Nessa reorientação, fixa-se para o capitalismo brasileiro o objetivo de transbordar suas fronteiras nacionais, num esforço conjunto do Estado e das grandes empresas de capital nacional, na tentativa de exercer uma vocação conquistadora de tipo grão-burguês. Outra característica está na abertura do repertório da tradição brasileira de Vargas a Geisel, recuperando a fórmula do nacional-desenvolvimentismo como via de uma modernização conduzida "por cima".

Nessa operação, o Estado traz a sociedade para dentro de si, convertendo-se num "parlamento" onde se tomam as decisões a serem legitimadas por um Poder Legislativo enredado, por meio das práticas do chamado presidencialismo de coalizão, ao Executivo. Tal estratégia, audaciosa em seus fins, é conservadora quanto a seus meios: ela não procura a mobilização dos seres subalternos, salvo quando sob seu estrito controle, e se limita a procurar soluções institucionais, conceitos e motivações ideais no baú dos ossos da tradição autoritária brasileira.

Assim, ela é enérgica e criativa, quando se trata de perseguir os seus fins de uma ordem grão-burguesa, e passadista e conformista na política, como na sua patética mimetização do Estado Novo e da ressurgência que promove, em nome da realização de fins "substantivos" de justiça, da "democracia social". Vista dessa perspectiva crítica, que recusa à nossa História o papel de prisioneiro passivo das fabulações que nos vêm do seu passado autoritário, a presente sucessão presidencial, longe do quietismo que tantos auguram para ela, pode datar um promissor recomeço.

Professor-pesquisador do IUPERJ, ex-presidente da Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, é membro do departamento de pesquisa judiciária do Conselho Nacional de Justiça

Joao Gilberto & Tom Jobim - Corcovado

A boca do jacaré:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

Um dado relevante da mais recente pesquisa Datafolha é a confirmação de que o candidato do PSDB, José Serra, mantém-se na faixa dos 40% da preferência do eleitorado quando o deputado Ciro Gomes não está na disputa, o que faz com que tenha possibilidade de vencer a eleição já no primeiro turno.

No jargão das pesquisas, a boca do jacaré estava se fechando, com a diminuição da diferença entre Serra e Dilma para quatro pontos na pesquisa Datafolha anterior. No entanto, a pesquisa seguinte, do Ibope, já mostrava a boca do jacaré abrindo mais um pouco, aumentando para 5 pontos a diferença a favor de Serra.

Esse movimento continuou, e a diferença agora foi para 9 pontos.

Ninguém em seu perfeito juízo poderia imaginar que, com o presidente Lula popular no nível em que está, sua candidata não entraria na disputa com pelo menos os 30% do eleitorado de esquerda garantidos.

Em nenhum momento, no entanto, mesmo tendo a diferença a seu favor reduzida, o tucano José Serra saiu da faixa dos 40% nos mais diversos institutos de pesquisa, e deixou de ter a possibilidade de vencer no primeiro turno.

Como exemplo, apenas nas pesquisas de 2010: 41% no Sensus de janeiro; 38% no Vox Populi de janeiro; 41% no Ibope de fevereiro; 38% no Datafolha de fevereiro; 38% no Ibope de março; e 40% no Datafolha de março.

Desde o segundo turno de 2002, quando teve 38% dos votos e perdeu a eleição para Lula, que Serra aparece à frente das pesquisas com uma média entre 35% e 40% de preferências.

Quando abandonou a disputa em 2006 dentro do PSDB para deixar Alckmin perder para Lula, estava na frente das pesquisas, mas já com Lula nos seus calcanhares.

Fica claro que essa marca é muito mais do que o simples recall ( lembrança), fenômeno que as pesquisas eleitorais registram para os candidatos que, tendo disputado eleições anteriormente, permanecem no inconsciente do eleitor e são lembrados numa primeira reação nas pesquisas.

O simples recall, no entanto, não é suficiente para manter um candidato à frente das pesquisas se a lembrança não for acompanha da de algo mais substancial.

O deputado Ciro Gomes, por exemplo, já foi candidato a presidente da República várias vezes e, no entanto, seu recall junto aos eleitores é muito fraco, está em queda permanente na casa dos 11% das preferências.

Embora tenha perdido a imagem de candidato competitivo, o que dificulta uma decisão do PSB a favor de sua candidatura contra a opinião do presidente Lula, o deputado Ciro Gomes ganhou novo fôlego com essa pesquisa recente do Datafolha, que o coloca mais uma vez como uma barreira à possibilidade de Serra vencer a eleição no primeiro turno.

Com sua saída, quem mais se beneficia é justamente Serra, que herda 4 pontos percentuais, indo a 40%. A candidata oficial, Dilma, ganha 3 pontos, indo a 30%. E a senadora Marina Silva ganha 2 pontos, chegando a 10%.

Como a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, continua sendo uma possibilidade a vitória de Serra já no primeiro turno no caso de Ciro não aparecer na tela da máquina de votar.

A explicação, dada por alguns marqueteiros, de que o eleitor de Ciro escolheria preferencialmente Serra devido ao seu conhecimento, perde a força diante da constatação de que a ministra Dilma Rousseff já é conhecida por 87% dos pesquisados, que já dizem conhecê-la de alguma forma, ainda que apenas de ter ouvido falar.

Serra tem um percentual de 97% de conhecimento dos eleitores, e Ciro tem 93%. Só a senadora Marina Silva pode alegar que seu índice de preferência pode aumentar, pois o nível de conhecimento dela por parte do eleitor é de apenas 52%.

Agora, a explicação para a estagnação da candidatura oficial é que, embora conhecida do eleitorado, só 58% dos eleitores sabem que Dilma é a candidata de Lula.

E entre os eleitores que querem votar no candidato apoiado por Lula, ainda existiriam, segundo Mauro Paulino, diretor do Datafolha, 14% que não votam em Dilma por ainda não saberem que ela é a escolhida do presidente.

Um eleitorado de baixa escolaridade, baixa renda e de grande concentração na região Nordeste, que teoricamente seguiria as palavras do líder.

A questão é saber se, estando o presidente em campanha aberta há mais de dois anos, esse tipo de eleitor não identificou Dilma como a candidata oficial por incapacidade de entender a mensagem do presidente, ou se não encontra na candidata oficial capacidades que vê em Lula.

