segunda-feira, 18 de abril de 2016

Minúscula política - José de Souza Martins

• Para sociólogo, o pensamento arcaico que marca, define e desestabiliza o processo político brasileiro contamina tudo: favorece partidos sem ideais, barra a alternância de poder e só estimula a troca de favores. No processo de impeachment da presidente Dilma assistimos ao grande momento dos insignificantes, que melhor fariam se não aparecessem. Já os grandes nomes, em outros tempos chamados ‘pais da pátria’, não são convocados a agir

- O Estado de S. Paulo / Aliás

O modo tumultuado e desencontrado como tem sido enfrentada a questão da proposta de impeachment da Presidente da República acaba revelando peculiaridades ocultas, mas decisivas, do nosso sistema político. Diferente do que ocorre em outros países, de sistemas íntegros e articulados, o nosso é mais uma aleatória combinação de concepções impolíticas. No próprio dia em que a comissão da Câmara aprovou a proposta de admissibilidade do impedimento, houve momentos em que não se sabia se se tratava de uma disputa de torcidas de futebol ou de uma disputa propriamente partidária. Aliás, o futebol é no Brasil o grande e impróprio parâmetro da política. O impeachment de Dilma Roussef está sendo votado na perspectiva da transitoriedade própria das Copas do Mundo. Depois que passar, passou.

Uma superposição de camadas de arcaísmos vários define as referências do processo político brasileiro. Os oradores dirigiam a palavra a suas províncias e povoados. Não se manifestavam como corpo político da nação. Alguns aludiram a suas religiões, ainda que indiretamente. O que também é estranho. O Estado brasileiro não é nem pode ser confessional. Religião é assunto privado. A religião do Estado é a cidadania. Falaram para o eleitor oculto, em vez de representá-lo.

Já tivemos um regime parlamentarista no Império e, na República, no curto período de redução dos poderes do presidente João Goulart, em 1961-1963. No entanto, de maneira quase imperceptível, um parlamentarismo tosco persiste entre nós. É o que se vê na invocação de suposta incompetência e mesmo de incapacidade para governar para remover a Presidente e transferir o poder ao seu sucessor legítimo e constitucional. Ao questionar essa legitimidade, ela própria e seu partido revelam a mesma mentalidade desse parlamentarismo arcaico e subsistente.


Foi o PT aliás, que difundiu entre seus militantes a ideia da possibilidade de depor o governante quando este se conduzisse em desacordo com o ideário das facções eleitoralmente majoritárias, mas socialmente minoritárias. Um frade petista, de grande destaque e de grande responsabilidade no apoio católico ao Partido dos Trabalhadores e à irresistível ascensão política de Lula, logo depois da posse de Fernando Henrique Cardoso na Presidência, assinava suas mensagens com um enfático “Fora FHC”. Uma concepção golpista e totalitária de que legítimo era o partido dele e não o dos outros, o partido do “Eles” dos discursos petistas, porque negação e recusa do princípio de que um regime democrático se baseia na possibilidade da rotação dos partidos no poder.

Há uma mentalidade ditatorial subjacente a palavras de ordem desse tipo. Não é estranho que o mesmo religioso lamentasse nos primeiros anos do governo Lula que o PT estava no governo, mas não estava no poder. Que poder é esse? O poder absoluto que criminaliza o ato legítimo de cidadãos que, como no caso atual, apoiados na Constituição da República, pedem que se apure atos de governo em desacordo com a lei e, em decorrência, julgue a Câmara a admissibilidade do impedimento da governante? Aparentemente, sabemos pouco o que é o impeachment. Vai bem que conste da Constituição e das leis, vai bem se aplicado aos outros, mas é golpe se aplicado a “nós”.

O elenco de rótulos para negar a legitimidade do impeachment, medida constitucional, é um desdobramento dessa mentalidade absolutista e arcaica. O dedo notório de “fábricas” de estereótipos negativos, de ambos os lados, mostra que o povo propriamente dito, nas concepções deste momento adverso, repete e grita palavras de ordem que mobilizam desfigurando o real, coisa de marqueteiros que manipulam a opinião pública com os mesmos critérios com que manipulam gostos e apetites dos que desfilam nos corredores do supermercado.

De certo modo, tudo isso nos mostra que o impeachment, mesmo que justificado e eventualmente necessário, no fundo, é irrelevante. Porque o País se governa por si mesmo. Lula esteve muito perto de ser impedido em 2005, quando do escândalo do mensalão. Quando se deu conta disso, tornou-se abúlico e indeciso, sem a segurança dos discursos firmes e enfáticos das portas de fábricas do ABC ou do aplauso das multidões proletárias congregadas no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. No entanto, nem por isso o país parou. Nos tumultuados anos entre a morte de Getúlio Vargas e a deposição de João Goulart, as evidências da crise econômica e da crise política eram muitas. Ainda assim, o País não parou. Só foi parar com a eleição de Jânio Quadros e sua sucessão pelo vice-presidente, quando o Brasil ficou sem um projeto político, coisa que voltou a ocorrer nos dois mandatos de Dilma Roussef, quando a política de coalizão a fez negociar o mandato e a governação com os escalões inferiores de partidos políticos irrelevantes porque frágeis. Os mesmos que, em boa parte, vão decidir o seu destino.

Ainda que as multidões sejam capazes de manifestações impressionantes como as da Avenida Paulista, neste 2016, em favor do impeachment ou contra ele, passado o momento da disputa, tudo voltará à rotina da indiferença. Multidão não é governo nem tem mandato. No outro extremo, longe das metrópoles, a multidão silenciosa dos que não se manifestam nas avenidas das capitais está por trás dos deputados indecisos, os que esperam um sinal que lhes venha dos ermos e lonjuras para votar de acordo com a peculiar concepção de mandato político que os leva ritualmente às urnas quando as eleições são convocadas. Essa gente silenciosa poderá decidir tanto o destino da Presidente quanto o destino das oposições, quanto o destino do Brasil.

Os que ainda vivem no mundo da troca política de favores, do toma lá dá cá, das muitíssimas migalhas e farelos que caem da mesa do poder e dos poderosos, terão neste domingo sua vez e hora. Não será o vermelho nem o azul, nem o verde nem o amarelo, que decidirão nossos caminhos daqui para a frente. Será o cinzento da definição de última hora. O minúsculo e não o maiúsculo.

Em boa parte, porque não temos no Brasil, propriamente, um sistema partidário, que represente efetivamente a diversidade de correntes ideológicas. Nem mesmo temos o que, com segurança, poderíamos definir como ideologias ou correntes partidárias modernas e comparáveis, para que os eleitores possam fazer o que é propriamente uma escolha entre alternativas. As esquerdas, de verdade, estão fragmentadas e diluídas em extensa diversidade de querelas e não propriamente de orientações filosóficas. Já a unidade do partido majoritário, que é o PMDB, é tão somente a da convergência de interesses para assegurar o vínculo entre governos locais e o cofre do governo central. Se a dona do cofre perde a chave, saem atrás de quem a chave terá.

Por isso, há aqui dois grandes partidos, o partido do poder e o partido que está fora do poder. Já no Império era assim: Conservadores e Liberais, que se alternavam no poder sob a diáfana proteção do Poder Moderador de Dom Pedro II. Foi a única vez em que os partidos tiveram a certeza da alternância do poder, não sendo, portanto, necessário o golpe de Estado para promovê-la. A República Velha inaugurou o ciclo do partido único sob o disfarce do binarismo partidário. Os excluídos acabarão com esse sistema na Revolução de Outubro de 1930. O que nos levará à ditadura para impor o projeto político de nação que a República oligárquica inviabilizara, que terminará com a deposição de Vargas e, no retorno de 1950, seu suicídio em 1954. Um novo regime binário nascerá com o golpe de 1964, sob condição de que apenas um partido governaria.

A abertura política de 1985 supostamente se fez para assegurar a pluralidade dos partidos e a alternância do poder. A irresistível ascensão política do PT à Presidência trouxe no bojo, novamente, o bloqueio dessa alternância, através dos vários mecanismos de corrupção e de dominação, como o Bolsa Família, que sob disfarce eleitoral e democrático, fecharam as portas à troca cíclica de partidos no poder. Era inevitável que o movimento pendular da política brasileira, entre alternar o mando político e bloqueá-lo, levasse a uma solução drástica para remoção do partido da Presidência, nela mantido por meios que, do ponto de vista formal, parecem abusivos. Por acaso, o recurso encontrado foi o do impeachment. Independente das múltiplas motivações que movem a roda da História no sentido de excluir do poder o Partido dos Trabalhadores, o que explica as ocorrências de agora é a dinâmica política do retorno cíclico da possibilidade da renovação do poder, algo que está fora das cogitações explícitas dos que agitam bandeiras nas ruas e dos que agitam cartazes no Parlamento.

A alternância que se abre com a sucessão que decorrerá do impeachment, se aprovado, é alternância minada pelo fascínio do poder, o mesmo fascínio que capturou Lula, privando-o da lucidez que teve em diferentes momentos da história política brasileira: quando seus poderosos e ambiciosos coadjuvantes imaginavam que estavam indo, ele já estava voltando. Foi assim no caso do mensalão. Mas não está sendo assim no caso presente. Atraído pelo olhar fatal da serpente do poder, ele se equivoca fazendo campanha eleitoral para 2018, quando a prioridade histórica é agora completamente outra, a da salvação nacional.

