terça-feira, 20 de setembro de 2022

Pesquisa Ipec: Lula lidera disputa presidencial com 47% dos votos a duas semanas da eleição; Bolsonaro marca 31%

Distância entre candidatos oscilou de 15 para 16 pontos. Ciro soma 7%, e Tebet tem 5%

Por O GLOBO

Rio - A duas semanas das eleições, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) segue à frente em intenções de voto com 47% no primeiro turno. Segundo nova pesquisa do Ipec divulgada nesta segunda-feira pela TV Globo, o presidente Jair Bolsonaro (PL) tem apoio de 31% dos eleitores. O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) aparece com 7%, enquanto a senadora Simone Tebet (MDB) tem 5% dos votos.

A distância entre Lula e Bolsonaro, que era de 15 pontos percentuais há uma semana e de 12 pontos há duas, agora está em 16 pontos. O petista oscilou um ponto para cima pela segunda vez, após ficar estagnado entre meados de agosto e o início de setembro com 44% dos votos, o que deve reforçar o investimento de sua campanha na conquista do voto útil na reta final. Já Bolsonaro continuou com o mesmo índice de votos das últimas duas pesquisas.

Tebet também oscilou um ponto para cima, enquanto Ciro permanece com a mesma proporção. Os dois estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro, que é de dois pontos, mas seguem distantes dos primeiros colocados, em um momento em que tentam conter os acenos de Lula a seus eleitores.

Vera Magalhães - Restam poucas cartas na manga para Bolsonaro reverter rejeição

O Globo

O que a última pesquisa Ipec mostra é que houve uma leve melhora de Jair Bolsonaro (PL) em vários indicadores até 29 de agosto, mas as ações e o histórico do presidente parecem ter neutralizado, desde então, os muitos esforços para torná-lo competitivo eleitoralmente e reverter sua rejeição.

A estagnação da lenta melhora de Bolsonaro se deu depois do até aqui único debate presidencial de que participaram ele e o líder nas pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no qual o presidente deixou a estratégia de associar o petista à corrupção de lado para atacar mulheres — jornalista e candidatas.

Desde então, outros reveses se apresentaram para a campanha à reeleição do presidente. Aa despeito da redução dos preços dos combustíveis, tão alardeada, se mantém alta a inflação de alimentos.

Bolsonaro apostou tudo no aumento de 50% do Auxílio Brasil e prometeu manter o benefício, mas mandou o Orçamento ao Congresso sem garantir o valor; além disso, outros programas sociais como Farmácia do Povo e Casa Verde e Amarela tiveram cortes de recursos.

Sergio Augusto de Moraes, Alfredo Maciel da Silveira* - 1º ou 2º Turno?

Blog Democracia e Socialismo

As pesquisas eleitorais reconhecidamente têm algum efeito significativo na conduta dos eleitores às vésperas das eleições. Em 2018 isto ficou claro com a migração espontânea das intenções de votos em Marina e Alckmin para os dois primeiros colocados nas pesquisas, Haddad e Bolsonaro, podendo ter beneficiado também a Ciro, então terceiro colocado. 

Nas urnas, conforme o registrado no TSE, Marina e Alckmin a tal ponto “derreteram” que ela foi ultrapassada por Cabo Daciolo, tendo este por sua vez praticamente empatado com Alckmin.

Esse movimento de migração espontânea de votos às vésperas da eleição provavelmente estará operante agora em 2022. Mas há fatos novos. A flagrante ameaça fascista representada por Bolsonaro, tornou-se muito mais ostensiva após os quatro anos da barbárie que vivenciamos. 

Merval Pereira - Voto envergonhado

O Globo

A desorganização estrutural de nossos partidos, está transformando esta eleição presidenciável em geleia geral

A nova pesquisa Ipec trouxe ânimo para a campanha de Lula, renovando as esperanças de ganhar no primeiro turno. Há ainda uma novidade que as pesquisas escondem e pode mudar o resultado: o surgimento do voto envergonhado em Lula. A pesquisa Ipec está se aproximando de constatar que há cerca de 4% de eleitores que declaram voto indeciso ou nulo, mas votam em Lula quando o tablet do pesquisador é deixado em suas mãos para que escolha o candidato sem ser observado.

Um perigo para os lulistas é a abstenção, especialmente por receio da violência. Se Bolsonaro for para o segundo turno com uma diferença menor para Lula que a estimada pelos maiores institutos, como DataFolha e Ipec, será motivo para que alimente a narrativa de que foi montado um esquema para impedir sua vitória. Mais um mês de campanha fará com que Bolsonaro possa alimentar a esperança de virar o resultado.

A desorganização estrutural de nossos partidos está transformando esta eleição presidencial numa geleia geral sem sentido que não seja o imediatismo dos interesses políticos. Com a controversa polarização entre o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro, que indica uma espécie de volta ao passado, esfacelou-se a lógica programática dos partidos, se é que algum dia a maioria deles teve alguma.