Essa segunda hipótese seria uma explicação mais política, que reduz a importância das análises técnicas das pesquisas.

É o caso da preferência por Serra de parte ponderável dos eleitores que consideram o governo de Lula ótimo ou bom. Dos que aprovam Lula, 33% votam na petista Dilma, e 32%, no tucano Serra.

Ao contrário, o desempenho de Dilma entre os 20% de eleitores que consideram o governo Lula apenas regular, é muito fraco: Serra recebe 51% das intenções de voto desse grupo, contra apenas 9% da petista, que tem menos do que Ciro e Marina, cada um com 10%.

Entre os 4% que consideram o governo Lula ruim ou péssimo, Serra tem 48% de preferência, enquanto Dilma tem apenas 5%, mais uma vez atrás de Ciro e Marina.

Esses números demonstram claramente a dependência de Lula que a candidatura de Dilma tem.

Mesmo entre os que gostam do governo, ela não consegue se impor como a escolha natural.

Ainda falta o principal:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O resultado da pesquisa Datafolha divulgada no último sábado mostrando José Serra 9 pontos à frente de Dilma Rousseff foi uma surpresa geral. A oposição andava jururu, ainda traumatizada com a pesquisa anterior que havia registrado um quase empate entre os dois, achando que ela poderia ultrapassar Serra na próxima.

Os governistas cantavam vitória como se não houvesse amanhã, na base do "está eleita", já conseguindo contaminar vários setores da sociedade com essa certeza. A coisa chegara a um ponto em que a dúvida era se Dilma ganharia no primeiro ou no segundo turno.

Pura técnica de agitação política e ingenuidade de quem acredita. Pois a pesquisa favorável a Serra tampouco indica que os celebrantes por antecipação devam cancelar os festejos. Apenas aconselha o óbvio: que sejam prudentes, pois eleição não prescinde de campanha. Se não se ganha de véspera, quem dirá antes de começar a campanha eleitoral.

A decantada certeza da vitória por enquanto não teve nem tem base na realidade. Aos fatos: o oponente está na frente. Isso sem se declarar candidato. Uma vez declarando-se, qual o motivo de o eleitor desistir da opção feita anteriormente? Portanto, o mais lógico é que subisse e não caísse nas pesquisas.

Por ora, a pesquisa Datafolha mostra que onde a oposição está pior, no Nordeste, a diferença é de 10 pontos, 35% Dilma e 25% Serra. Mas onde o governo está pior, no Sul, a diferença é de 28 pontos, 48% Serra e 20% Dilma.

A oposição está na frente no Norte, Centro Oeste e Sudeste, aqui com 14 pontos de frente onde estão os três maiores colégios eleitorais, São Paulo, Minas e Rio de Janeiro.

Além disso, entre os eleitores que aprovam o governo, 33% votam em Dilma e 32% em Serra.

Isso significa que há vantagem oposicionista real. Só que há tempo, instrumentos e militância de sobra para alterar a situação se assim o eleitor decidir que deve ser.

Combination. Pode ter sido mera coincidência, mas à medida que ficava mais evidente a candidatura de José Serra à Presidência da República, menos se falava no PT e no Palácio do Planalto da candidatura Ciro Gomes ao governo de São Paulo.

Ao ponto de o consenso em torno do nome de Aloizio Mercadante ter se estabelecido sem necessidade de uma única conversa entre o presidente Lula e Ciro para "resolver" a questão como antes vinha sendo constantemente anunciado.

Conclusão: a candidatura de Ciro em São Paulo nunca existiu de verdade.

Defesa civil. Chico Buarque certa vez propôs a criação de um ministério para prevenção de catástrofes políticas óbvias.

Algo como um conselho que impedisse o presidente Lula de mandar cassar o visto do correspondente do New York Times, que fizesse ver aos aloprados do PT a bobagem de carregar dinheiro em malas para comprar dossiês contra adversários, que aconselhassem deputados a não tentar passar pelo sistema de fiscalização eletrônica de aeroportos com dólares na cueca, enfim, que não dessem tanta chance ao azar.

Seria um dos mais ativos ministérios. Agora mesmo teria a tarefa de desmentir José Rainha Júnior. Um dos primeiros líderes do MST a ficar famoso, a ser preso e acusado por formação de quadrilha, porte ilegal de armas, suspeita de assassinato, associação ao tráfico de drogas, condenado por crimes de incêndio, furto e danos e a merecer da direção nacional do movimento uma manifestação oficial de repúdio.

Ainda assim, apresenta-se como líder de uma ala do MST no Pontal do Paranapanema (SP), cujos acampamentos segundo ele, serão transformados em "comitês pró-Dilma".

As ações começam no "abril vermelho" com as ocupações que tanto desagradam à população. Da mesma forma, os movimentos dos sindicatos ligados à CUT em São Paulo, em que um grevista admitiu que a ideia é "quebrar a espinha" do governador e do candidato.

É de se perguntar aos estrategistas da campanha de Dilma se essa ausência de sutileza não cria uma associação de brutalidade e radicalismo a uma imagem que vem sendo trabalhada exatamente no sentido contrário, de suavidade e moderação.

Sem mesquinharia :: Marcello Cerqueira

DEU EM O GLOBO

O comandante do Exército russo reuniu seu estado-maior e advertiu: A terceira guerra mundial está a caminho e nossos adversários serão os chineses. Um general mais prudente perguntou: Mas, comandante, os chineses são mais de um bilhão e meio e nós apenas cento e cinquenta milhões de russos. Riu-se o comandante: Israel tem apenas cinco milhões de judeus e vence cento e cinquenta milhões de palestinos. Volta o general prudente: E nós temos cinco milhões de judeus? À falta dos cinco milhões de judeus e pacifistas por natureza, fluminenses e capixabas, além de paulistas, vão ter de negociar a tunda que sofremos com a chamada emenda Ibsen Pinheiro, na aprovação da qual o governo federal demonstrou sua política ambígua e de consequências sinistras para os estados produtores de óleo. De logo, o Estado do Rio e seus municípios produtores perdem não menos de 7,5 bilhões de reais e o Espírito Santo 98% das compensações financeiras.

