domingo, 14 de abril de 2013

Agenda sul-americana - Tereza Cruvinel

A partida mais importante é a que se joga hoje na Venezuela, mas outras eleições, marcadas para este ano, dirão para que lado se inclina o pêndulo da política sul-americana. Aparentemente, não há vento liberal ameaçando a hegemonia dos governos de centro-esquerda, chamados de populistas pelos adversários, responsáveis por mudanças econômicas e sociais importantes para uma região que já foi sinônimo de subdesenvolvimento.

O pleito de hoje na Venezuela é uma esquina histórica. Dirá se o chavismo sobreviverá sem Chávez. Delegações de mais de 150 países estão em Caracas para observar o pleito e atestar sua lisura, o que é fundamental para a estabilidade democrática do país. A imprensa internacional montou aparato para uma grande cobertura. A eleição ocorre sob a sombra forte de Chávez, num país ainda comovido com sua morte. Sinal disso é a palavra de ordem dos chavistas: “Chávez, te juro, meu voto é pra Maduro”. Em vida, ele apontou como sucessor seu vice e agora candidato, Nicolás Maduro. Ele não tem o carisma do líder morto, mas a sagração o popularizou. Réplicas de seu bigode, aos milhões, tornaram-se o principal ícone da campanha. O candidato da oposição, Henrique Caprilles, que concorre pela segunda vez, apega-se ao fato de que “Maduro não é Chávez” e à existência, como aqui, de um bloco de eleitores que não é apaixonadamente a favor nem contra qualquer um dos polos. Caprilles levou mais de 1 milhão às ruas e prometeu aumento geral de salários. Maduro respondeu com uma maré vermelha, dizendo que “Chávez vive, a luta continua”. A campanha, marcada pelos insultos eleitorais de sempre, durou apenas 10 dias, o que favoreceu o candidato oficial. Segundo as pesquisas locais, ele encerrou a semana com cerca de 10 pontos de vantagem.

Os aliados regionais do chavismo ajudaram como puderam. Maradona subiu ao palanque e chorou. O governo Dilma mantém a sobriedade, mas Lula enviou um vídeo de apoio a Maduro. As relações políticas com o Brasil, por força dos interesses econômicos bilaterais envolvidos, dificilmente seriam afetadas no caso de mudança de comando na Venezuela. O ingresso do país no Mercosul parece irreversível, nenhum governo o recusaria. E, para o Brasil, apesar das críticas, abriu um grande mercado importador. Mudança drástica haveria na relação com os países “amigos”, tais como Cuba e Bolívia, entre outros, que se tornaram muito dependentes dos favores venezuelanos. Caprilles deixou claro que acabaria com eles, se eleito. Mas, com a eleição transformada em julgamento de Chávez, dificilmente o chavismo perderá hoje. E, com isso, o pêndulo fica onde estava.

Paraguai

No próximo domingo, o Paraguai é que elege seu presidente, depois do impeachment de Fernando Lugo pelo Congresso, no ano passado. Considerando que houve ali um golpe, os demais presidentes do Mercosul suspenderam o Paraguai do bloco. A posse do novo presidente abrirá caminho para a reintegração, já adiantou o chanceler Antônio Patriota. Há cinco candidatos inscritos numa corrida liderada pelo estreante e empresário milionário Horário Catres, do Partido Colorado, conservador e oligárquico, que mandou no Paraguai por 60 anos, até a eleição de Lugo. Como em segundo lugar está outro candidato conservador, Efrain Allegre, do Partido Liberal, o Paraguai tende a seguir na contra-corrente, como a Colômbia, em relação à maioria de seus vizinhos.

Chile

A eleição presidencial no Chile, que não adota a reeleição, será em novembro, mas a campanha já está nas ruas. Ali, a novidade é a provável volta da ex-presidente Michelle Bachelet, do Partido Socialista, ao Palácio La Moneda, derrotando os conservadores que, em 2010, pela primeira vez depois do fim da ditadura, desalojaram a coalizão de esquerda do governo, elegendo o presidente Sebastián Piñera. Com a passagem exitosa por um organismo internacional, o ONU Mulheres, Bachelet ampliou o prestígio interno e ganhou aura de “figura global”. Explorando o mau momento do atual governo, ela acaba de apresentar seu staff de campanha e aparece nas ruas de Santiago em outdoors pregando “mais igualdade, não mais abusos”. Refere-se ao escândalo do momento no Chile, o processo de impeachment do ministro da Educação, Harald Beyer. A Câmara acolheu a denúncia na semana passada, autorizando o julgamento pelo Senado, onde a oposição teria votos para a destituição. Esse processo inédito, embora previsto nas constituições de quase todos os países da região, inclusive na nossa (já pensou se a moda pega?), respingará fortemente nos candidatos de partidos da base de Piñera, Andrés Allamand (RN) e Laurence Golborne (UDI). Com Bachelet eleita, o continente passaria a ter três mulheres presidentes, e o bloco hegemônico ganharia mais um aliado. O pêndulo se moveria à esquerda.

Em 2014… eleições no Brasil. A reeleição de Dilma manteria o pêndulo no lugar. Para os “hermanos”, curioso aqui é que ninguém se declara liberal ou conservador. Todos são progressistas e reformadores.

Hora de enfrentar

Deve ser votado esta semana pela Câmara projeto do deputado Osmar Terra (PMDB-RS) que torna mais rigorosa a lei antidrogas em vigor, que é de 2006. De lá para cá, a questão se agravou, com o domínio do crack. A proposta autoriza a internação involuntária de dependentes, a pedido da família ou por iniciativa do Estado. A questão é grave demais para que suas excelências deliberem com a perspectiva eleitoral que tem contaminado tudo.

O pleito de hoje na Venezuela é uma esquina histórica. Dirá se o chavismo sobreviverá sem Chávez. Outras eleições na região, este ano, dirão para onde se move o pêndulo da política sul-americana

Fonte: Correio Braziliense

Um Chávez que não é Chávez - Eliane Cantanhêde

Dias depois de publicar na Folha a primeira entrevista do presidente Hugo Chávez a um jornal brasileiro, em agosto de 1999, escrevi uma reportagem com o seguinte título: "Economia ameaça revolução' de Chávez".

Com um salto de quase 14 anos e trocando o nome de Chávez por Nicolás Maduro, o texto continua atualíssimo. Ou seja, muita coisa mudou profundamente na Venezuela de Chávez, mas os desafios resistem.

Primeiro parágrafo: "Chávez assumiu há seis meses e governa com alta taxa de aprovação, mas depende de melhoras na economia para manter o apoio popular à sua revolução'".

Segundo: "Outros dois desafios: a desconfiança que ele desperta no exterior, tanto no meio político quanto empresarial, e o início de uma reação da oposição venezuelana".

Chávez tinha exata noção de que nada seria fácil: "A revolução que estamos fazendo não é para a geração que aí está. É para os nossos filhos, para os nossos netos".

Maduro começou a corrida presidencial embalado pelo impacto político da morte do grande líder, mas perdeu vigor e chega hoje, dia da eleição, com uma margem nas pesquisas bem menor do que a prevista.

Como chanceler de Chávez, era elogiado pelo equilíbrio e serenidade. Como candidato a reencarnar Chávez, parece meter os pés pelas mãos. Frases de mau gosto sobre bananas e mandiocas, a história do espírito de Chávez num passarinho, insinuações homofóbicas contra o adversário Henrique Capriles...

Se quiser se passar por Chávez, vai se dar mal. É melhor construir uma identidade política própria para, aí sim, enfrentar a economia, o desemprego, a violência, a dependência excessiva e danosa do petróleo.

Só assim, se realmente vencer as eleições de hoje, Maduro poderá continuar a "revolução" que ainda não é para "esta geração que está aí" e talvez não chegue nunca para os filhos e netos venezuelanos, como sonhava Chávez, o original e único.

Fonte: Folha de S. Paulo

Olhar imediato - Míriam Leitão

O Brasil tem olhado muito para o imediato e pouco para as tendências. Olha o saldo comercial de cada mês esperando que ele volte para o azul, sem ver que o mundo inteiro está negociando alianças comerciais poderosas. Acredita que o investimento virá com os pacotes do governo, e há uma crise de confiança sobre as empresas brasileiras e do empresariado em relação ao crescimento.

O número da inflação estourou o teto, e o governo diz que é alta sazonal de alimentos. Existem preços que vão cair, mas o mundo está atravessando o nono ano consecutivo em que fatores climáticos extremos afetam safras de commodities. Os alimentos têm ficado mais caros na média. Além do mais, a inflação subiu estruturalmente do centro para o teto da meta. O país está sem espaço para acomodar choques. E eles sempre acontecem.

O governo comemora a revisão que fez nos contratos de energia elétrica, que foi o grupo que mais puxou a inflação para baixo. Como não comemorar uma conta de luz mais baixa? É ótima notícia. As más noticias que ninguém quer ouvir são as várias pressões elevando estruturalmente o preço da energia, a opacidade dos subsídios públicos na construção das hidrelétricas, e o uso das térmicas que anulará parte do efeito da queda dos preços. Pior, as empresas elétricas, sejam estatais ou privadas, ficaram sem capacidade de investir.

O grupo de Eike Batista foi tão celebrado como exemplo do capitalismo brasileiro e hoje está rondando o governo atrás de socorro. Tomara que ele supere os problemas que estão transformando em pó suas ações, mas ele se alavancou com IPOs em que prometeu o que não estava preparado para entregar e em empréstimos do BNDES para os quais deu como garantia ações cujo valor está se desfazendo.