Carlos Andreazza - O golpe é o orçamento secreto

O Globo

Provocado pelo trabalho do repórter Breno Pires, li o relatório do TCU sobre a prestação de contas da Presidência da República em 2021. O documento foi aprovado por unanimidade pelos ministros da Corte de contas. Traz a mais completa explicação técnica de por que a emenda do relator, fachada para o orçamento secreto, é multiplamente inconstitucional.

Se já havia razões para declarar a inconstitucionalidade do bicho, com esse parecer o Supremo — se não quiser desrespeitar seu papel na República — tem obrigação de agir imediatamente. Ao listar cada uma das afrontas à Constituição, o relatório oferece fundamentação para que o STF desmonte o verdadeiro golpe.

É urgente. O golpe — aquele rompedor — é o orçamento secreto.

Ao mesmo tempo presidente do Supremo e relatora das ações que questionam o dispositivo, Rosa Weber, diante do ali exposto, não pode esperar eleição. Não há tempo para acomodação política. A emenda do relator mina a impessoalidade e a equidade progressivamente. Agora, em meio à campanha eleitoral, estão em curso empenhos de emendas do orçamento secreto — mais um movimento de imposição autoritária contra a paridade de armas na peleja por votos.

Eliane Cantanhêde - Falta de decoro

O Estado de S. Paulo

Em vez de passar por ‘estadista’, Bolsonaro ratificou sua péssima imagem internacional em Londres

“Errar é humano, repetir o erro é burrice.” Pois o presidente Jair Bolsonaro repetiu no funeral da rainha Elizabeth, em Londres, os mesmos erros que cometeu no bicentenário da Independência, em Brasília e Copacabana. Joga fora, assim, o trunfo de reunir dezenas de apoiadores na capital do Reino Unido, como jogou o de atrair multidões gigantescas no 7 de Setembro.

Além de recursos, agentes e prédios públicos, Bolsonaro usou a festa nacional e o funeral da rainha para fazer campanha e comício. O povo não é bobo, vê e desaprova. O que fica da viagem é a foto, inacreditável, do presidente do Brasil com um sorrisão ao cumprimentar o rei Charles, filho da rainha morta. Rindo no velório? Como se fosse uma festa? É falta de decoro, de compostura, de elegância. De matar de vergonha.

E esse presidente do Brasil pegou o braço do rei, como num abraço de velhos amigos, tomando chope no bar da esquina. Qualquer secretário do Itamaraty, ou aspirante a diplomata de qualquer país, sabe que não se toca em reis e rainhas e não se ri alegremente em velório – aliás, nem de reis nem de plebeus.

Míriam Leitão - Marinha contra o almirante

O Globo

Forças Armadas aceitam indisciplina de ativos se forem bolsonaristas, mas atingem inativo por ter dado opinião contrária ao atual governo

A Marinha puniu com um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) o contra-almirante Antonio Nigro por ter me dado uma entrevista na Globonews. Ele é reformado, portanto, não recai sobre ele nada do regramento que cabe aos da ativa ou mesmo aos da reserva remunerada. Mesmo assim, foi convocado a se explicar e teve que responder ao processo. “Não escondo meu constrangimento, porém não me sinto humilhado”, me escreveu ele.

Tudo isso fica mais espantoso se pensarmos nos antecedentes recentes. O Exército permitiu que o general Pazzuello subisse em um palanque eleitoral com o presidente da República e ainda colocou a investigação do caso sob sigilo de 100 anos. Ele era da ativa quando isso aconteceu e pelo Regimento do Exército não poderia ter ido ao evento. O coronel Ricardo Sant’Anna, chefe da Divisão de Sistemas de Segurança Cibernética do Exército, fez postagens com críticas a candidatos, campanha para Bolsonaro e ataque às urnas. Permanece no mesmo posto, segundo o seu Linkedin, e só foi tirado da Comissão de Transparência das Eleições por determinação do ministro Edson Fachin. Perguntado sobre o episódio, o Exército não respondeu até o fechamento desta edição.

Cristina Serra - Nós, sobreviventes do ódio

Folha de S. Paulo

Não haverá sigilo de cem anos para esconder os horrores deste governo

Não vamos esquecer das 685 mil covas abertas como feridas na terra, nem da vida que se esvaiu pela falta de oxigênio que o seu governo não providenciou (e você ainda zombou), nem da dor dos que tiveram que ser amarrados por falta de anestésico nos hospitais.

Estão gravadas suas palavras ásperas como pedras: "e daí?", "gripezinha", "não sou coveiro", "país de maricas". Lembraremos sempre que você tentou manipular o suicídio de um voluntário de testes com a vacina, sabotou as máscaras e o isolamento social, mandou cancelar a compra da Coronavac, riu de tudo isso.

Será preciso lembrar do desespero na fila do osso e da carcaça e de quem revira o lixo para comer, enquanto seus generais compram filé, picanha, bacalhau, salmão, camarão, Viagra e próteses penianas.

