sábado, 22 de junho de 2013

MPL encerra protestos após detectar 'infiltrados' nos atos

Após conseguir revogar o aumento de R$ 0,20 das passagens de ônibus, trens e metrô em SP, o Movimento Passe Livre (MPL) anunciou que não convocará novas manifestações na capital. O motivo é a participação de skinheads e ativistas de causas consideradas conservadoras e não apoiadas pelo grupo, como criminalização do aborto e redução da maioridade penal.

MPL anuncia fim das convocações

Após realizar sete protestos nas ruas de São Paulo e obter a redução das tarifas de ônibus, trem e metrô de R$ 3,20 para R$ % o Movimento Passe Livre (MPL) suspendeu a convocação de manifestações na capital Os integrantes do grupo tomaram a decisão ontem. Ò motivo é a participação de ativistas de cansas não apoiadas pelo grupo, como a criminalização do aborto e a redução da maioridade penal.

De acordo com Nina Campello, integrante do MPL, o grupo não é contra a participação de partidos políticos em manifestações públicas nem pede que bandeiras de partidos sejam baixadas. "Somos apartidários (sem ligação direta com partidos), não antipartidários (contra a existência dos partidos)", afirmou.

Eles consideram que surgiram pessoas com objetivos conservadores, incompatíveis com o pensamento do Passe Livre, como representantes do neofascismo, especialmente na manifestação ocorrida anteontem na Avenida Paulista. O grupo, assim como os partidos políticos, foram obrigados a deixar a marcha que estava seguindo pela avenida por causa de ameaças de pessoas identificadas pelos integrantes dos partidos como integrantes de movimentos de ultra-direita - skinheads e carecas.

Com gritos a favor do Brasil e contra os partidos, esses grupos radicais acabaram tendo apoio da maior parte dos manifestantes que estavam ali, que não identificaram nas bandeiras políticas os grupos que apoiaram as reivindicações defendidas pelo MPL.

Futuro* Agora, segundo Rafael Siqueira, outro integrante do movimento, o MPL em São Paulo deverá suspender todas as convocações para decidir o futuro das reivindicações a respeito do transporte público - a reivindicação inicial do grupo, a redução da tarifa de transporte público, foi atendida - e urbanismo e como lidar com ativistas com objetivos contrários a seus ideais.

"A suspensão de novos atos não tem nada a ver com a participação de partidos", disse Siqueira. "A suspensão de novos atos é por dois motivos simples. A gente vai ter de analisar e fazer uma reflexão profunda com as pessoas que são aliadas da gente na luta contra o aumento, de que atitude tomar. Nada é feito por acaso. A segunda coisa é que muita gente da direita, com pautas que a gente discorda totalmente, estão se aproveitando dos atos", afirmou. "Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar exclui-las da luta que construímos juntos", diz texto.

Legalidade» O próximo passo já definido pelo MPL é propor um projeto de lei de iniciativa popular para implementação do transporte público gratuito na cidade. O grupo deve passar a colher assinaturas e enviar o texto para a Câmara Municipal.

Além disso, estão marcados para o domingo três atos públicos que vão servir para explicar melhor o movimento para a sociedade e discutir formas de melhor organizar o transporte público na capital. Os atos vão ser realizados nas zonas sul, leste e oeste.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Movimento suspende protestos, mas volta atrás

Passe Livre afirmou, pela manhã, que novos atos estavam suspensos

À noite, grupo divulgou nota dizendo que não foi bem interpretado e que os protestos vão continuar na cidade

Giba Bergamim Jr. Ana Krepp, Felipe Souza

SÃO PAULO - O MPL (Movimento Passe Livre) anunciou na manhã de ontem a suspensão, por tempo indeterminado, de novos atos na cidade de São Paulo depois da proliferação de protestos violentos pelo país.

No final da noite, entretanto, o movimento recuou e divulgou nota afirmando que os atos vão continuar na cidade.

Segundo Caio Martins, 19, um dos integrantes, as declarações dadas pelo grupo pela manhã não foram bem compreendidas. "Todo mundo publicou uma coisa num tom que não é isso. Você acha que vamos parar de fazer lutas? Não vamos", afirmou.

Segundo ele, o grupo vai agora planejar os novos atos, mas não há nada marcado.

"Protesto não é todo dia. Não temos data, mas uma hora vai acontecer. Acabamos de vencer, vamos vencer mais. Agora temos que formular o que vamos exigir."

Durante o primeiro anúncio, de interrupção dos atos, o Movimento Passe Livre afirmou que um dos motivos para a decisão foi a suposta "infiltração" de "grupos conservadores" nas manifestações.

O recuo foi decidido anteontem, depois que grupos "antipartido" hostilizaram manifestantes com bandeiras do PT, PSTU e PSOL durante um ato que serviria de "comemoração" pela redução da tarifa de transporte na capital.

Na noite de ontem, pouco antes da nova nota do MPL, movimentos sociais e partidos de esquerda começaram uma reunião para discutir a necessidade de apoio a novos atos que forem programados.

Redução

A escalada de protestos pelo país ganhou força a partir do último dia 6 em São Paulo, quando o Passe Livre levou 2.000 pessoas às ruas contra o aumento da passagem de R$ 3 para R$ 3,20.

Treze dias depois, já com a adesão dos protestos em pelo menos 12 Estados, São Paulo, Rio de Janeiro e outras seis capitais reduziram as tarifas.

As reduções foram anunciadas no dia 19, quando os protestos já reuniam 215 mil pessoas em todo o país. Anteontem, mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas.

"Conquistamos a reivindicação e, no momento, não faremos mais protestos. Vamos agora discutir para conquistar nosso principal objetivo, que é a tarifa zero", disse pela manhã Erica de Oliveira, 22, integrante do MPL.

Desde a última segunda-feira, o grupo vinha mantendo diálogo com o prefeito Fernando Haddad (PT) e seus interlocutores para que a tarifa fosse reduzida.

No entanto, líderes do movimento e integrantes do governo negam qualquer acordo para encerrar as manifestações após a redução do valor das passagens de ônibus, trens e metrô, que voltarão a custar R$ 3 a partir da próxima segunda-feira.

Para secretários de Haddad, o Passe Livre optou pela suspensão também por causa do desgaste sofrido com a disseminação dos protestos violentos, que já causaram duas mortes --em Ribeirão Preto e Belém (PA).

Já o movimento diz que a violência só ocorreu onde houve repressão policial.

Erica admitiu que, embora o MPL tenha coletivos em outros Estados, as manifestações ultrapassaram a questão do transporte público e, com isso, não havia maneiras de controlar atos país afora.

Estados como Pará não contam com representantes do Passe Livre e mesmo assim houve protestos.

Rafael Siqueira, do Passe Livre, disse que houve invasão de grupos "neofascistas".

"Eles entraram nos últimos atos para defender propostas que não nos representam", afirma. Ele cita entre as causas que surgiram a redução da maioridade penal.

Fonte: Folha de S. Paulo

BH espera milhares ocupando as ruas hoje

Mais de 120 mil pessoas estão confirmadas no Facebook para o protesto até o Mineirão

Na última segunda-feira, 20 mil pessoas ocuparam as ruas de Belo Horizonte rumo ao estádio do Mineirão

Joana Suarez

Há duas semanas, se alguém falasse que 100 mil pessoas iriam sair pelas ruas da capital mineira para protestar, seria difícil acreditar. Agora, no sétimo dia de manifestações, pode-se dizer que “O Gigante Acordou! – Belo Horizonte”. Foi com esse nome que uma página do Facebook conseguiu a confirmação de 122.476 internautas – até as 20h30 de ontem – para participar da mobilização que tomou conta da população brasileira.

“Pelo nosso direito de reivindicar que tudo melhore, que tudo mude”, dizia o trecho do texto na internet para chamar o povo à manifestação.

A principal concentração será a partir das 10h, na praça Sete, no centro da capital. De lá, o grupo segue em direção à avenida Antônio Carlos até o estádio do Mineirão, na região da Pampulha, onde estará ocorrendo o jogo entre Japão e México, pela Copa das Confederações.