Do laboratório do governo saem pacotes frequentes e, mesmo assim, o país está crescendo cada vez menos. Os dados mostram que o crescimento anual desenha uma escadinha que desce. O pibinho de 2012 não foi um ponto fora da curva, é o país que não tem conseguido crescer. Os dados de investimento desenham a mesma descendente: o país teve no ano passado queda da taxa de investimento.

No comércio exterior o mais sério não é o fato de que no primeiro trimestre de 2013 houve déficit, depois de termos nos acostumado com superávits. É que o volume de comércio não cresce e as escolhas que o Brasil tem feito são erradas ou estão atrasadas.

Há quem admita no governo que o comércio exterior anda mal. Os Estados Unidos negociam acordo com a Europa, a Ásia se une a países do pacífico do lado de cá do mundo, a China negocia acordos com os seus vizinhos da Ásia e com a África. O mundo gira, a lusitana roda, mas o Brasil não sai do lugar. Os Estados Unidos negociam acordos bilaterais com vários países da América do Sul. O Mercosul está hoje na mão da Argentina: um país em crise cambial, com ágio no dólar paralelo. O controle do câmbio na Argentina espanta até as empresas brasileiras; como podemos nos manter atados a eles nas negociações de comércio internacional?

As cinco estatais criadas em dois anos e quatro meses de governo Dilma fizeram algo pelo crescimento? Foram apenas mais cadeiras a serem oferecidas aos integrantes da aliança governamental, como se 39 ministérios não fossem o suficiente. O governo tem olhos apenas para as eleições de 2014 - tipo ideia fixa, obsessiva -, não o olhar para o horizonte à frente, necessário para agir preventivamente.

A oposição permanece dividida e mais interessada nas brigas intestinas e na administração das ambições do que em saber o que propor como alternativa diante do quadro de dificuldades do país. Uma nova candidatura apareceu dentro da órbita governamental. Parece, na sua ambiguidade, estar cunhando moeda de troca, e não oferecendo uma alternativa. Enquanto isso, o Congresso se esforça em bases diárias para perder a confiança do cidadão.

As projeções da maioria dos economistas do mercado financeiro só conseguem acertar se forem de curtíssimo prazo. A série histórica revela erros crassos. É o que preocupa, e não o fato de que na semana passada a inflação estourou o teto da meta. Este é apenas um dos sintomas do mal nacional: a falta de visão de para onde afinal de contas se quer ir.

Fonte: O Globo

O capitalismo de compadrio entrou em cena - Elio Gaspari

As cotações de Eike Batista nada têm a ver com a imagem do Brasil, muito menos com risco sistêmico

Quem comprou um lote de ações da OGX de Eike Batista quando ela foi lançada, em 2008, pagou R$ 1.200. Hoje ele vale R$ 150. Milhares de pessoas tomaram esse tombo, sem que houvesse uma crise na economia ou cataclismo. Pequenos e grandes investidores acreditaram num negócio e deram-se mal. Assim é o mercado.

Diante das dificuldades do bilionário brasileiro, surgiram duas linhas de argumentação defendendo um socorro da Viúva. Quase todas vindas da privataria, outras, do comissariado.

Numa, Eike Batista deve ser amparado para evitar que suas dificuldades comprometam a imagem do Brasil junto ao mercado de investidores internacionais.

Ou então ele deve receber alguma proteção para evitar um risco sistêmico.

O primeiro argumento é uma falsidade. Imagine-se um investidor americano, em seu escritório de Chicago, recebendo a informação de que o governo brasileiro amparou o empresário que em 2011 foi listado como o homem mais rico do país, com US$ 30 bilhões, e anunciou que pretendia ser o primeiro do mundo. Ele tem grandes empreendimentos, mantém uma Mercedes SLR McLaren atrás de uma vidraça de sua sala de estar e disputou num programa de televisão a lingerie que pertencera a sua mulher. Já veio a público defender o seu direito de emprestar um jatinho para autoridades federais, estaduais e municipais. Na última campanha do governador Sérgio Cabral pingou R$ 2 milhões. Noutra, do prefeito Eduardo Paes, botou R$ 500 mil. Ademais, ele tem patrimônio para oferecer ao mercado. O governo ampararia um empresário que em 2007 criticava a falta de "cultura de risco" de seus pares.

O sinal que o investidor estrangeiro recebe é o do triunfo, no Brasil, do capitalismo de compadrio. Ele já viu o fim desse filme na Coreia em 1997, na Espanha em 2008 e na Grécia em 2010.

O segundo argumento, mencionando um "risco sistêmico", merece ser traduzido: trata-se de usar dinheiro da Viúva para blindar bancos oficiais e privados que emprestaram dinheiro ao grupo EBX, assumindo riscos maiores que os dos acionistas. Típico resgate do andar de cima. Coisa de pelo menos R$ 13 bilhões. Uns oito bilhões saíram do BNDES e da Caixa, que lidam com recursos públicos. Outros R$ 5 bilhões foram emprestados por banqueiros e fundos que tinham "cultura de risco".

Imagine-se a seguinte situação: Em 2008 Guido Coutinho comprou R$ 1,2 milhão de ações da OGX. Nesse mesmo ano, um grande banco emprestou R$ 120 milhões a uma empresa de Eike Batista. Mais tarde, sem relação com o investimento que fizera, Guido fez um empréstimo de R$ 1,2 milhão no mesmo banco que comprou o "risco Eike". Hoje, o bom Guido está com R$ 150 mil na sua carteira de ações e, com seu trabalho, tudo paga o que deve ao banco. Ele sabe que nos próximos anos não recuperará o investimento que fez nas ações, mas o banco que emprestou a Eike quer o seu. Como metade do crédito saiu do BNDES, o capitalismo de compadrio poderá colocar Guido Coutinho no pior dos mundos: Perdeu nas ações, pagou o que devia e o dinheiro dos seus impostos, convertido em aportes do Tesouro, seria usado para refrescar os bancos que emprestaram a Eike. O mesmo acontecerá se, por meio de alguma gambiarra, a Viúva capitalizar as empresas X para fechar a conta com a banca privada.

Fracassada a tentativa de transferir um estaleiro capixaba para a carteira do grupo X, surgiu uma manobra no mercado: a Petrobras pode entrar no empreendimento do porto de Açu. Metade dessa grande obra está pronta, recebeu R$ 4 bilhões de investimentos, emprega oito mil pessoas e tem muito para dar certo. A doutora Graça Foster informou que a empresa ainda não pensou nesse assunto. Se a Petrobras quiser entrar no Açu pode-se perguntar porque esse interesse só apareceu agora, já que o projeto existe desde 2007.

Se a estatal se decidir por essa transação, fará bem se exibir uma transparência a que não está habituada, mostrando todos os números aos seus acionistas. O petrocomissariado pode provar que está diante de uma boa ocasião para fechar um grande negócio: basta contratar uma auditoria internacional para referendar sua opinião, mostrando custos e preços.

Fonte: Folha de S. Paulo

Marcados descompassos - Pedro S. Malan

O Brasil é um país extraordinário em sua rica diversidade e enorme potencial, mas é também um país complexo de entender e difícil de administrar -como cedo ou tarde percebem aqueles que se dispõem a fazê-lo. Há custos de aprendizado, que levam os governantes a um gradual reconhecimento da existência dos limites do possível às suas ações no relativamente curto prazo de seus mandatos.

O fato é que no Brasil de hoje convivem, em mutante simbiose, partes modernas (que adquiriram expressão relevante) e partes anacrônicas (que não podem ser subestimadas). E talvez por isso, o Brasil não comporta mais variantes de messianismos salvacionistas, voluntarismos extremados e improvisados exercícios de autoridade. Mesmo quando o governo tem popularidade e exibe avassaladora maioria no Congresso Nacional - embora exigindo complexas concessões da parte do Executivo.

Na raiz desse aparente paradoxo está uma questão de fúndo colocada com a clareza habitual por José Murilo de Carvalho: "A construção de uma democracia sem República me parece pouco viável. República significa coisa pública, virtude cívica (...), exige predomínio da lei, igualdacte perante a mesma, ausência de privilégios e hierarquias sociais, cidadãos ativos, governos responsáveis e eficientes (...). República é incompatível com patrimonialismo, clientelismo, nepotismo e fisiologismo".

Escreve o autor: "Pode-se argumentar, como muitos fazem, que nossa democracia não precisa de República, que aos trancos e barrancos vamos construindo a inclusão política e social, e que preocupação com honestidade política, bom governo, valores cívicos e instituições respeitadas é moralismo pequeno-burguês". Mas - como José Murilo - espero que possa haver um número crescente de brasileiros que discorrem dessa postura.

"Os eleitores é que dirão", essa é a aposta (legítima) que fez o governo ao se lançar com armas e bagagens e antecedência de quase dois anos na campanha de sua reeleição. Com a convicção de que esses eleitores votarão com o bolso. E que, portanto, os altos níveis de emprego e a evolução da renda disponível das famílias decidiriam por antecipação as eleições do ano que vem. Como disse um ministro em campanha, "para o povo, PIB é emprego e renda", ou seja, o que conta é o crescimento da renda real das famílias nos períodos que antecedem à eleição. O resto seria o resto, de menor importância relativa para aqueles que estão com os olhos ora fixados apenas no resultado de outubro de 2014.

Pois bem, o resto não é o resto. Paul Krugman, o influente Prêmio Nobel de Economia, tinha e tem toda a razão ao escrever, já lá se vão mais de duas décadas: "A capacidade que tem um país de melhorar os padrões de vida de sua população ao longo do tempo depende quase que inteiramente (almost entirely, no original inglês) de sua capacidade de aumentar o seu produto por trabalhador" - isto é, a produtividade de sua economia.