Alvaro Costa e Silva - Vaca no brejo

Folha de S. Paulo

Após 30 anos pedindo votos, ele ainda não sabe que existem pobres no Brasil

Em política sempre é cedo. Mas, faltando menos de duas semanas para o primeiro turno e com a possibilidade de não haver o segundo, a dúvida é saber qual é o maior desastre: se a campanha da reeleição ou se o desempenho de Bolsonaro nela. Prenuncia-se o fracasso daqueles que tiveram na mão a faca (a máquina estatal) e o queijo (a aliança comprada ao centrão) e estão sendo comidos.

Esqueça os marqueteiros do PL, eles não apitam. Na condução da campanha —em cujos cofres já entraram cerca de R$ 21 milhões, cinco vezes mais do que os gastos declarados em 2018—, há dois bicudos vaidosos que não se beijam. Dois inimigos fraternos, o senador Flávio e o vereador Carlos. O primeiro defende uma estratégia inexequível: exaltar as qualidades de Bolsonaro e seus acertos na Presidência. Uma obra de fantasia, baseada no conceito da suspensão de descrença, impossível de dar certo.

Joel Pinheiro da Fonseca - 'E no segundo turno, vai votar em quem?'

Folha de S. Paulo

Apesar da polarização e dos absurdos dos dois lados, não é uma escolha difícil

Apesar de eu preferir uma terceira via, tudo indica que teremos segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Será preciso escolher. Vamos analisar ponto por ponto.

Na educação, houve muito o que criticar no governo Lula. Mas o fato é que milhões de jovens entraram na universidade. Com Bolsonaro, há terra arrasada. Nada foi feito. E não fez porque não quis. Teve todas as chances; no início, em vez de ministério de técnicos, escolheu agradar malucos ideológicos e corruptos.

No meio-ambiente, a mesma coisa: Lula esteve longe de exemplar, mas entregou um governo com desmatamento baixo, situação que começou a piorar a partir de 2012. Com Bolsonaro, novamente é terra devastada, agora literalmente: entrega intencional a interesses predatórios da grilagem e garimpo ilegais. Na Saúde, o feito mais notável de Bolsonaro foi usar o governo para produzir e promover charlatanismo e sabotar esforços de pesquisar e aplicar a vacina contra a Covid.

Hélio Schwartsman - A Multiplicação das igrejas

Folha de S. Paulo

Vantagens tributárias e outras conferidas pelo Estado brasileiro explicam o fenômeno além da fé

Jesus multiplicou os pães, pastores multiplicam as igrejas. Deu em O Globo que, ao longo da última década, foram abertas no Brasil 21 igrejas evangélicas por dia. Em 2013, havia 71.745 instituições desse tipo; em maio de 2022, elas já eram 178.511.

Não duvido de que a fé responda por muito desse movimento, mas questões tributárias e outras vantagens que o Estado brasileiro confere a igrejas, também.

Digo-o com conhecimento de causa, pois já fui o feliz proprietário de uma instituição religiosa. No ano da graça de 2009, num experimento jornalístico, eu e colegas da Folha criamos a Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio.

Luiz Carlos Azedo - O custo-benefício do funeral de Elizabeth II para Bolsonaro

Correio Braziliense

Ela parecia eterna, principalmente depois de milhões de memes nas redes sociais exaltando sua longevidade. Entretanto, a morte sempre é um fato com grande poder de irradiação

As pesquisas irão dizer se valeu a pena a participação do presidente Jair Bolsonaro (PL) e da primeira-dama Michele no funeral da rainha Elizabeth II, que ganhou conotação de ação eleitoral oportunista. A rigor, seria um gesto de grande cortesia, ainda mais porque é um rito de passagem no qual o rei Charles III, simultaneamente, foi consagrado como seu sucessor.

Mas haveria a desculpa da campanha eleitoral para não ir, que seria perfeitamente aceitável. O brasileiro não é uma estrela ascendente da política internacional, principalmente no Ocidente, nem foi um convidado de honra da família.

A morte de Elizabeth II era uma notícia previsível, mas foi inesperada. Ela parecia eterna, principalmente depois de milhares de memes nas redes sociais exaltando sua longevidade. Entretanto, a morte sempre é um fato com grande poder de irradiação e repercussão, apesar da sua previsibilidade, porque só se morre uma vez.

O falecimento concentra e realça todos os acontecimentos de uma vida, emoldurado ainda mais pela longa duração dos funerais, acompanhado em tempo real pela mídia internacional durante 10 dias. Elizabeth II reinou por 70 anos, encabeçando uma monarquia que soube administrar a decadência do Império Britânico e, aliada aos Estados Unidos, manteve sua influência internacional após a descolonização.

Andrea Jubé - Governo não quer a reeleição de Pacheco

Valor Econômico

Planalto vê Supremo blindado pelo Senado

A segunda principal preocupação de uma ala do governo é a sucessão no comando do Senado em fevereiro do ano que vem. A primeira delas é, obviamente, a reeleição do presidente Jair Bolsonaro em outubro. Já a certeza entre integrantes desse grupo de que Arthur Lira será reconduzido para um novo mandado na direção da Câmara é cristalina como a água.

