sexta-feira, 20 de março de 2015

Recursos públicos sustentam rede de propaganda petista – Editorial / O Globo

• Se o Congresso quer ocupar seu espaço institucional, precisa investigar esta grande zona de sombras por onde trafega muito dinheiro do contribuinte

Enquanto as investigações da Operação Lava-Jato e seus desdobramentos jurídicos desvendam o desvio de dinheiro público do caixa da Petrobras para PT e aliados, um documento apócrifo, com digitais da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), aponta para o mesmo grave delito na ação petista na internet e na administração da publicidade oficial. Na essência, são desvios comparáveis: nos dois casos, “privatizam-se” recursos públicos para ajudar o partido na luta política e eleitoral.

O documento, cuja íntegra foi divulgada pelo site de “O Estado de S.Paulo”, aponta deficiências na atuação do partido no mundo digital em apoio ao governo Dilma. De acordo com o texto, falta uma melhor coordenação entre o braço governamental na internet e as forças políticas do lado petista distribuídas entre blogueiros chapas-brancas e até o Instituto Lula. “A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele”. A frase, vazada em terminologia militar, confirma que a internet é usada pelo PT com apoio nos porões do governo. Esta é mais uma evidência do uso privado de recursos públicos. Em outra perigosa confusão de esferas que precisam ficar separadas — Estado e governo —, o documento afirma ser preciso “consolidar o núcleo de comunicação estatal, juntando numa mesma coordenação a Voz do Brasil, as páginas de sites, twitter e Facebook de todos os ministérios, o Facebook da Dilma e a Agência Brasil”. Na prática, subordinam-se instrumentos de comunicação do Estado ao governo petista.

Como reagir, na internet e mídia em geral, ao avanço da oposição foi discutido em reunião realizada esta semana entre o presidente da legenda, Rui Falcão, e deputados federais da bancada petista.

Nela, emergiu mais uma vez a visão distorcida do partido sobre o papel da imprensa profissional. Cobrir as manifestações de domingo, as maiores desde a campanha das Diretas Já, foi entendido como “apoio” aos manifestantes. Assim como terminou tachado de “golpista” o noticiário sobre o mensalão. O peso dos fatos não importa.

Teria sido defendida no encontro “uma nova política de anúncios para veículos da grande mídia”. Em português claro: cortar publicidade oficial, mesmo que sejam veículos de ampla circulação e audiência.

No documento, é sugerido que a verba de publicidade do governo seja destinada a São Paulo, onda há forte oposição ao Planalto, e o prefeito petista Fernando Haddad está em baixa. O objetivo é evidente: beneficiar veículos que apoiem os governos federal e municipal do PT. É assim que também funciona na “militância digital”: os blogueiros aliados, os “soldados”, recebem anúncios de estatais e outras ajudas.

Se o Congresso quer ocupar seu espaço institucional, precisa investigar esta grande zona de sombras, por onde trafega muito dinheiro do contribuinte sem a devida comprovação dos gastos.

Congresso precisa estar à altura da gravidade da crise - Editorial / Valor Econômico


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Congresso precisa estar à altura da gravidade da crise

Juan Arias - Quem saiu às ruas não foi a CIA

• As manifestações não foram organizadas pelos EUA, e sim por um novo país, surgido das cinzas da Velha República, cada dia mais desgastada

- El Pais (Espanha)

A suspeita do líder do PT na Câmara, o deputado Sibá Machado, de que por trás das manifestações de protesto no domingo pudesse estar a mão negra da CIA, o serviço secreto norte-americano, é no mínimo uma ofensa à inteligência dessa maré de brasileiros que saíram às ruas espontaneamente para dizer à presidenta Dilma que “a paciência” tinha se esgotado.

Quem estava por trás daquela grande manifestação, inédita neste país por ter sido convocada pelas redes sociais, era o novo Brasil que está surgindo das cinzas da Velha República, que parece a cada dia mais exaurida e sem muito a dizer às novas gerações de brasileiros, cansados de ideologias que dividem, em vez de abraçar a todos numa mesma esperança de modernidade.

Os que resistem a aceitar que algo novo e melhor está despertando neste país das mil possibilidades e de tantos talentos desperdiçados (quantos prêmios Nobel tem o Brasil? Nenhum) procuram uma explicação em ultrapassadas intrigas internacionais.

Inicialmente se disse que tinham ido protestar somente os ricos e a classe alta, e que a classe trabalhadora tinha ficado em casa. Então os ricos e a classe média não têm também direito de se manifestar? E por que então esses “não ricos” não aproveitaram a marcha da sexta-feira anterior, convocada pelos sindicatos do PT e pelos movimentos sociais de esquerda, para sair em defesa do governo?

Não são hoje, na verdade, os mais ricos os que mais temem o PT, que governa há 12 anos e que permitiu que fosse triplicado o número de milionários e que eles e os banqueiros ganhassem como nunca antes.

Quem hoje está com medo de perder o que tem, especialmente o emprego, são aqueles mais afetados pela inflação descontrolada, pelos juros absurdos que fizeram 60% das famílias da classe média e baixa se endividarem, empurradas antes para um consumismo enganoso e sem freios. Foram também eles que saíram às ruas. Como me disse muito claramente uma pessoa que esteve domingo na Avenida Paulista, os manifestantes eram, simplesmente, “pessoas”.

Foi essa massa de trabalhadores, pequenos empresários, muitos deles jovens ainda, que estão começando a vida, os que temem que os cortes anunciados frustrem suas aspirações. Cortes sem dúvida hoje indispensáveis, mas que são o fruto maldito do fato de o Governo ter se endividado até o nariz com uma política econômica equivocada e perdulária. Uma política que só agora a presidenta Rousseff começa a reconhecer que foi equivocada, ainda que de má vontade.

Não, não foi a CIA que esteve por trás do protesto lúdico, massivo, espontâneo, gratuito, sem violência de domingo.

Por trás do estupor e do medo que aquela maré de brasileiros provocou nos palácios do poder estava um Brasil que sai de sua letargia. O Brasil que é consciente de que uma política econômica errada, alimentada pelo tsunami de uma corrupção cujo horizonte se alarga a cada dia que passa, pode devolver o país a seus anos de pobreza e atraso.

Por trás do êxito da marcha de domingo estavam aquelas famílias que quiseram sair levando seus filhos pequenos, para que começasse a pulsar nas ruas o coração da democracia conquistada e que desejam que seja herdada purificada e ampliada.

Não foi a CIA que tramou a manifestação que gritava “Fora Dilma” e “Fora PT”, como símbolos de uma forma de governar que já deu o melhor de si e que milhões de brasileiros, hoje quem sabe a grande maioria, desejam que sejam substituídos para que no país se abra uma nova era política, com as mãos menos sujas pela corrupção institucionalizada.

Foi o Brasil que quer acabar com o ambíguo e perigoso mantra que alimenta o ódio de ricos contra pobres, ao passo que hoje o que todos os brasileiros desejam é deixarem de ser pobres e se possível também serem ricos. Por acaso isso é pecado? E não é melhor para os ricos que todos o sejam e produzam mais?

A quem interessa manter essa luta surda de classes criada por ideologias que até a esquerda mais iluminada considera superadas e que semearam no mundo milhões de mortes?

Por trás do protesto estava a inocência das crianças sem medo dos uniformes militares da tropa de choque, com a qual tiravam fotos. Talvez seja uma profecia feliz: os brasileiros, em vez de terem medo das forças de ordem, veem-nas como seu escudo protetor numa sociedade em que podem sair às ruas sem medo de um assalto ou de uma bala perdida.

Estava também por trás da grande manifestação aquela mulher que mostrava visivelmente o bebê que chutava em sua barriga e que deve ter tido vontade de participar daquela festa da democracia com a esperança secreta de que seu filho pudesse viver amanhã numa sociedade que não o esmagasse com o peso da mentira política.

Talvez sonhasse com uma sociedade que velasse para que seu filho crescesse desfrutando em paz das oportunidades para abrir caminho na vida com dignidade. Essas oportunidades que, com um regime ou outro, nunca faltaram nem faltarão para os ricos.

O que o povo pedia no domingo e que estava escrito num cartaz com as cores da bandeira nacional era que lhes “devolvam o Brasil”, o Brasil melhor, muitas vezes ofuscado pelos pecados da política com letra minúscula. O que fica às vezes demasiadamente escondido e adormecido no coração deste povo e que às vezes conseguimos descobrir e desfrutar melhor nós que vimos de fora.

Por trás da grande festa de protesto de 15/15 estava apenas o Brasil que começa a se descobrir outro e que quer que sua voz conte e seja ouvida. O que deseja afirmar que para ser brasileiro legítimo não é preciso aderir a determinado partido ou ideologia.

Dizem que era gente de direita. Nem todos. E se fossem, ser de direita ou de centro é um estigma? A Constituição proíbe? Não são brasileiros também?