Como bom economista, Paul Krugman nota que isso exige capital, trabalho, tecnologia e inovação. E também discute por que a ideia de produtividade, por ser tida como complexa, não é fácil de ser levada à arena política e ao debate público. Mas insiste com a frase famosa, após analisar cinco maneiras de aumentar o consumo por habitante de um país (qualquer que seja): "A produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo".

Em pesquisa recente, ainda por publicar, Regis Bonelli e Julia Fontes retomam o tema krugmaniano da sustentabilidade ao longo do tempo de marcados descompassos entre intenções de gasto em consumo e restrições de oferta derivadas de problemas de baixa produtividade. Os autores adotam uma perspectiva de longo prazo (de 1980 a 2010, com projeções tentativas para 2010-2020), com especial atenção conferida à nossa extraordinariamente rápida transição demográfica.

Regis Bonelli e Julia Fontes mostram que nosso crescimento futuro estará ainda mais dependente de aumentos de produtividade e, simultaneamente, ainda mais limitado pelos efeitos de nossa nova demografia sobre a oferta de trabalho. Como já se disse, o Brasil está correndo o risco de ficar velho antes que chegue aos níveis de renda per capita próximos dos que desfrutam hoje os países desenvolvidos.

Mas a economia brasileira enfrenta hoje outros descompassos que não são de tão longo prazo, embora não menos relevantes para o nosso futuro: as intenções de gasto doméstico - público e privado, em consumo e investimento - excedem em muito a capacidade doméstica de atendê-las, dadas as intenções de poupança pública (que é negativa) e de poupança privada (que é relativamente reduzida).

O resultado dos processos de ajuste a este descompasso é sempre - ex-post - uma cambiarrte combinação de pressões inflacionárias, déficits de balanço de pagamentos em conta corrente (expressando a necessidade de poupança externa) e, quando existe financiamento, endividamento adicional de famílias e do governo. Este descompasso ex-ante, quando significativo e prolongado, afeta as expectativas quanto ao curso futuro do câmbio, dos salários e dos juros - e, portanto, do investimento e do crescimento futuro.

Nos próximos anos de vida do Real, nós teremos nada menos do que cinco eleições presidenciais: 2014, 2018, 2022, 2026 e 2030. E uma eleição presidencial é sempre, talvez, uma oportunidade para que o País possa tentar aprofundar e melhorar a qualidade do debate público informado sobre crescimento, emprego e renda, com foco na imperiosa necessidade de aumentar, em muito, a produtividade e a competitividade internacional de suas empresas e a eficiência operacional do governo na gestão da coisa pública - aí incluídos os investimentos em infraestrutura e na melhoria da qualidade da educação*, áreas nas quais há ainda muito, mas muito mesmo, o que fazer nos anos à frente.

Fonte: O Estado de S. Paulo

A utopia realista de Habermas: Cosmopolitismo, dignidade humana e direitos humanos - Fernando Perlatto*

A política (...) e não o capitalismo é responsável pela orientação do bem comum (Habermas, Sobre a Constituição da Europa, p.109).

Desde o começo da modernidade, mercado e política têm de ser balanceados continuamente, de modo que a rede de relações solidárias entre os membros de uma comunidade política não se despedace (Habermas, Sobre a Constituição da Europa, p.116);

Não há como não considerar que o mundo não é mais o mesmo após o ano de 2008. A crise econômica que teve como epicentros os Estados Unidos e a Europa, e logo se alastrou pelos diversos países do globo, produziu consequências que até hoje são sendo sentidas em diferentes partes do mundo. Não obstante a condenação ao sistema financeiro que se seguiu após a crise, poucas mudanças efetivas foram realizadas desde então. Os bancos foram resgatados pelos governos e as instituições responsáveis pela crise, de modo geral, passaram incólumes pelo vendaval. Inacreditavelmente, a despeito da retórica contrária à agenda neoliberal que se seguiu após a crise, parte significativa dos governos, especialmente dos países europeus, decidiu seguir à risca o roteiro das políticas econômicas ortodoxas de “menos Estado” que levaram à mesma crise que aparentemente procuravam combater, com todo o corolário a ele associado: redução dos postos de trabalho, arroxo salarial e cortes dos programas sociais. Se é possível dizer que no meio deste turbilhão surgiram medidas benfazejas – como a aprovação na Suíça, via plebiscito, de uma lei contra “remunerações abusivas” de patrões e diretores executivos de grandes empresas –, no geral, as políticas adotadas seguiram ora um figurino patético – como o recente confisco de depósitos no Chipre – ora uma direção revoltante – como o brusco corte de empregos executado em diferentes países da Zona do Euro.

Para além do conservadorismo das políticas de austeridade adotadas, com todas as consequências deletérias daí advindas, as decisões da chamada “troika” – formada pelo Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e a Comissão Europeia – têm se destacado pelo autoritarismo, sobretudo quando se dirigem aos países mais “fracos” do bloco. Sob a liderança da Chanceler alemã Angela Merkel, as elites políticas europeias têm tomado medidas que desconsideram totalmente as deliberações, demandas e reivindicações dos povos diretamente atingidos por estas mesmas políticas, mesmo quando decididas por referendos. Não à toa, as praças públicas têm sido tomadas por variados protestos, principalmente em países mais atingidos pela crise, como Grécia, Portugal e Espanha. O que se reivindica nesses lugares é, ao menos, a manutenção dos direitos outrora adquiridos, em um contexto caracterizado pela drástica redução dos programas sociais. Governos de direita e de esquerda são substituídos continuamente e movimentos como o “5 Estrelas”, liderado pelo comediante Peppe Grilo, na Itália, logram sucesso em crescer frente à insatisfação popular, ainda que não se saiba ao certo quais são suas propostas concretas para superar os impasses que atingem principalmente os segmentos mais vulneráveis do continente europeu.

A esquerda europeia, por sua vez, pareceu e ainda parece atônita frente às consequências da crise econômica, mostrando enorme dificuldade para responder aos novos desafios colocados pela conjuntura política. Este sentimento se manifesta quer em sua dimensão institucionalizada – como se comprova pelo tímido e errático governo socialista francês de François Holande –, quer em sua forma de “movimento” – tal qual demonstrado pelos “indignados” espanhóis, incapazes de converter o grito revoltoso das ruas em mudanças institucionais efetivas do sistema econômico e político do país. Não somente a esquerda política se mostra atarantada, mas também a intelectualidade de esquerda. Parte dela, que havia aderido desde a década de 1990 ao ideário neoliberal, respondeu debilmente à crise e não se mostra disposta a rever suas posições, reivindicando apenas pequenos ajustes no sistema, de modo que ele seja menos cruel do que da forma que se manifesta. Outra parte, ainda que mobilize belos discursos pós-estruturalistas, se contenta em repetir fórmulas retoricamente admiráveis aos ouvidos da esquerda radical, mas que se mostram inábeis para rebater os reptos colocados pela política real.

A reflexão de Jürgen Habermas, ancorada na perspectiva da construção de uma utopia realista, parece representar justamente um terceiro caminho entre a aceitação acrítica das regras do jogo e o denuncismo utópico que nada propõe de concreto. Se a agenda política e intelectual habermasiana já despontava em seus trabalhos teóricos – como, por exemplo, em Mudança Estrutural da Esfera Pública e Direito e Democracia – é, sobretudo, em seus textos de conjuntura que ela se expõe em tintas mais claras. Dando sequência a discussões realizadas em anos anteriores – a exemplo dos artigos coligidos no livro A Constelação Pós-Nacional –, Habermas tem, cada vez mais, se consolidado como um eminente intelectual público, que, a partir de suas formulações teóricas, intervém nos debates candentes da agenda pública e busca apontar caminhos capazes de superar os desafios colocados na conjuntura política. Nesse sentido, é possível dizer que duas são as temáticas que mais têm prendido sua atenção nos últimos anos, a saber: a relação entre religião e esfera pública – como se comprova no livro Entre Naturalismo e Religião – e a integração europeia. O livro Sobre a Constituição da Europa se constitui como um exemplo admirável dos esforços intelectuais e políticos de Habermas para pensar esta segunda temática.

Publicado originalmente em 2011, na Alemanha, e traduzido para o português em 2012 pela Editora Unesp – com uma clara e competente apresentação de Alessandro Pinzani –, esta obra evidencia o notável esforço de um intelectual público de esquerda para refletir de modo realista, sem trair o impulso utópico. Seu argumento se sustenta, de modo geral, em uma crítica dialética do processo de unificação europeu que, se por um lado, abriu possibilidades nunca dantes pensadas para uma sociedade mundial constituída politicamente e para a construção de uma agenda cosmopolita radicalmente democrática, por outro, se reduziu a um instrumento administrado por uma elite funcional elitista, desinteressada e temerosa de uma participação mais efetiva da população. De forma resumida, pode-se dizer que seu livro busca reconstruir, a partir de uma base realista, a utopia de uma democracia transnacional ancorada na ideia dos direitos humanos universais. Composto por dois longos artigos – “O conceito de dignidade humana e a utopia realista dos direitos humanos” e “A crise da União Europeia à luz de uma constitucionalização do direito das gentes. Um ensaio sobre a constituição da Europa” –, uma entrevista e dois textos curtos publicados em jornais, este livro tem, entre outras qualidades, o mérito de repor, no rescaldo da crise econômica, o debate sobre cosmopolitismo em uma nova perspectiva.

