sábado, 18 de janeiro de 2020

O que a mídia pensa – Editoriais

Bolsonaro e sua circunstância – Editorial | O Estado de S. Paulo

Não causa surpresa o derretimento acelerado da popularidade do presidente Jair Bolsonaro detectado por uma pesquisa XP/Ipespe recentemente divulgada. O levantamento mostrou que, em um ano, a expectativa positiva em relação ao desempenho do governo para o restante do mandato caiu nada menos que 23 pontos porcentuais, de 63% para 40%. O índice de entrevistados que consideram Bolsonaro “ruim” ou “péssimo” passou de 20% para 39% no mesmo período. Pode-se dizer que esses números refletem não um ou outro problema em especial, mas o conjunto da obra.

O governo Bolsonaro parece se esforçar para inspirar em cada vez mais brasileiros a sensação de que suas decisões estapafúrdias, que carecem de lastro jurídico ou mesmo de racionalidade, não são meros acidentes ou fruto de circunstâncias passageiras, e sim reflexo preciso daquilo que o presidente é.

Não se trata apenas de despreparo para o cargo, dificuldade que se poderia amenizar com alguma dedicação aos livros e atenção aos conselhos de quem já viveu a experiência de governar; a esta altura, passado um ano de mandato, já está claro que Bolsonaro desacredita deliberadamente o exercício da Presidência porque não saberia fazer de outra forma e, graças a essa limitação insuperável, convenceu-se de que foi eleito para desmoralizar a política e sua liturgia institucional, algo que ele faz como ninguém. Vista em retrospectiva, a reunião ministerial em que o presidente apareceu de chinelos e camisa (falsificada) de time de futebol logo nos primeiros dias de governo parece hoje, perto do que já vimos, um encontro de estadistas.

Merval Pereira - Sai Jdanov, entra Goebbels

- O Globo

Responsabilidade primeira é de Bolsonaro, que extinguiu o Ministério da Cultura e escolheu uma pessoa desequilibrada e despreparada para a secretaria

Era só o que faltava para que a imagem do Brasil, que já é péssima aqui no exterior, ficasse ainda pior. A leniência com que o governo Bolsonaro trata a questão ambiental como um todo, e as queimadas da Amazônia em particular, já provocaram protestos e crises internacionais, e continuam em debate na Europa.

A defesa do meio ambiente é uma faceta da cultura que já fez parte do mesmo ministério aqui na França. Desde o início do governo Bolsonaro, a política cultural está em xeque. A partir do momento em que o Ministério da Cultura foi extinto, a designação de um secretário de Cultura subordinado primeiro ao Ministério da Cidadania, e hoje relegado ao do Turismo, deixou claro que o tema não era prioritário para o novo governo.

O que se queria era, nas palavras do presidente, desmontar o esquema esquerdista legado pelos governos petistas para colocar em seu lugar uma política cultural que fizesse “bem ao povo”. Um governo que acha que pode definir e dirigir o que seja cultura é um governo de índole autoritária.

Como em diversos casos, na Cultura o presidente Bolsonaro, que acusa o PT de ter aparelhado o Estado, quer não apenas se livrar “dessa gente”, mas aparelhá-lo com “sua gente”. A mesma disputa política deu-se durante os governos Lula. Logo de saída, em 2003, o cineasta Cacá Diegues classificou como tentativa de “dirigismo cultural” as regras de patrocínio estatal formuladas pela Secretaria de Comunicação, à época sob comando de Luiz Gushiken.

Exigiam contrapartidas sociais e adequação dos projetos a políticas de governo. Cacá as classificou de “política jdanovista”, em referência a Andrei Jdanov, que impôs o realismo socialista como estética do período stalinista.

Mais tarde, a tentativa de aprovação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), vista por setores da produção de cinema e da TV como autoritária e centralizadora, foi mais um embate no meio cultural brasileiro. Setores do governo queriam a “radicalização democrática das políticas culturais”, e diversos intelectuais, artistas e produtores culturais, como Caetano Veloso, Ferreira Gullar, Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto e Zelito Viana, protestaram contra a centralização cultural pretendida.

Míriam Leitão - Cai o secretário, fica o projeto

- O Globo

O secretário se foi, mas todo o projeto ficou. A questão central é simples: Roberto Alvim não estava só, nem falava sozinho

Roberto Alvim caiu. O ex-secretário de Cultura era até caricato. Não apenas plagiou Joseph Goebbels, o ideólogo de Hitler, ele imitava seus trejeitos, seu penteado e o reverenciava em objetos na sala. Alvim estava à vontade na transmissão da noite da quinta-feira, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, que o elogiou. Ele não é mais o secretário. Foi derrubado pela imprudência de ter copiado e colado a fala de Goebbels. O projeto que ele estava colocando em prática permanece e não era só dele. A ideia de que a cultura possa ser limitada, censurada, dirigida e usada para alavancar uma delirante e perigosa visão de mundo, de país e de poder continua nos editais, decisões e nas ideias de muitos integrantes do atual governo.

Goebbels era o ministro da mentira. Ele sabia a força estratégica da mentira e a usou para deflagrar perseguições contra os adversários políticos. Ele foi o agente que criou o ambiente social em que o nazismo prosperou e que permitiu a mais hedionda das tragédias do século XX: o assassinato em massa dos judeus em campos de concentração. O que aconteceu aos judeus no holocausto afeta cada pessoa, seja de que etnia ou credo for e em que país esteja. É a lição mais cara que a História nos deixou. Não se brinca com um crime dessa dimensão. Jamais. Não é aceitável ouvir o que ouvimos na boca de um integrante do governo brasileiro. A lei 9.459 de 1997 pune com a pena de dois a cinco anos a divulgação de símbolos do nazismo. A liberdade de expressão é total numa democracia, mas isso está na categoria do inadmissível.

Arnaldo Bloch - Discurso ecoa noção hitlerista de ‘arte degenerada’

- O Globo / Segundo Caderno

Alvim trouxe à tona vários elementos que constituíram, no que toca à cultura, a gestação do fascismo

Mesmo após a demissão do secretário, seu discurso é uma peça que deve ser ouvida, transcrita e estudada

No delirante discurso que levou à sua queda imediata, o ex-secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, não se limitou a citar, parafrasear, plagiar Joseph Goebbels, o gênio do mal da propaganda nazista. Além do trecho que viralizou, lado a lado com palavras do ideólogo alemão, Alvim, num tom triunfalista calculado e medonho, trouxe à tona vários outros elementos que, há 90 anos, constituíram, no que toca à cultura, a gestação do fascismo europeu e de sua forma germânica.

A ideia de que o povo precisa ser salvo de uma “cultura doente” ecoa claramente a noção hitlerista de uma “arte degenerada” a ser expurgada. Parecido com o afã purificador que, em Berlim, incluiu até uma exposição de pinturas de grandes mestres modernos para fomentar, no grande público, o horror a tudo que respirasse liberdade, crítica, transgressão, pluralidade.

A noção dos “mitos fundantes” nacionais, evocada por Alvim ao som nada nacional de Wagner, faz parecer que nossos mitos não foram jamais visitados por essas plagas, no país de Carlos Gomes, Villa-Lobos, Oswald, Mário, dos tropicalistas, dos sambas de enredo. E em muito lembram os ideais do führer, de uma Alemanha calcada em raízes profundas de diversas filiações, carreadas por uma linhagem que remontaria à Antiguidade Clássica.

