quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Casuísmo eleitoral

Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

A reforma política não passa no Congresso, só os casuísmos, como a janela para o troca-troca partidário

Não estou entre aqueles que consideram o nosso sistema eleitoral a matriz de todos os males da política brasileira. Temos a maior democracia de massas do mundo, com eleições limpas, voto direto, secreto e universal. A crise de representatividade dos partidos é um problema mais profundo, que independe do sistema eleitoral. Desconfio de reformas políticas aprovadas a toque de caixa, às vésperas das eleições. É um cacoete herdado do regime militar, que recorria aos casuísmos eleitorais para favorecer o status quo.

Por isso mesmo, a proposta de reforma política enviada ao Congresso pelo governo Lula, por mais bem-intencionada que seja, acabará virando mais um casuísmo eleitoral. Se a reforma política fosse mesmo fundamental para o governo, teria sido feita no primeiro mandato do presidente Lula ou logo nos primeiros meses do segundo. Ou seja, estamos diante de mais uma mudança nas regras do jogo às vésperas da eleição, o que não é novidade. Eis a reforma:

Lista partidária fechada

Os eleitores não votarão em candidatos a vereador, deputado estadual e federal, mas nos partidos, que concorrerão com listas fechadas de nomes. A cédula eleitoral terá espaço apenas para que o eleitor indique a sigla ou o número do partido em cuja lista pretende votar. Comentário: a proposta dá poderes ilimitados aos donos dos partidos.

Financiamento de campanhas

O Orçamento da União incluirá dotação destinada ao financiamento público exclusivo de campanhas. O TSE distribuirá os recursos da seguinte forma: 1% dividido igualmente entre os partidos registrados; 19% divididos igualmente entre os partidos com representação na Câmara; e 80% divididos entre os partidos proporcionalmente ao número de eleitos na última eleição para a Câmara. Comentário: só beneficia os grandes partidos.

Fidelidade partidária

Os parlamentares que mudarem ou forem expulsos de partido perderão os mandatos para os respectivos suplentes. Será permitida a desfiliação em caso de perseguição política ou mudança de programa partidário, desde que aprovada pela Justiça. Será possível mudar de partido para disputar a eleição subsequente. Comentário: abre-se uma janela para o troca-troca partidário.

Inelegibilidade

São inelegíveis candidatos condenados em segunda instância, seja por crime eleitoral ou por um rol de delitos, que inclui abuso do poder econômico ou político, crime contra a economia popular, contra a administração pública ou por tráfico de entorpecentes. A inelegibilidade valerá para a eleição à qual o candidato concorre ou foi eleito e para as que se realizarem no três anos seguintes. Comentário: contraria decisão do STF de que ninguém pode ser impedido de concorrer à eleição antes do processo ser concluído na última instância.

Coligações

Fim das coligações para eleições proporcionais (para deputado federal, estadual e vereador). A coligação das eleições majoritárias (para presidente, governador, prefeito e senador) disporá do tempo de rádio e televisão destinado ao partido com o maior número de representantes na Câmara. Comentário: liquida os pequenos partidos e redistribui os tempos de televisão dos partidos que não lançarem candidaturas próprias.

Cláusula de barreira

O mandato de deputado (federal, estadual ou distrital) só poderá ser exercido pelo candidato eleito cujo partido alcançar pelo menos 1% dos votos válidos, excluídos os brancos e os nulos, em eleição para a Câmara, e distribuídos em pelo menos um terço dos estados, com o mínimo de 0,5% dos votos em cada estado. Comentário: a representação dos pequenos partidos será cassada.

A reforma política não passa no Congresso, só os casuísmos, como a janela para o troca-troca partidário, sem a qual o fim das coligações e a clausula de barreira dificilmente serão aprovadas.

O voto em lista tem apoio no Senado, mas não na Câmara. Eleitos pelo voto proporcional uninominal, os deputados não entregarão a própria reeleição à burocracia partidária. O financiamento público enfrenta resistência pelo mesmo motivo. Quanto à inelegibilidade, é como falar de corda em casa de enforcado.

Após racha, tucanos querem antecipar candidato

Flávio Freire
DEU EM O GLOBO

Em encontro com FH, deputados dissidentes cobram nome para sucessão; ex-presidente quer oposição mais forte

SÃO PAULO. Em reunião no apartamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo, tucanos da chamada ala dissidente discutiram ontem a necessidade de lançar, "o quanto antes", o nome do PSDB que disputará a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2010. No partido, a análise é a de que a definição de um presidenciável tucano potencializaria a voz de oposição ao governo, e que não se deveria deixar passar em branco a conjuntura de crise financeira internacional.

- Discutimos a necessidade de definirmos o quanto antes nosso candidato a presidente. Precisamos ter uma voz de oposição. À medida que tivermos candidato definido, as coisas ficam mais fáceis até no ponto de vista da crítica - disse o deputado Paulo Renato Souza (PSDB-SP), que participou do encontro que reuniu cerca de dez parlamentares na casa do ex-presidente.

Paulo Renato tem liderado o grupo contrário à recondução de José Aníbal ao cargo de líder da bancada na Câmara, sob a justificativa de que houve uma ruptura das normas do estatuto. Seria esse o assunto da reunião de ontem, mas logo o tom ganhou contornos eleitorais. Paulo Renato, com o apoio do governador de São Paulo, José Serra, perdeu a disputa pelo posto de líder do PSDB na Câmara para Aníbal, que contou com votos de tucanos ligados ao governador mineiro Aécio Neves.

Articulação para anunciar nome no meio do ano

A estratégia de antecipar o nome do presidenciável veio à tona como uma forma de evitar eventuais desgastes com disputas internas. A preocupação é com a possível insistência de Aécio em promover prévias para escolha do candidato, o que criaria fissuras no ninho tucano. Segundo um dos participantes do encontro, o nome de Serra aparece como o mais provável.

- Pedimos o lançamento o quanto antes: na metade ou antes do fim do ano. Desde que através de um mecanismo aceito por todos, seja qual for - disse Paulo Renato, ao sair do prédio de FH.

O encontro serviu para o PSDB debater a reafirmação como partido de oposição ao governo Lula, pegando como carona a turbulência dos mercados internacionais, que tem gerado desemprego em massa também no Brasil.

- Discutimos, além da reafirmação como oposição, denúncia da má gestão no combate à crise, o juro elevado, atraso nos programas de investimento, excesso nos gastos correntes. O presidente (Fernando Henrique Cardoso) reafirmou a necessidade e a conveniência de o movimento (dissidente) sair para assumir posição claramente oposicionista - afirmou Paulo Renato, que acrescentou: - Que aproveitemos essa força, criada a partir de episódio do passado (reeleição de Aníbal), para olhar para frente.

Entre os participantes do encontro, estavam os deputados Walter Feldman (SP), Julio Semeghini (SP) e Luiz Paulo Velozo Lucas (ES).

Tucanos dissidentes: pressa na escolha de candidato

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

SÃO PAULO – Em reunião no apartamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo, tucanos da chamada ala dissidente discutiram ontem a necessidade de lançar, “o quanto antes”, o nome do PSDB que disputará a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2010. No partido, a análise é a de que a definição de um presidenciável tucano potencializaria a voz de oposição ao governo e que não se deveria deixar passar em branco a conjuntura de crise financeira internacional. O ex-presidente FHC alertou que o partido tem de colocar o foco na oposição ao PT, que já estaria em “campanha” com a pré-candidata do partido, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

“Discutimos a necessidade de definirmos o quanto antes nosso candidato a presidente. Precisamos ter uma voz de oposição. À medida que tivermos candidato definido, as coisas ficam mais fáceis até no ponto de vista da crítica”, disse o deputado Paulo Renato Souza (PSDB-SP), que participou do encontro que reuniu cerca de dez deputados na casa do ex-presidente.

Renato tem liderado o grupo contrário à recondução de José Aníbal ao cargo de líder da bancada na Câmara, sob a justificativa de que houve uma ruptura das normas do estatuto. Seria este o assunto da reunião de ontem, mas logo o tom ganhou contornos eleitorais. Paulo Renato, com o apoio do governador de São Paulo, José Serra, perdeu a disputa pelo posto de líder do PSDB na Câmara para Aníbal, que contou com votos de tucanos ligados ao governador mineiro Aécio Neves.

A estratégia em antecipar o nome do presidenciável veio à tona como uma forma de evitar eventuais desgastes com disputas internas. A preocupação é com a possível insistência de Aécio em promover prévias para a escolha do candidato, o que criaria fissuras no ninho tucano. Segundo um dos participantes do encontro, o nome de Serra aparece como o mais provável.

FHC cobra de tucanos foco na oposição e nome de 2010

Julia Duailibi e Silvia Amorim
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Depois do racha na bancada do PSDB na Câmara, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem aos chamados tucanos dissidentes que o partido tem de colocar o foco na oposição ao PT, que já estaria em "campanha" com a pré-candidata do partido, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Em encontro em São Paulo, oito parlamentares ouviram de FHC que o partido tem de ser mais combativo, principalmente num momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já pôs sua candidata em evidência. Ele defendeu ainda a tese de o candidato tucano deve ser definido rapidamente.

Os parlamentares colocaram ao ex-presidente a crise na bancada, mas Fernando Henrique preferiu não interferir na questão. Na semana passada, o atual líder, José Aníbal, foi reeleito, mas 19 deputados foram contra a sua recondução por não estar prevista no estatuto.

"Colocamos para ele que o nosso movimento (contra a atual liderança) tem a ver com isso. Com uma oposição mais forte", declarou o deputado Vanderlei Macris. Embora tenha decidido manter a dissidência, o grupo resolveu não tomar nenhuma medida contra Aníbal. "Essa é uma questão da bancada", disse Arnaldo Madeira (SP).

Governantes em palanque

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Os três principais pretendentes à sucessão do presidente Luiz Inácio da Silva são ocupantes de importantes cargos públicos e, nessa condição, a ministra da Casa Civil e os governadores de São Paulo e Minas Gerais dispõem de uma vantagem que em tese aniquilaria com as pretensões de quaisquer novos aspirantes a entrar na disputa de 2010: a máquina administrativa, seu uso, a visibilidade que proporciona e os apoios que atrai.

Ela não é tudo, nem sempre as pessoas votam conforme os ditames do mundo oficial, mas, no caso do próximo pleito presidencial, poderá ser um fator preponderante como em nenhum outro desde a volta das eleições diretas.

A administração federal está a serviço de Dilma Rousseff, enquanto os governos dos dois maiores colégios eleitorais do País são cidadelas dos postulantes do PSDB, José Serra e Aécio Neves.