Não seria possível e nem é o intuito desta resenha analisar pormenorizadamente cada um dos textos que compõem Sobre Constituição da Europa. À guisa da produção de uma análise que busque compreender os sentidos mais gerais do livro, sem desconsiderar suas complexidades, este texto procura (I) apresentar os principais argumentos que compõem a obra, e que se situam, de maneira geral, na exposição da contínua e revigorada tensão entre direitos humanos universais e questões nacionais; (II) discutir o quanto a utopia realista habermasiana, (a) abre caminhos, a partir de seu ideal cosmopolita, para a reconstrução de uma perspectiva universalista no mundo contemporâneo, que supere nacionalismos estreitos, e (b) contribui para criticar a tibieza dos políticos, de modo geral, para um enfrentamento público consistente de temáticas que tenham como horizonte normativo a formulação de uma agenda cosmopolita e democrática. Por fim, (III) apresentarei algumas limitações da abordagem habermasiana para um enfrentamento mais consistente dos desafios colocados para a esquerda no mundo contemporâneo.

(I)

A obra Sobre a Constituição da Europa estabelece, obviamente, uma análise crítica do processo e das consequências da crise econômica sobre o continente europeu. Mas, seria um enorme reducionismo abordar este trabalho somente por este prisma. Habermas procura em suas intervenções problematizar, de modo geral, o curso que tem seguido a globalização econômica, a qual, não obstante politicamente desejada, não tem sido acompanhada por uma “coordenação política mundial”, bem como por uma “uma juridificação mais ampla das relações internacionais” (p.116). A crise econômica apenas confirmaria esses problemas, abrindo novas possibilidades para a tomada de consciência desse déficit cooperativo e jurisdicional, de modo a superá-lo politicamente. Para tanto, o autor defende a necessidade “de tirar do caminho certos bloqueios mentais” que contribuem sobremaneira para barrar uma efetiva agenda de “transnacionalização da democracia” (p.4-5). Criticando as “ilusões neoliberais”, que acreditavam na ideia da autorregulação dos mercados financeiros globais, Habermas defende a ideia segundo a qual somente uma política de regulamentação coordenada por uma comunidade cosmopolita de Estados e dos cidadãos do mundo será capaz de reconstituir o dilacerado tecido social europeu.

O ideal cosmopolita habermasiano se sustenta na noção de que não basta uma crítica moral das relações injustas estratificadas da sociedade mundial; faz-se necessária, igualmente, a construção de uma agenda política que tenha como cerne a perspectiva de que defesa dos direitos humanos seja incorporada institucionalmente em uma sociedade mundial constituída politicamente. Para Habermas, os direitos humanos formam uma utopia realista na medida em que ancoram o próprio objetivo ideal de uma sociedade justa nas instituições de um Estado constitucional. De acordo com o autor, existe historicamente um vínculo conceitual entre os conceitos de dignidade humana e direitos humanos, que se constitui como a base para a construção de uma utopia concreta verdadeiramente democrática. A dignidade humana se configuraria, dessa forma, como a fonte moral da qual os direitos humanos individuais, na modernidade, extrairiam seu conteúdo. Daí, sua perspectiva normativa se fundar na possibilidade da construção de uma agenda democrática cosmopolita que assuma estes dois conceitos como ancoragem e que seja capaz de construir instituições, reunindo Estados e cidadãos do mundo, capazes de defendê-los e ampliá-los. Da mesma forma que a junção desses conceitos teria tido um “papel catalisador” para impulsionar, no curso da história, diversas transformações democráticas, elas permaneceriam como as vigas de suporte de um projeto no qual, a partir da “força civilizadora do direito estabelecido democraticamente” (p.45), seria possível assegurar a construção de uma ordem democrática para a sociedade mundial contemporânea.

(II)

A “utopia concreta” habermasiana tem como um de seus principais méritos a crítica nela inscrita a uma visão nacionalista estreita – fortemente presente tanto à esquerda, quanto à direita do quadro político –, que dificulta uma reflexão mais sistemática em torno da radicalidade democrática da agenda universalista dos direitos humanos. Para Habermas, aqueles que se opõem à agenda cosmopolita a partir de um nacionalismo acrítico não percebem o quanto o conceito de nação foi histórica e artificialmente construído – e, portanto, não deve ser naturalizado – e o quanto ele não dá mais conta de responder aos desafios colocados na conjuntura contemporânea. Habermas critica o fato de liberais e comunitaristas se prenderem a uma concepção acanhada de um Leviatã, que se desenvolveu desde o século XVII com o sistema de estados europeus, e foi superada no curso das transformações que se processaram no século XX. Para Habermas, contudo, não basta que as instituições sejam capazes de responder aos novos desafios colocados na ordem cosmopolita. Para que suas respostas sejam válidas, elas devem ser construídas democraticamente. Ou dito, de outra forma, o que está em jogo é a necessidade da institucionalização de novas relações que, superando a “sujeição inescrupulosa do mundo da via aos imperativos do mercado” (p.111), sejam capazes de constituir democraticamente agendas universais, a partir de uma “comunidade cosmopolita inclusiva”.

Para Habermas, ainda que os direitos humanos só possam adquirir a validade positiva de direitos fundamentais em uma comunidade particular, isto é, no interior de um Estado nacional, sua pretensão universalista só pode ser concretizada em uma comunidade cosmopolita inclusiva, cuja normatividade aponta para as fronteiras transnacionais. Essa contradição entre nacional e universal só poderá, segundo o autor, ser resolvida em uma sociedade mundial constituída democraticamente. A concentração da agenda política em âmbito nacional perde de vista justamente esse caráter cosmopolita e democrático da ideia de direitos humanos. Isso não quer dizer que Habermas seja ingênuo quanto às possibilidades do uso da noção de direitos humanos para a imposição da agenda dos países desenvolvidos sobre o mundo subdesenvolvido ou para a legitimação de intervenções pretensamente humanitárias, que não passam, na verdade, de ações executadas com interesses escusos. Não à toa, o autor reconhece que faz sentido, em certas situações, a suspeita de que o programa dos direitos humanos consiste em seu mau uso imperialista, sobretudo quando ele se torna “um mero simulacro e veículo para impor os interesses das grandes potências” (p.33).

O uso deturpado da noção de direitos humanos para justificar imperialismos de toda sorte, contudo, não deve servir como razão suficiente para, nos termos de Habermas, “roubar a mais-valia moral própria dos direitos humanos e estreitar de antemão o foco da temática dos direitos humanos” (p.33). Sua agenda, quando ancorada no conceito de dignidade humana, transcende as questões comezinhas da política internacional, permitindo associar, de maneira mais ampla, as lutas nacionais e as universais em uma mesma dimensão. Para Habermas, “somente esse vínculo interno entre dignidade humana e direitos humanos produz aquela fusão explosiva da moral no médium direito, no interior do qual deve ser efetuada a construção das ordens políticas justas” (p.37, grifos do autor). Nesse sentido, que o autor insiste na superação de uma concepção que associa diretamente soberania popular e soberania estatal. Ao contrário do pensá-los como conceitos dependentes, a soberania popular pode e deve ser encarada para além das fronteiras estatais. Para tanto, as competências transferidas ou distribuídas entre Estado nacional e as instâncias supranacionais devem ser não somente juridificadas no regime dos tratados internacionais, mas devem sê-lo “de forma democrática” (p.56, grifo do autor).

Para além da crítica ao nacionalismo estreito que perde de vista as potencialidades democráticas de uma perspectiva cosmopolita ancorada nas ideias de dignidade humana e direitos humanos, Habermas dirige sua intervenções contra a tibieza dos partidos políticos europeus, em especial aqueles da esquerda, no sentido de “tematizar em geral as alternativas para as decisões de longo alcance” (p.141-2, grifos do autor). Preocupados com as próximas eleições e subordinados em demasia à “opinião pública”, os políticos não agiriam de forma independente, controlados a todo o momento pelos estados de ânimo rastreados a cada processo eleitoral. Presas a uma abordagem administrativa usual, absorvidos somente na busca por saídas imediatas para as atuais crises dos bancos, da moeda e da dívida, e pautando suas ações em pesquisa de opinião, as elites políticas mostrar-se-iam incapazes de pensar o diferente e propor uma agenda normativa diversificada. Nesse sentido, o procedimento democrático perderia seu sentido principal. Ao contrário de existir para meramente retratar um aspecto espontâneo da opinião, este procedimento deveria reproduzir o resultado de um processo público de formação da opinião. Conforme destacado por Habermas, os votos dos eleitores apenas “recebem peso institucional da codeterminação democrática” caso estejam “vinculados a opiniões publicamente articuladas, que se formaram no intercâmbio comunicativo das tomadas de posição, das informações e das razões relevantes para o tema” (p.141-2, grifo do autor).

Uma evidência clara desse processo da fraqueza dessas elites políticas seria a inexistência nos países europeus de qualquer processo eleitoral ou referendo em que as pessoas fossem submetidas a uma verdadeira discussão e deliberação sobre aspectos diferenciados daqueles relacionados às temáticas e programas estritamente nacionais. Para Habermas, trata-se de um grande equívoco. O futuro da humanidade não estaria mais sendo jogado nos âmbitos restritos de um Estado nacional. Temáticas como a mudança climática, os riscos mundiais da tecnologia nuclear, a regulação do capitalismo impulsionado pelo mercado financeiro e a imposição dos direitos humanos em nível internacional, para serem efetivamente enfrentadas, demandariam esforços que transcenderiam as fronteiras nacionais, clamando a ação de uma comunidade cosmopolita de Estados e dos cidadãos do mundo. Daí, a necessidade de os partidos políticos europeus adotarem outra configuração da mentalidade política, assumindo corajosamente a tarefa de suscitar o debate sobre estas temáticas internacionais, contribuindo, dessa maneira, para “configurar politicamente a opinião pública por meio de um esclarecimento permanente da população” (p.133).