Não erra sozinho. Os partidos não estão recorrendo aos notáveis da política brasileira, aqueles cujo carisma lhes permitiria a palavra de bom senso que era tão própria dos que, no período colonial, eram chamados de “pais da pátria”. Com exceção de Fernando Henrique Cardoso, que tem tomado a palavra mesmo quando não lha dão, e de Marina Silva, da Rede, que tem falado mesmo quando não é convidada a fazê-lo, não se vê o protagonismo explícito e necessário de Olívio Dutra, do PT, de Cristovam Buarque, do PPS, de Pedro Simon e de Jarbas Vasconcelos, do PMDB e de tantos mais cujo magistério ajudaria o país a escapar da armadilha de achar que estamos apenas decidindo, antes do tempo, a eleição de 2018.

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José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras, entre outros livros , autor de O PT das lutas sociais ao PT do poder (Contexto)

O amanhã – Aécio Neves

- Folha de S. Paulo

Escrevo este artigo com a televisão ligada e, assim como milhões de brasileiros, aguardo a decisão final da Câmara dos Deputados em relação à admissibilidade do processo de impedimento da presidente da República.

Independente do resultado final que, acredito, será pelo afastamento, a hora é de serenidade e responsabilidade. Não há lugar para vencidos ou vencedores. Há um país que precisa se reencontrar com seu destino, que precisa ser reconstruído.

Todo processo de afastamento de um presidente acirra tensões e provoca desgastes na sociedade. Ainda assim, diante da gravidade da crise que vivemos, tais danos são menos dolorosos do que o prolongamento da agonia que paralisa o país.

A tarefa de reconstrução não será breve, pois estamos diante da maior recessão da nossa história. O setor produtivo precisa voltar a produzir, os trabalhadores querem de volta seus empregos, as famílias sonham com a queda da inflação e juros menores para pagar suas dívidas. As contas públicas têm de ser reequilibradas. É muita coisa a ser feita. Urge que se comece já. Mas sem ilusões.

Não se conserta um país sem um projeto claro e sem coragem para implementá-lo. O que o momento recomenda é uma distensão no ambiente, de tal ordem que permita a retomada de um debate de alto nível, envolvendo toda a população em torno de questões centrais.

A sociedade pautou este caminho. Seja nas ruas, em junho de 2013, ao cobrar melhores serviços públicos, ou durante toda a investigação da Operação Lava Jato e, mais recentemente, ao longo de todo o processo impeachment. E não há volta.

É hora de apresentarmos ao Brasil uma nova e vigorosa agenda. É hora de enfrentarmos o desequilíbrio da Previdência, fazermos a simplificação do nosso sistema tributário e fortalecermos o papel das agências reguladoras (independência e meritocracia), requalificando de forma definitiva a administração pública.

Além disso, uma maior abertura comercial ocasionaria a recuperação da confiança, o aumento da taxa de investimento e a consequente recuperação do emprego. Só assim teremos recursos para garantir e ampliar os programas sociais colocados em risco pela incapacidade desse governo.

Não há clima para desordem ou radicalismos. A transição que se inicia merece nossas melhores expectativas. A oposição, que não é beneficiária do processo de impeachment, não fugirá à sua responsabilidade e dará sua contribuição para enfrentarmos e vencermos essa crise sem precedentes, na qual a irresponsabilidade dos sucessivos governos do PT nos mergulhou.

Neste momento grave da vida nacional, o PSDB estará onde sempre esteve.

Ao lado do Brasil.
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Aécio Neves é senador e presidente nacional do PSDB

Sem o direito de errar - Ricardo Noblat

- O Globo

“Um governo que não tem 171 votos na Câmara não merece governar” Ricardo Berzoini, ministro- chefe da Secretaria de governo

Dilma tem poucos amigos. Temer, muitos. Dilma não confia em ninguém. Temer confia. Dilma vive sozinha com a mãe. Temer é casado, tem filhos e detesta a solidão. Dilma concentra poderes. Temer delega. Dilma impõe sua vontade sem discuti- la. Temer constrói a sua ouvindo os outros. Dilma detesta a política e os políticos. Depois da família, Temer ama a política e os políticos acima de tudo.

O QUE O RESULTADO da votação do impeachment na Câmara teve a ver com as diferenças de temperamento, estilo e modo de vida de Dilma e Temer? Nada e tudo. Quem derrubou Dilma foram as mentiras que disse para se reeleger e os muitos erros que cometeu desde então. Mas, se ela não fosse como é, e Temer, o seu oposto, talvez pudesse sobreviver a um processo que ainda está longe do fim.

PIOR DO QUE atravessar, insone, a noite de ontem, certamente será para Dilma viver o seu primeiro dia como presidente da República de direito, de fato, não. Na vida real, o poder transferiu- se do Palácio da Alvorada, onde ela mora, para o Palácio do Jaburu, onde mora Temer. Poucos quilômetros separam os dois palácios. Um, porém, abriga o passado em eclipse. O futuro começa a ser desenhado no outro.

É REMOTA A CHANCE de o Senado recusar- se a julgar Dilma. A admissão, ali, do pedido de impeachment está prevista para acontecer até o próximo dia 11. O Senado só levou quatro dias para admitir julgar o ex- presidente Fernando Collor. É possível que em dez dias aceite julgar Dilma. Nesse caso, ela será obrigada a afastar- se do cargo e terá o seu destino resolvido em um prazo de 180 dias.

O GOVERNO TEMER começará de imediato. E dado às nuvens pesadas que privam o país de luz, e às desconfianças que cercam Temer, o vice- presidente no exercício do cargo disporá de pouco tempo para mostrar a que veio. Um novo presidente costuma desfrutar de um mínimo de cem dias de lua de mel com os seus governados. É da tradição. Temer não terá esse direito. Como Itamar Franco, o vice de Collor, não teve.

TAMPOUCO A TEMER será concedido o direito de errar. Ou acerta logo ou será cobrado por eventuais erros à partida, e, de quebra, por ter agido às claras para subtrair a Presidência à Dilma. Ela caminhava teimosamente para cair sozinha. Seu governo deixara de existir de há muito. Mas Temer não se limitou a esperar a queda. Ajudou a provocá- la. Nunca antes na história deste país... Pois é.

ATÉ O GOLPE MILITAR DE 1964, vice e presidente não eram obrigados a ser eleitos na mesma chapa. João Goulart foi o vice que assumiu com a renúncia de Jânio Quadros, mas os dois haviam sido eleitos em chapas distintas. Deixou de ser assim. E porque deixou, o vice perdeu importância. Passou a ser visto como um aliado do presidente eleito, alguém, de fato, comprometido com ele e leal a ele.

UMA COISA É O VICE divergir do presidente. Natural. Outra bem diferente é passar a opor- se a ele. Outra mais grave é conspirar contra ele. Dilma sempre tratou Temer com desprezo. Daí a Temer sentir- se à vontade para ajudar a depô- la vai uma distância abissal. Distância que separa o político sempre correto do político cuja correção depende das circunstâncias e do tamanho de sua ambição.

TEMER CONTRIBUIU para aumentar os desafios que o aguardam. Além de arcar com uma herança maldita, terá pela frente a hostilidade dos inconformados com o atalho que escolheu para alcançar o poder. Boa sorte.

Resta agora tentar começar de novo - Merval Pereira

• Chegamos a este ponto porque o PT decidiu sistematizar e institucionalizar esquemas de corrupção

- O Globo

O triste espetáculo do muro separando, na Esplanada dos Ministérios em Brasília, cidadãos contra e a favor do impeachment da presidente Dilma é reflexo da radicalização política que domina nosso dia a dia e não é de hoje. O país, que saiu dividido das urnas em 2014, está polarizado. O governo é francamente minoritário, na sociedade e no Congresso e, como mostrou a votação de ontem, não tem mais condições de governar.

Chegamos aqui justamente pela exacerbação das características fisiológicas desse modelo de coalizão partidária, que deveria ser baseado em programas de governo e acabou se tornando mero instrumento para cooptação de partidos periféricos, que proliferam graças a uma legislação frouxa, feita sob medida para contemplar a baixa política.

Os instrumentos legais disponíveis nas democracias representativas, como as cláusulas de desempenho, foram barrados por uma decisão equivocada do Supremo Tribunal Federal, que, à guisa de proteger as minorias, acabou favorecendo a fragmentação partidária e o oportunismo de grupelhos que vivem da verba oficial e de, literalmente, vender seus espaços políticos, seja no Congresso, seja no tempo de propaganda oficial no rádio e na televisão.

Chegamos a esse ponto graças à maneira de fazer política do PT, que precisa sempre ter um inimigo a destruir. Foi Lula quem incentivou a tática do “nós contra eles”, que dividiu o país e impediu que houvesse um governo de coalizão verdadeira.

As manobras petistas sempre beneficiaram a participação acrítica de partidos ditos aliados, que se contentavam com posições marginais nas decisões governistas, desde que compensados com as benesses do poder traduzidas nas transações corruptas que estão sendo desveladas nas diversas investigações em curso.