Em 1989, todos os candidatos eram de oposição; de 1994 a 2002 Lula fez sempre o contraponto com o candidato oficial no comando do principal partido de oposição; em 2006 seu oponente era governador de São Paulo.

Uma diferença crucial em relação ao cenário de hoje, porém: Geraldo Alckmin virou candidato às vésperas do início propriamente dito da campanha e do prazo para a desincompatibilização do cargo, enquanto Dilma, Serra e Aécio embora não sejam candidatos de direito são pretendentes de fato desde já.

Com isso, têm tempo de sobra para se valer da condição de híbridos, aproveitando os bônus dos cargos sem enfrentar os ônus que a lei impõe aos candidatos no período oficial de campanha.

Não caberia a nenhum deles, óbvio, abrir mão de suas funções atuais em nome de projetos futuros ainda incertos. Ocorre, entretanto, que a realidade tal como está posta provoca distorções das mais variadas naturezas.

A principal delas, a agressão ao princípio da igualdade de condições assegurado pela Constituição. No quesito, a infração maior parte do governo federal, cujo presidente dá a sua administração o caráter de campanha eleitoral permanente.

Com tal falta de cerimônia que lança abertamente uma candidata três anos antes da eleição usando de todos os instrumentos de poder para torná-la conhecida. A prova está nas pesquisas de opinião.

Dilma Rousseff sozinha, a bordo de seus atributos de líder política, não teria como ter subido de 2% para 13% nas pesquisas no período de um ano. Conseguiu por meio do cargo, dos eventos proporcionados por ele, todos pagos com o dinheiro de cidadãos com preferências eleitorais múltiplas.

Os exemplos acontecem todos os dias. Um dos mais exuberantes aconteceu ontem mesmo, no encontro de prefeitos convidados a Brasília para ouvir o presidente e aplaudir o projeto de candidata.

Considerando que nada se decide em reunião de 3 mil pessoas e que decisões de governo são atos públicos por definição, publicados em Diário Oficial, a realização de um espetáculo em torno tem outros objetivos. No caso, eleitoral.

Tudo certo com eventos políticos eleitorais, desde que sejam feitos na época certa, sob a forma da lei, sem o disfarce da reunião de trabalho nem o uso da máquina em favor de um grupo partidário. Do contrário, é abuso de poder.

E onde entram os governadores do PSDB na história? Justamente naquele pedaço em que a oposição abre mão de sua prerrogativa de fiscalizar as ações do governo, recorrer à Justiça se houver agressão à lei e impedir que se pratique o financiamento público de campanha na marra, porque também tem máquinas poderosas nas mãos e delas podem se valer na operação do mesmo embuste: a campanha eleitoral que não ousa dizer seu verdadeiro nome.

Escolha

Uma hora o Congresso terá de fazer uma opção: ou representa a voz de fora ou continua a se afundar em defesa das conveniências de dentro.

O Poder Legislativo caminha inexoravelmente para este dilema por ele mesmo contratado ainda no processo de redemocratização, quando recuperou o poder perdido na ditadura, não soube o que fazer com ele e passou a fazer o pior uso dele.

Parceria

O partido que se dispuser a aceitar a filiação de Edmar Moreira será fiador da folha corrida e da concepção do deputado de que os vícios do Parlamento são parte natural, e aceitável, do jogo.Como todos sabem disso, num primeiro momento é possível que nenhum deles abra as portas. Mas só até a poeira baixar, depois voltam à habitual frouxidão de critérios para a filiação de pessoas com dinheiro ou influência suficientes para conseguir um mandato.

Ônus da prova

O DEM abriu prazo até amanhã o deputado Edmar Moreira apresentar sua defesa no processo de expulsão aberto pelo partido.

Caso típico em que o direito de defesa seria do eleitor.

Rituais vestibulares

Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Adiantadas algumas etapas, como a definição do nome e preparação minuciosa do seu perfil físico e conteúdo de marketing, e vencida também a arrumação política para ter em postos estratégicos, à época certa, aliados confiáveis, cuida agora o presidente Lula, seu governo e o PT de preparar o conteúdo político-ideológico da candidatura Dilma Rousseff à Presidência da República. Os dois dias de reunião do Diretório Nacional do PT, encerrados ontem, em Brasília, foram integralmente dedicados a esta tarefa.

Oficialmente, discutiu-se a crise econômica mas, na realidade, delineou-se a ideologia sobre a qual se vai discursar a partir de agora e que será o cerne da campanha eleitoral da candidata a suceder o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Veio do Palácio do Planalto, especialmente do discurso do ministro Luiz Dulci, chefe da Secretaria Geral da Presidência, aos seus colegas da direção, o recado, sob forma de sugestão. A campanha de Dilma resgatará o PT como partido de esquerda, os aliados históricos vão ser procurados para darem densidade ao projeto, o mesmo ocorrendo com os movimentos sociais, os sindicatos, os estudantes, as organizações civis.

Unidos, darão voz a um discurso que voltará a comparar o governo Lula com o governo Fernando Henrique Cardoso, como feito em 2002 e 2006. Mais ou menos o que se fez com a demonização da privatização. A crise global do momento estará no centro das comparações. Na reunião do Diretório do PT, segunda-feira, por exemplo, a partir de critérios levados por Dulci do Palácio do Planalto para o partido, discutiu-se como mostrar que Fernando Henrique (o "governo anterior", na concepção petista) reagiu às crises econômicas do México, da Ásia e da Rússia, e como Lula reagiu à atual crise financeira internacional.

Para o PT, há uma diferença abissal entre os dois, e ela é sobretudo ideológica. As análises contornam evidências como, por exemplo, as diferenças também espantosas entre as próprias crises dos dois períodos. As que atingiram México, Ásia e Rússia (1994/1997/1998), eram crises dos países emergentes, que envolveram diretamente Brasil, Argentina, Turquia e quem mais se incluia naquela condição. No governo Lula, a crise está no centro do mundo desenvolvido, Estados Unidos e Europa, sobretudo, com reflexos no Brasil e outros emergentes que, além de se encontrarem em melhor situação hoje do que há 10, 15 anos, receberam o impacto de uma forma mais branda, definida pelo próprio presidente como uma marolinha que vai perdendo força à medida em que se propaga.

Entretanto, isto sequer importa. Para quem prepara a campanha eleitoral, é um pormenor com que não é preciso gastar argumento. O que se vai usar na campanha é que "Fernando Henrique enfrentou as crises econômicas do seu tempo com demissões, desemprego, aumento de juros, tudo ao contrário de Lula, que enfrentou a maior crise do sistema capitalista desde 29 com aumento de crédito, combate ao desemprego, aumento de salários, redução de juros, expansão dos programas sociais e de habitação popular".

Discutiu também o PT a aceleração do processo desta candidatura. Que Dilma é a preferida de Lula e do governo, que seu nome está definido sem risco de contestações, ninguém duvida. Mas o partido defende que ela seja logo a candidata do PT e comece a fazer o circuito dos movimentos sociais. Munida do apoio de Lula e do PT, cercada de sindicatos, camponeses, estudantes, donas de casa, profissionais liberais, tendo ao seu lado aliados históricos à esquerda, a candidata Dilma Rousseff estará, na avaliação do partido, fortalecida o suficiente para, só então, procurar o PMDB.

Segundo a discussão dos últimos dois dias na cúpula do partido, o PMDB deve agir de acordo com o que mostrarem as pesquisas de opinião do eleitorado. "Se estivermos bem, o PMDB vem conosco; se o PSDB estiver melhor, o PMDB vai para lá; se estivermos em equilíbrio, parte do PMDB vai com um, parte vai com outro", comenta um realista dirigente do PT, explicando que, para evitar que as pesquisas definam a força da candidatura, é preciso chegar ao PMDB com mais consistência. O que interessa é o latifúndio de tempo que o partido tem no horário eleitoral gratuito, e este seguirá, mesmo com divisão, com quem ficar oficialmente o PMDB.

Lula, enquanto prepara Dilma, vai jogando em todas as posições. No momento, articula para influir nas definições do PMDB, para não ficar totalmente vulnerável ao imponderável das opções do partido. O presidente trabalha agora para levar o partido a optar por um novo presidente da legenda, com a próxima renúncia do deputado Michel Temer, eleito presidente da Câmara, que facilite a vida do PT.

Nesta reunião partidária de dois dias definiu-se, também, que o presidente do PT, Ricardo Berzoini, vai começar a correr os Estados para uma abordagem mais objetiva da formação dos palanques para Dilma. A tese de acelerar as providências deve ser vencedora das atuais discussões, sobretudo para dar "tranquilidade" à candidata.

Gula

O presidente Lula operou, pessoalmente, o comparecimento do maior número possível de prefeitos de cidades importantes à reunião que promove, desde ontem, em Brasília. Enviou emissários a Eduardo Paes, do Rio, não só informando sobre seu interesse que ele estivesse no encontro, como pediu que Paes se candidatasse a vice-presidente da Frente Nacional de Prefeitos, entidade que representa as cidades grandes e que deverá ter na presidência o prefeito de Florianópolis, Dário Berger. A própria reunião de prefeitos, desta semana, já representou uma tentativa de antecipar-se e, com isto, derrubar a marcha de prefeitos organizada anualmente por Paulo Ziulkoski, da Confederação Nacional de Municípios, entidade que congrega as cidades menores. Lula quer tudo e está ganhando.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

3,5 mil prefeitos na capital: Lula lança 'pacote de ataques'

Tânia Monteiro
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Lula discursa na abertura de encontro com prefeitos: exaltado, afirmou que imprensa foi "pequena" e fez "insinuações grotescas" ao dizer que o evento servirá de palanque para Dilma.

Para Lula, imprensa foi ""pequena"" ao ligar Dilma a benesses a prefeitos

Presidente reclama da forma como jornais anunciaram o parcelamento de dívidas de municípios em até 240 meses

Irritado com os jornais que trataram o Encontro Nacional com Novos Prefeitos e Prefeitas como um ato político-eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a solenidade de abertura da reunião, ontem, em Brasília, para responder à crítica de que o Planalto montou um "pacote de bondades" para cooptar os dirigentes municipais - entre outras medidas, conforme o Estado noticiou ontem, o governo aumentou o parcelamento das dívidas de prefeituras com o INSS de 60 para até 240 meses.

Para Lula, a imprensa foi "pequena" ao tratar as concessões do Planalto como benesses oferecidas aos municípios de olho nas eleições de 2010 e para arregimentar apoio para a ministra e pré-candidata Dilma Rousseff.

