domingo, 11 de abril de 2010

Lições da água:: Miriam Leitão

DEU EM O GLOBO

Foi uma semana pesada para o Rio. Os piores temores se confirmaram. Os alertas viraram verdade, e a chuva revelou que no Morro do Bumba, em Niterói, tudo era pior do que se pensava. Ao mesmo tempo, há uma avenida aberta para o Rio e o Brasil neste momento. O Brasil é um país assim: tem uma agenda tão cheia, que o muito já feito acaba sendo soterrado pelo muito a fazer.

Foi a chuva que matou tantos no estado. A chuva foi reveladora da imprevidência dos administradores públicos. A imprevidência é que matou. Deixar por mais de 20 anos que uma população se instale sobre um lixão depositado numa encosta é condenar todos aqueles moradores à morte.

Ou à morte lenta pelas doenças decorrentes de morar sobre o lixo; ou à morte numa avalanche previsível, porque aquele não era, nem jamais seria um terreno firme.

Mesmo em locais onde o absurdo não é tão radical, as construções se equilibram em encostas frágeis que descerão, mais chuva, menos chuva, mais dia, menos dia. Há várias tragédias anunciadas.

Todos os governantes das últimas décadas mostraram conjuntos habitacionais em suas propagandas eleitorais, todos os governos foram financiados pela Caixa para fazerem esses conjuntos, mas poucos fizeram a conexão entre uma coisa e outra: entre remoção de população em área de risco com as casas que vão distribuir. Não se sabe qual é o critério dessa distribuição, nem se o problema da moradia em área de risco está encontrando a solução de um novo conjunto habitacional.

Nosso novo Censo deve dar números atuais, mas o antigo diz que há no Rio 1,1 milhão de pessoas morando em favelas. Dessas, segundo o economista Sérgio Besserman, de 10 mil a 30 mil pessoas estão em área de risco: É um custo que dá para encarar, o de remover e reinstalar em áreas mais seguras.

O Rio tem uma chance de ouro. É estranho falar isso numa semana tão dolorosa.

Mas a tragédia pode trazer o senso de urgência; as Olimpíadas e a Copa, a obrigatoriedade do planejamento; os estudos dos cientistas, a certeza de que outros eventos virão; o interesse pelo Brasil pode trazer investidores.

A dor, o compromisso com o Comitê Olímpico, as mudanças climáticas e o capital atraído podem produzir o momento certo para um salto de qualidade na gestão e no planejamento urbanos.

Remoção é uma palavra há muitos anos banida do vocabulário de quem quer parecer moderno no Rio. Ela lembra o autoritarismo de outras intervenções. Mas o contemporâneo agora é olhar esta ação sem preconceitos.

Será mais fácil se a autoridade for rigorosa também com irregularidades cometidas pelos ricos e pela classe média. O ordenamento da cidade tem que passar por toda uma revisão. Porque nós queremos, porque temos que fazer isso, porque não fazer é uma questão de vida ou morte. Mas erros estão sendo cometidos neste exato momento, quando se permite especulação imobiliária em áreas impróprias para expansão.

Momentos extremos exigem escolhas radicais. E o Brasil e o Rio estão vivendo um desses momentos. Eles podem ser muito promissores.

Foi por ter chegado ao abismo inflacionário que o país construiu as bases da estabilidade macroeconômica, que o permitem agora ser apresentado ao mundo como potência emergente preparada para um novo salto.

A revelação de que essa potência emergente deixa que pessoas se instalem em cima de lixões enfraquece qualquer euforia excessiva com o Brasil. Mas o país é isso: com suas virtudes e crimes.

A hora é de investir na virtude e combater o crime.

Do ponto de vista da saúde pública, lixões a céu aberto são doenças; do ponto de vista ambiental, são contaminação e emissão de gases de efeito estufa; do ponto de vista econômico, são um espantoso desperdício. Lixo pode ser energia e um insumo ao crescimento.

Pelos dados do IBGE, colhidos em 2002, o Brasil produz 230 mil toneladas de lixo doméstico e comercial por dia. Isso sem contar o lixo industrial, de construção civil, hospitalar e o lixo perigoso. Nessa pesquisa feita em 5.471 municípios dos 5.507, a informação dos pesquisadores é que 40% é aterro sanitário, o resto é lixão a céu aberto.

Mas os dados podem ser piores porque muitos aterros sanitários são lixões disfarçados, sem o necessário investimento em isolamento para evitar a contaminação. A tecnologia de transformar o lixo em energia já está dominada no mundo e há experiências no Brasil. Pode-se conseguir financiamento externo através do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, do Protocolo de Kioto. Quem precisa de crédito de carbono financia a transformação.

Eles ficam com o crédito, e o Brasil com o lixo tratado, a energia e o aproveitamento da matéria-prima dos recicláveis.

Isso não é futurismo. Já foi feito em São Paulo. A Petrobras está financiando um projeto no Fundão. Tudo está ao nosso alcance.

O país precisa mudar conceitos. A culpa não é de quem construiu em cima de um lixão. Eles foram vítimas.

Não tiveram opção, orientação, oferta de moradia decente em local seguro.

Um prefeito que governa a cidade, em seu terceiro mandato, não pode alegar desconhecimento de que o Bumba era área de risco e era inaceitável por razões humanas, sanitárias, ambientais. A informação de que lixo é doença, de que ninguém pode morar sobre um aterro improvisado mal cobrindo um lixão é pública.

Todos sabem. Inexplicavelmente, o morro não estava na lista das áreas de risco de Niterói.

A água que desceu forte e assustadora sobre o Rio ensina, avisa e revela onde está o risco. É hora de ver e ouvir o que a água mostrou.

Com Alvaro Gribel

Brasil: potência de paz ou de guerra? :: Rubens Ricupero

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A grandeza de um país não se faz pelo poder de armas, mas pela chance de cada pessoa se realizar como ser humano

DO GRUPO dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), somos o único país que não é potência nuclear, nem militar convencional, uma vez que nossa força é meramente defensiva. No linguajar do professor Joseph Nye, que nos visita, temos apenas "soft power" (poder suave ou de persuasão, de exemplo), quase nenhum "hard power" (poder duro, de constranger por meios militares ou econômicos). Isso é bom ou ruim?

Para alguns, trata-se de anomalia a ser corrigida o mais rápido possível. É o caso do atual governo, que, numa curiosa volta ao regime militar, parece cada vez mais embriagado com sonhos de armas mirabolantes e caras, compradas com créditos de países estrangeiros que terão de ser pagos pelos sucessores. Outros chegam à insensatez de querer reviver o programa nuclear clandestino proibido pela Constituição e liquidado pela Nova República.

Há sentido em imitar países que têm vivido quase em estado de guerra permanente quando completamos 140 anos de paz com nossos dez vizinhos? Se nos armarmos, inclusive com bombas atômicas, como se sentirão os que nos cercam? Ficarão impassíveis ou voltarão, como a Argentina no passado, a reiniciar a corrida de armas com o Brasil? Estaremos mais seguros ou uniremos os demais contra nós?

Se as ameaças não vêm dos vizinhos, de onde procedem? Dos distantes chineses ou russos, dos mais próximos americanos? É altamente duvidoso, mas, se fosse certo, teríamos alguma chance de igualar seus gigantescos arsenais? Teríamos de desviar recursos já insuficientes para ter estradas e aeroportos decentes, o dinheiro que falta para permitir a milhões de brasileiros uma moradia segura e digna?

A recente e ligeira melhora em nossas condições econômicas e sociais parece ter subido à cabeça dos que já nos veem como país próspero, a esbanjar dinheiro e a arrotar grandezas. Basta olhar em torno, porém, para ver o abismo de miséria que nos cerca. A catástrofe do Rio de Janeiro deveria servir ao menos como choque de realidade capaz de nos restituir o senso das prioridades.

Enquanto fazemos malabarismos de imaginação para tentar identificar inimigos externos num futuro indeterminado, os deslizamentos matam centenas de brasileiros humildes forçados a morar em cima de um monte de lixo. Que país queremos ser, a Rússia armada até os dentes, onde a expectativa de vida diminui a cada ano, ou o Canadá, campeão em desenvolvimento humano? O que faz a grandeza de uma sociedade não é a glória militar ou o poderio de armas.

É a capacidade de garantir a cada pessoa a possibilidade de se realizar como ser humano, o direito da busca da felicidade, como se dizia na época da Revolução Americana. Todos os índices de bem-estar, educação, saúde, cultura, ausência de crime e de corrupção mostram que não são as grandes potências a ocupar os primeiros lugares, mas as nações que priorizaram as necessidades humanas básicas. Em um país como o nosso, de pesada herança de desigualdades, esse dever se impõe ao governo de forma ainda mais premente.

Com humildade e sóbrio realismo, deveríamos tentar construir uma potência não em armas, mas em direitos humanos e em ambiente, em educação e em equilíbrio social. Descobriríamos com surpresa que o nosso "soft power" daria ao Brasil um poder de influência e exemplo que jamais atingiríamos pelas armas.

Rubens Ricupero, 73, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

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sábado, 10 de abril de 2010

PT: o passado condena:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

Os que especulam sobre o significado da não reação do ex-governador Aécio Neves ao comentário da candidata oficial, Dilma Rousseff, de estímulo à chapa Dilmasia um voto híbrido nela para presidente da República e no candidato a governador Antonio Anastasia, do PSDB , querendo perceber uma sutil admissão de Aécio à cristianização do candidato tucano, José Serra, em Minas, não perdem por esperar.

O discurso do ex-governador mineiro hoje, no evento que marcará em Brasília o lançamento da candidatura de Serra à Presidência da República, será uma inequívoca tomada de posição.

Mais que isso, será uma definição de linha de ação política do PSDB, um ataque frontal ao passado do PT e um assumido orgulho do passado do partido tucano.

Sobre a passagem de Dilma por Minas, o ex-governador Aécio Neves lembra que seu avô Tancredo dizia que, em uma campanha eleitoral, há lugares em que é melhor não ir do que ir e ter problemas.

Foi o que aconteceu com a candidata oficial, Dilma Rousseff, ao visitar São João Del Rei. Se fosse lá e não visitasse o túmulo de Tancredo, seria acusada de mais uma vez estar desdenhando o grande líder político mineiro.

Indo, provocou a ira dos próprios mineiros, pois o PT não apenas não apoiou Tancredo no Colégio Eleitoral, em 1985, como expulsou os seus três deputados federais que o fizeram à revelia do partido.

Para exemplificar o repúdio mineiro à atitude de Dilma, basta ler o título do artigo semanal que o ex-senador Murilo Badaró escreve: A profanação do túmulo de Tancredo.

Dilma já havia confundido anteriormente Governador Valadares com Juiz de Fora, demonstrando que sua mineiridade não está muito em dia.

