domingo, 28 de agosto de 2022

Míriam Leitão - Voto dos pobres e combate à pobreza

O Globo

O Brasil está dividido em várias questões, mas uma fratura na escolha do eleitor é muito reveladora do país que somos. Os pobres votam em Lula na esperança de um ambiente econômico que os favoreça, os não pobres de qualquer nível de renda dão mais votos a Bolsonaro. O Brasil precisa ter foco no resgate dos pobres, mas isso exigirá do próximo governo políticas fortes e precisas para atacar o agudo da crise, e muita capacidade de escolha e decisão sobre o uso dos recursos públicos. O combate à pobreza é uma emergência.

Nada resolverá quem nega a existência do problema. O presidente Bolsonaro em mais uma odiosa declaração negou que a fome exista no país. Ela é uma realidade gritante e, ao dizer o que disse, Bolsonaro só mostra que governante desprezível ele é.

Na realidade, o que se vê é um país que aprofunda suas divisões de renda. Na Central das Eleições da Globonews, o comentarista Mauro Paulino fez uma pergunta à pesquisa Datafolha. O que acontece com todos os outros recortes — religião, cor da pele, região e gênero — se incluirmos a variável renda como o grande divisor. Ou seja, como votam os pobres evangélicos, católicos, negros, brancos, homens e mulheres, e de qualquer parte do país? O resultado foi impressionante, e os números foram analisados na Central sob o comando de Natuza Nery. Em resumo, os pobres votam majoritariamente em Lula. Entre os não pobres há vantagem para Bolsonaro.

Elio Gaspari - Lula precisa de um dublador

O Globo

As regras das entrevistas ao Jornal Nacional não permitem que a fala dos candidatos venha pela voz de um dublador, mas ele teria ajudado a Lula. O candidato que disse ser necessário “pacificar este país”, que política “se faz conversando” e que “adversário não é inimigo” temperou suas respostas com um tom agressivo, algumas oitavas acima do que pede um estúdio.

Ecoava mais o líder sindical falando no estádio de Vila Euclides no milênio passado do que o Lula presidente de 2003 a 2010.

Lula resolveu seguir na campanha carregando as bolas de ferro da corrupção instalada no seu governo. Primeiro a do mensalão, depois a sua responsabilidade, ainda que indireta, nas propinas cobradas em obras públicas, sobretudo na Petrobras.

Erros, (“equívocos”, nas suas palavras) quem cometeu foi a sucessora, Dilma Rousseff. Logo ela, que tentou limpar a Petrobras e não conseguiu. Ele, repetiu, foi considerado o melhor presidente que o país já teve. Nos primeiros meses de seu mandato, áulicos atribuíam aos seus poderes a remissão do câncer de um amigo. O perigo mora na possibilidade dele acreditar nisso, mesmo sabendo que o amigo morreu meses depois.

Lula mostrou-se disposto a reverter o rumo da economia e repetiu uma receita que já deu errado.

A estridência do candidato estragou a resposta em que tratou do agronegócio. A aliança de Bolsonaro com os agrotrogloditas só trouxe constrangimento para os agroempresários. Ele diz a verdade quando afirma que o Movimento dos Sem Terra de hoje é outro. Isso, contudo, não é apanágio dos governos petistas. Já não corresponde aos fatos a afirmação de que o MST só invadia terras improdutivas. Invasores cobravam até resgate para não ocupar fazendas vizinhas.

Luiz Carlos Azedo - Simone Tebet, uma grata surpresa no Jornal Nacional

Correio Braziliense

A candidata do MDB foi muito cobrada pelos entrevistadores da Globo por seu desempenho como vice-governadora do Mato Grosso do Sul, cargo que exerceu antes de ser eleita senadora

Para a maioria dos eleitores que acompanharam as entrevistas dos candidatos à Presidência aos jornalistas William Bonner e Renata Vasconcellos, no Jornal Nacional (Rede Globo), Simone Tebet (MDB) foi uma grata surpresa, quando nada porque era muito menos conhecida do que os seus concorrentes: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que governou por dois mandatos, o presidente Jair Bolsonaro (PL), que tenta a reeleição, e Ciro Gomes (PDT), que disputa o comando do Palácio do Planalto pela quarta vez.

Simpática, bonita, firme, experiente, segura e com boas propostas, a entrevista serviu para que se descolasse dos caciques do MDB, que podem aumentar sua rejeição sem lhe dar um voto, e tentasse uma conexão direta com os eleitores, até porque não tem outra alternativa. Simone está sendo “cristianizada” abertamente pela ala da legenda engajada na volta de Lula ao poder, principalmente no Nordeste e no Sudeste, e as lideranças do Sul, Centro-Oeste e Norte do país que fazem parte da base de sustentação de Bolsonaro. Não foi à toa que citou como referências da legenda, além de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, apenas os ex-governadores Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcellos (PE), que estão vivos.