Chegamos a este ponto porque o PT decidiu sistematizar e institucionalizar esquemas de corrupção que, se certamente já existiam anteriormente, não faziam parte de um programa de governo, como se está constatando nas mesmas investigações.

Os governos petistas centralizaram os esquemas de corrupção já existentes e inventaram novas formas, sendo a mais criativa e perigosa a lavagem de dinheiro da corrupção através do Tribunal Superior Eleitoral ( TSE), mascarando doações corruptas em legais.

A distribuição da propina, através do mensalão, deu errado quando a divisão dos lucros provocou a cizânia entre os bandos envolvidos, como geralmente acontece nas brigas de quadrilhas. Na época anterior às delações premiadas, uma denúncia na grande imprensa feita pelo então deputado federal Roberto Jefferson desencadeou o desmantelamento desse esquema, mas outro, muito maior, desenvolvia- se nos subterrâneos da Petrobras e de outras estatais.

A tentativa de manter o poder permanente a qualquer custo levou- nos a esta situação atual, que, na transgressão habitual das leis em vigor, provocou uma tragédia econômica e um retrocesso nos valores intrínsecos à democracia. Resta tentar começar de novo.

Dias difíceis virão - Dora Kramer

- O Estado de S. Paulo

Impossível fugir à obviedade adjetiva para definir o tamanho da derrota do governo no plenário da Câmara: esmagadora e incontestável. Durante a votação, a proporção entre os votos a favor e contra esteve à razão de três para um em prol do impedimento. Resultado significativo o suficiente para sinalizar a decisão do Senado.

A vantagem, porém, não muda a realidade: a presidente Dilma Rousseff amanhece nesta segunda-feira totalmente desprovida de sustentação política, mas continua na legal e legítima posse do cargo. Além de seguir moradora do Palácio da Alvorada, até a manifestação do Senado ela continua dona da caneta presidencial e da cadeira no Palácio do Planalto.

Significa dizer que a vitória de ontem não dá aos vencedores ocasionais a prerrogativa de tripudiar nem de se comportarem como detentores do poder. Parece um detalhe, mas como é nos detalhes que reside o diabo, convém alertar para a necessidade urgente e imprescindível que a oposição em geral, vice-presidente Michel Temer em particular, a todo o estoque de cautela e habilidade política de que forem capazes. O mesmo utilizado por eles para chegar aonde chegaram, se contrapondo com profissionalismo ao amadorismo do PT.

O Brasil, agora como em outras ocasiões cruciais (transição democrática, mais que o caso Collor) vai precisar que a racionalidade, o espírito público e a visão estratégica sejam capazes de contornar os obstáculos que o poder formalmente constituído tentará criar à conclusão do processo.

Para isso, recorrerão a qualquer expediente estando ainda na posse do poder.
Vai que cola. Entre sábado e domingo, deputados próximos ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, consultaram partidos oposicionistas sobre a possibilidade de 200 deputados entregarem o resultado da votação de ontem ao presidente do Senado, Renan Calheiros.

A proposta foi rejeitada de imediato. Por dois motivos: para não rechear com azeitonas a empada de Cunha e para não dar aos senadores a impressão de pressão indevida.

Receita de família. O ex-ministro Nelson Jobim deu a Michel Temer um programa mínimo para, se for o caso, assumir o governo com chance de sucesso. Primeira providência, montar um Ministério irretocável. Em segundo lugar, não cair na tentação de promover perseguições aos adversários nem de proteger aliados. Ou seja, completo distanciamento das investigações em curso.

Seria necessário também que Temer assentasse a disposição de não concorrer a eleições futuras e que não procurasse influir nas decisões dos partidos aliados vista aos pleitos municipais deste ano ou ao presidencial de 2018. Em especial, que não tentasse se envolver nas rusgas do PSDB de São Paulo.

Por último, mas não menos importante que, se vier a assumir o Planalto, Temer não favoreça o PMDB na composição da equipe.

Muro abaixo. Nem se pode dizer que o PSDB esteja preso em seu labirinto. Em relação ao que fazer se houver troca de governo, o partido é o próprio labirinto.

Precisa tomar uma decisão. No entanto, cresce o sentimento de que essa não pode atender aos interesses de José Serra, Aécio Neves ou Geraldo Alckmin, francos pretendentes à candidatura presidencial.

O ex-senador Tasso Jereissati, ativo articulador dessas conversas, defende que os tucanos divulguem ainda nesta semana documento explicitando os critérios que nortearão a definição do partido. Deputados lembram que o PSDB acertou quando não participou do governo Fernando Collor, acertou de novo ao integrar a equipe de Itamar Franco e agora não pode errar.

Presidência com temperança - Eliane Cantanhêde

- O Estado de S. Paulo

Caçula de oito filhos numa família libanesa, Michel Temer jamais esqueceu o dia em que, aos 7 anos e meio, foi levado pela mão do irmão mais velho, Adib, à Igreja Matriz Tietê, em São Paulo. Enquanto Adib rezava, o pequeno se distraía com os vitrais coloridos, cada um dedicado a uma virtude. Adorou a palavra “temperança”. De volta à casa, correu ao dicionário com o irmão e descobriu que temperança significa equilíbrio, moderação.

“Sempre tive a sensação de que aquilo pautou a minha vida. Não gosto de briga, sou avesso a ideias radicais, tento sempre resolver as coisas conversando, negociando”, diz ele, diante da perspectiva de assumir a Presidência por dois anos e nove meses após o afastamento de Dilma Rousseff.

Em sua longa carreira política, que inclui a presidência do PMDB, três vezes a presidência da Câmara e a Vice-Presidência da República, o professor de Direito constitucional Michel Temer realmente construiu a imagem de um homem comedido, que fala pouco, mede palavras, jamais grita ou usa palavrões.

Como registrado neste espaço em 22 de julho de 2015, já considerando a hipótese de impeachment de Dilma: “nele (Temer), nada falta, nada transborda; nem omisso nem verborrágico; nem covarde nem valentão; nem gênio nem ignorante; nem tão anti-PT nem tão anti-PSDB; um pouco Lula, um pouco Fernando Henrique”.

Temer, portanto, tem perfil para o momento, mas isso não é tudo. Depois de um doloroso processo de impeachment, em meio a uma conjunção cruel de crises, o que mais preocupa é o entorno dele, explorado duramente ontem pelos líderes anti-impeachment. Com especial contundência do petista Afonso Florence, eles questionaram a legitimidade e as chances de êxito de um governo que terá na linha de frente o deputado Eduardo Cunha e uma profusão de suspeitos da Lava Jato (que, aliás, estavam com Dilma).

Logo, o grande trunfo de Temer é também o seu principal problema: praticamente todos os partidos aliados a Dilma descambaram na tese do impeachment, levando junto gregos, troianos e velhas práticas nada republicanas. Ele terá uma base aliada imensa - tão imensa quanto gulosa. Se usar os ministérios como Saúde, Fazenda e Justiça para saciar os aliados, não terá vida longa.

Seus articuladores juram que Temer sabe disso e acrescentam: aos 75 anos, passando por onde passou e chegando aonde chegou, ele tem que concentrar sua energia e suas armas para conclamar um pacto nacional, extrapolar o PMDB e resistir o quanto possível a concessões à sua base e a pressões populistas - e sem agredir os inegáveis ganhos sociais do início da era PT. Seu horizonte não pode ser 2018, tem de ser a história.

Formalmente, a ascensão de Temer ainda depende do acatamento do pedido de impeachment e depois do julgamento do mérito no Senado. Na prática, ninguém em Brasília acredita que, após a derrota de ontem, haja mínimas condições de Dilma voltar ao poder. Mas, se ela é “carta fora do baralho”, Temer ainda enfrenta a ameaça do TSE para se manter no jogo.

Por tudo isso, Michel Temer tem pressa. Pressa para articular um pacto nacional que reúna as forças políticas, patrões, empregados e um voto de confiança de uma sociedade que está muito desconfiada. Nada disso é fácil, mas ele terá de usar toda a “temperança” aprendida nos vitrais da Igreja do Tietê, porque não tem alternativa: é acertar ou acertar. E rápido!

A nova oposição. Se os aliados de Collor fugiram covardemente na hora “h”, a tropa anti-impeachment de Dilma foi guerreira, corajosa. A “base aliada” artificial escorreu pelo ralo, mas a base real foi fiel até o fim. Dilma sai, mas essa base fica, no PT ou não, e mantém o discurso e o papel de contraponto, pressão e cobrança, fundamental para o equilíbrio do jogo. E sem apostar todas as fichas em Lula.

Punição exemplar – Vinicius Mota

Folha de S. Paulo

Os lances decisivos para o desenvolvimento das nações são em geral silenciosos e incrementais. A trepidação do impeachment de Dilma Rousseff importa menos para o futuro que o estímulo antiautoritário projetado pelo evento sobre a gestão do dinheiro público.

Nesse horizonte, as chamadas pedaladas fiscais -apelido inadequado para fraudes deliberadas, profundas e duradouras contra o pacto democrático cristalizado no Orçamento- sobrepujam, como razão para o impeachment, quaisquer outros motivos de ordem política, econômica ou moralista, os quais decerto pesaram mais no desfecho imediato.