Todo o resto é somente uma tentativa de demonizar esses novos anseios por uma sociedade mais de todos, que não exclua ninguém do banquete que ainda hoje parece repartido por uma casta privilegiada com as mãos muitas vezes manchadas de ilegalidade.

Raquel Ulhôa - Dentes cerrados e pintados para guerra

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Míriam Leitão - Não será rápido

- O Globo

Os ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa têm dito que os ajustes na economia farão o Brasil voltar a crescer rapidamente. Usam a estratégia para tentar convencer o PT e os partidos da base, que são contra os cortes de gastos. Além disso, estão começando a ceder partes do ajuste na negociação. Ou os ministros expõem a gravidade do quadro ou a arrumação da economia ficará pelo meio do caminho.

Claro que nesta conjuntura política é preciso conversar com o Congresso, mas não deveriam dourar a pílula. Não serão apenas alguns meses. Vai levar tempo para consertar o país, e isso exige cortes de gastos, suspensão de subsídios, juros altos por longo tempo. Os dois apertos - fiscal e monetário - vão comprimir ainda mais a economia já estagnada. Ao mesmo tempo, a inflação continuará alta pelos reajustes dos preços da energia e do aumento do dólar. Isso é remédio contra os erros do primeiro mandato, mas o PT está pronto para pôr a culpa na atual equipe econômica. Os ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa devem apontar o futuro de recuperação, mas precisam avisar que será um caminho longo.

A meta de superávit primário deste ano é de 1,2% do PIB, lembra o economista Sérgio Vale, da MB Associados, e subirá para 2% no ano que vem. O cinto ficará mais apertado. O economista alerta para mais um risco que parece estar passando desapercebido pelo governo. Ele acha que é preciso haver racionamento de energia, sob qualquer cenário de chuvas, para poupar água nos reservatórios das hidrelétricas. Sem isso, não haverá energia para o momento da retomada.

- Para se ter um 2016 melhor, é preciso racionar em 2015. Do contrário, não haverá energia para quando o país voltar a crescer. O governo poderá fazer um enorme esforço fiscal este ano, deixar a casa mais arrumada, e não haver energia para crescer. Avalio que o racionamento é inevitável. Será um erro muito grande não fazer, do ponto de vista econômico - afirmou.

Outros economistas acham que a recessão de 2015 reduz o risco de racionamento. Sérgio Vale acha que mesmo com recessão será preciso haver restrição de consumo de energia para aumentar as chances de crescer em 2016. Ele mesmo admite que com racionamento em 2015 a retração pode chegar até a 3% do PIB. A boa notícia é que a recuperação seria mais rápida, podendo crescer 3% no ano que vem. Sem racionamento, a queda estimada é de 1%, mas, no ano que vem, o crescimento será mais contido pela falta de oferta de energia. Sob qualquer cenário, os dois últimos anos de mandato da presidente Dilma terão crescimento máximo na casa de 2%, segundo Sérgio Vale.

A MB estima fechamento de mais de 600 mil postos de empregos formais este ano. Será a primeira vez que um ano fechará no negativo desde o início da série histórica, em 1996. Não houve isso nem em 2009, auge da crise internacional. O risco político, com as manifestações e a queda da aprovação presidencial, torna o ajuste ainda mais difícil de ser executado.

- Assim como a Europa está em uma armadilha política e econômica, um círculo vicioso quase sem solução no curto prazo, o Brasil se encontra em que a crise política que piora a econômica e vice-versa - afirmou Sérgio Vale.

Nos fundamentos da economia brasileira há uma série de problemas estruturais. Um deles está no forte déficit em conta-corrente, que passa de 4% do PIB. A alta do dólar ajuda a diminuir o déficit, mas eleva a inflação. Vale pondera que nem mesmo a valorização da moeda americana é certeza de que o déficit será revertido. Não há, ainda, garantia de crescimento das exportações.

- Em 2003 e nos anos seguintes, o déficit em conta-corrente foi ajustado pelo boom das commodities e por um período de crescimento mundial que puxou o PIB brasileiro. O contexto atual é de queda de preços. Nossa indústria também ficou menos competitiva nos últimos anos. Tivemos aumento da energia, aumento do custo do trabalho, aumento de impostos. O cenário é adverso para as commodities e os bens manufaturados - explicou.

O quadro externo é desfavorável, com a expectativa de alta dos juros pelo Banco Central americano. Não há, portanto, saída fácil e no curto prazo. O único caminho é o governo expor a gravidade da situação atual. Isso talvez ajude a conseguir mais apoio para as medidas de ajuste, que parece cada dia mais fraco.

Vinicius Torres Freire - Capital e trabalho contra Dilma

• Construção civil acusa governo pelas demissões em massa no setor, o que mais desemprega no país

- Folha de S. Paulo

Neste março agourento, os sem-teto de São Paulo e empresários da construção civil fazem protestos com alguns motivos idênticos, assim como trabalhadores demitidos de obras do PAC. Centrais sindicais e empresários do agrupamento Fiesp-BNDES também se associaram em críticas ao ajuste fiscal do governo. A coisa ora está mais quente na construção civil.

De qualquer modo, pode-se dizer de modo cínico que a ruína do governo Dilma 1 estimula insuspeitas alianças entre "capital e trabalho", "povo e burguesia", termos decrépitos que voltaram à conversa nestes dias de extremismos embolorados (precisamos de radicalismos novos).

Passando do geral ao particular, anteontem se confirmou o colapso no emprego na construção civil. Pelas informações do Ministério do Trabalho sobre o mercado formal de trabalho, a construção é o grande setor da economia que mais demite. O estoque de emprego formal caiu pela primeira vez desde 1999 de um ano para o outro. No conjunto, caiu cerca de 0,5%. Na indústria, quase 3%. Na construção civil, 7,5%.

O clima anda péssimo para o lado da construção civil, mas a notícia da queda do emprego formal e o ministro do Trabalho ter enfatizado que as empreiteiras demitem por causa dos rolos diversos decorrentes da Lava Jato entornaram o caldo. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil mandou protesto formal ao governo.

A turma ficara ainda mais irada com o fim abrupto e inesperado da desoneração dos impostos sobre a folha de salários (contribuição patronal para o INSS). Vinha de péssimo humor por causa dos atrasos de pagamentos do governo para várias obras, entre elas os trabalhos do Minha Casa, Minha Vida, querido da presidente e um dos poucos subsídios-investimento que vão restar depois do talho do ajuste fiscal.

Difícil dizer de quanto é a pendura, mas muita empresa está demitindo aos montes simplesmente porque não tem como pagar salário, dados os atrasos do governo. A baixa no emprego começara em abril de 2014, mais ficou inequivocamente feia em meados do ano, quando o governo passou a pendurar contas, pois o caixa minguava por causa da queda de receita e do descontrole geral de gastos.

O governo atrasa pagamentos mesmo para obras essenciais do PAC, como as da Ferrovia Oeste Leste, que deve ligar Tocantins ao litoral da Bahia. Já encrencado por tantas incompetências do governo, o projeto enguiça. O Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada da Bahia diz que nesta semana houve mais de mil demissões, pois as empreiteiras não teriam recebido da estatal Valec.

Os empresários da construção de resto contam com o lançamento da ainda enrolada "terceira etapa" do Minha Casa, Minha Vida para amenizar a situação, reivindicação aliás que também motiva os protestos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto de São Paulo, que tem parado ruas por aqui nesta semana.

Enfim, a paradeira geral prejudica setores que vão da incorporação imobiliária à construção civil. Consumidores devolvem apartamentos comprados na planta, há muita loja às moscas em shoppings novos e o volume de obras pesadas diminuirá de modo triste, pois o ajuste das contas do governo, na falta de opção, vai recair sobre o investimento.

Nelson Motta - Causas e defeitos

• De que adianta que eles não roubem, se dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?

- O Globo

Deu até pena ver o ministro Miguel Rossetto, abatido e amarfanhado, na coletiva pós-manifestações, dizendo que as multidões que foram para as ruas não eram de eleitores de Dilma. Perguntar não ofende: os 62% que agora julgam o governo Dilma ruim ou péssimo são eleitores de Aécio? São 125 milhões de golpistas? Ou querem um “terceiro turno”?

Zé Dirceu diz que o lucro mensal de sua empresa, que faturou 29 milhões em oito anos, foi de míseros 65 mil reais, em média, e que 85% do faturamento foram gastos com o “pagamento de despesas operacionais e recolhimento de impostos”. Quanto o guerreiro doou ao PT? Quantos trabalhadores petistas, que lhe deram dinheiro para pagar a sua multa de 971 mil reais no mensalão, ele fez de otários?

Sibá Machado, líder do PT na Câmara, denuncia que a CIA está por trás de tudo de ruim que está acontecendo no país, que há um plano para desestabilizar a Venezuela, a Argentina e o Brasil. Mas quem tem Maduro, Cristina e Dilma (e Sibá) precisa de algum plano externo para arrasar seus países?