Janio de Freitas – Nas bordas do bolsonarismo

Folha de S. Paulo

Ação contra empresários ocorre sem abusos como os de Moro e Dallagnol

Entre ricos empresários brasileiros, é comum uma capacidade muito especial, algo como um poder magnético, que se ativa com presteza automática sempre que seu portador que se vê em encrenca ou desejoso de novas benesses.

Nos inumeráveis segmentos de atividades, só militares têm capacidade semelhante, até como característica nacional, e talvez pelo entendimento mútuo das duas classes.

busca policial nas casas de oito integrantes do grupo Empresários & Política desencadeou uma chuva de urgências de desagrado, de início meio encabuladas, em sites, blogs, jornais, TVs e rádios.

Escritas e ditas por colunistas, colaboradores, advogados menos ou mais advocatícios e bolsonaristas não lembráveis. Todos com ressalvas ou críticas à "ordem" do ministro Alexandre de Moraes para a ação policial contra os empresários flagrados em considerações pró-golpe.

"Moraes assumiu um risco alto", "operação controversa da PF", "simples conversa sobre golpe não é crime", "só falas sobre golpes não indicam crimes" —as formas variaram, não a preocupação com a pureza judicial ferida pelo excesso (como dizem os militares) de um ministro do Supremo.

Muniz Sodré* - Demônios na goiabeira

Folha de S. Paulo

Desde a espantosa afirmação de uma ministra de que viu Jesus Cristo trepado numa goiabeira, a nação não tinha ouvido informação tão intrigante quanto a da primeira-dama, segundo a qual o Palácio do Planalto era antes povoado por demônios.

Até aí, o relato oscila entre o escopo sobre-humano das crenças e o das exaltações visionárias. É uma questão de afinidade privada. Torna-se pública quando ela vai mais além para garantir que o real chefe do governo é aquele já descido, não da cruz (símbolo da entrega sacrificial), e sim da goiabeira: o próprio Jesus.

Notoriamente, entidades religiosas e articulistas detectaram aí um laivo de terrorismo religioso, por contrariar o pluralismo das crenças e o princípio de laicidade do Estado. Mas o fato ganha uma conotação particular quando confrontado a um pequeno episódio da celebração democrática nas Arcadas do Largo São Francisco: a professora Eunice de Jesus Prudente, uma das leitoras da Carta aos Brasileiros, com pulseira de búzios e blazer amarelo, emocionou a todos ao se descrever como mulher preta, zeladora de Oxum.

Bruno Boghossian – Em busca do voto crítico

Folha de S. Paulo

Ex-presidente trabalha para que eleitor fora da esquerda continue a seu lado e saia de casa para votar

A campanha de Lula ainda trata com alguma cautela o que se apresenta como uma espécie de voto crítico na disputa deste ano. A entrevista ao Jornal Nacional foi um exercício do ex-presidente para consolidar e tentar ampliar o apoio de um eleitorado que não se considera totalmente alinhado a seu projeto político e, em alguns casos, chega a operar nos limites do antipetismo.

Lula levou à bancada do telejornal um discurso contra três conhecidos gatilhos de rejeição nesse segmento: corrupção, alinhamento a ditaduras de esquerda e o governo Dilma Rousseff. O petista reconheceu desvios, falou em alternância de poder e admitiu decisões equivocadas na gestão de sua sucessora.

Hélio Schwartsman - Coração imperial

Folha de S. Paulo

Recepção de órgão de d. Pedro é espetáculo grotesco (e meio nojento)

Ainda não consegui decidir se acho a recepção do coração de dom Pedro 1º com honras de Estado um espetáculo apenas grotesco ou grotesco e nojento. Estamos, afinal, falando de um músculo cardíaco já meio necrosado, que só não se decompôs inteiramente porque é guardado num jarro cheio de formol. Surpreende-me que adultos supostamente racionais dos dois lados do Atlântico cultuem um pedaço de cadáver, baseados na falsa crença de que o miocárdio retenha magicamente as virtudes de quem o portou.

Se a exibição do coração imperial tem algo de duvidoso, o fenômeno psicológico que a sustenta, o essencialismo, é dos mais fascinantes. Ele está na origem de algumas das melhores e das piores características de nossa espécie.

Eliane Cantanhêde - Ligando o botão da TV nas eleições

O Estado de S. Paulo

Na TV, religião e ‘bem contra o mal’ versus comida e ‘o pior e o melhor presidente do Brasil’

A televisão entrou com tudo na campanha eleitoral, a partir da semana passada, com as entrevistas para muitos milhões de brasileiros no Jornal Nacional, da TV Globo, e o início da propaganda eleitoral obrigatória, que recupera prestígio, investimento e sua capacidade de atingir faixas imensas do eleitorado e, assim, pesar no resultado.

Se 2018 foi um ponto fora da curva sob vários aspectos, com a internet sendo decisiva para o improvável Jair Bolsonaro, 2022 mantém a força das redes, mas recoloca a importância da TV, como sempre. Geraldo Alckmin somou o PSDB, os tradicionais aliados e o Centrão, com mais de cinco minutos na propaganda na TV, mas teve menos de 5% de votos. Já Bolsonaro captou a força da internet e, com a facada, acrescentou a isso uma fantástica exposição em rádios, televisões e jornais.