(III)

A despeito das divergências que possam existir com as análises de Habermas, bem como com sua agenda normativa para enfrentar os impasses da Zona do Euro – podendo-se, por exemplo, criticar sua crença, por vezes, ingênua nas potencialidades inscritas no Tratado de Lisboa –, é impossível não reconhecer a importância de sua reflexão para suscitar um debate mais aprofundado não somente sobre o futuro da Europa, mas sobre a possibilidade da construção de uma ordem mundial cosmopolita. Afinal, apesar do título da obra, a pretensão de Habermas em Sobre a Constituição da Europa transcende o objetivo de desenvolver uma análise do continente per se; ela se vincula a uma preocupação em pensar uma agenda universal cosmopolita. E é justamente sobre esta pretensão que pode ser desenvolvida uma crítica mais sistemática à abordagem habermasiana, que se vincula a dois aspectos, que procurarei abordar brevemente: (a) sua pretensão cosmopolita não é acompanhada por um movimento intelectual que se coloque enquanto universal; (b) sua defesa do cosmopolitismo acaba reduzindo em demasia a importância que as nações ainda continuam a desempenhar no mundo contemporâneo para a formulação de uma agenda democrática.

O primeiro aspecto foi muito bem percebido por Perry Anderson, em texto recentemente publicado no jornal Le Monde Diplomatique, intitulado “A Europa diante da hegemonia alemã”. Anderson diagnostica de maneira perspicaz que os interlocutores que Habermas mobiliza para defender seu ponto são autores alemães e anglo-americanos. Se, por um lado, pode parecer exagero acusar Habermas de uma “exibição ingênua de provincianismo”, como faz Anderson, por outro, é inegável não perceber um problema nessa mobilização estreita de autores. A pretensão pela construção de uma agenda política cosmopolita deve ser seguida por um movimento intelectual também cosmopolita, que seja capaz de romper com o provincianismo característico do mundo acadêmico norte-americano e europeu. Nesse sentido, a crítica mobilizada por autores como Raewyn Connell, em obras como Southern Theory: The Global Dynamics of Knowledge in Social Science, faz sentido, para pensar este debate. Uma ordem cosmopolita não pode prescindir de um verdadeiro diálogo intelectual, que considere também formulações vindas do “Sul Global” para pensar a agenda cosmopolita contemporânea.

Quanto ao segundo aspecto, importa dizer que, não obstante a crítica de Habermas ao nacionalismo estreito seja correta e de suma importância para problematizar formulações teóricas e políticas refratárias à agenda universalista, acusando-a de “imperialista”, ela força a mão em certas passagens, perdendo de vista as potencialidades democráticas existentes nas tradições nacionais. Além disso, ela desconsidera um aspecto muito bem discutido por Craig Calhoun, em sua obra Nations Matter: Culture, History, and the Cosmopolitan Dream, que diz respeito ao fato de que, a despeito da globalização, os Estados nacionais permanecerem como espaços construção de relacionamentos interpessoais, instituições sociais e laços de solidariedade, que não podem ser secundados para a reflexão sobre uma agenda democrática no mundo contemporâneo. Essas observações, contudo, não devem servir para reduzir a importância desse trabalho, mas tão somente para chamar a atenção para a necessidade de pensar o projeto intelectual e político habermasiano como uma obra aberta, que deve sempre ser mobilizado por aqueles que desejem pensar os caminhos para a construção de mundo socialmente mais justo e democrático.

* Doutorando do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ) e Pesquisador do Centro de Estudos Direito e Sociedade (CEDES-PUC-Rio).


 Fonte: Boletim Cedes – Abril-Junho 2013  

Bach, concerto violino

A dor e o ódio - Graziela Melo

Rotunda
é a dor
que se avizinha
dos que perderão
seus filhos
na guerra.

Triste,
mas real
constatação:
é o ódio
que se alastra
sobre a Terra...

sábado, 13 de abril de 2013

OPINIÃO DO DIA – José Serra: ampliar forças

"O Estado brasileiro foi capturado por um grupo em seu benefício. Esta força política, o PT não hesita, e não hesitará ,em enfraquecer a democracia brasileira para se fortalecer. É um grupo que se apropriou do poder no Brasil. Esta é a única lógica para entender o que acontece.

Esse grupo não aceita a independência entre os poderes, não aceita a imprensa livre e mais ainda: não aceita a hipótese de alternância de poder.

A herança dos governos do PT será a mesma deixada pela ditadura. Imagine mais uma reeleição?

A nossa responsabilidade é grande aqui. Juntos, precisamos encontrar alternativa. Como disse o Roberto (Freire) antes e, ao meu ver ele está certo, não sei se unindo tudo em torno de uma única candidatura ou se tendo várias candidaturas. Acho até que a segunda hipótese é a melhor.

Precisamos trazer gente que está do outro lado. Isto é essencial. Aprendi isso desde a época da União Estadual dos Estudantes (UEE). Se você quer administrar, você tem que ganhar gente de boa fé.

No ano que vem podemos ganhar. Vai depender em grande medida da gente, da capacidade de ampliarmos estas forças.

José Serra, ex-prefeito e ex-governador de S. Paulo,, ontem na Conferência do PPS: A Esquerda Democrática pensa o Brasil

Manchetes de alguns dos principais jornais do País

O GLOBO
Fora dos trilhos: Acidente expõe caos no transporte de trem no Rio
Pacificação cabeça: Psicólogos com PMs em UPPs
Contas públicas: ‘Jeitinho’ na meta fiscal perto do fim

FOLHA DE S. PAULO
'Expectativas se resolvem com juros', diz Mantega
Na antiga Febem, 1,5% está detido por assassinatos
Feliciano quer tirar proveito, afirma líder da igreja dele
Ministro Fux cancela festa que seria paga por advogado
Senado da França aprova projeto de casamento gay

O ESTADO DE S. PAULO
Governo indica alta de juro apesar do recuo da economia
Mercado já aposta em alta
Ministros pedem análise de recursos do mensalão
Bancadas na Câmara
Governo rejeita redução da maioridade penal

ESTADO DE MINAS
Conta de água vai aumentar 5,25%
Prévia do PIB de fevereiro aponta um recuo de 0,52%
A vantagem de ficar mais 1 ano na escola

O TEMPO (MG)
Do cinema ao motel, inflação atinge bem mais que alimentos
Economia brasileira se retrai em fevereiro, diz BC
Após apoio de Aécio ao PP em MG, tucanos exigem retribuição
PF abre inquérito sobre Lula

CORREIO BRAZILIENSE
Inflação põe governo em alerta. Juros vão subir
Brasileiro está entre as feras do ensino nos EUA

GAZETA DO POVO (PR)
Setores driblam estagnação e crescem em ritmo acelerado
Três propostas buscam reduzir maioridade penal
Ex-presidente do Supremo apoia TRFs
Atos defendem o Ministério Público no país
Maduro e Capriles na era pós-Chávez

ZERO HORA (RS)
Dilma anuncia R$2,4 bi para estradas gaúchas
Aumenta o dilema do BC sobre juro
Polícia indicia 97 suspeitos por atentados

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Racionamento deve piorar
Mantega admite aumentar juros

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais do País

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Contas públicas: ‘Jeitinho’ na meta fiscal perto do fim

Criticado por especialistas por só conseguir cumprir a meta fiscal graças a diversas manobras, o governo agora quer "assumir" um compromisso que possa cumprir. Para este ano, por exemplo, precisa fazer economia de 3,1% do PIB para pagar juros, mas só deve conseguir 2%.

Jogando a toalha

Com política fiscal desacreditada, governo estuda admitir que não cumprirá meta de superávit primário

Martha Beck

BRASÍLIA - Preocupado com a crise de confiança e os sucessivos ruídos na comunicação com o mercado financeiro, o governo já discute uma nova estratégia em relação à política fiscal. Na última reunião da Junta Orçamentária, realizada esta semana, no Palácio do Planalto, a equipe econômica e a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, discutiram a possibilidade de o governo assumir publicamente que o esforço fiscal previsto para o ano não contempla o cumprimento da meta cheia de superávit primário, equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, deixaria explícito que pretende abater da meta despesas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e com as desonerações, de forma a tornar mais transparente a relação com os agentes econômicos.

A equipe econômica já deu sinais de que adotará uma política fiscal expansionista este ano, que tem como objetivo incentivar a retomada da economia, após o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de bens e serviços produzidos no país) de 0,9% no ano passado. Além de ter incluído na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) a possibilidade de abater R$ 45,2 bilhões em investimentos do PAC, conseguiu que o Congresso aprovasse uma mudança no texto pela qual outros R$ 20 bilhões com desonerações também poderão ser descontados da meta. Assim, pela lei, o abatimento poderia chegar a R$ 65,2 bilhões, se essas despesas fossem executadas, fazendo o primário cair para 1,8% do PIB.

Técnicos consideram meta de 2% do PIB

Nos bastidores, os técnicos avaliam que o país teria condições de manter uma situação fiscal equilibrada - mantendo a trajetória declinante da relação dívida pública, que fechou 2012 em 35,1% do PIB - fazendo um superávit primário efetivo em torno de 2% do PIB. Caso o abatimento da meta em 2013 seja de R$ 45,2 bilhões, por exemplo, o primário fecharia o ano em 2,2% do PIB.