Explodiu o custo sobre qualquer presidente disposto a fazer o diabo a fim de se reeleger. Quebrar estatais para fazer o sucessor, usar moeda clandestina de banco público para triunfar nas urnas, onerar gerações de pagadores de impostos com gestos imediatistas de cesarismo orçamentário, tudo isso ficou mais difícil.

A História poderá associar ao impeachment de Dilma Rousseff um dos episódios importantes na fixação de regras do jogo inclusivas e estáveis na sociedade brasileira. Há muita coisa a consertar, entretanto, para que essa via se consolide.

Agora mesmo o colapso das finanças estaduais e municipais desafia o edifício da responsabilidade devida pelos governantes aos cidadãos contribuintes. A Justiça, que tem atuado com firmeza no controle do abuso de poder, contribui para instilar confusão no domínio econômico.

A maioria formada no Congresso em torno de Michel Temer vai evaporar-se, inviabilizando a Presidência do peemedebista, caso se desvie da missão antipopulista à sua frente.

A hora é de refrear o instinto politiqueiro e entregar o núcleo estratégico do governo (Fazenda, BC, Justiça, Saúde, Educação e Relações Exteriores) a pessoas que, a despeito da filiação partidária, possuam luz própria e compromisso com recolocar o Brasil no trilho da sobriedade.

Temer e a hora da verdade – Valdo Cruz

- Folha de S. Paulo

Dilma colheu o que plantou. O clima na Câmara era de vingança pelos anos de maus tratos. Era possível notar que os deputados, principalmente governistas, não queriam perder a oportunidade de dar o troco na presidente.

Temer também colhe o que semeou nos últimos meses. Desde o final do ano passado sentiu que Dilma poderia cair e atuou para isto. Agora, herdará da petista um cenário de terra arrasada no país.

Petistas apostam no seu fracasso, afinal sabem muito bem o tamanho da crise deixada por Dilma. Não por outro motivo o vice-presidente quer assumir, daqui a vinte dias, como se definitivo fosse, e não interino.

Até lá, o mercado vai celebrar sua vitória. Isto mesmo, a votação de ontem foi como se fosse uma eleição indireta entre Dilma e Temer, vencida pelo peemedebista. O dólar deve cair, a Bolsa vai subir e haverá uma expectativa de melhoras no país.

Daí que Michel Temer sabe que não pode decepcionar e precisa dizer a que veio logo no primeiro dia de governo. Vai entrar com toda equipe nova já montada e também com as principais medidas na área econômica e social preparadas.

Nos cálculos do peemedebista, ele precisa mostrar logo no início de seu governo interino que tem mais condições de governar do que Dilma.

E, com isto, sinalizar que não há nenhum espaço para um retorno da petista depois do julgamento no Senado, algo acalentado por seus aliados diante da fragilidade dos argumentos jurídicos do impeachment.

A ideia é mostrar que Dilma é página virada na política brasileira, usar o capital político da vitória deste domingo para mostrar ao Congresso, mercado, empresariado e até trabalhadores que a vida vai, sim, melhorar sem a presidente petista.

O PT prometem tentar atrapalhar os planos de Temer e infernizar sua vida. Só que o país pode estar cansado de tudo e, se sentir que a vida vai melhorar, isolar os petistas e dizer: segue a vida sem Dilma.

Mandamentos presidenciais - José Roberto de Toledo

- O Estado de S. Paulo

Presidentes vêm e vão, uns antes que outros. Só uma coisa não muda, nunca: o sistema político brasileiro. Com seus muitos vícios e poucas virtudes, não perdoa os infiéis à sua cartilha. A seguir, mandamentos para um presidente terminar o mandato.

1 - Não amarás um vice com apetite
Ao examinar candidato a ser segundo, descobre o quanto ele quer ser primeiro. Quem dá sinais de nunca se satisfazer com o que tem deve ser riscado da lista de possíveis vice. Por exemplo: se o nome em prospecção se casou e descasou várias vezes, atenção. Se troca sempre o cônjuge antigo por um mais jovem, alerta. Se a última esposa do candidato é nova o suficiente para chamar os filhos dele de tio ou tia, foge. Não serve nem como decoração.

Vasculha tu a aparência e avalia o pavoneamento do candidato a vice. Prefere os calvos, mas só quem não fez implante. Se usar topete, melhor evitar. Se pintar o bigode, esquece. Como regra, quanto mais velho, melhor. Em público, exalta-lhe a experiência. Em privado, conta com sua falta de memória. Não exageres, porém. Tem que ser saudável. Não queres acabar com um presidente da Câmara tipo Eduardo Cunha como segundo na tua linha sucessória.

2 - Não te deitarás com partido maior que o teu
Na hora de fazer a aliança eleitoral, o partido de teu candidato a vice não pode ter mais deputados ou senadores do que tua própria legenda. Desrespeitar esse mandamento é encomendar crise. Caso a tua popularidade caia, os correligionários do vice começarão a assoprar-lhe tentações no ouvido até emprenhá-lo de conspiração. Ao menor sinal de fraqueza tua, dirão que podem obter apoio suficiente no Congresso para derrubar-te.

Dá preferência a um partido médio, desses bem fisiológicos. Não é difícil de achar. Tem que ter mais que 30 deputados, para contar um bom tempo de propaganda na TV, mas uns 15 a menos que o teu, para não correres o risco de ele inchar e ultrapassar-te a bancada. Não deves concentrar o fisiologismo em um aliado só. Dosa-o. Dividir para governar, já dizia o mestre florentino.

3 - Não cobiçarás menos do que 172 deputados
Em troca de tua generosidade no Diário Oficial, amarra uma aliança bem amarrada na Câmara. Forma um bloco para garantir a maior bancada e eleger o presidente da Casa. Se for necessário, alia-te a mais de um partido. Mas lembra-te de não fazê-lo com partidos maiores que o teu, ou te tomarão o comando do bloco. Precisas de pelo menos 172 deputados fiéis - por bem ou não - para não deixar outros 342 caírem em tentação. Livra-te do mal.

Podes ceder a presidência da Câmara a outra legenda aliada, mas escolhe bem o nome. Que seja alguém de quem saibas tudo, especialmente o que ele não gostaria que soubesses. Nunca te esqueças de que ele é mais do que o vice do teu vice. Tem poder discricionário para bloquear o que queres e fomentar o que não queres. Pode materializar um processo de impeachment do nada.

4 - Honrarás teu ministro da Fazenda
Ministros são fusíveis. Existem para serem queimados e trocados. Podes e deves mandar neles, mas, publicamente, tens que aparentar escutá-los e respeitá-los. Assim, em caso de zica, podes dizer que quebraram tua confiança e nomear outro. Na Fazenda, sê esperto e põe alguém mais inteligente que tu. Essa não é a parte difícil. Duro é encontrar um mais inteligente mas menos esperto. Tu não queres ser ele, nem que ele seja tu. Todo ministro da Fazenda é um candidato potencial a tua sucessão.

5 - Não roubarás
Se roubar, compartilha. Se não compartilhar, esconde. Se esconder numa offshore, não uses a Mossack Fonseca. Se usar e for pego, nega. Se ninguém acreditar, grita "Pega ladrão!". Quando, por reflexo, todos correrem, misture-te e disfarça.

PS: Os mandamentos acima não se aplicam a peemedebistas na Presidência. Eles escreveram a cartilha. Em latim.

Radicalização - Denis Lerrer Rosenfield*

- O Estado de S. Paulo

O Palácio do Planalto virou um palco de horror. Num governo em que nada mais deveria surpreender, há ainda surpresas para o espectador sensato.

A presidente Dilma foi abandonada pela sociedade. Após se eleger com um discurso completamente ficcional, sem nenhuma relação com a realidade, foi obrigada a desdizer-se, uma vez que o descalabro econômico e social se mostrou em sua nudez.

Prometeu uma coisa e fez outra, como se os cidadãos fossem um bando de idiotas, incapazes de discriminar a situação.

O discurso do marketing eleitoral foi substituído por discursos primando pelo caráter desconexo, em que o sujeito e o predicado se entrelaçam de forma aleatória e arbitrária. Se são desconexos, isso se deve à própria desconexão entre o apresentado e o real pelo petismo criado.

A presidente Dilma foi abandonada pelos partidos políticos. Sobraram-lhe só o PT e o PCdoB, além de uns poucos desgarrados em busca de cargos vagos. O mais surpreendente, mesmo para os elásticos padrões da política brasileira, é o fato de os partidos não quererem preencher esses cargos, seja por já darem como favas contadas que o barco naufragou, seja por não acreditarem no que o governo e o PT prometem. Quem já prometeu e não cumpriu não merece nenhum crédito.

O Palácio do Jaburu tornou-se o centro de romarias em Brasília, deputados e políticos afluindo de todos os lados. Continuando assim, não me surpreenderia se até o PT para lá se dirigisse! O diferencial consiste em que o vice-presidente acolhe gentilmente, amigavelmente, os parlamentares, dedicando-lhes tempo e apreço.

Muito provavelmente, a grande maioria desses deputados jamais visitou a presidente no Palácio da Alvorada, nem foi por ela acolhida. A humilhação foi a regra para muitos. Agora, vivem a diferença. A presidente Dilma colhe o fruto de sua arrogância e o PT paga o preço de suas tendências hegemônicas e autoritárias.