Esta ala governista, que é majoritária, não se conforma com eventual reeleição do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), para mais dois anos no comando da Casa. A avaliação de alguns integrantes do primeiro escalão do time bolsonarista é de que Pacheco “não joga junto” com o Palácio do Planalto, em contraponto ao presidente Arthur Lira, que se tornou um aliado de primeira hora do governo - que em troca, generosamente, viabilizou um “orçamento secreto” de R$ 19 bilhões para 2023.

Pedro Cafardo - Em tempos excepcionais, medidas excepcionais

Valor Econômico

Brasil já foi fulminado por desrespeitar a excepcionalidade

Os mais jovens talvez não tenham consciência do que foi a crise do petróleo dos anos 1970 e do ensinamento que ela deixou ao Brasil. O país vivia os anos do “milagre econômico”, cantado em prosa e verso pela ditadura militar, quando os produtores, unidos na Opep e dominados pelos árabes, fizeram um embargo ao fornecimento a países aliados de Israel na Guerra do Yom Kipur.

A decisão, em 1973, pegou o Ocidente de surpresa. Em cinco meses, a cotação do petróleo, que rastejara por décadas abaixo de US$ 3 o barril, subiu 300%, para US$ 12. O Brasil importava, então, 70% do petróleo que consumia.

Críticos dizem que o país deveria, naquele momento, ter adotado um racionamento do consumo de derivados e lançado programas para substituir a fonte de energia ou aumentar sua produção interna. Foram, é verdade, criados o Proálcool, que viria a ser bem-sucedido muitos anos depois, e os contratos de risco, pelos quais companhias privadas nacionais e estrangeiras assumiam a prospecção de petróleo, até então monopólio da Petrobras. Os resultados dos dois programas, como se previa, não foram imediatos, e o racionamento não foi adotado a tempo.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Comício infame

O Estado de S. Paulo

Incapaz de sentir compaixão por seus compatriotas, Bolsonaro desrespeita o luto dos britânicos, usa funeral da rainha como palanque e, de quebra, volta a duvidar do sistema eleitoral

A pretexto de atender ao funeral de Estado da rainha Elizabeth II, o presidente Jair Bolsonaro viajou a Londres para fazer comício e produzir imagens para sua campanha pela reeleição. Trata-se de evidente abuso de poder político e econômico, o que impõe a aplicação de uma punição exemplar pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não satisfeito, Bolsonaro ainda ampliou sua extensa folha corrida de crimes de responsabilidade ao difundir – mais uma vez sem provas – suspeitas sobre a segurança do sistema eleitoral do País, dizendo que, se ele não ganhar a eleição no primeiro turno, é porque “algo de anormal aconteceu no TSE”.

Durante essa rápida e infame passagem pela capital do Reino Unido, Bolsonaro envergonhou a grande maioria dos brasileiros, que decerto ainda guarda na alma um senso de decência. Além de usar recursos públicos para fazer campanha eleitoral, o que é expressamente proibido pela lei, Bolsonaro se fez acompanhar de indivíduos que nada têm a ver com a missão de Estado que lhe cabia desempenhar, mas têm tudo a ver com sua campanha eleitoral. Interessado em transformar a eleição numa “guerra santa”, Bolsonaro levou um líder evangélico e um padre. Já em Londres, Michelle Bolsonaro levou a tiracolo um influenciador digital que aproveitou para fazer propaganda, nas redes sociais, dos produtos usados pela primeira-dama – afinal, diante de um presidente capaz de fazer comício num funeral, que mal há em fazer marketing com o luto?

Poesia | Ciência & Letras - João Cabral de Melo Neto, uma fala só lâmina

 

Música | Maria Bethânia - Estado de poesia (Chico César)

 

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Polarização não termina com pleito, diz Valenzuela

Para ex-subsecretário de Estado americano, tendência de setores do centro a apoiar Lula é crucial para evitar cenário de completo autoritarismo no Brasil

Por Marsílea Gombata / Valor Econômico

O alto nível de polarização que há no Brasil hoje continuará, independentemente do resultado da eleição. Para o país sair desse cenário de animosidade, o centro político tem papel crucial, afirma Arturo Valenzuela, professor da Universidade Georgetown e ex-subsecretário de Estado americano no governo Obama.

 “[A polarização] provavelmente não acaba com a eleição. O que permitiu que [Joe] Biden fosse eleito foram forças de centro. [No Brasil], vejo certa tendência em direção a setores de centro que poderiam apoiar Lula”, diz, em entrevista ao Valor. “E, no discurso, creio que Lula está tomando uma posição mais centrista.”

Ele alerta que uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno pode levar a um governo mais esquerdista. A reeleição de Jair Bolsonaro, por outro lado, pode levar o Brasil, em tese, para um rumo autoritário.

Valenzuela diz, contudo, que a polarização em um país multipartidário como o Brasil é menos preocupante do que nos Estados Unidos, com dois partidos fortes.