Foram vendidos cerca de 50 mil ingressos para a partida, mas a expectativa é que no estádio tenha menos gente que do lado de fora. Hoje, os manifestantes querem mostrar diversas bandeiras: redução das passagens de ônibus, queda dos índices de criminalidade, melhorias na saúde, investimentos na educação, fim da corrupção, solução para os baixos salários etc.

Iniciantes. As mais de 120 mil pessoas confirmadas representam 5% da população belo-horizontina. Muitos que não puderam ir aos protestos durante a semana vão estrear hoje sua vontade de reivindicar, seja pelo o que for. É o caso das arquitetas Carolina Sacco e Ana Cecília Moreno, que vinham acompanhando o movimento pelo Facebook. “Não tivemos como largar o trabalho para ir antes, mas vontade não faltou. Acho que (o protesto) ainda precisa ter um objetivo definido para não perder a força, mas essa união das pessoas já é superválida”, fala Ana Cecília.

Outros que já vêm participando dos últimos protestos foram além. Um grupo de designers vai estar hoje na praça da Liberdade a partir das 10h para “silkar” e estampar camisas para as manifestações. Já foram doadas 200 camisas para o ‘Movimento 20 cents’. “Estamos nos oferecendo para criar estampas com os dizeres dos protestos.

Queremos que seja um trabalho educativo, contra a violência e a depredação”, afirma uma das organizadoras do evento.

Nova Lima. Por volta do 12h, manifestantes prometem fechar a BR-040, na altura do bairro Jardim Canadá, em Nova Lima. Reivindicando a redução no preço da passagem de ônibus e melhorias na infraestrutura do bairro, o grupo deve se concentrar em frente ao posto Chefão, na altura do km 552.

Na Pampulha. Trabalhadores da rede estadual de educação e servidores estaduais da saúde também têm um protesto marcada para este sábado (22). A concentração dos manifestantes está prevista para começar às 11h, na porta da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha. Segundo nota publicada no site do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), após a concentração, os manifestantes devem se juntar a outros protestos que acontecem na capital.

Segurança. Nas manifestações dos últimos dias e, principalmente, nas redes sociais, muitos falavam em romper os limites de segurança da Fifa no entorno do Mineirão e “testar” o trabalho de segurança da polícia, já que no protesto da última segunda-feira, que reuniu 20 mil pessoas, houve confrontos. O TEMPO fez uma cartilha orientando os manifestantes para que ocorra um evento pacífico.

Fonte: O Tempo (MG)

O Brasil precisa de respostas

- O pacto pela melhoria dos serviços públicos proposto por Dilma vai surtir efeito?

- A redução de R$ 0,10 nas passagens de ônibus acalmará os ânimos em Belo Horizonte?

- O Brasil corre o risco de a Fifa, em caso de novos distúrbios, tirar daqui a Copa?

- Devo deixar meu filho ir ao protesto que promete reunir milhares de pessoas hoje em BH?

- Terei segurança para ir e voltar do Mineirão esta tarde para o jogo México X Japão?

Depois das cenas de extrema violência da véspera o país acordou perplexo e mergulhado na incerteza. Há muitas dúvidas sobre que cenário prevalecerá hoje em BH, quando milhares de pessoas prometem marchar até o Mineirão, onde jogarão Japão e México. O governo do estado e a PM reafirmaram que não será permitido se aproximar do estádio e divulgaram os limites do protesto. Já a Fifa cobrou do governo segurança para as copas das Confederações e do Mundo.

Ontem, com menos gente nas ruas os protestos continuaram. O fechamento de rodovias no entorno da capital tumultuou o trânsito. No Rio, voltaram a chamar a atenção depredações e saques. Em pronunciamento a presidente Dilma repudiou a "minoria violenta e autoritária", garantiu que a ordem será mantida e propôs pacto com governadores e prefeitos por melhoria dos serviços públicos. Ela ainda defendeu a realização da Copa e pediu acolhida carinhosa aos estrangeiros.

Entre a mobilização, a tensão e a incerteza

Protestos se espalham pela Grande BH. Em Neves, policiais militares são baleados. Violência traz preocupação a famílias

Tiago de Holanda, Mateus Parreiras e Pedro Ferreira

Enquanto a onda de protestos deflagrada no início da semana se espalha, ganhando estradas e outros municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte, o acirramento dos ânimos nas ruas, com depredações, ataques e incêndios, faz crescer o temor entre familiares de jovens que participam dos atos. No Centro da capital, ontem foi o dia de menor mobilização, mas houve protestos no Barreiro e em Venda Nova e três prisões. A maior tensão, porém, ocorreu na Grande BH, onde a sexta-feira foi de caos, com fechamento de pistas, como a da BR-040, em Ribeirão das Neves, e filas quilométricas. Em Neves também foram registradas as ocorrências mais graves até agora associadas às manifestações, com três policiais militares baleados durante confrontos, a depredação da Câmara Municipal e a destruição de viaturas policiais e de um ônibus, ao qual vândalos atearam fogo. Episódios como esses fazem muitas famílias temerem pela segurança de quem pretende voltar às ruas hoje.

Nas manifestações que tomam ruas de Belo Horizonte desde segunda-feira, é fácil encontrar famílias inteiras, com cartazes, bandeiras do Brasil e rostos pintados. Alguns jovens participam até mesmo estimulados pelos pais, que chegam a dar orientações sobre como agir diante de tumulto ou conflito com a polícia. Porém, depois dos repetidos casos de violência, muita gente teme pela segurança dos filhos nas ruas.

"Se meus pais soubessem que estou aqui...", dizia uma garota, na noite de segunda-feira, enquanto corria de um confronto entre policiais e manifestantes na Avenida Antônio Carlos, na Pampulha. "Se meu pai souber que eu estou aqui, ele me mata", exclamou outra, na noite de terça-feira, encostada às grades do Parque Municipal Américo Renné Giannetti, enquanto vândalos encapuzados depredavam o prédio da prefeitura, na Avenida Afonso Pena, Centro de BH.

É esse tipo de situação que impede a participação de jovens como Áurea Araújo, de 16 anos, estudante do 2º ano do ensino médio. "Eu quis ir na quarta-feira, mas meus pais não deixaram. Alguns amigos meus não foram pelo mesmo motivo", conta. "É muito importante participar desse movimento. Os jovens estão mostrando sua insatisfação. Mas tem gente querendo fazer confusão. Ficamos com medo", explica o pai dela, o contador Luciano Vieira, de 42. "A causa é nobre, mas o rumo que as coisas estão tomando é preocupante", reforça a mãe, a médica Enda Araújo, de 39. Ela teme também a ação de policiais. "A PM está despreparada para encarar o momento. É um absurdo usar bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha", considera.

Para convencer a mãe a deixá-la participar da manifestação de ontem, na Praça Sete, Centro de BH, Carolina Campos, de 16 anos, disse que iria em grupo, embora soubesse que estaria apenas com a amiga Cínthia Santos, da mesma idade. As duas são estudantes do 2º ano do ensino médio. "Muitos colegas não vieram porque os pais não deixaram", contou Cínthia. Em casa, ela diz ser incentivada a ir aos protestos, mas sob muitas recomendações.

Na década de 1970, a médica Lídia Tonon, de 58, lutou pela redemocratização do país. "Eu era do diretório acadêmico do curso de medicina da UFMG. Corri muito de polícia em 1977, respirei gás lacrimogêneo. Tive vários colegas presos", relata. A filha dela, a estudante de economia Giulia Tonon, de 18, foi à manifestação de quinta-feira e planeja participar da que está marcada para hoje, com concentração a partir das 10h, na Praça Sete. "Sinto orgulho não apenas dela, mas desses jovens. É importante que se politizem. A última vez que vi algo parecido foi em 1992, no Fora, Collor", diz Lídia.

Contra os excessos

Ontem, em BH, a maior preocupação dos manifestantes era tentar manter a ordem e impedir excessos. Não houve vandalismo, o que encorajou muita gente a participar do grande ato previsto para hoje, que pretende reunir 130 mil pessoas, segundo o Movimento Vem pra Rua. De acordo com um dos organizadores, o estudante Vander Miguel do Nascimento, de 26, muita gente deixou de participar ontem para se preparar para hoje.