Yascha Mounk* - O pior está por vir

- Folha de S. Paulo

Na Índia, Modi causou mais danos nos primeiros meses de seu 2º mandato do que nos 5 anos anteriores

Quando passei um mês numa viagem de pesquisas na Índia, em dezembro de 2014, meio ano após a chegada ao poder de Narendra Modi, os escritores, acadêmicos e intelectuais que encontrei estavam mergulhados numa grande discussão sobre o futuro de seu país.

Todos rejeitavam Modi, nacionalista hindu fervoroso, devido ao seu desdém pela Constituição secular indiana. Mas estavam divididos quanto ao impacto que seu governo provavelmente teria sobre as liberdades fundamentais que eles desfrutavam.

Alguns temiam que Modi pudesse avançar rapidamente para sufocar qualquer dissensão. Outros faziam pouco-caso desses receios, que consideravam exagerados.

Modi causou danos consideráveis em seus cinco primeiros anos no poder, enfraquecendo tanto as liberdades desfrutadas por seus críticos quanto as minorias religiosas do país. Mas o pior ainda estava por vir.

Quando Modi foi eleito com maioria ainda mais expressiva na primavera do ano passado, seu governo começou a tomar iniciativas radicais para desmontar o secularismo da Constituição indiana; pode-se argumentar que ele causou mais danos nos primeiros meses de seu segundo mandato do que havia feito nos cinco anos anteriores. Algumas das preocupações levantadas sobre Modi que pareceram exageradas ao término de seu primeiro mandato agora começam a revelar-se prescientes.

Um grande movimento de protesto tomou forma nas últimas semanas para se opor a essas medidas radicais. Em cidades e universidades de todo o país, cidadãos de todas as religiões vêm protestando contra o governo de Modi. Sua reação tem sido brutal: em alguns estados o governo evocou estatutos da era colonial para proibir reuniões com mais de cinco pessoas. Outros estados fecharam o acesso à internet. Vídeos brutais mostram policiais agredindo estudantes suspeitos de ter protestado contra o governo.

Muitos observadores da Índia se surpreendem pelo fato de Modi ter ficado tão mais extremo em seu segundo mandato. Mas uma comparação traçada com governos populistas em todo o mundo sugere que a Índia está seguindo um roteiro previsível do que fazem candidatos a líderes autoritários quando são reeleitos.

Wagner Pinheiro Pereira* - Simples, emotiva e popular, fala de Alvim recuperou premissa da propaganda nazista

- Folha de S. Paulo

A 'estetização da política', conceito cunhado por Walter Benjamin, é marcante na estética empregada ao longo do vídeo

As estratégias propagandísticas de manipulação das massas e as diretrizes políticas para a produção artístico-cultural preconizadas pelo ditador alemão Adolf Hitler e orquestradas pelo seu ministro da Propaganda Joseph Goebbels para a Alemanha durante os doze anos do regime nazista (1933-1945) parecem ter servido de modelo de inspiração e referência para o vídeo de Roberto Alvim, então secretário especial da Cultura do governo do presidente Jair Bolsonaro, divulgado nesta quinta-feira (16) para anunciar o Prêmio Nacional das Artes, projeto do governo federal no valor total de mais de R$ 20 milhões, para o “patrocínio de produções inéditas em diversas áreas da cultura”, divididas em sete categorias: “ópera, teatro, pintura, escultura, literatura (contos), música e história em quadrinhos”.

O vídeo do pronunciamento parece ter sido retirado de um filme de propaganda nazista da década de 1930, produzido sob os auspícios de Joseph Goebbels: a “estetização da política”, famoso conceito cunhado pelo filósofo alemão Walter Benjamin para definir como o nazi-fascismo objetivava uma espetacularização da política, ou seja, a transformação dos projetos políticos-ideológicos em espetáculos artísticos-culturais, é marcante na estética empregada ao longo do vídeo; a aparência resoluta, o tom solene e a voz forte do então secretário —que parece até recordar a teatralização política dos discursos de Goebbels—, envoltos sob a atmosfera da trilha sonora de "Lohengrin" (1846-1848), famosa ópera do compositor alemão Richard Wagner, artista adorado por Hitler (“só entende o nazismo quem conhece Wagner”, confidenciava o ditador) e que fora amplamente utilizado pelo regime nazista, servem para dar um tom monumental, épico —e autoritário— ao projeto do governo Bolsonaro de “renascimento da cultura brasileira”, que almejaria o salvamento da juventude brasileira e estaria ancorada “na nobreza de nossos mitos fundantes”: “a Pátria, a Família, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus, amparam nossas ações na criação de políticas públicas”.

Joseph Goebbels é uma figura de fundamental importância para a compreensão da relação entre poder político e cultura da mídia no mundo contemporâneo por ter sido o grande mentor responsável pelo desenvolvimento e aprimoramento de técnicas e conceitos de propaganda política —ainda utilizados e eficazes até a atualidade— disseminados pelos meios de comunicação (imprensa, rádio, cinema e televisão) e que seriam vitais para o sucesso do “mito Adolf Hitler” como o salvador da Alemanha e do fascínio da promessa do Terceiro Reich como um poderoso império milenar, responsável por conduzir os alemães, a “raça superior”, a cumprir o destino histórico de dominarem o mundo e exterminarem as “raças inferiores”, que não se encaixavam na cosmovisão nazista.

Alexa Salomão - Mercado sinaliza que, por retorno, opera até contra democracia

Ruído na política é um dos agentes mais corrosivos da democracia

- Folha de S. Paulo

Mês após mês, diferentes áreas do atual governo deram demonstração de falta de traquejo para lidar com a democracia e flertaram com o autoritarismo. A sociedade reagiu nas redes sociais. Representantes dos demais Poderes se manifestaram. Mas o setor empresarial e o mercado financeiro não se abalaram.

Mês após mês, a cada polêmica, o reflexo na Bolsa e no dólar foi zero.

O argumento recorrente para esse comportamento é que a entidade batizada de mercado financeiro, que reúne bancos e corretoras, é amoral e apolítica. Sua única preocupação é garantir o retorno dos investimentos de seus clientes, e só há reação quando esse retorno é ameaçado. Se a área econômica do governo é bem gerida, não importa o resto.

Não importa se há aumento de queimadas na Amazônia. Não importam denúncias de corrupção num governo que se elegeu como paladino da Justiça. Não importam manifestações oficiais falando sobre a volta do regime de exceção de um AI-5. Não importa o revisionismo da história para trocar golpe por revolução. Não importa o movimento evangélico na gestão pública para banir personagens místicos dos livros infantis.

Não importa se um vídeo oficial do Ministério da Cultura, recomendado pelo presidente em sua live semanal, seja uma paródia da estética nazista.

Há três problemas nesses argumentos.

‘Quem namora o nazismo quer colher tempestade política’

Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga e historiadora Historiadora questiona versão de Alvim de que houve ‘coincidência’ de discursos: ‘Alusão é ofensiva a todos’

Ubiratan Brasil | O Estado de S. Paulo

A antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz repudia as semelhanças entre o discurso do ex-secretário de Cultura Roberto Alvim e o de Joseph Goebbels.

• Como avalia a essência do discurso de Alvim no vídeo?

Não há piada alguma no fato de o então secretário da Cultura citar Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, sob uma música de fundo de Wagner, cabelos colados na cabeça e uma cruz ortodoxa da Hungria na lateral (mais informações nesta página). A alusão é ofensiva a todos os cidadãos brasileiros. Inaceitável. Quem namora com o nazismo quer colher tempestade política. É preciso que nossas instituições democráticas repudiem com veemência esse tipo de paralelo histórico.