Quando, desta vez, caiu na armadilha ao defender a chapa Dilmasia, prestou dois serviços aos adversários políticos: desprezou o PT e o PMDB mineiros, que ainda se digladiam para ver quem dará o candidato a governador, e deu a chancela de que a candidatura de Antonio Anastasia é uma opção tão viável que ela admite cristianizar seus candidatos para receber o apoio do ex-governador Aécio Neves, o grande líder político atualmente em Minas.

O ex governador não quis reagir pessoalmente à ida de Dilma ao túmulo de seu avô para não dar um cunho meramente pessoal e familiar ao comentário, mas foi consultado pelo senador Sérgio Guerra sobre a nota que os partidos de oposição divulgaram.

Vai aproveitar o discurso de amanhã para tirar da frente os fantasmas do constrangimento.

Aécio vai dizer claramente que nós temos que ter orgulho enorme do que fizemos, e definirá com clareza e coragem o que considera uma verdade política: não teria havido o governo do presidente Lula se não tivesse havido o governo Fernando Henrique.

Isso é real, é claro, e o maior avalista disto é o próprio Lula, que manteve intacta a política econômica do Fernando Henrique.

Para Aécio, quem diz da importância do governo de Fernando Henrique é Lula, mais do que qualquer outro. O ex-governador mineiro lembrará que, apesar das pressões do PT no início do governo, o Palocci, com o aval do Lula, manteve intacta a política econômica.

Aécio defenderá que o debate na campanha deve ser sobre o futuro e o presente, mas pretende ressaltar que é fundamental que se debata também o passado.

O PT quer circunscrever o seu passado aos oito anos do governo Lula, ressalta Aécio, negando validade a essa estratégia. Sorte nossa que o PT não era um partido expressivo naquela época. Se prevalecessem as ideias do PT, teríamos adiado o processo de redemocratização, poderíamos ter de novo um retrocesso institucional na saída do Collor, com o Itamar sem qualquer apoio, não teríamos uma Constituição.

O tema central da fala de Aécio será o passado condena o PT.

Ele diz que, na campanha, o PSDB vai falar das privatizações, da Lei de Responsabilidade Fiscal, do próprio Plano Real, de tudo o que foi feito com a raivosa oposição deles.

O próprio Lula já reconheceu que, se fosse eleito em 1989, seria uma tragédia, pois não estava preparado para governar o país. E será que a Dilma está preparada? A Dilma hoje não é o Lula de 89?, pergunta Aécio.

Para o ex-governador mineiro, o governo de Fernando Henrique Cardoso foi um governo respeitável, mesmo quem não tem saudades respeita, independentemente do que o PT fez com egoísmo durante esses 25 anos.

Ele define o PT como beneficiário da nossa responsabilidade e da nossa visão de país, porque, ao contrário da gente, o PT sempre colocou o seu projeto partidário acima do projeto do país em todos esses momentos.

Aécio Neves relembra que, para o PT, valia sempre a lógica do que era melhor para o partido. Não era bom se misturar conosco no Colégio Eleitoral, dane-se o resultado; não era bom apoiar o Itamar porque o Lula vem aí, dane-se o Brasil.

O ex-governador mineiro diz que está na hora de levantar a cabeça e partir para cima. Ele vai lembrar que foi candidato a candidato a presidente da República ano passado e sempre dizia que a unidade era a grande força, o mais vigoroso instrumento para ganhar a eleição.

Aécio diz que, no momento em que notou que o partido ia em outra direção, fez o mais importante gesto a favor da unidade quando anunciou que seu candidato era o Serra: Eu tenho compromisso com o partido e com o país, quero encerrar esse ciclo petista. Acho que tenho autoridade moral para dizer isso, finaliza.

Este é o espírito com que o ex-governador mineiro discursará hoje no lançamento da candidatura de José Serra à Presidência da República.

Uma tomada de posição sem dar margem a dúvidas.

E agora, José?:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Pronto. Como queriam oposicionistas de todos os costados, o tucano José Serra anuncia hoje que é candidato à Presidência da República e põe fim ao longo período de cobranças em que dificuldades da oposição e êxitos dos adversários eram postos no mesmo balaio e atribuídos à indefinição da candidatura.

Removido o obstáculo ? real em muitos casos; em outros, mera fumaça ? começa agora o mais difícil: a construção da candidatura, a articulação das alianças regionais, o grau de prioridade que partidos e personagens, principalmente os do PSDB, emprestarão ao projeto nacional, o índice de fidelidade à candidatura presidencial, o empenho a que se disporão ao trabalho e as escolhas que farão conveniências pessoais e o interesse partidário de representação de um campo de pensamento diferente do que está atualmente no poder.

Certo ou errado, o PT fez sua opção claríssima: apostou tudo na presidencial. Dos Estados importantes onde não disputa a reeleição, só concorre no Rio Grande do Sul e insiste na candidatura em Minas Gerais.

No restante do País, abriu mão de eleger governadores, o que significa também se arriscar a reduzir as bancadas no Congresso, para investir na eleição de Dilma Rousseff. E ponto final, sem questionamentos.

Evidentemente que o PSDB sendo um partido de ações, conformação e personagens diferentes, não tem a obrigação de imitar o adversário. A citação ao PT serve só como referência.

No que concerne aos tucanos e área de influência, é de se conferir se a realidade das ações políticas corresponderá à ansiedade das cobranças para a definição da candidatura de José Serra, porque nas duas eleições presidenciais anteriores, 2002 e 2006, o desacerto e a inaptidão foram notáveis.

De parte a parte. Do candidato, das campanhas, dos aliados e vice-versa. Ninguém falava a mesma linguagem. Em 2006, havia Estados, como Pernambuco, onde Geraldo Alckmin nem sequer contava com estrutura de campanha. Em 2002, José Serra conseguiu se coligar oficialmente com o PMDB ? sua vice foi Rita Camata ?, mas várias seções do partido se aliaram a Lula. Isso sem falar nas defecções explícitas dentro do PSDB, que se repetiram em 2006.

Se a desordem se repetir, não adianta definição de candidatura, qualidade de candidato nem a evidente desvantagem comparativa da adversária. Campanha, óbvio, é um todo. Leva quem revela aptidão para a vitória. Muito mais que qualificação para governar.

Dilma Rousseff não é do ramo. Mas o partido dela é craque e o chefe, então, nem se fala.

José Serra, nem os adversários negam, preparou-se a vida toda para a Presidência. Mas o partido dele até agora só ganhou como copiloto do Plano Real. No comando, perdeu as duas eleições nacionais que disputou. E por demérito próprio.

Tem agora a chance de mostrar se oito anos na oposição lhe deram disciplina e senso de direção ou se de novo prefere se dispersar nas lides da picuinha rumo a quatro anos, talvez oito, quiçá 16 anos de ostracismo.

Reparo. Depois de rever a descortesia de "esconder" Fernando Henrique Cardoso da campanha e incluir o ex-presidente na lista de oradores do ato de lançamento da candidatura de José Serra hoje, em Brasília, PSDB e aliados resolveram que não bastava.

FH será alvo de homenagens e citações nos pronunciamentos.

Programáticos. Os presidentes dos dois partidos da aliança com o PSDB, DEM e PPS, preparavam para hoje discursos com as propostas que as duas legendas gostariam de ver incluídas no programa de governo de Serra, que, no entanto, só deverá ser apresentado na convenção oficial do PSDB em junho.

Rodrigo Maia (DEM) e Roberto Freire (PPS) decidiram antecipar suas propostas porque é a chance de que elas ganhem algum destaque para debate, pois em junho a atenção será toda do programa do candidato.

O discurso de Serra hoje será mais conceitual, na linha do pronunciamento feito na despedida do governo de São Paulo.

Eu quero é botar meu bloco na rua - Simone

Serra será lançado hoje com defesa da ética

DEU EM O GLOBO

Festa tucana terá Aécio e FH, além de partidos aliados, e evitará confronto com a pré-candidata do PT e Lula

Adriana Vasconcelos e Flávio Freire*

BRASÍLIA. Numa festa preparada para 4 mil pessoas e orçada em R$ 560 mil, José Serra (PSDB) retoma hoje, no lançamento de sua pré-campanha à Presidência, em Brasília, o discurso de que a política deve ser feita com honra e caráter, como fez quando se despediu do governo de São Paulo, semana passada.

Após amplo debate com a direção nacional do partido, que considera a bandeira da ética uma demanda nacional, Serra vai ressaltar a tese de que, mais importante que fazer uma comparação entre governos, o eleitor precisa é ficar de olho na ficha de cada candidato.

Serra não pretende entrar em confronto com a pré-candidata petista, Dilma Rousseff, tampouco com o governo do presidente Lula, ao menos nessa reta inicial da campanha. O evento, que acontece num auditório e será transmitido simultaneamente para outros dois espaços na área hoteleira da cidade, foi pensado ao longo da semana para que não se dê margens para a infiltração da adversária na festa. Em princípio, referências nominais aos adversários devem ser evitadas.

A ideia é mostrar unidade em torno de Serra. Para isso, os tucanos não pouparam esforço.

Pelos salões foram espalhados telões de alta definição e TVs para registrar cada detalhe. Só de São Paulo chegarão mil pessoas.

O PSDB bancou passagem e hospedagem para 2,5 mil correligionários.

Mais de 300 pessoas formam o exército de funcionários que cuidarão da festa.

Os mesmos marqueteiros da campanha presidencial de 2002 participaram da organização.

Para evitar o molde padrão de eventos políticos, não haverá palanque nem mesa de autoridades.

Apenas um púlpito, e os principais convidados ficarão em cadeiras logo à frente.

FH vai abrir evento do PSDB

Em resposta à provocação petista, a direção do PSDB decidiu que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso abrirá a série de discursos. O PT dizia que tucanos tentavam escondê-lo, sob pretexto de evitar comparações entre governos. Logo depois, falam os presidentes dos partidos: Sérgio Guerra (PSDB), Rodrigo Maia (DEM) e Roberto Freire (PPS). Ontem à noite, buscava-se uma prefeita para falar em nome dos prefeitos do país.

Serra acompanhará os discursos nos bastidores. Só entra no local duas horas depois de começado o evento, minutos após o vídeo de seis minutos que contará sua trajetória política.

Com canhão de luz em sua direção, ele atravessará a plateia até o púlpito. Deve falar por, no mínimo, uma hora. A mulher do ex governador, Mônica, e os dois filhos, Verônica e Luciano, estarão na primeira fila.

A modelo-atriz-apresentadora Ana Hickmann fará as vezes de mestre de cerimônia. Mensagens recebidas pelo Twitter de Serra serão transmitidas ao vivo nos telões, cuidadosamente editadas.

Assim como, politicamente, a estratégia é não dar voz aos adversários, o partido quer também evitar constrangimentos no ninho tucano. A direção proibiu que correligionários façam manifestações para que Aécio Neves assuma a condição de vice. Faixas e cartazes pró-chapa puro sangue serão vetadas.