A técnica em contabilidade Eunice Pimentel, de 43, levou a filha Carolina, de 14, para a Praça Sete e hoje pretende voltar. "Quero um país melhor para os meus filhos e netos. O vandalismo me assusta, mas em BH as pessoas estão contra qualquer ato de violência. Vou voltar com minha filha e meus outros dois filhos", planejava. Contudo, ela diz que pretende sair diante de qualquer ato de violência. "Quem faz arruaça é bandido, e não jovem que quer mudar o Brasil", completou.

O securitário José Lopes Carvalho, de 46, levou o filho Brayan Nóbrega, de 10, para a manifestação de ontem, mas ficou com medo de haver confusão. "Sou a favor da manifestação sem violência. Vandalismo afasta as pessoas, esvazia o movimento e não me faz sentir totalmente seguro com meu filho aqui", disse. O mesmo receio tem a funcionária pública Ana Cristina Pereira, de 39 que estava acompanhada da filha Letícia, de 10. Ela acha que as depredações, como as registradas ontem na Grande BH, podem levar o povo a se afastar das manifestações.

Fonte: Estado de Minas

Economia em xeque: O desafio da confiança

Especialistas discutem se turbulência que o Brasil enfrenta é comum a todos os países emergentes ou se está na hora de rever a estratégia do Planalto.

Estratégia econômica em xeque

Baixo crescimento, inflação em alta e dificuldades para conter o câmbio ampliam as dúvidas sobre a condução da economia

Marcado por baixo crescimento e inflação alta, o cenário econômico do país – que anda confuso – ganhou nas últimas semanas novo complicador: a disparada do câmbio. A dúvida agora é se a alta do dólar é apenas reflexo da política monetária americana ou se o país passa por uma crise de confiança, como apontam alguns especialistas.

A segunda opção foi o diagnóstico do ex-presidente do Banco Central (BC) Henrique Meirelles ao seu antigo chefe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em encontro no início da semana para conversar sobre os rumos da economia brasileira. Para Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, o panorama brasileiro é menos catastrófico do que "alguns gostam de dizer", pois é semelhante ao de outros países emergentes.

Freitas critica o fato de o governo ter tentado suavizar o avanço do dólar antes da posição do banco central americano sobre a continuidade do programa de estímulos à atividade econômica, estendido até o final do ano, quando será reduzido.

– Isso passou uma sensação de descontrole. O BC agia e não conseguia segurar o avanço. Era melhor esperar subir forte e agir de uma vez só – reflete Freitas.

Desde maio, o BC fez 10 intervenções no mercado cambial para evitar a alta do dólar. Para esquentar o já nervoso mercado financeiro, surgiu o rumor – desmentido rapidamente pelo Planalto – de que em conversa com a presidente Dilma Rousseff, Lula teria sugerido a substituição do ministro da Fazenda, Guido Mantega, por Meirelles.

A volta do banqueiro ao governo seria positiva, segundo alguns especialistas. A substituição de Mantega seria estratégica para recuperar a confiança dos investidores.

– A expectativa com o futuro é o que importa. E Mantega já perdeu a credibilidade – avalia o analista de risco político Alexandre Barros.

A visão é compartilhada por outro ex-diretor do BC, Carlos Eduardo de Freitas. No entanto, ele duvida que Meirelles aceite convite para ser ministro de Dilma:

– Ele só aceitaria se tivesse carta branca, como tinha de Lula. A presidente Dilma tem suas próprias ideias como economista, o que torna o relacionamento mais complicado.

Fonte: Zero Hora (RS)

PT quer controlar protestos, diz Aécio

Para o presidente do PSDB, o "oportunismo" petista ameaça a segurança dos filiados ao incentivar a ida deles às ruas

BRASÍLIA - O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), divulgou nota ontem em que acusa o PT de tentar se apropriar das manifestações que ocorrem no país, numa prática de "oportunismo" em meio à insatisfação da população brasileira.

Na nota, o tucano diz que a postura do partido da presidente Dilma Rousseff pode colocar em risco inclusive a segurança dos filiados ao incentivar que saiam as ruas com bandeiras e símbolos da sigla.

"Trata-se de decisão irresponsável que desrespeita o sentido apartidário dos protestos, colocando em risco, inclusive, a segurança dos próprios militantes, alguns deles hostilizados ontem (anteontem) em várias partes do país", afirmou Aécio, ao se referir ao apelo do presidente do PT, Rui Falcão, para que os petistas vestissem vermelho, colocassem símbolos da sigla e fossem às ruas.

O senador também cobrou, da presidente Dilma Rousseff um pronunciamento à nação para comentar os protestos que mobilizaram mais um milhão de pessoas esta semana. A presidente falou ontem à noite, em rede nacional.

Apesar de tentar vincular o PT aos protestos, o tucano reconhece que todos os agentes políticos precisam de "humildade" neste momento para reconhecer e compreender a dimensão da insatisfação existente hoje no Brasil.

"É importante que nós, agentes políticos, tenhamos humildade para reconhecer e compreender a dimensão da insatisfação existente hoje no Brasil e que ultrapassa o plano das reivindicações pontuais.", declarou o senador.

"Há um evidente e justo clamor que une a sociedade por mudanças estruturais na gestão do setor público e é inevitável ver, na raiz dessa insatisfação, uma aguda crítica à corrupção e à impunidade que persistem na base do sistema político, impedindo transformações e agredindo diariamente os brasileiros", diz o tucano, na nota.

Os petistas se articularam, nas redes sociais, para que a militância saísse com bandeiras vermelhas e gritos de apoio à presidente Dilma e ao partido - numa tentativa de reduzir os desgastes dos protestos à imagem do governo.

Fonte: Jornal do Commercio (PE

CNBB: Ouvir o clamor que vem das ruas

Os bispos manifestam "solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens". A presidência da CNBB apresentou a Nota em entrevista coletiva e o documento foi aprovado na reunião do Conselho Permanente concluída na manhã desta sexta-feira, 21 de junho.

Leia a Nota:

Ouvir o clamor que vem das ruas

Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunidos em Brasília de 19 a 21 de junho, declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo brasileiro e o desperta para uma nova consciência. Requerem atenção e discernimento a fim de que se identifiquem seus valores e limites, sempre em vista à construção da sociedade justa e fraterna que almejamos.

Nascidas de maneira livre e espontânea a partir das redes sociais, as mobilizações questionam a todos nós e atestam que não é possível mais viver num país com tanta desigualdade. Sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude. São, ao mesmo tempo, testemunho de que a solução dos problemas por que passa o povo brasileiro só será possível com participação de todos. Fazem, assim, renascer a esperança quando gritam: “O Gigante acordou!”

Numa sociedade em que as pessoas têm o seu direito negado sobre a condução da própria vida, a presença do povo nas ruas testemunha que é na prática de valores como a solidariedade e o serviço gratuito ao outro que encontramos o sentido do existir. A indiferença e o conformismo levam as pessoas, especialmente os jovens, a desistirem da vida e se constituem em obstáculo à transformação das estruturas que ferem de morte a dignidade humana. As manifestações destes dias mostram que os brasileiros não estão dormindo em “berço esplêndido”.

O direito democrático a manifestações como estas deve ser sempre garantido pelo Estado. De todos espera-se o respeito à paz e à ordem. Nada justifica a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento à liberdade de ir e vir, de pensar e agir diferente, que devem ser repudiados com veemência. Quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao descrédito.

Sejam estas manifestações fortalecimento da participação popular nos destinos de nosso país e prenúncio de novos tempos para todos. Que o clamor do povo seja ouvido!

Sobre todos invocamos a proteção de Nossa Senhora Aparecida e a bênção de Deus, que é justo e santo.