• Alvim disse que foi “coincidência retórica”. Afirmou ainda que “a origem é espúria, mas as ideias contidas na frase são perfeitas e eu assino embaixo”.

Não há coincidência. A estrutura das frases é idêntica, não é possível se repetir um parágrafo inteiro sem ser proposital.

Uma coisa é coincidência, a outra é uma citação. O significado se faz em contexto. Na live com Bolsonaro, Alvim disse que ia apoiar projetos conservadores no plano de cultura.

• A sra. já disse que ditaduras começam aparelhando a área cultural...

É preocupante o aparelhamento da cultura. Regimes ditatoriais começam atacando artistas, queimando livros, defendendo projetos populistas. Ou se corrompe a grande arte ou se promovem artistas muito engajados com o governo. Esse projeto cultural proposto pelo Alvim é um atentado à nossa Constituição, ao nosso direito de cidadão.

• A citação sobre Wagner poderia levar à discussão de que a obra de um grande artista deveria ser avaliada independentemente do contexto histórico?

Nesse caso, não falamos de uma ode ao Wagner. O fato de o ex-secretário se apresentar no vídeo entre uma bandeira e uma cruz húngara, e fazer um discurso em que ao menos um parágrafo é uma citação de Goebbels, não permite uma análise isolada da beleza da música de Wagner. Não estamos para julgar a música, mas o uso que Alvim faz dela.

Sérgio Augusto - Goebbels tabajara

- O Estado de S. Paulo

Roberto Alvim, o demitido secretário, começou com um Waterloo moral, ao insultar Fernanda Montenegro

Alguém grafitou, no Twitter, que o inacreditável foi abolido no Brasil. Aqui tudo pode acontecer, já aconteceu ou está por acontecer.

O governo Bolsonaro praticamente se inaugurou no exterior com um sintomático forfait no encontro de Davos, no ano passado. Aquela foto com a mesa vazia, só com os placements de Araújo, Guedes, Moro e Bolsonaro, entrou para a história do vexame e da patetice universais no instante em que o fotógrafo fez clique.

Duvido que no momento exista país mais ridículo e ridicularizado que o Bolsonistão. Como somos um povo gozador, suspeito que só conseguimos sobreviver até agora aos fatos inacreditáveis de nosso dia a dia graças, exclusivamente, ao nosso bem-humorado estoicismo.

Dia desses, um dos personagens do chargista André Dahmer acusou seu interlocutor de não ser “lunático o suficiente para ganhar um cargo no governo”. Em vez de lunático, o “malvado” poderia ter dito: mentiroso, ignorante, semianalfabeto, corrupto, miliciano, evangélico. Ou, simplesmente, militar da reserva.

Bolsonaro escalou militares da reserva cuidando de escolas, do INSS, como se o programa prioritário de seu governo fosse punir servidores públicos e dar emprego aos colegas de farda. Se bem que ainda melhor do que ser oficial da reserva e ganhar uma boquinha no serviço público é ser filha de militar com pensão vitalícia. Uma delas embolsou em dezembro R$ 537 mil.

Prossigamos. Mentiroso é o que mais tem entre os áulicos do capitão Jair. Por osmose ou sabujice, eles distorcem fatos e números, reescrevem a história, e nem se avexam de atribuir à atual administração obras de governos anteriores. O ministro estratosférico Marcos Pontes, coonestado pelo vice Mourão, não exaltou a inauguração da nova Estação Antártica Comandante Ferraz como um projeto do governo Bolsonaro? Quando o presidente tomou posse, as obras da Estação – iniciadas ainda no governo Dilma – já estavam nos finalmentes.

Adriana Fernandes* - Quem compra o Brasil?

- O Estado de S.Paulo

Investidores gostam de segurança. E eles estão cada vez mais atentos

O assustador episódio do vídeo com a fala de inspiração nazista do agora demitido secretário de Cultura Roberto Alvim mostra que a melhora econômica de um País não é suficiente e não pode servir de escudo para aberrações em outras áreas do governo.

Não há como negar que o vídeo, que levou o presidente Jair Bolsonaro a demitir o seu auxiliar e provocou tanta indignação (inclusive de apoiadores do próprio governo), manchou ainda mais a imagem do País.

É bem verdade que a visão do mundo sobre Brasil já era ruim por diversas razões: corrupção, violência nas grandes cidades, política ambiental desastrosa... Mas ficou muito pior nesta sexta-feira depois da repercussão do vídeo de Roberto Alvim que parafraseia o ministro da Propaganda de Adolf Hitler.

Choca pensar que uma pessoa com esse perfil estava ocupando um cargo importante na área cultural no governo e sendo pago pelo contribuinte brasileiro.

É verdade que indicadores econômicos estão melhores, depois de um período longo de recessão. Uma reforma robusta da Previdência foi aprovada, os juros caíram de forma significativa, o crédito aumentando e a atividade econômica apontando uma luz no caminho até agora titubeante da recuperação. Outras reformas estão no Congresso para serem aprovadas.

Marcos Guterman* - Goebbels assinaria embaixo discurso de ex-secretário

- O Estado de S. Paulo

Não será surpresa se a atenção da opinião pública se concentrar no tal parágrafo inspirado em Goebbels como prova definitiva, para alguns, do “nazismo” latente do governo. O problema, contudo, não é o trecho em questão, mas todo o discurso. Do início ao fim, quase todas as ideias ali contidas são as mesmas que integraram a doutrina da maioria dos regimes ditatoriais de perfil totalitário ao longo da história contemporânea, inclusive o nazista.

A ideia da elaboração de uma “arte nacional, capaz de encarnar simbolicamente os anseios da maioria da população”, está na essência do controle político e social acalentado por qualquer ditadura totalitária. Nesse modelo, será “nacional” somente aquilo que obedecer aos critérios estabelecidos pelo Estado; logo, tudo o que não se enquadrar nisso será “arte degenerada”, como as autoridades nazistas qualificaram as obras produzidas por artistas que o Estado havia classificado como inimigos. Levado ao extremo, tal programa violenta de forma brutal a diversidade cultural, sem a qual não se pode falar em democracia.

Alvim declarou que, “quando a cultura adoece, o povo adoece junto”, frase que bem poderia ter sido dita por qualquer ideólogo nazista. No Terceiro Reich, o inimigo era tratado como uma doença que ameaçava “contaminar” o “corpo nacional” por meios insidiosos – sendo a cultura o principal veículo dessa “infecção”.

Marco Aurélio Nogueira* - O desafio de Huck à esquerda

- O Estado de S. Paulo

Apresentador incomoda porque manifesta posições avançadas, faz propostas e busca viabilizar uma ideia de articulação democrática que explora caminhos não usuais

Lula pontificou: “Luciano Huck não representa a centro-esquerda. Representa a Central Globo de Televisão”.

Reverbera o que vários petistas e parte da esquerda falam. Ao mesmo tempo, dá o tom para que se continue com a campanha de desconstrução de Huck.

É do jogo. Lula faz o que dele muitos esperam. Quer limpar a área, não ser desafiado, fazer com que as coisas girem em torno dele. Sua frase sobre Huck pode até mesmo ser um chega-prá-lá no governador Flavio Dino (MA), que andou conversando com o apresentador dias atrás.

Chama mais atenção a conduta dos que seguem cegamente a catilinária lulista. Destruir Huck tornou-se a diversão preferida de tantos que se proclamam democratas. É um veto bem pouco democrático, que parte de supostos falsos, hipócritas, politicamente atrapalhados.