Nenhum tucano está autorizado a fazer pressão para que o Aécio seja vice diz o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

Aécio dará demonstração de que a relação com Serra anda de vento em popa. Mandou para o auditório dois painéis de apoio ao tucano: Nas montanhas de Minas, o caminho é Serra.

* Enviado especial a Brasília

Aécio sugere, e Serra se mostrará como 'pós-Lula

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O tucano José Serra vai lançar hoje a sua pré-candidatura ao Planalto reforçando o discurso de que disputará a eleição na condição de candidato pós-Lula. Na prática, Serra vai incorporar a ideia defendida pelo colega de Minas, Aécio Neves, em abril do ano passado, de que a campanha não pode ser contra Lula e anti-Dilma Rousseff, a pré-candidata do PT. Na festa em Brasília, Serra vai se apresentar como a alternativa mais qualificada para levar o País a avançar, fazendo melhor.

Serra adota tese de Aécio e se lança hoje como candidato do pós-Lula

Ana Paula Scinocca, Christiane Samarco, Julia Duailibi

BRASÍLIA - Ex-governador de São Paulo, o tucano José Serra vai lançar hoje a sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, assumindo e reforçando o discurso de que vai disputar as eleições de outubro próximo na condição de "candidato pós-Lula". A estratégia é assumir o continuísmo, mas criticar a ideia de que o Brasil só começou a melhorar a partir de 2003.

Na prática, Serra vai incorporar a tese defendida pelo colega de Minas, Aécio Neves, em abril do ano passado, de que a campanha não pode ser contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e anti-Dilma Rousseff, a pré-candidata do PT à Presidência.

Hoje, no encontro organizado pela oposição, em Brasília, Serra vai se apresentar como alternativa "mais preparada e qualificada" para que o País "avance mais, fazendo melhor". Isso vai permitir que o tucano fuja da armadilha da eleição plebiscitária defendida por Lula, que deseja comparar seu governo ao de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Serra dará largada à corrida sucessória repetindo o conceito do "Brasil pode mais", bordão já usado dez dias atrás, na despedida do governo de São Paulo. Vai propor um governo sem ruptura e com evolução. Ao se apresentar como candidato da continuidade ele quer centrar a disputa em Dilma, tirando Lula dos debates.

No lançamento de Serra estarão presentes correligionários e aliados de pelo menos cinco partidos - DEM, PPS, PTB, PSC e PMDB. O patrocínio da festa ficará por conta do trio que compõe a aliança oposicionista: PSDB, DEM e PPS. Os três partidos organizaram um encontro nacional para não afrontar a Lei Eleitoral, que proíbe campanha antes das convenções de junho, que vão oficializar os candidatos.

No discurso, para cerca de 3 mil lideranças políticas e militantes de todo o País, Serra vai bater na tecla de que o Brasil avançou nos últimos anos, mas as conquistas não foram de um governo, e sim da sociedade como um todo.

O pré-candidato do PSDB não pretende negar os avanços obtidos pelo governo Lula - avanços que dão sustentação à alta popularidade do presidente, em especial entre à população de baixa renda. Mas tudo será trabalhado na perspectiva de que as conquistas começaram antes de 2003, quando o PT chegou ao poder.

Sem críticas ao presidente Lula e sem citar a petista Dilma, Serra vai deixar claro que os avanços são um processo. Começaram, dirá ele, com a redemocratização no governo José Sarney (1985-1990), com a abertura da economia promovida por Fernando Collor (1990-1992) e o Real de Itamar Franco (1992-1994) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), passando pelas privatizações.

O tucano vai se colocar como o candidato da Nova República, que começou com o presidente Tancredo Neves, sem a participação do PT, em 1985. E falará de sua biografia, que a oposição acredita ser o "grande trunfo do candidato tucano" no confronto com Dilma.

Sem se alongar sobre sua passagem pelo Ministério da Saúde, pela Prefeitura de São Paulo e pelo governo paulista, alguns programas vitoriosos serão lembrados como vitrines que podem ser ampliadas.

Quando disser o que deseja para o Brasil, ele vai focar no desenvolvimento - como em seu discurso de posse no governo paulista em 2007, Serra voltará à ideia do "Estado ativo", propondo-se a fazer um governo em que a máquina pública focada na gestão eficiente, que elimine a gastança, é a principal indutora do crescimento.

Discursos programados para o evento de hoje

10H30
O primeiro a discursar será Fernando Henrique

11H10
Roberto Freire, do PPS

11H20
Rodrigo Maia, do DEM

11H30
Sérgio Guerra, presidente do PSDB

11H45
O ex-governador de Minas, Aécio Neves

12 HORAS
O presidenciável José Serra inicia discurso

Da feira à política em oito minutos

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Vídeo a ser exibido durante encontro vai reforçar estratégia de comparar biografias de Serra e Dilma

BRASÍLIA – Um vídeo com a trajetória política e a vida de José Serra, pré-candidato do PSDB à Presidência da República, será exibido hoje na festa que o partido organiza para a apresentação do nome do tucano na disputa pelo Palácio do Planalto.

A iniciativa dá sustentação a uma das principais estratégias da oposição para a campanha presidencial deste ano: a comparação das biografias de Serra e de sua principal adversária, a ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff (PT).

A ideia é mostrar desde o nascimento de Serra, filho de feirantes, que viveu na Mooca, bairro da zona leste de São Paulo, até seus cargos e realizações como político.

Filho único de Francesco e Serafina, imigrantes italianos, Serra foi criado cercado por mulheres. Sua maior referência afetiva na infância foi a avó materna, Carmela, de ascendência calabresa nascida na Argentina.

Mercado Municipal. Seus pais tinham uma barraca de frutas no Mercado Municipal da Cantareira. O pai queria que Serra ajudasse na feira, mas a mãe insistiu que ele estudasse.

Iniciativas tomadas à frente do Ministério da Saúde, como a criação dos genéricos, os mutirões e a articulação para a quebra das patentes dos remédios de combate à aids, vão ser exploradas.
Depoimentos de pessoas beneficiadas por esses programas serão exibidos nos telões do Centro de Eventos Brasil 21, em Brasília, local escolhido para a festa. O ingresso na vida política aos 21 anos, quando foi eleito presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), também vai merecer destaque no filme.

O vídeo, com oito minutos de duração, foi elaborado pela equipe do jornalista Luiz Gonzalez, provável marqueteiro da campanha, e vai contar ainda com depoimentos da Mônica Serra, mulher do ex-governador, e da filha Verônica. Os netos Antonio, Gabriela e Francisco também vão aparecer. Já o filho Luciano, mais discreto, e a xodó de Serra, a tia Carmelita, devem ficar de fora.

Emoção. Quem assistiu ao filme disse ontem que ele foi elaborado com o objetivo de emocionar as pessoas.

O comando do PSDB preparou uma festa para 3 mil pessoas, mas ontem a expectativa era de que perto de 4 mil comparecessem ao evento. Foram instalados quatro telões e 20 TVs de plasma em salões anexos ao principal. / A.P.S., C.S. e J.D.

Tucanos põem FHC na vitrine em evento

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A princípio ele não discursaria, mas partido avaliou que "escondê-lo" municiaria rivais

Ana Paula Scinocca, Christiane Samarco, Julia Duailibi

BRASÍLIA – O presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, foi escolhido para abrir os discursos na festa do partido para o lançamento da pré-candidatura de José Serra à Presidência, hoje em Brasília. Para fazer a corte ao ex-governador Aécio Neves (MG), vice dos sonhos na chapa de José Serra, será dele o último discurso antes da fala do pré-candidato.

Como manda a praxe política, a ordem dos oradores é sempre crescente. Mas Fernando Henrique funcionará como uma espécie de cicerone do encontro e dará a palavra aos presidentes das três legendas que integram a coligação da campanha oposicionista: Roberto Freire, pelo PPS, Rodrigo Maia, pelo DEM, e Sérgio Guerra, pelo PSDB. O ex-presidente, que inicialmente não falaria na cerimônia, vai discursar após avaliação interna de que "escondê-lo" daria munição ao argumento dos adversários.

A chegada de Serra deve ter um toque triunfal, ao contrário do que o próprio pré-candidato queria no começo. Cauteloso, ele havia planejado uma festa mais discreta. Não queria que o evento tivesse cara de show e também pediu que não se usasse música. Mas foi convencido pelos caciques do PSDB e dos partidos aliados da necessidade de um evento de maior visibilidade, até para fazer um contraponto ao lançamento da pré-candidatura da principal adversária, a ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff (PT), em fevereiro.

Para a formatação do evento, foi contratada a empresa Mix Brand Experience, que faz cerimônias para bancos e empresas. A modelo e apresentadora de TV Ana Hickmann foi escalada como mestre de cerimônias da festa, que vai ser realizada no Centro de Convenções Brasil 21.

Enxuto. A orientação dada pelos organizadores foi de que os discursos não ultrapassassem dez minutos ? o único a se estender será o do pré-candidato, que deve durar quase uma hora. Marcada para começar às 9 horas, a cerimônia, que oficialmente vem sendo chamada de Encontro dos Partidos ? sugestão aceita pelos organizadores para não haver problemas com a Justiça Eleitoral (oficialmente a campanha começa só em julho) ?, só contará com a presença de Serra depois do meio-dia.

Ontem pela manhã, Serra pessoalmente pediu ajustes na organização da festa. Exigiu acessibilidade a deficientes físicos à plateia e a contratação de profissional que faça linguagem de sinais para que deficientes auditivos tenham acesso ao seu discurso.

A expectativa inicial dos tucanos era reunir 2 mil pessoas, mas ontem já se falava em um público perto de 3 mil participantes. Orçada em R$ 500 mil, a cerimônia vai ser transmitida em quatro telões e 20 TVs de plasma espalhadas por salões anexos ao principal do centro de eventos.

PSDB aposta em prefeita negra de olho no popular

DEU EM O ESTDO DE S. PAULO

A apresentadora Ana Hickmann não será a única estrela feminina na festa dos tucanos de hoje. Para falar em nome das mulheres do partido, o PSDB convidou Judite Botafogo , prefeita de Lagoa do Carro (PE). Negra, ela fala direto ao eleitor feminino e de baixa renda. Encaixa-se no figurino que acabou por se tornar caro numa eleição onde haverá Marina Silva e Dilma Rousseff como adversárias do PSDB.

A prefeita tucana não faz parte dos quadros tradicionais do partido, mas aparece como um símbolo importante numa eleição em que os tucanos se esforçarão em mostrar que sabem fazer um "governo popular", segundo expressão usada pelo ex-governador José Serra em sua despedida do Palácio dos Bandeirantes.

A tucana foi convidada para o evento apenas na tarde de ontem. A presença dela como oradora, no entanto, ainda dependia da aprovação de Serra. O partido tratou a questão com discrição para não causar ciúme em outras tucanas que, mais engatadas na máquina partidária, não foram chamadas para discursar.