Affonso Celso Pastore* - Estados Unidos e Europa

O Estado de S. Paulo

O Brasil deixará de contar com o impulso da economia mundial para crescer

Em junho, o FMI voltou a reduzir a projeção de crescimento mundial em 2023, e novos dados dos EUA e da Europa indicam que outras reduções devem ocorrer. Uma das consequências é que o Brasil não poderá contar com o impulso da economia mundial, que em 2022 contribuiu para o crescimento do PIB acima de 2%.

Em Jackson Hole, Jerome Powell reafirmou que o Fed continuará elevando a taxa de juros, mantendo-a em território restritivo até que a inflação seja dominada. A significativa desobstrução das cadeias de suprimento revelada pelo indicador do NYFED joga por terra a tese de que a inflação atual seria de custos. E, no entanto, esta é a hipótese surpreendentemente defendida por Stiglitz, um ganhador do Prêmio Nobel, e publicada com destaque na última quinta-feira, sob a alegação de que, ao inibir os investimentos necessários para normalizar a produção e domar uma inflação supostamente de custos, a taxa de juros mais alta elevaria a inflação.

Bernardo Mello Franco – Um perdão para Olga

O Globo

Militante comunista foi morta há 80 anos na câmara de gás; tribunal concordou que ela fosse entregue à Alemanha nazista pelo governo Vargas

A ministra Cármen Lúcia propôs que o Supremo Tribunal Federal peça perdão pela deportação de Olga Benário. A militante comunista estava grávida quando o tribunal autorizou o governo de Getúlio Vargas a entregá-la à Alemanha nazista. Sua morte na câmara de gás completou 80 anos em abril.

O processo de Olga reúne algumas das páginas mais sombrias da história do Supremo. Em março de 1936, a revolucionária alemã foi presa no Rio com o marido, Luís Carlos Prestes. Os dois eram procurados desde o levante frustrado na Praia Vermelha, no ano anterior. Para atingir Prestes, o governo resolveu expulsar Olga. Nas palavras do então ministro da Justiça, Vicente Rao, ela seria “perigosa à ordem pública e nociva aos interesses do país”.

Na tentativa de salvá-la da Gestapo, o advogado Heitor Lima apostou numa estratégia incomum. Em vez de alegar sua inocência, apenas reivindicou que ela continuasse presa no país. Argumentou que a alemã estava grávida de um brasileiro, e que o bebê também seria punido com a deportação. Ele ainda sustentou que a cliente teria desistido da revolução para se dedicar à maternidade. Assim, seria a única pessoa capaz de “regenerar” o lendário Cavaleiro da Esperança.

Flora Süssekind: ‘Senti necessidade de observar o Brasil sob a extrema-direita’

Uma das principais críticas literárias do país, autora lança 'Coros, contrários, massa', seu primeiro livro em 10 anos

Por Bolívar Torres / O Globo

Há reflexões que acompanham a vida de um pesquisador por muitos anos. Uma das maiores críticas literárias do país, Flora Süssekind levou uma década para reunir em livro os seus anseios intelectuais mais recentes. O resultado é “Coros, contrários, massa” (Cepe), que põe fim a uma longa espera por lançamentos da professora e pesquisadora. Com 20 textos ampliados e dois ensaios inéditos, o livro explora diversos desdobramentos sobre a questão do coro, ao qual a autora vem se dedicando.

Na construção do pensamento crítico de Flora, o coro é uma chave para entender as multiplicidades de vozes que formam a nossa experiência contemporânea. A autora mira o inquieto horizonte cultural e político, sem tirar os olhos do retrovisor. Sobrepondo passado e presente, cinema, artes plásticas e literatura, vai de João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector às tirinhas de André Dahmer, passando pela produção de escritores da atualidade como Veronica Stigger e Angélica Freitas.

Contracoro

O livro chega um ano após a polêmica saída da autora da Casa de Rui Barbosa, onde ela atuou como pesquisadora por quase quatro décadas. Era o auge da tensão entre os servidores e a presidente da entidade, Letícia Dornelles. Ao ser empossada, em 2019, ela exonerou de seus cargos Flora e outros quatro chefes de pesquisa. Flora poderia ter ficado, mas resolveu se aposentar da Casa Rui.

— É claro que a conjuntura política do país teve papel decisivo na demora (em lançar o livro) — conta Flora. — Eu perdi um coro de que fazia parte desde bem jovem, o centro de pesquisa da Casa Rui. Isso é muito forte, claro. Mas senti sobretudo necessidade de observar o que aconteceria no Brasil sob um governo de extrema-direita, de observar os coros da ultradireita. E contrastá-los aos contracoros trabalhados em experiências artísticas que, nesse contexto, se imporiam com inteligência crítica e autonomia. Assim como ao desânimo, à paralisia, à espera que acometeriam a muitos de nós.

