terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Entrevista |70 anos sem George Orwell: 'nunca houve tanto desprezo pela verdade', diz especialista no escritor

Jornalista britânico Dorian Lynskey fala sobre a recepção do clássico distópico '1984', tema de seu novo livro

Ruan de Sousa Gabriel – O Globo / Segundo Caderno

SÃO PAULO – "Não é um livro em que eu apostaria como sucesso de vendas”, escreveu George Orwell a seu editor, Fred Warburg, em dezembro de 1948. Orwell se referia a “1984”, distopia publicada em meados do ano seguinte — e sete meses antes de sua morte, em 21 de janeiro de 1950, há exatos 70 anos. Ao contrário do que suspeitava seu autor, “1984” frequenta até hoje as listas de mais vendidos.

Orwell já vendeu mais de 100 milhões de livros em cerca de 50 idiomas. Historicamente, a procura por seus livros tende a aumentar em tempos de turbulência política, e ano passado, no Brasil, “A revolução dos bichos” e “1984” foram o sétimo e o décimo livros de ficção mais vendidos, segundo o site “Publishnews”. Lançada em dezembro pela Companhia das Letras, a edição de luxo de “1984” já vendeu 3 mil exemplares.

E vem mais por aí. Nos próximos meses, a Companhia lança uma edição de luxo de “A revolução dos bichos”, “1984” em quadrinhos e “O Ministério da Verdade: uma biografia de ‘1984’”. Neste livro, o jornalista britânico Dorian Lynskey investiga a recepção do livro que popularizou a expressão “Big Brother” e como a passagem de Orwell nas trincheiras da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ajudou a transformá-lo em um militante da verdade. (O Ministério da Verdade, aliás, é a instituição responsável pela propaganda e pelo revisionismo histórico em Oceânia, onde se passa “1984”).

Em entrevista por e-mail ao GLOBO, Lynskey disse que a principal lição de Orwell é o compromisso com a honestidade.

• Por que escrever uma biografia de “1984” e não do próprio autor do livro, George Orwell?

Em 2016, comecei a me interessar pela trajetória deste gênero literário específico, a ficção distópica. Foi quando me dei conta de que, ao contar uma biografia de “1984”, eu podia, de uma vez só, lançar um novo olhar sobre a vida de Orwell e o contexto histórico em que ele viveu e ainda examinar por que o livro continua a ser relevante. Quando estava escrevendo o projeto do livro, Donald Trump foi eleito. O aumento das vendas de “1984” depois da posse dele confirmou que valia a pena escrever esse livro.

• Muito se discutiu se “1984” era uma denúncia do nazifascismo, do comunismo soviético ou das tendências autoritárias do capitalismo americano. Você remonta as origens do livro à Guerra Civil Espanhola, na qual Orwell lutou contra as forças de Franco. Por quê?

Orwell foi para a Espanha acreditando que o fascismo era a principal ameaça à liberdade, enquanto o comunismo soviético, que ele nunca apoiou fervorosamente, era um contrapeso necessário. Ficou horrorizado ao ver republicanos perseguirem a esquerda que não seguia as diretrizes de Moscou, como o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), do qual ele fazia parte. Concluiu que o stalinismo e o nazismo eram duas faces do mesmo monstro totalitário. Para ele, foi estarrecedor ver intelectuais de esquerda pró-Stalin repetirem as mentiras que tinham condenado seus camaradas na guerra civil e se recusarem a publicar seu relato da guerra, “Lutando na Espanha”. Foi quando experimentou o que seria o tema central de “1984”: o pesadelo criado pelo desaparecimento da verdade objetiva.

Hélio Schwartsman - O buraco é mais embaixo

- Folha de S. Paulo

A indisposição de Bolsonaro com os fatos é gritante.

Já se tornou um lugar-comum classificar o governo de Jair Bolsonaro como anticientífico. Eu receio, porém, que o buraco seja mais embaixo. A administração Bolsonaro é não apenas anti-intelectual mas também pré-lógica e antifactual.

Um exemplo recente da incongruência de Bolsonaro foi o episódio do não veto ao Fundo Eleitoral de R$ 2 bilhões, que frustrou as expectativas de parte de sua base eleitoral. O capitão reformado tentou justificar sua atitude afirmando que não tinha alternativa que não a de sancionar o projeto, pois é um “escravo da lei” e que até correria o risco de sofrer impeachment caso vetasse a proposta.

Concordo que autoridades devem cumprir a lei, mas é importante notar que, num mundo onde vigora a lógica, um projeto só se torna lei após sanção ou promulgação pelo presidente. Antes disso, não cria nenhum tipo de obrigação. No mais, embora a lei nº 1.079, que regulamenta o impeachment, seja suficientemente aberta para permitir que quase qualquer estripulia seja classificada como crime de responsabilidade, ela em nenhum momento afirma, nem mesmo insinua, que um presidente não pode vetar uma proposta legislativa que lhe pareça caminhar contra o interesse público.

Ranier Bragon - A malinha de Wajngarten

- Folha de S. Paulo

Caso do chefe da Secom é teste para autonomia de Ministério Público e órgãos de controle

Na única vez em que se manifestou pessoalmente sobre suas relações público-privadas, o chefe da comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, afirmou não ter apego mesquinho ao cargo. "Quando o Fabio tiver errado, eu pego a minha malinha e vou embora", afirmou. Disse ainda estar no governo por ter se apaixonado por um então deputado que se destacava pela ética, sinceridade e humildade. Como não revelou o nome, ficamos sem saber quem diabos era esse ser sublime.

Afetados por essa lacuna, nos confortamos, porém, ao ouvir que Wajngarten diz tratar a coisa pública com o máximo de "ética, transparência e modernidade". Se se manter dono de uma empresa com clientes que se beneficiam de verba liberada por ele insere-se nesse esforço ético e moderno, estamos mesmo lascados.

Pablo Ortellado* - Indignação impassível

- Folha de S. Paulo

Vídeo de ex-secretário gera reações de júbilo que nos distraem da missão política de desarmar o bolsonarismo

Vivemos uma espécie de paradoxo. Crise após crise ficamos apavorados com o futuro da democracia no Brasil. Mas não estamos propriamente reagindo. É verdade que nos indignamos, mas é uma mistura de indignação com inação. Assistimos a tudo chocados, revoltados, porém, apáticos.

Em artigo na revista Piauí, Marcos Nobre descreveu assim o paradoxo: “Mesmo quem considera que a situação é gravíssima age como se estivéssemos diante de um governo normal. Há um descolamento flagrante entre repetir à exaustão que a democracia está em risco e a ausência do sentido de urgência que deveria acompanhar essa constatação”.

Por que estamos desorientados, sem qualquer capacidade de reação efetiva? Nossa única reação parece ser a de nos indignar e culpar a parcela de eleitores que elegeu e agora apoia Bolsonaro. É como se o reforço de nossa identidade funcionasse como substituto da ação política. Somos, ao que parece, reféns de identidades políticas hipertrofiadas.

Muitos não esconderam o júbilo quando as referências conceituais e estéticas do vídeo de Alvim emergiram. É nazismo! E, se é nazismo, somos antinazistas, e se somos antinazistas, estamos, mais do que nunca, do lado certo da história.

Joel Pinheiro da Fonseca* - O mercado não se importa com a democracia?