Doutor pela Universidade Columbia, onde foi aluno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Valenzuela é um dos maiores especialistas em América Latina. Foi subsecretário de Estado para o continente americano além de assessor especial da Casa Branca para segurança nacional e diretor sênior para assuntos interamericanos do conselho de segurança nacional, na presidência Bill Clinton.

No campo acadêmico, é especialista em sistemas políticos, retrocesso democrático e autoritarismo. Entre seus trabalhos mais importantes estão “A Opção Parlamentarista” (1991), em coautoria com referências como Juan Linz, Arend Lijphart e Bolívar Lamounier, e “The Failure of Presidential Democracy” (1994), com Linz.

Valenzuela concedeu a entrevista por Zoom, de sua casa, em Washington. Veja trechos:

Fernando Gabeira - A campanha no funeral da rainha

O Globo

De certa forma, presidente erra de rainha. Ele deveria ir ao funeral de Vitória, uma grande puritana

Na semana passada, escrevi um longo artigo afirmando que a campanha política no Brasil é imprevisível. Mesmo com marqueteiros, estrategistas e análises minuciosas na mídia, os fatos escapam ao nosso controle. Quem diria que o Auxílio Brasil — que atropelou tudo para investir R$ 60,7 bilhões na salvação de Bolsonaro — não teria efeito algum entre os mais pobres?

Retomo o tema da imprevisibilidade, com uma nova pergunta: o que você diria se perguntassem no início do ano qual o papel da rainha da Inglaterra nas eleições do Brasil?

Certamente responderia com uma gargalhada. Proclamamos a República ainda no século XIX, não temos laços com a monarquia. A morte da rainha Elizabeth seria apenas uma notícia de destaque, nada mais.

No entanto, para enfatizar a força do acaso, a passagem da rainha foi terrível para a campanha de Bolsonaro. Ele esperava que o grande esforço e a grande transgressão do 7 de Setembro turbinassem sua posição nas pesquisas. Mas o tema foi ofuscado em seguida pela notícia da morte de Elizabeth.

Agora, Bolsonaro vai aos funerais em Londres para recuperar o prejuízo. Conseguirá? Tenho dito que a única forma de alterar o quadro seria ressuscitar a rainha.

Embora presidente do país do Novo Mundo, Bolsonaro disse que Elizabeth é nossa rainha. Isso certamente a agradaria, mas, se ele se apresentasse como “o imbrochável”, certamente ouviria do fundo do caixão forrado de chumbo:

— I beg your pardon.

Demétrio Magnoli – O reino sem a rainha

O Globo

Elizabeth II perpetuou no presente o passado sem manchas

Dinastias encarnam tradição, continuidade. Charles III, sangue do sangue de Elizabeth II, não precisaria ter prometido seguir o exemplo de sua mãe. Mas, nas democracias modernas, ser não é suficiente; as coisas devem parecer. E, por mais que ele se esforce, nunca poderá ocupar o lugar simbólico da rainha falecida.

No início da Segunda Guerra Mundial, diante da campanha aérea alemã contra Londres, o governo britânico ensaiou um plano de evacuação de Elizabeth, 14 anos, e sua irmã, Margaret, 9, para o Canadá. A rainha-mãe cortou a ideia pela raiz:

— As meninas não sairão se eu não sair; eu não sairei se o rei não sair, e o rei não sairá jamais.

No momento da rendição alemã, em maio de 1945, as duas adolescentes receberam permissão para, anônimas, juntarem-se às multidões que celebravam nas ruas.

Já se registrou, muitas vezes, que Elizabeth II conectava o Reino Unido a seu passado. É mais que isso: a rainha que reinou mais longamente na História britânica perpetuou o passado no presente. Sua figura congelou o tempo da triunfante resistência ao nazismo, ofuscando o declínio geopolítico do reino. O poderoso mito da vitória na guerra cobriu, com seu manto, o inexorável desaparecimento do “Império onde o sol nunca se põe”. Nascido em 1948, Charles III representa exclusivamente uma época de escassas glórias.

Marcus André Melo* - O Jogo dos Tronos

Folha de S. Paulo

Ao enfrentar Executivo, Judiciário se debilitou e abriu espaço para Legislativo

Como explicar que os Poderes Judiciário e Legislativo tenham adquirido enorme importância entre nós? Historicamente, o poder dominante é o Executivo, que se confundia com abuso. Rui Barbosa foi preciso quando o denunciou como "o grande eleitor, o grande nomeador, o grande contratador, (...) o poder da força".

No pós-Guerra, os presidentes continuaram poderosos politicamente, embora possuíssem poderes constitucionais limitados. A Constituição de 1988 delegou amplos poderes ao Executivo como forma de superar deficiências do arranjo anterior (MPs; iniciativas exclusivas em matéria administrativa, tributária e orçamentária; poderes de agenda etc.). Mas a constituinte adotou a estratégia "coleira forte para cachorro grande" e delegou igualmente vastos poderes ao Judiciário e ao Legislativo (embora a este menores).

Celso Rocha de Barros - Bolsonaro contra as mulheres

Folha de S. Paulo

Que 'identitarismo' é esse que Bolsonaro conseguiu vender para parte dos homens brasileiros?