Admitindo que estava "virado", mal-humorado, o presidente chegou a fazer uma revisão da reiterada declaração de que foi eleito "graças à liberdade de imprensa". Ontem, em um discurso inflamado, afirmou: "Não é porque a imprensa me ajudou que fui eleito, mas porque suei para enfrentar o preconceito e o ódio dos de cima para com os de baixo". No embalo, chamou as notícias sobre o "pacote de bondades" da União de "insinuações grotescas". E acrescentou: "Nunca fui eleito porque a imprensa brasileira ajudou. Fui eleito porque o povo quis". Em 2008, em entrevista à revista Piauí, Lula já havia dito que ficava "com azia" quando lia jornais.

"Estou meio frustrado. Tem dia em que a gente acorda virado e, se cair um pingo de suor no copo, vira limonada", afirmou o presidente, ao revelar o desconforto com o noticiário.

Diante de cerca de 3.500 prefeitos, o presidente fez um ataque indireto ao governo de São Paulo, sem citar o nome do governador José Serra (PSDB). Ao falar sobre educação, Lula se dirigiu ao prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), e disse que o Estado mais rico do País tem 10% de analfabetos. "Kassab, você vai cair da cadeira. Você não sabe e eu não sabia, mas no Estado de São Paulo ainda temos 10% de analfabetos. O Estado mais rico da federação.

Significa que tem alguma coisa errada", disse o presidente, causando constrangimento ao prefeito, aliado de Serra.

No início da noite, o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), disse que é "mentiroso" o dado apresentado pelo presidente. Segundo Aníbal, o dado dos 10% é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1991. O último dado da PNAD é de 2007 e diz que 4,6% da população paulista, acima de 15 anos, é que é analfabeta. "(Lula) passou uma mentira como se fosse uma verdade. Foi uma propaganda e mostra a deliberada intenção política desse ato", afirmou o deputado. "É muito grave usar um dado mentiroso."

Lula criticou a burocracia que, na sua opinião, atrapalha a liberação de obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). "Vivemos a burocracia do preencha a papelada, se não preencher você está ilegal. E se estiver ilegal o TCU e o Ministério Público vêm em cima de você, e vem processo", afirmou, tendo ao lado o presidente do Tribunal de Contas da União, Ubiratan Aguiar, responsável pelo embargo de obras do PAC. "Então, cumpra-se a papelada, preencha-se cada palavra e cada letra. É assim a máquina pública brasileira."

No "pacote de ataques" do presidente, sobrou até para a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Depois de afirmar que o PAC atrasou no final do ano passado por causa das eleições municipais, Lula declarou que a crise econômica não vai atrapalhar as obras. "Nós cortaremos o batom da dona Dilma, cortaremos (a verba para) o meu corte de unha, mas não cortaremos nenhuma obra do PAC."

Um das informações que mais incomodaram o presidente foi a que tratou o encontro de prefeitos como um ato político para arregimentar apoio para a ministra Dilma.

"Fiquei triste como leitor porque abusaram de minha inteligência e pensam que o povo é marionete, pensa como manada, é vaca de presépio. As pessoas não percebem que o povo consegue pensar com sua própria cabeça. (...) Acabou o tempo em que alguém achava que poderia influenciar uma eleição por ser formador de opinião"", afirmou Lula, no discurso de 50 minutos.

FRASE


Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República

"Nós cortaremos o batom da dona Dilma, cortaremos (a verba para) o meu corte de unha, mas não cortaremos nenhuma obra do PAC"

Apenas um sonho?

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


Enquanto o Senado se reunia para votar o seu plano de recuperação econômica, o presidente Barack Obama estava em Fort Myers, na Flórida, junto ao eleitorado de uma área onde o desemprego subiu a 10%, índice superior à média nacional, e onde a execução de hipotecas de moradias atinge 12%, o maior índice de todo o país. Lá, beijou uma senhora, Henrietta Hughes, cuja família encontra-se sem moradia devido à crise, e prometeu que faria tudo para ajudá-la.

Na véspera, já estivera em Eikhart, onde a taxa de desemprego é de 15%. Atitudes demagógicas, sem dúvida, mas eficazes contra a politicagem dos republicanos. O sonho de um governo bipartidário mostrou-se irrealizável, e o presidente Barack Obama teve que voltar às ruas para pressionar o Senado a apoiar o plano de recuperação econômica, o que acabou conseguindo por uma margem estreitíssima.

Para quem começou o governo sonhando em obter pelo menos 80 votos de um plenário de cem senadores, ter que se contentar com apenas um voto a mais do que o mínimo necessário é uma derrota política dentro da vitória que foi a aprovação do plano.

Os democratas enumeram os esforços feitos por Obama para atrair os republicanos: três ministérios foram dados ao partido (Robert Gates na Defesa, Ray LaHood nos Transportes e Judd Gregg no Comércio).

Além disso, ele convenceu o governador democrata de New Hampshire, John Lynch, a colocar um republicano na vaga do senador Gregg, para não causar nenhum mal-estar. O governador poderia ter indicado um representante de seu partido para a vaga.

Teve diversos encontros fechados apenas com as bancadas republicanas na Câmara e no Senado, para demonstrar a importância que dava a elas, apesar de ter uma maioria grande no Congresso, e chegou a dar uma recepção para os republicanos.

Apenas três senadores republicanos votaram com a nova administração, e, mesmo assim, porque o governo fez diversas concessões, retirando vários programas que agora os democratas tentarão recolocar no projeto.

Os três republicanos que votaram com o governo, porém, estão dispostos a preservar os cerca de U$100 bilhões que foram cortados, retirando financiamento para programas de planejamento familiar, U$16 bilhões de fundos para a construção de escolas e U$40 bilhões para financiamento direto para estados em situação difícil.

O governador da Flórida, o republicano Charlie Crist, apoia a iniciativa, assim como diversos prefeitos, que querem verbas para aplicar em obras de infraestrutura, que geram emprego e melhorias em suas cidades.

Apesar de ter conseguido aprovar o pacote, mudou significativamente a postura de Obama diante da intransigência dos republicanos. Ele voltou ao tom da campanha eleitoral, ressaltando na primeira entrevista coletiva que concedeu, na noite de segunda-feira - marcada com antecedência, enquanto ainda esperava comemorar a aprovação do pacote no fim de semana - que herdou dos republicanos a crise econômica em que o país se encontra.

E criticou a insistência dos republicanos em cortar impostos dos mais ricos, acusando tal política de ter levado o país à bancarrota.

É possível considerar que Barack Obama tenha sido um tanto ingênuo ao traçar uma estratégia que incluía a maioria dos republicanos como parte de seu governo, conseguindo assim transmitir à população, num momento de grave crise econômica, um apoio consensual da classe política.

No entanto, mesmo que tenha se revelado um sonho irrealizável, esse objetivo político de dar às decisões do Congresso uma qualidade maior do que o resultado simples de barganhas está de acordo com o sentido geral da candidatura Obama, de mudança de hábitos e comportamentos, e nada melhor do que tentar fazer essa mudança ter início no Congresso.

Passado o primeiro momento de estupefação diante da inesperada reação dos republicanos, e tendo demonstrado força suficiente para aprovar os projetos, é possível que Obama volte a tentar realizar o sonho da mudança na classe política. Mas isso dependerá fundamentalmente do êxito das medidas que estão sendo adotadas agora.

Caso falhem, o prestígio político do presidente será corroído mais rapidamente do que se imaginava, e o peso da herança maldita, que ele agora pode acusar de ser responsável pela crise econômica, pode se virar contra ele.

Nesse caso, tudo indica que Obama vai ter que se contentar com os votos dos democratas para tocar seu governo, enquanto os republicanos continuarão jogando no quanto pior, melhor, na tentativa de reconquistar o poder no Congresso nas eleições de 2010.

Mesmo sendo um defensor ativo do multilateralismo, e que defenda a necessidade de maior abertura comercial para o mundo superar a crise econômica, a cláusula "Buy American" que foi incluída no plano de recuperação econômica não é uma inovação.

Ao contrário, ela vai na direção histórica dos governos dos EUA, um país altamente protecionista, que coloca os interesses nacionais sempre em primeiro lugar.

O Buy American Act é uma lei de 1933, editada para ajudar os EUA a saírem da Grande Depressão que se seguiu ao crack de 1929, e, apesar de ser acusada de ter reforçado a recessão econômica naquela ocasião, nunca saiu de pauta.

Em 2007, o Congresso tomou medidas para reforçar o Buy American Act, criticando departamentos de governo que não estavam seguindo aquela lei.

Faltou clareza

Celso Ming
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Os políticos continuam insistindo que a Main Street (o centro da economia real) é mais importante do que Wall Street (o coração do mercado financeiro americano). Com isso, querem dizer que é preciso parar de injetar dinheiro nos bancos e no inchado mercado financeiro e usar os recursos do contribuinte para acionar a produção e a criação de empregos.

Apesar da enorme hostilidade com que os bancos são vistos hoje nos Estados Unidos, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anunciou a criação de um plano de três pontos a ser dotado de cerca de US$ 2 trilhões de capitais públicos e privados. E um novo esquema destinado a sanear o sistema financeiro americano.

Convém falar primeiramente do barril de pólvora assentado sobre os mercados e sobre a economia real, num quadro de alastramento do incêndio. E, em seguida, desse novo plano Geithner.

É preciso tomar as lambanças praticadas pelos bancos nos últimos sete anos, com a bênção ou a omissão das autoridades, como um dado da realidade. O Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês), do secretário do Tesouro do governo anterior, Henry Paulson, de US$ 700 bilhões, destinava-se a resgatar os ativos tóxicos que estavam nos livros dos bancos.

Foram consumidos US$ 350 bilhões com esse objetivo e, no entanto, os bancos continuam com a barriga cheia de títulos tóxicos e, por isso, estão longe de inspirar confiança. Além disso, esses recursos estão sendo distribuídos sem transparência e sem que ninguém exija a devida prestação de contas (accountability).

Essa é a principal razão por que ninguém empresta (nem aplica) aos bancos e, consequentemente, por que os bancos continuam sem condições de retomar as operações de crédito. E, sem crédito, consumo e produção, os postos de trabalho vão afundando nos Estados Unidos e no resto do mundo rico.

Por mais irresponsáveis que tenham sido os banqueiros e os demais gatos gordos de Wall Street, por tantos anos cevados com salários e bônus nababescos, deixar que os bancos afundem é perpetuar a falta de irrigação sanguínea e, assim, empurrar a economia para a gangrena.