- Folha de S. Paulo

Não existe incoerência entre PIB em crescimento e repressão em alta; é só ver a China

Um medidor da qualidade da água de um rio mede apenas a água que passa por ele e, se o faz com precisão, cumpre bem sua função. Ninguém esperaria que seus números refletissem também o nível de desemprego no país, a desnutrição infantil ou a chance de o país entrar em guerra.

Indicadores econômicos e números do mercado financeiro seguem a mesma lógica: nos informam acerca de um recorte da realidade, e só. Se a bolsa bate novos recordes, significa que os investidores estão otimistas com o desempenho futuro das empresas ali negociadas, não da seleção de futebol ou da democracia brasileira.

Em última análise, o desempenho das empresas depende do comportamento dos consumidores e outros participantes do mercado. Você vai mudar seu consumo, deixar de comprar leite ou carne, por causa do discurso nazista do ex-secretário da Cultura? Vai pedir demissão do seu emprego? O governo também não mudará seus gastos e nem sua arrecadação. Assim, por mais que a agenda cultural aponte para um retrocesso das artes, não há motivo evidente para que isso devesse gerar queda na bolsa ou alta da taxa de câmbio.

Entrevista | Leandro Karnal: ‘Moro e Dallagnol são dotados de um certo tenentismo’

Historiador diz que atuação do ex-juiz e atual ministro e do procurador da República se compara ao movimento de oficiais do Exército na década de 1920 que buscava reformar o País ‘para o bem e para o mal’; segundo ele, ‘papel messiânico do Estado’ une Bolsonaro e Lula

Vinícius Passarelli e Eduardo Kattah – O Estado de S. Paulo

Quase três anos após apagar das redes sociais uma foto na qual aparecia jantando com o ex-juiz Sérgio Moro, o que lhe rendeu críticas e muitas ameaças, o historiador Leandro Karnal afirma que personalidades como Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol trazem elementos de um “certo tenentismo” à política brasileira. Trata-se de uma referência ao movimento oposicionista de oficiais do Exército na década de 1920.

“Esse tenentismo é reformador do País. Seja na década de 1920, com tenentes conservadores ou de esquerda, seja depois quando esses tenentes se tornam generais em 1964. Esses tenentes continuam querendo transformar o Brasil, para o bem e para o mal”, compara.

Em entrevista ao Estado, Karnal também diz que a crença em um “papel messiânico” do Estado une o presidente Jair Bolsonaro ao ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva. “(É a crença de que) O Estado vai salvar a família, o Estado vai tirar os pobres da miséria, o Estado vai dar emprego, o Estado vai impedir o comunismo, o Estado vai implantar o socialismo: o Estado tem papel messiânico.”

Karnal recebeu a equipe do Estado na manhã da quinta-feira passada em seu confortável apartamento nos bairro dos Jardins, em São Paulo. Uma entrevista em que se comprometeu e estava disposto a falar de política.

Leia os principais trechos:

• Como avalia o primeiro ano do governo Bolsonaro? Durante as eleições de 2018, em entrevista ao ‘Estado’, o senhor identificou um sentimento de “vingança” na sociedade brasileira. Esse sentimento permanece?

Quando Bolsonaro assumiu, houve esse sentimento. Eu sou ligado à universidade e muitos diziam: “Acabou, é o fim, não vai existir mais vida civilizada depois disso”. Acho que a grande surpresa para todos é que o Bolsonaro é um homem que na prática vem cumprindo o que prometia (risos. Nós achávamos que era um pouco discurso de campanha, que era para o eleitorado, que como todo político ia fazer um discurso e depois uma prática mais conciliadora, como o fizeram Lula e Fernando Henrique. O Bolsonaro de fato cumpriu (as promessas). Ele fez uma conversão pessoal porque ele não era um liberal há 30 anos, ele não era adepto de um Estado mínimo, não era um leitor da Adam Smith, com certeza. Ele era um militar com perfil talvez até do desafeto dele, o (Ernesto) Geisel: desenvolvimentista nacionalista estatizante. Agora, o governo é feito por muitas tendências políticas e existe uma coisa completamente diferente, por exemplo, entre o ministério do Guedes e talvez outros elementos do governo Bolsonaro. Mas o mundo não acabou, as coisas seguem.

• Bolsonaro na Presidência colocou ou coloca em risco a democracia? Em artigo recente, o cientista político Carlos Pereira afirma que “é possível que as reações da sociedade às transgressões de Bolsonaro às normas de civilidade democrática possam fortalecer ainda mais a democracia”. O sr. concorda com essa ideia?

O Brasil enfrentou um doloroso processo de impeachment do Collor e um doloroso processo de impeachment da Dilma e chega ao governo Bolsonaro, que tem feito declarações que não são as clássicas que se espera de um governo no sentido da defesa do Estado Democrático de Direito. Uma coisa é o discurso, outra coisa é a prática. A democracia, arranhada nos discursos e em algumas práticas, sobrevive. Nós temos instituições. O presidente do Supremo está lá exercendo seu poder por indicação de um partido de oposição a Bolsonaro. A liberdade do Executivo no Brasil é um pouco menor do que as pessoas imaginam, apesar de ter uma quantidade gigantesca de cargos a indicar. A democracia está sempre em risco pela própria existência do Estado, o grande risco democrático é a existência do Estado. Acho que tanto a esquerda tradicional quanto o governo Bolsonaro, mais conservador e de direita, acreditam no papel messiânico do Estado. O Estado vai salvar a família, o Estado vai tirar os pobres da miséria, o Estado vai dar emprego, o Estado vai impedir o comunismo, o Estado vai implantar o socialismo: o Estado tem papel messiânico, vai redimir a sociedade e vai apontar o caminho. Na verdade, o que une Bolsonaro e Lula, entre tantas coisas diferentes, é a crença no Estado.

• O presidente não poupa ataques à imprensa e, mais recentemente, tem adotado um discurso vitimizante, dizendo que recebe “pancada” de todos os lados. É uma espécie de “coitadismo” do chefe da Nação?

Eu acho que Bolsonaro erra ao atacar a imprensa. Acho que culpar o termômetro pela febre é sempre uma estratégia ruim. Você deve lembrar que o Estadão era atacado pelo governo Lula por ser conservador, ou por ser antipetista, agora é atacado pelo governo Bolsonaro por ser de esquerda ou antibolsonarista. O principal sintoma que a democracia vai bem é uma imprensa atacada, no sentido de que se a imprensa começar a ser louvada, se os governos começarem a dizer que a imprensa está agindo corretamente e de forma patriótica, aí a democracia terminou. A liberdade de imprensa é algo extraordinariamente basilar, fundamental, estruturante do Estado Democrático de Direito. Eu sinto o governo Bolsonaro e seu primeiro escalão pouco acostumados ao fato de que o exercício de cargo na democracia pressupõe ataques. Se ele sentasse para ler as opiniões dos jornais londrinos sobre o primeiro ministro, um conservador, ele diria que o Estadão, a Folha e a Globo têm filiais em Londres, porque eu achei o tom da imprensa britânica menos respeitoso do que a grande imprensa brasileira. E em nenhum momento o primeiro ministro inglês (Boris Johnson) foi à TV dizer que há um plano orquestrado para acabar com o seu governo. Enquanto houver críticas do governo Bolsonaro à imprensa, eu fecho meu jornal pela manhã feliz, esse Brasil ainda está funcionando.