Não é a primeira vez que Judite é convidada para estrelar um evento do partido. Em 2009, quando Serra foi ao Recife encontrar o ex-governador de Minas Aécio Neves, que naquela ocasião ainda sustentava o seu nome como pré-candidato ao Planalto, a prefeita foi chamada. Judite Botafogo, primeira prefeita negra eleita em Pernambuco, é professora universitária e tem mestrado e doutorado em Teoria da Literatura. / A.P.S, C.S. E J.D.

Serra deve alfinetar Dilma em discurso

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

No lançamento da pré-candidatura, tucano vai destacar 10 tópicos do programa de governo, entre eles saúde e educação

Fala, apesar de não citar a petista, vai tentar explorar pontos desconfortáveis a ela, como economia verde como opção a desenvolvimento

Catia Seabra
Silvio Navarro
Enviados especiais a Brasília
Andreza Matais
Da sucursal de Brasília

Disposto a insistir no lema o "Brasil pode mais", o tucano José Serra exaltará hoje, no discurso de lançamento de sua pré-candidatura à Presidência da República, temas desconfortáveis para a sua adversária petista, Dilma Rousseff.

Segundo aliados, Serra não citará o nome da ex-ministra e recomendou até que ela fosse poupada de ataques na cerimônia, a ser realizada em Brasília.

No discurso, o tucano apresentará cerca de dez tópicos para o programa de governo, entre eles saúde e educação. A interlocutores Serra afirmou que sua fala "não será defensiva nem agressiva". A exemplo de sua despedida do governo de São Paulo, persistirá na defesa de valores e princípios.

Mas, apesar da promessa de delicadeza das palavras -num discurso "que jogue para frente" e com direito a nova citação de Guimarães Rosa-, Serra tentará imprimir na agenda política pontos que, para tucanos, seriam de maior vulnerabilidade no campo adversário. Além da defesa de respeito a instituições, ele deve pregar, por exemplo, a economia verde como caminho para o crescimento.

À frente da Casa Civil, Dilma teve embates com a ex-ministra do Meio Ambiente e pré-candidata do PV, Marina Silva. "Serra apostou, no governo, na economia verde", afirmou o futuro coordenador de programa de Serra, Xico Graziano.

Diante de 3.000 convidados, o tucano deverá investir dados da sua biografia -entre eles, a criação do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), a aposta na qualidade de ensino e o programa de combate à Aids -como garantia de que o Brasil pode crescer mais.

Num contraponto a Dilma, deve defender investimentos em infraestrutura e a competitividade do produto brasileiro -leia-se câmbio- como condições para o crescimento.

Serra deverá ressaltar ainda o papel do presidente Tancredo Neves para a redemocratização. Segundo tucanos, a ideia é mostrar que o PT encontrou a democracia consolidada e a inflação sob controle em 2003. E que, asseguradas essas condições, o potencial de crescimento do Brasil, em relação a vizinhos, poderia ser maior. Além disso, a menção de Tancredo toca na controvérsia da semana: a visita de Dilma a seu túmulo, embora o PT não tenha apoiado sua eleição.

O ex-presidente Fernando Henrique foi escalado para abrir o evento, e a fala do ex-governador Aécio Neves (MG) antecederá a de Serra -após o discurso, será exibido em telões o Twitter de Serra.

O prédio alugado para a festa foi todo enfeitado com painéis que têm fotos de Serra e Aécio. Um desavisado poderia pensar que o candidato é o mineiro.

Acompanhe a partir das 9h a cobertura em tempo real do evento tucano

Em MG, Marina faz crítica velada a Dilma por fala "oportunista"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Questionada se defenderia o voto "Marina-Anastasia", como a petista apoiou o "Anastadilma", senadora diz que "eleitor é livre"

Pré-candidata do PV citou o mensalão do PT durante entrevista e afirmou esperar que a "minoria que cometeu erro" seja responsabilizada

Paulo Peixoto

BELO HORIZONTE - A pré-candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, visitou ontem Minas Gerais e alfinetou sua concorrente Dilma Rousseff (PT), dizendo que não faz "discurso oportunista e de conveniência".

A crítica, embora não nominal, foi ao fato de Dilma, ao visitar Minas dois dias antes de Marina, ter defendido o voto do eleitor mineiro na sua candidatura à Presidência e na de Antonio Anastasia (PSDB) para o governo de Minas, uma espécie de "dobradinha" PT-PSDB, apelidada de "Anastadilma".

Ontem, Marina foi indagada se iria defender o voto "Marina-Anastasia". "Eu não faço discurso oportunista, de conveniência", respondeu Marina.

"O eleitor é livre, ele faz a junção que quiser", afirmou.

Ela disse que o PV terá um candidato ao governo de Minas, o deputado federal José Fernando Aparecido de Oliveira.

Marina também criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por ele ter dito que juiz não deve interferir no debate eleitoral. "Vi com preocupação", disse a senadora."A necessária reforma política que nós precisamos fazer não é para colocar os políticos acima da Justiça. Aliás, é para ajudar a colocar a política nos trilhos da justiça econômica, social e da ética", disse ela.

"Em função da ausência da reforma, os partidos viraram máquinas de ganhar eleição. É só ver o que aconteceu no Congresso", acrescentou, referindo-se ao mensalão do PT.Marina já havia citado o mensalão na entrevista que dera horas antes à rádio Itatiaia.

Ao explicar sua saída do PT, disse que foi "uma minoria que cometeu erro" e que espera que as pessoas que participaram do esquema para apoiar o governo em troca de dinheiro sejam "responsabilizadas".

Ela também pregou uma campanha sem "embate". Repudiou uma "campanha de currículos" entre seus adversários Dilma e José Serra (PSDB), dizendo que o país não precisa de "gerentes". "O Brasil precisa se dispor ao debate", afirmou.

Na sua pré-campanha por Minas, onde participou de eventos do PV-MG , Marina também fez críticas ao valor baixo do royalty do minério.

Ainda na entrevista à rádio, ela se colocou contra o aborto, mas disse que não condena quem defende o direito de a mulher abortar. Afirmou que, tanto sobre essa questão quanto sobre a descriminalização da maconha, um plebiscito poderia ampliar os debates e permitir a decisão pela população.

Stravinsky - Firebird (suite 1919) part 1

Orquestra Sinfônica de Moscou, direção do maestro Arthur Arnold.


Ele está tentando fazer chacota da decisão da Justiça

DEU EM O GLOBO

MOZART VALADARES BRITO, PRESIDENTE DA AMB

SÃO PAULO. O presidente da Associação dos Magistrados do Brasil (AMB), Mozart Valadares Brito, criticou ontem o presidente Lula por suas declarações sobre a Justiça Eleitoral. Valadares Brito afirmou que Lula dá dois maus exemplos aos brasileiros, quando usa a máquina pública para propaganda eleitoral e quando ironiza o TSE. Mais cedo, em nota à imprensa, Valadares Brito havia afirmado que Lula não pode utilizar a máquina pública para pedir votos nem favorecer sua candidata.

Tatiana Farah

O GLOBO: Como o senhor avalia as declarações do presidente Lula?

MOZART VALADARES BRITO: Ele está dando um mau exemplo quando, no exercício do cargo, usa a máquina para apoiar sua candidata e outro mau exemplo quando tenta desqualificar a Justiça Eleitoral.

O presidente não compreendeu bem que seu cargo não lhe dá o direito de estar acima da legislação, de desobedecer à lei. Todos os cidadãos, o presidente da Câmara, o presidente do Senado, o presidente da República têm de de obedecer à legislação eleitoral.

O presidente está desafiando a Justiça?

BRITO: Não, não acho que ele esteja desafiando. Não vejo crise institucional entre os poderes. Mas foi uma declaração infeliz.

Em Osasco, o presidente perguntou ao público quem pagaria a multa do TSE (a primeira, de R$ 5 mil). As pessoas ergueram o braço dizendo que sim, que pagariam...

BRITO: Este é o mau exemplo: quando ele se comporta com essa ironia, esse linguajar sobre a Justiça Eleitoral.

Ele pode ser punido pelo TSE por esse comportamento?

BRITO: Não há sanção contra essas ironias. Todos temos o direito à opinião. A sanção é moral. Nesse caso, o presidente não está ofendendo nenhum magistrado, mas está tentando fazer chacota da decisão da Justiça. O TSE merece todo o respeito, tem dado uma lição de vigilância. Já cassou o mandato de dois governadores por propaganda e multou até o presidente da República.

O presidente recebeu duas multas, uma de R$ 5 mil e outra de R$ 10 mil. O senhor acha que os valores deveriam ser maiores?

BRITO: Só a aplicação da penalidade já é um exemplo. As multas seguem a lei eleitoral e, quanto aos valores, poderia se discutir a alteração da lei.

O presidente Lula afirmou que, ao sair do governo, vai gritar para fazer a reforma política. O senhor acha que ele fará isso?

BRITO: O presidente teve oito anos de governo, com uma base parlamentar, para fazer a reforma política e não a fez. Acho difícil que queira fazê-la depois. A reforma política é necessária, mas ainda não foi feita porque a população não se deu conta dos benefícios que terá com a reforma, com o fim do caixa dois de campanha e dos partidos de aluguel. E, sem a pressão popular, os políticos não a fazem porque não lhes interessa.

Sonho lulista

DEU EM O GLOBO

POSSUÍDO DE rara ansiedade eleitoral, ávido na defesa de sua candidata, Lula continua sem entender seus limites institucionais.

JÁ MULTADO por esta razão, o presidente, em mais um transe de campanha, defendeu uma reforma política que limite o poder da Justiça Eleitoral sobre os candidatos.

MAS SERÁ preciso mais que uma reforma política. Como, no regime republicano, qualquer cidadão está subordinado ao Poder Judiciário, o sonho de Lula, para ser realizado, passa pela mudança do próprio regime.

Para um muito pior, de estilo autocrático.

Juízes reagem a Lula

DEU EM O GLOBO

Já ministro da Justiça e assessor dizem que presidente só defendeu reforma política

Maria Lima, Isabel Braga e Luiza Damé

BRASÍLIA e RIO - A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e a Associação de Magistrados do Brasil reagiram ontem às reclamações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a Justiça Eleitoral e endossaram as críticas do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, às constantes queixas de Lula contra a aplicação da legislação eleitoral. Lula, condenado ao pagamento de duas multas por campanha antecipada para a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, disse anteontem no congresso do PCdoB que não podemos ficar subordinados ao que um juiz diz que podemos ou não fazer, defendendo uma reforma política.

Fernando Cesar Baptista de Mattos, presidente da Ajufe, classificou de inaceitáveis as declarações de Lula.

Em nota, lembrou que, no passado, Lula recorreu várias vezes à Justiça e teve seus pleitos reconhecidos para reparar danos. E que agora, ao ser punido, reclama.

Toda decisão judicial agrada a uma das partes do processo e desagrada à outra.

Isso faz parte da democracia. Tantas vezes, o então candidato, e agora chefe do Poder Executivo recorreu e teve seus pedidos acolhidos pelo Poder Judiciário, diz a nota. Os juízes não esperaram elogios por isso, porque estavam cumprindo seu papel, decidindo com independência, de acordo com a Constituição, as leis e as provas apresentadas.