E a ninguém escapa que a responsabilidade pela chamada emenda Ibsen Pinheiro foi resultado da posição que assumiram os ministros Dilma e Lobão, na indiferença pela supressão dos royalties já devidos aos estados-membros produtores, agravados pela curiosa declaração do presidente Lula de que não desejava tal discussão (a dos royalties) no período eleitoral. Ora, se assim não queria, então por que enviou o anteprojeto com o carimbo de urgência urgentíssima? E mais do que isso: a alguém escapa que sem o apoio, ou pelo menos a leniência do governo, a malsinada emenda teria alcançado o formidável número de votos que colheu (369 a favor contra 72)? Sabem os leitores de alguma votação na Câmara, em todo o período do presidencialismo compromissado do governo Lula, em que o governo tenha perdido? De vida atribulada, o deputado autor da emenda, consciente ou inconscientemente não importa, serviu de espoleta para os ministros que referi. É certo que ele tem sua responsabilidade, mas ela não decorre de sua vontade. Antigo parlamentar, sei que as maiorias não se formam à margem do governo-patrão.

A questão do marco regulatório do pré-sal envolve interesses estratégicos do país e não pode ser tratada com a leveza que está sendo conduzida. Não pode. Não pode sem antes ser objeto de ampla discussão com toda a sociedade. E o assunto é de tal vulto e de tal alcance, que irá romper o dique das forças que o governo ainda represa. Os problemas represados com o assistencialismo e apesar da enorme capacidade de comunicação do presidente da República, permanentemente em campanha eleitoral, acabarão por alertar o eleitor que o modelo chegou ao seu termo.

Não é verdade que o Senado Federal pode resolver a contenda e devolver aos estados produtores o direito às áreas pré-licitadas. Sem o de acordo da Câmara dos Deputados, o Senado fará mera figuração. Pela sistemática constitucional, as mensagens do presidente da República são enviadas primeiro para a Câmara dos Deputados, funcionando o Senado da República como Câmara meramente revisora. O anteprojeto porventura alterado pelo Senado pode ser derrubado quando voltar à Câmara que, querendo, restabelecerá o seu texto original. Nessa comédia de erros e desacertos, o presidente da República anuncia que vai, como é do seu ofício, mais uma vez arbitrar a contenda. É possível, mas os eleitores já viram como pode atuar um governo despreocupado pela vida real e talvez já sinta a ameaça de uma sucessão presidencial em que se apresente a burocracia mais arrogante.

Quando o Brasil comprou o Acre dos bolivianos, em 1903, a região amazônica era rica em seringais. Reza a lenda que os grandes proprietários acendiam charutos com notas de mil-réis, importavam vinhos e queijo da Europa, mandavam passar suas camisas em Lisboa, e o fabuloso Teatro Amazonas aí está para atestar a riqueza da época.

Hoje, a União federal gasta com o Acre mais de três vez do que lá arrecada. Na projeção, desde a quebra da borracha, o Acre terá custado ao país cerca de 100 bilhões de reais. A solução correta seria abandonar o Acre à sua sorte? Não. Naturalmente, não.

É isso que querem fazer com a riqueza finita do petróleo? Ontem a borracha e no futuro o petróleo.

O Congresso, o governo federal e os governos dos estados não produtores devem ter juízo. E pensar grande, sem mesquinharia. Pensar no Brasil.

Marcello Cerqueira é advogado e ex-deputado federal

Serra reduz imposto do setor têxtil e ataca Lula

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Silvia Amorim

O governador de São Paulo e pré-candidato à Presidência da República, José Serra (PSDB), anunciou ontem redução de impostos para a indústria têxtil paulista com críticas às políticas macroeconômica e de competitividade externa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo Serra, o "Brasil não se defende tanto quanto seria necessário" de países como a China e a Coreia. A dois dias de anunciar oficialmente sua postulação ao Planalto, o tucano assinou decreto que diminui temporariamente ? até março de 2011 ? a alíquota do Imposto de Circulação sobre Mercadorias e Serviços (ICMS) de 12% para 7% para o setor têxtil no Estado.

A medida visa a melhorar a competitividade frente aos produtos chineses e coreanos. Serra comparou a política do seu governo para enfrentar o problema à conduzida em âmbito federal, porém sem mencionar explicitamente o governo Lula.

"É um alívio, é um incentivo", afirmou, elogiando a atitude paulista. "Resolve todos os problemas? Não. Há vários outros de carga tributária e de concorrência externa com práticas desleais que são praticadas pelos países do Sudeste Asiático, como China e Coreia. E o Brasil ainda não se defende tanto quanto seria necessário", prosseguiu, seguido de aplausos.

Para uma plateia formada por representantes de sindicatos e empregadores, o tucano elogiou trabalhadores e empresários. "Estou convencido de que trabalhadores e empresários brasileiros são muito eficientes. Mais que os chineses."

Ele classificou a desigualdade de concorrência com os asiáticos como "problema crucial" e defendeu mudanças macroeconômicas. Mas não disse quais seriam. "Os problemas que nós temos de competitividade decorrem de problemas macroeconômicos", disse. "Temos que ir criando as condições no nosso Estado e no nosso País que permitam padrões justos de competitividade." Metáfora. Para explicar o que seria essa atuação insuficiente do governo federal no combate ao problema, Serra recorreu a uma metáfora. "Eu não posso ir a uma corrida onde o adversário está com tênis novinho e bem amarrado e eu com o tênis desamarrado. Não dá", comparou. "Temos que amarrar esse tênis da competitividade no Brasil."

Depois, em entrevista, o tucano amenizou a crítica: "O Brasil não consegue se defender à altura, apesar das intenções corretas do governo nessa direção." A redução da carga tributária anunciada ontem poderá beneficiar 13.500 empresas que empregam cerca de 200 mil trabalhadores.