Um eventual impeachment só pioraria as coisas, dividindo ainda mais o Brasil, como Lula queria, quando achava que estava em vantagem. Não quero ver Dilma sangrando, quero que ela coma, se fortaleça e reaja, reconhecendo seus erros e chamando pessoas competentes e honestas, acima de partidos, para ajudá-la a sair da lama e do caos. O problema não é só a corrupção, como provam os estragos do economista marxista Arno Augustin, ícone dilmista da incompetência máxima. De que adianta não roubar, se eles dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?

Quantas vezes o Brasil o viu num palanque gritando “é nóis contra eles”? Quem estimulou mais do que ele o clima de confronto e intolerância? Quem dividiu o país entre povo e elites? Quem jurou que o mensalão nunca existiu? Quem era o beneficiário final do esquemão da Petrobras? Quem inventou Dilma?

Triplicar a já colossal verba do fundo partidário é uma bofetada em cada um que contribui com seu trabalho para sustentar partidos e políticos capazes de propor uma coisa dessas, numa hora dessas. Até quando?

Noite Ilustrada - Volta por cima (Paulo Vanzolini)

Cecília Meireles - Discurso

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

quinta-feira, 19 de março de 2015

Opinião do dia – Fernando Henrique Cardoso

O impeachment não é o julgamento de um crime. Veja o presidente Collor: ele foi absolvido de um crime no Supremo Tribunal Federal por falta de provas, mas ninguém discutiu se o impeachment valeu ou não. Foi um julgamento político.Mas é claro que tem que ter uma base, se não é golpe.

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Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República, O Estado de S. Paulo 19 de março de 2015.

PMDB ameaça sair da base, e Cid Gomes deixa governo

Cid sai e precipita reforma

• Titular da Educação deixa pasta após ultimato do PMDB; baixa deve antecipar troca de ministros

Luiza Damé, Isabel Braga, Catarina Alencastro e Simone Iglesias – O Globo

Caos político

BRASÍLIA - A ida do agora ex-ministro da Educação Cid Gomes à Câmara para explicar uma declaração sua de que há na Casa achacadores virou confronto e bate-boca com os parlamentares da base. O resultado: a queda do ministro da Educação, com apenas dois meses e 18 dias no cargo, depois de um xeque-mate de peemedebistas, que pediram a demissão do ministro. A primeira baixa na equipe da presidente Dilma Rousseff desencadeia uma inevitável reforma ministerial em seu governo, medida vista como indispensável para a superação da crise política que marca o início do seu segundo mandato. O secretário executivo Luiz Cláudio Costa assumirá interinamente o cargo de ministro da Educação.

No confronto entre Cid e o PMDB de Eduardo Cunha (RJ), o partido, que cobra maior participação no ministério, saiu fortalecido. Em meio ao clima beligerante entre o ministro e o presidente da Câmara, peemedebistas mandaram um recado a Dilma: ou ele ou nós, exigindo a demissão de Cid. Cunha disse que a saída do ministro não significa que o governo esteja refém do partido.

- Não aceito essa pecha, porque todos os partidos pediram a demissão dele. Não existe estar refém de quem quer que seja, o PMDB não pediu a demissão para ocupar o cargo dele, pediu foi respeito ao Parlamento. A decisão da presidente está correta, porque demonstra respeito ao Poder Legislativo - afirmou.

Tão logo Dilma aceitou a demissão, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante ,telefonou para Cunha para informar sobre a saída de Cid. O deputado então espalhou a informação pela Câmara. Pouco depois saiu a confirmação oficial do Planalto.

Especulações incluem Mercadante
Com a saída de Cid, voltaram a circular no Palácio do Planalto especulações de que Mercadante, fragilizado no cargo, poderia voltar ao MEC. Essa mudança agradaria ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que gostaria de ver o ministro da Defesa, Jaques Wagner, na Casa Civil. Depois da demissão de Cid, Wagner esteve com a presidente. Fontes do Planalto, porém, negam essa mexida.

Dilma vem resistindo à mudança porque Mercadante é seu ministro mais próximo e considerado "imexível". Uma solução caseira seria a volta de José Henrique Paim Filho, que saiu do MEC para dar lugar a Cid e foi indicado por Dilma para uma diretoria do BNDES. À presidente já chegaram ideias de substituir o ministro das Relações Institucionais (SRI), Pepe Vargas, por um nome do PMDB - Eliseu Padilha (Aviação Civil) ou o ex-presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves -, ou pelo atual ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo (PCdoB), que já comandou a pasta no governo Lula.

Peemedebistas, no entanto, dizem que não querem este ministério porque ele não tem autonomia. Tudo depende da vontade de negociação de Dilma. No governo, fala-se num arranjo: entregar ao PMDB a Integração Nacional, cobiçada pelos peemedebistas na reforma de dezembro, desde que o partido aceite também a SRI. O PP comanda a Integração, mas a legenda ficou enfraquecida pela Operação Lava-Jato, que atingiu o presidente do partido, senador Ciro Nogueira (PI), e quase metade da bancada de deputados. Para não tirar o PP totalmente do governo, a sugestão que chegou a Dilma é que ela dê uma pasta menor, como Portos ou Pesca, que estão com o PMDB. Apesar de a reforma ter que passar pelos peemedebistas, a fórmula não é considerada fácil. Há um grupo que defende a ida de Henrique Alves para o Turismo, ocupando o cargo de Vinícius Lages, afilhado de Renan. No partido do vice-presidente Michel Temer há muita insatisfação com os rumos da gestão Dilma e com o acúmulo de crises políticas geradas pelo governo.

Cid Gomes foi à Câmara, convocado pelos deputados, para explicar declaração sua sobre a existência de "300, 400 deputados que defendem o quanto pior melhor, e aproveitam um governo fragilizado para "achacarem mais". Diante de uma plateia conflagrada de mais de 300 deputados, o ministro reafirmou o que disse, provocando a ira dos parlamentares. Deputados de seu partido, o PROS, da base e também da oposição acreditam que o ministro partiu para o ataque para manter o ativo eleitoral no Ceará. O próprio ministro disse na tribuna que voltaria à sua cidade, Sobral, de cabeça erguida.

Cid Gomes chegou à Câmara acompanhado de uma comitiva de políticos cearenses, entre eles o governador do estado, Camilo Santana. Cunha logo mostrou que aquela claque o incomodava e pediu que quem não fosse deputado ou credenciado, deixasse o plenário. Deputados estaduais e vereadores reclamaram, mas foram para as galerias. Cunha se irritou e mandou esvaziar a galeria.

- Partidos de oposição têm o dever de fazer oposição. Partidos de situação têm o dever de ser situação, ou então larguem o osso! Saiam do governo! Vão para a oposição! Isso será mais claro para o povo brasileiro - afirmou Cid.

Depois, em fala dirigida a Cunha, atacou:

- Fui acusado de mal-educado. Pois muito bem, eu prefiro ser acusado por ele de mal-educado do que ser como ele, acusado de achaque.

Houve reações dos deputados, que pediam que ele classe a boca. Cunha deu a palavra aos líderes, entre ele o do PMDB, Leonardo "Picciani (RJ), que pediu a demissão do ministro.

Cid deixou o plenário da Câmara antes do fim da sessão, logo depois que o deputado Sérgio Zveiter (PSD-RJ), da tribuna, o chamou de palhaço. Em rápida audiência com a presidente, entregou o cargo.

- A minha declaração e a forma como eu coloquei a minha posição na Câmara, é óbvio que criam dificuldades para a base do governo e, portanto, eu não quis criar nenhum constrangimento e pedi demissão em caráter irrevogável - disse o ex-ministro. ( Colaborou Júnia Gama)

Bate-boca
Troca de farpas no plenário

Cid Gomes
"Eu fui para o Hospital Sírio-Libanês e lá permaneci com muito sacrifício, longe da minha família, longe dos meus filhos. Qual não foi minha surpresa, Sras. e Srs. deputados, quando soube que estaria chegando lá uma comissão de deputados para verificar se eu estava doente. Eu peço a esta Casa que examine quem custeou as despesas desses deputados que foram lá".

Eduardo Cunha (PMDB-RJ)
"Gostaria de dizer, claro e textualmente, que o requerimento que foi mandado à Comissão foi feito sem ônus para a Casa, a expensas dos parlamentares, porque esta Casa se dá ao respeito"

Cid Gomes
"Eu fui, Sras. e Srs. deputados, acusado de mal-educado. Pois muito bem, eu prefiro ser acusado por ele (Cunha) de mal-educado do que ser como ele, acusado de achaque".

Leonardo Picciani (PMDB-RJ)
"Esse cidadão não vai vir aqui debochar da cara dos representantes da população brasileira!"