Ontem, com queda das bolsas e baixa do dólar ante outras moedas fortes, os mercados reagiram mal ao anúncio do Plano Geithner, não propriamente porque o achassem ruim, mas porque não obtiveram elementos suficientes para o entenderem.

A ideia de atrair capitais privados para ficar com os ativos tóxicos não é ruim. O mercado financeiro trabalha há anos com junk bonds (títulos-lixo) e poderia absorver alto volume de micos, especialmente se o Tesouro ou outros organismos oficiais se dispuserem, como se anuncia, a dar garantias aos interessados em tomar esses ativos.

No entanto, ficou a sensação de que o principal problema continua sem solução: a que preços o setor privado seria convidado a adquirir esses papéis que ninguém sabe quanto valem? E, se o setor público vai distribuir garantias para respaldar o interesse privado, sobre que valor serão passadas essas garantias?

Enfim, o governo Obama conseguiu ontem expressiva vitória no Congresso com a aprovação do seu plano de US$ 800 bilhões para resgatar a economia real. Mas deixou a impressão de que não tem clareza sobre o que pretende fazer com os bancos.

Confira

Mais assimetria - Há anos os argentinos reclamam de que o Brasil faz jogo desleal no comércio com seus vizinhos.

No final dos anos 90, o então ministro da Economia, Domingo Cavallo, afirmava que o Brasil roubava os argentinos por ter um câmbio excessivamente desvalorizado. Agora, é o principal negociador comercial argentino, Alfredo Chiaradia, que acusa o Brasil de desestabilizar a economia argentina com os US$ 36 bilhões emprestados pelo BNDES aos produtores brasileiros.

Mas, se é para tirar o BNDES da parada, então é melhor acabar de vez com o Mercosul.

Uma decepção e dois trilhões

Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Plano Obama estreia como fiasco político, ainda não está pronto e estatiza mais o crédito por meio do Fed, o BC dos EUA

É MUITO DIFÍCIL , para não dizer logo pretensioso, avaliar um plano que prevê negócios de trilhões de dólares, lida com instrumentos financeiros que nem a cúpula da banca diz compreender e que pretende reformar os maiores bancos da maior economia do mundo. Mas um efeito evidente e imediato do anúncio do pacote Obama foi uma onda de decepção nos EUA.

Barack Obama já enfrentara dificuldades para aprovar no Congresso mesmo uma versão desfigurada de seu plano de estímulo fiscal (gastos em obras, serviços públicos e abatimento de impostos). O seu plano de conserto das finanças privadas não foi, a princípio, politicamente mais afortunado. A estreia econômica do presidente da esperança foi inesperadamente ruim. Sim, o governo não tem nem um mês. Mas, antes mesmo da posse, americanos eminentes ou influentes já se perguntavam se os EUA podiam esperar tanto para George Bush descer da pilha de ruínas que deixou na Casa Branca.

O núcleo do plano é aparentado do plano Bush. Agora, um fundo com dinheiro público e privado compraria títulos podres dos bancos, começando com US$ 500 bilhões. Isto é, compraria papéis cuja renda dependia do pagamento de prestações imobiliárias, na maior parte. Ainda se trata, pois, de repassar a alguém o mico dos bancos. O objetivo é recompor a quantidade mínima de dinheiro (base de capital) nos bancos, de modo a que possam voltar a emprestar ou não parecer falidos.

O problema também continua o mesmo do plano Bush: quanto pagar por papéis podres? Pagar demais significa dar dinheiro aos bancos. Pagar pouco pode acabar com eles. A alternativa é estatizar: ficar com os prejuízos e com os bancos. De resto, de onde virá o dinheiro privado?

Outro aspecto importante do plano reforça o papel do Fed como banco-mor dos EUA. Mas o plano Obama eleva o caixa do Fed para tais fins de US$ 200 bilhões para até US$ 1 trilhão. O Fed, indiretamente, empresta dinheiro a empresas e consumidores (que compram casas, carros e mensalidades da faculdade ou gastam via cartão de crédito). O Fed na verdade empresta dinheiro para que fundos e instituições financeiras comprem títulos lastreados nessas dívidas, o que abre espaço para mais empréstimos no setor privado.

Um problema que continua a arruinar o sistema financeiro são os despejos e os calotes imobiliários (e, agora, também no cartão de crédito etc.). Mais calotes, menos capital nos bancos. Menos capital, menos empréstimos e juros maiores. O governo não deu detalhes do plano para auxiliar a renegociação de dívidas da casa própria (para piorar, mal se sabe hoje quem são os credores dessa dívida, que foi transformada em títulos e revendida no mercado).

Uma dificuldade nova, mas incontornável, serão as auditorias ("testes de estresse") que vão verificar quais bancos ainda são viáveis o suficiente para que possam receber dinheiro do plano de socorro (via compra de ações). Além das disputas que isso deve causar, pode haver um clima de juízo final ou de tribunal do júri: quem morre e quem merece auxílio público? Novidade também, os bancos socorridos só vão poder pagar no máximo um centavo de dividendo por ação enquanto não pagarem sua dívida com o governo.

Plano americano

Panorama Econômico :: Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Poderia ter sido um grande dia para Barack Obama. Não foi. O projeto de estímulo foi aprovado no Senado. Ponto para ele, mas o pacote gigante de resgate dos bancos para recuperar a confiança no sistema bancário só produziu confusão. O que faltou foi exatamente aquilo que Obama tanto prometeu: transparência. O governo anunciou um pacote de US$2 trilhões e o mercado caiu.

Detalhes reveladores. O secretário do Tesouro, Timothy Geithner, leu no teleprompter o pronunciamento sobre o plano e não respondeu a perguntas. Anunciou que para entrar na nova era de "transparência" tudo poderia ser acompanhado por um site (www.financialstability.gov). Quem entrasse ontem para entender melhor ficaria sabendo que ele estava ainda em formação. No texto do seu pronunciamento estava escrito que os bancos, para participar do programa, passariam por um "compreensivo teste de estresse financeiro". Especialistas se recusavam a tentar explicar ontem o que seria esse teste de estresse.

O pacote de resgate pode ser dividido entre os mecanismos que têm chances de funcionar, os que têm menos chance e outros que estão lá para dar uma cara nova a velhas ideias. O economista internacional do Banco Itaú, John Welch, acredita que a entidade que saneará os bancos, o Financial Stability Trust, é a ferramenta mais viável se funcionar nos moldes do imaginado bad bank, ou seja, uma instituição que compraria ativos de baixa qualidade. Mas sempre haverá a dúvida: se os papéis forem avaliados por valor de mercado, os bancos teriam que pôr um enorme prejuízo em balanço.

Outro mecanismo é o fundo a ser formado por capital público e privado de US$500 bilhões - que pode chegar a US$1 trilhão - e que será também para sanear os ativos podres dos bancos.

- Desde a quebra do Lehman Brothers não há capital privado voluntário comprando ações de instituições financeiras. Portanto, é difícil saber se essa PPP vai funcionar - diz John Welch.

O financiamento de expansão de consumo e de investimento de US$1 trilhão será feito na forma do programa já existente, que compra ativos como cartão de crédito, recebíveis de educação, ativos imobiliários.

Mas, na verdade, o fato mais importante sobre o pacote de ontem foi sua total falta de transparência e clareza, que deixou confusos até economistas experientes em sofisticados mecanismos de saneamento financeiro. Nada poderia ser simples numa crise tão complexa, mas, como o Brasil sabe, de viver e sofrer, o primeiro passo para o sucesso de qualquer plano é a comunicação. E a do Tesouro americano foi uma comunicação de amador.

Já se sabe que o governo dos Estados Unidos gastará uma montanha interminável de dólares. Nem tudo é gasto, alguns são troca de ativos que podem ter uma contabilidade diferente no futuro, mas Welch calcula que é um pacote de US$2,5 trilhões que não conta o pacote de estímulo econômico de US$838 bilhões, aprovado ontem, nem os bilhões já gastos em tentativas inúteis de capitalizar os bancos americanos.

Já o plano de estímulo aprovado pelo Senado ainda terá que ser negociado com a Câmara porque tem inúmeras diferenças. Entre elas: os estados deixam de receber US$40 bilhões se a versão que prevalecer for a do Senado. Os compradores de imóveis que estão comprando pela primeira vez ganhariam US$2,6 bi de estímulo se a versão da Câmara valer, mas no Senado isso vira uma ajuda para qualquer comprador, independentemente do nível de renda, e o valor aumenta para US$18 bilhões.

O plano dá uma arma na mão de Obama que ele queria para começar a gastar, mas tem recebido várias críticas de economistas que dizem que ele faz a mais elementar das confusões entre gastos de custeio e de investimento. Ele vai gastar US$90 bilhões com o sistema de saúde, e Obama diz que é investimento. E explicou na sua primeira coletiva que se as anotações nos prontuários médicos deixarem de ser anotadas à mão, confundindo enfermeiras, para ter tudo computadorizado, isso não é gasto, é investimento. O presidente americano também deu outros exemplos na entrevista: se o governo investir no aumento da eficiência energética dos prédios públicos, vai reduzir o custeio e ainda criar emprego.

Barack Obama decidiu usar seu capital político para tentar virar o jogo paralisado dos últimos dias. E se saiu com algumas boas vitórias. Nos últimos dias, ele vestiu de novo a roupa de candidato e fez calorosos discursos em palanque no estado de Indiana e na Flórida, para pressionar o Senado. Tem 75% de aprovação, mas o plano tinha apenas 54%. Obama conseguiu a aprovação do plano. Mas, ao mesmo tempo, sua equipe fez gol contra ao anunciar de forma atabalhoada aquilo que será a pedra principal de qualquer plano econômico para resgatar a economia americana do buraco financeiro.

- Enquanto não ficar explícito que instituições têm ativos podres, o dinheiro não vai circular. É uma das leis do mercado financeiro - diz John Welch.

O anúncio feito por Timothy Geithner teve alguns pontos favoráveis. Um deles foi garantir que todas as agências do governo - Tesouro, Fed, Fundo Garantidor, SEC, Agências de controle e fiscalização bancárias, entre outras - estarão juntas. "São várias agências, mas um só governo", disse Geithner. Nos próximos dias, na divulgação dos detalhes do arsenal que pretende usar, o jovem secretário do Tesouro tem uma chance de reverter o estrago de ontem.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1236&portal=

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A Carta da Democracia

Fernando Perlatto
Fonte: Gramsci e o Brasil

Lopes, Júlio Aurélio Vianna. A Carta da Democracia. O processo constituinte da ordem pública de 1988. Rio de Janeiro: Topbooks, 2008. 257p.