A essa altura, ninguém discute que Bolsonaro tem um problema com as mulheres. Isso ficou evidente em sua agressão à deputada Maria do Rosário, em seu elogio da tortura de Dilma Rousseff na votação do impeachment. O problema ficou ainda mais claro em sua campanha contra jornalistas mulheres, com ataques sórdidos contra Patrícia Campos Mello, Míriam Leitão, Amanda Klein e, mais recentemente, Vera Magalhães.

É cada vez mais claro que Bolsonaro só conseguiu se comportar mais ou menos bem na sabatina do Jornal Nacional porque os hormônios de William Bonner estavam ali, dando segurança psicológica para o presidente por mais que Renata Vasconcellos o questionasse.

Recentemente, aliás, em um discurso em que tentava usar a primeira-dama para melhorar sua imagem diante do eleitorado feminino, Jair resolveu puxar um coro em defesa do próprio pênis.

machismo é parte do problema, é claro, mas políticos machistas, em geral, são capazes de se controlar quando é de seu interesse. O que faz Jair se descontrolar dessa forma?

Lygia Maria - Machismo e política

Folha de S. Paulo

Político deve trabalhar, em vez de assediar jornalista e fazer comentário machista

A jornalista Vera Magalhães foi atacada pelo deputado Douglas Garcia. Filmando com o celular, o deputado acusou a jornalista de receber salário de R$ 500 mil para criticar Bolsonaro (uma falácia já esclarecida diversas vezes) e ainda a chamou de "vergonha do jornalismo brasileiro".

Se o deputado acha que há uso ilegal de verba pública, deve procurar os meios cabíveis para investigação. Deputado não assedia cidadão. Deputado não é influencer, que faz vídeo para ganhar like no Instagram. Deputado deve propor projetos de lei e fiscalizar o Executivo. Ou seja, deputado deve trabalhar.

Ana Cristina Rosa - Nós da desigualdade

Folha de S. Paulo

Brasileiros sabem que progresso está condicionado à redução das disparidades

Será que alguém em sã consciência acredita que haja alguma chance real de desenvolvimento do Brasil sem que seja debelada a extrema desigualdade socioeconômica que caracteriza a nação e sem um projeto continuado de qualificação da educação?

Felizmente, a percepção da maioria dos brasileiros é a de que este é um país que não "vai pra frente" sem encarar com seriedade suas imensas discrepâncias, sendo que 87% consideram obrigação dos governos reduzir a diferença entre os muito ricos e os muito pobres.

Carlos Pereira* - Riscos de retrocesso na democracia mundial

O Estado de S. Paulo

Histórico das instituições explica por que alguns países sucumbem a retrocessos iliberais

Escrevo de Montreal, Canadá, onde participo da conferência da American Political Science Association (APSA), o maior evento de ciência política que reúne cientistas políticos de diversos cantos do mundo.

Um tema que dominou as discussões na APSA (pelo menos 74 painéis) foi o risco de retrocesso que a democracia mundial supostamente vem passando desde o final da Guerra Fria. A ciência política está, de fato, muito temerosa com o chamado Democratic Backsliding.

Essa apreensão parece não ser destituída de razão. De acordo com o relatório do Variety of Democracy (V-dem) de 2022, o nível de democracia global médio declinou a valores anteriores a 1989. O número de democracias liberais caiu de 42 para 34. As autocracias aumentaram de 25 para 30. Autocracias eleitorais passaram a ser o tipo de regime mais comum no mundo – 60 países. O V-dem chama essa tendência de “terceira onda de autocratização”.

Henrique Meirelles – Ideias que não ajudam

O Estado de S. Paulo

Costumo dizer que, por causa do volume de reservas, a economia brasileira aguenta desaforos.

Além de excelente economista, Mário Henrique Simonsen era ótimo frasista. É dele a máxima: “A inflação aleija, mas o câmbio mata.” Ex-ministro da Fazenda, Simonsen se referia à armadilha que fez o Brasil quebrar algumas vezes nas décadas de 1970 e de 1980, a da falta de reservas em dólar para pagar compromissos internacionais. Este problema foi sanado quando fizemos no Banco Central um trabalho de acúmulo de reservas e chegamos a US$ 288 bilhões. Hoje o Brasil tem US$ 336 bilhões. Não há chance de o país quebrar por falta de dólares, como no tempo em que Simonsen cunhou a frase.

Costumo dizer que, por causa do volume de reservas, a economia brasileira aguenta desaforos. A prova é tudo o que ocorreu na política fiscal nos últimos três anos. Por isso, vi com curiosidade a ideia do Ministério da Economia de estabelecer uma meta para as reservas internacionais. O Banco Central teria de vender dólares se as reservas estivessem acima da meta e comprar se estivessem abaixo.

Bruno Carazza* - O voto também está mais caro em 2022

Valor Econômico

Fundão turbinou custo nas campanhas deste ano

Nos últimos anos nos acostumamos a analisar cada postagem dos políticos no Twitter e no Facebook, assim como seus vídeos no YouTube, Instagram e TikTok. Mas não há nada igual à boa e velha reportagem de campo, aquela em que o jornalista segue cada passo do candidato no corpo-a-corpo com o eleitor.