André Moura (PSC-SE)
"Não tem moral, dignidade e honradez para continuar Ministro da Educação".

Cid Gomes
Quem não tem moral é V.Exa.

Sergio Zveiter (PSD-RJ)
"Para mim, esse cidadão está agindo premeditadamente, provavelmente porque quer pular fora do barco, que, como está vendo, está prestes a afundar e não tem coragem de ir a quem ele deveria ir. É um palhaço!"

Cid Gomes
Vossa excelência me respeite!

Vazamento de análise da Secom amplia crise

Dilma se irrita com documento do Planalto sobre 'caos político'

• Para presidente, texto da Secom criou problema desnecessário

- O Globo

BRASÍLIA - A divulgação de um documento analítico do governo que fala em "caos político" no país e ataca o ministro Joaquim Levy, de autoria do ministro Thomas Traumann, da Secretaria de Comunicação Social (Secom), deixou a presidente Dilma Rousseff "perplexa" ontem, segundo fontes do Palácio do Planalto. Dilma disse a auxiliares que foi criado um problema desnecessário, mais um complicador num momento de vulnerabilidade do governo.

No texto, divulgado anteontem, Traumann avalia que a comunicação do governo é "errada e errática", e diz que "não será fácil virar o jogo", numa referência à crime política. O ministro recomenda respostas mais objetivas a Dilma, sugere que ela converse e se exponha mais, e desnuda de forma profunda tudo que tem dado errado no governo. Ao fazer um diagnóstico da crise, Traumann diz que o Planalto e o PT estão perdendo por WO para a oposição em conteúdo nas redes sociais.

"Se fosse uma partida de futebol, estamos entrando em campo perdendo de 8 a 2. De um lado, Dilma e Lula são acusados pela corrupção na Petrobras e por todos os males que afetam o país. Do outro, a militância se sente acuada pelas acusações e desmotivada por não compreender o ajuste na economia. Não é uma goleada. É uma derrota por WO", diz trecho do documento, de oito páginas.

Ontem, houve especulações entre os governistas sobre quem teria sido o responsável pelo vazamento do material. Traumann viajou para os Estados Unidos na noite de terça-feira, horas depois de o documento ter se tornado público, e não foi encontrado. Ele havia acertado com Dilma na semana passada que viajaria para visitar um parente que está em tratamento médico.

A Secretaria de Comunicação Social ganhou status de ministério no governo Lula. A pasta é estratégica por ser responsável pela relação do Palácio do Planalto com os meios de comunicação e cuidar de toda a publicidade institucional do governo. Só no ano passado, a Secom empenhou R$ 231,2 milhões para pagamento de campanhas. Nestes valores estão incluídas ações de publicidade, comunicação digital, relações públicas, pesquisas e eventos de toda a administração direta do governo.

Com a reeleição de Dilma em outubro passado, a pasta foi alvo de ataque especulativo de aliados. Setores do PT interessados em comandar a verba publicitária e em reformular a linha de comunicação do governo tentaram indicar o ministro. A nomeação de Traumann, no entanto, é considerada da cota pessoal de Dilma. Ele foi porta-voz da Presidência e sucedeu Helena Chagas, que deixou a Secom no começo do ano passado, por desgaste na relação com a presidente.

Tucanos querem explicações
O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) pediu ontem a demissão do ministro por causa do conteúdo do documento. Aloysio quer também a convocação de Traumann para se explicar na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, e uma investigação do uso de verbas públicas. O tucano classificou de "criminoso e imoral" o documento elaborado pelo ministro e o uso de verbas publicitárias federais para atender interesses políticos e partidários da presidente da República.

Aloysio vai pedir que a conduta de Traumann seja investigada pelo Ministério Público e pela Controladoria Geral da União (CGU). Ele disse que ficou estarrecido com o documento da Secom.

- Nesse documento, patenteia-se a mistura entre interesse partidário e interesse do Estado, entre governo e partido, que está na raiz de todos os totalitarismos. Na verdade, não se trata de erro de comunicação, mas de erro das ações que são comunicadas - disse Aloysio.

Após bate-boca na Câmara, Cid Gomes deixa ministério da Educação

• Convocado pela Câmara para explicar declaração sobre ‘achacadores’, ex-ministro bate-boca com deputados e com o presidente da Casa, Eduardo Cunha, que anuncia votação de projeto prejudicial ao governo e volta atrás após notícia de demissão

Vera Rosa, Tânia Monteiro, Daiene Cardoso e Paulo Saldaña - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A crise entre o governo Dilma Rousseff e o Congresso chegou ao auge na tarde desta quarta-feira, 18, e fez a primeira vítima no Ministério. Minutos após o PMDB ameaçar deixar a coalizão governista, o ministro da Educação, Cid Gomes (PROS), foi demitido do cargo pela presidente.

Cid foi convocado pelos deputados para explicar a afirmação de que a Câmara tinha “de 300 a 400 achacadores”, feita há três semanas, em um evento fechado em Belém. As explicações deveriam ter sido dadas na semana passada, mas Cid foi internado em um hospital de São Paulo e só atendeu à convocação na quarta.

Na época, o ex-ministro foi chamado de "mal-educado" pelo presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). E foi no embate com o peemedebista que Cid explicitou o nível de tensão da tarde, ao dizer que prefere “ser acusado por ele de mal educado do que ser como ele, acusado de achaque”. Cunha disse que vai processar Cid.

Em tom de enfrentamento, Cid disse não concordar com a postura de quem, “mesmo estando no governo, os seus partidos participando do governo, têm uma postura de oportunismo”. “Partidos de oposição têm o dever de fazer oposição. Partidos de situação têm o dever de ser situação ou então larguem o osso, saiam do governo.”

A sessão transformou-se em intenso bate-boca que culminou com o abandono da sessão pelo ex-ministro. O PMDB ameaçou retaliar o governo e Cid seguiu ao Palácio do Planalto, de onde saiu demitido. A decisão foi anunciada por Cunha, a partir de informação do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

Isolado. A claque de Cid, arregimentada pelo governador do Ceará, Camilo Santana (PT), e pelos prefeitos de Fortaleza, Roberto Cláudio (PSB), e de Sobral, Veveu Arruda (PT), foi retirada das galerias por ordem de Cunha. Eles se aglomeraram em um telão instalado no Salão Verde para acompanhar a sessão.

Sem nenhum gesto de apoio nem intervenções de lideranças do governo ou do PT, Cid foi alvo de deputados de oposição e rebeldes da base que pediam sua demissão. Eles citaram polêmicas envolvendo o ex-ministro e ex-governador, como a contratação de um show de Ivete Sangalo para inaugurar um hospital em Sobral, sua cidade natal, por R$ 650 mil, a viagem à Europa em que levou a sogra em jatinho pago pelo governo do Ceará e a tentativa de vetar a circulação de uma revista que o apontava como suposto envolvido no esquema de corrupção da Petrobrás.

"Vossa excelência apontou o dedo para o presidente Eduardo Cunha e o ofendeu. Nós não aceitamos a opinião de Vossa Excelência", afirmou o líder do Solidariedade, Arthur Maia (BA). "Este é o momento mais constrangedor que já passei ao longo de toda minha história." O líder do PSC, André Moura (SE), disse que Cid "é mal educado, não tem moral, não tem decência e é um achacador do Estado do Ceará e de sua gente".

Fora do microfone, deputados defendiam que Cunha desse voz de prisão ao ministro. “Eu, se fosse presidente, faria isso por ele ter desrespeitado a Casa. Tinha que ser preso”, disse o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS). Só o líder do PROS, Domingos Neto (CE), saiu em defesa de Cid na tribuna. "Ele falou o que muita gente tinha vontade de falar", disse ao Estado o vice-líder do governo Sílvio Costa (PSC-PE).

Cid ouviu parte das críticas de pé, na tribuna à esquerda do plenário. Em vários momentos, sorriu com ar irônico. A pedido do líder do PSOL, Chico Alencar (RJ), sentou-se de frente para Cunha. Recebeu cumprimentos de alguns parlamentares, como Jean Wyllys (PSOL-RJ).

'Palhaço'. Ao retornar à tribuna, foi alvo de Sérgio Zveiter (PSD-RJ), que o acusou de "estar fazendo papel de palhaço". Houve bate-boca e Cunha desligou o microfone do ex-ministro. Nessa hora, Cid abandonou o plenário. "Infelizmente fui convidado e agredido. Nesta condição, penso eu que estou liberado para sair do recinto e é o que estou fazendo."

Em seguida, Cunha anunciou que votaria o projeto que estende às aposentadorias o critério de reajuste do salário mínimo, pauta prejudicial ao Planalto. Com a notícia da demissão, o PMDB aceitou apelo do governo e fechou acordo para adiar a votação.