O ano de 2008 foi marcado por diversos eventos que buscaram rememorar os vinte anos da Constituição de 1988. Ainda que tenha recebido atenção dos meios de comunicação, a celebração da “Constituição cidadã” — como a definiu Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Constituinte — foi ofuscada pela celebração de outras datas, com destaque para os 200 anos da chegada da família Real ao Brasil. Independente disso, o fato é que 2008 foi marcado por diversos eventos e publicações [1], cujo intuito era analisar não somente os anos que testemunharam o processo constituinte, como também as consequências da Carta de 88 para a vida dos brasileiros, contribuindo, desta forma, para proporcionar — junto a outros trabalhos essenciais que foram produzidos, seja no calor dos acontecimentos [2], seja posteriormente, como objeto de reflexão acadêmica mais acurada [3] — uma melhor compreensão deste período, que constituiu um marco para a construção da democracia no Brasil.

A Carta da Democracia deve ser compreendida como mais um esforço neste sentido, na medida em que o autor procura analisar a dinâmica dos quase vinte meses que marcaram o processo de elaboração da Constituição de 1988, que se estendeu de fevereiro de 1987 a setembro de 1988.

O livro conta com “Prefácio” de Bernardo Cabral, relator geral da Assembleia Constituinte, que define a obra como “o mais completo, isento e bem elaborado dentre todos [os trabalhos] de que tenho tomado conhecimento em torno dos momentos da Assembleia Nacional Constituinte” (p.15-6). Dividindo seu livro em sete capítulos, além de um anexo contendo declarações de diversas lideranças partidárias quando do encerramento do processo constituinte, o autor vale-se de fontes bibliográficas, jornais da época e dos Anais da Assembleia Nacional Constituinte para reconstituir aqueles meses decisivos que marcaram a redemocratização do Brasil e culminaram na elaboração da “Carta da Democracia”.

Desde o início da obra, Lopes faz questão de destacar as dificuldades enfrentadas no decorrer do processo, apontando para as divergências existentes entre os atores políticos em torno do caráter e do procedimento constituinte. Enquanto determinados setores defendiam a tese de que a feitura da Constituição caberia aos deputados federais e senadores eleitos em 15/11/1986, outros sustentavam a ideia de que este processo deveria ser conduzido por uma Assembleia Constituinte eleita exclusivamente para tal.

A primeira ideia, conforme destacado por Lopes, sagrou-se vencedora, e, a despeito das críticas que permaneceram durante todo trabalho constituinte, a experiência brasileira logrou ser singular — com o precedente apenas da Espanha, em 1978 —, na medida em que a Constituição (Poder Constituinte Originário) acabou por ser elaborada pelo poder constituído. Em consequência desta decisão, os 559 membros do Congresso Nacional empreenderam o trabalho de elaboração da Constituição pari passu às atividades por eles desenvolvidas como deputados e senadores, imprimindo determinada dinâmica ao processo cujas conseqüências não tardariam a aparecer.

Júlio Lopes realiza um minucioso trabalho, visando perceber os embates que permearam todo o procedimento constituinte, cujo desenho inicial objetivava a formulação da Carta em quatro momentos: os constituintes iniciariam seus trabalhos em 24 subcomissões temáticas, cujas propostas seriam enviadas para 8 comissões e, findos os trabalhos das mesmas, suas formulações seriam encaminhadas para uma “comissão de sistematização”, que, finalmente, organizaria um projeto de Constituição para ser votado pelo conjunto dos constituintes no plenário. Conforme bem observado pelo autor, o “único instituto trazido pelo regimento interno, enriquecedor do caldo de cultura política na Assembleia” (p. 38), constituiu-se nas 122 emendas propostas pela iniciativa popular à Mesa Diretora, que, após a verificação, admitiu 83 delas por atender às exigências regimentais da Constituinte. A quantidade de assinaturas mobilizadas para a inclusão das emendas populares no processo corrobora a idéia da existência de um contexto marcado pela mobilização popular, configurando um momento, como bem observado por Bernardo Cabral, “em que a atividade política era res publica, coisa de todos, de todos nós, brasileiros” (p. 14).

Buscando lograr o difícil exercício de combinar a descrição das fontes coligidas com a dimensão analítica do processo constituinte como um todo, o autor se vale de duas clivagens — que ele denomina como ideológica (exame do espectro constituído entre esquerda e direita, de acordo com suas posições frente à democracia política e à propriedade privada) e institucional (análise da trajetória política dos parlamentares constituintes, buscando sopesar se elas ocorreram em instituições públicas ou privadas) —, de modo a identificar os acordos e embates ocorridos nas etapas que antecederam a formulação da Carta de 88. Neste sentido, é relevante destacar a importância conferida por Júlio Lopes ao centro político neste processo, na medida em que as operações políticas de envergadura na Assembleia só poderiam ter êxito caso contassem com as expressões centristas, independentemente do setor ideológico do qual adviesse a iniciativa política.

Conforme destacado pelo autor, durante mais de um ano, nenhum dos partidos políticos da Assembleia privilegiou o debate institucional, em torno de temáticas como o sistema e/ou forma de governo e o sistema eleitoral e partidário, privilegiando as discussões conjunturais, relativas ao mandato presidencial do Governo Sarney, talvez como consequência do funcionamento concomitante do Congresso Nacional e da Assembleia Constituinte.

A esta “tendência conjunturalizante”, que atravessou todo o processo constituinte, vieram a se somar outras práticas — tais como o privilégio dos membros individuais em detrimento das bancadas partidárias nas comissões e subcomissões temáticas e a elaboração fragmentária da futura Constituição (visto que os debates ocorriam nas comissões, sem qualquer conexão com as discussões efetuadas nas demais) — que conduziram o processo constituinte a um quadro de “incerteza absoluta” e “paralisia decisória”, marcado pelas dificuldades de obter consensos políticos sobre a ordem pública. Os diversos impasses (“buracos negros”) surgidos em decorrência dos problemas acima destacados impediram a formulação de um texto consensual básico durante todo o primeiro ano de funcionamento da Assembleia, o que acarretou o truncamento dos trâmites constituintes e o descumprimento de todos os cronogramas antes estabelecidos.

Apesar dessas dificuldades, duas demandas veiculadas pelos constituintes de vários partidos estiveram presentes em todas as subcomissões, segundo o autor: uma inspiração descentralizante do Estado e outra antidiscriminatória dos cidadãos, a despeito das diferenças encontradas entre as posições políticas. Convém ressaltar, entretanto, que, por não possuírem qualquer referencial comum, os debates ali desenvolvidos produziram incongruências entre si, aumentando as divergências no processo constituinte. Conforme destacado por Lopes, este quadro de “paralisia decisória” apenas começou a se modificar na etapa de sistematização, cuja relatoria coube a Bernardo Cabral. Esta fase do processo constituinte testemunhou a combinação da tendência, ainda dominante, de multiplicação de divergências com a tendência, ainda que embrionária, de articulações entre as lideranças partidárias.

Ao analisar este momento fundamental da elaboração constitucional, Júlio Lopes procura ressaltar a importância do surgimento do denominado “Centrão” — movimento composto por lideranças constituintes de centro (do PMDB, PTB, PL), centro direita (do PMDB, PFL, PDS) e direita (do PDS), que valorizava a participação individual em detrimento das bancadas partidárias — para a modificação dos rumos do processo constituinte. Quando o tema da ordem pública foi objetivamente colocado para a Assembleia, estes setores partidários, não selecionados pelo centro esquerda durante as reuniões temáticas e sistematizadoras, se articularam para intervir no processo. O “Centrão”, de acordo com Lopes, estabeleceu-se como uma coalizão de veto, orientada por um consenso negativo sobre a ordem política a ser instaurada no País, cujo ponto programático comum relacionava-se à rejeição do ordenamento constitucional proposto pela comissão de sistematização e pelo desejo de conferir maior espaço ao mercado na ordem constitucional a ser estabelecida.

A partir deste momento, segundo o autor, a paralisia decisória prosseguia não mais pela fragmentação política generalizada verificada na etapa anterior, mas pela contraposição entre os campos do centro esquerda e do centro direita no plenário da Assembleia Nacional Constituinte. Em decorrência das dificuldades enfrentadas, dois movimentos asseguraram a instituição de mecanismos verticais para a produção de amplo consenso daí em diante, no processo constituinte: em primeiro lugar, a negociação entre as lideranças da sistematização e as do “Centrão” por meio de concessões mútuas e, em segundo lugar, o reposicionamento dos setores centristas, que, afastando-se dos setores mais à direita, buscavam se projetar como fiadores de compromissos amplos na Assembleia.

Conforme destacado por Lopes, estes dois movimentos contribuíram para o “fortalecimento inusitado” do presidente da Assembleia Constituinte, Ulysses Guimarães, que passou a ser encarado como o tertius capaz de produzir consensos básicos sobre a ordem pública. Bernardo Cabral, agora relator geral da Assembleia, também teve sua importância política especialmente acrescida neste contexto. Desta forma, a Constituição foi elaborada no plenário da Assembleia, com o consenso sendo estabelecido concomitantemente às votações, implicando o fortalecimento dos partidos mediante as reuniões do Colégio de Líderes e a verticalização do processo decisório.

Ao situar a formação de maiorias constituintes, Júlio Lopes aponta o fato de o compromisso político formalizado no processo ter se constituído em um “consenso periférico sobre a ordem pública” (p. 175-6). Isto quer dizer que, embora as forças políticas da Assembleia tivessem conseguido construir amplos consensos sobre a generalidade dos temas da ordem pública, elas não o fizeram sobre o eixo da ordem política, sobretudo no que tangeu ao tema do sistema de governo. Em consequência disso, a Constituição de 1988 não encerrou politicamente o ciclo da transição democrática, o que só veio a ocorrer em 1993, quando a população brasileira optou pelo regime presidencial de governo.

Entretanto, o autor faz questão de ressaltar que, apesar de a transição democrática ter sido concluída, ela continua padecendo de um núcleo institucional fraco, na medida em que diversos institutos parlamentaristas — sobretudo as medidas provisórias — permaneceram no sistema político brasileiro, tendo como principal consequência a hipertrofia do Executivo sobre o Legislativo, dificultando qualquer possibilidade de iniciativa própria deste poder. Além desta característica, de acordo com o autor, o processo constituinte configurou uma nova imbricação entre Estado e sociedade civil, invertendo o sentido político do regime militar — caracterizado, seguindo a definição de Schimitter, de “regime autoritário-burocrático” —, moldando um regime democrático-burocrático, caracterizado pela projeção de interesses coletivos sobre o Estado, instrumentalizado pelos movimentos sociais para a própria auto-organização.