Brasília, 21 de junho de 2013

Cardeal Raymundo Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB
Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís
Vice-presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB

A polissêmica voz das ruas - Marco Aurélio Nogueira

Pode haver dificuldade para compreender o que anda a ocorrer nas cidades brasileiras desde o início de junho. Mas não faltam teorias, pesquisas e conceitos. O que falta e análise política, análise concreta da situação concreta: humildade, trabalho paciente, espírito indagador e disposição metodológica para articular a estrutura e a superestrutura, a sociedade e o Estado, os interesses, as classes, os valores, a correlação de forças, de modo a que se alcance uma visão de conjunto das molas que fazem com que as pessoas tomem partido e ajam, buscando captar ao mesmo tempo suas implicações e possíveis repercussões.

Isso acontece porque os teóricos sociais não são imediatamente analistas políticos nem a academia é o loais mais adequado para que se façam análises políticas. Essas proliferam com mais facilidade na vida política organizada, onde a correlação de forças ganha materialidade e explicita sua lógica. Fora dela, preponderam boas intenções, poesia, abnegação e ética da convicção, uma racionalidade específica. Se faltam quadros intelectuais, espaços de reflexão e adensamento cultural para a democracia organizada, se os partidos deixaram de ser usinas de ideias e valores, então a análise política sofre para respirar, confundindo-se com a vocalização midiática de solidariedades, com o cálculo eleitoral ou com a crônica jornalística.

Daí a sensação de que os protestos não estão a ser compreendidos, a surpresa diante da rapidez com que eles se espalharam pelo País, causando arrepios e estupor nos políticos e júbilo e entusiasmo em muitas faixas da população. Daí o defensivismo conservador de tanta gente, movida ou pelo medo ou por uma visão elitista da história.

A polissêmica e vibrante voz das ruas, que agora atingiu alto e bom som, tem que ver com a emergência de um novo modo de vida e o esgotamento de um modo de fazer política. Associa-se a uma percepção social de que sociedade está excluída da are-m pública e quer nela ser reconhecida e dela participar. Há muita luta por identidade e reconhecimento no momento atual, além de muito desejo de participação.E tem que ver, sobretudo, com uma correlação de forças que se sedimentou no País ao longo das últimas décadas, formatou um modelo de crescimento e de ascensão social, prometeu mundos e fundos, obteve algumas conquistas, mas criou muitas ilusões e muita insegurança, jogando a sociedade numa armadilha, da qual ela agora mostra querer se libertar.

As vozes dos protestos são amplas, ligam-se por fios que vão da postulação de direitos à contestação da maneira como o País, os Estados e os municípios vêm sendo governados. Escapam ruidosamente da polarização PT x PSDB, mostrando que ela não faz mais sentido. Veem nesses partidos os responsáveis principais pela consolidação de uma prática política que afastou a sociedade do Estado e se mostrou inoperante para renovar e requalificar a política, a democracia e a vida institucional.

São jovens na maioria da ("Velha") classe média porque são eles que têm mais informação, maior disponibilidade e mais energia contestadora. Até certo ponto, também são eles que têm mais a perder (ou menos a ganhar) com a reprodução do estado de coisas atual, que lhes cortou as perspectivas. Mas não são somente eles. Há jovens e não tão jovens que representam outros segmentos, há os que vão às mas por solidariedade ou para demonstrar repulsa à violência, assim como há os que fazem isso por motivações eleitorais e os que vão para zoar, quebrar ou fazer festa. Todos de algum modo dizem: queremos um futuro, que vocês, políticos, empresários, partidos, estão nos impedindo de ter. Não estão totalmente errados.

As vozes são polissêmicas porque nelas cabe tudo. Não há tema ou problema que lhes passe despercebido. São assim porque os problemas sociais são enormes e porque o movimento que as embala não aceita hierarquias, comandos ou planejamento - não tem lideranças nem dirigentes, ainda que este ja organizado e siga algum tipo de plano.

Nessa polissemia que se auto-organiza estão a beleza e a força dos protestos, aquilo que lhes dá impulso e oxigênio. É um avanço político extraordinário que as vozes das ruas estejam sendo | ouvidas. Elas poderão ser a plataforma de lançamento de um novo ciclo democrático no País. O ruído, o atrito, o conflito, a contestação desempenham, assim, papel eminentemente de alerta, de advertência, que somente os pobres de espírito e inteligência poderão desprezar.

O recuo dos prefeitos e governadores no caso das tarifas prova ao mesmo tempo a força do movimento e o despreparo do sistema político. Pode ser um exagero dizer isso, mas tudo leva a crer que não se poderá mais governar como antes. O silêncio dos políticos é constrangedor. A arrogância das cúpulas e das elites - de direita, centro e esquerda - terá de arrefecer. Entramos em outra dimensão. O próprio movimento terá de se reposicionar, após as primeiras conquistas. Na medida em que vierem à tona os desdobramentos da contestação, formas mais organizadas haverão de surgir, sob pena de os protestos serem engolidos por outras dinâmicas. Uma agitação não constrói decisões: pede e exige, mas precisa de articuladores (políticos, partidos, gestores) para que se formate uma agenda. Para que reivindicações cheguem ao Estado, não bastam as redes sociais. Não se trata de lideranças, mas de instâncias que coordenem, processem e lancem pontes para o Estado.

Se o feiticeiro ativou forças com sua magia, não se deve deixar que ele perca o controle sobre elas. O pior que pode acontecer é o movimento desenhado nas mas ser capturado pelo sistema, pelas "forças da reação" ou pela estupidez dos desmiolados.

As mas não têm dono nem voz uníssona e uma hora ou outra baterão no teto. E, quando isso acontecer, poderão se deixar arrastar pelo primeiro demagogo que souber seduzi-las. Populistas de plantão estão de olho nelas. Como sempre.

Professor titular de Teoria Política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da UNESP

Fonte: O Estado de S. Paulo

O que vem depois da queda da tarifa? - Luiz Eduardo Soares

Há uma semana escrevi sobre o movimento pelo "passe livre" (www.luizeduardosoares.com), chamando a atenção para o fato de que o novo surpreende e assusta, porque rompe a estabilidade das expectativas, coloca em xeque nossos esquemas cognitivos, revela a precariedade da ordem social e evoca o espectro de nossa finitude. Somos levados a reconhecer que não apenas a vida humana é frágil como aquilo que chamamos "realidade" é débil e movediço. Por isso, o desconhecido tende a suscitar em nós reações defensivas e explicações que funcionam como a confirmação do que já se sabe - ou se supõe saber. Se o propósito é conhecer, devemos buscar, com humildade, a compreensão autorreflexiva e a desnaturalização das descrições correntes. Até porque todo esforço de entendimento é também ação política.

Na sequência, expus o que sabia e, mais importante, formulei perguntas sobre o que não sabia. Descrevi as cadeias metonímicas que conectam questões conjunturais a dilemas estruturais - as desigualdades como pano de fundo -, e analisei o diálogo tácito do movimento com o imaginário global e o vocabulário das ocupações, formando uma espécie de hipertexto virtual, tecido por citações recíprocas. Finalmente, concluí com otimismo: "A força da multidão foi reencontrada por jovens e cidadãos que passam perto e se deixam atrair pelo magnetismo de um pertencimento precário, provisório, sem rosto, mas com alma. Que alma tem o movimento? Sim, intuo, suponho, sinto que ele tem alma, isto é, uma unidade toda sua - não verbalizada - e uma personalidade. Intuo que esta alma não seja aquela que se derivaria - como o negativo ou o avesso - de uma comparação com o que sabemos: não sendo, o movimento, organizado ao modo antigo, deduzir-se-ia que seria inorgânico; não tendo uma plataforma clara e uma visão compartilhada que incorporasse as mediações, deduzir-se-ia que seria irracional, despolitizado, quando não selvagem. (...) Há no movimento magnetismo, há conexão metonímica com questões centrais para o Brasil e o mundo, há um diálogo tácito, consciente e inconsciente, com a humanidade em escala planetária, com nossa memória social e com a tradição de nossa cultura política. (...) De nossa parte, os anciãos e os governantes, autorreferidos e inseguros, ameaçados em nossos esquemas cognitivos e práticos, caberia escutar, acompanhar, respeitar, repelir a violência policial (e qualquer outra), admitir nossa ignorância, e considerar a hipótese de que algo novo esteja surgindo e essa novidade talvez seja virtuosa e republicana, quem sabe a reinvenção da política democrática. Talvez a melhor forma de escutar seja unir-se ao coro, na rua. Para (re)aprender a falar".