A associação Huck-Globo é uma bobagem oportunista, que intenciona carimbar o apresentador como direitista, um empresário servil aos interesses da “mídia conservadora” e do grande capital. Trabalhar numa empresa significaria, para essa turma, incorporar automaticamente a cultura, o modo de ser, o pensamento e os projetos do empregador.

Acrescente-se a isso a ideia de que Huck não tem experiência, como se antes dele, em 1994, 1998 e 2002, Lula a tivesse, por exemplo. Se o cara é jovem e não integra um partido tido como de esquerda ou centro-esquerda, não presta. Ora…

Marcus Pestana - “Democracia em vertigem”: a arte e a verdade

A arte existe porque a vida não basta (Ferreira Gullar).

A inquietude humana nos leva a buscar permanentemente espaços além do real, a fantasia como realização metafórica de desejos e sonhos, a construção da arte como exercício máximo de criatividade e talento. A arte traduz nossa insatisfação com os limites da vida real e a partir das reflexões e dos sentimentos despertados provoca mudanças de atitude e o impulso de fazer concreto o impossível.

A arte não é uma repetição pobre e monótona da realidade. A boa arte é necessariamente provocativa, desafiadora, imaginativa. A relação entre arte e verdade é complexa, além do que, a verdade depende sempre do olhar e dos valores de quem a aborda. Para Adorno, “a arte é a magia livre da mentira de ser verdade”. Já o poeta Manoel de Barros brincou certa vez: “Noventa por cento do que escrevo é invenção, só dez por cento é mentira”.

Dentro de um país radicalmente polarizado ideologicamente a noção de “guerra cultural” ganha cada vez mais protagonismo. A extrema direita enxerga em tudo a presença de um suposto “marxismo cultural” ligado às construções teóricas do italiano Antonio Gramsci a contaminar a maioria das manifestações artísticas de um esquerdismo atroz. Claro que a arte não é imune e impermeável à luta política de seu tempo. Mas toda a tentativa de instrumentalizar a arte, através do didatismo político ou do proselitismo ideológico, fracassou, já que produz arte de baixíssima qualidade. Nada é mais chato e ineficaz do que um livro, um filme ou um poema panfletário. A boa arte é necessariamente sutil, ou quando agressiva, deve ser esteticamente bem construída.

Julianna Sofia - Bela porcaria

- Folha de S. Paulo

Chefe da Secom precisa abrir lista de clientes e faturamento de suas empresas

Em uma defesa pouco afervorada e deixando a porta aberta para rever as próprias palavras, o presidente Jair Bolsonaro avalia até aqui a performance de seu chefe da Comunicação como excelente. "Se fosse um porcaria, igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele", reagiu, em despautério e com insultuosos ataques, às revelações da Folha de flagrante conflito de interesses na atuação do secretário especial Fabio Wajngarten.

Ato falho ou não, o presidente emprega o mesmo termo que, há menos de um mês, Carlos Bolsonaro usara para descascar o desempenho do secretário. O filho 02 classificou o trabalho da Secom de "uma bela de uma porcaria". Carluxo e o gabinete do ódio, implantado no Palácio do Planalto, se contrapõem aos métodos tradicionais da comunicação institucional, hoje sob o comando de Wajngarten e seu superior, general Luiz Eduardo Ramos.

Demétrio Magnoli* - Haddad e os intermediários

- Folha de S. Paulo

Natureza indireta da interferência do MEC na escolha de livros didáticos não a tornou menos contundente

Fernando Haddad assina coluna na Folha, mas terceiriza a assinatura de cartas que escreve ao Painel do Leitor. Na cartinha dirigida a mim (13/1), Nunzio Haddad Briguglio simula não entender o que escrevi (em 11/1), desafiando-me a exibir um caso de ingerência do MEC na seleção de livros didáticos para a compra pública federal. Ofereço-lhe duas respostas: 1) Sob os governos do PT, o MEC interferiu em todos os processos de seleção; 2) Até onde sei, o MEC nunca vetou explícita e diretamente um livro específico.

O truque da cartinha firmada por intermediário tem finalidade óbvia: dependendo das circunstâncias, Haddad pode assumir ou renegar a responsabilidade pelo texto. Na coluna, descrevi a estratégia pela qual, indiretamente, o MEC passou a “esculpir as narrativas pedagógicas”. Expliquei que os agentes da seleção são comissões universitárias de “especialistas” colonizadas por professores-ativistas. Como no caso prosaico da cartinha, a intermediação desempenha seu papel, isentando o governo da função de promover a censura ideológica direta. Nunzio Briguglio, um jornalista experiente, sabe ler —mas ganha para escrever o que lhe solicitam.

A natureza indireta da interferência do MEC não a tornou menos contundente. No alvorecer da “era lulopetista”, em março de 2004, um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) estabeleceu uma série de “princípios” a serem seguidos pelas escolas, entre os quais “o fortalecimento de identidades e de direitos”. Segundo o texto, tal princípio “deve orientar para o esclarecimento a respeito de equívocos quanto a uma identidade humana universal”. Aí, na linguagem hermética típica das burocracias, encontra-se a semente de um programa político-pedagógico.

Mario Sergio Conti – Autocrítica cara-pálida

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

No livro 'Por Que Falhamos - O Brasil de 1992 a 2018', senador acerta contas com a política democrata e progressista

Cristovam Buarque é um homem honrado. Ao ver uma foto de Lula com crianças em Toritama, Pernambuco, ele foi até lá. Quis conhecer aquelas meninas e meninos descalços e sem camisa, apartados do presidente por uma cerca de arame farpado. Um ano antes, em 2004, Lula o demitira, pelo telefone, do Ministério da Educação.

Visitou as crianças e falou com pais e professoras. Esteve na escola onde fazia um calor dos diabos. Viu o chão de terra batida, as carteiras desconfortáveis, a poeira, a pedagogia ineficaz. Escreveu uma carta a Lula contando o que vira.

Disse ao presidente que ele “não era culpado da tragédia que observei, mas seria se, uma década depois, a situação não melhorasse”. Cristovam, que assumira sua cadeira no Senado, deu-lhe também ideias para melhorar a educação em Toritama e em todo o Brasil.

Voltou lá dez anos depois, em 2015. Nenhuma criança que conhecera terminou a escola. Ticiana teve um filho aos 16 anos. Cambiteiro, vigilante, foi assassinado aos 19. Rubinho, que não aprendeu a ler, virou pai aos 17. Diego foi esfaqueado, fugiu do hospital, sumiu. A escola seguia péssima.

A narrativa das visitas a crianças e jovens pobres de dar dó rende as melhores páginas de “Por Que Falhamos - O Brasil de 1992 a 2018” (Tema Editorial, 89 págs.), o novo livro de Cristovam Buarque.

Elas servem para lembrar o objetivo clássico da política: harmonizar a vida em sociedade. E, a partir da Revolução Francesa: agir para que os cidadãos sejam livres, iguais e fraternos.

Música | Maria Creuza, Vinicius & Toquinho - Irene

Poesia | João Cabral de Melo Neto - Questão de Pontuação

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna*

IHU On-Line – As instituições continuam funcionando neste governo?

Luiz Werneck Vianna Um dos alvos preferidos deste governo é o Judiciário, especialmente o STF, que conta como cavalo de batalha do ex-juiz Moro, o qual, em nome de uma cruzada contra a corrupção - uma cruzada idiota e que não faz sentido algum -, ganhou uma parte da opinião pública e projeção na mídia, e provoca o Supremo a cada passo.