Fontes do governo admitem que a política fiscal ficou particularmente desacreditada depois das manobras realizadas para o fechamento das contas no final do ano passado. Mesmo precisando estimular a economia em 2012, a equipe econômica manteve a meta fiscal em 3,1% do PIB. No entanto, o resultado oficial foi de apenas 2,4% do PIB, sendo que isso só foi possível porque o Tesouro Nacional antecipou dividendos de estatais (R$ 7 bilhões), resgatou dinheiro do Fundo Soberano (R$ 12,4 bilhões) e ainda manipulou as despesas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para que a execução das despesas crescesse.

Com isso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e sua equipe foram acusados de falta de transparência. O jornal "Financial Times" chegou a publicar um artigo chamando Mantega e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de profissionais do chamado "jeitinho brasileiro". Na avaliação de analistas do mercado, a fixação de uma meta menor teria tido uma repercussão menos negativa.

- O mercado prefere que a gente diga que vai fazer um primário menor do que manipular o resultado mantendo a meta em 3,1% do PIB. Isso ajuda a resgatar a imagem da política fiscal - disse um técnico.

Fazenda e tesouro são contra a proposta

Por isso, o que se avalia agora é que a equipe diga com todas as letras que a meta de superávit primário de 2013 cheia, de R$ 155,9 bilhões, não será integralmente cumprida, porque o governo pretende abater as despesas autorizadas pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Embora a lei contemple a possibilidade de abatimento de despesas com investimentos e desonerações da meta, o governo nunca deixa claro qual é exatamente a economia para o pagamento de juros que pretende fazer.

Segundo fontes, ainda não há consenso sobre essa ideia. Mantega e o secretário do Tesouro, Arno Augustin, resistem, mas outras autoridades do governo estão convencidas de que o melhor caminho é deixar a estratégia fiscal clara para os agentes econômicos.

Fonte: O Globo

Governo indica alta de juro apesar do recuo da economia

IBC-Br cai 0,52% em fevereiro e Mantega fala em "tomar medidas não populares" contra a inflação.

O ministro Guido Mantega (Fazenda) e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, sinalizaram ontem que o Copom pode elevar em breve a taxa de juros, hoje em 7,25% ao ano, para frear a inflação. O índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado anteontem, chegou a 6,59% no acumulado de 12 meses em março, acima do teto da meta (6,5%). "Vamos tomar medidas, mesmo que não populares, como o ajuste na taxa de juros", disse Mantega. Tombini foi na mesma linha, afirmando que "não há nem haverá tolerância" com a alta dos preços. Eles falaram no mesmo dia em que foi divulgado o recuo de 0,52% em fevereiro, em relação a janeiro, do índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), indicador que serve como termômetro da economia. Apesar do resultado, a expectativa é de que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) fique próximo de 1% no primeiro trimestre, na comparação com o quarto trimestre do ano passado. No Rio Grande do Sul, a presidente Dilma Rousseff reagiu às críticas à política econômica.

Economia recua em fevereiro e governo sinaliza alta dos juros contra a inflação

Eduardo Cucolo

BRASÍLIA - No mesmo dia em que o Banco Central (BC) divulgou um indicador mostrando que a atividade econômica apresentou em fevereiro a maior queda desde 2005, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do BC, Alexandre Tombini, indicaram ontem que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderá elevar em breve os juros para frear a inflação, que em março superou a meta oficial.

Considerado pelo mercado como um termômetro do ritmo da economia, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR) recuou 0,52% em fevereiro em relação a janeiro, quando o indicador apontou alta de 1,43%, também na comparação mensal. Em conjunto, os números indicam que a economia brasileira acelerou no início de 2013.

No mês passado, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) bateu em 6,59% no acumulado de 12 meses, acima do teto (6,5%). Em São Paulo, Mantega avaliou que a pressão inflacionária é passageira, por causa dos alimentos, mas prometeu medidas para controlar os preços. "O governo tem dado atenção ao combate da inflação e posso assegurar que em 2013 não será diferente. Vamos tomar medidas, mesmo que não populares, como o ajuste na taxa de juros." Já o presidente do BC declarou, no Rio, que "não há nem haverá tolerância com a inflação". "Estamos monitorando atentamente todos os indicadores e, obviamente, no futuro, vamos tomar decisões sobre o melhor curso para a política monetária."

Ímdice. O mercado entendeu as declarações como um sinal de que os juros podem subir em breve, Pesou nesse cálculo o fato de o IBC-BR cair menos que o esperado por analistas. No acumulado em 12 meses até fevereiro, o dado indica expansão de 0,87%. A expectativa do governo e de analistas do setor privado é fechar este ano em 3%.

Os números do bimestre e dados preliminares de março levaram vários economistas a prever alta do Produto Interno Bruto (PIB) próxima de 1% nos três primeiros meses do ano em relação ao último trimestre de 2012, quando a expansão ficou em 0,6%. Para os três meses seguintes, porém, a expectativa é de desaceleração.

Juros. O IBC-BR contribuiu para aumentar as apostas de alta de juros em abril, embora o mercado continue dividido em relação às expectativas para o próximo Copom. O encontro seguinte do comitê será em 29 de maio, mesma data da divulgação dos dados do PIB do primeiro trimestre.

Para Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Partners, o índice do BC reforça a avaliação de crescimento anualizado acima de 4% no trimestre passado e a necessidade de alta dos juros em abril.

Fonte: O Estado de S. Paulo

PF abre inquérito e apura relação de Lula com mensalão

Marcos Valério acusa ex-presidente de negociar US$ 7 milhões para o PT

BRASÍLIA - A Polícia Federal abriu ontem inquérito criminal para apurar envolvimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mensalão. É a primeira investigação que tem Lula como um dos alvos no episódio do mensalão. O Supremo Tribunal Federal já julgou as acusações contra 39 réus, mas Lula era apenas testemunha no processo. A nova investigação foi aberta por determinação do Ministério Público Federal do Distrito Federal, a partir do depoimento prestado por Marcos Valério, condenado a mais de 40 anos de prisão por ser o operador do mensalão.

Em depoimento à Procuradoria Geral da República, em setembro de 2012, Valério disse que Lula negociou pessoalmente com Miguel Horta, então presidente da Portugal Telecom, repasse de recursos para o PT. O inquérito deriva de um dos seis procedimentos preliminares abertos pela Procuradoria para apurar as novas denúncias de Marcos Valério.

Segundo Valério, o ex-presidente e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci teriam participado de reunião em que supostamente foi combinada com Horta a transferência de US$ 7 milhões de uma fornecedora da Portugal Telecom, em Macau, para o PT. O dinheiro teria entrado pelas contas no exterior de publicitários que prestavam serviço ao partido. Na época, a Portugal Telecom tinha interesse em obter negócios com o governo.

Quando prestou depoimento à Procuradoria, Valério tentou obter redução de pena no processo no STF, por delação premiada. No entanto, o procurador-geral, Roberto Gurgel, entendeu que o processo do mensalão já estava em fase adiantada. A eventual inclusão das declarações no processo faria com que os prazos para a defesa fossem reabertos, adiando o resultado final do processo contra os 39 réus em julgamento. Para Gurgel, o novo depoimento também não interferia no processo do mensalão no STF.

PF tem 30 dias para investigar

Após o fim do julgamento, Gurgel repassou o depoimento para o Ministério Público de Minas Gerais. Ao analisar o conteúdo das declarações, os procuradores de Minas entenderam que o caso era da competência dos colegas em Brasília, que abriram seis novas frentes de investigação. Um dos casos já foi transferido para a esfera da Justiça local. Essa apuração tem relação com crime eleitoral e os procuradores entenderam que a apuração deveria ser conduzida pelo Ministério Público local do DF, que atua na primeira instância da Justiça Eleitoral.

Após a divulgação do teor do depoimento, Lula classificou as declarações como mentirosas. Na mesma época, Palocci disse, por meio de sua assessoria, que os fatos relatados por Valério "jamais existiram". Miguel Horta declarou, em nota, que não teve "qualquer ligação" com o processo do mensalão.

Conforme informou a PF, o pedido de investigação foi feito pelo Ministério Público Federal, para onde a PGR enviou o caso, com base no depoimento de Valério em setembro. O caso ficará sob responsabilidade da Delegacia de Combate a Crimes Financeiros. A PF tem 30 dias, prorrogáveis por mais 30, para finalizar a investigação.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que a PF tem autonomia para investigar o ex-presidente no caso do mensalão. Segundo ele, a PF é "republicana" e não está submetida a "nenhum tipo de interferência, de qualquer natureza".

- A PF está apta a investigar quaisquer dos crimes que estão na sua competência - afirmou, antes de participar de um debate sobre Segurança Pública na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Fonte: O Globo

Mensalão - Condenados recorrem mais uma vez para ter acesso a votos

Advogados tentam vencer oposição de Barbosa

Carolina Brígido

BRASÍLIA Réus do mensalão recorreram mais uma vez ao Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir acesso aos votos escritos dos ministros antes da publicação do acórdão do julgamento. Eles argumentam que não haverá tempo hábil para ler todo o documento - que, estima-se, terá dez mil páginas - a fim de apresentar os recursos no prazo legal de cinco dias. O presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, relator do processo, já negou o pedido diversas vezes. E ainda não levou a petição ao plenário da Corte, como pediram os condenados. No recurso, os advogados criticaram Barbosa por "abuso e descontrole".