Mattos citou a advertência feita pelo presidente do STF, de que Lula não deveria fazer brincadeiras com a Justiça, e disse que o presidente da República deveria ser o primeiro cidadão a defender o cumprimento da Constituição Federal e das decisões judiciais.

Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes reiterou que todos os brasileiros estão sujeitos às leis: Todos nós estamos subordinados à lei e à Constituição disse.

Sobre a declaração de Lula no congresso do PCdoB, disse: Não temos soberanos no Brasil.

Aqui todos estão submetidos à lei.

Quando haja algum eventual equívoco numa decisão judicial, dela se deve recorrer.

É muito simples.

O presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Brito, disse: Pessoalmente não me enxergo na frase, nem estou achando que foi endereçada à Justiça Eleitoral.

O Palácio do Planalto não comentou as reações. Já o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, e o assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia saíram em defesa de Lula. Para Barreto, o presidente está certo: a legislação tem de ser clara para ser cumprida. Para Marco Aurélio, Lula não criticou a Justiça, mas defendeu a reforma política.

Ao defender Lula, o assessor atacou o ministro Gilmar Mendes. Marco Aurélio Garcia disse que o ministro deveria falar menos nos microfones e mais nos autos dos processos no STF.

O presidente da Corte Suprema deve falar mais nos autos. É o que diz a tradição política brasileira disse Marco Aurélio.

Não é se preservar, é preservar o STF.

Lula foi multado duas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por fazer campanha antecipada para Dilma.

Em eventos públicos, o presidente disse que não tem dinheiro para pagar as multas no total R$ 15 mil.

Gilmar reagiu, dizendo que não se pode brincar com a Justiça.

Para o ministro da Justiça, a Lei Eleitoral não é subjetiva, mas as regras de comportamento na campanha devem ser sistematizadas e esclarecidas para preencher eventuais lacunas e evitar que a Justiça seja acionada para dizer o que é permitido ou proibido. O ministro é contra a chamada judicialização do processo eleitoral.

O presidente está correto em sua colocação. A legislação precisa ter regras claras para que sejam cumpridas argumentou Barreto.

Colaborou: José Meirelles Passos

Presidente do STF reage às críticas de Lula

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente do STF, Gilmar Mendes, reagiu às críticas do presidente Lula à Justiça Eleitoral, que o multou por fazer propaganda para a ex-ministra Dilma Rousseff. Todos nós estamos subordinados à Constituição e à lei, disse Mendes. Nós não temos soberanos. Todos estão submetidos à lei. Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República, criticou Mendes: Ele deveria talvez falar mais nos autos e menos nos microfones.

Mendes: "Todos estão submetidos à lei"

Mariângela Gallucci

BRASÍLIA - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, reagiu ontem às críticas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez na véspera à Justiça Eleitoral, que o multou duas vezes por propaganda eleitoral antecipada em favor da ex-ministra Dilma Rousseff. "Todos nós estamos subordinados à Constituição e à lei", afirmou Mendes.

"Nós não temos soberanos. Todos estão submetidos à lei", disse o ministro. "Se há eventual equívoco numa decisão judicial, dela se deve recorrer."

Na abertura do encontro do PC do B, na quinta-feira Lula afirmara que ninguém pode ficar esperando, a cada eleição, mudanças na lei e garantira que fará "campanha na rua" para Dilma. "Não podemos ficar subordinados ao que um juiz diz que podemos ou não fazer", declarou o presidente durante o evento.

Recentemente, o presidente foi multado duas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em R$ 5 mil e R$ 10 mil. A maioria dos ministros do TSE concluiu que ele fez propaganda eleitoral antes do permitido durante eventos em Manguinhos, no Rio de Janeiro ? em maio de 2009 ?, e em São Paulo, no Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados de São Paulo, no dia 22 de janeiro deste ano.

O presidente tem negado reiteradamente que faça propaganda "dissimulada". Ao ser multado pela primeira vez, creditou a punição aplicada pela Justiça Eleitoral a "barulho" da oposição. E recorreu contra a penalidade. "Espero que a multa seja anulada, uma vez que, no meu entendimento, não houve nem tem havido campanha antecipada nem dissimulada", afirmou no fim de março. Ocorre que seu recurso foi negado pelo plenário do TSE e a primeira multa, de R$ 5 mil, acabou mantida.

O evento do PC do B, na noite de quinta-feira, veio na sequência dessa derrota e serviu de palco para o presidente expressar seu inconformismo. "Não podemos permitir que nosso destino fique correndo de tribunal para tribunal" , protestou.

Transposição. Já o presidente do Supremo não é a primeira vez que critica o comportamento de Lula, exatamente por causa de suposta campanha eleitoral antecipada. Em outubro do ano passado, Mendes já dizia que o presidente "testa os limites de tolerância da Justiça Eleitoral" nas viagens com Dilma.

"Como vimos na mídia, houve sorteio, entrega, festas, cantores. Isso é o modo de se fiscalizar tecnicamente uma obra?", questionou o ministro, ao se referir a vistoria feita pelo presidente e pela então ministra às obras de transposição do Rio São Francisco. "Ninguém pode impedir o governante de governar e existe sempre a mais valia natural dos candidatos vinculados ao governo. Agora, é lícito transformar um evento rotineiro num comício?

Entendo que não. Certamente o órgão competente da Justiça tem de ser chamado para evitar esse tipo de vale-tudo."

Na lei ou na marra:: Míriam Leitão

DEU EM O GLOBO

O Ministério Público entra com ação contra o leilão de Belo Monte, e o presidente Lula diz que a usina será feita de qualquer maneira. O TCU aprova relatório mostrando a distribuição desequilibrada de recursos públicos, e o presidente diz que é leviandade. A Justiça Eleitoral multa o presidente, e ele diz: Não podemos ficar subordinados ao que um juiz diz que podemos ou não.

Tudo isso num dia. O chefe do Executivo investe contra o Ministério Público, o Tribunal de Contas da União e a Justiça Eleitoral, num ataque serial em apenas 24 horas. A República pressupõe independência dos poderes, portanto, a vontade do Executivo não é soberana; ela é contida pelo Judiciário, ao qual se recorre para revisões das decisões.

O TCU é órgão do Legislativo com pessoas nomeadas pelo governo para fiscalizar o uso do dinheiro público. O Ministério Público é independente e é função dele cuidar da legalidade da gestão pública.

Enfim, todos os órgãos estão cumprido seus papéis institucionais. Mas isso tem provocado reações furiosas do presidente da República.

Se fosse um cidadão comum fazendo essas declarações, seria um equívoco, sendo o presidente, com os poderes que tem, é perigoso.

Como remédio para os limites impostos pela legislação eleitoral, ele propõe uma reforma política, pela qual diz que vai lutar, quando estiver fora do governo. Não é para relaxar as regras de uso da máquina que a reforma foi pensada, mas é bom lembrar que como chefe do Executivo, com sua bancada majoritária, ele tinha mais chances de fazer a reforma do que quando for ex-presidente.

Sobre Belo Monte, recaem muitas dúvidas. De toda ordem: financeira, ambiental, de engenharia. Isso é que está assustando investidores.

Há um canal gigantesco que precisa ser feito, cujo estudo nunca foi feito adequadamente. Não se sabe se esse terreno é 90% pedra e 10% terra, ou o contrário. O custo do canal vai depender da natureza desse terreno diz Mario Veiga, presidente da PSR.

Portanto, o que assusta os investidores são dúvidas razoáveis.

O pesquisador Francisco Hernandez, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, coordenou um painel com 40 especialistas para estudar a obra. Ele chegou à conclusão de que o projeto não deveria ser feito, por ser ruim e caro. Além disso, a região é considerada de biodiversidade extrema. Normalmente, o impacto ambiental das hidrelétricas acontece com os alagamentos. Em Belo Monte, o impacto será duplo: além do alagamento, será preciso secar outra região, porque o rio terá que ser desviado. Isso nunca aconteceu no país e torna o projeto mais arriscado.

A ideia de construir hidrelétricas no Rio Xingu vem dos anos 80. No início, imaginavase a construção de seis a sete usinas, mas a pressão de ambientalistas, índios e técnicos fez com que os projetos fossem abandonados, restando apenas o de Belo Monte.

Desta vez, as autoridades ambientais disseram que fizeram exigências que a tornariam realizável. Mas as incertezas continuam. A usina será feita em área indígena, que exige legislação própria; continua a haver dúvidas sobre impactos graves; o leilão só pode ser feito depois da Licença de Instalação e só há a Licença Prévia. O Ministério Público está apontando uma série de descumprimentos de exigências a serem atendidas antes da licitação. Mesmo assim, o governo está dizendo que ela será feita. Só se reeditar o bordão na lei ou na marra, de um triste período do Brasil. A única forma de se fazer qualquer obra no estado de direito é respeitando todos os constrangimentos previstos na lei, todos os limites exercidos pela Justiça.

Na marra, não dá.

Do ponto de vista econômicofinanceiro, é uma temeridade iniciar qualquer obra apenas porque ela é um ícone do PAC, que é o carro-chefe da candidata do governo. A controversa usina de Belo Monte tem assustadores pontos obscuros do ponto de vista da viabilidade financeira também, além de ambiental.

O governo está dizendo que se não houver investidor privado fará com empresas estatais ou com fundos de estatais.

Isso pode acabar gerando mais um rombo para o país enfrentar no futuro.

Belo Monte tem sido apresentada como a terceira maior hidrelétrica do mundo, com capacidade de produzir 11 mil MW de energia, mas isso é o pico. Na média, a usina produziria 4,2 mil MW.

Hernandez explica que a flutuação das águas do rio é enorme: no inverno, a vazão é 40 vezes maior que no verão.

No período de baixa, será impossível ligar as turbinas.

Com isso, o potencial energético do rio será de apenas 39%, um dos mais baixos entre as hidrelétricas do país.

O pesquisador diz que a obra exigirá a construção de grandes represamentos, e isso contraria a recomendação da Comissão Mundial de Barragens (CMB), que chegou à conclusão, em 2002, de que quanto menor, melhor: Na nossa avaliação, Belo Monte é apenas um convite para novos barramentos. Depois que a usina ficar pronta, se chegará à conclusão de que novas barragens serão necessárias para aumentar a eficiência. Com isso, novas obras serão feitas. Esse projeto é uma reedição da ideia inicial, dos anos 80, só que começando pelo fim.

O projeto é distante do centro consumidor, exigirá obra de grande envergadura, desvio do rio. Não pode ser iniciada apressadamente apenas para constar das obras a serem brandidas nos palanques. Pela nota do Ministério Público, alertas de técnicos do próprio governo foram ignorados, na pressa em se conceder a licença prévia para a construção.