Além desta análise pormenorizada do processo constituinte, Júlio Lopes procura responder a determinados questionamentos referentes à Constituição de 88, entre os quais convém destacar dois, à guisa de exemplo. O autor fornece algumas interessantes explicações acerca dos motivos que permitiram a elaboração de uma Constituição progressista, mesmo em um cenário marcado pela predominância de congressistas conservadores. Lopes destaca, neste sentido, a importância da ampla incidência das emendas populares no processo constituinte e a desarticulação das forças políticas de centro direita e direita por ao menos um ano na duração do processo. Mais ainda, o autor oferece uma interessante sugestão sobre os motivos da forte presença da dimensão jurídica na “Carta da Democracia”, sublinhando a presença majoritária de membros da Assembleia cuja carreira política se baseava em postos-chave para a regulação estatal, bem como, principalmente, a percepção do direito como fiador de consensos entre a tendência publicista e participativa da sistematização e a tendência privatista e modernizante do “Centrão”.

Além destas explicações, o autor contribui para desmistificar algumas questões relacionadas ao processo constituinte, entre as quais destacamos três. Em primeiro lugar, Lopes nega a idéia de uma enorme presença do Estado e do mercado na Constituição de 88, destacando o fato de o texto ter sido construído através de concessões mútuas entre os defensores destes dois polos, edificando um padrão de parcerias entre ambos, sob a responsabilidade do Estado. Em segundo lugar, para o autor, a Constituição resultou, basicamente, do consenso político entre o centro esquerda e o centro direita, questionando, desta forma, o argumento corrente segundo o qual a Constituinte teria sido hegemonizada ou pelo centro esquerda ou pelo “Centrão”. Por fim, ele problematiza a noção corrente acerca da participação do PT no processo, destacando polemicamente que, malgrado a retórica, o partido se integrou efetivamente ao conjunto da ordem pública delineada pelos amplos acordos políticos.

No final de sua obra, Júlio Lopes ressalta o fato da Constituição de 1988 ter se estabelecido como “uma engenharia política inacabada”, que, a despeito da estruturação institucional inovadora, não conseguiu lograr uma disciplina específica para os partidos políticos e, principalmente, para a Presidência da República, devido à permanência do mecanismo das medidas provisórias. O autor conclui destacando a necessidade da realização de uma reforma política que, além de pôr fim a este mecanismo, venha a estabelecer a fidelidade partidária, “uma exigência inadiável para nossa vida democrática” (p. 242). Neste ponto, convém destacar que, ainda que não seja o objetivo central do autor, esperava-se chegar ao final de uma obra tão bem documentada e analisada com uma proposta normativa menos tímida diante dos enfrentamentos ainda colocados para a democratização política e social do país, relacionada, por exemplo, à expansão e execução com maior periodicidade dos mecanismos de participação popular previstos na Constituição.

Devido à profunda pesquisa empírica e à acurada dimensão analítica, esta obra de Júlio Lopes constitui um instrumento indispensável para a compreensão dos anos que antecederam a realização da Constituição de 1988, bem como para pensar acerca das suas implicações e dilemas colocados na contemporaneidade. A reflexão em torno da “Carta da Democracia”, como bem evidenciado pelo trabalho, deve ser permanente e cuidadosa, visto que, a despeito dos limitados avanços em algumas questões essenciais — cujo exemplo maior é a questão agrária —, a Constituição de 88 tem contribuído para colocar em outro patamar a disputa política e social no país, acumulando forças para os partidos e movimentos progressistas ampliarem a luta para o necessário aprofundamento da democracia brasileira.

Fernando Perlatto é mestrando do Iuperj e pesquisador do Cedes (Centro de Estudos Direito e Sociedade) desta instituição.

Dos males, o maior

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Declaração falsa de patrimônio, processo no Supremo Tribunal Federal, exacerbação do compadrio, nada disso é novidade num país em que réu dá lição de moral, boa parte do Parlamento tem contas abertas com a lei, o presidente da República acha normal o uso de dinheiro por meio de caixa 2 e dissemina o sentimento de que numa boa relação política o que vale é a camaradagem.

O deputado Edmar Moreira só destoa mesmo na disponibilidade de recursos para construir um cassino em feitio de castelo no meio do nada e no atrevimento para fazê-lo a despeito da ilegalidade do jogo.

De resto, não foge da média. Em alguns casos, como na ideia da transferência dos julgamentos políticos para o âmbito do Judiciário - o que equivale à extinção de processos de natureza política e do conceito de decoro parlamentar -, Moreira até se associa a gente de dotes intelectuais que à época do mensalão defendeu a tese com galhardia e hoje se faz de morta.

Como se o esdrúxulo enunciado segundo o qual a Casa de representação política não tem condições de fazer julgamentos políticos tivesse nascido na manhã de terça-feira da semana passada na mente do então corregedor que, durante a primeira entrevista coletiva do presidente da Câmara, reclamou injuriado para o locutor que havia se esquecido de citar os integrantes da Mesa presentes.

Assim o deputado Moreira chamou atenção para si e, já encerrada a entrevista, ensejou um pedido de "compromisso público" com a ética, feito pelo repórter José Maria Trindade, da rádio Jovem Pan.

Tivesse ficado quieto, recolhido à sua insignificância, deixado passar em branco a oportunidade de constranger o locutor com sua "otoridade", o deputado muito provavelmente continuaria como segundo vice-presidente e corregedor da Câmara.

Havia sido eleito como candidato avulso, sem indicação partidária, representante, portanto, de um desejo genuíno da "Casa", aqui entendida no mau sentido de corporação.

O colegiado podia até desconhecer a folha corrida de sua excelência. Se conhecesse seria indiferente a ela, como o é em relação a tantas outras até mais fornidas, mas bem aceitas porque no Parlamento vigora o conceito de que, se o povo elegeu, todos têm direitos iguais: podem ser escolhidos presidentes, vices, secretários, presidentes de comissões, corregedores.Mas não desconhecia as opiniões do deputado a respeito de processos por quebra de decoro parlamentar. Era, e se comprometeu a continuar sendo, um inocentador por princípio. Sempre deu seu voto pró-réu, independentemente de indícios, provas ou evidências.

Na condição de corregedor, obviamente não abriria processos, não encaminharia pedidos de abertura de investigações, criaria óbices a todo e qualquer julgamento. Mostrou isso ao longo de sua trajetória, declarou que o faria assim que se viu com o cargo nas mãos.

No entanto, a Câmara não reagiu. Ou melhor, praticamente não reagiu. O presidente Michel Temer na reunião da Mesa de quarta-feira chamou atenção para a "inadequação" do declaratório e nada mais.

O PT defendeu de pronto aquele que nos momentos difíceis de 2005/2006 havia defendido os seus e ganhou corpo uma proposta para acomodar o vexame à situação: mudar o regimento para separar a corregedoria da segunda secretaria e, assim, propiciar, para Edmar Moreira, uma solução quase indolor.

Foi preciso que o partido do deputado, o DEM, enxergasse uma chance de se vingar da candidatura avulsa, contra a indicação partidária do deputado Vic Pires, para que as coisas caminhassem como deveriam ter caminhado desde o início sem a pressão do noticiário, mas por reação natural: a retirada do deputado da Mesa Diretora e daí para a abertura de um processo de cassação de mandato por quebra de decoro.

Não fosse o castelo a servir como materialização figurativa do absurdo, o deputado estaria na corregedoria da mesma forma que deputados cheios de processo integram e presidem instâncias estratégicas como o Conselho de Ética e a Comissão de Constituição e Justiça.

O partido presidido pelo presidente da Casa permite sem a menor cerimônia que a CCJ da Câmara seja posta a serviço do PMDB do Rio de Janeiro, num ato que só não virou escândalo ainda porque suas excelências são relativamente discretas; preferem atuar que se projetar, como fez o desavisado do Edmar ao exigir destaque na entrevista do presidente.

Não teve a expertise dos colegas; não percebeu que a hora era de afirmar valores altos, debater a crise financeira internacional. Possivelmente não tenha entendido até agora a razão de tanta indignação.

Não é absurdo crer na sinceridade da carta em que se diz "injustiçado". Não vê mal no que disse, já que todo mundo diz, nem problema no que faz, pois todo mundo faz.

Com um pouco mais de tirocínio, entretanto, ficaria agradecido aos pares que, dos males, mais uma vez preferiram o maior: deram ganho de causa à indecorosa prática parlamentar de preservação de mandatos minados.

Saçaricando

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Esta semana é de festa em Brasília, com Lula, seus 84% de aprovação e a sua candidata Dilma Rousseff saçaricando entre 3.500 a 4.000 prefeitos, ao som de verbas do BNDES, obras do PAC, refinanciamento de dívidas.

Toda semana, aliás, está virando uma festa, com Dilma de cara nova, cabelos e unhas caprichados e sorrisos como nunca se viu na antes durona chefe da Casa Civil, agora alegre candidata. E a máquina de propaganda, quer dizer, de notícias, aumenta e está a todo vapor.

Por aqui, não tem essa história de crise. A popularidade de Lula vai de salão em salão, rodopiando com Dilma, consolidando apoios certos e não-sabidos -como os do PMDB de Michel Temer e Sérgio Cabral.

De um lado, festa. Do outro, crises, divisões, castelos. Aécio Neves mostra que não estava mesmo brincando e não só exige as prévias contra José Serra, ops!, do PSDB, como já confraterniza a céu aberto com Lula, elogiando Dilma. Soa ou não soa como ameaça?

No Congresso, o PMDB ganha na Câmara e no Senado e comemora lançando sinais lânguidos para a candidatura Dilma, que já tem uma dúzia de partidos e partidecos. Já o PSDB se estapeia pela liderança na Câmara, inviabilizando o diálogo e os acordos, enquanto o seu principal aliado, o DEM, não queria o tal Edmar Moreira candidato a vice-presidente da Câmara, mas é quem acaba pagando o pato. Ele tem o castelo, mas quem tem de dar satisfação aos súditos é o partido.

Bem feito! Quem mandou abrir ficha de inscrição para quem recolhe e embolsa contribuição do INSS, não paga dívidas nem para o verdureiro da esquina e tirou do nada um castelo que não é de vento? Guenta!, como diria o outro na TV.

É assim que Dilma vai subindo e José Serra vai caindo nas pesquisas.

Ainda muito pouco, para um lado ou para o outro, mas é uma tendência, surgindo devagar, bem longe. Com empenho do Planalto e decisivo esforço da oposição.