Serra cumpriu ontem extensa agenda com vistoria de obras ? como as da linha 4 do Metrô ? e entrega de escola técnica e assinaturas de convênios com universidades. Na Estação Paulista, fechada ao público, Serra assistiu a uma apresentação de bailarinos e chegou a dançar com funcionários da empresa. Hoje ele inaugurará o trecho sul do Rodoanel. / colaboraram Roberto Almeida e Carolina Freitas

Lula lança plano para além de 2014, a 9 meses de sair

DEU EM O GLOBO

Prioridades do PAC-2 (Energia e Transporte) são as mesmas de JK há mais de 50 anos

A nove meses de deixar o cargo, o presidente Lula lançou a segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2), que prevê investimentos de R$ 1,5 trilhão - R$ 958,9 bilhões até 2014 e R$ 631,6 bilhões depois. O ato foi o último, na Casa Civil, da ministra Dilma Rousseff, que sai do governo amanhã para disputar o Planalto. Mais da metade do PAC-1 não foi concluída, e os atrasos se acumulam. Com foco na área social, o PAC-2 prevê investimentos mais altos em energia e transportes, as mesmas prioridades do governo Juscelino Kubitschek, há 50 anos. Diante de uma plateia lotada de aliados, Dilma discursou em clima de palanque e chorou: "Este é o Brasil que o senhor, presidente Lula, recuperou e construiu para todos nós. E que os brasileiros não deixarão mais escapar de suas mãos."

Depois de sete anos...

Em ano eleitoral, Lula lança com Dilma o PAC-2, um pacote de obras para além de 2014

Flávia Barbosa e Gustavo Paul

BRASÍLIA -Juntamente com a pré-candidata do PT à Presidência da República, a ministra Dilma Rousseff, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou, a nove meses de concluir seu segundo mandato, as diretrizes da segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (o PAC-2). Foi o último grande ato de Dilma como chefe da Casa Civil, que amanhã deixa o cargo para disputar o Planalto. Apesar de mais da metade do PAC-1 não ter sido concluída, o PAC-2 prevê, entre 2011-2014, mais foco na área social.

Amparado em investimentos que somam R$ 1,590 trilhão duas vezes mais que os R$ 503,9 bilhões do PAC já em curso , o programa destaca ações de forte apelo às comunidades carentes, especialmente nos grandes centros urbanos, concentradas na Região Sudeste, na qual a ministra tem mais dificuldades eleitorais.

De cara, o novo PAC promete 29 mil pequenas obras, como creches, unidades de saúde e postos policiais. As 800 Praças do PAC terão ginásios, pista de skate e espaço para crianças e a terceira idade. Na área de segurança pública, o governo planeja construir 2.883 postos de policiamento comunitário em 543 municípios.

Os investimentos mais altos, pela complexidade das obras, vão para as áreas de energia e transportes, prioridades do governo Juscelino Kubitschek, há 50 anos, além de habitação. A maior parte dos R$ 958,9 bilhões em investimentos para os próximos quatro anos está prevista para transporte (R$ 104,5 bilhões) e energia (R$ 465,5 bilhões) e é herança do 1° PAC.

Para uma plateia lotada com 16 governadores e prefeitos aliados, ministros e sindicalistas, Dilma leu um discurso de 50 minutos e terminou emocionada, com a voz embargada, afirmando que os brasileiros não deixarão mais escapar de suas mãos as realizações dos últimos anos, num apelo à continuidade do governo Lula: Esse PAC é a nossa consciência de que cada brasileiro e cada brasileira, quando tem apoio e atenção, ajuda a construir um bairro e uma comunidade cada vez melhor.

As ações sociais incluem ainda acesso à água potável, irrigação e obras de mobilidade urbana, como metrôs e corredores de ônibus. Esse viés social representará R$ 110,70 bilhões 7% do total anunciado. A maior parte dos projetos, porém, só deverá ser definida até junho, depois de reuniões com prefeitos e governadores

Falta de detalhamento sobre infraestrutura

Já os investimentos em habitação, com os dois milhões de casas da 2aetapa do programa Minha Casa, Minha Vida somam outros R$ 278,2 bilhões.

Mais da metade (R$ 176 bilhões) são recursos da caderneta de poupança para financiar compra e reforma de imóveis novos e usados.

Nas áreas de logística (transportes) e infraestrutura, o novo PAC não detalha as ações. São 441 projetos. As novidades são estudos de viabilidade para implantação de Trens de Alta Velocidade (TAV) ligando São Paulo a Curitiba e Campinas a Belo Horizonte e ao Triângulo Mineiro.

O orçamento de investimentos da Petrobras irá ancorar os grandes números da área energética R$ 281,8 bilhões (60%) serão gastos na exploração e produção de petróleo e gás até 2014. Depois de 2014, a área responderá por mais R$ 593,4 bilhões, quase a totalidade dos R$ 631 bilhões previstos para esta etapa.

No setor elétrico, o novo PAC prevê 54 usinas hidrelétricas, capazes de gerar 47,8 mil megawatts de energia, ao custo de R$ 116,2 bilhões.

A grande novidade é o lançamento das usinas plataformas. As obras terão menor impacto ambiental e ficarão isoladas na floresta.

Segundo a Casa Civil, 31% (R$ 297,2 bilhões) dos investimentos até 2014 vêm do PAC. O governo já anunciara que R$ 502,2 bilhões do programa seriam gastos após 2010. Além disso, a Casa Civil decidiu incluir no montante do PAC-2 os recursos de obras que não serão concluídas este ano. É o caso do Trem de Alta Velocidade, que ligará o Rio a São Paulo e canalizará R$ 32,8 bilhões dos R$ 46 bilhões para o setor ferroviário.

A secretária-executiva do PAC, Miriam Belchior, explicou que, do total de investimentos, R$ 220 bilhões virão do Orçamento da União, R$ 300 bilhões das estatais, R$ 186 bilhões de financiamento a pessoas físicas, R$ 95 bilhões de financiamento ao setor público, R$ 46 bilhões do setor privado e R$ 133 bilhões a definir.

Os leilões de energia, a gente não sabe quem vai ganhar disse Miriam.

Ao estabelecer obras prioritárias de longo prazo, o PAC-2 poderá engessar a administração do futuro presidente. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, admitiu que ele será a base do Plano Plurianual (PPA) 2012-2015 e que servirá de base para os orçamentos anuais. Ele foi irônico ao ser perguntado se o próximo presidente poderá abrir mão das obras: Ele poderá fazer um pronunciamento à nação e dizer que não concorda e quer fazer o PEC ou o PIC.