Uma saída anunciada e a precipitação da reforma na Esplanada

- O Estado de S. Paulo

A demissão de Cid Gomes abriu outra crise no governo Dilma Rousseff e precipitou a reforma ministerial. Depois da conturbada sessão na Câmara, Cid foi direto conversar com a presidente, no Palácio do Planalto. A mudança no primeiro escalão ocorreu justamente na pasta que empresta ao governo o slogan "Pátria Educadora", mote do segundo mandato.

Cid saiu da Câmara dirigindo o próprio carro e anunciando que entregaria o cargo. No Palácio, a presidente mal conversou com ele. "Infelizmente, não dá mais, não é Cid?", disse ela ao demissionário.

Dilma soube da confusão quando Cid estava no plenário da Câmara. Chegou a assistir pela TV a alguns trechos do bate-boca e ficou "horrorizada" com as cenas.

A presidente já havia sido alertada por Cid, em e-mail enviado na segunda-feira, que ele iria reafirmar o que dissera sobre os "achacadores". Ontem, o ministro desligou o celular e não quis antecipar o que diria no plenário a nenhum ministro ou líder do governo.

Após o rápido diálogo com Cid, Dilma pediu ao ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que avisasse imediatamente o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sobre a demissão do titular da Educação, a fim de acalmar o PMDB no momento mais crítico do "caos político" vivido pelo Planalto.

A saída de Cid acabou por antecipar a mexida na equipe e aumentar a pressão do PT para retomar o Ministério da Educação. Setores do PT e do PMDB que querem afastar Mercadante da Casa Civil dizem que ele poderia retornar à pasta. Nesse desenho, o baiano Jaques Wagner, que hoje comanda a Defesa, iria para a Casa Civil e assumiria a articulação política. Dilma, porém, ainda não decidiu como ficará a equipe. Por enquanto, a Educação será comandada interinamente pelo secretário executivo, Luiz Cláudio Costa. O PMDB, por sua vez, quer emplacar na pasta o ex-titular do Turismo, Gastão Vieira.

A crise que culminou com a demissão de Cid vem no momento em que um documento interno da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), obtido pelo Estado, expôs com todas as letras os problemas da gestão Dilma e pode resultar na demissão do ministro Thomas Traumann. O PT também está de olho nessa cadeira e na verba de publicidade da Secom. Os alertas contidos no documento reservado vêm na esteira de declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem Dilma precisa mudar a comunicação do governo porque "quem não se comunica se trumbica".

Depois que Lula apontou essas falhas e "liberou" os petistas, as críticas se tornaram públicas.

Dilemas do PT frente ao pior dos cenários

• Cúpula do partido discute como amenizar ida de Vaccari à CPI e reagir ao atual 'caos político'

Pedro Venceslau - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Três dias depois de a presidente Dilma Rousseff ser alvo de protestos nos 26 Estados e no Distrito Federal, o presidente do PT, Rui Falcão, reuniu-se ontem em Brasília com os principais quadros da legenda na Câmara dos Deputados para alinhar um plano de reação. Antes de começar a conversa reservada, que reuniu os 30 deputados da sigla considerados mais combativos na sede do partido, o dirigente fez um alerta: "Vocês viram aquele documento que vazou do Planalto? Essa reunião é sigilosa. Peço que os senhores não tuítem o que for conversado, assim ficamos mais à vontade".

O petista se referia a um documento interno do governo - revelado anteontem pelo www.estadão.com.br- que aponta comunicação "errática" e "caos político" no País.
Acatado o pedido, Falcão começou a fazer sua análise de conjuntura. O PT acha inevitável o depoimento na CPI da Petrobrás do tesoureiro da legenda, João Vaccari Neto, alvo de denúncia criminal na Operação Lava Jato. Para amenizar o dano e evitar o pior dos cenários possíveis, o partido discute se é possível convocar tesoureiros de outras legendas que declararam doações recebidas de empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobrás.

A deputada Maria do Rosário (RS) ponderou que dificilmente isso daria certo, já que o PT está isolado na CPI. No encerramento deste tópico, Falcão disse que avalia a ideia de Vaccari se apresentar voluntariamente, já que considera inevitável sua convocação. Apesar da avaliação que o tesoureiro será alvo de uma sabatina tensa, Falcão tranquilizou os colegas. "O Vaccari já está sendo preparado."

Críticas. Passado o tópico CPI da Petrobrás, os petistas seguiram a discussão sobre o "caos político" vivido pelo governo e pelo partido. Alguns deputados reclamaram de constrangimento. "Fui vaiado no aeroporto. Alguma coisa precisa ser feita", disse Afonso Florence (BA).
O líder do governo na Câmara, José Guimarães (CE), defendeu em tom exaltado que o partido tem de sair da defensiva. "Não podemos ser emparedados pelo PSDB. Temos que ir para a ofensiva. Não podemos levar desaforo para casa."

Mas Guimarães admitiu que o governo vive uma "sangria" e criticou integrantes do primeiro escalão. "Os ministros estão enferrujados na defesa do governo", lamentou. Ao exaltar o desempenho de Joaquim Levy, titular da Fazenda, deputados fizeram cara feia.

Quando o assunto "manifestações" entrou em pauta, os ânimos se exaltaram. Alguns deputados reclamaram que os prefeitos de suas bases "estão sendo maltratados" pelos ministros. Falcão ouviu calado, enquanto anotava algo em um pedaço de papel. Já o líder do PT na Câmara, Sibá Machado, cobrou mais proximidade com os movimentos sociais. "É preciso dar uma piscadinha para a CUT", disse outro.

Sobre os movimentos anti-Dilma, Falcão defendeu uma tese polêmica como antídoto ao antipetismo: o governo deveria restringir a veiculação de publicidade nos meios de comunicação que "apoiaram" e "convocaram" os protestos contra a presidente no domingo. Para ele, não basta contestar os veículos considerados "oposicionistas" pela internet. "Não se enganem. O monopólio da mídia não será quebrado apenas nas redes sociais. Isso é uma ilusão."

O dirigente disse que a "quebra do monopólio" deve ser feito por meio de "uma nova política de anúncios para os veículos da grande mídia". Para ilustrar, citou um caso que o pegou de surpresa. "A Record, que sempre teve simpatia maior por nós, no domingo começou em rede aberta a convocar a manifestação. Foi uma briga por audiência. Nesse caso não foi nem má-fé." Falcão pontuou que o sucesso dos atos de domingo se deve "exclusivamente" à convocação da "grande mídia". Para ele, as redes de TV "manipularam" os números de participantes.

Terminada a reunião, Falcão voltou a pedir sigilo dos temas ali debatidos.

Rede. Como Dilma resiste a encampar a ideia de confrontar a "mídia golpista" cortando seus anúncios, Falcão apresentou um plano de curto prazo. Para fazer a "luta política" nas redes sociais, o PT vai remontar "metade" do aparato de internet usado na campanha de 2014. O dinheiro para isso, explicou, virá do reforço de caixa do Fundo Partidário aprovado ontem na Câmara.

Os deputados defenderam a retomada do portal "Muda Mais", plataforma digital que serviu de base virtual na guerra das redes sociais. Falcão explicou que seria inviável por causa do custo: R$ 12 milhões por ano. Mas garantiu que a ideia é montar metade do aparato e um canal de TV na internet, que entrará no ar em abril.

No fim do dia, a assessoria de Falcão entrou em contato com a reportagem para dizer que ele não defende a redução de verbas dos veículos de comunicação e disse que o dirigente foi mal interpretado.

Em queda livre, e sem o mítico colchão de proteção popular

Carlos Melo - O Estado de S. Paulo

Em 2005, no auge da tensão do mensalão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ameaçou acionar o dispositivo popular do PT e dos movimentos de sua esfera de influência. Colocaria o "povo na rua". Impressionada com o "chavismo" e temerosa pelo Brasil, a oposição preferiu colocar freio a escalada de um impeachment. Avaliou que derrotaria Lula nas urnas, na eleição do ano seguinte. Já é história, mas dali se depreende que havia uma crença na capacidade mítica de mobilização de Lula e do PT.

Três episódios recentes, porém, evidenciam que pode não ser mais assim: 1) a manifestação do dia 13, em apoio ao governo Dilma Rousseff, ficou muito aquém do que se esperaria em condições tão aflitivas para a presidente - na comparação com o dia 15, será difícil não admitir que o dia 13 foi quase um fiasco; 2) o documento vazado da Secretaria de Comunicação, ao qual o Estado teve acesso, admite sem rodeios que a militância virtual do PT abandonou o governo e aponta textualmente uma goleada: "Estamos entrando em campo perdendo de 8 a 2"; e 3) na última pesquisa Datafolha, o ponto mais surpreendente são os pífios 13% de avaliação "ótimo/bom" - mais relevante que os 62% de "ruim/péssimo".