Lula turbina o voo de Dilma

Daniel Pereira
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Crédito para casa própria de servidores

Em meio a uma série de medidas em benefício dos prefeitos — como a renegociação das dívidas com o INSS —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anuncia hoje a criação de uma linha de crédito da Caixa Econômica Federal destinada aos servidores estaduais e municipais, um contingente de pelo menos 5,2 milhões de trabalhadores.

Eles poderão tomar empréstimos com desconto em folha e juros mais baixos para adquirir imóvel na cidade onde vivem. Hoje, tal alternativa é oferecida apenas ao funcionalismo federal. A chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata escolhida por Lula para representar o PT na eleição de 2010, será a grande estrela de um dos dias do encontro com os prefeitos.

A oposição tacha as medidas de eleitoreiras e avisa que vai recorrer à Justiça. “É mais um evento de cunho político e eleitoral”, reclamou o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN).


ELEIÇÕES
Mais uma ajudinha para Dilma

De olho em 2010, Lula vai emprestar dinheiro a servidores públicos de estados e municípios para comprar casa própria. Além disso, facilitará o pagamento das dívidas das prefeituras com o INSS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizará a Caixa Econômica Federal a emprestar recursos para a compra da casa própria, em operações de crédito consignado (com desconto em folha de pagamento), que têm juros mais baixos, a servidores públicos municipais e estaduais. A decisão será anunciada durante o Encontro Nacional com Novos Prefeitos e Prefeitas, que será aberto hoje por Lula, e tem potencial para beneficiar pelo menos 5,28 milhões de trabalhadores. Essa é a quantidade de funcionários a serviço das prefeituras, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Hoje, só servidores federais têm direito a empréstimo consignado. Ao ampliar a lista, o governo pretende estimular a economia e, principalmente, a construção civil, um setor fortemente empregador.

Esse objetivo norteia as outras medidas que serão divulgadas aos prefeitos. Lula e os 36 ministros que participarão do encontro deixarão claro que não faltará dinheiro para a execução de obras em infraestrutura e programas sociais. A ideia é conclamar os governantes municipais a ajudar na reação à crise, evitando uma desaceleração acentuada da atividade econômica e a piora de indicadores em áreas como saúde e educação. Se o roteiro traçado no Palácio do Planalto for cumprido, o presidente avalia que manterá o alto nível de aprovação popular do governo, o que é fundamental para a competitividade da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, na eleição presidencial de 2010.

Amanhã, Dilma será a principal estrela da reunião, que recebeu, até sexta-feira, a inscrição de 3,2 mil dos 5,5 mil prefeitos do país. O público é considerado excelente pelo Planalto. Sobretudo pela possibilidade de se tornar cabo eleitoral da ministra no próximo ano. Dilma falará sobre o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “Esse é um encontro de promoção de oportunidades. É uma abertura para que o PAC chegue aos municípios”, disse o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. “É mais um evento de cunho político e eleitoral. Por que a ministra Dilma? Ela está presente em todos os anúncios, sejam relacionados à pasta dela ou não”, reagiu o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN).

O oposicionista informou que estará atento aos discursos e atos no encontro, para verificar se cabe uma “admoestação” à Justiça Eleitoral. De olho em 2010, o presidente Lula assinará hoje uma medida provisória que autoriza a renegociação de R$ 14,4 bilhões em dívidas dos municípios com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O prazo para pagamento será de 240 meses. A decisão foi tomada porque, sem a certidão negativa da Previdência, as prefeituras não podem receber verba federal. “Precisamos gerar empregos, fortalecer e implementar a economia em cada município”, declarou Múcio. Será a quinta renegociação desde 1997, segundo o presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski.

“Melhoral”

Ele considera insuficiente a proposta. Ontem, já articulou com o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), a apresentação de emendas à MP, enquanto prefeitos — como Antonio Ulsenheimer, de Saudades (SC) — circulavam pelos corredores do Congresso. A meta da CNM é promover um encontro de contas com o INSS. “O que eles devem às prefeituras seguramente anula o débito”, afirmou

Ziulkoski. Ele acrescentou que, se o governo não mudar o índice de correção da dívida, a fatura jamais será paga. Em 1997, o débito era de R$ 4 bilhões. “A medida não passa de um melhoral para quem está com pneumonia”, criticou o presidente da CNM.

Conforme o Correio antecipou, o governo também ampliará uma linha de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a compra de ônibus, tratores e patrulha mecanizada pelos municípios. O valor neste ano será de R$ 980 milhões, contra R$ 500 milhões em 2008.

LULA PRESENTE

Organizado pela Presidência da República a um custo de R$ 243 mil, o Encontro Nacional com Novos Prefeitos e Prefeitas será aberto hoje, às 14h, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. À mesa, estarão, entre outros, o governador José Roberto Arruda e o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. Até amanhã, quando a reunião será encerrada, 36 ministros participarão do evento.



O balanço
5,28 milhões é o número de servidores públicos nos municípios
R$ 14,5 bilhões é quanto as prefeituras devem ao INSS
3,2 mil prefeitos já se inscreveram para o encontro
R$ 243 mil foi o gasto do governo com a organização do evento

Governo lança pacote para acelerar PAC e brecar ato de prefeitos

Simone Iglesias e Letícia Sander
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Municípios, que fazem ato tradicional em março, terão prazo para pagar dívidas com o INSS elevado de 60 para 240 meses

Como prefeituras devedoras não recebem verba do PAC, quitação agilizará programa; evento, que ocorre hoje e amanhã, custará R$ 241 mil

O governo anuncia hoje, em encontro com prefeitos, um pacote de bondades com o objetivo de agilizar obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e esvaziar a marcha de prefeitos, em março.

Por meio de medida provisória, serão refinanciadas dívidas dos municípios com o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) em até 240 meses. Hoje, o prazo é de 60 meses. São devidos cerca de R$ 14 bilhões, diz o governo. Prefeituras com débito não podem receber verba da União para investimentos, incluindo do PAC.

No evento, que custará R$ 241 mil entre gastos com material didático e de divulgação, equipamentos de som e o aluguel do centro de convenções Ulysses Guimarães, estarão presentes primeiras-damas e secretários municipais. Será um grande palanque para o presidente Lula e a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), anfitriões do encontro. Passagens e estadias estão por conta dos convidados. A previsão é reunir cerca de 8.000 pessoas.

O encontro nacional organizado pelo governo, na prática, se sobrepõe à iniciativa levada a cabo há pelo menos dez anos pelas entidades municipalistas Frente Nacional dos Municípios, Confederação Nacional dos Municípios e Associação Brasileira dos Municípios.

As marchas anuais de prefeitos a Brasília, comandadas por essas entidades, começaram com pauta reivindicatória e crítica. Nos últimos anos, porém, os eventos foram marcados por um tom mais conciliador. Desde 2003, Lula é convidado para as marchas. Em 2008, cerca de 4.000 pessoas participaram da abertura do evento, em abril.

O presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, disse que a prorrogação da dívida ajuda, mas não resolve. "É um Melhoral para a febre, mas no mês seguinte a pneumonia estará lá."

Segundo ele, o valor devido é desconhecido pelas prefeituras, o que poderá gerar problemas a longo prazo.

Já o presidente da Associação Brasileira dos Municípios, José do Carmo Garcia, elogiou a iniciativa. "O governo anunciou inúmeros programas que colocará à disposição dos prefeitos, mas os municípios precisam estar regularizados."

Durante o encontro, o presidente anunciará a liberação de R$ 980 milhões pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a compra de máquinas e tratores. No ano passado, foram liberados R$ 500 milhões. Segundo o BNDES, 433 prefeituras pediram o financiamento, esgotando os recursos. Hoje, há 268 municípios na fila.

Questionado se o pacote do governo esvaziava as reivindicações dos prefeitos, Ziulkoski admitiu que pode ocorrer. "Se for para o bem, pode esvaziar a marcha, não tem problema."

Ontem à noite, Dilma participou de debate com membros do diretório do PT e prefeitos do partido em que, segundo relatos dos participantes, ela afirmou que o país está bem posicionado diante da crise, citou as medidas do governo, entre elas um pacote habitacional que ainda será anunciado.

O plano de voo do PT para Dilma

Raymundo Costa
DEU EM VALOR ECONÔMICO

O PT quer começar a campanha da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) a partir de abril, já com uma agenda "eleitoral eficiente" e uma proposta clara para a armação dos palanques regionais, pois considera que esta é a melhor maneira de enfrentar um candidato consolidado do ponto de vista da opinião pública, conforme apontam as pesquisas, como é o governador de São Paulo, José Serra (PSDB).

"Em março temos que tomar um rumo. Cada dia que passa é um dia a menos. O Lula tem dia e hora para sair", diz o ex-governador do Acre Jorge Viana, um dos integrantes do mutirão do PT que articula a viabilização da candidatura Dilma, do qual fazem parte, entre outros, o presidente Ricardo Berzoini (SP), ministros e outros ex-governantes petistas

"Isso vai assim até março, meio caótico. Depois engrena", diz.

O ex-governador conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro. Logo depois Lula se encontrou com os ex-prefeitos Marta Suplicy (SP), João Paulo (BH) e Fernando Pimentel (BH). Com todos Dilma foi assunto central.

A própria Dilma teve pelo menos 20 encontros oficiais com Lula, só nestes 40 dias de 2009. Mais que qualquer outro ministro. Mas segundo Viana, nem Lula já a convidou nem ainda se constituiu uma coordenação formal da candidatura.

Mesmo sem a oficialização, Jorge Viana diz que é preciso definir imediatamente uma "agenda para cumprirmos e para podermos fazer andar o projeto". Ele não é um fã do que chama de "agenda PowerPoint" - programa utilizado para edição e exibição de apresentações gráficas - e das visitas relâmpagos, "e sim de uma agenda mais de gente do que de números".

Segundo Viana, mesmo sendo importante, esse tipo de agenda não atinge as pessoas. "Mais eficiente é ela dormir lá no Acre, ir ao mercado, conversar com as pessoas. Vai sair em todos os jornais durante três dias. Mas chegar lá tipo meio-dia, fazer um ato bacana e sair as seis horas da tarde, as pessoas não vão nem tomar conhecimento". O ex-governador acha a atual agenda "muito eficiente para o governo continuar crescendo em respeitabilidade, aceitação e tal. Mas não tão eficiente pra gente poder consolidar um nome à candidatura".

Em contato com institutos de pesquisa, Viana tem percebido muito ceticismo à hipótese de Dilma chegar a 20% das intenções de voto até o final do ano. Ele é de outra opinião: acredita que com uma agenda bem trabalhada, a ministra Dilma chega aos 25% nesse período. Já está nos dois dígitos.