Megafesta de Lula anuncia PAC 2 para ajudar Dilma

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Numa solenidade que custou R$ 170 mil aos cofres públicos, o governo juntou ontem 30 ministros, 18 governadores e centenas de prefeitos para apresentar o PAC 2 - pacote que, segundo o próprio presidente Lula, é apenas uma "prateleira de projetos" para o futuro governo. Os discurso sindicaram que o novo programa, de mais de R$ 1 trilhão, é uma série de promessas eleitorais da candidata do PT à sucessão presidencial, Dilma Rousseff. Ao prever mais casas, transporte, saúde, água e luz, o PAC 2busca o eleitor da periferia das regiões metropolitanas.

PAC 2 traz promessas eleitorais para ajudar Dilma nas grandes cidades

Tânia Monteiro e Renato Andrade
BRASÍLIA - O governo juntou 30 ministros, 18 governadores e centenas de prefeitos para apresentar ao País a segunda versão do Programa de Aceleração do Crescimento. Na prática, como deixaram claro os discursos, o PAC 2 é uma plataforma de promessas eleitorais da candidata do PT à sucessão presidencial, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Na solenidade, realizada ontem em Brasília, o grosso das promessas - mais casas, mais transporte, postos de saúde, água e luz para todos,saneamento, creches, quadras poliesportivas, praças públicas e postos de polícia comunitária - foi dirigido ao eleitor da periferia das regiões metropolitanas, onde estão concentrados os grandes colégios eleitorais.

A indefinição sobre os projetos e investimentos ficou tão evidente, embora o governo tenha citado cifras na casas dos"trilhões", que o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou o conjunto do PAC 2 de uma "prateleira de projetos" para o futuro governo.

Durante o mesmo discurso, o presidente anunciou que tinha desistido da viagem que faria hoje para Pernambuco a fim de inaugurar uma parte da FerroviaTransnordestina, por problemas com a obra. "Eu não estou contente com o que nós fizemos até agora", disse Lula, reconhecendo fragilidades do PAC 1.

Preliminar. Na página 31 do relatório do novo PAC, o governo admite que "os investimentos em habitação e saneamento, mobilidade urbana, pavimentação e equipamentos sociais e urbanos serão definidos entre abril e junho a partir do diálogo com Estados e municípios".

Na mesma página do relatório, ao tratar dos “investimentos em logística e energia", o governo federal admite que existe apenas uma seleção que tem "caráter preliminar". Assim como o PAC 1, o novo plano nasce como reunião de propostas e projetos que transitam pelos ministérios.

O PAC 1, lançado em janeiro de2007, tem 54% dos projetos que nunca saíram do papel, 11,3% das que transitam e 34,7% das propostas em andamento.

Para reforçar o viés da promessa eleitoral, o governo falou menos em grandes obras de infraestrutura e apresentou o novo programa como um plano que reúne seis PACs. Como a promessa de construção de uma usina hidrelétrica tem pouco apelo eleitoral, o Planalto tratou o PAC 2 como um conjunto de investimentos em que "o dinheiro público será transformado em qualidade de vida e um futuro melhor para os brasileiros".

Prazos. Os seis planos dentro da segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento são: PAC Cidade Melhor, PAC Comunidade Cidadã, PAC Minha Casa, Minha Vida, PAC da Água e Luz para Todos, PAC dos Transportes e PAC da Energia.

Ao ser questionada sobre prazos e cronograma de obrasdesses planos todos, a secretária de Acompanhamento e Monitoramento da Casa Civil, Miriam Belchior, foi taxativa: "Não temos bola de cristal."

Na solenidade, que durou duas horas e 40 minutos, o cerimonial do Planalto escolheu o governador Jaques Wagner, da Bahia, para representar os demais chefes dos Estados.

"Lula está refundando a nação brasileira", disse. Wagner é o governador petista candidato à reeleição que enfrenta a oposição do PMDB, do aliado federal e ministro de Lula, Geddel Vieira Lima (Integração Nacional). Já o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), ex-tucano e aliado incondicional do governador Sérgio Cabral (PMDB), discursou representando os colegas.

Ao se manifestar na cerimônia, o presidente da CUT, Arthur Henrique, defendeu o controle social da mídia. "A liberdade de imprensa não é liberdade privada", declarou ele. / COLABORARAM JOÃO DOMINGOS, EDNA SIMÃO, VERAROSA

Evento custa R$ 170 mil
O governo pagou R$ 170 mil à CUT Serviços de Festas e Eventos para "planejamento e organização" do lançamento do PAC 2. A contratação foi publicada ontem no Diário Oficial da União.

Para oposição, PAC-2 é uma 'fraude eleitoreira'

DEU EM O GLOBO

Em nota conjunta, PSDB, DEM e PPS criticam baixa execução do PAC-1 e campanha fora de hora de Dilma

Adriana Vasconcelos e Isabel Braga

BRASÍLIA. A oposição classificou ontem como uma farsa o lançamento da nova edição do Programa de Aceleração do Crescimento, o chamado PAC-2.

Em nota conjunta, PSDB, DEM e PPS denunciaram o caráter eleitoreiro do anúncio de investimentos estimados em R$ 1,59 trilhão, que teriam como objetivo principal turbinar a candidatura da petista Dilma Rousseff à sucessão presidencial. Os três partidos lembraram ainda que pelo menos 54% das obras incluídas no PAC-1 sequer saíram do papel e apenas 11% foram concluídas. A ideia dos tucanos, por exemplo, é explorar isso durante a campanha eleitoral.

O PAC-2 representa mais promessas de obras que não serão realizadas ou ficarão inacabadas.

Trata-se de uma grande fraude que será demonstrada na campanha, quando pretendemos mostrar as obras atrasadas, as que não saíram do papel e as que têm problemas segundo levantamento do Tribunal de Contas da União afirmou o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

No mesmo tom, o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), condenou a tentativa do presidente Lula de definir o programa de governo de seu sucessor: O governo não conseguiu terminar o PAC-1 e já lança o 2.

Parece filme de comédia e mostra que este governo não tem gestão, só pensa em eleição.

O Brasil precisa acordar para essa nova jogada de marketing do governo, que está mais para Programa de Aceleração de Campanha do que de Crescimento.

E o pior, lançam um programa e deixam a conta para o sucessor emendou o líder do DEM, José Agripino (RN).