Fiz o que sugeri: uni-me ao coro na rua. Haveria muito a dizer, mas não quero ocupar o espaço com o depoimento do velho peregrino, percorrendo a Rio Branco acossado por memórias de outras jornadas. Prometo poupá-los do tom confessional. Entretanto, antes de mudar o canal, mantenho a primeira pessoa para compartilhar o que vi, assombrado e comovido. Assisti a uma cena inverossímil: lado a lado, 100 mil pessoas em festa celebravam o estar ali e evocavam o que ainda não é, enquanto, silenciosa e inadvertidamente, sepultavam o que havia sido, seguindo o doloroso cortejo no funeral do PT.

A imagem dupla - épica, no lado A, trágica, no verso - me ocorreu pela via dos cinco sentidos e da emoção, mas firmou-se, analiticamente. Era isso mesmo. O argumento é simples: a maioria dos presentes era estudante. A UNE esteve lá, bem no centro da praça, no meio da festa, sob a forma de uma ausência fulgurante e um silêncio estridente, preenchidos pelo protagonismo emergente dos jovens indignados. O novo personagem coletivo nasceu sobre os despojos da entidade, descaracterizada pela cooptação dos governos petistas e pelo aparelhismo do PCdoB. E onde estavam tantos outros personagens coletivos de nossa dramaturgia política popular e democrática? Muitos deles trocaram a autonomia pelas benesses do poder, sem perceber que a cooptação esteriliza. O preço dos privilégios é a impotência.

Ao PT que venceu, o país deve muito. Os governos Lula, e mesmo Dilma, ficarão na História como marcos fundamentais na redução das desigualdades. Contudo, quais têm sido suas contribuições para o aprimoramento da democracia e para a mudança das relações entre Estado e sociedade, governos e movimentos sociais?

Pode-se ostentar a arrogância tecnocrática e abraçar Maluf, porque os fins sempre justificariam os meios? Os apologistas petistas do pragmatismo ilimitado não se deram conta de que os meios são os fins, quando a perspectiva adotada é a confiança da sociedade no Estado, em especial a credibilidade do instituto da representação. Hoje, tantos que acreditaram na dignidade da política vagam sem norte como zumbis da desilusão. E a juventude procura um caminho para chamar de seu. São dez anos de PT no poder: uma geração não o conheceu na oposição e não sabe o que é um grande partido de massas, não cooptado, comprometido com as causas populares e democráticas, entre elas e com destaque a reinvenção da representação política e a confiança na participação da sociedade como antídoto ao autoritarismo tecnocrático. Por mais que se façam críticas pertinentes à forma partido, é indiscutível sua importância na transmissão de experiências acumuladas e na formação da militância. Até a linguagem das massas nas ruas tem sua gramática. A espontaneidade é a energia, mas a organização a potencializa e canaliza.

No momento em que emerge o novo protagonismo, com compreensível mas perigosa repulsa por tudo o que de longe soe a partido, deparamo-nos com o vácuo oceânico produzido pelo esvaziamento do PT como agente político independente, esvaziamento por sua vez provocado pela sobreposição entre Estado, governo e partido.

O Movimento pelo Passe Livre declarou à nação que o rei está nu, proclamou em praça pública que a representação parlamentar ruiu, depois que, capturada pelo mercado de votos, resignou-se a reproduzir mandatos em série, com obscena mediocridade, sem qualquer compromisso com o interesse público, exibindo o mais escandaloso desprezo pela opinião pública. O colapso da representação vem ocorrendo sem que as lideranças deem mostras de compreender a magnitude do abismo que se abriu - e aprofunda-se, celeremente - entre a institucionalidade política e o sentimento da maioria. As denúncias de corrupção se sucedem, endossando a visão negativa que, injustamente, mas compreensivelmente, generaliza-se.

E o futuro? O movimento omnibus tem diante de si os mais variados cenários, e outros a inventar. Seu destino provavelmente dependerá de sua capacidade de diferenciar a crítica política da crítica à política, e de não confundir a rejeição ao atual sistema político-eleitoral, e partidário, com uma recusa da própria democracia, em qualquer formato. Essas distinções provocarão divisões internas profundas e inconciliáveis, que já estão aflorando. Toda essa magnífica energia fluirá para o ralo do ceticismo, abrindo mais um ciclo de apatia? A indignação encontrará traduções autoritárias e ultraconservadoras? Múltiplos afluentes seguirão cursos inauditos, nos surpreendendo com sua criatividade e mudando o país, no âmbito da democracia? As respostas não dependem só do movimento, mas também dos que não têm participado e das lideranças governamentais e parlamentares.

E as polícias? O debate sobre a desmilitarização está posto. É urgente incluir na agenda a refundação do modelo policial brasileiro, para estender à segurança pública a transição democrática. Polícia é tema decisivo. Se o relacionamento entre a sociedade e o Estado está no epicentro do movimento, as polícias também estão. Afinal, o policial uniformizado na esquina é a face mais tangível do Estado para a maior parte da população. Não haverá democracia enquanto o Brasil for campeão da brutalidade policial contra negros e pobres.

Luiz Eduardo Soares é antropólogo, escritor, professor da UERJ

Fonte: Prosa / O Globo

Cristovam quer extinção dos partidos

Senador ocupa a tribuna e afirma que, diante das manifestações nas ruas, é preciso abolir os partidos no País

BRASÍLIA - Em discurso ontem na tribuna da Casa, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) defendeu a extinção dos partidos políticos no Brasil. Ao comentar as manifestações que se multiplicam pelo país, Cristovam disse que para atender às reivindicações dos manifestantes "é necessário abolir os partidos". "Talvez eu radicalize agora, mas acho que para atender o que eles querem nós precisaríamos de uma lei com 32 letras: estão abolidos os partidos, estão abolidos todos os partidos. Isso sensibilizaria a população lá fora. Hoje, nada unifica mais todos os militantes e manifestantes do que a ojeriza, a desconfiança, a crítica aos partidos políticos", afirmou.

O senador disse que talvez seja a hora de dizer: estão abolidos todos os partidos para colocar outra coisa em seu lugar. Cristovam citou a ex-senadora Marina Silva, que articula a criação do partido Rede de Sustentabilidade, ao afirmar que sigla vai entrar no mesmo sistema das demais que já existem no país.

"Mesmo que o partido (Rede) tenha o nome do que não é partido, é partido: teve de conseguir as assinaturas, vai entrar no mesmo sistema, vai receber fundo partidário, porque espero que a lei que o proíbe de receber não passe aqui."

O senador defendeu a reorganização dos agentes políticos brasileiros com a criação de um novo formato de partidos e da maneira de fazer política. "Nossos partidos não refletem mais o que o povo precisa com seus representantes, nem do ponto de vista do conteúdo, nem do ponto de vista da forma."

O parlamentar também defendeu a realização Assembleia Constituinte exclusiva para discutir reforma política - no prazo máximo de um ano. A reforma, na opinião de Cristovam, deve incluir permissão para o chamado voto avulso, em candidatos não filiados a nenhum partido. "Creio que essa é uma proposta que poderia levar à revolução. Não há manifestação de um milhão de pessoas em um dia que não exija uma revolução." Na opinião do senador, os milhares de manifestantes não vão aceitar nada menos que um revolução no país.

Discursos

Desde a noite de quinta-feira as manifestações realizadas em diversas cidades do país dominam os discursos dos senadores. Eles mantiveram a sessão plenária até pouco depois da meia-noite, numa espécie de vigília paralela aos protestos nas ruas. Os poucos que permaneceram no plenário, no máximo cinco senadores, se revezaram em discursos para comentar as manifestações.

Os senadores Pedro Taques (PDT-MT) e Pedro Simon (PMDB-RS) também defenderam a convocação de uma Assembleia Constituinte para discutir exclusivamente a reforma política - principal reivindicação dos manifestantes, na opinião dos congressistas. "Quando o senador Cristovam fala em convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, eu entendo o porquê. É porque ele, como toda a sociedade, não acredita no Congresso Nacional, duvida que nós façamos alguma emenda positiva a favor do povo brasileiro", disse Simon.