A vida institucional tem servido de obstáculo para o aprofundamento das experiências autoritárias que o governo quer fazer. Aonde isso vai parar? Guerras de posição podem se converter em guerras de movimentos. Não é o caso de a sociedade se mobilizar agora para uma guerra de movimentos, pois ela não tem força para isso; mas o governo pode. Mas pode cometer aventuras nessa direção. Ele tem tentado descobrir um caminho para isso, mas está difícil, porque ele não tem suporte interno. Por exemplo, os militares são muito avessos a concepções aventureiras.

A instituição militar tem séculos de experiência da vida republicana brasileira. A tentativa de fazer o governo passar de uma guerra de posição para uma guerra de movimento é uma aventura sem tamanho. Ele não tem força na sociedade, nem partido, nem movimentos sociais para isso. Tem arremedos como esse novo partido [Aliança pelo Brasil], que é uma ressurreição do Partido Integralista.

Estamos num momento de empate; não de impasse. A sociedade vai tendo mais força a cada momento que passa e novas lideranças surgem, como Armínio Fraga e outras que estão surgindo por aí. O novo é imprevisível e a emergência dele não está sendo abafada por um autoritário. Veja a mídia: ela está desenvolta, você encontra articulistas e colunistas trabalhando facilmente nessa linha de procurar frentes de resistência ao que está aí. Agora, quando isso vai se constituir num movimento ofensivo por parte da oposição, não dá para saber. O fato é que as eleições deste ano são um balão de ensaio para isso, especialmente em alguns estados relevantes da federação.

*Luiz Werneck Vianna, sociólogo, PUC-Rio, Em entrevista 13/1/2020

Antônio Cláudio Mariz de Oliveira* - O Brasil está a caminho da distopia?

- O Estado de S.Paulo

Resta-nos resistir para ela não retirar os ares de liberdade e democracia que ainda respiramos

Procurei em vários dicionários, incluídos os dedicados aos sinônimos e aos antônimos, mas encontrei em apenas um, o Houaiss, o significado de distopia. Está lá explicado tratar-se de “localização anômala de um órgão”. Já para o Google, trata-se de um lugar ou Estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão.

Parece ser esse o sentido emprestado ao vocábulo pela seção Estante, do caderno Aliás, publicado pelo Estado de 21 dezembro de 2019, que versa sobre alguns livros a respeito da chamada “literatura futurista distópica”. Segundo definição da matéria, “a distopia parece ser o oposto de utopia, já que esta descreve um mundo ideal alcançável, enquanto a distopia fala de um mundo árido”.

Seria a antítese do sonho, da esperança, do otimismo. A descrença, a visão catastrófica, a hecatombe de um porvir indesejável e temido, por vezes inimaginado. Por estar fora de nossas previsões, foi sempre colocado na forma de obras ficcionais, na literatura ou no cinema.

Pois bem, os livros comentados confirmam a síntese da matéria. O mundo distópico é cruel, marcado pela supremacia absoluta do Estado, em substituição ao querer social e ao livre-arbítrio, com consequências nefastas sobre os direitos humanos. A vontade dos governantes prevalece sobre tudo e todos, deixando de lado o ordenamento jurídico, os princípios que preservam a dignidade da pessoa e as liberdades públicas e individuais.

Entrevista / A aposta da nova direita

Eleições municipais são estratégicas para bolsonarismo, mas partidos tradicionais é que devem se destacar, diz José Augusto Guilhon

Por Diego Viana — Para o Valor Eu &Fim de Semana

SÃO PAULO - Após a vitória conservadora nas eleições de 2018, os grupos de direita ligados ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) têm a expectativa de crescer também nas prefeituras e câmaras de vereadores neste ano. Entretanto, quem tem a vantagem na política local são os partidos tradicionais, de maior capilaridade e conhecedores dos problemas de cada região, afirma o cientista político José Augusto Guilhon de Albuquerque, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo.

Para Guilhon, o cenário político deste ano não será muito diferente do ano passado, com os deputados do “Centrão” decidindo o que vão aprovar e o que vão barrar das iniciativas vindas do Planalto. O Executivo continuará enredado em problemas que ele mesmo cria, mas as demais forças políticas não têm interesse ou capacidade de inviabilizar completamente o governo. Essa é a garantia de um certo grau de estabilidade.

O cientista político também vê pouca perspectiva para as oposições. Embora goze de popularidade, depois que foi solto da prisão o ex-presidente Lula (PT) adotou um discurso que mais prejudica do que favorece seu partido. Lula tem reforçado a radicalização, com propostas que desagradam tanto o sistema político quanto a maioria do eleitorado. As movimentações que buscam apelar para os eleitores de centro, porém, são desprovidas de base e excessivamente vinculadas a candidatos que não atraem votos. Por isso, para Guilhon, têm pouco futuro, embora apelem para a maioria da população.

Valor: Este é um ano de eleições municipais, as primeiras depois do avanço conservador de 2018. O que esperar dessas eleições?

José Augusto Guilhon de Albuquerque: Não acredito que haja grande mudança. O sistema de partidos depende da lei eleitoral, e a nossa produz multiplicidade de partidos. Não creio numa grande mudança no cenário, porque o resultado das eleições nacionais, em geral, têm efeito limitado nas eleições locais. Estas dependem mais de questões locais e da política estadual. Os grandes partidos não vão ser tão esvaziados como em 2018. Ocorreu esvaziamento do PT, mas ele continua sendo o mais forte na Câmara, por exemplo.

Valor: E quanto ao impulso da nova direita que levou Bolsonaro ao poder? Continua com fôlego?

Guilhon: Não acredito que essa direita, próxima à extrema-direita, tenha qualidade organizacional para pesar no eleitor municipal. Na eleição municipal, é preciso mobilizar prefeitos e vereadores, que são ligados a quadros partidários locais. Essa capilaridade falta à nova direita, mas os partidos tradicionais têm. Além disso, não há por que obter a polarização de 2018. O segundo turno polariza, sobretudo no plano nacional. Quando há dois grupos que radicalizam, o centro desaparece. Isso dificilmente vai se reproduzir localmente, onde, no geral, as forças conservadoras são mais fortes.

José de Souza Martins* - O corte de palavras

- Valor Econômico / Eu &Fim de Semana

O governo quer diminuir o número de palavras dos livros didáticos, quer ampliar o espaço do silêncio na boca das crianças e dos adolescentes

Declaração antipedagógica do presidente da República, sobre seu governo reduzir palavras nos livros didáticos, é um desses indícios cotidianos de fragilidade governativa. Alarma os que se inquietam com os riscos de toscas concepções de política. Nesse caso, especialmente os educadores, pelo amadorismo e pelos perigos que tais palavras acarretam ao sistema de ensino e à formação das novas gerações.

Elas terão na capa dos livros as cores da bandeira, mas não saberão o significado social e político da palavra “pátria”, que é uma síntese do sentido de muitas palavras, unidade do diverso, a do nosso nós. Não há pátria onde faltam palavras para que a poesia do destino em comum se faça ouvir. É a poesia de nossa abundância barroca de palavras que nos faz um povo único, brasileiro.

É assim que se pode compreender o incompreensível da fala de porta de palácio, há alguns dias, ao dizer o presidente que nossos livros didáticos têm excesso de palavras: “Em 21, todos os livros serão nossos. Feitos por nós. Os pais vão vibrar. Vai estar lá a bandeira do Brasil na capa, vai ter lá o hino nacional. Os livros hoje em dia, como regra, é (sic) um amontoado Muita coisa escrita, tem que suavizar aquilo”, disse ele.