Eliane Cantanhêde - Brasil na berlinda

- O Estado de S.Paulo

Com Bolsonaro remendando estragos, Doria, Huck e Moro se mostram ao mundo

Sem o presidente Jair Bolsonaro, mas com seus rivais João Doria e Luciano Huck, o Fórum Econômico Mundial deste ano, em Davos, pode jogar o Brasil na constrangedora situação de país digno de uns bons puxões de orelha por maltratar o meio ambiente, ameaçar a mídia, provocar líderes mundiais, enaltecer ditadores e, agora, ultrapassar todos os limites trazendo Hitler e o nazismo ao ambiente.

O puxão de orelhas deve começar com a Greta, a menina que virou personalidade internacional pela defesa da natureza, foi chamada de “pirralha” por Bolsonaro e devolveu com ironia. Uma adolescente dando lições em Davos a poderosos cheios de pretensão e ideias equivocadas, não raro perigosas. Delicioso.

Ninguém diz, mas Bolsonaro teve dois bons motivos para não ir a Davos. Um é que certamente baixou uma baita insegurança depois do vexame na estreia no fórum em 2019. Se mal conseguiu falar coisa com coisa quando ainda era cercado de expectativas, imaginem agora, depois de tudo?

O segundo motivo é que Bolsonaro achou que Donald Trump não iria. Se Trump não vai, esse encontrinho de grandes líderes internacionais, megainvestidores, homens das finanças e do pensamento não serve pra nada. Mas a aposta foi errada: Trump anunciou que vai, mesmo acossado pelo processo de impeachment – ou até por causa dele.

Entorno de Huck vibra com ataque de extremos

- Coluna do Estadão

Cresce entre apoiadores de Luciano Huck a sensação de que ele está no caminho certo. O motivo? Começou a “apanhar” dos extremos. Em entrevista recente, Lula disse que Huck “não representa a centro-esquerda”. Em movimento quase simultâneo, mas em sentido contrário, o bolsonarista Marco Feliciano (SP) o chamou de “comunista”, numa estratégia clara de tirar o apresentador da centro-direita e empurrá-lo para a esquerda. Segundo um aliado, Huck até agora chuta com os dois pés: discurso social na canhota; economia liberal na destra.

Rota. Huck estaria a caminho de atingir o que o ex-presidente FHC chama de “centro radical”: posicionar-se firmemente (quando assumir uma eventual candidatura) contra erros do governo Bolsonaro também os cometidos pelo PT.

Ombro. Um petista próximo a Lula disse que ele apenas “deu um tranco” em Huck para marcar posição. O ex-presidente, ao menos por enquanto, está convencido de que a via da esquerda ainda tem dono, o PT.

Olha lá. Não passou despercebido no entorno de Huck o ataque de Carlos Bolsonaro nas redes sociais, alinhando o apresentar ao Partido Novo, e aos movimentos da sociedade civil, como o Livres, o MBL e o RenovaBR. “Tirem suas conclusões”, afirmou o filho do presidente.

Pauta. No Fórum Econômico Mundial de Davos, Huck participará de duas mesas. Abordará desigualdade, crescimento sustentável e democracia. Quer marcar posição em relação a Bolsonaro, mesmo sem citar o presidente.

Pauta 2. João Doria falará em Davos sobre urbanismo e desenvolvimento: cidades conectadas.

Marcelo de Moraes - Indiferente à confusão na Cultura, Bolsa bate novo recorde

- O Estado de S. Paulo

A atriz Regina Duarte deverá ser a nova secretária de Cultura do governo Bolsonaro. Apesar de todo o desgaste político provocado pela crise no setor, o entusiasmo do mercado não foi afetado, em mais uma situação em que a economia precisou resistir a polêmicas desnecessárias

Fim da confusão. Desde a sexta-feira passada, o governo tem concentrado suas atenções na crise provocada pelo vídeo do então secretário de Cultura Roberto Alvim, com claras inspirações nazistas. O discurso alucinado de Alvim provocou reações indignadas até de aliados de Jair Bolsonaro, desgastou politicamente o presidente e custou a cabeça do secretário. Hoje, Bolsonaro avançou na substituição com um convite praticamente aceito por Regina Duarte, com que se encontrou no Rio. O presidente disse que os dois estão "noivando".

Vai dizer sim. A noiva Regina já avisou a amigos que vai topar o convite, o que fará com que se licencie da Rede Globo, onde trabalha há 50 anos. Apoiadora de Bolsonaro, a atriz se tornou imediatamente alvo dos partidos de esquerda e do meio artístico mais engajado. Mas sua chegada ao governo, inegavelmente, é um movimento positivo para os bolsonaristas. Ao contrário de Alvim, que era um dos principais líderes da guerra ideológica contra a esquerda produzida no setor, Regina é uma atriz de grande popularidade e já avisou que pretende pacificar a relação beligerante do governo com o meio cultural.

Autonomia. A grande dúvida é qual política pública Regina pretende adotar para o setor. Outra pergunta é se ela terá autonomia no cargo. A posição política conservadora da atriz é conhecida há décadas. Mas também se sabe que ela passa longe da ala radical do bolsonarismo. Apesar disso, sua posição dura contra o especial de Natal feito pelo Porta dos Fundos foi muito lembrada, num questionamento sobre até onde a atriz pretende se alinhar com Bolsonaro e seus seguidores dentro do governo.

Dá para rir, dá para chorar. Colocar uma atriz importante na sua equipe de governo é, sem duvida, um fato positivo para o presidente, especialmente num momento em que acaba de enfrentar uma crise que associa um de seus auxiliares ao nazismo. Mas se, eventualmente, Regina se incomodar com seu trabalho na secretaria e decidir pular fora do barco, o prejuízo político para Bolsonaro será proporcional ao prestígio da atriz.

Andrea Jubé - Sucessão: dois é bom, três é demais?

- Valor Econômico

PEC de pedetista quer três candidatos no segundo turno

Em abril do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro divulgou um vídeo bem humorado cumprimentando o ator Paulo Cintura pelo aniversário. Com roupa de ginástica e ar despojado, Bolsonaro apontou o Alvorada e declarou que o local o fazia sentir-se em uma “prisão domiciliar sem tornozeleira eletrônica”.

Bolsonaro ainda não cumpriu um terço do mandato, mas não cessa de reclamar da fiscalização da imprensa, das cobranças da sociedade e até da solidão do poder. Apesar dessa aparente insatisfação, no sábado, ele admitiu cogitar mais de uma reeleição. “[A Presidência] é um casamento de quatro ou oito anos. Ou, quem sabe, por mais tempo, lá na frente", aventou.

Não está claro se foi uma inconfidência ou um balão de ensaio, mas a aposta remete aos movimentos de 2008 e 2009 de aliados do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela aprovação de uma proposta de emenda constitucional (PEC) que assegurasse um terceiro mandato ao petista.

Enquanto Bolsonaro não decodifica sua fala, é certo que a afirmação dialoga com medidas que visam à alteração das regras eleitorais em curso no Congresso - embora faltem três anos para a sucessão presidencial.

Por exemplo, a PEC 230 de autoria do deputado Mário Heringer (PDT-MG) é explosiva. Na conjuntura de 2018, levaria Ciro Gomes, seu correligionário, ao segundo turno ao lado de Bolsonaro e Fernando Haddad (PT).

Heringer, que é membro da Mesa Diretora da Câmara, lançou ao papel a ideia original do ex-deputado Miro Teixeira de que se nenhum candidato alcançar maioria absoluta na primeira votação, os três postulantes mais votados passam ao segundo turno da eleição presidencial. Elege-se quem obtiver a maioria dos votos válidos.