Vice-presidente do Senado, o senador Jorge Viana (PT-AC) afirmou que os protestos nas ruas do Brasil não miram em nenhum partido ou governo, mas no sistema político em geral. "Não há uma ação direta contra governo A, B, C ou D, mas contra tudo e contra todos. É um questionamento às instituições", afirmou o petista.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Ferreira Gullar: 'Se isso desandar, pode dar em desordem muito grande’

Escritor vê com ressalvas questionamento do poder constituído, mas avalia que seus "donos têm que botar as barbas de molho"

Aos 82 anos, o escritor Ferreira Gullar, que participou da organização da Passeata dos Cem Mil, em 1968, e foi às ruas pelas Diretas Já, em 1984, vê as manifestações recentes como resultado de uma mobilização sem precedentes no País.

"Eu nunca vi manifestações de tal proporção, e durante tanto tempo", disse Gullar. "O grande problema é para onde isso vai, pelo fato de não ter organização política por trás."

O escritor diz ser "impossível saber o desdobramento disso", mas avalia que "os donos do poder têm que botar as barbas de molho,"

Em sua opinião, em que vão resultar os protestos?

E imprevisível. Falam que é a mesma coisa que está acontecendo na Europa, mas não é. O problema da Grécia, Espanha, Turquia, Síría, não é o nosso. O que é comum é a mobilização das redes sociais, mas não é um fenômeno internacional

Estávamos subestimando os Jovens?

Ver os jovens com aqueles cartazes reivindicando coisas é fundamental. Existe uma juventude disposta a brigar. Isso pode ajudar a mudar a qualidade da política brasileira, mas não é do dia para noite. A maioria é classe média, não é o pobre, porque esse ganhou o Bolsa Família.

O que o sr. acha da pauta de reivindicações?

São questões importantes que estão sendo colocadas e que implicam uma mudança profunda de muitas coisas que estão estabelecidas. Se isso desandar, pode dar em desordem numa escala muito grande. Meu medo não é com relação aos baderneiros, e sim com relação à solução política. Está sendo questionado o poder constituído, é o Congresso, é o Executivo, os governos estaduais, prefeituras, que foram eleitos democraticamente. Acho que devia ser procurado o diálogo.

Como comparar essas manifestações atuais com a Passeata dos Cem mil, as das Diretas Já e as do Fora Collor (em 1992)?

Em 68, a própria ideia de ir para a rua se manifestar era algo muito arriscado, porque a polícia atirava com bala de verdade, não de borracha. Como manifestação de massa, essa é a maior que eu vi. Maior que a de 68 e as outras de depois. É impressionante a quantidade de gente, sem ter partidos organizando. Em 68, a igreja participou, sindicato, entidades participaram, ajudaram a organizar. Agora foi mais espontâneo.

Como vê a recusa dos manifestantes em se vincular a partidos?

O movimento é contra todos os partidos, Diima, Lula. Eles foram rechaçados. Os manifestantes tem razão de não quererem partidos. Os donos de poder tem que botar as barbas de molho. E o povo desorganizado fazendo reivindicações pertinentes e sérias. No Egito, na Líbia, os grupos se organizaram para disputar o poder. Aqui o poder é eleito, Isso não deve e não pode acontecer.

Não se previu o que viria... Escrevi um artigo meses atrás dizendo que, como UNE, CUT e os sindicatos foram apropriados pelo governo, o povo não tem representação, a única saída era ir para a rua desorganizados...

Fonte: O Estado de S. Paulo

O legado das ruas - Rosiska Darcy de Oliveira

Rios de gente invadem as cidades. Transborda o descontentamento. Não foi súbito nem inexplicável. Há muito tempo jovens lotavam as avenidas virtuais por onde passam as redes sociais protestando contra a humilhação a que estávamos submetidos.

Quantos assinaram a Lei da Ficha Limpa, o que de melhor se fez como ação cidadã nesses últimos anos? Aprovada, Renan Calheiros foi eleito pelos seus pares presidente do Congresso. E gargalhou.

Quantos festejamos o resultado do julgamento do mensalão em que o Ministério Público teve um papel fundador? Um obscuro deputado do PT pariu um monstrengo, a PEC 37, tentando paralisar o MP enquanto a execução das sentenças vai sendo posta em risco por chicanas jurídicas que desmoralizam a Justiça.

Quantos pedimos a saída imediata do infelicíssimo Feliciano, cuja incurável doença do ódio quer curar o amor alheio, na contramão da sociedade que avança no sentido das liberdades, propulsada sobretudo pelos jovens que delas não vão abrir mão? Feliciano preside a Comissão de Direitos Humanos, cada vez mais cinicamente agressivo graças à inércia e à cumplicidade de todos os partidos.

Cresceu a percepção de que a Casa em que deveriam se refletir nossos interesses se transformara em um depósito do lixo da corrupção. Somados, somos quantos milhões? Quantos milhões de roubados, de traídos?

O que está acontecendo é novo por sua amplitude e pela rapidez da mobilização. Mas o desgosto e a indignação são antigos. A juventude supostamente apática, desmiolada, desinteressada do país, sem história, está aí, fazendo a sua e a nossa história Se a fagulha foram vinte centavos, convenhamos que menos que isso estava valendo a dignidade da população.

Um abismo separa a sociedade brasileira de seus representantes deixando no ar o inadiável repensar do sistema político que perverte a democracia representativa, que já não representa ninguém como dizem, com razão, os cartazes nas ruas. E, ao dizê-lo, longe de atacar a democracia, os manifestantes a estão revitalizando em sua expressão contemporânea. Esse o primeiro legado do movimento.

O escárnio passou da conta. Quanto mais zombavam de nós e frustravam nossas esperanças, mais o protesto virtual ganhava corpo. Veio às ruas, em carne e osso.

A truculência da polícia argumentou com balas de borracha. A violência policial tem como outra face da sua moeda podre o vandalismo, minoritário e boçal. Ambas atentam contra a democracia. A violência da polícia é responsabilidade do Estado. A dos vândalos - eufemismo para perigosos pescadores de águas turvas - é responsabilidade do Estado e do movimento de protesto, a quem cabe isolá-los, condená-los, demarcando-se de quem nada tem a ver com seu espírito amplo e luminoso, que não rima com incendiar uma das joias da arquitetura mundial, o Palácio Itamaraty. Gente encapuzada, bestas-feras que agridem o patrimônio público, deve ser investigada e punida. De onde quer que venha, violência nunca mais há de ser outro legado do movimento.

O movimento que está nas ruas não é pré-político como já foi dito, mas pós-política. É contemporâneo de novas formas de comunicação e ação pública. Habita o mundo complexo da interlocução imediata entre jovens e adultos de uma classe média que vem se expandindo, suficientemente informada para criticar a má qualidade dos serviços públicos, consciente de que a corrupção conta a história desse desastre. Corrupção nunca mais, legado maior da voz das ruas.

Inútil interpretar o movimento com os instrumentos da velha política, esvaziando-o de seu ineditismo. Viciados nos seus próprios métodos, os políticos, Maquiavéis de quinta categoria, perguntam-se a quem aproveita, temendo-se uns aos outros, penetras na festa em que são mal vindos. Incapazes de enxergar fora de seu mundo autista que há vida lá fora, não percebem que essa massa que canta o Hino Nacional, cujo mal-estar atingiu um ponto crítico, não está a serviço de ninguém senão de si mesma, de sua justificada aspiração ao bem viver.

A agenda fala por si: saúde, educação e transporte, serviços essenciais ao bem-estar. Bom governo, transparente, honesto e eficiente. E a liberdade de cada um viver a sua própria vida. Na linha de frente da manifestação de Brasília, um arco-íris desafiava o céu trevoso dos fundamentalistas.