Em Belo Monte, se prepara para fazer concessões maiores para atrair investidores a qualquer preço e iniciar a obra em qualquer contexto jurídico, passando por cima de quaisquer dúvidas ambientais.

Isso porque, como disse o presidente: Belo Monte será construída. Talvez seja mesmo, mas antes será preciso cumprir a lei. Na marra, não será possível.

Com Alvaro Gribel

Rubens Ricupero: Adesão não contraria interesse nacional

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Da mesma forma que a democracia, segundo Churchill, é a pior forma de governo, exceto todas as demais, o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) é desigual e injusto, mas superior às alternativas existentes. Durante os 40 anos de sua vigência, renunciaram à arma atômica 11 países que já a possuíam ou desejavam adquiri-la (entre eles Brasil, Argentina e África do Sul).

Dos 4 que se tornaram nucleares, 3 (Índia, Paquistão e Israel) jamais assinaram o TNP, e a Coreia do Norte teve que deixá-lo antes de construir a bomba. O controle das armas de destruição de massa não é impossível, pois desde Hiroshima e Nagasaki o mundo viveu 65 anos sem que a tragédia se repetisse.

Brasil e Argentina tomaram juntos a decisão de abandonar seus programas nucleares rivais, desarmando perigosa corrida armamentista na América Latina e abrindo caminho à integração do Mercosul.

O processo culminou, em 1991, com a assinatura do acordo entre o Brasil, a Argentina, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a Agência Argentino-Brasileira de Controle, pelo qual os dois países aceitaram as inspeções da agência da ONU.A adesão ao TNP constituiu a consequência natural, pois a proibição da arma nuclear já constava da Constituição de 1988 e o acordo de 1991 havia criado para o país todas as obrigações que decorreriam do tratado.

Quando a adesão se deu, em 1997-1998, os únicos que não haviam assinado eram Índia, Paquistão e Israel, que tinham para isso uma razão: queriam adquirir a bomba (o quarto era Cuba, que aderiu logo depois). Que sentido teria tido para o Brasil ficar de fora, em companhia dos três belicistas, se já havíamos assumido na prática as obrigações do TNP?

O mesmo argumento se aplica ao Protocolo Adicional, que não é mais que a aceitação de fiscalização reforçada. O Brasil é dos raros países que permitem à agência acesso até a suas instalações militares. O que teríamos a temer se nada temos a esconder?

Alega-se que deveríamos proteger a originalidade de nossa tecnologia. O objetivo é legítimo, mas, segundo especialistas, pode ser perfeitamente assegurado pela negociação com a agência de modalidades que preservem os segredos tecnológicos.

Até agora, a recusa era justificada pelo desinteresse do governo americano de cumprir a obrigação de desarmamento constante do TNP.

A situação mudou totalmente com o advento do governo Obama, o acordo com a Rússia para redução de ogivas nucleares e a nova estratégia dos EUA, que restringe o papel das armas nucleares. Ainda se está longe do desarmamento, mas é mudança construtiva que deve ser encorajada.

Neste momento, a persistência da recusa será vista como obstrução à evolução positiva em curso. A infeliz coincidência com a visita do presidente Lula a Teerã avivará suspeitas sobre nossas intenções.

Cedo ou tarde, o processo de reforço do TNP conduzirá à proibição da exportação ou importação de urânio enriquecido e restrições de acesso tecnológico para os que rejeitam o protocolo. É risco gratuito quando nossa tecnologia pode ser preservada por negociação cautelosa.

Se o real motivo for armamentista, equivale a golpe gravíssimo contra a Constituição. O argumento da soberania não procede, pois a adesão não contraria o interesse nacional.

Que interesse haveria em adquirir a bomba para país que não está sob ameaça ou em zona de conflito, tendo completado 140 anos de paz ininterrupta com seus dez vizinhos?

Na hora lancinante da catástrofe do Rio de Janeiro, só o delírio de grandeza e a perda de contato com a realidade explicam desviar recursos escassos para prioridades erradas e desnecessárias como os desvarios atômicos. A realidade que chega pela tela da TV nos revela aonde estão nossos inimigos: não no exterior, mas aqui dentro.

A corrupção e a incompetência diante da urbanização selvagem, a patética incapacidade de salvar vidas, a falta de dinheiro para dar casa decente aos trabalhadores -são essas as ameaças a enfrentar. E não será com submarinos nucleares e urânio enriquecido que vamos diminuir um só desses perigos reais e imediatos.

Rubens Ricupero , 73, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, é colunista da Folha . Foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).

"Los Piqueteros" :: Cesar Maia

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A crise argentina que culminou com a queda do presidente De La Rua trouxe ao palco político os "piqueteros", ou desempregados que ocuparam as ruas, praças e estradas e pararam o país.

Os fatos explicavam a ação, violenta e incendiária. A força desses fatos levou documentaristas a fixar a imagem e as razões deles. O destaque foi tanto que os "piqueteros" passaram a ser um movimento permanente, independente da superação da crise que lhes deu origem. Como era de esperar, foram sendo incorporados a partidos políticos e por estes usados como força de pressão.

Com isso passou a haver "piqueteros" de distintas cores, e em especial os "piqueteros" kircheristas, ligados ao casal presidencial. "Piqueteros" profissionais, prontos a cumprir tarefas políticas, com ou sem razões.

A greve dos professores de São Paulo, provavelmente partindo de razões econômicas justificáveis, foi vendo surgir em meio aos que protestavam uma coluna de "piqueteros" profissionais, mobilizados partidariamente, de forma a cumprir um papel nesse processo eleitoral, a comando dos que apoiam a candidatura do governo. E foram até justificados pelo presidente da República. As imagens gravadas e disponíveis mostram que os "piqueteros" são partidários e profissionais e cumprem um papel como braço longo daqueles interesses eleitorais.

A superação desse fato específico não deve deixar a sua análise cair no esquecimento. A incrustação no poder de dirigentes partidários e sindicais, de movimentos, ONGs e organizações no estilo, generosamente financiadas pelos cofres públicos, aponta para uma luta aberta, antidemocrática, violenta, com o objetivo de criar pressões, constrangimentos e desgastes para a oposição.

O que há de novidade nisso não é o uso político das reivindicações econômicas, há tanto tempo conhecido, mas uma organização paralela, paramilitar, permanente, que surge nesse processo eleitoral, formatada como os "piqueteros" profissionais. A Alemanha dos anos 20 traz memória similar.

Dois desdobramentos são institucionalmente preocupantes.

O primeiro, no próprio processo eleitoral, em que, em cima do palanque esteja a retórica apaziguadora, mas embaixo estejam os "piqueteros" orientados para os mesmos objetivos. O segundo é que se deixe essas milícias políticas prosperarem e, numa alternância política própria da democracia, venham, como elemento de desestabilização política, afetar as instituições democráticas brasileiras.

Que se corte o mal pela raiz a tempo e a hora para que a democracia brasileira siga seu rumo de aperfeiçoamento, longe dos estímulos "bolivarianos".

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Reflexão do dia – Fernando Henrique Cardoso

Na década de 70 e mesmo no começo dos anos 80 o desafio era a redemocratização. Pode mesmo parecer de menor significação para quem não viveu no período a importância de dizer certas palavras: falar de tortura e de arbítrio, por exemplo. Hoje é fácil. Naquele tempo a menção poderia ter um custo imediato. Era preciso, embora temendo, arriscar-se. Sem riscos equivalentes, pois neste caso a discussão se dava no campo dos que se opunham à ditadura, tampouco era fácil pregar a necessidade de apoiar o MDB e propugnar por um amplo movimento da sociedade civil como forma de combate ao regime autoritário. Na época a esquerda que se julgava “verdadeira” empunhava armas e a intelectualidade progressista, mesmo sem sair de casa, torcia por ela e desconfiava de roteiros democráticos. Hoje somos todos democráticos, abominamos a violência e nos horrorizamos com os desmandos dos que comandaram o país no passado. Tanto assim que antigos apoiadores do regime militar são agora – sem que eu reprove suas mudanças de opinião nem os desqualifique – até mais entusiastas dos governos democráticos do que antigos militantes da esquerda.


(Fernando Henrique Cardoso, no livro Relembrando o que escrevi: da reconquista da democracia aos desafios globais, págs. 11-12 – Editoria Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2010)

Com ou sem PT?:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A agressividade com que a candidata oficial, Dilma Rousseff, estreou na sua campanha solo, longe dos cuidados do padrinho Lula, demonstra uma ansiedade própria dos que, sem experiência pessoal anterior, querem fazer tudo ao mesmo tempo, colocando a perder o que já têm.

O caso do estímulo a um suposto voto Dilmasia é típico. Essas traições eleitorais consentidas acontecem quando elas têm a força de um fato consumado, nascem da base para o alto, nunca o contrário.

Na eleição presidencial de 1960, Jango, candidato a vice na chapa do Marechal Henrique Lott, acabou sendo eleito numa dobradinha com Jânio Quadros.

O fenômeno "jangar" tomou conta das ruas, e Jânio, mesmo na oposição a JK, estimulou a chapa popularmente conhecida por Jan-Jan, abandonando seu vice Milton Campos.

Naquela época votava-se no vice separadamente do presidente, ao contrário de hoje - como bem lembrou Aécio Neves -, quando o nome do vice nem aparece na tela da máquina de votar.

Jango já fora eleito vice na eleição anterior, tendo mais votos que Juscelino para presidente. Lula e Aécio são fenômenos eleitorais. O governador mineiro por enquanto circunscrito a Minas; daí o voto Lulécio nas eleições de 2002 e 2006.

Não é o mesmo que acontece com Dilma, que a cada dia marca mais sua presença no cenário político como um apêndice do presidente Lula, sem luz própria.

A semente da discórdia já foi lançada em solo mineiro pela desastrada declaração de Dilma, incentivando a traição no voto Dilmasia que foi rejeitado com polidez mas firmeza pelo governador mineiro, Antonio Anastasia, candidato à reeleição.

E o candidato do PMDB, Hélio Costa, que lidera as pesquisas e enfrenta uma disputa com o PT mineiro, já sugeriu a chapa Serrélio, insinuando uma aproximação com o candidato tucano, que pode vir a se tornar realidade se o PT insistir em ter candidato próprio.

Anastasia, que por sinal é também um neófito em campanhas eleitorais mas parece ser mais cauteloso que Dilma, chamou a atenção para um fato que a candidata oficial parece desconhecer: cada eleição tem suas circunstâncias, e as de hoje não são as da eleição anterior.

Mesmo porque desta vez Aécio Neves está disputando o controle político do estado com o grupo governista, e não lhe basta se eleger para o Senado.

Tem que fazer seu sucessor e preferencialmente ajudar seu partido a eleger o presidente da República, para que possa chegar a Brasília como o grande eleitor de Serra e se impor na aliança governista como o líder inconteste.

Além disso, mesmo que insista no argumento de que ajudará mais o PSDB como candidato ao Senado, até junho pode se convencer de que sua presença na chapa do partido, como vice de Serra, define uma eleição apertada e lhe dará a visibilidade nacional que falta neste momento.