Robinson Borges* - Muito além dos muros da economia

- Valor Econômico

Transição para a democracia eleva o PIB per capita em 20% em 25 anos, indica pesquisa

O governo federal pode ser compreendido como a aliança de quatro grandes blocos vivendo em um mesmo condomínio: o econômico, o militar, o jurídico e o de costumes. Apesar de serem vizinhos, tem sido comum a percepção de parcela da sociedade de que os blocos são independentes, têm a sua própria portaria e o que ocorre em cada um tem caráter autônomo. São frequentemente celebradas as vitórias da agenda liberal na economia, por exemplo, mas minimizados os impactos das medidas da ala ideológica, como se fosse mais um ruído daquela turma barulhenta lá do bloco do fundo.

Os blocos, de fato, têm perfis, importâncias, qualidades e realizações distintos e, às vezes, contraditórios e complementares. No entanto, é impossível ignorar que um condomínio, como um governo, funciona de forma sistêmica. Assim, quando um secretário adensa o estoque de elogios a Estados despóticos e divulga vídeo com citações de discursos de ministro nazista, seu efeito vai muito além do endereço reservado para os “costumes”. Ele se esparrama por todos os espaços do condomínio.

Foi acertada, portanto, a decisão do presidente de exonerar seu secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, que ultrapassou todos os limites. Mas é preciso ressaltar que ele não é o centro do problema. Alvim pode ser visto como mais um sintoma do grupo de políticos que chegou ao poder, pelas vias democráticas, elogiando Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Já foram debatidos os efeitos corrosivos dos ataques às pesquisas científicas e ao combate da mudança climática, além do pouco caso com o multilateralismo, não só para a reputação do Brasil como para a economia do país. Mas há outra questão que também impõe um teto importante para a falsa ideia de autonomia do bloco econômico e a “agenda liberal” que se configura por aqui: o cerceamento da liberdade.

Armando Castelar Pinheiro* - A privatização de Bolsonaro

- Valor Econômico

A aceitação popular é maior do que no passado. Talvez os achados da Lava Jato tenham contribuído para isso

O Brasil começou a discutir privatização ainda na primeira metade dos anos 1970; há quase meio século, portanto. À época, porém, ninguém queria mesmo privatizar, sequer os liberais no governo, que compartilhavam a visão dominante de que desenvolver era “ocupar os espaços vazios” na matriz produtiva.

A discussão, porém, avançou e ganhou fôlego com a crise da dívida externa no início dos anos 1980. Foi quando, em 1981, o governo Figueiredo criou a Comissão Especial de Desestatização. Havia então, pelas contas do governo, 268 estatais federais, das quais 140 foram consideradas privatizáveis. A privatização começou então a andar e crescer: em 1981-84, foram 20 privatizações e US$ 190 milhões em receitas; em 1985-89, 18 estatais vendidas e US$ 533 milhões arrecadados. Além disso, no todo da década, 10 estatais foram absorvidas por outros órgãos públicos, 18 transferidas para governos estaduais e quatro fechadas.

Com Collor, a privatização ganhou uma escala muito maior. Em 1990 se criou o Programa Nacional de Desestatização, que gradualmente incorporou estatais antes consideradas “imprivatizáveis”, como a Embraer e a Companhia Siderúrgica Nacional. O mesmo ocorreu no governo FHC, quando a privatização entrou com tudo no setor de infraestrutura, até então considerado cativo do setor público, inclusive pela Constituição de 1988, que precisou ser emendada.

Ao todo, entre 1991 e fevereiro de 2000, foram 125 estatais privatizadas. Destas, 91 eram federais e as demais de propriedade dos estados, que nesse período também deram início aos seus próprios programas de desestatização. As receitas, por sua vez, totalizaram US$ 72,9 bilhões (US$ 123 bilhões em valores atuais), dos quais US$ 46,7 bilhões em nível federal e US$ 26,2 bilhões nos estados.

O capitalismo, do papel para a prática

Algumas empresas e setores aprenderam, da forma mais difícil, que não prestar atenção às questões ESG&D pode deteriorar a confiança dos investidores

Por Richard Samans* e Jane Nelson* – Valor Econômico

O papel dos conselhos de administração das empresas nunca foi tão importante, nem tão fiscalizado, quanto nos dias de hoje. As transformações tecnológicas, ambientais, geopolíticas e socioeconômicas dos últimos 20 anos têm fomentado uma reavaliação do modelo de governança predominante nas empresas e criado grandes desafios para muitas áreas da governança e das políticas públicas.

Em particular, essas transformações tornam as questões ambientais, sociais, de governança e de gestão de dados (ESG&D, na sigla em inglês) cada vez mais importantes para o desempenho e solidez das empresas. Também dificultam a distinção tradicional entre o modelo de primazia dos acionistas (cujo foco são os benefícios e custos operacionais e financeiros) e o modelo voltado a todas as “partes interessadas” (cujo foco são os riscos e oportunidades sociais e ambientais).

Questões antes consideradas secundárias para executivos-chefes e conselhos de administração (outrora administradas pelos departamentos de filantropia, de tecnologia da informação e de relações com as partes interessadas) tornaram-se fatores determinantes para a capacidade das empresas de criar e manter valor econômico. Por exemplo, as mudanças climáticas, a gestão da água e outros aspectos da governança ambiental são cada vez mais vistos como fatores influenciadores do lucro em um mundo no qual a tecnologia, a regulamentação e outros elementos do ambiente operacional podem mudar rapidamente.

Mudanças similares afetam a administração dos ativos intangíveis - uma fonte-chave de vantagem competitiva na Quarta Revolução Industrial. O talento e a motivação do quadro pessoal de uma firma, uma cultura empresarial inovadora, o know-how individual e os dados vêm se tornando fontes de valor cada vez mais importantes.

Da mesma forma, a abordagem das firmas em relação às pessoas, ao planeta e à inovação - incluindo como protegem e aplicam o valor agregado de seus dados - precisa ter mais influência nas decisões de alocação de capital. E, para esse fim, os líderes das empresas precisam compreender melhor como equilibrar os investimentos de longo prazo em nova capacidade produtiva e a racionalização de curto prazo dos ativos e operações existentes. Com o passar do tempo, eles vão precisar dar mais ênfase ao investimento de longo prazo.

O que a mídia pensa – Editoriais

Os limites da governabilidade – Editorial | O Estado de S. Paulo

O governo de Jair Bolsonaro dispõe de cerca de 30 parlamentares fiéis na Câmara, segundo as contas de líderes do Congresso ouvidos pelo Estado. Essa base esquálida nem pode ser propriamente chamada de base, pois com ela o presidente não garantiria a aprovação nem de regimento de condomínio.

A incerteza do apoio ao governo já era grande mesmo quando Bolsonaro podia contar com a maioria dos votos do PSL, partido com o qual se elegeu e que colocou meia centena de deputados na Câmara na eleição de 2018, sob o embalo da onda bolsonarista. Depois que Bolsonaro brigou com o PSL e deixou o partido, o núcleo parlamentar com o qual o presidente podia contar em qualquer circunstância tornou-se praticamente insignificante.