Quanto aos governantes serão doravante julgados pela resposta que forem capazes de dar a esta incontornável agenda da sociedade. Rios de gente invadem as grandes cidades e seus afluentes se multiplicam. Em que mar irão desaguar, impossível saber.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Fonte: O Globo

O silêncio dos políticos - Denise Rothenburg

Depois de uma semana de protestos incessantes, sobra o cinismo de políticos. A série de chutes de analistas, governistas e oposicionistas, serviu apenas como especulação, afinal a cada manifestação tem mais gente nas ruas. Dentro dos gabinetes da Esplanada e nos palácios estaduais e municipais, o que se viu foi a perplexidade geral e a demora na reação das autoridades, como se anestesiados. Ontem, todos resolveram falar alguma coisa.

O fato é que nenhum político sabe exatamente o que fazer, e nessas horas eles apenas falam quando é inevitável. Foi isso que ocorreu com a presidente Dilma Rousseff, que, no primeiro momento, no início da semana, embarcou para São Paulo em busca de conselhos de Luiz Inácio Lula da Silva e de João Santana, o marqueteiro oficial dos petistas nas duas últimas eleições.

Em vez de buscar apoio dentro do próprio governo, Dilma passou a imagem de ter dificuldades em ler cenários, precisando o tempo todo de avaliações do ex-presidente e do publicitário. Antes de mais críticas, uma consideração: até agora, poucos entenderam as manifestações. Um ou outro artigo ou avaliação foi mais precisa. A diferença está em admitir a dificuldade de analisar os protestos.

O espírito

Um termo em alemão talvez explique a dificuldade e a perplexidade de políticos e analistas. Zeitgeist significa algo como "espírito da época" ou "sinal dos tempos". Nada mais difícil do que entender o tal "espírito" no momento que tudo está se passando. Com todo o cuidado em não misturar conceitos, pode-se dizer que apenas um distanciamento histórico poderia ajudar alguém a perceber o "sinal".

Nos últimos 18 anos, o país obteve conquistas inquestionáveis, durante os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula. Primeiro, a estabilidade econômica e, depois, os avanços sociais. Com o fim do segundo mandato do tucano, Lula conseguiu perceber como ninguém os desejos e comportamentos da sociedade. Assim, mesmo com escândalos de corrupção, o petista manteve a força eleitoral.

O tal faro político do ex-presidente nada mais significava do que o fato de ler os cenários, entender o espírito da época e o sinal dos tempos. Enquanto a oposição patinou nos últimos 10 anos para dizer algo à população, Lula demonstrou como fazer. Parecia até simples, direto ao ponto. Um discurso limpo, com apelo emocional, mas completamente pensado, estratégico e apoiado em pesquisas eleitorais.

Conselhos

O problema dos petistas é que esse tempo de interpretação dos fatos parece ter passado, mesmo para Lula. Nos conselhos que deu à Dilma, o ex-presidente pediu mais flexibilidade na relação com aliados e maior aproximação com os eleitores. De certa forma, a presidente usou tais recomendações no discurso feito em cadeia de rádio e televisão na noite de ontem. Mas ainda parece faltar jogo de cintura.

Dilma se elegeu sem fazer muita força. Todos os movimentos foram de Lula. Os petistas apostavam na estabilidade econômica para tê-la como forte candidata à reeleição. A alta popularidade verificada nas pesquisas ao longo de 17 meses tranquilizava o Planalto. Com a chegada de junho, tudo começou a mudar. Os índices positivos caíram com o fantasma da inflação. E vieram os protestos, que bagunçou de vez a cabeça dos aliados. O mais grave: até agora ninguém sabe se as manifestações atrapalharão de fato Dilma. As pesquisas divulgadas esta semana foram feitas antes dos protestos.

Discurso

Era inevitável o discurso de Dilma na noite de ontem. Com ou sem resultado prático, ela tinha obrigação de falar aos brasileiros. Disse o que deveria dizer sobre os arruaceiros, com fortes críticas aos atos de vandalismo, e abriu diálogo com os líderes dos manifestantes. Tudo muito previsível — e até meio burocrático. A partir de agora, os petistas torcem para que funcione e diminua o ruído das ruas.

Fonte: Correio Braziliense

Buscando saídas - Merval Pereira

Para quem estava acuada nas cordas por manifestações de caráter nacional, a presidente Dilma saiu-se bem em seu pronunciamento, demonstrando jogo de cintura. Não foi arrogante, ao contrário, foi humilde para aceitar que as vozes das ruas têm que ser ouvidas, mas soube ser firme na condenação dos arruaceiros que aproveitaram as manifestações para fazer saques e depredações pelas cidades.

A presidente Dilma, com o auxílio de seu marqueteiro João Santana, acertou em cheio as reivindicações das grandes massas que foram às ruas, sintonizada perfeitamente com os anseios da classe média brasileira, evitando uma leitura de esquerda às reivindicações, coisa que algumas alas petistas gostariam. Ao contrário, a presidente soube ler com clareza que o foco central dos manifestantes é o combate à corrupção, um ambiente que já lhe deu altos índices de popularidade, e o qual ela havia relegado a segundo plano em proveito de acordos fisiológicos que terá que rever.

No entanto, vai ser complicado, na relação com os diversos partidos políticos de sua heterogênea base parlamentar, fazer prevalecer a ética na política sobre os interesses partidários. Ela já foi obrigada a receber de volta políticos que havia "faxinado" no início do governo, por exemplo.

Dilma atualizou sua proposta de dar todos os recursos provenientes dos royalties do pré-sal para a Educação, o que é bastante conveniente no momento em que as pessoas estão nas ruas pedindo mais verbas para Saúde e Educação, setores que deixaram de ser prioridades para governos que só pensam em curto prazo, como têm sido os governos petistas.

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, está defendendo que nada menos que 100% dos recursos sejam aplicados na Educação, como maneira de conseguirmos cumprir a promessa do Plano Nacional de Educação (PNE) de investir no setor 10% do PIB até 2020. Estaríamos, então, afastando-nos da famosa "maldição do petróleo", fenômeno registrado nas principais economias produtoras do mundo e que já está presente nas cidades brasileiras mais beneficiadas pelos royalties e pelas participações especiais. Este seria o momento adequado para o país marcar essa posição em favor do futuro.

Com o anúncio de que reunirá os governadores e prefeitos das principais cidades do país para discutir medidas concretas para as mudanças, a presidente Dilma conseguiu também repartir com os demais chefes de Executivos estaduais e municipais a culpa pelas medidas não adotadas até agora, tentando retirar de seu ombro a responsabilidade principal pelas mudanças.

No entanto, de nada adiantará ter se pronunciado de maneira adequada ao momento se suas atitudes não corresponderem aos fatos. Um exemplo de como será difícil mudar atitudes políticas é a reunião que ela teve antes do pronunciamento com o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, um dos políticos mais criticados pela voz das ruas.

Vai ser difícil, por exemplo, a presidente comprovar que os empréstimos financiados pelo BNDES para a construção dos estádios para a Copa do Mundo de Futebol aos governos estaduais serão pagos pela iniciativa privada.

Um primeiro balanço de seu pronunciamento, no entanto, deve ser otimista, até mesmo porque ela aceitou o mote de seu potencial adversário em 2014, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, de que é possível fazer mais. A fala teve a intenção clara de reconectar a presidente com uma vasta camada do eleitorado que não é simpática ao PT e ao seu governo.

Não é à toa, portanto, que a presidente Dilma está irritada com a tentativa do PT de participar das manifestações, assumindo um papel de liderança que acabou sendo rejeitado pela população, embora de agrado dos líderes do Movimento Passe Livre.

Para a presidente Dilma, o pior que pode acontecer numa campanha eleitoral antecipada é ser envolvida em uma tentativa de levar para a esquerda radical uma classe média que, em alguma medida, ela estava conseguindo cooptar.

Fonte: O Globo

Sem clareza sobre a natureza dos protestos, discurso evita riscos - Igor Gielow

Elevar a aposta num momento incerto seria suicida, por isso fala da presidente é recheada de respostas banais

Dilma tenta preencher a vacuidade de poder potencializada pela natureza diáfana da origem dos protestos. Se isso será efetivo, só a temperatura da próxima manifestação responderá

Em seu pronunciamento sobre os protestos cada vez mais violentos no país, a presidente Dilma Rousseff tentou contemporizar.