É da lógica da economia neoliberal que governar é fazer cortes. O governo quer diminuir o número de palavras dos livros didáticos, quer ampliar o espaço do silêncio na boca das crianças e dos adolescentes. Ora, livros não são caixas registradoras. O que se espera é que os livros sejam o abrigo de palavras em abundância, com sentido. Não palavras tuitadas para dizer muito sem dizer nada.

A fala à porta do Palácio do Planalto é um indício do advento político da pós-modernidade, a das reduções e simplificações do pensamento aplainado, linearizado, da inteligência de distâncias curtas entre a premissa e a conclusão. O pensamento de quem não sabe pensar.

A pós-modernidade é isso. A sociedade mergulhada no tempo da intemporalidade, a das equivalências gerais, do critério chão do “eu acho”.

Fernando Abrucio*: A reforma mais urgente

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

A aprovação de um novo Fundeb, fonte que regula o financiamento de toda a educação básica brasileira, deveria encabeçar a pauta legislativa

O Brasil precisa fazer uma série de reformas legais para resolver seus principais problemas e alcançar um novo nível de desenvolvimento. Assuntos não faltam neste campo, e muitos deles são considerados prioritários, como a reforma tributária, que pode ao mesmo tempo aumentar a competitividade do país e reduzir desigualdades. Mas qual seria o tema mais urgente em 2020, isto é, algo que se não for aprovado neste ano terá mais consequências negativas? A resposta talvez não seja a esperada pela maioria dos leitores, porém, os dados são eloquentes: a aprovação de um novo Fundeb, fonte que regula o financiamento de toda a educação básica brasileira, deveria encabeçar a pauta legislativa.

Não se trata aqui de escolher o tópico mais importante entre os vários que dependem de PECs ou novas legislações. Na seleção do que é mais importante para a nação, alguns escolheriam a reforma administrativa, outros, a autonomia do Banco Central, e provavelmente a maioria optaria pela mudança tributária. Contudo, mesmo que todos esses pontos sejam fundamentais, a sua não aprovação imediata não causaria um enorme transtorno aos cidadãos.

Neste sentido, a escolha do Fundeb vincula-se ao impacto imediato de sua possível extinção, que acontecerá em 2021, caso não seja aprovada sua prorrogação. O fim desse fundo educacional geraria uma situação de calamidade pública em boa parte do país.

Segundo os dados da Consultoria de Orçamento e Finanças da Câmara dos Deputados, um hipotético fim do Fundeb levaria à redução de cerca de 15% da capacidade de investimento em educação em cerca de três mil municípios brasileiros, onde estudam 20 milhões de alunos, oriundos geralmente dos estratos mais pobres da população. Nestes lugares, faltarão recursos para pagar os professores que lecionam nas escolas. Imaginem como ficariam essas cidades e seus cidadãos. Seria um tipo de “Mad Max” da ignorância que se instalaria nestes territórios.

Malu Delgado - Explosões das pedras de toque da ética pública

- Valor Econômico

Secretário põe a Comissão de Ética Pública em evidência

Não fica claro que pontes de diálogo o secretário especial de Comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten, vê “explodidas” com veículos de comunicação após reportagem da “Folha de S. Paulo” ter revelado que ele, funcionário do primeiro escalão do Palácio do Planalto, detém 95% das cotas de uma empresa que faz negócios e ganha dinheiro de emissoras de televisão e agências contratadas por órgãos da administração pública federal. Num governo em que boa parte dos integrantes despreza, desrespeita, hostiliza e desqualifica o jornalismo profissional e o trabalho da imprensa, dia sim e outro também, Wajngarten deve ter a ciência, melhor do que ninguém, da impossibilidade de buscar diálogos em campos que seu chefe insiste em minar.

Celso Bandeira de Mello usou a expressão “pedras de toque” para definir princípios basilares do direito administrativo. A noção de conflito de interesse, para quem se dispõe a entrar na administração pública, seria uma dessas pedras de toque, apropriando-se da definição. É aquele assunto recorrente, que no Brasil é ignorado por parte expressiva (sem generalizar) dos políticos, do funcionalismo público e da população: a dificuldade de se entender que não se faz negócio privado na esfera pública. Para ficar claro: não se usa o Estado (o público) ao bel prazer do indivíduo (o privado). A miopia - na maioria das vezes proposital - dos agentes públicos para enxergar com clareza o conceito de conflito de interesses é recorrente e não um privilégio de integrantes do governo de Jair Bolsonaro.

Chama a atenção o fato de Wajngarten, em sua defesa, ter citado a Lei 8.112/90 que, segundo a Secretaria de Comunicação (Secom), “define as regras para o exercício de cargo público e seus impedimentos” e “determina que ao ocupante de cargo público basta se afastar da administração, da gestão da empresa da qual é acionista”, para exercer a função pública. Em nenhum momento o secretário menciona a existência da lei posterior e específica, de 2013, a Lei 12.813, que “dispõe sobre o conflito de interesses no exercício de cargo ou emprego do Poder Executivo federal e impedimentos posteriores ao exercício do cargo ou emprego”. A legislação citada pela Secom trata do Regime Jurídico Único, é o estatuto servidor público federal, concursado. Não cabe, portanto, invocar tal lei quando se trata de cargo de confiança, de acordo com o ex-presidente da Comissão de Ética Pública (CEP), Mauro Menezes.

Dora Kramer - Uma cajadada só

- Revista Veja

Bolsonaro usa criação de legenda para mobilizar tropa eleitoral

A cena política dita tradicional está em risco, de novo, de perder para o presidente da República o bonde que já havia perdido em 2018 para o candidato Jair Bolsonaro. Daquela vez a bobeada foi em relação ao uso das redes sociais como instrumento de campanha. Agora, os partidos marcam passo no campo da mobilização popular ao não dar a devida atenção aos movimentos feitos em torno da criação da legenda Aliança pelo Brasil.

O debate tem se dado sobre a possibilidade de Bolsonaro e companhia reunirem as assinaturas necessárias para conseguir o registro no Tribunal Superior Eleitoral até abril, a fim de concorrer às eleições de outubro na nova casa. Bobagem, perda de energia, saliva, cliques e papel. Bolsonaro não está preocupado com isso. Ainda que houvesse tempo, e não há, ele preferiria deixar a formalização do partido para o próximo ano ou mais um pouco porque o que interessa são as eleições de 2022. Para isso, tem até abril daquele ano para obter o registro.

Desse período, Jair Bolsonaro vem sabendo tirar vantagem. Nas barbas dos adversários, cuja visão estreita os impede de enxergar meio palmo para além dos respectivos narizes ocupados com outras tarefas. Umas mais, outras menos produtivas.

Parte da esquerda é refém de Lula, presa voluntária e/ou involuntariamente ao culto daquela personalidade; parte está procurando escapar dessa armadilha, buscando diálogos ao centro.

Desse campo para a direita a preocupação também é construir consensos, coisa que toma todo o tempo de seus autores.

Monica de Bolle* - Quando os gigantes encolhem

- Revista Época

Quando encolhem, os motivos para comemoração de anúncios como o acordo China-EUA devem ser vistos com um olhar crítico e bastante cético

Escrevo este artigo no dia em que, a algumas quadras de onde trabalho, Trump comemora a primeira fase do acordo selado com a China. A primeira fase do acordo pouco altera aquilo que já está em vigência. Os Estados Unidos concordaram em suspender a imposição de tarifas de importação adicionais aos produtos chineses, reduzir algumas das hoje existentes e manter muitas das que foram instituídas ao longo da guerra comercial iniciada há dois anos. Em troca, a China prometeu comprar mais produtos agrícolas dos EUA, além de outros bens e serviços. 