Até que consiga formar seu próprio partido, o que não deve acontecer tão cedo, Bolsonaro terá que conviver com um Congresso sem qualquer tipo de vínculo ou compromisso com o governo. Essa já era mais ou menos a realidade antes da ruptura de Bolsonaro com o PSL, pois o presidente tomou posse determinado a implodir o chamado “presidencialismo de coalizão” – em que o presidente é obrigado a dividir o poder com as fragmentadas forças do Congresso para conseguir governar. Nesse modelo bolsonarista, em que o governo não se dedica nem a montar uma base parlamentar sólida nem a negociar compensações em troca de apoio nas votações de sua agenda, a governabilidade fica à mercê da coincidência circunstancial de interesses entre o Palácio do Planalto e o Congresso.

Música | Paulinho da Viola - Reverso da Paixão

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Elegia

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaçam, num suspiro.

E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava,
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, estrela fria.
As arvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quando aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
E sou meu próprio frio que me fecho
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Opinião do dia – Luiz Sérgio Henriques*

Este não será um tempo de partidos - oficialmente em crise, eles que foram moldados segundo os requisitos da sociedade industrial, hoje em trânsito acelerado para a digitalização -, mas continua a ser de homens partidos e de má política. Expliquemo-nos sobre esta última expressão: a política é má quando, por deficiência subjetiva dos atores ou pela natureza inédita das transformações que varrem o mundo, não dá conta dos fenômenos, vê-se atropelada por eles, sem conseguir identificar as boas possibilidades existentes mesmo durante os processos mais tumultuosos. E não se trata, obviamente, de uma condição fatal: ela, a política, é má quando ainda não compreende tais processos e deixa homens e mulheres comuns sem a capacidade, tanto intelectual quanto emocional, de tomar conta das forças que dirigem sua vida. Como se costuma dizer, em tais momentos os fatos, e não os sujeitos, parecem estar no comando. E os resultados em casos assim são, no mínimo, sofríveis, se não desastrosos.

*Tradutor e ensaísta, é autor de ‘reformismo de esquerda e democracia política’ (Fundação Astrojildo Pereira). “Guerras falsas, guerreiros de fancaria”, O Estado de S. Paulo, 19/1/2020.

Carlos Pereira* - Para que haja menos partidos

- O Globo

Presidencialismo brasileiro continuará fragmentado

A formatação de sistemas políticos e partidários é fruto de escolhas que sociedades fazem ao longo da sua história. Essas escolhas se dão por tentativa e erro, com adaptações e correções de potenciais problemas que vão sendo identificados por gerações futuras.

O sistema político brasileiro é conhecido pela grande permissividade de suas regras eleitorais. Uma combinação de representação proporcional com lista aberta em distritos de grande magnitude, que tem estimulado a inclusão dos mais variados interesses da sociedade no jogo político, gerando assim fortes incentivos para a criação de muitas legendas partidárias. A escolha por esse sistema inclusivo foi uma resposta aos efeitos negativos dos partidos regionais oligárquicos da Primeira República decorrentes do voto distrital majoritário.

Entretanto, os partidos, na grande maioria, não têm sido veículos de agregação ideológica ou mesmo programática, mas fundamentalmente organizações políticas que unem interesses eleitorais. Daí porque os eleitores terem tanta dificuldade de identificá-los e diferenciá-los entre si.

Atualmente, 30 partidos ocupam pelo menos uma cadeira na Câmara dos Deputados. A fragmentação é alta mesmo quando a medimos a partir do número efetivo de partidos (NEP), que leva em consideração não apenas o número de siglas partidárias, mas também o tamanho do partido em relação ao total de cadeiras do Parlamento e às demais bancadas partidárias. E, portanto, considera também a dispersão/concentração do mercado partidário. Entre 1989 e 2010, por exemplo, o NEP ficou em torno de 9, passou para 13 em 2014 e pulou para mais de 16 partidos em 2018, tornando o Brasil a democracia presidencialista mais fragmentada do mundo.

Fernando Gabeira - As dores do Rio

- O Globo

Não foram os pecados que levaram a cidade à beira do colapso. Foram escolhas econômicas e políticas

Quase não paro no Rio. É o tempo de matar saudade da família, refazer as malas, obter da emissora o sinal verde para um novo projeto e cair na estrada.

Isso aumenta minha preocupação com a cidade. No fim de semana, assisti ao filme “Coringa”. Parecia ter chegado a Gotham City. O filme começa com a notícia da greve dos lixeiros, a sujeira se acumulando e Gotham sendo tomada por uma grande quantidade de ratos.

No Rio, a notícia era o medo com a contaminação da água, as autoridades pedindo desculpas, especialistas dizendo que não há previsão de normalidade e a água mineral sumindo do mercado.
Em Gotham City, a polícia baixava o pau na multidão fantasiada de palhaço que se indignou com as autoridades e protestava contra os ricos. No Rio, cassetetes, gás lacrimogênio contra uma multidão fantasiada que, ao que parece, queria apenas extravasar sua alegria.

Não é a primeira vez que o Rio se parece com as metrópoles distópicas do cinema. Tive sensação semelhante ao ver “Blade Runner”, que era uma investigação sobre o futuro.

A diferença é que no filme sobre cidades do futuro, a natureza já não tem nenhum papel. Gotham City trata do lixo produzido pelo consumo, as luzes são artificiais, assim como os reflexos que pontuam a narração dramática.

É impossível dissociar a natureza do Rio, mesmo na sua decadência. Talvez seja por isso que, no meio da década de 50 do século passado, Rubem Braga escreveu sua célebre crônica “Ai de ti, Copacabana”.

Ana Maria Machado - Um terreno comum

- O Globo

Ideias progressistas ou virtudes éticas não são monopólio de um só lado

Sensatez em uma área não é incompatível com sanidade em outra. É possível apoiar o combate a milícias e querer a privatização da Cedae, por exemplo. Ser de centro esquerda e defender votos dissidentes como o de Tabata no caso da Previdência e o de Freixo no pacote anticrime. Ou considerar que alguns excessos ultrapassam linhas a respeitar mas também ter certeza de que a Lava-Jato faz bem em ser firme no combate à corrupção de quem foi convivente e não inocente.

Exercer autoridade sem abuso pressupõe seguir as leis. Mas não significa blindar poderoso. Criticar arbitrariedades na investigação não impede de reconhecer corrupção sistêmica e querer sua punição. Sem jogadas marotas.

Ricardo Noblat - Escolha de Regina Duarte para Cultura é um aceno à Rede Globo

- Blog do Noblat | Veja

Conversas de bastidores
Ao convidar a atriz Regina Duarte para secretária ou ministra da Cultura do seu governo, o presidente Jair Bolsonaro levou em conta o conselho de vários dos seus ministros de que é preciso que ele busque uma maneira de estabelecer uma relação menos conflituosa com a Rede Globo de Televisão, a quem tem tratado tão mal.

No final do ano passado, para surpresa do comando da emissora, um dos seus diretores foi convidado para uma conversa com o ministro da Educação Abraham Weintraub. Ouviu do ministro que até exércitos em guerra muitas vezes concordam em suspender os combates para o recolhimento dos seus mortos e feridos.

Este ano, o mesmo diretor foi chamado para um encontro sigiloso com Bolsonaro, o primeiro desde que o atual governo tomou posse. Embora fora da tela há algum tempo, Regina faz parte do elenco fixo da Globo. Seu nome foi bem recebido por parte da classe artística do Rio. O que por enquanto não quer dizer que ela aceitará o convite.

A atriz é estreitamente ligada aos tucanos paulistas. Não dirá sim ou não a Bolsonaro sem antes consultar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – se é que ainda não o fez. Sua decisão ficou para hoje. Bolsonaro já tem outro nome para o cargo caso ela o recuse.