Partidos podem entrar com nova ação no TSE Na nota divulgada ontem, a oposição não poupou de críticas nem mesmo as lágrimas vertidas pela ministra Dilma Rousseff: Sob lágrimas e promessas de fazer até o que cabe a governos estaduais e municipais, atuais e futuros, a candidata do governo, com pompa e circunstância, anunciou o PAC-2, um programa tão pretensioso quanto o primeiro, o PAC-1, que três anos depois de ser lançado tem 54% do que foi anunciado dormindo em gavetas da burocracia.

Para o líder do PSDB na Câmara, João Almeida (BA), em vez de chorar, Dilma deveria ter pedido desculpas pela baixa execução do PAC-1. Irônico, o líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), disse que já tinha reservado bilhetes para o trem-bala, um dos projetos listados no PAC-2: Foi um espetáculo de marketing eleitoreiro, uma atuação teatral da pré-candidata que, na falta de emoção, procurou as lágrimas provavelmente ouvindo o marqueteiro da Hillary Clinton.

O próprio presidente reconheceu que não tem nem 50% de execução do PAC-1: é a confissão de incompetência explícita.

Diante do viés eleitoral da solenidade preparada pela Presidência, os lideres de oposição admitiram que vão avaliar, com as assessorias jurídicas, se entram ou não com uma nova ação contra Dilma e Lula no TSE, acusando-os de propaganda eleitoral fora de época.

Oposição chama PAC 2 de eleitoreiro e quer ir à Justiça

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Da sucursal de Brasília

Lideranças da oposição classificaram ontem o lançamento do PAC 2 como eleitoreiro e devem ir à Justiça novamente por propaganda antecipada.

Integrantes do PSDB reagiram, no Congresso, às declarações da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que disse que o mandato de FHC "foi omisso".

O senador tucano Arthur Virgílio (AM) afirmou que as declarações de Dilma demonstram "mau humor de quem leu a última pesquisa e viu que não adiantou nada fazer campanha antecipada". Líder do DEM no Senado, José Agripino (RN) classificou o discurso da petista de "politicamente infantil".

PSDB, DEM e PPS distribuíram nota conjunta em que criticam o ritmo de execução do PAC. Segundo os partidos, só 11% das obras da primeira versão do programa foram concluídas.

"A responsabilidade por esse fiasco gerencial cabe à ministra Dilma. No afã de arranjar-lhe uma bandeira eleitoral, o presidente na verdade passou-lhe um atestado de incompetência", diz a nota.

Os três partidos se reúnem hoje para decidir se vão ao TSE (Tribuna Superior Eleitoral) contra Dilma e Lula. (Maria Clara Cabral e Noeli Menezes)

Em nota, PPS, PSDB e DEM afirmam que PAC 2 é pantomima eleitoral

DEU NO PORTAL DO PPS

As direções do PPS, PSBD e DEM divulgaram, nesta segunda-feira, nota em que classificam o PAC 2 de peça de campanha eleitoral custeada pelo contribuinte brasileiro. Os três partidos denunciam o fracasso do PAC 1, que teve apenas 11% das obras concluídas e perguntam: "se o primeiro programa está empacado, para que lançar o segundo? Não é o caso de terminar o começado?" Com a bandeira do PAC 2, o presidente Lula passou para a ministra Dilma Roussef, na verdade "um atestado de incompetência administrativa". Leia a íntegra da nota abaixo

"Pantomima eleitoral

Sob lágrimas e promessas de fazer até o que cabe a governos estaduais e municipais, atuais e futuros, a candidata do governo, Dilma Rousseff, com pompa e circunstância, anunciou o PAC 2, um programa tão pretensioso quanto o primeiro, o PAC 1, que três anos depois de ser lançado tem 54% do que foi anunciado dormindo em gavetas da burocracia, sem sequer sair do papel.

Para se ter uma ideia do quanto o discurso não tem relação com a realidade, apenas 11% das obras do PAC 1 foram concluídas, sendo que nos estados do Nordeste, região mais necessitada de obras de infraestrutura, essa percentagem cai para 4%. Seria demais perguntar, se o primeiro programa está empacado, para que lançar o segundo? Não é o caso de terminar o começado?

Fosse verdadeiramente desejo do governo melhorar as precárias condições de nossa infraestrutura, a resposta óbvia seria sim. Mas não é o caso do governo Lula e de sua candidata. O PAC 2 é mera peça de campanha eleitoral, movida às custas do contribuinte brasileiro. Cerca de 60% das obras inauguradas pelo governo nem mesmo estavam prontas.

Fica claro que não existe compromisso algum com o país. Passada a caravana do governo e de sua candidata; terminada a sessão de autoelogios do presidente, das críticas aos adversários e a imprensa; findo o comício em que a candidata e seu cicerone pedem voto de forma escancarada, afrontando a Justiça eleitoral, depois que as emissoras de TV filmam, as de rádio e os jornais fazem entrevistas, o palanque é desfeito e tudo volta a ser como antes.

Quem acredita que existe perspectiva de conclusão do que naquele palavrório foi prometido corre o altíssimo risco de se cansar de esperar, se frustrar e concluir que obras não virão dessa pantomima eleitoral.

A responsabilidade direta por esse fiasco gerencial cabe à ministra Dilma Rouseff, chefe da Casa Civil, apresentada ao país como a mãe do PAC.

No afã de arranjar-lhe uma bandeira eleitoral, o Presidente da República na verdade passou-lhe um atestado de incompetência administrativa.

Roberto Freire – Presidente Nacional do PPS
Senador Sérgio Guerra – Presidente Nacional do PSDB
Deputado Rodrigo Maia – Presidente Nacional do DEM
Brasília, 29 de março de 2010."

Especialistas veem viés eleitoral

DEU EM O GLOBO

Para eles, PAC-1 não foi concluído e momento não é adequado

Cristiane Jungblut

BRASÍLIA. O fato de a primeira fase do PAC estar inacabada e o momento político do lançamento do PAC-2, a poucos meses da eleição, foram pontos criticados ontem por cientistas políticos e economistas. Na visão dos especialistas, esses dois fatores enfraquecem a necessidade de lançamento do novo programa e reforçam a opinião da oposição de que o novo programa não passa de uma peça de campanha.