Cacá Diegues - Política criação

O Globo

'Qualquer que seja o nosso candidato, somos obrigados a lembrar o que fez e sobretudo o que pensa sobre nós'

O cinema brasileiro sempre teve problemas com o Estado e era normal que fosse assim. Os políticos sempre têm críticas à criação, pois cabe aos políticos tentar convencer a população de que ela se comporta do jeito que precisa se comportar; enquanto à criação cabe dizer que ainda há um futuro a percorrer. Enquanto aos políticos é natural afirmar que aquilo que a população desejava deles está sendo cumprido, aos criadores cabe propor cenários inéditos de acordo com sua imaginação e ideologia pessoais. Ao diálogo de quem está no poder, equivale uma reação dos que sonham em inventar um novo mundo. Se aos políticos cabe justificar os votos que receberam, aos criadores cabe inventar novas alternativas, sem ser obrigado a acertar em todas elas.

Desde o início da redemocratização do Brasil, de Sarney a Temer, esse embate produzia a energia necessária para que as forças de cada lado acertassem suas preferências. E essas se tornavam sugestões à população, que as podia aceitar ou não.

Cristovam Buarque* - Felizmente temos Lula

Blog do Noblat / Metrópoles (27/8/22)

Lula demonstra que está mais experiente e em condições de corrigir equívocos durante seus dois governos

O Brasil está sem coesão no presente e sem rumo para o futuro. Entre os candidatos atuais à Presidência da República, Lula tem mais habilidade, liderança e experiência para reunir políticos de diversos partidos, empresários e trabalhadores, universitários e iletrados, ambientalistas e agronegócio, com o intuito de buscar esta coesão. Demonstra mais capacidade para usar esta coesão com o propósito de retomar rumo para o Brasil: aproveitar as janelas de oportunidade que a crise mundial oferece e usar os recursos que dispomos para a promoção de um desenvolvimento sustentável, justo, democrático e com eficiência.

Marco Antonio Villa - O que aconteceu com o Brasil?

Revista IstoÉ

O País hoje é quase como um daqueles problemas matemáticos que permanecem séculos para serem decifrados

Não será tarefa fácil para o pesquisador quando se debruçar sobre o Brasil de 2022 como objeto de estudo. O historiador poderá contar com fontes primárias e secundárias, com arquivos pessoais e com depoimentos, se assim o desejar, de atores – protagonistas ou não – da conjuntura política. Apesar disso, não creio que conseguirá obter respostas imediatamente. Pode ser que o tempo, o desenrolar da nossa história seja um aliado. Pode ser. Contudo, a complexidade do momento histórico vai levar o pesquisador para alguns temas de difícil explicação. 

Como compreender historicamente – no sentido  de Lucien Febvre – as eleições de 2018? O que aconteceu com o Brasil? E, mais concretamente, o que aconteceu conosco? Que País era aquele que elegeu um incapaz para a Presidência da República? No primeiro turno foram apresentados diversos candidatos que tinham história, programa e compromisso com a democracia. Mas o eleitor desconsiderou. Qual a razão? Foi só um voto de protesto ou algo mais?

Eugênio Bucci - Alguma coisa no eleitor ainda é analógica

O Estado de S. Paulo (27/8/22)

Para começar, tenhamos bem claro: até aqui, o evento de maior impacto na campanha eleitoral para a Presidência da República foram as sabatinas com os candidatos no Jornal Nacional. Foi a TV, não foram as redes sociais. Não foram os canais no Youtube, não foram as correntes de baboseiras no Whatsapp ou no Telegram, mas a velha televisão de sinal aberto que gerou o fato mais determinante da corrida eleitoral. As duas entrevistas de maior repercussão, a de Bolsonaro, na segunda-feira, e a de Lula, anteontem, foram vistas por cerca de 42 milhões de pessoas (a audiência do primeiro ficou pouca coisa acima, mas, em ordem de grandeza, ambos alcançaram o mesmo patamar). Com elas, o Jornal Nacional bateu recordes de público. Algo como um quinto ou um quarto dos habitantes do País grudou na tela para ver Renata Vasconcellos e William Bonner entrevistando (e bem) o atual presidente e seu maior rival, o ex-presidente Lula.

Luiz Carlos Azedo - Lula nadou de braçada na entrevista do JN

Correio Braziliense (27/8/22)

Nas redes sociais, 15 milhões de pessoas acompanharam as postagens sobre a entrevista de Lula ao JN, mais do que a audiência de Bolsonaro, que foi de nove milhões

Quem esperava uma entrevista pesada, como a do presidente Jair Bolsonaro, na segunda-feira, certamente ficou surpreso com a sabatina do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos jornalistas William Bonner e Renata Vasconcellos, no Jornal Nacional (TV Globo), na quinta-feira. O clima de grande expectativa em torno da entrevista, decorrente do histórico de desentendimentos entre o líder petista e a emissora, foi desanuviado logo no começo, quando o âncora do programa jornalístico de maior audiência da televisão brasileira, ao formular sua pergunta sobre a corrupção nos governos petistas, fez a ressalva de que o ex-presidente não devia nada à Justiça.