O PT teria perdido seu maior patrimônio, sua base social, e sua capacidade de mobilizá-la? FHC, em seu tempo, é verdade, esteve nesse mesmo patamar (13%), mas contava com condições mais sólidas de apoio nos partidos e não havia um caso nas dimensões da Lava Jato a pressioná-lo. Enfim, é possível que este seja o fato mais pleno de consequências: o governo Dilma pode estar absolutamente descoberto, sem o colchão de proteção que se imaginava ter. A tendência é que fique mais à mercê dos aliados do Congresso e da oposição e da fúria das ruas, com pouca força para reagir. Se o fará ou não, somente a história dirá.

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Carlos Melo é cientista político e professor do Insper

Aloysio Nunes pede convocação de Thomas Traumann no Senado

• Senador tucano quer que ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência explique documento elaborado por sua pasta e que sugere maior propaganda em São Paulo

Andreza Matais - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) ingressou com requerimento para que o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Thomas Traumann, seja convocado pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado (CCT) para explicar o documento elaborado por sua pasta que fala em "comunicação errática" do governo e aponta "caos político" no País. O senador justificou que o texto da Secom faz uma "confusão criminosa e imoral entre o público e o privado.".

O documento, revelado pelo Estadao.com, faz uma análise do atual momento político e sugere uma série de medidas para melhorar a popularidade da presidente Dilma Rousseff e do seu governo. Entre as medidas, aponta que as páginas do governo na internet e das forças políticas que apoiam a presidente Dilma atuem de forma "coordenada e com missões claras." Diz o texto: "A guerrilha política precisa ter munição de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele."

No texto, que circulou nesta terça-feira, 17, entre o primeiro escalão do governo, afirma que a campanha de 2014 de Dilma utilizou robôs nas redes sociais e que o mesmo expediente foi usado por parte do PSDB, inclusive depois da eleição.Segundo o documento, a operação online dos grupos opositores, incluindo os organizadores das manifestações de 15 de março, teria custado R$ 10 milhões. Os tucanos negam que tenham usado robôs.

Ao propor a convocação do ministro, que depende de aprovação da maioria da CCT para ser aprovada, o senador afirma que "não é papel de um servidor, agente ou órgão público municiar particulares para a promoção de ações de guerrilha política. Esse tipo de proposta evidencia uma inequívoca confusão entre o público e o privado, com arremedos de condutas não somente imorais, mas até mesmo criminosas", diz o requerimento assinado pelo senador, que cita o artigo 321 do Código Penal.

O senador também relaciona no requerimento a sugestão do documento da Secom de que "a publicidade oficial em 2015 deve ser focada em São Paulo, reforçando as parcerias com as prefeituras." A capital paulista, governada por Fernando Haddad (PT), concentra, atualmente, a maior rejeição à administração petista.

"Essa proposta de direcionamento de publicidade oficial com objetivo claramente político partidário é um atentado ao princípio da impessoalidade na administração pública", cita o senador. "Não é possível tolerar o uso de recursos públicos, inclusive o acesso a informações privilegiadas do governo, para o favorecimento de núcleos de comunicação pessoal do governante em exercício do mandato e mesmo fora dele. É uma afronta à probidade administrativa e às mais comezinhas regras de ética e moralidade na gestão pública."

Para o tucano, a proposta descrita no documento de que "é preciso consolidar o núcleo de comunicação estatal, juntando em uma mesma coordenação a Voz do Brasil, as páginas de sites, contas no twitter e no Facebook de todos os ministérios, o Facebook da Dilma e a Agência Brasil", é uma prática intolerável.

O documento da Secom, que circulou entre ministros, dirigentes do PT e assessores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, destaca, entre outros pontos, que os apoiadores de Dilma estão levando uma "goleada" da oposição nas redes sociais. O texto cita, em tom de alerta, pesquisa telefônica recente feita pelo Ibope a pedido do Planalto na qual 32% dos entrevistados disseram ter mudado de opinião negativamente sobre o governo nos últimos seis meses - ou seja, da campanha de outubro até agora. Conclui que o País passa por um "caos político" e admite: "Não será fácil virar o jogo".

O Diário Oficial da União informou nesta quarta-feira que o ministro iniciou período de férias que irá até a próxima segunda-feira, dia 23. Procurado pelo seu email oficial para comentar o pedido de convocação, o ministro ainda não se manifestou.

Pressão do PMDB obriga Dilma a demitir ministro

• Cid Gomes bateu boca com deputados após chamá-los de achacadores

• Em situação inédita, demissão do titular da Educação foi anunciada em primeira mão pelo presidente da Câmara

Flávia Foreque, Aguirre Talento, Mariana Haubert, Valdo Cruz e Natuza Nery – Folha de S. Paulo

DE BRASÍLIA - Enfrentando protestos de rua e reprovada por 62% da população antes de três meses de governo, a presidente Dilma Rousseff foi obrigada a aceitar a demissão do seu ministro da Educação, Cid Gomes, para evitar que o PMDB deixasse de apoiá-la na Câmara e agravasse ainda mais a crise política.

Em uma situação inédita e constrangedora para o Planalto, a demissão de Cid (Pros-CE) foi anunciada em primeira mão pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), desafeto de Dilma.

O anúncio foi feito nesta quarta (18) depois de uma sessão tumultuada no plenário da Câmara convocada para que o então ministro explicasse sua frase de que na Casa há "400, 300 achacadores", gravada durante uma reunião dele com estudantes no Pará.

Cid chegou a ensaiar um pedido de desculpas a alguns parlamentares, mas acabou dando estocadas em deputados governistas infiéis, instando-os a "largar o osso", e atacou o PMDB.

"Tinha um que só tinha cinco [ministérios]. Criou dificuldades, criou empecilho, conquistou o sexto. Agora quer o sétimo. Vai querer o oitavo. Vai querer a Presidência."

Irritada, a cúpula do PMDB avisou a presidente que o partido abandonaria a base aliada caso o ministro, nome da cota pessoal de Dilma no seu segundo mandato e seu defensor de primeira hora, não fosse demitido.

Assim que Cid abandonou o plenário, após ter sido chamado de palhaço e de ter a palavra cortada por Cunha, o presidente da Câmara disse que iria votar um projeto que ameaça o ajuste fiscal --a extensão do aumento real do salário mínimo a todos os aposentados da Previdência.

A bomba estava armada, obrigando a intervenção de assessores de Dilma. Logo após deixar a Câmara, Cid atravessou a praça e foi para o gabinete da presidente no Planalto. Formalizou a demissão, já um fato consumado àquela altura.

Do gabinete presidencial, ao lado de Dilma, o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) ligou para Cunha avisando que estava cumprido o que exigira o PMDB. Cunha deu a notícia ao plenário, de sua cadeira, antes do Palácio.

Para auxiliares de Dilma, Cid poderá sair bem do episódio junto à opinião pública, como alguém que enfrentou deputados, deixando o ônus do caso com a ex-chefe.

Reforma
Petistas e peemedebistas avaliam que foi dada a senha para a presidente promover uma reforma ministerial. Setores do PT e do PMDB defendem a volta de Mercadante para a Educação, liberando a sua vaga para Jaques Wagner, atualmente na Defesa.

Mercadante é visto pelos petistas ligados a Luiz Inácio Lula da Silva e pelo própio ex-presidente como um dos responsáveis pelos atritos com o PMDB. Outros setores peemedebistas, por sua vez, querem ficar com a Educação.

Dilma está sendo aconselhada a dar ao PMDB status de partido capaz de ser o fiador da aprovação do ajuste fiscal e, por tabela, da governabilidade.

Outra hipótese é a de entregar aos peemedebistas a Integração Nacional, que poderia ir para um aliado do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que foi chamado por Dilma para uma conversa no Palácio da Alvorada na manhã desta quarta.

Aliado de Cunha, o ex-deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) também é cotado para a pasta ou para o Turismo

Cálculo político do Planalto no episódio com Cid é obscuro

Igor Gielow - Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A degradação do cacife político do governo Dilma Rousseff levou o Brasil a viver a quarta-feira (18) sob uma variante tropical de parlamentarismo branco.

O governo amanheceu com a pesquisa Datafolha indicando o apoio à presidente no chão e fechou a tarde informando de forma obsequiosa o presidente rebelde da Câmara de que o ministro da Educação seria demitido.

A rigor, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) comandou o auto-de-fé de Cid. Talvez tenha bastado para conter o ânimo peemedebista por ora, de olho na reforma ministerial. Ou não, já que na Casa ao lado Renan Calheiros (PMDB-AL) mantinha a pressão sobre o governo.

O cálculo político do Planalto no episódio é obscuro. Era evidente que Cid não se aguentaria na sessão para explicar por que chamou deputados de "achacadores".

A morte pela boca é um tradição familiar dos Gomes. É parte do folclore político a derrocada do irmão e antiga estrela do clã, Ciro, após chamar um eleitor de "burro" quando presidenciável em 2002.