Nem o recurso ao ex-presidente Lula produz resultados. Ele ficou na paradoxal situação de articulador político sem poder assumir a Casa Civil. “Ministro” fingindo exercer uma função ministerial. Um vexame!

Muito provavelmente deverá prestar contas à Justiça em futuro imediato. Neste caso, nem ele sobreviverá ao fracasso do governo petista. Seu problema maior, hoje, é a própria sobrevivência. A política surge mesclada a questões criminais.

O que sobrou? O gueto do esquerdismo!

Na ausência de qualquer narrativa crível, a presidente Dilma, Lula e o PT optaram pela radicalização. O Palácio do Planalto, vazio de interlocutores confiáveis e reconhecidos, foi preenchido por grupos de militantes que mais parecem uma horda de bandoleiros.

Um lugar onde se devem respeitar as leis e as instituições é literalmente tomado de assalto por pessoas que prometem violar essas mesmas leis e instituições. A presidente, aliás, fez um juramento de respeito e obediência à Constituição!
Qual é, no entanto, a realidade? Ela aplaudiu os discursos

“revolucionários/criminosos”, além de abraçar seus proponentes. Deveriam ter sido expulsos do palácio, mas foram carinhosamente acolhidos. Foi literalmente um abraço de afogados. O pouco apoio que ela ainda usufruía nos meios empresariais foi pelos ares.

Não surpreende, por exemplo, que o Secovi-SP, a Fiesp e a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) tenham aderido corajosamente ao impeachment. O setor agropecuário, em particular, mais que qualquer outro, foi o que sempre viveu na carne, muitas vezes sozinho, a violência e o desrespeito ao direito de propriedade e à Constituição em geral levados a cabo por esses ditos “movimentos sociais”.

Conhecem muito bem as consequências práticas desse discurso!

Tal posição esquerdista expressa nada mais do que o bolivarianismo dessa ala do PT e de seus afilhados, financiados, aliás, com dinheiro público, dos contribuintes, como se estes devessem pagar pela violação da Constituição. Até a Unasul, confederação de Estados bolivarianos, que estão levando seus povos à ruína, chegou ao desplante de fazer uma condenação do impeachment da presidente Dilma. Os comparsas continuam irmanados.

O ápice dessa triste encenação consiste no discurso do “golpe”, forma de vitimização, voltada para estabelecer as bases eleitorais do PT na oposição. Trata-se de um discurso de adeus, de reconhecimento envergonhado da derrota iminente.

Todavia os últimos dias foram ainda pródigos em outra insensatez, a de um projeto – provavelmente abortado – de decretação do estado de defesa. Digo provavelmente porque em momentos de crise nunca se sabe o que pode resultar de uma medida desesperada.

Uma vez decretado o estado de defesa, após ouvidos o Conselho da República e o de Defesa Nacional (que não foram até hoje constituídos), a presidente seria dotada de poderes extraordinários, próprios de situação de guerra ou de enorme catástrofe natural. Prisões, violação de correspondência, cerceamento da liberdade de ir e vir, de manifestação ou de imprensa poderiam ser feitos por mera determinação presidencial.

O estado de defesa só poderia ser, portanto, decretado em situação extrema de perturbação da ordem pública. Acontece, porém, que o processo de impeachment vem sendo conduzido na mais perfeita ordem democrática, seguindo a Constituição e as recentes decisões do Supremo Tribunal Federal concernentes ao seu ritmo.

Logo, o governo petista estaria, na verdade, procurando perturbar a ordem pública, dizendo defendê-la. Uma ordem desse tipo muito provavelmente não seria obedecida pelas autoridades militares, dada a sua flagrante inconstitucionalidade.

O discurso dos esquerdistas/desesperados seria, no entanto, o de que a desobediência militar seria um “golpe”! Os autores do golpe o atribuiriam a outros.

A narrativa petista, então, seria salva e o País rumaria para o caos.

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*Denis Lerrer Rosenfield é professor de filosofia na UFRGS

O dia seguinte: interrogações, esperanças e angústias - Marcus Pestana

- O Tempo (MG)

Escrevo no escuro. Estas linhas nascem antes que eu saiba o placar final da votação do impeachment. Na Comissão Processante foram 38 votos contra 27 a favor do impedimento da presidente Dilma. Pelo andar da carruagem durante a semana e pelos levantamentos de bastidores, arrisco o palpite de que teremos mais de 360 votos a favor da abertura do processo. Mas em política tudo é possível. Como alertou a velha raposa, a política é como as nuvens; as formas variam em espaços curtos de tempo ao sabor dos ventos conjunturais. Mas acho improvável que o resultado de ontem tenha confirmado a permanência de Dilma Rousseff.

O processo de impeachment não é indolor, corriqueiro ou desejável. Mas Dilma e o PT estão sendo afastados pelo conjunto de uma obra desastrosa. E é preciso rebater de pronto a narrativa que vem sendo construída pelo PT e por aliados em busca de uma vitimização sem sentido, da caracterização de um suposto golpe ilegal e da defesa da democracia falsamente ameaçada. A legalidade e a constitucionalidade do processo de impeachment já foram atestadas por ministros do STF, pela OAB e por juristas renomados.

Em primeiro lugar, crimes houve em abundância. O impeachment é um instrumento constitucional de controle social sobre o poder da Presidência da República. Nenhuma maioria conquistada nas urnas autoriza o mandatário a transgredir leis fiscais, obstruir a Justiça, acobertar a corrupção e varrer para baixo do tapete o maior escândalo de nossa história. Some-se a isso a maior recessão desde 1930, determinando o crescimento do desemprego e o pífio desempenho da economia. A popularidade no chão reflete a decepção da população com o verdadeiro estelionato eleitoral praticado. Tudo que foi dito na campanha foi desmentido pelos atos do governo. Com o avanço da Lava Jato se evidenciam, dia após dia, crimes eleitorais cometidos num verdadeiro festival de abuso do poder e de financiamento ilegal.

Se Dilma venceu ontem, o que não acredito, foi uma vitória de Pirro, e isso será uma tragédia. A presidente não terá condições de liderar o país. A crise vai se agravar, começando por uma total falta de apoio no Congresso Nacional.

Se o impeachment passar, o Senado certamente afastará a presidente em cerca de dez dias e instalará o julgamento. Michel Temer terá que ter serenidade, sabedoria e ousadia para fazer um governo notável em sua composição e corajoso em suas atitudes. Não será fácil corrigir os rumos da economia, ganhar legitimidade pelo desempenho e conciliar a grande e a pequena política.

O PSDB não é o beneficiário do impeachment. Não era o caminho que gostaríamos de trilhar. Mas se tornou uma necessidade histórica. Não queremos cargos, queremos uma agenda de desenvolvimento para o país e um programa emergencial para superação da crise.

E que consigamos vencer este grave momento marcado pela intolerância, pelo sectarismo e pela corrupção, e recuperar a esperança roubada de nosso povo.
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Marcus Pestana é deputado federal (PSDB-MG)

Depois do tudo ou nada do impeachment - Marcos Nobre

• O principal trunfo de Temer é o calendário

- Valor Econômico

Um processo de impeachment em que tudo o que realmente conta é o que não está na peça de acusação é coisa de democracia bananeira. Só que a qualidade bananinha da democracia ficou para depois. Todo o debate vai se concentrar a partir de agora nas chances efetivas de um governo Temer se firmar.

São muitos e consideráveis os fatores que jogam a favor do quase-presidente. São fatores tanto mais consideráveis porque não dependem diretamente da habilidade política de Michel Temer, que, durante todo o processo de impeachment, mostrou-se bastante limitada. A admissão da acusação só foi alcançada por obra e graça de Eduardo Cunha, seu verdadeiro artífice e operador. Não é por outra razão que a vitória do impeachment se tornou também um cabo de guerra entre as cúpulas partidárias e as bancadas na Câmara.

O principal trunfo de Temer é o calendário. Ao assumir a presidência, no início de maio, o processo de impeachment ainda estará correndo no Senado. Ninguém acredita que o resultado no Senado será diferente daquele que saiu da Câmara. Mas Temer também não deixará de lembrar que ocupa a presidência como interino, que ainda não é, de fato, o presidente. Com isso, terá pelo menos três meses de trégua. E três meses é tudo de que Temer precisa para chegar às Olimpíadas e, na sequência, às eleições municipais. Daí até o final do ano, é um pulo. Chegar a fevereiro é outro pulo relativamente fácil de dar no calendário da política oficial.

Outros fatores importantes completam o quadro favorável do calendário. Joga a favor de Temer, paradoxalmente, a baixa expectativa. Ninguém espera muita coisa de seu governo. Isso faz com que o período inicial de trégua possa ser usado para dar vazão a inevitáveis disputas internas e ajustes de contas.

O fato de o movimento contra o impeachment ter encontrado apoio significativo na sociedade também indica que duros embates no campo aberto das ruas estão no horizonte. Ao mesmo tempo, o caráter de tudo ou nada que teve o processo de afastamento de Dilma Rousseff permite esperar, pelo menos de início, um cansaço considerável do ponto de vista da mobilização social. A brutalidade da recessão mina o apoio a qualquer governo, mas, ao mesmo tempo, contribui para a diminuição do número de greves e de mobilizações organizadas.