Presidente da Câmara e líder do Centrão, posições que lhe permitem manobrar votações e controlar a distribuição de verbas do orçamento, cada declaração de Arthur Lira (PP-AL) em Brasília repercute no meio político e no mercado.

O repórter Raphael di Cunto, do Valor, porém, mostrou uma face diferente do todo-poderoso Arthur Lira que estamos habituados a acompanhar pela TV. O jornalista passou uma semana viajando por Alagoas, cobrindo carreatas, entrevistas a rádios e dezenas de almoços e jantares com prefeitos em apoio à reeleição de Lira.

Sergio Lamucci - Os problemas do Auxílio Brasil

Valor Econômico

O desenho malfeito e a expansão sem planejamento do programa têm causado problemas para a principal política de transferência de renda do país

O desenho malfeito e a expansão sem planejamento do Auxílio Brasil têm causado problemas para a principal política de transferência de renda do país, além de gerar incertezas sobre as contas públicas. O programa que sucedeu o Bolsa Família recebe críticas de especialistas principalmente pelo fato de destinar um valor fixo por família, a despeito do número de integrantes. Isso provoca estragos no Cadastro Único, o banco de dados usado numa série de programas sociais.

O governo de Jair Bolsonaro também atropelou regras fiscais para elevar o valor do benefício e o total de famílias atendidas. A mais recente manobra foi por meio da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Kamikaze, aprovada em julho. Com a medida, o Auxílio Brasil subiu de R$ 400 a R$ 600, além de terem sido instituídos o bolsa caminhoneiro e o auxílio taxista. A PEC foi o mais recente drible no teto de gastos, com o objetivo de tentar melhorar a qualquer custo a popularidade do presidente, afetada em especial pela inflação alta.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

PRF se tornou modelo de polícia do bolsonarismo

O Globo

Corporação que deveria patrulhar estradas vira protagonista de chacinas e investigações de caráter duvidoso

Na antológica reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, o presidente Jair Bolsonaro, ao seu jeito, reclamava que os serviços de inteligência não lhe forneciam informações para proteger família e amigos. Anunciou que faria mudanças. Desde então, houve denúncias de interferência dele na Polícia Federal (PF) e de uso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em benefício de seus familiares. Mas foi na Polícia Rodoviária Federal (PRF) que Bolsonaro e seus filhos encontraram o braço policial e de inteligência com que sonhavam.

Uma reportagem da revista piauí narra em detalhes a progressiva transformação da PRF. De uma polícia dedicada ao patrulhamento de rodovias federais, ela se tornou uma corporação a serviço do bolsonarismo, cuja tropa de elite passou a investigar e combater crimes fora das estradas, com envolvimento em operações policiais e chacinas elogiadas nas redes sociais pelo clã Bolsonaro. É um assunto que, pela gravidade, precisa ser investigado pelo Congresso, pelo Ministério Público e demais autoridades competentes.

Poesia | Fernando Pessoa - Quadras ao gosto popular

 

Música | Chico César - Bolsominions

 

domingo, 18 de setembro de 2022

Luiz Sérgio Henriques* - Compromisso histórico à brasileira

O Estado de S. Paulo

O nacional-populismo prospera sobretudo à direita, mas convém evitar a húbris: há na praça versões à esquerda, que só incautos ignoram.

Nestas últimas décadas, nem mesmo a mudança tumultuosa da estrutura do mundo a que, atônitos, assistimos pôde cancelar fatos paradigmáticos do passado, particularmente quando redefiniram modos de ser e de pensar a política. Nos anos 1960 ou 1970, para definir desde logo nosso problema, costumava estar na ordem do dia algum tipo de transição ao socialismo, entendido este último, teleologicamente, como a parada final do trem da História.

No Chile de Allende, por exemplo, a aposta era seguir viagem pelo caminho das eleições, do Parlamento e demais instituições que muitos de nós, mal-avisados, chamávamos “burguesas”. O contexto, porém, era o da guerra fria, e para adeptos do “realismo político”, como Nixon e Kissinger, uma segunda Cuba nas Américas era algo impensável, ainda quando viesse não pela “luta armada”, o voluntarioso lema da época. A decisão de derrubar Allende viu-se facilitada pelo seu isolamento tanto no Congresso quanto no eleitorado: a maioria relativa de que dispunha não era suficiente para vencer as dificuldades políticas e econômicas da transição. Para não falar da ferocidade com que a direita militar armava o golpe de 1973, neste fatal mês de setembro – bem ao estilo da época.