Se demitisse Cid antes, Dilma seria acusada de prostrar-se diante de Cunha. Acabou na mesma situação, com o bônus de horas de humilhação pública. Algo que pode se repetir, se o presidente da Câmara mantiver a ideia de chamar outros ministros.

O tamanho do custo de negociação para o governo ficou evidente. Um deputado, antes de provocar a saída de Cid da sessão, o acusou de fugir de um "barco que está prestes a afundar". Detalhe: ele é do PSD, sigla símbolo da "nova base aliada". Mas, antes, é da turma de Cunha.

TCU poderá incluir Dilma em processos

• Decisão do tribunal permite que a presidente da República seja investigada, multada e tenha bens bloqueados

• Proposta aprovada pelo órgão reforça apuração sobre os integrantes do conselho da Petrobras, do qual petista fez parte

Rubens Valente, Dimmi Amora - Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Proposta aprovada no TCU (Tribunal de Contas da União) nesta quarta (18) poderá levar a presidente Dilma Rousseff a se tornar alvo de ações de fiscalização do órgão que apura desvios na Petrobras.

O ministro substituto do TCU André Luís de Carvalho propôs que fosse determinado às unidades técnicas do órgão que se manifestem, em 40 processos que investigam a estatal, "conclusivamente (...) sobre a responsabilidade dos membros do Conselho de Administração e Fiscal".

Caso técnicos apontem a responsabilidade de conselheiros, o relator do processo levará a proposta de inclusão dos nomes ao plenário, que pode ou não acatá-la.

A proposta de Carvalho foi aprovada por unanimidade pelos oito ministros presentes à sessão. Na prática, a sugestão reforça as investigações do TCU sobre os membros do Conselho de Administração da Petrobras.

Como Dilma ocupou a presidência do conselho de 2003 a 2010, poderá sofrer sanções como bloqueio de bens ou pagamento de multas, nos casos em o TCU entender que o conselho da estatal teve alguma responsabilidade pelos danos investigados.

Em levantamento solicitado por Carvalho, dos 40 procedimentos sobre a Petrobras, dez tratam da compra da refinaria de Pasadena (EUA) e 15 são relativas à Lava Jato. O ministro pediu que os técnicos tenham atenção "especialmente para os casos em que os referidos conselhos tenham praticado atos de gestão ruinosa ou tenham deixado de atuar com o necessário dever de cuidado; expondo, portanto, todos os atos, fatos e procedimentos, efetivamente, à luz do sol".

"Trata-se de uma proposta que fere a companhia num momento em que ela está sob intenso bombardeio", afirmou Nelson Gomide, advogado da Petrobras.

Na semana passada, Carvalho havia tentado reincluir os membros do conselho no processo que apura irregularidades sobre Pasadena, mas o TCU ainda não decidiu a respeito. Em 2014, o então relator do caso, José Jorge, isentara Dilma e o colegiado de responsabilidade no prejuízo causado. O voto foi acompanhado pelo plenário, mas pode ser revisto.

O ministro da AGU (Advocacia Geral da União), Luís Inácio Adams, disse à Folha que a nova decisão do TCU "causa certa perplexidade" e seria "desnecessária". "As áreas técnicas já fazem o exame integral de todos os dirigentes em relação aos atos praticados de competência [de fiscalização] do TCU."

Porém, disse que a comunicação "não gera nenhum temor" e que "não há responsabilidade direta" dos membros do conselho nos casos sob apuração.

TCU decide apurar atos dos conselhos de Administração e Fiscal da Petrobrás

• Corte de Contas determinou que técnicos analisem se os conselheiros da estatal têm alguma responsabilidade nos casos que envolvem má gestão na petrolífera e que estão sendo julgados no tribunal

Andreza Matais, André Borges e Murilo Rodrigues Alves - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Tribunal de Contas da União (TCU) decidiu nesta quarta-feira, 18, que irá analisar se os conselhos de administração e fiscal da Petrobrás tiveram participação em falhas cometidas na gestão da estatal. Os ministros aprovaram a determinação em plenário, o que significa que a presidente Dilma Rousseff poderá ser corresponsabilizada e punida por eventuais decisões tomadas quando presidiu o conselho de administração da estatal de 2003 a 2010, quando era ministra do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No comando do conselho de administração, a presidente aprovou a compra da refinaria de Pasadena, nos Texas (EUA), que provocou prejuízo de US$ 792 milhões aos cofres públicos, entre outras decisões que agora serão analisadas. A punição vai desde indisponibilidade de bens a pagamento de multas.

O plenário da Corte de contas acatou uma sugestão do ministro substituto André Luís de Carvalho para que nos processos em discussão no tribunal que tratem de falhas de gestão também seja analisado “se os referidos conselhos praticaram atos de gestão ruinosa ou deixaram de atuar com o necessário dever de cuidado; expondo, portanto, todos os atos, fatos e procedimentos, efetivamente à luz do sol.” A determinação dos ministros é de que “em cada processo inerente a falhas na gestão da Petrobrás que a área técnica se manifeste conclusivamente sobre a responsabilidade” dos dois colegiados.

Atualmente, 40 processos envolvendo a Petrobrás estão em análise na área técnica. Desses, dez têm conexão com a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA) e 15 com investigações da Operação Lava Jato, que desvendou esquema de corrupção na petroleira. Os técnicos irão verificar a partir da nova determinação se esses casos foram analisados pelos conselhos fiscal e de administração.

Atribuições. Na defesa da estatal, os advogados da Petrobrás disseram, na tribuna, que a proposta aprovada hoje “sugestiona” que os conselhos de administração e fiscal tiveram responsabilidade além de suas atribuições. O ministro José Raimundo Carreiro, rebateu ao afirmar que os “auditores devem atentar à matriz de responsabilidades, para indicar a responsabilidade solidária do conselho.” Em nota ao Estado, o Palácio do Planalto afirmou que “o conselho de administração tem, como competência estatutária e legal, a atribuição de fixar, tão somente, a orientação geral dos negócios da companhia.” E que esta previsto no estatuto do TCU fiscalizar.

‘Impeachment é político, mas tem que ter base’, diz FHC

Débora Bergamasco – O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA – Em meio a manifestações populares e pedidos departe da população para que a presidente Dilma Rousseff saia do poder, o ex presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) disse ao Estado que o processo de impeachment se dá pela ingovernabilidade, e não necessariamente pelo cometimento de um crime. Ainda assim, é preciso “ter uma base, se não é golpe”. Para o tucano, a insatisfação popular com o atual governo, somada a novas denúncias na Lava Jato, pode levar à queda da chefe do Executivo. Mas FHC acredita que a presidente ainda “não está sem condições de governar e ela ainda pode reagir”.

“Na democracia,não é só porque a maioria ficou contra que isso seria razão suficiente para tirar o presidente. O problema é quando se cria uma situação de ingovernabilidade”, disse o tucano. “Hoje, ela (Dilma) tem legalidade para governar, mas ainda não tem como prever de antemão como será o processo político e o que vai aparecer na Operação Lava Jato. Não digo que envolva ela diretamente, mas pode envolver mais gente do PT e de outros partidos.”

FHC citou como exemplo o processo que tirou o hoje senador pelo PTB Fernando Collor de Mello da Presidência da República, em 1992, quando era filiado ao inexpressivo PRN. “O impeachment não é o julgamento de um crime.Veja o presidente Collor: ele foi absolvido de um crime no Supremo Tribunal Federal por falta de provas,mas ninguém discutiu se o impeachment valeu ou não. Foi um julgamento político.Mas é claro que tem que ter uma base, se não é golpe”, observou.

Para o tucano, a situação de “caos político”– como a Secretaria de Comunicação da Presidência definiu o atual momento, conforme documento revelado pelo portal www.estadão.com. br – pode se arrastar até o fim do mandato. “É possível não haver nem saída (para a crise política) nem desabamento. Nós já vimos vários governos que se arrastaram, o que é ruim para os que comandam e para o País”, afirmou FHC. “O ponto é que vão ser quatro anos. Mas pode ser que aconteça de fazer uma medida aqui, fazer outra ali, o povo não acredita muito, mas vai levando. Só duvido que nesse clima você restaure a confian- ça no investidor.”

Arrogância. Enquanto a oposição e partidos da base criticam o estilo de Dilma fazer política, muitas vezes considerado arrogante, Fernando Henrique estende essa suposta característica ao PT.Para o ex-presidente, o partido nasceu “arrogante”, com uma proposta “salvacionista”, mas com o escândalo do mensalão e as novas evidências de corrupção na Petrobrás reveladas pela Lava Jato perdeu “a imagem de ser um partido capaz de purificar”. 