O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconhece que há essa confusão. Ontem, no discurso, disse que não lançou o PAC-1 em 2006 para que ele não fosse confundido com o período eleitoral, quando era candidato à reeleição, deixando para lançá-lo em 2007. Mas agora justifica que está lançando o PAC-2 a nove meses da eleição porque a intenção é criar uma carteira de projetos para o sucessor.

A melhor alternativa para o governo, na visão dos especialistas, teria sido aperfeiçoar o PAC original. Para o professor Ricardo Caldas, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), é inadequado o momento de lançamento do PAC-2. Ele argumentou que definir ações de longo prazo, até 2014, acaba se intrometendo no programa de governo do sucessor.

O ponto aceitável seria até 2011, isso seria o limite. Não temos como fugir de uma questão eleitoral, porque só ela (Dilma Rousseff) vai dizer que vai cumprir. O governo admite que só conseguiu executar 50% do PAC-1, então, não faz sentido lançar o 2. O mais lógico seria corrigir os problemas do PAC-1 disse Ricardo Caldas.

A professora de macroeconomia Margarida Guterrez, da Coppead/UFRJ, argumenta que o aumento de investimentos num país como o Brasil é sempre positivo, mas considera que, nesse caso, o PAC-2 acaba tendo impacto eleitoral. Para ela, é injustificável lançar o PAC-2 sem ter concluído o PAC-1: O Brasil precisa de investimento público, mas qual é o investimento prioritário? O PAC não se realizou, e está sendo lançado o PAC-2.

Por quê? Em 2009, eram R$ 28,5 bilhões, e o governo gastou R$ 17 bi e ainda vai lançar o PAC2? Isso foge a qualquer um que tenha o mínimo de bom senso. Embora possa ser um bem para a comunidade, já é mal visto (pelo momento político). A gente sabe que o PAC-2 tem fins eleitorais porque o PAC 1 não foi todo executado.

Ela acrescentou que o programa corre o risco de nascer morto, já que o Orçamento da União aprovado pelo Congresso é autorizativo e não impositivo, ou seja, o governante não precisa executá-lo fielmente.

Os investimentos são discricionários, não são obrigatórios disse a professora.

O economista Raul Velloso também aponta esse problema e disse que o governante em fim de mandato deve deixar sugestões para o sucessor em dezembro, mas não lançar um programa inteiro.

Peça de marketing:: Miram Leitão

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula governa o Brasil há 87 meses.

Faltam nove para acabar seus dois mandatos. Por que ele lança, assim no finalzinho, um programa para os próximos quatro anos e além? Para fazer campanha política, óbvio. O presidente alega que é para que o próximo governante não perca um ano sem saber o que fazer, mas para isso existe o Plano Plurianual, que vai até 2011.


Do PAC-1, anunciado em 2007, não se concluiu uma única obra de logística. Foram inaugurados alguns trechos de rodovias, mas de ferrovia não adianta inaugurar trechos.

A Ferrovia Norte-Sul andou, mas não ficará concluída.

A Ferrovia OesteLeste é só uma ideia na cabeça, que liga um porto sem estudo de mercado, sem projeto, sem licença, em Ilhéus, à Norte-Sul. A Transnordestina está parada pelas enormes complicações das desapropriações de minifundios no nordeste.

Os portos não foram dragados. O trem-bala precisará de mais dois anos para concluir o projeto. Começou custando US$ 11 bilhôes, hoje custa US$ 20 bilhões, e o governo diz que fará mais três trens-balas diz o professor de logística Paulo Fernando Fleury.

O truque dos números gigantes é somar o que pode vir a ser orçado com o que pode vir a ser investido pelo setor privado e com os futuros orçamentos das estatais.

Assim foi construído o número de R$ 503 bilhões anunciado em 2007. Depois, virou R$ 638 bilhões.

Destes, o governo considerou ações concluídas de R$ 256 bilhões, mas do Orçamento foram R$ 35 bilhões disse o economista Gil Castelo Branco, do site Contas Abertas.

Mas como 35 viram 256? Do total, mais da metade são empréstimos habitacionais de pessoa física com dinheiro do FGTS. Até reforma na sua casa se for com dinheiro da Caixa entra como ação do PAC diz Gil No balanço do PAC-1, o governo disse que R$ 88,8 bilhões foram investimentos do setor privado. O site Contas Abertas já perguntou insistentemente ao Planalto que empresas são estas.

Ainda não obteve resposta.

O governo alega que completou 40% do que se propôs a fazer nestes quatro anos, mas só concluiu 11%, segundo o site.

Para os próximos quatro anos, o governo Lula anuncia investimentos de cerca de R$ 1 trilhão. O número é outro ilusionismo, e o anúncio, feito agora, é truque eleitoral. De novo, reempacota-se dinheiro que já está aí, como o do FGTS, com investimento que pode estar no orçamento dependendo do próximo governo e possíveis investimentos privados e de estatais a serem feitos no futuro.

É uma forma de dizer, em linguagem de palanque: se o governismo vencer, é isso que o país terá. É também uma armadilha para o próximo governante, se não for eleita a candidata oficial. O próximo será cobrado em cada cidade, cada estado, cada região por não ter feito aquilo que Lula faria. E todas as ideias que são levadas ao governo são incluídas nessa verdadeira sacola de papai Noel.

A mensagem é clara: tudo isso só acontecerá se o governo continuar. Como disse o presidente da CUT, não podemos retroceder.

Ou como disse a ministra Dilma Rousseff: O neoliberalismo que nos antecedeu não tinha planejamento.

Antes, nós tínhamos o Estado que dizia não.

Era o Estado omisso.

Lula admitiu que não lançou o PAC-1 em 2006 para não confundir com as eleições.

A ministra fala do que acontecerá em 2011 como se não houvesse uma eleição no meio.

Tenho a felicidade de anunciar que haverá a democratização da água prometeu.

Os números mostram que, apesar dos sete anos e três meses do governo Lula e um PAC, os problemas de água e esgoto continuam enormes.

Segundo o presidente da Abcon (Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto), Yves Besse: 14,5 milhões de pessoas não têm acesso à água potável; 40 milhões sofrem com abastecimento descontínuo de água; 70 milhões não são atendidos por coleta de esgoto; 100 milhões não têm esgoto tratado.