Até junho, apenas três fatos políticos podem mexer com a campanha presidencial antes da propaganda oficial de rádio e televisão: duas, que dependem do PSDB, como o lançamento da candidatura de Serra, que acontecerá amanhã em Brasília, e a escolha de seu vice.

A terceira é a oficialização da retirada da candidatura de Ciro Gomes, do PSB, à Presidência, o que sempre tem aumentado a diferença de Serra para Dilma.

Ao contrário, nada de novo está para acontecer até as convenções de junho a favor de Dilma, que continuará dependente da popularidade de Lula, ou "lulodependente".

Mesmo a escolha de seu vice não mudará nada se for confirmada a adesão oficial do PMDB, com a indicação do presidente da Câmara, Michel Temer. Mas se a unidade do PMDB se desfizer devido a alianças políticas frágeis, esta será uma notícia negativa para a candidata oficial.

É por essa razão que a situação na corrida presidencial tende a se manter estável, com uma dianteira média do candidato tucano de cinco pontos percentuais, variando de acordo com o instituto de pesquisa e seus métodos.

Uns institutos apertam essa diferença para 3 a 4 pontos, outros a alargam para até 9 ou 10 pontos.

O que parece certo é que até o momento o eleitorado tem se mantido dentro das previsões, com a candidata oficial recebendo cerca de 30% dos votos; o candidato oposicionista, na faixa dos 35%; e outro terço do eleitorado se mantendo indefinido, à espera da campanha propriamente dita, depois da Copa do Mundo.

Isso demonstra também que, mesmo tendo até 80% de avaliação positiva nas pesquisas, o presidente Lula dificilmente transformará sua popularidade em votos para Dilma.

Há uma parte da eleição que só pode ser feita pelo próprio candidato, que tem que convencer o eleitor de que ele é melhor alternativa que seu adversário. Mesmo porque a mesma pessoa que acha bom o governo Lula pode considerar que Dilma não é a pessoa certa para dar continuidade a ele.

É nesse aparente paradoxo que está apostando o candidato tucano, José Serra, que pretende receber o voto de eleitores que, gostando do governo Lula, não são fanáticos a ponto de seguirem cegamente as ordens do líder.

Também Dilma teme essa tática, e tenta evitar que dê certo chamando de "lobo em pelo de cordeiro" o oposicionista que diz que vai continuar o governo Lula.

Assim como Lula prometeu mudar tudo e manteve o essencial, que é a política econômica, agora Serra acena a esse eleitorado ainda não definido com um governo de continuidade mas que mudará o essencial, isto é, não terá o PT.

Dilma tem mostrado, por enquanto, sua faceta mais dura e uma submissão a Lula que pode dar segurança aos seguidores de Lula mais fanáticos, mas também colocar em dúvida eleitores mais independentes.

Serra se apresentará amanhã como um moderado com experiência política e administrativa.

Esse parece ser o ponto decisivo dessa eleição: o eleitor quer experimentar um governo do PT sem Lula como mediador?

Noviça rebelde:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Conhecida pelo alto grau de exigência no trabalho e pela forma nem sempre gentil de cobrar eficiência total, Dilma Rousseff agora se vê na posição inversa. Cristã nova na política, ela vai precisar que seus pares tenham paciência para lhe ensinar os caminhos das pedras e uma boa dose de condescendência para compreender e, sobretudo, tolerar nessa fase inicial alguns equívocos.

Por exemplo, deixar-se fotografar sorrindo na visita ao túmulo de Tancredo Neves.

Um político, ou política, com um mínimo de experiência tampouco teria se arriscado a enveredar pelo terreno do trocadilho sugestivo de uma aliança tácita entre o eleitorado do PT e o do PSDB para a formação do voto "Dilmasia" ou "Anastadilma" em Minas Gerais - Dilma Rousseff para presidente e Antonio Anastasia para governador.

Em um lance apenas, a pré-candidata do PT conseguiu fazer uma piada sem graça, sugerir que o ex-governador Aécio Neves, a quem pretendia elogiar, poderia trair o candidato do partido dele, José Serra, menosprezar a candidatura do pemedebista Hélio Costa e ainda ignorar o postulante ao governo do próprio PT, Patrus Ananias.

Por causa da frase mal posta levou uma invertida de Hélio Costa, que respondeu sugerindo apoio a José Serra - "Que tal Serrélio?" -, e foi desmentida pelo candidato de Aécio a governador. "Essa expressão (junção de Dilma e Anastasia) não tem amparo na realidade", disse ele, a quem era dirigido o agrado.

É evidente que esse tipo de coisa não compromete a aliança com o PMDB, nem significa que Hélio Costa vá, por causa da declaração de Dilma, mudar de posição e fechar com o PSDB. Se tiver de fazer isso mais à frente será por causa de decisões do PT mineiro.

Mas são atitudes que comprovarão o amadorismo da candidata no ramo se somadas a atitudes da mesma natureza daqui em diante.

Isso mina a credibilidade dela, subtrai sua capacidade de liderança junto aos partidos aliados e levanta a desconfiança sobre a possibilidade de Dilma, uma vez eleita presidente, conseguir se articular com o Congresso.

É verdade que o presidente Luiz Inácio da Silva parece entender que esse papel cabe a ele cumprir. O problema é que cabe até certo ponto. A candidata é Dilma.

Daqui em diante ela andará mais e mais por conta própria. Terá de responder a perguntas muitas vezes capciosas, com potencial de consequências nem sempre perceptível a olho nu para quem não tem um bom tempo de estrada.

Lula e Ciro Gomes mesmo quantas vezes não disseram que quando concorreram de outras vezes à Presidência da República quando eram menos experientes não estavam preparados?

Em sua despedida do governo, Dilma assegurou que estava. Garantiu que participaria de debates, que a vida a preparara para dificuldades e que, se passara pelo período da ditadura quando era tudo mais difícil, não seria na democracia que encontraria obstáculos.

Perfeito. Em tese. Mas o primeiro teste no giro por Minas Gerais indicou à pré-candidata que a autoconfiança será mais bem aproveitada se a ela forem acrescentadas horas de aprendizado duro no exercício de fazer política. Um ofício que requer prática e habilidade específica.

Voltemos ao caso da declaração de Minas. Se Dilma planejava fazer um agrado ao candidato do PSDB, caberia combinar a jogada antes com o parceiro de fato, o PMDB, avisando também ao PT.

Quanto à explícita sedução para o lado de Aécio Neves, o problema é que foi explícita demais. Ofensiva até. Se a ideia era semear a cizânia na seara tucana, o efeito obtido foi o oposto, pois obriga os alvos dos elogios a recusarem em público as fidalguias e a reafirmarem, como fez Anastasia, que ficarão cuidando de suas vidas exatamente onde estão.

Resumindo, Dilma Rousseff precisa melhorar a performance. Na estreia solo riu na hora errada, repetiu uma piada que já não combinava com o contexto, foi repreendida pelos aliados, tentou agradar aos adversários e ouviu um não muito obrigado.

É noviça e por isso mesmo não pode ser rebelde. Nem autossuficiente.

Choro N° 1 (Heitor Villa-Lobos) - Turibio Santos

Choro N° 1, composto em 1920 pelo brasileiro Heitor Villa-Lobos, para violão solo, aqui executado pelo exímio violonista brasileiro Turibio Soares Santos.

Campanha de Serra escala núcleo político

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Deputados Aleluia e Paulo Bornhausen serão os interlocutores do DEM; João Almeida já foi recrutado no PSDB e Fernando Coruja vai falar pelo PPS

Ana Paula Scinocca e Carol Pires

O núcleo da pré-campanha do PSDB à Presidência definiu ontem um grupo de políticos que vai atuar como interlocutores de José Serra nesta fase.

Em conversas com o presidente do partido, o senador Sérgio Guerra (PE), ficaram definidos nomes de políticos do próprio PSDB e dos aliados DEM e PPS. Falarão pelo DEM os deputados José Carlos Aleluia (BA) e Paulo Bornhausen (SC).

Líder do PSDB na Câmara, o deputado João Almeida (BA) já foi escalado. Pelo PPS, o deputado Fernando Coruja (SC) também foi convocado. Outros nomes serão definidos nos próximos dias pelos presidentes do PSDB, do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), e do PPS, Roberto Freire. Senadores dos três partidos devem completar a equipe.

A missão dos interlocutores será responder a eventuais críticas dos adversários, defender discursos do candidato e divulgar a campanha para toda a sociedade. Eles também vão dar entrevistas à imprensa, de maneira a desafogar o trabalho, hoje praticamente exclusivo, de Sérgio Guerra. A ordem dada a todos foi a de não deixar nenhum ataque da campanha adversária Dilma Rousseff (PT) sem resposta.

Ofensiva. José Serra anunciará a pré-candidatura amanhã, em evento da coligação, que já conta com três partidos. O PSDB também iniciou uma forte ofensiva para tentar trazer o PP para a campanha tucana, embora a legenda tenha cargo no governo Lula - o Ministério da Cidades com Márcio Fortes.

O senador Francisco Dornelles (PP-RJ) é um dos nomes cotados para a vice-presidência da chapa de Serra, caso o PP decida formalizar a coligação com o PSDB. Os pepistas, no entanto, esperam maior definição do cenário eleitoral nos Estados antes de bater o martelo em favor da aliança com os tucanos ou petistas. Segundo o Estado apurou, parte do PP defende neutralidade nas eleições de outubro, o que liberaria os integrantes do partido para coligações diversas nos Estados.

O PSDB tem pressa para definir ainda a vinda dos nanicos PSC e PMN para a chapa de Serra.

Os tucanos têm interesse nas duas siglas, de olho no tempo de TV. A preocupação da campanha tucana é arregimentar o maior número de aliados para contrapor ao tempo de TV que o PMDB vai agregar à campanha governista Dilma Rousseff. A festa de lançamento da pré-candidatura de Serra está marcada para amanhã, a partir das 9 horas no espaço Brasil XXI, em Brasília.

Serra pregará ativismo estatal ao lançar-se

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Raymundo Costa e Raquel Ulhôa, de Brasília

O PSDB formaliza amanhã a pré-candidatura a presidente de José Serra, ex-governador de São Paulo, em aliança com o DEM e o PPS. Em discurso, Serra deve apresentar "um conjunto de valores políticos" que pretende seguir, se for eleito, e como acha que deve ser o Brasil do futuro. O tucano prega o "ativismo estatal", mas não planeja mudar as bases nas quais se assentam a economia - meta de inflação, superávit primário e câmbio flutuante. Apesar de liderar as pesquisas, Serra precisou de muito tato para assegurar sua escolha pelo PSDB sem rachar o partido, uma vez que o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves também postulava a indicação.