"Os recursos regimentais cabíveis não podem ser sonegados ao conhecimento do plenário, como têm sido neste caso. A autoridade recorrida não deve dar causa ao descontrole de suas próprias decisões. Não pode prejudicar a atuação, em tempo oportuno, do órgão originariamente competente para conhecer de agravos regimentais e medidas cautelares - o plenário do Supremo Tribunal Federal, instância que expressa a soberania do órgão de cúpula do Poder Judiciário brasileiro", escreveu a defesa. "Requeremos condições materiais para exercer plenamente a defesa técnica, contra abuso que nega todos os meios e recursos a ela inerentes".

A nova tentativa foi feita pela defesa de sete réus: José Roberto Salgado, Kátia Rabello e Vinícius Samarane, ex-dirigentes do Banco Rural, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o ex-presidente do PT José Genoino, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o deputado João Paulo Cunha (PT-SP).

"Suprimir deliberadamente tempo útil de defesa é uma perversão do conteúdo substantivo do devido processo legal. Ninguém pode ser condenado sem um processo justo. Não é justo um processo que restringe a plenitude do direito de ampla defesa", escreveram os advogados. "A reconsideração da decisão agravada manifestaria grandeza. Por meio dela, o processo não ostentaria uma mancha historicamente indelével".

Defesa alega prazo curto

Em uma das negativas de Barbosa, ele argumentou que a defesa poderia consultar as imagens da TV Justiça para começar a redigir os recursos, sem a necessidade de ler integralmente o acórdão. Os advogados discordam. "O acórdão é um ato judicial revestido da forma escrita. Não pode ser substituído por vídeos das sessões de julgamento. Primeiro porque tal substituição é praticamente inviável. Poucos ministros leram integralmente o seu voto. Muitos apenas o resumiram. Alguns se comprometeram a liberá-lo com antecedência razoável. Isso apenas basta para demonstrar a plausibilidade da petição sumariamente indeferida", afirmou a defesa.

No documento, os advogados reforçam que não haverá tempo suficiente para apresentar os recursos. O acórdão é o resumo da decisão tomada ao longo dos quatro meses e meio do julgamento. O documento deve ser publicado no Diário de Justiça na próxima semana. Em seguida, a defesa terá cinco dias para recorrer. Só depois do julgamento dos recursos os réus condenados começarão a cumprir pena. Dos 37 réus, 25 foram condenados.

Fonte: O Globo

Eduardo Campos: novas críticas e cenas de campanha

No Pajeú, governador mantém Dilma como alvo

CARNAÍBA e AFOGADOS DA INGAZEIRA - Sentado diante de uma máquina de costura, em uma fábrica de confecções em Afogados da Ingazeira, o governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB) protagonizou sua mais nova cena de campanha. Ontem, durante um périplo pelo Sertão do Pajeú, o socialista voltou a criticar a condução da economia pela presidente Dilma Rousseff (PT) - que lidera as intenções de voto no Recife (36%), conforme apontou a pesquisa do Instituto Maurício de Nassau publicada pelo JC. O governador apresenta 34% da preferência do eleitorado.

"Crescimento não é apenas medido pela estatística, pelos números. O crescimento econômico é identificado no sorriso das pessoas e na harmonia de uma família", disse Eduardo, durante a inauguração da fábrica Cimento Pajeú, instalada no município de Carnaíba. O empreendimento ganhou isenção de 95% no Imposto sobre Mercadorias e Serviços (ICMS) do Estado.

Disponível para fotos, sorridente e fazendo piadas, Eduardo Campos desembarcou no Sertão com o núcleo forte de seu governo, do qual fazem parte os secretários Antônio Figueira (Saúde), Danilo Cabral (Cidades), Ranilson Ramos (Agricultura) e Marcio Stefanni (Desenvolvimento Econômico). A passagem do governador pela região acontece pouco mais de um mês depois da presidente Dilma anunciar em Serra Talhada, também no Pajeú, R$ 3,1 bilhões em investimentos para amenizar os efeitos da seca.

A pauta do governador envolveu o mesmo tema: a água. Ao lado do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho (PSB), Campos anunciou a ampliação da parceria com o governo federal para construção de barragens, sem citar diretamente a presidente. Eduardo pronunciou uma única vez o nome de Dilma. Inicialmente, o contrato previa a instalação de quatro barragens para cada cidade da região, o que resultaria em 440 unidades. Diante da obra de terraplanagem para a Adutora Pedra d"Água, em Carnaíba, ficou oficializado que o ministério ampliará para dez o número de barragens por município.

Também foi pactuado que as obras da segunda etapa da Adutora do Pajeú - a primeira foi inaugurada pela presidente - serão aceleradas e entregues até 1º de julho, quando Afogados da Ingazeira comemora sua emancipação. O total dos investimentos anunciados ontem pelo Estado para o Pajeú somam R$ 26,8 milhões somente em abastecimento de água.

Sobre as inserções do PSB veiculadas no rádio e na TV, onde aparece como protagonista, o governador negou que estivesse potencializando sua imagem e afirmou que o partido tem o direito de manifestar suas convicções sobre melhorias para o Brasil. "O que nós estamos fazendo é difundir as ideias do PSB em áreas estratégicas, como a educação e a segurança pública. Este foi o objetivo", destacou.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Bombardeio intenso de Eduardo Campos em Dilma

Na passagem pelo Sertão do Pajeú, governador fecha uma semana de muitas críticas à gestão do PT, em entrevistas e nas inserções do PSB no rádio e na televisão

Bruna Serra

As críticas do governador Eduardo Campos (PSB) ao governo da presidente Dilma Rousseff (PT) se intensificaram nesta semana, com um intenso bombardeio que terminou ontem, durante sua passagem pelo Sertão do Pajeú, com a afirmação de que "crescimento não é só estatística, número. É o sorriso do povo e a harmonia da família".

Logo no início da semana, durante evento com a Força Sindical em São Paulo, Eduardo Campos criticou a novamente a política de desonerações do governo federal, afirmando que o Brasil piorou nos dois primeiros anos da gestão Dilma Rousseff.

Mais tarde, em entrevista a um jornal de Porto Alegre, disse que o PSB não pode renunciar à possibilidade de "crescer e discutir o futuro do Brasil".

Outra disparada veio após um encontro com o pastor Silas Malafaia, onde Campos teria dito que sua candidatura à Presidência da República é "irreversível" e que o PSB "não é voto de cabresto" nem "legenda de aluguel" do PT.

Já na quinta-feira (11), em Washington, durante entrevista no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o governador pernambucano voltou a mandar recados para o governo Dilma Rousseff, ao dizer que o cenário de divergência entre crescimento econômico e inflação é preocupante. Reforçou queixas dizendo que as desonerações já não tem mais eficácia e que podem "comprometer" a economia em 2013 e 2014. Também na quinta, o presidente foi a estrela das inserções de seu partido, onde rememorou a frase que marcou o início de suas críticas mais fortes ao governo: "Dá para fazer mais".

Mas ontem, não apenas a presidente foi alvo do socialista. Mesmo demonstrando pouco interesse em rebater as declarações do pré-candidato do PSDB ao Planalto, senador Aécio Neves (MG), que insistiu esta semana que o PSB estaria "no divã" - sem saber se é governo ou oposição -, Campos garantiu que seu partido não mudou de lado. "Não tem divã nenhum. O PSB está onde sempre esteve, ao lado das lutas do povo. Aliás, o PSB está cada vez mais na cabeça e no coração das pessoas", fustigou.

Programa

Após as inserções desta semana, as expectativas agora ficam por conta do programa partidário que o PSB exibirá, também em cadeia nacional de rádio e televisão. O programa está sendo produzido para exibição no próximo dia 25. Mais uma vez, a economia nacional estará no foco.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Após apoio de Aécio ao PP em MG, tucanos exigem retribuição

Pepistas estão se mobilizando para garantir adesões ao projeto tucano

Larissa Arantes

Os elogios feitos pelo senador mineiro Aécio Neves (PSDB) ao PP, anteontem, desencadeou duas movimentações distintas dentro de seu partido e também na sigla aliada em Minas Gerais. As declarações de Aécio foram entendidas por lideranças mineiras como uma sinalização de sua preferência pelo nome do vice-governador do PP, Alberto Pinto Coelho, para o pleito estadual do ano que vem.

De um lado, tucanos cobram uma manifestação clara do PP sobre o apoio à candidatura de Aécio para a disputa presidencial de 2014, para somente depois dar como certo o nome do vice-governador para disputar o governo de Minas. Do outro, representantes estaduais pepistas que já estão ao lado do senador dão início a um processo de agregação de outros Estados.

"Queremos o apoio do PP ao Aécio. O PP é um aliado de primeira hora, mas se ficar ao lado do PT como vai ser?", enfatizou o deputado estadual e presidente municipal do PSDB, João Leite. O deputado federal e presidente da legenda em Minas, Marcus Pestana, seguiu a mesma linha. "Não está claro se o PP vai nos apoiar na candidatura do Aécio. Nós temos solidariedade de algumas seções do PP, de outras, não", concluiu Pestana.

O deputado federal Paulo Abi-Ackel (PSDB) evitou polemizar sobre a sinalização dada por Aécio anteontem. "É um indicativo apenas para a união dos partidos. O grupo deve ficar unido", disse.

O deputado estadual Luiz Humberto Carneiro (PSDB), no entanto, foi enfático. "Um recado do Aécio é sempre um recado, um caminho a ser seguido", comentou.