Daí para a frente, Lula ficou à vontade, ora sorridente, ora veemente, respondendo às perguntas de acordo com sua conveniência. Algumas vezes, tergiversou; outras, mandou recados aos diferentes públicos que pretende seduzir na campanha eleitoral. Foi o caso da nomeação do novo procurador-geral da República, caso seja eleito. O petista deixou no ar se aceitará a lista tríplice tradicionalmente eleita pelos procuradores, como fez durante seu governo. Sem nunca perder a elegância, foi mais atencioso com Renata Vasconcellos do que com Bonner. O Lula ressentido dos palanques eleitorais deu lugar à nova versão do Lulinha Paz e Amor, 20 anos depois. O petista estava de bem com a vida e convicto de que sua volta ao poder, em parceria com o ex-tucano Geraldo Alckmin, é a chave para resolver os problemas do país.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Privatizar é bom

Folha de S. Paulo

Cumpre desfazer falsas noções sobre o bem-sucedido programa de desestatização

O enriquecimento dos povos depende da produtividade do trabalho. Quanto mais bens e serviços produzidos por hora trabalhada, mais próspera será a sociedade.

A fórmula historicamente mais eficaz de impulsionar a produtividade é deixar a tarefa de empreender a indivíduos livremente associados em organizações privadas, as quais competem entre si para obter o maior lucro possível.

Aos governos cumpre zelar pelos bens públicos —saúde, educação, renda mínima, segurança, infraestrutura, isonomia e competição— seja diretamente, seja por intermédio de operadores privados devidamente monitorados e fiscalizados por agências reguladoras.

Se o mercado funcionar adequadamente, haverá mais bem-estar material a ser partilhado pelo Estado. Se o setor público for eficiente nas suas tarefas precípuas, indivíduos instruídos, a despeito de sua origem familiar, catapultarão a produtividade, e as desigualdades serão reduzidas. Os dois polos completam uma engrenagem que se autoalimenta rumo ao progresso.

Cerca de três décadas depois de iniciado o bem-sucedido processo de venda de empresas estatais e concessões de serviços públicos, no entanto, o tema ainda suscita controvérsias na sociedade brasileira.

Poesia | Vinicius de Moraes - Carta do Ausente

 

Música | Paulinho da Viola - Nervos de Aço (Lupicínio Rodrigues)

 

sábado, 27 de agosto de 2022

Marco Aurélio Nogueira* - Mudar é preciso, mas para onde?

O Estado de S. Paulo

É razoável que o eleitor se sinta indeciso. Os polos muitas vezes são mais semelhantes que diferentes e não trazem programas com intenções pedagógicas

Sente-se no ar um desejo de mudança. Tão forte que é como se pudéssemos apalpá-lo. Como está não pode ficar, ouve-se por toda parte. A democracia precisa ser defendida contra os arreganhos autoritários. A inflação come os bolsos da população, afeta os mais pobres de maneira vil. Os sintomas de uma crise aguda, múltipla, latejam sem cessar.

Os democratas se mobilizam, lançam cartas e manifestos que vocalizam a insatisfação e a disposição de luta. Atores posicionados em campos distintos se reúnem para defender a Constituição, as regras eleitorais, as urnas eletrônicas. Alerta-se para o risco que correremos se a mudança tardar, se o mau governo atual prolongar sua existência, com tudo o que exibiu nos últimos quatro anos: o desprezo pela política democrática, a falta de empatia, o descalabro administrativo, a grosseria, a ausência de compostura e de respeito presidencial ao cargo.

O desejo de mudança impregna o ar, mas não necessariamente irá vencer nas eleições de outubro próximo.

Antes de tudo, porque mudar é sempre difícil. Exige que personagens reconheçam erros e incompetências. Passa por deslocamentos (de pessoas, de ideias, de hábitos) que custam a se completar. Não é só uma troca de roupas, ou de governantes.

Bolívar Lamounier* - Novas desavenças à vista

O Estado de S. Paulo

Sobram razões para nos preocuparmos com uma nova e pior onda de desentendimentos, uma vez que religião e política não dão boa liga

Desde 1945, o Brasil padeceu sob ao menos duas desavenças políticas profundas, e é possível que a mescla do bolsonarismo com o ativismo eleitoral de uma parte dos evangélicos resulte numa terceira, quiçá pior que as anteriores.

Comparando com outros países, creio poder afirmar que o Brasil não é difícil de governar. Dias atrás, tive o prazer de ler uma breve história da revolução japonesa de 1868 (A Revolução Samurai), escrita por Luiz Paulo Lindenberg Sette, nosso embaixador no Japão em 1986. Imagine o leitor se nossos políticos tivessem de enfrentar uma complicação daquele tamanho. Um país que se caracterizava por guerras sem fim, depois gozou uma relativa paz no período Tokugawa, mas continuou incapaz de superar seu indescritível atraso. Com pouco território, dependia totalmente da produção de arroz e mantinha-se rigorosamente fechado ao exterior. Foi a partir da restauração da dinastia Meiji que uma nova elite conseguiu virar tudo de cabeça para baixo, acabou com o feudalismo e em três décadas transformou o país numa grande potência industrial e militar.