O governo Trump haverá de monitorar o cumprimento do acordo, mas sem estabelecer critérios claros sobre que tipo de ação poderia provocar o recrudescimento da guerra comercial com a China, deixando no ar incertezas consideráveis para o restante do mundo. Nas declarações antes da assinatura dos documentos, Trump exaltou seu feito dizendo que se abria uma nova era de comércio livre, justo e recíproco. Há uma falsa qualificação entre os três adjetivos: livre o comércio com a China não é mais, já que as tarifas médias passaram de 3% a quase 20% desde o início do governo Trump.

Guilherme Amado - Brasil, país do passado

- Revista Época

O currículo de contribuições para que o país do futuro passasse a ser visto como um palco do retrocesso é longo. Tudo isso não passa despercebido de quem observa o país

Daqui a algumas décadas, quando os livros (com muito texto, de preferência) tiverem a missão de discorrer sobre os anos Bolsonaro e os prejuízos por eles causados à imagem do Brasil no exterior, poucas cenas vão resumir tanto o período quanto a da quarta-feira 8, quando Bolsonaro ligou a câmera, postou-se de costas para ela e se deixou filmar para seus milhões de seguidores nas redes sociais. Em silêncio, assistiu por 8 minutos e 50 segundos ao pronunciamento de Donald Trump sobre os ataques do Irã, na véspera, a bases americanas no Iraque. Nada simbolizou mais até agora a vassalagem brasileira em relação aos Estados Unidos, uma postura que tem chocado gerações de diplomatas, de diferentes matizes ideológicos, não só por ir contra tudo que pregam as diretrizes da diplomacia mundial, mas também por trazer dividendos que o país conseguiria da mesma maneira. A mansidão para o lado de Trump seria só mais um traço da caricatura de um homem que se regozija de falar grosso para baixo e fino para o alto, se não viesse acompanhada por decisões e episódios que têm manchado uma reputação conquistada pelo Brasil — de alegria, esperança e boas perspectivas para o futuro —, fosse quem fosse o ocupante do terceiro andar do Planalto.

O currículo de contribuições para que o país do futuro passasse a ser visto como um palco do retrocesso é longo: a leniência diante do aumento das queimadas na Amazônia, a verborragia contra os direitos humanos de qualquer humano que não o apoie, a ideologização das relações bilaterais com países historicamente amigos, como a Argentina e a França, a mudança de posições antigas do Brasil de respeito à identidade de gênero, a ameaça de mudar a embaixada de Israel, gerando uma crise com países árabes, a obsessão olavista de que o Brasil esteve à beira de um regime comunista, a crise com o Irã por apoiar o assassinato americano ao general Qassem Soleimani. Tudo isso, ora gerando irritação, ora só deboches, não passa despercebido de quem observa o país.

Merval Pereira - Talvez nunca

- O Globo

Juiz de garantias é uma boa medida, mas foi criado como uma espécie de vingança contra a Operação Lava-jato

Com a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) ministro Dias Toffoli de adiar em seis meses a implantação do sistema do juiz de garantias, que dividiria com o juiz de sentença os processos, não apenas verifica-se que não há condições de incluir essa nova figura sem uma ampla reorganização do sistema judicial brasileiro. Estamos novamente às voltas com uma disputa entre os membros do STF, que já tem seis ministros declaradamente a favor do novo sistema.

O ministro Luis Fux, que substitui em setembro Toffoli na presidência do STF, é contra essa mudança e poderia acatar as ações de inconstitucionalidade já a partir de domingo, quando assume interinamente a presidência no recesso do judiciário.

O novo prazo dado por Toffoli para a implantação do juiz de garantias, que considera “um avanço sem precedentes”, se esgota em julho, e se tiver que ser prorrogado mais uma vez - o que é bastante provável - corre o risco de não entrar em vigor tão cedo, ou nunca.

De saída, Toffoli limitou a atuação dos juizes de garantias. Eles não atuarão em casos dos tribunais superiores e nem nos tribunais regionais, de segunda instância. Também não serão parte de disputas nos tribunais eleitorais. E só participarão dos novos processos, a partir da sua implementação. Os processos em curso não terão essa nova figura jurídica.

Bela Megale- As relações da família Bolsonaro com o chefe da Secom

- O Globo

Desafeto de Carluxo, o chefe da Secom conta com o apreço de uma figura de peso para Jair Bolsonaro, a primeira-dama Michelle. Fábio Wajngarten enfrenta desgaste no governo desde quarta, quando o jornal "Folha de S. Paulo" revelou que sua empresa mantém contratos com emissoras de TV e agências de publicidade que recebem verba federal.

Quando Wajngarten assumiu a comunicação da Presidência, Michelle não escondeu que o achava expansivo e agitado demais. Depois, porém, passou a ter afeição pelo secretário.

Há cerca de dois meses, a primeira-dama foi até o Palácio do Planalto, onde raramente aparece, para participar de uma pequena comemoração do aniversário de Wajngarten. A festinha teve direito a bolo com boneco reproduzindo o chefe da Secom.

A palavra de Michelle tem força junto ao presidente. Nomes como o do ex-senador Magno Malta não entraram no governo por veto da primeira-dama. Já a secretária nacional da pessoa física, Priscila Gaspar, foi nomeada graças ao apoio dela.

Bernardo Mello Franco - Nostalgia da mordaça

- O Globo

Bolsonaro sonha com a volta do tempo em que o governo podia calar a imprensa. Na impossibilidade de mandar censores às redações, ele ataca os jornalistas que são obrigados a ouvi-lo

Não é só a lembrança do DOI-Codi que faz Jair Bolsonaro sentir saudades da ditadura. O presidente sonha com a volta do tempo em que o governo podia amordaçar a imprensa. Na impossibilidade de mandar censores às redações, ele ataca jornalistas que, por dever de ofício, são obrigados a ouvir suas grosserias diárias.

Ontem o capitão esbravejou em três turnos. De manhã, na porta do Alvorada, mandou uma repórter “calar a boca”. À tarde, no Planalto, afirmou aos gritos que os jornalistas não têm “vergonha na cara”. À noite, no Facebook, disse que a imprensa “estraga o país”.

A razão da ira foi a notícia de que o chefe da Secretaria de Comunicação mantém negócios com empresas que recebem verbas do governo. Fábio Wajngarten se formou em direito, mas incorreu num caso clássico de conflito de interesses. Ele aprova repasses de dinheiro público para emissoras que contratam sua firma particular.

Flávia Oliveira - Os desaparecidos da crise hídrica

- O Globo

Problema deveria ser tratado pelo primeiro escalão, mas está entregue ao segundo

O Rio de Janeiro tem governador e secretário estadual do Ambiente, mas parece estar com assentos vagos. Wilson Witzel (PSC) e Altineu Côrtes (PL) tornaram-se invisíveis durante crise hídrica que já dura duas semanas. De férias, o chefe do Executivo não antecipou o fim da temporada na Disney, quando moradores da Região Metropolitana começaram a denunciar que a Cedae estava entregando água com cheiro, cor e gosto, contrariando tudo o que aprendemos sobre potabilidade. Até ontem, o problema alcançava 71 bairros da capital e seis municípios da Baixada Fluminense, com implicações na qualidade de vida, na saúde, na economia e até na área policial. Deveria ser tratado pelo primeiro escalão, mas está entregue ao segundo.