Sem pressa, por medo de derrota

Aliança para depois
O menos interessado na formação imediata do partido Aliança pelo Brasil é o presidente Jair Bolsonaro. Ele teme que seu partido, e o dos seus filhos, montado assim às pressas, acabe tendo um desempenho pífio nas eleições municipais de outubro próximo.

Bolsonaro prefere testar as chances do Aliança só nas eleições gerais de 2022 quando imagina que a avaliação positiva do seu governo estará em alta. Este ano, se limitará a apoiar poucos candidatos de outros partidos com os quais tenha afinidade ideológica.

Marcus André Melo* - O poder do presidente

- Folha de S. Paulo

A combinação de Executivo institucionalmente fraco e governabilidade é inédita

Há certo consenso que as relações Executivo-Legislativo sob Bolsonaro têm se dado em um novo padrão: em vez de propalada expansão do poder presidencial em um governo iliberal, observamos sua redução.

Há duas questões inter-relacionadas: ocorreu transformação (estrutural ou cosmética)? O que a causou? A chave para ambas é a excepcionalidade das circunstâncias da ascensão de Bolsonaro: uma tempestade perfeita resultante da conjugação de escândalo ciclópico de corrupção e crise econômica inédita. Como consequência a corrupção substituiu as questões redistributivas e de inclusão como eixo vertebrador da disputa política.

O cataclismo levou ao impeachment, à destruição das reputações das principais lideranças e à proibição do financiamento empresarial de campanhas. Como consequência, os fatores decisivos para as eleições no passado —financiamento de campanha, tempo de TV, tamanho das alianças— perderam importância, e permitiram que um outsider brandindo bandeiras novas —corrupção e segurança— se tornasse politicamente viável.

Celso Rocha de Barros* - Não há nada de normal em nada disso

- Folha de S. Paulo

As instituições estão rechaçando o autoritarismo, mas não é normal que sejam testadas todo dia

Na semana passada, dois artigos foram publicados colocando em questão a tese de que a democracia brasileira está ameaçada. Eu defendo que está, por isso vou discuti-los.

Os artigos são “Apesar dos alarmistas, um país normal”, de Fernando Schüler, publicado nesta Folha, e “Ih...A democracia brasileira não ruiu”, de Carlos Pereira, publicado no Estadão.

O artigo de Pereira se baseia em um estudo do cientista político Kurt Weyland que concluiu que populistas só ameaçam a democracia quando as instituições são fracas e quando seus governos transcorrem na recuperação de uma crise econômica aguda.

O artigo de Weyland é muito interessante, mas tem problemas. Em um dado momento, argumenta que Collor não conseguiu consolidar-se como populista porque não resolveu a crise econômica da hiperinflação (correto) e porque o Brasil tinha um histórico de 20 anos em que todos os presidentes terminaram seus mandatos, o que é errado.

Não se pode usar estabilidade da ditadura como índice de robustez da nova institucionalidade democrática. E Weyland não fez uma análise estatística, mas de uma comparação usando o método booleano de Charles Ragin. Não desqualifico o método, que é uma tentativa de lidar com amostras pequenas, mas sugiro cautela em citar as conclusões obtidas dessa maneira como “demonstrações”. Nem análises estatísticas são isso.

Vinicius Mota - Política da presepada

- Folha de S. Paulo

Atos ridículos e insultos vicejam com testosterona de mais e capacidade de menos

O que acontece quando chega ao governo federal um conjunto de ressentidos que passou a vida gramando para tirar uma nota C na prova, achava que bons modos eram coisa de pessoas frescas e sobrevivia das migalhas do poder?

Acontece o governo Jair Bolsonaro.

A insciência passa a ser vendida como virtude, e o insulto, como método de comunicação. Mas, porque competência não se improvisa, a presepada amiúde vira a resultante do entrechoque entre habilidade de menos e testosterona de mais.

A dicção imperial de Roberto Alvim a interpretar o arauto genocida do 3º Reich, embolado numa maçaroca simbólica, talvez não ache rival na escala de cenas ridículas já originadas na Esplanada dos Ministérios. Mas a distância para outras quixotadas deste governo é apenas de grau.

No Carnaval passado, o presidente veiculou imagens obscenas a pretexto de denunciar o que considera indecência. A escatologia —as alusões a detritos e excrementos— nunca frequentou tanto a expressão de um chefe de Estado brasileiro, o que é tema para psicanalistas.

Leandro Colon – Conflito de interesse na Secom

- Folha de S. Paulo

Presidente reage sob pressão; caso contrário, barco segue, como nos casos do Turismo e da Secom

As redes sociais amanheceram em chamas na sexta (17) com o nefasto vídeo de Roberto Alvim, então secretário de Cultura do governo, copiando discurso nazista.

Autoridades do Legislativo e do Judiciário repudiaram logo cedo. O mundo político, de esquerda e de direita, se manifestou imediatamente.

Por volta das 10h, a assessoria da Presidência informou por escrito que não comentaria. Somente minutos depois das 13h, Jair Bolsonaro anunciou a demissão de Alvim.

Ele titubeou em mandar embora quem, um dia antes, chamara de “secretário de verdade”. A demissão ocorreu mais em razão da cobrança de outros Poderes do que pela convicção do presidente de que não havia outro caminho a tomar. Bolsonaro só reage sob pressão política. Se demora a chegar, o barco segue.

Ruy Castro* - A Terra é chata

- Folha de S. Paulo

Estou a fim de concordar com os terraplanistas. Mas, antes, meu cérebro terá de virar uma pizza

Um novo planeta foi descoberto por um satélite da Nasa. Fica na primeira galáxia à direita depois do Sol, a cem anos-luz daqui. É um pouquinho maior que a Terra e, como se constatou, redondo, em forma de globo.

Também como a Terra, gira em torno de si mesmo e de uma estrela e é dilatado nos polos e achatado no equador, ou vice-versa. Eles o estão chamando de TOI 700 d, sendo TOI a sigla em inglês para “Objeto de Interesse do Tess”. Tess é a nova sensação das varreduras espaciais: um satélite caça-planetas. Desde que entrou em ação, em 2018, já achou três.

Para descobrir um planeta, o Tess passa 27 dias observando uma estrela, de olho em qualquer oscilação de seu brilho. O que, se acontecer, terá sido provocado pela passagem de um corpo celeste —um planeta— ao redor dela. A vida é meio parada no espaço, donde não há outras opções. Mas, para não restar dúvida, exige-se que tal oscilação se dê pelo menos três vezes. Cada operação congrega um batalhão de cientistas, quase todos nóbeis, fazendo cálculos fora do alcance da nossa aritmética escolar.

Denis Lerrer Rosenfield* - Impostura

- O Estado de S.Paulo

Lula se colocar como defensor da democracia contra o presidente Bolsonaro é hilariante

É bem verdade que o atual governo tem dado ensejo a um pendor autoritário, como quando o próprio presidente mostra intolerância no tratamento com a imprensa ou seus filhos investem nas mídias sociais tratando todos os que deles discordam como inimigos. A crítica não é bem vista, apesar de constituir um elemento central de qualquer sociedade democrática, baseada no diálogo, seja com os Poderes republicanos, seja com a opinião pública em geral. Contudo a reação de setores da esquerda a essa atitude bolsonarista, colocando o PT, seus grupos e partidos assemelhados como defensores da democracia, é claramente uma impostura. Que essa esquerda queira se colocar como polo democrático só serve para enganar incautos. Pretende borrar o seu próprio passado.