Nós, em tal situação, estaríamos evidentemente num mato sem cachorro. Com problemas muito menores, tivemos dois momentos de sérios confrontos desde 1945, e estamos vendo a situação piorar novamente em razão do ingresso de um componente religioso na política eleitoral.

Adriana Fernandes - Cerveja, picanha e chuchu

O Estado de S. Paulo

Falta a Geraldo falar mais, sobretudo expor com mais contundência a ‘narrativa fiscal’

O ex-presidente Lula prometeu cerveja e picanha aos trabalhadores, nos finais de semana, e Geraldo Alckmin ao mundo empresarial e financeiro para “consertar juntos” a economia.

E teve também promessa de renegociar dívidas, que era do adversário Ciro Gomes, que ele falou no minuto final da entrevista aos jornalistas William Bonner e Renata Vasconcellos no Jornal Nacional. Um ponto sensível para os endividados eleitores e trava para o aumento do consumo e da retomada do crescimento a partir do ano que vem.

Lula se saiu bem no embate (até a campanha do presidente Jair Bolsonaro acha isso) e reforçou o papel do ex-governador tucano no coração da campanha do PT como fiador dos três pilares que mais agradam ao mundo dos negócios: previsibilidade, credibilidade e estabilidade.

João Gabriel de Lima - Ela não tem de pedir desculpas

O Estado de S. Paulo

Sanna Marin foi acusada de não possuir postura de chefe de Estado. É uma crítica descabida

Imagens de mulheres dançando e se divertindo tomaram de assalto as redes sociais ao longo desta semana. O movimento é um desagravo à primeira-ministra finlandesa, Sanna Marin, duramente – e injustamente – criticada por vídeos em que aparece com amigas numa festa privada. A hashtag associada às imagens é #solidaritywithsanna.

“É claro que a reação seria diferente se Sanna fosse um homem”, diz a escritora Inês Pedrosa, entrevistada no minipodcast da semana. “O popularíssimo presidente de Portugal em toda parte dança, e ninguém o põe em causa por isso.” Inês Pedrosa é uma das escritoras portuguesas mais lidas no Brasil – autora, entre outros, de Fazes-me Falta, estrondoso sucesso de público e crítica, Dentro de Ti Ver o Mar e O Processo Violeta.

Demétrio Magnoli - Urnas sem Deus

Folha de S. Paulo

A política pertence à esfera pública; a religião, à esfera privada

Michelle Bolsonaro proclamou que o Palácio do Planalto era "um lugar consagrado a demônios" e liderou um culto evangélico na sede do governo. Jair, seu marido que ainda finge governar, isentou os pastores de contribuição previdenciária, violando o princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei e inaugurando uma via expressa para negócios camuflados de religião. São atos tão anticonstitucionais quanto pregar o fechamento do STF. Mas funcionam.

Sondagem do Datafolha confirma a larga dianteira de Bolsonaro entre os eleitores evangélicos. Mesmo na faixa dos mais pobres, o presidente empata com Lula, em resultado contrastante com o do conjunto do eleitorado. A "guerra santa" é o único terreno favorável ao golpista que ocupa o Planalto. Lula, Ciro e Simone Tebet não ousam formular a resposta certa à armadilha político-religiosa.

Tebet participou da Marcha para Jesus, em São Paulo, veiculando a mensagem de que também caminha com Deus. Lula convocou um pastor evangélico para viajar com ele e produzir conteúdo de campanha destinados a afastar os fiéis da "bolha bolsonarista". Mais: apesar de criticar a "guerra santa", proclamou que "Bolsonaro usa Deus e Deus usa o Lula". A disputa por Deus serve, exclusivamente, para normalizar a cruzada bolsonarista.

Alvaro Costa e Silva - Abismo entre Lula e Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Quem contou e apurou garante que foi uma mentira a cada três minutos, média condizente para quem deu mais de 6.000 declarações falsas ou distorcidas no período em que está na Presidência. Um festival de lorotas transmitido ao vivo no horário nobre, sintonizado por metade dos televisores ligados no país, maior audiência do Jornal Nacional desde os tempos de pico da Covid, em 2020: 43,2 milhões de pessoas. O que mais na vida pode querer um mentiroso?

Dar um golpe para continuar mentindo. Nos 40 minutos da entrevista houve uma única certeza. Ao ser cobrado a assumir o compromisso de que respeitará o resultado das eleições, a resposta de Bolsonaro indicou sua falta de compromisso, pois colocou uma condição: "Desde que sejam limpas". Referia-se à campanha que ele inventou contra as urnas eletrônicas.

Cristina Serra - A Amazônia que queremos

Folha de S. Paulo

Sim, a floresta é nossa, mas temos que fazer por merecê-la

Esta é a primeira campanha presidencial em que o meio ambiente e a Amazônia passaram a ocupar o devido lugar em entrevistas e discursos de candidatos. Já não era sem tempo. A maior floresta tropical do planeta é um dos elementos mais importantes da estabilidade climática mundial.