Para fundamentar a crítica, o tucano voltou às origens. “Não gosto quando o ponto de partida é dizer ‘Eu sou o bom, eu sou o salvador’, porque isso é um mau começo e o PT foi muito arrogante nesse sentido. Porque se tem uma ideia autoritária.”E continuou: “Eu, como democrata, acredito no ‘Nós temos que ser capazes’, definição que implica discordância. O PT não tem essa visão democrática. E para quem tem uma visão salvacionista, ter dois de seus tesoureiros sendo comprometidos, não é brincadeira.” 

No decorrer da trajetória, a agremiação petista se tornou “autoritária”,segundo o ex-presidente. “O PT tem realmente um resquício de visão hegemônica no sentido autoritário, não no sentido de ter capacidade de influir via ideias e valores, mas no sentido de impor, via organização e poder.”

Emprego com carteira assinada cai em fevereiro ao pior nível em 16 anos

• No mês passado, quase 2,5 mil postos de trabalhos formais foram fechados

Danilo Fariello – O Globo

BRASÍLIA - O mês de fevereiro foi o pior em ritmo de criação de empregos formais no país em 16 anos, segundo balanço do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgado nesta quarta-feira pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

No mês passado, foram fechados 2.415 postos de trabalhos formais no país. No ano passado, para o mesmo mês, haviam sido criadas 260 mil novas vagas. O resultado é o pior, em meses de fevereiro, desde 1999, quando foram fechadas 78 mil vagas, na esteira da crise internacional que teve início em 1998.

Pelo terceiro mês consecutivo, o nível de vagas fechadas superou a de ocupações criadas. No acumulado do ano verifica-se, até agora, uma queda de 80.732 vagas formais no país.

Os setores que mais encolheram em postos de trabalho no último mês foram construção civil e comércio. No caso da construção civil, o mês de fevereiro teve fechamento de 25,8 mil vagas. Em comércio, foram 30,3 mil empregos formais encerrados. Os piores meses desde 1992, histórico apresentado pelo MTE em entrevista coletiva.

A unidade da federação que mais perdeu empregos foi o Rio, com 11.101 vagas fechadas, no saldo líquido, ou uma redução de 0,3% do número de empregos formais. O ministro do Trabalho, Manoel Dias, reconheceu que a situação da Petrobras e a operação Lava-Jato influenciaram a conjuntura dos trabalhadores fluminenses. Ele lembrou que esteve recentemente no Rio para negociar com empregados terceirizados da empresa saídas para greves e demissões.

— Contratos da Petrobras com empresas estão em pleno vigor e em execução, mas há empresas terceirizadas com problemas. Certamente, nesse primeiro momento, a questão do Lava Jato influenciou em redução de empregos. A própria Petrobras, que tinha previsão de investimento de R$ 50 bilhões, previu redução de 20% para se readequar.

Impactos da situação da Petrobras se espalham em outras regiões do país, como por exemplo, em Pernambuco, disse Dias. O MTE está fazendo um levantamento sobre os efeitos da Lava Jato na situação do emprego em âmbito nacional, comentou o ministro, sem indicar data para a conclusão desse estudo.

Especialistas preveem mais demissões no mercado de trabalho ao longo de 2015

• Para estudiosos, país precisa gerar 1,8 milhão de empregos por ano

Danillo Fariello / Geralda Doca – O Globo

BRASÍLIA - Na visão de especialistas, a taxa de desemprego deverá subir de forma mais significativa nos próximos meses. O país precisa gerar 1,8 milhão de postos de trabalho por ano para absorver a População Economicamente Ativa (PEA, que representa a força de trabalho) e está perdendo empregos, disse o ex-diretor do Departamento de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho, Rodolfo Torelly.

Segundo ele, as mudanças nas regras do seguro-desemprego vão prejudicar ainda mais os trabalhadores de setores com ciclo de atividade mais curto, como construção civil e comércio.

O economista Rafael Bacciotti, da Consultoria Tendências, também prevê que as demissões cresçam no país, diante da retração da atividade econômica em 2015. Ele observou que o Caged ainda vai mostrar de forma mais intensa os efeitos da Operação Lava-Jato no mercado de trabalho.

— A perspectiva de contração de atividade indica que o processo de demissões no Caged continuará ocorrendo ao longo do ano, inclusive captando os efeitos negativos da operação Lava Jato — destacou Bacciotti.

Nesta quarta-feira, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou que o mês de fevereiro foi o pior em ritmo de criação de empregos formais no país em 16 anos, segundo balanço do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

No mês passado, foram fechados 2.415 postos de trabalhos formais no país. No ano passado, para o mesmo mês, haviam sido criadas 260 mil novas vagas. O resultado é o pior, em meses de fevereiro, desde 1999, quando foram fechadas 78 mil vagas, na esteira da crise internacional que teve início em 1998.

Dilma perde mais apoio entre seus eleitores

• Pesquisa mostra que 62% consideram governo "ruim ou péssimo", pior desempenho desde Collor, em 1992

Tatiana Farah – O Globo

Pesquisa Datafolha

SÃO PAULO - Mais do que amargar a segunda pior avaliação de um presidente desde as eleições diretas de 1989, a presidente Dilma Rousseff viu sua aprovação praticamente se desintegrar entre o eleitorado que sempre foi mais favorável ao PT. Segundo pesquisa do Instituto Datafolha divulgada ontem, o governo da petista é avaliado apenas por 13% dos entrevistados como "bom e ótimo", contra 62% de "ruim e péssimo". Em dezembro, pouco antes da posse do segundo mandato, esse último índice era de 24%. Em fevereiro, chegou a 44%. Dilma vive agora seu pior momento no poder. Sua popularidade piorou, sobretudo, entre os eleitores com menor renda e escolaridade, segmentos onde teve mais votos.

Rejeição maior na classe C
Entre os eleitores que ganham até dois salários-mínimos, a aprovação caiu de 50%, em dezembro, para 15% e a reprovação subiu de 19% para 60%. O cenário é ainda pior entre os eleitores com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos, faixa que concentra a classe C, também chamada de nova classe média: a reprovação aumentou de 33% para 66%. É uma taxa maior até que a de "ruim e péssimo" dos eleitores das faixas de renda maior, que ficou em 65%.

No Norte e Nordeste, onde o PT tem mais eleitores, Dilma vive uma situação inversa à de dezembro passado, quando encerrou seu primeiro mandato. No Norte, de 52% de "ótimo e bom" e 20% de "ruim e péssimo", o cenário mudou para 51% de reprovação contra apenas 21% de aprovação. No Nordeste, a equação 53% de aprovação e 16% de reprovação se inverteu para 16% de "bom e ótimo" e 55% de "ruim e péssimo". A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

Dilma teve o pior resultado de um presidente no cargo desde 1992, quando Fernando Collor era rejeitado por 68% às vésperas do impeachment. O diretor do Datafolha, Mauro Paulino, afirmou que o cenário é "raro de ser ver", mas o mais preocupante é a queda entre setores que tradicionalmente apoiam o governo.

- Não se sabe se esses setores vão aderir aos protestos. É uma reação que deve ser observada nos próximos meses - analisou Paulino, que atribuiu a perda de apoio à crise econômica e ao medo do desemprego. - Some-se a isso as fartas denúncias de corrupção.

O levantamento do Datafolha, feito esta semana, aponta que 60% estão pessimistas sobre a economia. A nota atribuída ao desempenho da presidente ficou em 3,7, numa escala de 0 a 10. Em fevereiro, a nota foi 4,8. Em guerra com o Planalto, o Congresso Nacional também é mal avaliado. Apenas 9% classificaram o desempenho dos parlamentares como "ótimo ou bom".

- A pesquisa não surpreende, diante de um governo completamente perdido em sua frente política. Há uma piora muito clara da situação econômica e uma frustração de expectativa dos eleitores. As manifestações de 2013 já eram sintomas dessa perda de confiança - analisa o cientista político Cláudio Couto, da FGV-SP.

Para Carlos Melo, do Insper, a saída para Dilma é difícil:

- Ela precisa dar respostas rápidas na economia, conter o desemprego. E esse é justamente o maior desafio.

Para o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, a pesquisa era previsível e o momento pede "calma e tranquilidade". O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que, ao longo de quatro anos, a presidente tem condições de virar o jogo:

- A pesquisa é uma fotografia, que registra o momento. A realidade muda. É um momento que deve ser analisado, de reflexão, mas não aprisiona a realidade.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse que os números retrataram as manifestações de domingo:

-E alguém tinha alguma expectativa diferente? Precisa saber como o governo vai reagir.

Aécio culpa mentira
Na oposição, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), derrotado nas eleições de 2014, disse que a queda na avaliação da presidente está ligada à falta de entendimento da gravidade da crise:

- O governo não enfrenta com a coragem e com a responsabilidade devida a crise de desconfiança que hoje permeia a sociedade brasileira em razão da mentira que conduziu a campanha da atual presidente e as denúncias de corrupção que cada vez chegam mais perto do governo.

(Colaboraram C Atarina Alencastro, Luiza Damé, Júnia Gama e Stella Borges, estagiária)