Enquanto o PSDB cobra um posicionamento mais firme do PP em relação a 2014, lideranças pepistas de Minas já falam em garantir novas adesões da legenda ao projeto de Aécio Neves. "Os Estados que já estão ao lado de Aécio vão convencer os demais a estarem ao lado dele também", explicou o secretário de Estado de Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e do Norte de Minas, Gil Pereira, do PP.

O deputado federal Luiz Fernando Faria (PP) defendeu que o posicionamento do partido não seja feito de maneira impositiva. Mas ressaltou que os adversários do PP estão definidos". "Todos os sete pré-candidatos do PP têm como opositor nomes do PT", afirmou o parlamentar. (Com Gustavo Prado)

Fonte: O Tempo (MG)

Aécio busca aliados no PSDB paulista

Senador não passa uma semana sem telefonar para tucanos no estado

Silvia Amorim

SÃO PAULO - Logo após ter conseguido o apoio de lideranças do PSDB de São Paulo à sua candidatura a presidente nacional do partido, o senador Aécio Neves iniciou um movimento no estado para conquistar aliados dentro da legenda ao seu projeto de concorrer à Presidência da República em 2014. O mineiro, que nunca teve um relacionamento próximo com o núcleo paulista da legenda, agora está empenhado na construção de uma linha direta com pessoas que considera estratégicas para fortalecer o seu nome em São Paulo.

Desde o mês passado, Aécio não passa uma semana sem telefonar para o presidente estadual do PSDB, Pedro Tobias. Ainda este mês, ele voltará à capital paulista especialmente para uma reunião com a bancada de deputados estaduais de São Paulo. O encontro foi um pedido do próprio Aécio para se aproximar das bases do partido, uma vez que já garantiu o apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do governador Geraldo Alckmin.

A partir de maio estão previstas oito visitas do senador ao interior de São Paulo para encontros com prefeitos e vereadores. Aécio pediu que fossem convidados também prefeitos de cidades menores, de até mil habitantes, o que não costuma ser praxe nessas visitas.

- Ele deixou bem claro que quer falar para todos, de cidades grandes e pequenas. O PSDB tem o maior número de prefeitos do estado, e essa é uma força política que não podemos desprezar. Estamos convivendo há pouco tempo, mas parece que somos amigos de longa data. Ele está muito entusiasmado. Falamos de duas a três vezes por semana - afirmou Pedro Tobias.

Contato com Matarazzo

Outro canal de interlocução que Aécio está tentando abrir é com o vereador Andrea Matarazzo, o mais votado do PSDB na capital paulista e amigo pessoal do ex-governador José Serra. Matarazzo integrou no mês passado a força-tarefa para convencer Serra a aceitar a indicação do mineiro para o comando do partido. De lá para cá, ele recebeu alguns telefonemas do senador. Primeiro para pedir que fosse ao seminário do PSDB, do qual Aécio participou em março; depois para agradecer a presença no encontro. Em um desses contatos, Aécio chegou a dizer que via com bons olhos a candidatura de Matarazzo a presidente do diretório do PSDB na capital paulista. A eleição será no próximo domingo.

É em São Paulo, berço político da sigla, onde o PSDB tem a estrutura mais organizada do país. Por isso, a ofensiva de Aécio. Aliados do mineiro explicam que o engajamento do núcleo paulista é indispensável para qualquer projeto presidencial.

Além de se aproximar das bases partidárias, também está na estratégia de Aécio colar sua imagem à do governador Alckmin.

Fonte: O Globo

Serra não declara apoio, mas quer união

Em evento do PPS, ex-governador afirma que oposição deve se unir e diz considerar Aécio um "bom nome" para a disputa eleitoral. Logo depois, entretanto, nega ter feito o comentário

Juliana Braga

No dia seguinte à participação do presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) em encontro do PPS no Congresso, o ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) rompeu o isolamento para prestigiar o evento, em que pregou a união das forças de oposição. No entanto, Serra deu declarações dúbias quanto o apoio ao correligionário mineiro na corrida eleitoral de 2014.

Após quarenta minutos de discurso no seminário “A esquerda democrática pensa o Brasil”, José Serra foi indagado se apoiará o nome de Aécio Neves para a presidência do partido, em maio. “Claro que apoiarei”, respondeu. Em seguida, ao ser interpelado se o senador mineiro representa um bom concorrente à Presidência da República, o ex-governador de São Paulo foi menos enfático: “É um bom nome”, limitou-se a responder. Já na saída do Congresso, enquanto aguardava o carro, foi perguntado novamente sobre o assunto, mas se recusou a comentar o assunto e negou que a pergunta anterior tivesse sido feita.

Serra se limitou a dizer que, na política, era necessário ser racional e deixar as “paixões no passado”, mas, novamente, se esquivou de responder se a afirmação poderia ser interpretada como um apoio ao senador mineiro. “Eu sou passional, mas não levo paixão para as grandes decisões políticas. Sou racional demais para isso, é perda de tempo. Não posso deixar paixões do passado influírem nas decisões para o futuro”, afirmou.

O tucano, que tem sido cortejado pelo PPS, disse ser necessário aglutinar a oposição e se mostrou otimista em relação a 2014. “Eu me proponho a trabalhar pela união de todas as forças. Para que o movimento seja vitorioso, nós temos que somar, trazer gente que está do outro lado, de boa-fé, para o lado de cá”, sustentou. Mais uma vez, negou que a afirmação significasse uma eventual candidatura própria. “Eu disse que estou à disposição para o trabalho de união, e acho que tenho credencial para isso, pela melhor fórmula possível. Pode ser por meio de várias candidaturas ou de uma só. Mas isso não significa que eu esteja me colocando.” Ele ainda teceu duras críticas aos petistas e disse que as heranças das gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff serão “piores que as da ditadura e do ex-presidente Fernando Collor de Mello”.

Filiação

Desde a derrota na eleição do ano passado, quando concorreu à prefeitura de São Paulo, José Serra tem perdido espaço dentro do PSDB enquanto tenta frear o crescimento da influência do ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves na legenda. Desde então, tem crescido o desejo do PPS de atraí-lo para a sigla e lançá-lo candidato à Presidência da República em 2014. “Quem não gostaria de ter o Serra em seu quadro? É um grande nome e ajuda a incorpar a oposição”, afirmou o líder do partido na Câmara, Rubens Bueno (PR). Tanto Serra quanto Bueno, entretanto, negaram ter tratado do assunto na reunião que tiveram a portas fechadas, com o presidente do partido, Roberto Freire, após a palestra.

Hoje, o Diretório Nacional da legenda se reúne para tratar sobre a possibilidade de fusão com outras legendas da oposição. A ideia é ter um grupo maior, inclusive para seduzir José Serra. Um dos partidos com quem o PPS tem conversado é o PMN.

Fonte: Correio Braziliense

Serra promete empenho pela união das oposições

Tucano defende deixar passado de lado, mas evita menção a Aécio

Maria Lima

BRASÍLIA - Com o problema de coluna da véspera aparentemente resolvido, o ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) disse ontem que está trabalhando para administrar o seu pavio curto e passionalidade, em referência aos conflitos internos do PSDB, e afirmou que se empenhará em trabalhar pela união de todas as forças de oposição, que, acredita, tem chance de vencer o PT no ano que vem. Sem citar o senador Aécio Neves (MG), potencial candidato do partido à Presidência em 2014, Serra mostrou bom humor ao sinalizar que deixará para trás as mágoas do passado em relação ao comportamento do mineiro em suas campanhas.

Em discurso no seminário "Esquerda democrática pensa o Brasil", organizado pelo PPS, Serra fez severas críticas ao governo Dilma e disse ser importante somar forças e trazer para o lado da oposição "pessoas de boa-fé da base do governo", sem citar o nome do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que também tem criticado a política econômica do governo. Mas alertou que é necessário mais do que só o discurso do novo: é preciso casar o discurso do fazer mais com a realidade econômica do momento.

- Nossa responsabilidade é grande. É importante estarmos juntos, agrupar, juntar todas as forças que possam convergir. Isso supõe equilíbrio, frieza, para deixar paixões e o passado de lado. Sou passional. Mas não levo a paixão para as grandes decisões políticas. Sou racional demais para isso - disse Serra.

O tempo todo ele fugiu das perguntas diretas sobre o apoio a Aécio. Disse que, se o mineiro for o candidato a presidente do partido, é lógico que terá seu apoio. Perguntado se Aécio era um bom nome para 2014, ele respondeu, primeiro, que sim. Mas, depois, disse que a pergunta era uma pegadinha. Na saída, perguntado especificamente sobre se os problemas do passado com o senador mineiro estavam resolvidos, afirmou:

- Para mim, está sempre zerado. Vocês sabem que eu sou esquentado, mas está zerado.

Segundo Serra, ter vários candidatos em 2014 é uma boa estratégia, mas ressalvou:

- Isso não significa que eu esteja me colocando (como candidato).

No discurso, Serra criticou a política econômica de Dilma e o patrimonialismo sindical dos dez anos do PT no governo:

- A herança do governo Dilma será do padrão da deixada pela ditadura. Quem suceder ao PT vai encontrar o país no chão. Imagina se tem reeleição. Aí vai ser abaixo do chão.

Otimista em relação a 2014, Serra disse que "é difícil, mas não é impossível" vencer. Avaliou que em 2010 as condições do governo eram muito melhores, e que, mesmo assim, por muito pouco não venceu a eleição.

- Com tudo contra, tivemos 44%. Agora, pode ser tudo diferente. Nada é irremovível. Não há razão para derrotismo - disse, ao final do evento.

Fonte: O Globo