Outros países dirigem seu olhar para o Brasil, à espera do que faremos enquanto continua o lúgubre espetáculo de árvores queimadas, rios poluídos, povos contaminados e o território retalhado pelo crime ambiental. Sim, a Amazônia é nossa, mas temos que fazer por merecê-la.

Para orientar nossa escolha como sociedade, é de imenso valor a contribuição de 27 cientistas e pesquisadores de universidades e instituições públicas locais, entre elas o Museu Emílio Goeldi, o Instituto Evandro Chagas, o Museu da Amazônia e a Embrapa, na carta "Ciência na Amazônia Democrática e Inclusiva", dirigida ao candidato Lula (PT).

Hélio Schwartsman - Darwinismo vacinal

Folha de S. Paulo

Por que as escolas não conseguem ensinar o beabá do pensamento crítico?

Darwinismo social é o nome que se dá a um conjunto de teses que procuravam legitimar diferenças raciais e de classe. Evocando a noção de "sobrevivência dos mais aptos", ideólogos como Herbert Spencer e Francis Galton sugeriam que os mais ricos e mais poderosos estavam nessa posição porque eram inerentemente superiores. Baseado mais numa falácia (a do apelo à natureza) do que na leitura rigorosa dos textos do naturalista inglês, o darwinismo social teve seu apogeu no final do século 19 e início do 20, caindo em opróbrio após a 2ª Guerra Mundial.

Se ainda fosse necessário buscar dados empíricos para desmentir o darwinismo social, a pesquisa do Sou Ciência (Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência), da Unifesp, sobre a vacinação contra Covid no Brasil funcionaria como prova irrefutável. A sondagem mostrou que foram justamente os mais ricos e os mais instruídos, supostamente os mais "aptos", os que menos se imunizaram.

Carlos Alberto Sardenberg - Quando as crianças podiam votar

O Globo

É o fim da picada que a gente esteja de novo tentando interpretar os recados de chefes militares. Mas é uma vigilância necessária

Talvez nem fosse permitido pela lei eleitoral, mas os mesários toleravam, de bom grado, que pais e avós levassem filhos e netos para votar. Isso mesmo, votar. Às crianças mais crescidinhas e mais espertas, era dada a oportunidade de apertar as teclas da urna eletrônica, em nome da família.

Uma diversão, brincadeira, mas também uma aula de educação moral e cívica — não daquele tipo de doutrinação imposta pelo regime militar nos anos 1970. Crianças percebiam a importância do ato.

Ingenuidade? Saudosismo das antigas? Pode ser, mas o ambiente eleitoral era realmente diferente, para melhor, antes de 2018. E muito mais saudável que nos dias de hoje.

Há algum tempo, os juízes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nem sequer cogitariam proibir celulares na cabine de votação. E, sim, mesários também toleravam que pais e avós fotografassem as crianças por ali.

Já neste ano, a decisão do TSE de proibir os celulares foi correta e tomada a tempo. Pelas redes sociais, já dava para perceber que muita gente se preparava para montar vídeos fake e espalhar falsidades sobre a segurança das urnas.

Eduardo Affonso - As falsas assimetrias

O Globo

O novo presidente não pacificará o país — ao contrário, ampliará o fosso. Terá contra si, se não o ódio, pelo menos o ranço de metade da população

Digam o que disserem antropólogos, sociólogos e cientistas políticos, ninguém conhece melhor a alma de um povo do que seus artistas. Eles são “a antena da raça”, na definição do poeta Ezra Pound. Antena, radar, sonar, telescópio, microscópio, tradutor, oráculo, o artista atira no que sente e acerta no que talvez apenas pressinta. Mesmo quando fala de uma dor de corno ou de cotovelo, pode estar retratando o relacionamento tóxico de um povo consigo mesmo e com suas escolhas.

“Esses moços, pobres moços (...)/Saibam que deixam o céu por ser escuro/E vão ao inferno à procura de luz”, cantou Lupicínio Rodrigues com o pensamento nos que buscam os altos voos do amor se atirando no precipício da paixão. Mais ou menos o que temos feito na vida política.

Com Mário Covas, Ulysses Guimarães e Roberto Freire na disputa, elegemos Fernando Collor. Agora abrimos mão de Simone Tebet, Ciro Gomes e Luiz Felipe d’Avila para encarar uma escolha de Sofia entre o que deu errado e o que não tem como dar certo.

Mantidas as tendências apontadas nas pesquisas de opinião, Bolsonaro (em ascensão) poderia alcançar Lula (estabilizado). Mas isso foi antes das entrevistas no JN e dos debates, em que Lula leva vantagem.

Pablo Ortellado - Para uma candidatura de esquerda, Lula fala pouco de desigualdade

O Globo

De certa maneira, a campanha de Lula tem apelado mais à memória da prosperidade passada do que apresentado planos concretos de como retomá-la

Vinte anos depois de vencer a primeira eleição, Lula concorre outra vez à Presidência. É o líder nas pesquisas de intenção de voto e tenta derrotar o presidente Jair Bolsonaro, que está cerca de dez pontos percentuais atrás.