Besse diz que o PAC-1 prometeu R$ 40 bilhões para quatro anos, pouco mais de 15% do necessário, mas não trouxe recursos novos, apenas reorganizou orçamentos como o do FAT (Fundo de Amparo do Trabalhador), sob controle da BNDES, e o do FGTS, sob comando da Caixa Econômica.

No ritmo atual de investimentos, o serviço de água e esgoto só vai ser acessado pelo total da população em 2070 afirmou.

Planejamento é necessário, mas isso que foi exibido ontem não foi planejamento.

A Constituição estabelece que seja feito, e passe pelo Congresso, o Plano Plurianual, e determina que ele não coincida com o período de mandato, exatamente para que não haja a paralisia que Lula teme que ocorra no ano que vem. O Plano atual vai até 2011. Claro que existem obras que não podem ser concluídas no período de quatro anos ou oito , mas não é razoável apresentar uma lista gigante de projetos que tomariam o próximo governo inteiro, a menos que fosse um programa de governo de candidato.

O empenho para pagar parte da festa saiu ontem no Diário Oficial. A empresa Swot, serviços de festas e eventos, receberá R$ 170 mil.

Um palco à altura para a despedida do mestre:: Miguel Caballero

DEU EM O GLOBO

No Maracanã, parentes e amigos lembram do homem que aliou o sonho dos poetas à objetividade dos jornalistas

O Maracanã abriu suas portas numa segunda-feira para que parentes e amigos se despedissem do jornalista Armando Nogueira. O velório ocorreu durante todo o dia na Tribuna de Honra do estádio, enquanto os telões exibiam foto e frases do cronista. Armando morreu por volta das 7h30m da manhã de ontem, em sua casa, no Rio, depois de luta contra o câncer. O enterro será hoje, ao meio-dia, no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Seu único filho, Armando Augusto Nogueira, o Manduca, falou comovido sobre sua relação com o pai.

Éramos mais amigos do que pai e filho. Ele foi meu amigo, mestre, chefe, também foi chefiado por mim.

Como o grande comandante que sempre foi, hoje ele pediu autorização da torre para decolar, certamente para um lugar muito bonito disse Manduca, também jornalista, lembrando da paixão do pai pela aviação. Ele contou que, mesmo debilitado, Armando não deixou de acompanhar os programas esportivos.

Nos últimos meses, já não falava, o que, para um homem da palavra, é doloroso. Mas esteve sempre lúcido, assistia aos programas.

Antigos amigos e companheiros de jornalismo rememoravam ontem histórias do homem que unia o talento com as palavras, típico dos grandes poetas, à objetividade e senso de notícia imprescindíveis aos melhores jornalistas. A importância de Armando para o telejornalismo brasileiro, participando da criação do Jornal Nacional, foi relembrada.

Ele criou nova linguagem para a televisão, que era essencialmente radiofônica.

Trouxe o rigor da apuração precisa, e sobretudo da ética. É interessante, pois o Armando, escrevendo, não economizava palavras, tinha um estilo quase barroco.

E criou, no telejornalismo, a linguagem da informação superobjetiva, e com um texto compreensível para toda a população brasileira disse o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho.

Academia de Ideias Armando Nogueira será criada no Maracanã Na mesma linha, outro companheiro de Armando por décadas na Rede Globo resumiu: Para sonhar, toda pessoa tem que ter o pé no chão. Todo grande poeta conhece bem a realidade afirmou José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

O jornalista Sérgio Cabral reverenciou o texto de Armando, seu amigo há mais de 50 anos: Fica a herança do bom texto.

Armando era machadiano. Sempre tentei imitá-lo, mas nunca consegui.

Amigo mais recente, o ex-jogador Júnior citou uma lição: Não esqueço o que ouvi do Armando quando virei comentarista: é possível elogiar sem bajular e criticar sem ofender disse Júnior.

O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes decretaram luto oficial de três dias. As homenagens oficiais prosseguirão com a criação, no Maracanã, da Academia de Ideias Aramando Nogueira.

Teremos um acervo sobre o Armando, referente às suas paixões: futebol, literatura, aviação. Será um espaço para discussão, aberto ao público, junto à visitação turística explicou a secretária estadual de Esportes, Márcia Lins.

Armando Nogueira, democrata e digno: Gilvan Cavalcanti

Nunca tive a felicidade de conhecer, pessoalmente, o grande jornalista, rigoroso e simples nos seus textos poéticos. O futebol para ele era arte, poesia. Revolucionou o jornalismo, levando-o para a televisão. Eram os tempos de ditadura militar. Difícil fazer jornalismo na televisão, sob censura, com um oficial militar verificando o que poderia ou não ir para o ar. Mas, passou no teste. Encontrava maneiras sutis de noticiar coisas que não eram de agrado dos donos do poder.

Mas, conheci o outro lado do mestre, desconhecido para muitos. Na clandestinidade, como dirigente estadual do PCB, no Rio Janeiro, nos idos de 1969, sempre me encontrava com os companheiros comunistas que trabalhavam na TV Globo. O local era muito conhecido à época: um Bar que ficava na esquina da Rua Jardim Botânico e Pacheco Leão.

Era comum nas conversas políticas sobre a conjuntura se falar de ajuda financeira para o PCB e apoio aos familiares de presos políticos e os companheiros perseguidos, os quais tinham de viver na clandestinidade, sem poder trabalhar.

Quando recebia as contribuições dos companheiros, mensalmente, eles citavam os colaboradores e entre os quais estava, sempre o do mestre Armando Nogueira. Lembro-me de um fato curioso. Numa dessas reuniões um companheiro falou assim: está faltando a contribuição de Nogueira. Levantou-se da mesa e foi até a TV, voltou, logo em seguida, sentou-se novamente à mesa e disse: agora, sim, está completa a contribuição.

Esse foi o Armando Nogueira que ficou na minha memória. Naqueles dias negros, difíceis que vivia o País. Não era atitude muito comum. Por isso o gesto do mestre mostrava o homem digno, democrata.

Orquesta Sinfónica de Xalapa en el concierto Tango Sinfónico, interpreta Libertango

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Morte e vida Severina (Auto de Natal Pernambucano) – parte 7::João Cabral de Melo Neto

O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM

— Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm a água vitalícia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira.
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina;
somente ali à distância
aquele bueiro de usina;
somente naquela várzea
um banguê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco na verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.