Uma candidatura oficial, evidentemente, não se resume à agenda. As alianças estaduais são decisivas. "Nós temos que tomar uma decisão: se a gente faz a política de alianças de cima para baixo ou de baixo para cima. Se você olhar de cima para baixo, não dá jogo com o PMDB, que é o nosso parceiro preferencial, não tem aliança tão cedo", diz Viana. "Isso porque há pelo menos uns três ou quatro grupos e nenhum interlocutor de fato do PMDB".

"Mas como é uma eleição geral também do ponto de vista dos Estados, com disputas para governador e deputado, se for feito de baixo para cima eu acho que tem como fechar aliança na maioria dos Estados do PT com o PMDB". Isso "desde que a gente flexibilize um pouco".

Viana fala do PT. Como exemplo, cita Minas Gerais. "Dá para fazer (acordo com o PMDB), mas a gente precisa resolver antes o problema entre o Fernando Pimentel (ex-prefeito), Patrus Ananias (ministro do Desenvolvimento Social) e companhia. Se não tiver esse acerto, como é que nós vamos conversar com os outros? Nós todos temos que tomar juízo", adverte Jorge Viana. "Se nós não resolvermos Minas Gerais, nós teremos problemas", prevê Jorge Viana.

O raciocínio do ex-governador é cartesiano. O PT já enfrenta dificuldades em São Paulo, o que é natural, por conta da força eleitoral do PSDB no Estado, conforme demonstrado nas últimas eleições presidenciais (aliás, cabe acrescentar que os tucanos avaliam que José Serra pode ter um desempenho maior que o de Geraldo Alckmin contra o próprio Lula, nas eleições de 2006 - o PSDB acha que Serra, mantidas as atuais condições de temperatura, pode levar mais de 80% dos votos).

No Rio de Janeiro, Viana acha que é possível compor com o PMDB. Mas neste caso, a aliança decidida de baixo para cima pode não resolver nada, se o governador Sérgio Cabral "ficar na dúvida se apoia ou não o candidato do presidente Lula".

Em Minas Gerais, a situação depende mais do PT que do PMDB. "Por isso que Minas Gerais é tão importante para nós. Assim que a gente tiver Minas e os tucanos tiverem São Paulo, pode bater (estariam então em igualdade de condições para a disputa)". Acertando o Rio de Janeiro, o PT acha que pode então sair do confronto no Triângulo das Bermudas (São Paulo, Rio e Minas, os três maiores colégios eleitorais do país) numa situação melhor que a do PSDB.

Viana vê dificuldades para o entendimento PT-PMDB no Rio Grande do Sul, talvez no Acre, onde faz política, e Pernambuco, onde de qualquer forma o PT terá condições de fazer uma boa aliança com o PSB, se for evidentemente flexível - Eduardo Campos é candidato à reeleição ao governo estadual, cargo também cobiçado pelo ex-prefeito João Paulo.

Apesar dos entreveros no Pará, o PT vê possibilidades de entendimento no Pará, entre Jader Barbalho e Ana Júlia Carepa. Um acordo é possível também no Amazonas e até na Bahia, onde os dois partidos, embora aliados no governo estadual, passam por dificuldades no relacionamento.

"Na maioria dos Estados a gente pode sair junto por aquilo que é importante, que é a eleição local, o calendário, a agenda regional tomando a frente da agenda nacional, afinadinhos com ela", diz Viana. "Isso é uma coisa pra mim fundamental". Resta saber se o PT tem hoje mais capacidade de ceder espaços, em nome de boas alianças, do que teve até agora.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Sinais, mas ambíguos

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Antes de mais nada, agradeço aos leitores que se deram ao trabalho de enviar explicações para a aparente contradição entre a crise e o fato de o fechamento de contratos para financiamento de imóveis pela Caixa Econômica Federal ter batido o recordo em janeiro -aliás, foi o melhor janeiro de todos os tempos desse ponto de vista.

Algumas explicações fazem sentido, outras despertam ainda mais perplexidade, mas creio que a pesquisa do Datafolha publicada ontem ajuda a entender a aparente (ou real) contradição.Dois terços dos pesquisados dizem não ter medo de perder o emprego, embora em um terço dos lares paulistanos ao menos um dos integrantes tenha ido para a rua nos seis meses mais recentes -ou seja, no período em que a crise começou a deixar de ser "marolinha".

Embora o corte de postos de trabalho seja sério e inquietante, ainda não foi suficiente para causar inquietação na camada majoritária de trabalhadores. Daí decorre que, se há certa segurança quanto ao emprego por parte da maioria, haverá naturalmente propensão ao consumo. Aliás, é o que mostra a pesquisa: apenas 32% dos consultados disseram ter deixado de comprar algum bem com medo da crise.

Pesquisa à parte, a vida real mostra crescimento nos licenciamentos de carros de 1,5% em janeiro sobre dezembro. De novo, sem confiança, não haveria tal aumento justamente quando a "marolinha" vira tsunami no noticiário.

Entenda-se o "apenas" dois parágrafos acima meramente como contraponto ao fato de que a maioria não deixou de comprar. Trinta e dois por cento de gente deixando de comprar seria assustador, creio, em circunstâncias normais. Numa crise que muita gente trata como inédita, não sei se é muito ou pouco.

Enfim, tudo somado, tem-se um panorama excessivamente embaçado tanto para previsões otimistas como para antecipar o apocalipse na primeira curva da esquina.

Dupla militância

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


Existem dois G-20 nas negociações internacionais: um formado pelos países em desenvolvimento que se uniram para as negociações comerciais no âmbito da Organização Mundial do Comércio, e outro que reúne as economias mais importantes do mundo, uma ampliação do G-7. O Brasil faz parte dos dois e, com a onda protecionista que se espalha pelo mundo nos últimos dias, está utilizando a experiência dos dois lados a fim de chamar a atenção para os perigos de o comércio internacional ficar paralisado pelas decisões governamentais de vários países.

A cláusula "buy American" (compre produtos americanos) incluída no plano de recuperação econômica dos Estados Unidos desencadeou protestos pelo mundo, mas diversos países estão também adotando medidas protecionistas, inclusive a França, que ontem exigiu que a indústria automobilística utilize o pacote de incentivo anunciado pelo governo nas fábricas em território francês e em compras de produtos franceses, provocando protesto na União Européia.

O Congresso americano, diante das reações, amenizou a barreira protecionista, ressaltando que a exigência só poderá ser feita se não ferir os acordos internacionais. Há quem veja nessa ressalva uma maneira de anular a cláusula na prática sem revogá-la, enquanto os mais céticos consideram que apenas os países que assinaram acordos de compras governamentais com os Estados Unidos estariam a salvo, como os países do Nafta (Canadá e México) e a União Européia.

O fato é que o governo brasileiro está em uma situação delicada, pois, embora esteja do lado certo na defesa da liberação do comércio internacional, não assinou acordos de compras governamentais. O Brasil, fazendo um alerta na Organização Mundial do Comércio contra o protecionismo, está apenas defendendo um conceito, mas terá que ser mais flexível se for retomada a negociação da Rodada de Doha, por exemplo, se quiser manter a coerência e avançar nas negociações.

O Acordo de Compras Governamentais é plurilateral, de adesão voluntária e, portanto, restrito aos membros que aceitaram suas cláusulas, segundo as quais, nas compras governamentais, o processo licitatório está aberto a todos aqueles que aderiram a ele.

A área de compras governamentais sempre foi um terreno delicado nas negociações internacionais do Brasil, ainda na época da falecida Alca, a Área de Livre Comércio das Américas. Chegou-se a um compromisso da transparência, com o Brasil aceitando que, quando houvesse uma licitação internacional para compras públicas com alguma empresa estrangeira interessada, esta teria acesso, sem restrições, às informações.

Isso não representaria nenhum problema para o governo brasileiro, já que as informações são públicas e estão no sistema de pregão eletrônico, um dos mais avançados do mundo. Uma proposta mais ampla, porém, que não obteve a concordância do governo brasileiro, exigia que, quando surgisse um projeto de lei no Congresso, se desse conhecimento imediato aos países integrantes da Alca para que opinassem.

A negociação empacou mesmo no compromisso de abrir todas as áreas às empresas estrangeiras, sem limitações, por instrução direta do Palácio do Planalto. O governo admitia que, no futuro, quando estivesse estabelecido um protocolo de compras do Mercosul, essa abertura pudesse ser feita.

Os americanos queriam que houvesse um compromisso também dos estados, e Argentina e Brasil, que são federações, não podiam se comprometer, assim como os estados americanos, independentes entre si, não aceitariam normas federais genéricas.

No plano federal, alguma flexibilidade poderia ser aceita, mas sem abrir mão da possibilidade de usar compras públicas para exigir contrapartidas de transferência de tecnologia, ou de investimentos em algumas áreas.

A postura do governo brasileiro pode ser considerada tão protecionista quanto a dos Estados Unidos, já que considera que as compras governamentais devem servir para estimular as empresas nacionais.

No momento, o Brasil assume, mais uma vez, a liderança do G-20 na Organização Mundial do Comércio, fazendo o alerta contra o protecionismo dos países ricos, e vai para a reunião do G-20, em Londres, pela primeira vez com o novo presidente americano Barack Obama disposto a, pela voz do presidente Lula, denunciar esse protecionismo como prejudicial à solução da crise econômica internacional.

O problema é que a coesão do G-20 dos países emergentes só existe até o momento em que ele representa uma resistência para a abertura em produtos industriais, e a China, que é o verdadeiro alvo da cláusula "buy American", só se sentiu à vontade no G-20 enquanto ele era um bastião contra a negociação.

Já o Brasil, que na denúncia do protecionismo está do lado da China e dos outros emergentes, aceitara, no ano passado, uma proposta dos Estados Unidos e da União Européia sobre subsídios agrícolas, uma redução pequena, mas que dava espaço para que o espírito multilateral prevalecesse, e a abertura para mais acesso, mesmo que não a ideal.

Nossa ambição, no entanto, era maior do que a da China ou da Índia, que queriam apenas proteger suas agriculturas familiares, assim como a União Européia faz, contra os competidores, que em grande parte das vezes é o agronegócio brasileiro.

O Brasil luta no G-20 dos países industrializados para que a retomada da Rodada de Doha represente um avanço para o comércio internacional que beneficiará os países em desenvolvimento, mas servirá também para revitalizar a economia internacional, ao contrário do protecionismo que está sendo adotado pelos mesmos países mais desenvolvidos.