Cristovam Buarque* - Voto de Responsabilidade

Blog do Noblat / Metrópoles

Será melhor para o Brasil decidir a eleição logo no dia 02 de outubro

Em 2006, disputei a eleição presidencial. Junto com Heloisa Helena, tivemos os votos que forçaram o segundo turno entre Lula e Alckmin, com propostas diferentes para o governo, mas com intenções parecidas para o futuro do país. Desta vez, um segundo turno será com um candidato sem compromisso com a verdade, com a democracia, com a ciência, com os pobres, nem com os doentes. Por isto, tudo indica que será melhor para o Brasil decidir a eleição logo no dia 02 de outubro. Não se retrata de apelar para o voto útil, mas para o voto responsável do eleitor. Cada eleitor deve votar com consciência ideológica, de qual candidato ele considera o melhor, mas também com a responsabilidade de como evitar riscos para o pais, neste momento.

Isto depende, em primeiro lugar, dos próprios eleitores que em 2018 preferiram eleger o atual presidente. Tinham razões que justificavam o voto que deram em 2018. Não o conheciam e estavam indignados com o quadro político naquele ano. Queriam renovação e Bolsonaro, apesar de ser um político profissional medíocre por 26 anos, viciado em práticas corruptas como rachadinhas e sem propostas para o Brasil. Mesmo assim conseguiu encarnar a imagem de ser o contrário aos políticos tradicionais. Agora, vocês sabem que ele é do mesmo time, usa os mesmos métodos e beneficia os mesmos grupos e além disto demonstrou que é irresponsável e despreparado para governar o Brasile representar nosso país no mundo.

Merval Pereira - Coalizão propositiva

O Globo

Agenda ambiental entra definitivamente na pauta das eleições, com a união entre Marina Silva e Lula

A questão ambiental ganhou definitivamente protagonismo na campanha eleitoral com a adesão de Lula a um programa apresentado por Marina Silva em nome do partido Rede Sustentabilidade. Foi o primeiro passo para um governo de coalizão baseado em programas de ação, e não em distribuição de cargos ou benesses fisiológicas.

O mesmo aconteceu recentemente na Alemanha para a formação da nova aliança que dá sustentação ao sucessor de Angela Merkel, o primeiro-ministro Olaf Scholz. A Alemanha será governada pela primeira vez a nível federal por uma coalizão de três partidos, o que já está sendo conhecida como uma "coalizão semáforo", devido às cores dos partidos social-democrata (vermelho), liberal (amarelo) e verde.

O acordo de coalizão prevê mudanças significativas na política ambiental da Alemanha, com grandes investimentos em energias renováveis. Os verdes, o terceiro partido mais votado na eleição de setembro, conquistaram 14,8% dos votos, já o SPD foi o mais votado, com 25,7%, e os liberais ficaram em quarto, com 11,5%. O Partido Verde terá cinco ministérios (Exterior, Economia e Clima, Agricultura, Família, Meio Ambiente).

Elio Gaspari - A rejeição de Bolsonaro

O Globo

Bolsonaro precisa mudar para reduzir a sua elevada taxa de rejeição. Vá lá. Como? Para quê?

Em 2018, o capitão foi eleito numa onda antipetista propondo um governo conservador nos costumes, liberal na economia e independente na política.

Para explicar como armaria sua independência política, prometia basear-se no que chamava de “bancadas temáticas”. Eleito, ele ainda não tinha tomado posse, e o deputado Alceu Moreira (MDB-RS) ensinava:

“Quem disser que sabe qual é o resultado que esse novo modelo produzirá, de duas uma: ou é adivinho ou está mentindo”.

Não havia adivinhos no pedaço, e o modelo foi o de sempre: o governo aninhou-se no colo do Centrão.

O governo liberal na economia fechou o Posto Ipiranga e passou a vender picolés de carestia. Restavam dois temas: o conservadorismo nos costumes e o antipetismo. Conservador não é miliciano, não ofende mulheres e repele atitudes vulgares. Sobrava o antipetismo.

Ele existe, mas foi abalado por dois fatos. Uma foi a transformação da Lava-Jato em poeira pela desmistificação de seus cavaleiros. O juiz Sergio Moro começou prometendo liquidar o arranjo corrupto dos partidos políticos, tornou-se o todo-poderoso ministro da Justiça e Segurança de Bolsonaro e acabou comprando bermudas com dinheiro do Podemos.

Bernardo Mello Franco – A eleição do medo

O Globo

Sete em cada dez brasileiros temem ser agredidos por razões políticas; clima de violência favorece a extrema direita no poder

O bolsonarismo vai mal nas pesquisas, mas já garantiu uma vitória: transformou a eleição da fome na eleição do medo. O debate sobre a carestia perdeu espaço na corrida presidencial. Agora o país discute se o capitão aceitará uma possível derrota, se os militares apoiarão uma tentativa de golpe, se o eleitor poderá votar em paz e segurança.

Sete em cada dez brasileiros temem sofrer agressões por causa de sua opinião política. A informação é do Datafolha, em levantamento encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pela Rede de Ação Política pela Sustentabilidade.

O medo tem razão de ser. Em 60 dias, dois eleitores do PT foram assassinados por bolsonaristas — um a tiros, outro a facadas. Casos de intimidações e ameaças se acumulam pelo país. Jornalistas e funcionários de institutos de pesquisa são hostilizados no exercício de suas funções.