A expectativa de estancar a recessão a partir do final do ano também joga a favor de um governo Temer. Só que, como costuma acontecer em crises agudas, o momento em que alguma saída parece à vista é também aquele sentido como o pior. É sabido também que uma efetiva retomada do crescimento depende de muito mais do que esperar que a inércia da desgraça econômica mostre o fundo do poço. E se há alguma lição a tirar da montanha-russa do último ano é que não haverá estabilização econômica sem que antes se produza uma reacomodação do sistema político.

As chances de um governo Temer estão primeiramente nessa reacomodação. O primeiro deles é como vai lidar com a Lava-Jato. Será a hora da verdade para o núcleo de Curitiba, o momento de saber se a equipe da Lava-Jato entrará ou não em uma queda de braço com o novo governo em torno de prováveis ações para manietar a Operação. Será o momento de mostrar se é de fato uma operação de amplo espectro contra a corrupção ou apenas contra o PT. Porque a ofensiva contra Lula vai certamente continuar. A questão é saber se Temer e seu ministério também se tornarão alvos. Não alvos diretos, já que o núcleo de Curitiba não tem poder jurisdicional para denunciar políticos com privilégio de foro. Mas alvos indiretos, na medida em que está ao seu alcance exercer a competência já demonstrada no vazamento de informações capazes de inflamar a opinião pública contra qualquer arranjo estável do sistema político.

A estabilização de um governo Temer depende ainda fundamentalmente de uma acomodação do PMDB. As fraturas do processo de impeachment foram muitas e muito profundas. Para funcionar como a empresa de venda de apoio parlamentar que é, o PMDB sempre se resguardou da unanimidade e da exigência de unidade na ação. Sempre se dividiu estruturalmente, de maneira que nenhum grupo pudesse alcançar sozinho efetivo domínio sobre o partido. Exceção à regra, o impeachment foi alcançado mediante um rolo compressor a que o partido não está acostumado.

Se Temer insistir nessa mesma linha de atuação, se buscar se impor ao partido, o PMDB vai rachar de maneira inapelável. De outro lado, se não impuser a unidade, é difícil ver como conseguirá governar. O sinal mais evidente de qual caminho será trilhado está na relação com o adversário direto de Temer, Renan Calheiros. O período do andamento do processo no Senado é também o tempo de que dispõe Temer para entrar em acordo com Renan, representante do PMDB tradicional. Se tentar colocar Eunício Oliveira no lugar de Renan como âncora no Senado, que é o que parece estar tentando, a chance de se dar mal é alta.

Temer foi presidente da Câmara dos Deputados por três vezes, preside o PMDB há quinze anos. Seu governo terá uma boa folga, terá quase um ano para dizer a que veio. Mas tudo isso não substitui as habilidades requeridas para exercer a presidência da república. Os lances de Temer nessa esfera foram até agora muito mal jogados. É preciso prestar muita atenção para distinguir quem vai efetivamente tomar as rédeas do governo. Dificilmente será um partido ou um grupo dentro de um partido. O PSDB se esfacelou e o PMDB consegue dirigir ministérios que furam poço, mas não tem organicidade para dar rumo a um governo.

No final de 1992, quando, após o afastamento de Collor, Itamar Franco assumiu a presidência, foram necessários seis meses até que FHC tomasse as rédeas do governo. A preparação do Plano Real tomou quase um ano inteiro. A situação atual é muito diferente. Mas a disputa em torno da figura que vai efetivamente liderar um governo Temer não poderá exceder os mesmos seis meses do caso do governo Itamar. Se pretender dirigir seu próprio governo, as chances de que Temer se mantenha no cargo diminuirão consideravelmente.
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Marcos Nobre; é professor de filosofia política da Unicamp e pesquisador do Cebrap.

Quando o PT perdeu o caminho de casa? - Elio Gaspari

- O Globo

Talvez em 1997, quando Lula chamou de “asneiras” as denúncias de que havia roubalheiras em contratos de firmas de consultoria com prefeituras petistas. Desde então, Lula e o comissariado fizeram uma opção preferencial pelo acobertamento e pela cumplicidade em todos os episódios em que a moralidade foi ofendida. Foi assim com as propinas que provocaram a morte do prefeito Celso Daniel. Assim foi no “mensalão” e assim o PT comporta-se diante da Lava- Jato.

Há um mantra em circulação: a honorabilidade pessoal de Dilma Rousseff está acima de qualquer suspeita. É verdade, mas pode- se aplicar o mesmo raciocínio ao general Emílio Médici ( 19691974). Ele foi um homem pessoalmente honrado. A ruína de sua biografia veio do campo da moral política. Médici nunca encostou a mão em ninguém, mas durante seu governo milhares de brasileiros foram torturados, e mais de uma centena foram assassinados.

Para felicidade do Brasil, os crimes dos governantes mudaram de eixo e, durante o consulado petista, o demônio foi para o meio do redemoinho da corrupção e das suas alianças com larápios que hoje votaram pela deposição da presidente. Dilma era ministra de Minas e Energia quando um empresário narrou-lhe malfeitorias praticadas pela Petrobras. Ela respondeu: “Não posso me preocupar com pequenas ilegalidades”. Com o tempo, deixou de se preocupar com as grandes. Ela, Lula e o PT ficaram neutros contra a Operação Lava- Jato. Esse foi um dos principais fatores de erosão da credibilidade dos companheiros. ( O apoio de Temer à faxina do juiz Moro é coisa a ser conferida. Por enquanto, ele continua a ser um velho aliado de Eduardo Cunha).

O resultado de ontem é uma derrota de Dilma, do PT e daquilo que se chama de esquerda. Como sair dessa? Nos anos 1970 do século passado, como Dilma, o uruguio José ( Pepe) Mujica estava na cadeia. Em 2010 Pepe elegeuse presidente. Continuou vivendo na modesta chácara das cercanias de Montevidéo, dirigindo seu velho fusca e brincando com Manuela, sua cachorra de três patas. Basta olhar para seu exemplo.

As chances perdidas da presidente - Jorge Bastos Moreno

• E se Dilma, lá no início do primeiro mandato, prosseguisse na faxina? E se o PT tivesse rompido com ela, antes de o PMDB fazê- lo?

- O Globo

Quando começaram a falar que a ministra Dilma Roussef poderia ser a escolhida do então presidente Lula para suceder-lhe, a procurei para uma primeira conversa, sabendo já da reação negativa dos principais líderes do PT a essa especulação.

Cheio de dedos, para não parecer indelicado, acabei sendo direto:

— Como a senhora pode ser candidata do presidente, se o PT não gosta da senhora?
A resposta, pela franqueza e objetividade, selou uma relação de confiança, que quebro somente agora para tentar explicar o que levou a hoje presidente Dilma à situação em que se encontra.

— E você acha isso ruim? — devolveu-me ela a pergunta.

Saí da conversa convencido de que Lula, já então supostamente vítima das trapalhadas dos seus companheiros petistas, a escolhera justamente porque Dilma não tinha intimidade com o PT e, sendo assim, não deixaria o partido tomar conta do governo dela e fazer o que fizeram com ele.

Dias depois de lançada, Tarso Genro, que nunca disputara uma eleição no Rio Grande do Sul tendo a Dilma do seu lado, deu uma entrevista ao jornal “Zero Hora”, criticando a candidatura da companheira. Dilma queixou- se a Lula, na frente do também ministro Edison Lobão.

— Lula, eu vou cobrar do Tarso — disse a vítima, enfurecida.

— Calma, querida. Não quero que você se exponha com o PT. Deixa que eu resolvo isso.

E resolveu. Deu uma bronca no Tarso, que ele próprio confidenciou a mim:

— Nunca o Lula me tratou dessa maneira. Foi uma baita de uma bronca.

A lição aplicada a Tarso foi didática. A partir daí, mexeu com a Dilma, mexeu com Lula.

E nunca mais ela foi molestada nem teve a sua candidatura contestada por ninguém.

Pulemos o escândalo Erenice e vamos reencontrar agora com a nossa personagem já eleita e empossada, tendo Antonio Palocci como seu braço- direito na chefia da Casa Civil, mandando até mais que ela, ao ponto de dar uma bronca no vice- presidente e ser imediatamente enquadrado por Michel Temer.

Palocci estava tendo a sua segunda chance de se cacifar à Presidência da República. Já tinha perdido a primeira oportunidade no governo Lula, e o destino estava lhe dando mais uma chance. Não resistiu seis meses no cargo e foi devorado pela denúncia de ter multiplicado seu patrimônio.

A partir da queda de Palocci, a cada mês caía um ministro. Foram sete por denúncias de corrupção e um apenas por insubordinação, Nelson Jobim, da Defesa. Como todos esses ministros foram imposições de Lula, livrando-se deles com a ajuda do destino, Dilma via crescer a sua popularidade, assumindo o doce incômodo de ser chamada de faxineira — estava varrendo a corrupção do seu governo. Tal título começou a incomodar o próprio Lula e, principalmente, o PT.

Foi aí que Dilma começou a perder a chance de fazer um governo independente. Vamos dar um salto maior na nossa história e cheguemos bem perto dos dias de hoje. Antes de o PMDB romper com o governo, quem ameaçava fazê-lo era o PT, por causa da política econômica do governo.