Lula tem repetido o bordão de que é preciso “colocar o pobre no orçamento” e tem ligado isso à ideia de revogar o teto de gastos, mecanismo que limita o crescimento das despesas do governo ao patamar do ano anterior, corrigido pela inflação. Argumenta que o teto está drenando recursos da área social. O teto, tal como existe hoje, efetivamente impede a expansão do gasto social mesmo se houver expansão da arrecadação. As diretrizes de governo de Lula não são muito específicas, mas ele promete substituir o teto por uma nova política fiscal que tenha mais flexibilidade e reconheça a importância dos investimentos.

Ascânio Seleme - O problema é o eleitor

O Globo

É evidente a crise de lideranças e da qualidade da representação política hoje no Brasil. Não por outra razão, os candidatos que lideram as pesquisas são o veterano-populista Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente-baixo-clero Jair Bolsonaro. Dos que correm por fora, Ciro faz sua quarta tentativa para o cargo e Simone apenas patina com um ou dois pontos nas pesquisas, a pouco mais de um mês do primeiro turno. Os partidos eventualmente buscam nomes que julgam ser os mais apetrechados para vencer a eleição, mas é evidente também que raramente dão chances aos novos.

No caso do PT, por exemplo, enquanto estiver vivo, Lula será o candidato do partido a presidente. Em 2014, não foi candidato por impedimento legal, acabava de cumprir dois mandatos. Em 2018, foi candidato mesmo preso e com direitos políticos suspensos, abrindo mão da vaga apenas na última hora. Não dá para negar que Lula é o candidato correto agora, talvez o único com estatura para vencer Bolsonaro. Mas poderia ter sido diferente. Se em 2018 o PT tivesse lançado Fernando Haddad antes ou tivesse apoiado Ciro Gomes, um deles poderia ser hoje presidente no exercício do cargo concorrendo à reeleição.

Mas a história foi escrita de forma diferente e não adianta vir agora com “se isso” ou “se aquilo”. O fato é que os partidos não ajudam o eleitor por raramente lhe oferecerem novas opções. E o eleitor tampouco se esforça para enxergar melhor e com clareza o cenário político. De um modo geral, não se importa, não se informa, preocupado muito mais com suas questões particulares do que com as questões da nação. O problema não é só o candidato, é o eleitor também.

Carlos Andreazza - Entre demanda, oferta e uma interdição

O Globo

Existe a demanda; daqueles que não querem nem a volta de Lula nem a continuidade de Bolsonaro. Existe também a oferta. Mas o consumidor não responde

É singular o mercado da política. Há demanda por um produto eleitoral alternativo a Lula e Bolsonaro. Fosse outro mercado qualquer, a indústria o teria fabricado — com sucesso.

É singular o da política. Existe a demanda; daqueles que não querem nem a volta de Lula nem a continuidade de Bolsonaro. Existe também a oferta. Mas o consumidor não responde. A demanda não materializa engajamento. A oferta não atrai.

É como se houvesse uma interdição; como se o medo de o desprezado — Bolsonaro ou Lula — vencer empurrasse o eleitor para um segundo turno antecipado. Um sentido de urgência que paralisaria as possibilidades competitivas da opção demandada; sentido de emergência que se imporia ao eleitor nem lulista nem bolsonarista. O voto num candidato que não Lula ou Bolsonaro então transformado em capricho — mesmo em excentricidade — ante o dilema eleitoral brasileiro.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Lula continua em forma para driblar temas incômodos

O Globo

Na entrevista ao JN, ele pintou um Brasil em que a ruína econômica e a corrupção nada têm a ver com o PT

Ao ser entrevistado pelo Jornal Nacional, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou estar em forma na arte de desviar de temas indesejados. Fez de tudo para minimizar os escândalos de corrupção nos governos do PT. Na fala do candidato líder nas pesquisas, parece que só houve excessos entre os procuradores da Operação Lava-Jato e que a roubalheira na Petrobras não teve nada a ver com os governos do PT. Na sua visão, o partido merece aplausos por ter feito uma gestão republicana permitindo que a sujeira viesse à tona — e driblou como pôde a questão sobre como indicaria o próximo procurador-geral.

Foi astucioso, mas dificilmente convenceu algum antipetista. Com os demais — aqueles que preferem Lula sem muita convicção ou os indecisos —, é provável que tenha mais chance. Sua habilidade de comunicador ajudou, e ele soube escolher temas caros ao eleitor. Voltaram os sorrisos, o otimismo bonachão e as metáforas futebolísticas. O brasileiro quer, sim, voltar a comer picanha com cerveja e conseguir um emprego melhor. Faltou explicar como fazer a economia crescer, condição inescapável para atingir tais objetivos.

Poesia | Fernando Pessoa - Nevoeiro

 

Música | Coral Edgard Moraes e convidados - Regresso de Aurora