O cálculo político é evidente. Ainda sem informação objetiva sobre a natureza da organização dos protestos, apesar de boataria de todo tipo circulando entre círculos à esquerda e à direita, Dilma buscou uma fala inócua que conta com o arrefecimento de ânimos para emplacar.

Talvez estivesse na memória de seus estrategistas o risco de algo mais desafiador, como o desastroso chamado para que a nação se vestisse de verde e amarelo feito por um acuado Fernando Collor em agosto 1992, respondido por uma onda de manifestantes vestidos de preto.

Elevar a aposta num momento incerto seria suicida. Assim, sobram respostas algo banais para todo mundo.

Às camadas da sociedade assustadas com o grau de violência nas ruas, foram várias assertivas sobre coerção de arruaceiros. Como? Bem, segurança é uma questão dos Estados, exceto que ela tenha esquecido de mencionar as excepcionalidades em que o Exército pode ser acionado.

Aos manifestantes, a mão estendida, somada à velha mania petista do "vamos formar um grupo de trabalho" --no caso com chefes de outros Poderes, governadores e prefeitos, ou seja, várias vitrines para democratizar eventuais pedradas.

Mas fica a pergunta que permeia toda análise do fenômeno que engolfou o país nas duas últimas semanas: oferta de conversa para quem mesmo?

Dilma citou manifestantes genericamente, mas também sindicatos e movimentos sociais, que notoriamente estão fora do jogo.

As promessas pontuais, de discutir o transporte urbano, defender a aplicação dos royalties petrolíferos na educação e importar médicos, essas são apenas isso: música velha para novos ouvintes.

Lembram as ideias de reforma política quando há uma crise institucional ou de consertar a barafunda tributária brasileira no evento de alguma disputa federativa.

A reforma política, aliás, voltou a ser citada no discurso de ontem no contexto de "oxigenar o sistema".

Por fim, Dilma enfim apareceu para discorrer sobre a mais grave crise social da história recente, o que é de se esperar de uma presidente.

Tenta assim preencher a vacuidade de poder potencializada pela natureza diáfana da origem dos protestos. Se isso será efetivo ou só enxugará o iceberg no caminho, a temperatura da próxima manifestação responderá.

Fonte: Folha de S. Paulo

Dilma no inferno da Standard and Poor's, das pesquisas e passeatas - Rolf Kuntz *

O Brasil de dona Dilma vai mal quando cai o dólar, vai mal também quando sobe. É um país invejável. Em todo o mundo, oscilações das moedas principais podem causar tensão e mexer com as bolsas, mas neste país o desarranjo tem sido maior. Em tempos de valorização, o real dispara. Diante da política frouxa no mundo rico, ninguém falou tanto quanto as autoridades brasileiras em tsunami monetário e em guerra cambial. Se o sinal se inverte, como nos últimos dias, a depreciação do real também é maior, como na quinta-feira. Em nenhum outro mercado o dólar chegou a subir 2,45%. A grandeza é a marca nacional. "Temos muita bala na agulha", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, procurando tranquilizar os brasileiros enquanto crescia a turbulência nos mercados. Até o arsenal de intervenção é superior. Nas armas comuns, a conta é uma bala por agulha.

Quanto ao volume de reservas, US$ 376,11 bilhões no dia 19, o ministro Mantega tinha razão. O governo dispõe de bom volume de moeda estrangeira para combater a variação excessiva do câmbio. Mas nem sempre isso basta. Na quinta-feira, o Banco Central ofereceu cerca de US$ 3 bilhões, com escasso resultado. Numa crise prolongada, as reservas se perdem e sai vitorioso quem joga contra a moeda nacional.

É cedo para saber quando os mercados se acomodarão e onde estará o real nesse momento. De toda forma, o governo daria um passo no rumo certo se reconhecesse o mau estado da economia, a tendência de piora de vários indicadores e a vulnerabilidade do País.

O pessoal da Standard & Poor's explicou direitinho por que impôs um viés negativo à perspectiva econômica do País. Os economistas da Moody's também justificaram tecnicamente a decisão de reavaliar a economia brasileira. Não é preciso, no entanto, ter alguma formação econômica para perceber muita coisa fora dos eixos. O alerta das agências de classificação de risco e a perda de popularidade mostrada nas pesquisas sobre o governo apareceram praticamente ao mesmo tempo. Simples casualidade? É difícil e arriscado sustentar essa hipótese, especialmente quando se consideram as reivindicações apresentadas nas passeatas - muito mais amplas que a mera exigência de redução das tarifas de transporte público.

Na quinta-feira, dirigentes do PT conclamaram militantes para entrar nas passeatas com camisas vermelhas e bandeiras do partido. Tentaram e foram rechaçados. Boa parte dos envolvidos nas marchas deve ter votado, no entanto, em Lula, em Dilma e em vários de seus companheiros, incluídos alguns postes.

Não está claro se perceberam, mas vários protestos - alguns dos mais notáveis - foram contra iniciativas e políticas federais dos últimos dez anos. Pessoas de espírito mais prosaico já haviam classificado como irresponsabilidade o compromisso de organizar e hospedar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Já haviam chamado a atenção, há anos, para o atraso das obras, para o aumento dos custos e o risco de bandalheiras, quando fosse preciso compensar o tempo perdido. A organização Contas Abertas, especializada no acompanhamento das finanças públicas, atualizou com frequência os valores comprometidos e as previsões de desembolso. Quem quisesse poderia acompanhar pela internet, sem maior esforço, a formação de mais um imbróglio financeiro e econômico. Novos gastos, alguns muito pesados e de relevância mais que discutível, foram postos no alto da escala de prioridades, tornando mais bagunçada uma gestão pública já muito ruim.

A perda de tempo e boa parte do encarecimento das obras decorreram de um escandaloso desleixo do governo. Nada, ou quase nada, foi feito no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele batalhou com empenho para trazer as competições ao Brasil e foi vitorioso em 2007. A partir daí, parece haver esquecido o assunto. O trabalho duro ficou para o governo seguinte, já herdeiro de uma inflação elevada, de uma economia com baixo padrão de investimentos e de contas externas em situação de risco. Os dados básicos são claros:

1. Nos dois primeiros anos do novo governo o produto interno bruto (PIB) ficou estagnado, com expansão de 2,7%, em 2011, e 0,9%, em 2012. O quadro continua feio em 2013, mas a obrigação de gastar com a Copa e com os Jogos Olímpicos permanece em pé.

2. Enquanto isso, pioram as contas públicas, arrasadas pela gastança, pela multiplicação irresponsável de incentivos fiscais improvisados e também de transferências do Tesouro para os bancos federais. A grande preocupação do governo, nessa área, é inventar meios de continuar fingindo fidelidade à política de metas fiscais. Os truques contábeis empregados até há pouco tempo já foram escrachados.

3. A inflação tem recuado ligeiramente, mas a parcela de itens com elevação de preços ainda supera 60%. A desinflação dos alimentos terminou e os grandes fatores inflacionários, como a gastança federal, permanecem.

4. O Banco Central refez as projeções das contas externas e elevou de US$ 67 bilhões para US$ 75 bilhões o déficit em conta corrente esperado para 2013. As exportações, nesse quadro, serão 2,22% maiores que as do ano passado. As importações aumentarão 7,97% e o superávit comercial diminuirá 63,93%, de US$ 19,41 bilhões para US$ 7 bilhões.

Que fazer? Há uma pauta evidente na área dos investimentos, na tributação (até agora sujeita a remendos mal escolhidos e mal costurados), na educação (com a redefinição urgente de padrões e prioridades) e no campo da tecnologia. Na hora do aperto, no entanto, a presidente corre para ouvir seu padrinho, guru e conselheiro mor da República e da Prefeitura de São Paulo, como se ele fosse inocente da maior parte dos grandes problemas de hoje, incluído o abacaxi multibilionário dos grandes jogos.

* Rolf Kuntz é jornalista.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Dep.Comte Bittencourt- sobre as manifestações no Rio

Teresa Cristina e Grupo Semente - O Meu Guri

José – Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?