Desde a virada do ano, Witzel publicou uma centena de tuítes — a forma de comunicação preferida de governantes contemporâneos para se comunicarem com eleitores, contribuintes e opinião pública. Apenas dois posts diziam respeito à estatal fluminense de água e esgoto. O governador do Rio gastou 396 caracteres para declarar que “são inadmissíveis os transtornos”; determinou “apuração rigorosa”; cobrou “solução definitiva para aprimorar a qualidade da água e do tratamento de esgoto das cidades próximas aos mananciais”. Só ontem à noite, de volta à capital, se reunia com o presidente da Cedae, Hélio Cabral. Houve um tempo em que mandatários de palácios demonstravam preocupação — ou disfarçavam a indiferença — formando grupo de trabalho, gabinete de crise ou comitê de emergência para tratar de temas urgentes como uma pane no abastecimento de água na temporada de mais calor e maior número de turistas.

Eliane Cantanhêde - Pau para toda obra

- O Estado de S.Paulo

Militares fazem ponte, combatem criminosos, limpam praias e... vão parar no INSS

Nos estertores do regime militar, toda vez que aparecia alguma encrenca, o presidente João Figueiredo ameaçava: “Chama o Pires!” Era uma senha para tentar assustar a oposição. Ou ela se comportava direitinho, ou o governo convocava o ministro do Exército para dar um jeito. No fim, Figueiredo nunca convocou para valer os militares e, afora os percalços e recuos, a transição foi concluída e o poder reassumido pelos civis.

Hoje, quatro décadas depois, numa situação bem diferente, a ordem do capitão presidente Jair Bolsonaro é mais genérica e vale para tudo: “Chama os militares!” E, assim, ele entupiu o governo de militares de diferentes patentes, desde oito ministérios até o segundo e o terceiro escalões de praticamente todas as áreas.

Eles estão na infraestrutura, nos transportes, no meio ambiente, na educação, no turismo, nas agências reguladoras, nas estatais. E as sucessivas demissões de generais, por cima, não desestimularam os colegas de várias patentes, por baixo. Calcula-se que em torno de 80% deles sejam do Exército, mas Marinha e Aeronáutica não ficaram de fora. Pelo menos, não reclamam.

O fato é que, com a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que permitiu o uso das Forças Armadas na guerra urbana de cada dia, os militares são pau para toda obra. Já eram essenciais para a construção de estradas e pontes em locais distantes, por exemplo, apagam incêndio na Amazônia, limpam praias do maior derramamento de óleo da história, estão em todas. E vão parar no INSS.

Bruno Boghossian – Um presidente em desequilíbrio

- Folha de S. Paulo

Presidente tenta intimidar imprensa, mas jornais não são a única vítima desses ataques

Jair Bolsonaro sabia que seu secretário de Comunicação tinha negócios com empresas contratadas pelo governo? Vai pedir os nomes dos clientes de seu auxiliar para avaliar o caso? Enxerga o óbvio conflito de interesses no episódio? O presidente acha que os cidadãos não merecem essas explicações.

Numa jornada de evidente desequilíbrio, Bolsonaro tentou intimidar quem perguntava sobre o assunto. Disse a uma repórter da Folha que calasse a boca, deu berros durante uma cerimônia no Palácio do Planalto e lançou a outro jornalista uma provocação das mais apalermadas: “Tá falando da tua mãe?”.

Já se sabe que o presidente não acredita na liberdade de imprensa, mas o surto de estupidez mostra também que Bolsonaro se recusa a prestar contas ao país e esclarecer questões que o incomodam.

Pelo segundo dia seguido, ele foi incapaz de produzir uma justificativa para o fato de que Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria de Comunicação, gerencia contratos públicos com empresas que são suas clientes na iniciativa privada.

Bolsonaro mentiu, tentou mudar de assunto e fugiu de dar entrevistas sobre o tema. Numa explosão de sinceridade ao fim de um discurso no Planalto, confessou aos jornalistas seu desejo, aos gritos: “Deixem o nosso governo em paz!”. Foi aplaudido pela plateia de aduladores.

Ruy Castro* - Aloprar ou recrudescer

- Folha de S. Paulo

Nossos presidentes, quando menos se espera, cometem ousadas piruetas verbais

Há semanas, agoniado com as investigações do Ministério Público do Rio sobre a “rachadinha” no gabinete de seu filho Flávio quando deputado estadual, Jair Bolsonaro ejaculou: “Se não tiver a cabeça no lugar, eu alopro!”. Aloprar significa ficar inquieto, agitado —aloprado. E Bolsonaro tem razão para aloprar —talvez já esteja sentindo a Justiça perigosamente perto das trampolinagens da família. Mas vamos ser justos. Num governo estrelado por tantos analfabetos, inclusive ele, surpreende vê-lo resgatar um verbo tão exótico e pouco usado.

O general João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura, também apelou certa vez para um verbo incomum. Reagindo às tremendas pressões sobre ele, vindas tanto dos civis quanto da linha-dura militar, Figueiredo explodiu: “Olha que eu recrudesço!”. O país parou, expectante. Parecia uma ameaça —mas de quê, como e contra quem? No Pasquim, Jaguar botou seus dois calunguinhas para discutir. Um deles pergunta: “O que é ‘recrudesço’?”. E o outro: “Não sei. Mas tem cru no meio”.

Luiz Carlos Azedo - A locomotiva do Brasil

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Depois de um ano à frente das finanças do governo paulista, Meirelles saiu do silêncio obsequioso em que estava em relação ao ministro Paulo Guedes”

Em conversa com a jornalista Miriam Leitão, do jornal O Globo, o secretário de Fazenda do governo de São Paulo, Henrique Meirelles, resolveu fazer um contraponto com o ministro da Economia, Paulo Guedes, comparando o desempenho da economia paulista com a do Brasil em 2019, primeiro ano dos governos Jair Bolsonaro e João Doria. São Paulo cresceu 2,6%, com uma projeção de 3% e 3,5% em 2020. A comparação foi puro veneno: “Imagina 2019 se o Brasil tivesse crescido à taxa de São Paulo. Agora, tire São Paulo da taxa nacional e o país teria crescido só 0,3%, por aí”.

A maldade não parou: “Nos serviços, em 12 meses até novembro, o país teve 0,9%, e São Paulo teve 3,2%. A indústria caiu 1,1% no país, enquanto em São Paulo cresceu 0,3%”. Segundo Meirelles, o estado gerou 40% dos empregos formais do ano passado. Presidente do Banco Central nos governos Lula e Dilma e ministro da Fazenda do presidente Michel Temer, Meirelles continua com seu prestígio inabalado no mercado financeiro, pois tem a seu favor o fato de ter administrado a crise de 2008 do ponto de vista cambial e ter tirado o país da recessão, após o impeachment de Dilma Rousseff.

Ou seja, depois de um ano à frente das finanças do governo paulista, Meirelles saiu da espécie de silêncio obsequioso em que estava em relação à gestão do ministro Paulo Guedes. Elogiou o Banco Central, em cujos os modelos macroeconômicos disse confiar, e revelou sua intenção de debater a reforma tributária. Segundo ele, o projeto dos estados foi apresentado como substitutivo à emenda 45, em tramitação na Câmara, e à emenda 110, que está no Senado. A proposta é uma alíquota única para todos os produtos em cada estado, com uma margem para subir ou descer, de acordo como a avaliação de comitê gestor formado por União, estados e municípios, para acabar com a guerra fiscal.