O presidente Jair Bolsonaro, apesar de seus arroubos, não tomou nenhuma medida autoritária no encaminhamento de leis ou no exercício do Poder Executivo. Uma coisa é a sua narrativa, que obedece a uma lógica eleitoral, outra, muito diferente, é sua não apresentação de medidas concretas que coíbam a liberdade de pensamento ou empreendam a perseguição social ou policial de seus adversários. Algo inverso fazia o PT no governo. Sua narrativa era supostamente democrática e suas medidas práticas na arte de governar eram frequentemente autoritárias, embora procurassem se legitimar “socialmente”. Aqui “socialmente” significa o controle petista da sociedade.

No governo Lula, mais que no governo Dilma, várias foram as iniciativas de criação de conselhos ditos populares, visando, no discurso, a “democratizar” a sociedade. Várias foram as iniciativas, nesse sentido, de controle dos meios de comunicação, além do financiamento das mídias “amigas”, irrigadas com dinheiro público, o que, aliás, hoje criticam no atual governo. “Conselhos populares” foram constituídos pretensamente enquanto órgãos de interlocução com a sociedade, quando, na verdade, eram instrumentos de controle do próprio partido, seja atuando diretamente ou por intermédio de seus “movimentos sociais”. O governo Bolsonaro não só não tomou nenhuma iniciativa desse tipo, como aboliu os ditos conselhos, ferramentas autoritárias.

José Goldemberg* - O ‘fim da História’ e da inovação

- O Estado de S.Paulo

Analistas questionam se não atingimos os limites do nosso conhecimento científico

Em 1992 Francis Fukuyama, um renomado cientista político norte-americano, publicou um livro intitulado O Fim da História, que teve enorme repercussão. Nele o autor argumenta que a queda do Muro de Berlim e o fim do império soviético significavam a vitória final do capitalismo com liberalismo econômico e democracia. A globalização da economia mundial nas últimas décadas e a redução dos conflitos provocados pelo nacionalismo exacerbado, que levou às grandes guerras mundiais do século 20, parecem confirmar a análise de Fukuyama.

O único desafio real a essa visão da História foi a ascensão do Estado Islâmico, que, apesar do grande impacto que teve, não abalou a estrutura mundial. Até a China, que poderia mudar o curso do desenvolvimento da História com um novo socialismo, se incorporou à grande corrente mundial da globalização, apesar das suas restrições internas à democracia.

Em outras palavras, parece plausível a visão de Fukuyama de que o desenvolvimento social e econômico mundial teria atingido um nível tal que evitaria as grandes revoluções e guerras do passado, que, em geral, são o objeto do que se chama de História.

Mais recentemente surgiram outras análises que mostram que o mesmo pode estar acontecendo com a tecnologia e até com a própria ciência. Estudos sobre o “fim da tecnologia” e mesmo sobre o “fim da ciência” estão se tornando populares.

O primeiro desses estudos, feito por Robert Gordon, professor de uma universidade americana, atribui a estagnação da economia dos EUA nas últimas décadas ao fato de que a produtividade deixou de crescer na segunda metade do século passado. O professor Gordon argumenta que isso se deve ao fato de que os avanços tecnológicos mais recentes – principalmente na área da computação e informática – não são tão impressionantes como os que ocorreram na primeira metade do século 20, quando máquinas de lavar roupa, geladeiras, ar-condicionado, automóveis e aviões mudaram o mundo de uma maneira revolucionária e o que estamos presenciando hoje são apenas pequenos aperfeiçoamentos, muitos dos quais de caráter puramente comercial.

As ideias que captam hoje as manchetes dos jornais são inteligência artificial, automóveis sem motorista e viagens espaciais, que ainda não tiveram grande impacto na vida das pessoas e até sua necessidade está sendo questionada.

Bruno Carazza* - Férias numa colônia penal

- Valor Econômico

Rotina de presos da Lava Jato reproduzia privilégios

A vida dos detentos da Lava-Jato melhorou muito quando puderam utilizar na cadeia um produto denominado “bloqueador de odores sanitários”. Com o problema do mau-cheiro resolvido, o cotidiano na sexta galeria oferecia um serviço cinco estrelas comparado com as demais prisões no Brasil: rádio e TV liberados, um pátio maior para fazer exercícios físicos e livre trânsito entre as celas dos colegas.

A cena é descrita por Wálter Nunes em “A Elite na Cadeia: o dia a dia dos presos da Lava Jato”, lançado recentemente pela editora Objetiva. Repórter da “Folha de S.Paulo”, Nunes cobriu in loco o entra-e-sai de políticos e executivos de algumas das mais importantes companhias do país na carceragem da Polícia Federal em Curitiba e no Complexo Médico Penal de Pinhais.

Nos plantões em que acompanhava os efeitos de decisões judiciais e acordos de delação premiada no âmbito das várias fases da operação, o jornalista obteve a confiança de agentes penitenciários, carcereiros e diretores das prisões, além de advogados e parentes dos detentos, que lhe contaram o comportamento e a rotina dos presos mais famosos do Brasil - relatos esses que são a matéria-prima do livro.

A presença de políticos, empreiteiros, lobistas, doleiros e dirigentes de estatais no sistema prisional é um feito incomum dado nosso longo histórico de leniência não apenas com a corrupção, mas com os chamados crimes de colarinho branco em geral. Não é à toa que menos de 1% da população carcerária brasileira tem curso superior.

As prisões brasileiras são uma amostra, em cores ainda mais sombrias, da imensa desigualdade social brasileira, e o livro-reportagem de Wálter Nunes mostra como esse sistema gera privilégios para os mais ricos e poderosos até mesmo na cadeia.

Luiz Carlos Mendonça de Barros* - Finalmente estamos fora do buraco negro

- Valor Econômico

Para trazer a carga tributária a um nível que estimule a atividade empresarial será necessário enfrentar o mito da Constituição cidadã

Podemos, neste início de ano, dizer com segurança que, depois de seis anos de muito sofrimento, as consequências mais perversas criadas na sociedade brasileira por uma quase depressão econômica estão ficando para trás. Ainda que de maneira tímida o crescimento econômico está voltando e, mantida nos próximos anos a política econômica atual, poderemos progressivamente nos afastar das piores armadilhas criadas pela incompetência dos governos petistas em seus mais de 12 anos de poder.

Antes de continuar, faço uma observação que tem sido pouco citada pelos analistas sobre este período: nós só não vivemos a verdadeira depressão econômica porque não tivemos no Brasil uma crise bancária que, normalmente, vem associada à queda do PIB na dimensão da ocorrida em 2015 e 2016. Evitamos esta armadilha porque no governo Itamar Franco, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no comando da economia e Gustavo Loyola na presidência do Banco Central, uma corajosa reestruturação do sistema bancário brasileiro, que se chamou Proer, foi levada adiante com muito custo para o Tesouro federal.