Ulysses Guimarães, figura recorrente nos últimos dias da longa sessão do impeachment, já dizia que “com o ‘ se’ você bota Paris numa garrafa”. Mas termino a minha história com um festival de “se”: e “se” Dilma, lá no início do primeiro mandato, prosseguisse na faxina?; e “se” o PT tivesse rompido com ela, antes de o PMDB fazê-lo?

Talvez ela não tivesse chegado aonde chegou.

A ameaça petista – Editorial / O Estado de S. Paulo

O Partido dos Trabalhadores (PT) nasceu no início dos anos 80 pretendendo ser o abrigo do pensamento dito progressista, o santuário da ética na política, o modelo de participação democrática de todos os setores da sociedade na política e na administração pública. Era essa a sua promessa, traduzida pela liderança carismática do ex-metalúrgico e líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. Três décadas depois, o partido portador da grande nova revela por inteiro sua verdadeira natureza – autoritária e venal –, tornando-se um dos maiores obstáculos para o pleno funcionamento da democracia, justamente no momento em que as instituições nacionais passam por um grande teste de resistência em meio ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A ameaça petista de incendiar o País – e de transformar o Palácio da Alvorada em uma cidadela para defender Dilma de um “golpe”, que nada mais é do que a decisão soberana de um Congresso legitimamente eleito – é expressão clara do espírito golpista de seus líderes.

Nenhum observador mais atento da vida nacional pode se dizer surpreso. O PT sempre demonstrou muita dificuldade em aceitar as regras do jogo democrático quando esteve na oposição. Recusou-se a dialogar com todos os governos, sabotou todos os esforços para estabilizar a economia e dificultou ao máximo a aprovação das necessárias reformas constitucionais para modernizar o Estado, tudo com o objetivo de criar uma atmosfera de confronto – sob a qual, calculou, teria mais chances eleitorais. É na confusão moral que costuma vicejar o tipo de política praticado pelo PT.

Uma vez no governo, o partido da ética, herói da democracia, não se constrangeu em incentivar a promiscuidade e a corrupção para facilitar seu trabalho de controlar o Congresso. Afinal, o PT nunca demonstrou legítima disposição para dividir o poder e fazer concessões em relação a propostas de governo, algo que está na base de qualquer democracia saudável, pela simples razão de que jamais pretendeu fazer concessões. Certo de ser o portador da verdade histórica, que, por definição, inviabiliza qualquer negociação, o PT tratou a democracia como um obstáculo, a ser superado na base do simples toma lá dá cá, encabrestando as instituições. O partido de Lula, José Dirceu et caterva jamais teve aliados; sempre teve cúmplices.

Praticamente devolvido agora à condição de opositor, o PT demonstra mais uma vez que não aprendeu nada – ao contrário, trata de reafirmar de forma clara a sua natureza autoritária. Justamente no momento em que o País clama por serenidade, para que a transição que se completará nas próximas semanas se dê da maneira mais civilizada possível, eis que os petistas ameaçam o País com a violência que resume sua índole.

Infelizmente, podemos esperar muita intranquilidade nos próximos tempos, estimulada pela tigrada. Há ameaças de greves e manifestações diárias, cujo potencial disruptivo não é desprezível. Vários dos irresponsáveis chefes de grupelhos disfarçados de “movimentos sociais”, que ganharam poder sob o lulopetismo, já expressaram sua disposição de fazer “guerra” – essa é a palavra que usaram, e não se deve ter esperança de que se trate de mera força de expressão, pois essa turma já provou muitas vezes do que é capaz.

Além disso, a expectativa é de que haja muitos problemas no Congresso, que já conhece bem o modo petista de fazer oposição. Votações cruciais para arrancar o País da grave crise em que os desastrosos governos petistas o meteram deverão ser a oportunidade que o PT espera para tentar desforrar a derrota no impeachment. Para o lulopetismo, quanto pior, melhor.

Assim, ficará claro de uma vez por todas que o PT jamais quis ajudar a construir um país moderno, decente e forte. Sua única preocupação sempre foi a de polir a biografia de Lula, construindo para seu líder messiânico a imagem de inatacável protetor dos pobres e preparando o terreno para sua perpetuação no poder, à moda dos caudilhos que marcaram tristemente a história latino-americana.

Já virtualmente fora do poder e diante da perspectiva real de ver seu grande timoneiro atrás das grades, os petistas escolheram ser oposição destrutiva – o que só vai confirmar que o PT é e será o que sempre foi: um parasita incrustado no País para exaurir suas forças com práticas facinorosas.

O país tem pressa – Editorial / Folha de S. Paulo

Por expressiva maioria -superando com alguma folga o mínimo necessário de 342-, a Câmara dos Deputados manifestou-se neste domingo (17) em favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

Num clima de exaltação, mas também de respeito à diversidade, os deputados federais deram sua opinião, ornamentando-a, conforme o caso, de razões sucintas ou de considerações extravagantes.

Poucos trataram das acusações que se dirigem à presidente; contam-se nos dedos aqueles que evocaram as chamadas pedaladas fiscais ou os decretos orçamentários. Prevaleceram apelos à própria família e um quase sempre cínico discurso de combate à corrupção, como se disso o processo cuidasse.

Seja como for, nem pela via jurídica, nem pelas ruas cabe contestar o resultado, legítimo do ponto de vista constitucional e político. Reflete a vontade da maioria da população, e deriva de uma ação conduzida conforme regras sancionadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Abre-se agora um período de transição. Enquanto a análise do impeachment segue para o Senado, o país terá a sua frente um governo paralisado -ou consumido pelas patéticas barganhas a que, nestes dias, entregou-se em vão.

É do interesse de toda a sociedade que esse período transcorra com a máxima presteza, respeitando-se sempre, por óbvio, o devido processo legal. Não há sentido em prolongar artificialmente a permanência de quem já não tem a menor condição de governar.

Não foi convicção desta Folha que o impeachment de Dilma Rousseff representasse a solução mais confiável e consensual para o impasse em o país se encontra.

Este se resolveria pela renúncia simultânea de Dilma e de seu vice, com a imediata convocação de novas eleições presidenciais. A eventual cassação da chapa de ambos, pelo Tribunal Superior Eleitoral, também permitiria esse desenlace.

Deve-se rechaçar, por outro lado, a artimanha governista de recorrer a eleições gerais antecipadas (não previstas pela Constituição), agora que a Câmara dos Deputados autorizou que o Senado julgue o afastamento de Dilma.

É preciso prosseguir. A crise nem de longe se encerrou.

Coloca-se com urgência, aliás, a necessidade de que um dos mais notórios articuladores e beneficiários da batalha do impeachment, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), seja levado à barra da Justiça.

A Operação Lava Jato continuará -é o que se espera- a investigar e punir muitas outras figuras do cenário político; reformas eleitorais e econômicas terão de ser empreendidas em caráter emergencial.

A partir de hoje, a questão mais imediata e urgente se desenvolve, entretanto, no Senado. Que, no mesmo clima de debate pacífico até agora registrado, tome-se sem perda de tempo uma decisão.

Nova onda de instabilidade deve marcar saída de Dilma – Editorial / Valor Econômico

A aceitação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff pela Câmara dos Deputados deve por fim à era de governos petistas e abrir um período de grande instabilidade política. Michel Temer assumirá a Presidência com um baixo cacife, alta impopularidade e a ameaça de destituição pelo Tribunal Superior Eleitoral. A ingovernável base governista bandeou-se quase inteira para o lado do PMDB, que terá agora de contentar um caminhão de interesses fisiológicos - os próprios e os dos aliados. Câmara dos Deputados e Senado poderão em breve ter novos comandos: Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Renan Calheiros (PMDB-AL) logo terão de acertar suas pesadas contas com a Justiça.

Sem o desastre econômico que provocou, a presidente Dilma não teria chance de ser afastada do poder. Depois de arruinar a economia, tornou-se incapaz de governar e de obter qualquer coisa relevante no Congresso, por suas ideias e seu estilo. A impopularidade de Dilma nutriu a rebeldia dos partidos aliados, incomodados com a maior recessão em quase um século - um feito notável da presidente.

Dilma distanciou-se do modelo bem-sucedido do primeiro mandato de Lula para adotar o ultrapassado figurino econômico dos anos 70, o do Estado intervencionista, criador dos negócios. Sem ter como custear bilhões de reais em subsídios e desonerações, fez uma gestão temerária das finanças públicas. A nova matriz econômica, que de fato era velha, destruiu a economia: provocou um rombo nas contas públicas, fez a inflação disparar, afundou a indústria e corroeu os ganhos sociais obtidos com mérito e esforço no passado.

As "pedaladas fiscais" tornaram-se o símbolo de tudo o que deu errado e o pretexto para o pedido de impeachment. O pano de fundo foi o escândalo da Petrobras, um dos maiores da história, no qual o PT teve destaque em meio à a maior rede de corrupção até hoje desvendada pela Justiça. Vários partidos se aliaram às maiores empreiteiras do país para receber propinas a partir de obras públicas superfaturadas.

Dilma mostrou-se incapaz de recuperar a economia. Nunca reconheceu ter cometido os erros decorrentes da "nova matriz". A guinada em direção à austeridade, com Joaquim Levy, deu-lhe algum lento, mas teve vida breve porque nunca foi autêntica. Pior: Dilma inclinou-se para reeditar os truques que não deram certo, com risco de agravar a crise.