Agora candidato ao Senado, Aécio é peça-chave na equação tucana para vencer a eleição. Segundo o governador Alberto Goldman, que sucedeu Serra, o PSDB vai se empenhar para conseguir em São Paulo uma diferença de votos em relação ao PT "bem mais expressiva do que a que o Geraldo teve". Goldman refere-se aos 11,9 milhões de votos (54,1%) que o candidato em 2006, Geraldo Alckmin, teve contra os 8,09 milhões (36,7%) obtidos pelo atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro turno (no segundo a diferença diminuiu, mas ainda foi larga: 52,2% a 47,7%). Se o tucano obtiver uma diferença também expressiva em Minas (onde Lula venceu Alckmin em 2006), boa parte da empreitada terá sido alcançada.

O governo aposta no conflito Serra-Aécio para impedir que Minas, há mais de sete anos governada pelo PSDB, seja fiel ao candidato tucano. No discurso que fará amanhã no encontro de lançamento da pré-candidatura, Aécio deve falar de unidade tucana. Ontem, o governador Antonio Anastasia, que sucedeu Aécio e é candidato à reeleição, também limitou ao plano "institucional" suas conversas com Lula e assegurou que a disputa será entre governo e oposição, em Minas Gerais. Caso Serra se mantenha com chances na disputa, os caciques tucanos acham pouco provável que a seção mineira desande em direção ao PT.

Em 2006, inspirada pelo ex-coordenador político do governo Walfrido dos Mares Guia a chapa "Lulécio" - combinação de Lula com Aécio - minou a candidatura de Alckmin em Minas. A diferença, na avaliação dos tucanos, hoje é essa: o candidato do PT não é Lula e nem disputa uma reeleição, é a ex-ministra Casa Civil Dilma Rousseff. São esses fatores que também alimentam o otimismo do governador Alberto Goldman em relação ao desempenho do candidato do PSDB no Estado de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

Serra, segundo as pesquisas, vence no Sul do país, mas tem problemas no terceiro maior colégio eleitoral, o Rio de Janeiro, onde perdeu em 2002 por ampla diferença (o ex-governador do Estado Anthony Garotinho também era candidato a presidente, à época): a aliança do PSDB com o PV e o DEM está ameaçada no Estado por conta do veto do PV à associação com o ex-prefeito César Maia (DEM), candidato ao Senado. Na cúpula do PSDB afirma-se que ou os partidos ficam todos juntos ou não haverá aliança na eleição. A aposta mínima tucana é que a candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) deve rachar o eleitorado lulista do Rio.

Serra não subestima a popularidade de Lula, que beira os 80%, de acordo com as últimas pesquisas. Mas aposta na confrontação de currículos dele e da ex-ministra Dilma Rousseff: a Presidência é o único posto importante de fora do currículo do tucano. Desde a volta do exílio, Serra foi secretário do governador Franco Montoro, ministro do Planejamento e da Saúde, nos governos de Fernando Henrique Cardoso, prefeito da capital e governador de São Paulo. Desde a derrota para Lula em 2002, vem numa sequência de vitórias eleitorais - prefeito, em 2004 e governador em 2006.

Até o fim do mês passado, o PT provocava e muitos tucanos acreditavam que Serra não trocaria uma reeleição considerada certa para o governo de São Paulo por uma eleição incerta a presidente, dúvida que crescia na mesma medida do aumento da popularidade de Lula. "Ele é muito popular", costumava repetir o tucano, nas conversas pessoais. Ao mesmo tempo, anunciava aos partidários: "Batalhas não se perdem de véspera". E por mais de uma vez repetiu o bordão preferido do ex-governador paulista Mário Covas: "Lutar, enfrentar e vencer". Esse traço épico apareceria em outras conversas com tucanos, nas quais dizia que não fugiria à sua "responsabilidade com o país". Serra evita criticar Lula, mas é impiedoso com a administração petista. "O plano da habitação é um estelionato (eleitoral) como nunca houve", é seu parecer, por exemplo, sobre o Minha Casa, Minha Vida. "É um estelionato".

O lançamento da pré-candidatura de Serra ocorre num momento de avançadas negociações do PSDB com outros partidos, especialmente PP, PSC e PMN, hoje na base de sustentação do governo, para que seja ampliada a coligação nacional. No caso do PP, a tendência é que o partido não apoie qualquer candidato a presidente, abrindo caminho para as alianças estaduais.

Aliados de Serra dessas legendas - assim como de aliados do PMDB - devem participar do evento, mas não terão direito de usar a palavra. Falarão, apenas, os presidentes do três partidos da aliança - PSDB, DEM e PPS -, o ex-governador Aécio Neves, em nome dos governadores, Fernando Henrique Cardoso e Serra.

À exceção do pré-candidato, todos devem fazer discursos curtos, de até 15 minutos. Entre a fala de FHC e a de Serra será exibido um vídeo de cerca de seis minutos sobre a trajetória pública do ex-governador. "O evento vai surpreender os mais otimistas", disse o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

Os presidentes dos três partidos devem combinar o tom dos discursos. A expectativa é que Guerra, que será o coordenador-geral da campanha, faça um pronunciamento pregando unidade e mobilização. O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), deve assumir tom mais contundente, de críticas ao governo. Já o presidente do PPS, ex-senador Roberto Freire, pode transmitir uma mensagem mais ideológica.

A direção do PSDB comemora alianças fechadas com o PSB, um dos principais partidos da base aliada de Lula, em Estados como Paraíba, Amazonas, Paraná e Alagoas. Há conversas entre as duas legendas em outros Estados, como Espírito Santo.

Além de outras indefinições, Serra está sem palanque no Amazonas e no Ceará. Um caso atípico é o do Ceará, no qual a aliança PSDB, DEM e PPS não tem candidato a governador, e a tendência é que continue assim. Mas a situação do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) - que quer disputar a Presidência da República, mas não tem apoio nem do seu partido e está em rota de colisão com o PT - favoreceria a candidatura presidencial tucana no Ceará, onde os candidatos do PSDB (Serra e Alckmin) encontraram muitas dificuldades nas eleições de 2002 e 2006.

O atrito pode enfraquecer a aliança do governador, Cid Gomes (PSB), irmão de Ciro, com o PT no Estado. Esse quadro pode facilitar a aliança branca de Cid com o senador Tasso Jereissati (PSDB), que disputa a reeleição. Nesse caso, o PSDB tem a expectativa de conquistar para Serra parte do eleitorado de Cid.

Tucano defende pensamento progressista

DEU NO VALOR ECONÔMICO

De Brasília

Dizer que José Serra é um economista "cepalino" é um lugar-comum entre os congressistas, especialmente os adversários. O termo é usado como sinônimo de algo retrógrado. Poucos, no entanto, sabem exatamente o que pensa hoje José Serra sobre a economia, talvez porque o tucano evite o apelo às manchetes fáceis nas palestras, aulas e conversas com a classe política nas quais costuma divergir de maneira cristalina da atual política econômica, especialmente no que se refere ao desequilíbrio das contas externas, juros altos e à sobrevalorização cambial.

"Cepalino" é uma referência à Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão das Nações Unidas que está na origem da formação econômica de Serra e que por muito tempo foi vista como uma espécie de contraponto à escola monetarista.

Serra rejeita a pecha de "neoliberal" que o PT colou aos governos tucanos. Prefere o termo progressista, que para ele significa aliar a economia de mercado ao "ativismo governamental". Trata-se de uma expressão presente nos discursos de Serra desde antes de sua primeira candidatura a presidente, em 2002, até eventos mais recentes. Para Serra é preciso distinguir Estado ativo de Estado produtor. São políticas ativas o que ele pretende exercer na Presidência, se vencer a disputa eleitoral de 3 de outubro.

Essa é a atualização no pensamento de esquerda que tem pregado nos últimos anos, menos em entrevistas ou pronunciamentos bombásticos e mais em palestras ou aulas as quais é convidado a ministrar. Serra lamenta que parte da esquerda continue apegada ao "ideário dos anos 60", como a socialização dos meios de produção, e insista numa concepção caricatural do neoliberalismo, cesto no qual são colocados todos os que aceitam o investimento externo e menos intervenção do Estado e condenam os privilégios das corporações - como vê ocorrer hoje no Estado brasileiro.

Serra, evidentemente, acha que neoliberalismo é um monte de outras coisas, como, por exemplo, a crença no "automatismo do mercado" para assegurar o crescimento e reduzir a pobreza. O tucano acha que é possível conciliar economia de mercado e ativismo estatal para assegurar o crescimento econômico acelerado. "Em países como o nosso, não há distributivismo possível a médio e longo prazos sem taxas elevadas de crescimento", dizia já no início dos anos 2000 em palestra realizada no Instituto Sérgio Motta, em São Paulo, texto que atualmente faz sucesso em redes sociais e entre economistas.

O desafio do pensamento progressista para José Serra, portanto, é compatibilizar mais abertura externa e menos Estado produtor com seu ideário histórico de soberania nacional e justiça social. Considera um equívoco dizer que a combinação das duas coisas venha a ser necessariamente neoliberalismo.

Serra é um dos poucos brasileiros a criticar a atual política econômica, responsável pela estabilização da economia e, mais recentemente, pela retomada do crescimento do país. Acha que o Produto Interno Bruto (PIB) deveria e poderia ter crescido muito mais antes da crise econômica de 2008. Crescer mais seria a chave para maior distribuição de renda. O tucano em geral é ácido nas críticas à política monetária e ao seu condutor, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. Acha que a política de valorização do câmbio é simplesmente um erro, nada mais, nada menos, como deixou claro em outra manifestação recente - um artigo para a edição comemorativa dos 40 anos do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Nesse artigo, Serra diz que manterá o tripé no qual se assenta a política macroeconômica - regime de metas para a inflação, superávit primário das contas públicas e câmbio flutuante. Mas assegura que há modos diferentes de agir sem ter que desmontar o tripé. O tucano teme a desindustrialização do país em função da política de juros altos (e que devem voltar a subir ao longo deste ano) e da sobrevalorização cambial. Se isso de fato ocorrer, como é prognóstico do ex-governador de São Paulo, o risco é o país ficar refém do modelo primário exportador.

Enquanto critica a política de Meirelles, Serra é mais receptivo ao ministro Guido Mantega, da Fazenda, a quem costuma tecer elogios, em conversas reservadas. Mantega, um ex-colega dos tempos do Cebrap, é um "desenvolvimentista", adjetivo que tem perseguido Serra ao longo de sua vida pública - e pelo que diz e escreve, S erra não vê incompatibilidade entre economia de mercado e ativismo governamental (ou estatal, como tem falado mais recentemente).

Uma incógnita sobre um eventual governo Serra é a relação que o tucano terá com o mercado financeiro. Na campanha de 2002, Serra tinha claro que não era o candidato dos financistas. Agora também o discurso do ex-governador e o interesse dos bancos parecem desavindos, muito embora em sua campanha sejam encontrados o que se pode chamar de "representantes do setor", desde o ex-senador pefelista Jorge Bornhausen ao banqueiro tucano Luiz Carlos Mendonça de Barros. (RC)