E por uma armadilha que a história sempre prega, o Proer foi violentamente criticado à época pelo PT e demais partidos de esquerda sem que soubessem que, mais de vinte anos depois, ele evitaria que uma catástrofe ainda maior ocorresse no governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

Feitas estas observações, volto agora ao eixo central desta coluna que é a confirmação de que deixamos o pior da crise para trás e entramos agora em nova fase, denominada pelos economistas de recuperação cíclica. De certa forma esta coluna é o complemento de outras escritas por mim ao longo do ano passado em que tratei da minha convicção de que este momento ocorreria ainda em 2020. Esta confiança nascia da observação de vários momentos da história em que economias de mercado sofreram - por erros de gestão de seus governantes - uma queda violenta da atividade econômica. Em um primeiro momento ocorre uma queda no vazio - vejam o gráfico acima - seguida por uma recuperação ainda lenta, caso uma política econômica adequada seja implementada. E foi o que ocorreu no governo Temer e, de forma mais abrangente e segura, agora em 2019, a partir de reforma da Previdência e da gestão fiscal de alta qualidade e disciplina.

Fórum de Davos este ano será mais verde

A edição deste ano de Davos, que marca seus 50 anos, será inevitavelmente mais verde. A discussão ambiental supera o número de sessões previstas para macroeconomia. Muitos ministros de Meio Ambiente participarão do evento - mas não o brasileiro Ricardo Salles

Por Daniela Chiaretti – Valor Econômico

São Paulo e da Cidade do Cabo (África do Sul) - Greta Thunberg antecipou há dez dias o tom de sua participação no Fórum Econômico Mundial, que acontece esta semana em Davos, na Suíça. É a segunda vez que a jovem ativista sueca vai ao principal encontro mundial de chefes de Estado, empresários e executivos do mercado financeiro. “Nossa casa está queimando”, disse a adolescente a uma plateia surpresa com sua retórica, em janeiro de 2019, ano em que grandes incêndios de diferentes origens queimaram a Amazônia, a Califórnia e a Austrália, sempre agravados pela mudança do clima. Desta vez Greta promete tocar no ponto fraco do debate e dizer aos líderes que deixem de investir em combustíveis fósseis. A edição de Davos este ano, o 50º aniversário do encontro, será inevitavelmente mais verde.

Quase três mil participantes são esperados. Muitos virão em jatinhos emitindo grandes volumes de gases-estufa, como bem disse a CNN. Trata-se de uma contradição evidente em encontro onde questões ambientais ligadas à mudança do clima estão entre as cinco maiores preocupações dos líderes pela primeira vez em 10 anos, segundo o relatório de riscos globais do Fórum Econômico Mundial feito anualmente pelo Marsh & McLennan e a seguradora Zurich.

Falando em nome da sua geração, Greta publicou um artigo no “The Guardian” onde diz: “Exigimos que no fórum deste ano, participantes de todas as empresas, bancos, instituições e governos interrompam imediatamente todos os investimentos na exploração e extração de combustíveis fósseis, encerrem já todos os subsídios em combustíveis fósseis e deixem de investir imediata e completamente em combustíveis fósseis”. Como se pudesse ser mais clara, seguiu: “Não queremos que essas coisas ocorram até 2050, 2030 ou mesmo em 2021. Queremos que sejam feitas agora, neste exato momento.”

‘Desigualdade global está fora de controle’

Grupo de 2.153 bilionários tem mais riqueza que 4,6 bilhões de pessoas, diz Oxfam

Por Daniel Rittner – Valor Econômico

Davos (Suíça) - Um grupo de apenas 2.153 indivíduos no mundo com patrimônio superior a US$ 1 bilhão detém mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas, o equivalente a 60% da população global, conforme indica um novo levantamento da rede de organizações não-governamentais Oxfam. O estudo chega à conclusão de que o número de bilionários dobrou na última década e a desigualdade econômica está fora de controle.

“Os 22 homens mais ricos do mundo detêm mais riqueza do que todas as mulheres da África”, compara a Oxfam no relatório, lançado horas antes da abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Para ilustrar o “grande fosso” de renda, há uma ilustração: se alguém tivesse juntado US$ 10 mil por dia desde que as pirâmides do Egito começaram a ser construídas, teria hoje só um quinto da fortuna média dos cinco maiores bilionários do planeta. Enquanto isso, quase metade da população global sobrevive com menos de US$ 5,50 por dia.

O estudo renova as discussões sobre concentração de renda e desigualdade, que estiveram no topo da agenda durante todo o ano passado, com manifestações espalhadas pela América Latina, além de protestos na França e no Líbano. Muitos atos, como no Chile, desaguaram em crise política.

Davos vai propor um novo capitalismo

O “Manifesto de Davos 2020” estabelece como premissas: pagamento justo de impostos, tolerância zero com a corrupção, proteção do meio ambiente, estímulo à qualificação dos empregados, uso ético das informações privadas na era digital, vigilância dos direitos humanos em toda a cadeia de fornecedores e remuneração responsável dos executivos

Por Daniel Rittner – Valor Econômico

Davos (Suíça) - O Fórum Econômico Mundial começa hoje sua 50ª reunião anual, no pacato resort alpino de Davos, tentando colocar em prática uma cartilha lançada meio século atrás por seu fundador, Klaus Schwab, para guiar as práticas corporativas. Agora, diz o alemão de 81 anos e sotaque carregado, a hora de colher uma reforma do capitalismo finalmente chegou. Tanto que ele lançou o “Manifesto de Davos 2020” para atualizar conceitos pensados originalmente em 1971.

Nunca foi tão urgente, segundo Schwab, dar significado concreto à ideia de um “capitalismo das partes interessadas” (stakeholder capitalism) no lugar de outros dois modelos em voga nas últimas décadas. O “capitalismo de acionistas” teve seu momento de esplendor enquanto centenas de milhões de pessoas prosperavam, tinham acesso a bens de consumo inéditos, empresas abriam novos mercados e empregos eram criados.

O que a mídia pensa – Editoriais

Ano de reformas – Editorial | O Estado de S. Paulo

Se o presidente Jair Bolsonaro pretende fazer de 2020 um ano de avanço econômico e social do País, será preciso não tratar esse período apenas como um ano de eleições e de campanha eleitoral. Para uma retomada da economia consistente, apta a gerar confiança e emprego e a aumentar a produtividade, o governo federal precisa ser capaz de tornar 2020 um ano de efetivas reformas.

Em 2019, o Congresso aprovou, mesmo sem o apoio integral do Palácio do Planalto, uma importantíssima reforma da Previdência. Mas neste ano, com as eleições municipais de outubro, será difícil que o Poder Legislativo leve adiante uma agenda reformista sem a ajuda efetiva, de negociação e coordenação, do Poder Executivo. Além disso, por óbvio, neste ano, é mais que necessário que o presidente Jair Bolsonaro e seu entourage se abstenham de produzir crises e instabilidades políticas.

Recentemente, o Estado mostrou o alto risco que as eleições municipais representam para a tramitação das reformas no Congresso. Em toda campanha eleitoral, tem-se forte pressão para postergar a discussão e a aprovação de temas considerados espinhosos, mesmo que sejam prioritários para o País. É como se todos os temas que não geram imediatos efeitos positivos perdessem urgência e relevância, dando a equivocada impressão de que os grandes desafios nacionais podem esperar. E aí está a grande ameaça para um 2020 produtivo: que o presidente Jair Bolsonaro assuma uma atitude eleitoreira, de cálculo imediatista, em cada decisão e negociação.

Música | João Gilberto - Rio de Janeiro - (Tom Jobim )

Poesia | Manuel Bandeira - Louvação a cidade do Rio de Janeiro

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.

Louvo o santo padroeiro
- Bravo São Sebastião -
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Louvo a Cidade nascida
No morro Cara de Cão.
Logo depois transferida
Para o Castelo, e de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores
Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)

Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.