A gestão política de Dilma foi outra calamidade. Operou em 2014 para afastar simultaneamente o PMDB e a turma de Lula do governo, colhendo Eduardo Cunha no comando da Câmara, um passo retrospectivamente fatal. Os aprendizes de feiticeiro do núcleo palaciano ajudaram a cavar o fosso entre o Planalto e o Congresso. O temperamento de Dilma, avesso à negociação política e mais inclinado a dar ordens do que a ouvir conselhos e pontos de vista contrários, foi ingrediente vital da receita que levou seu governo a um beco sem saída.

Michel Temer, do qual não se ouviu argumentos discordantes até o início do segundo mandato, só desperta alguma esperança porque a continuidade do governo Dilma não traz nenhuma. O principal problema do país é fiscal e governos pemedebistas são gastadores. Federação de interesses, o partido nunca teve o menor apreço pelo equilíbrio fiscal. Agora atrairá parceiros com atitudes semelhantes.

Uma das mais cruéis ironias da história é que os deputados que votaram as irresponsáveis pautas bombas, inclusive o PSDB, deram passo decisivo para derrubar Dilma por ela não ter respeitado regras de responsabilidade fiscal. A outra é que "delinquentes" como Cunha, na linguagem do Procurador da República, encabeçaram seu afastamento do poder.

Temer terá de coordenar interesses menores, dispersos por partidos anódinos, para tentar tirar o país de grave crise política e econômica. Contemporizar, como fez a vida inteira, pode ser uma virtude, mas é pouco diante do que a situação requer. Ele terá de dar um choque de expectativas, com medidas que comecem a preparar a economia para dias melhores. Não tem muito tempo e as circunstâncias exigem que não tenha ambições políticas maiores.

De substantivo, nada se sabe sobre o que pensa ou o que quer de fato realizar. Não parte de uma posição de força e terá de ganhar apoio político ao longo de um caminho acidentado, com aliados que já traíram um governo.

O futuro é mesmo imprevisível.

Um passo para o impeachment – Editorial / O Globo

• Trata- se da aprovação da admissibilidade do pedido de impedimento, ainda a ser julgado pelo Senado. Mas tudo precisa ser rápido, devido à situação do país

• Há etapas até a conclusão do processo, mas Michel Temer não pode esperar para fazer definições essenciais, a fim de combater as percepções negativas sobre o país

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma abre uma possibilidade concreta de que a crise econômica e o nó político possam ser equacionados antes de 2018, a partir da saída do PT do Planalto, onde se encontra há 13 anos, o mais longo período na República de um grupo político no poder, por meio de eleição direta. Mas patrocinador de uma catástrofe ética e uma hecatombe econômica.

É previsão infalível garantir que hoje Bolsa sobe e dólar cai, sinais característicos do bom humor dos mercados. Como tem sido nos últimos meses na repercussão de toda notícia negativa para o governo Dilma e, mais recentemente, sobre o ex-presidente Lula, convertido em chefe das forças de defesa da cidadela do Planalto sob o controle do PT.

São características dos mercados oscilações nervosas, que buscam se antecipar a fatos. Eles operam no vácuo das expectativas. Como é neste caso do processo de impeachment.

Mas a derrota de ontem da presidente, revés grave para o projeto de poder do partido, não é definitiva. Para o vice-presidente Michel Temer assumir, à frente do seu PMDB, com uma diversificada aliança entre partidos de histórica oposição ao PT (PSDB, DEM, PPS) e legendas recém-desembarcadas de um navio que faz água (PSD, PR, PP etc.), ainda há pela frente o julgamento propriamente dito, conduzido no Senado pelo ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Mas o Brasil tem pressa, esta é a questão. Dois dados: o desemprego aumenta à razão de 100 mil pessoas por mês e já se aproxima o saldo tenebroso de 10 milhões de brasileiros sem trabalho. O lado de vida real da crise é dramático: debacle social, pobreza, queda de padrão de vida, aumento da violência, e assim por diante, sempre ladeira abaixo. Portanto, picuinhas entre caciques peemedebistas, Renan Calheiros e Temer, e jogo de cena para buscar favores do Planalto precisam ser deixados de lado a fim de que se ponha para andar, com rapidez, o julgamento da presidente no Senado.

Aceito o processo pelo Senado, Dilma será afastada por até 180 dias, durante os quais governará Temer. Mas, se esgotado o prazo e o julgamento não tiver sido concluído, Dilma volta. É indiscutível que este cenário será letal para todos: para Dilma, PT e Lula, porque serão mais fortemente responsabilizados pela catástrofe, e para a aliança que terá assumido o governo, ao lado de Temer, por não ter estabilizado o país. Perdem os políticos e sofre mais ainda a população.

Logo, inexiste qualquer justificativa razoável para o Senado não dar início à fase de julgamento da presidente com urgência máxima, obedecidos todos os trâmites legais, com respaldo do STF. Chega a ser uma questão de segurança nacional.

Mesmo que ainda falte o essencial, o julgamento, o vice Michel Temer tem de agir, diante da situação em que está a economia. Ela é tão crítica que as únicas duas boas notícias — a inflação perde fôlego e o superávit comercial pode ser recorde histórico — derivam de um sério problema: a profunda recessão interna. Com o nível baixo de atividade na produção, importa-se menos; com a perda de poder de compra da população, devido ao desemprego e a uma persistente inflação elevada, indústria e comércio são obrigados a reduzir preços. Mas há limites.

O remédio que produz os bons resultados matará o doente. Ele é veneno. É ilusório achar que o pior passou, que se bateu no “fundo do poço”. As coisas não funcionam assim numa severa crise fiscal e em que o governo ainda no poder mantém os mecanismos que alimentam esta crise — deseja continuar a elevar os gastos quando as receitas caem, puxadas pela recessão. E, como sempre em nome da defesa do pobre, também rejeita desindexar o Orçamento, cujas despesas crescem rumo ao infinito porque a inflação não para de subir, embora numa velocidade mais baixa. É receita infalível do agravamento ainda maior da crise fiscal, que tornará o pobre miserável. Já se sabe o que esta fórmula econômica tóxica produz. Michel Temer, então, não pode esperar inerte a abertura da fase de julgamento pelo Senado. Imóvel ele não está, a considerar o noticiário sobre sondagens a Arminio Fraga, economista, presidente do Banco Central no momento delicado de liberação do câmbio, com FH, formulador do projeto econômico do candidato tucano Aécio Neves, derrotado por Dilma em 2014.

Se o olfato do político aponta para onde migra o poder — motivo pelo qual houve debandada na Câmara da base do governo para o Palácio Jaburu —, mercados têm também sentidos apurados. O exemplo pode não ser o ideal, mas ajuda a entender do que se trata: logo ao assumir, depois de derrotar nas urnas o kirchnerismo na Argentina, Mauricio Macri fez fortes sinalizações para superar a profunda crise em que Néstor e Cristina Kirchner mergulharam o país em 12 anos de poder — semelhante ao que o lulopetismo fez no Brasil —, e em poucas semanas conseguiu reverter o humor interno e mundial com relação à economia argentina. Macri já detinha a caneta para tomar decisões concretas. Mas mostrou ao parceiro do Mercosul que postura é capaz de começar a romper a mais espessa argamassa de pessimismo em pouco tempo. Temer precisa ensaiar, agora, um choque de credibilidade.

Até porque, como ficou exposto no vídeo que a presidente Dilma difundiu sexta-feira pela internet, ela retomou o discurso de campanha para tentar semear o pânico na população, como em 2014 com seu marqueteiro, João Santana, hoje preso, exibindo filmes em que a comida desaparecia do prato das famílias humildes se adversários ganhassem a eleição. Dilma garante que Temer e aliados acabarão com o Bolsa Família — criada por tucanos —, e o vice-presidente nega. Mas Temer precisa ir além. Não basta negar, mas, por exemplo, apresentar nomes de peso, respeitados, para pastas-chave.

Raposas da política — e Temer é uma delas — devem estar aconselhando o vice-presidente a evitar temas sobre a corrupção. Mas ele não deveria ouvi-los. Lembremo-nos da reação espontânea do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, ao ver a foto em que Eduardo Cunha e Romero Jucá, de mãos dadas e braços erguidos, comemoravam a formalização da saída do PMDB da base do governo. “Meu Deus do céu! Esta é nossa alternativa de poder...” Cunha e Jucá, este, braço-direito de Temer, os dois denunciados pela Lava-Jato, sendo o primeiro dono de extenso prontuário, são vistos como símbolos dos riscos que um governo Temer corre neste campo.

Ora, no lado do governo também há extensas folhas corridas de delitos, inclusive com o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, ainda preso em Curitiba. O próprio Lula é investigado. Não se trata, portanto, de estabelecer uma disputa sobre quem tem fichas mais limpas. Ou mais sujas. Mas de deixar claro de forma veemente que um possível governo do vice, com característica de salvação nacional, nada fará para criar obstáculos à Lava-Jato ou a qualquer outra ação anticorrupção, mesmo que tenha, como se diz, de cortar a própria carne.

No sábado, Temer fez, por escrito, uma defesa da Lava-Jato. Agiu bem e precisa continuar assim. Não transigir em questões éticas também é uma forma de se diferenciar da era lulopetista. Não é apenas na economia.