sábado, 24 de setembro de 2022

Bolívar Lamounier* - À espera de Dom Sebastião

O Estado de S. Paulo

Que ele volte, se assim o quiserem as urnas, mas volte mais sensato e responsável, sem o ranço populista que cultivou na juventude

Tendo revolucionado a navegação de longo alcance, Portugal construiu um formidável império, singrando os mares, como escreveu Camões, “ainda além da Taprobana” – ou seja, ainda além do atual Ceilão –, mas depois, em sua prolongada decadência, o país pôs-se a aguardar o retorno de seu jovem rei Dom Sebastião, recusando-se a crer que ele teria morrido em 1578, na batalha de Alcácer-quibir.

Essa é a origem do termo “sebastianismo”: a sofrida espera de um regresso que jamais ocorrerá.

Comparado com Dom Sebastião, Lula tem ao menos duas inegáveis vantagens. Uma, a de estar vivo: quanto a isso não há dúvida. E não perdeu – ao contrário, aprimorou – sua proverbial esperteza. Há até quem diga que o Lula de 2022 supera por larga margem o de 20 ou 30 anos atrás, porque agora consegue perceber, por exemplo, as oportunidades que grandes mudanças na ordem mundial poderão abrir para nosso país, tornando plausível a retomada do crescimento econômico em bases sustentáveis.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Lula ainda deve ao eleitor um plano econômico coerente

O Globo

Ele acena ao mercado financeiro e distribui agrados aos petistas fanáticos. Se vencer, ninguém sabe como governará

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT à Presidência, ainda deve ao país um plano econômico que faça sentido e justifique sua larga vantagem nas pesquisas de intenção de voto. Ao mesmo tempo que faz acenos ao centro e envia emissários ao mercado financeiro e ao setor produtivo, Lula continua a discursar como se falasse apenas a um grupo de petistas fanáticos. Que Lula governará? Aquele que escolheu Geraldo Alckmin como vice-presidente e posou para foto ao lado de Henrique Meirelles? Ou o que volta e meia torpedeia as reformas e privatizações? A oito dias da eleição, ninguém sabe.

As contradições dele na economia ficaram evidentes na última semana. No evento em que recebeu apoio de Meirelles, aplaudido pelo mercado, Lula soltou o seguinte absurdo sobre as agências reguladoras: “Na verdade, as agências foram criadas para que o empresariado tomasse conta do governo. Porque a indicação passa pelo Senado, e todo mundo sabe como é difícil uma indicação passar no Senado, se não tiver interesses que não são os nossos”. Num país que precisa da independência técnica das agências para regular mercados em benefício de todos, esse tipo de visão é um total contrassenso.

Poesia | Vinicius de Moraes - Dia da Criação (Porque hoje é sábado)

 

Música | Marisa Monte - A língua dos animais

 

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Fernando Luiz Abrucio* - Recuperar o conceito de coalizão

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Não há chances de se montar um governo num país multipartidário e complexo socialmente sem a distribuição de poder e recursos entre aliados

Após a avalanche bolsonarista contra a democracia e o sistema político montados pela Constituição de 1988, o próximo governante terá uma enorme tarefa de reconstrução das instituições e das políticas públicas. Mesmo com milhões de votos, nenhum presidente conseguirá governar sob os escombros do bolsonarismo de forma voluntarista e personalista. No entanto, um dos pontos de preocupação para o próximo período é como retirar o poder excessivo dado ao Centrão liderado por Arthur Lira, especialmente mudando o modelo orçamentário controlado por esse grupo. A necessidade de construir alianças amplas sem repetir o padrão predatório atual só tem uma saída: reconstruir o conceito de coalizão.

O termo presidencialismo de coalizão é, ao mesmo tempo, tomado como algo constante, mas que geralmente recebe uma dupla interpretação. Os seus críticos dizem que ele é a origem de todos os males da corrupção. Embora em diversas ocasiões a necessidade de se construir maiorias parlamentares tenha sido alimentada por recursos escusos, isso não é uma lei de ferro.

A distribuição de ministérios e a divisão orçamentária conforme o apoio recebido são peças-chave que podem até gerar, em determinadas circunstâncias, erros de políticas públicas, porém não são, intrinsecamente, mecanismos corruptos de governança.

César Felício - A crônica de uma eleição que não acabou

Valor Econômico

Pleito de 2018 e 2022 são diferentes, mas há similaridades

Há praticamente quatro anos, a edição deste jornal no dia seguinte à eleição registrava: Bolsonaro questionava o resultado eleitoral e Fernando Haddad, o então candidato petista, anunciava que buscaria uma frente ampla.

A similaridade do quadro atual com 2018, quando tanta coisa mudou no Brasil desde então, mostra que essencialmente os dilemas e estratégias do petismo e do bolsonarismo seguem os mesmos.

O PT sabe que para chegar e permanecer no poder precisa pactuar com forças de fora da esquerda. Ninguém no partido soube fazer isso, a não ser o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Haddad em 2018 esteve muito longe de conseguir.

Lula saiu da cadeia com um discurso conciliador e depois durante muitos meses pareceu jogar parado. Fez um movimento importante, ao trazer Geraldo Alckmin para seu redil rendido, sem nenhuma condição, mimetizando um radicalismo que nunca teve. Ainda assim, Alckmin na chapa representou uma inflexão importante: o ex-presidente escolheu como vice um político que tem estatura para substitui-lo em caso de um impeachment, por exemplo.

José de Souza Martins*- A fome que mutila

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Há a enganosa suposição de que a fome de ontem pode ser saciada com programas de alimentação de hoje ou de renda adicional de agora

O levantamento, agora divulgado, feito pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar e Nutricional), sobre a fome no Brasil, associado a outros dados do momento, como os das várias pesquisas sobre tendências de voto do eleitorado, fazem-nos revelações amargas. Somos um país tristemente à beira do abismo. Um país em que, para muitos, a vida do outro não vale nada. Não só para quem governa como também para uma parcela ponderável dos que votam.

O levantamento aponta que, em 41,3% dos domicílios, os moradores vivem em estado de insegurança alimentar. Em 15,2%, 33 milhões de seres humanos vivem em insegurança alimentar severa, de fome. Juntando-se a insegurança alimentar severa com a insegurança alimentar média (15,5%), 30,7% da população está numa situação alimentar crítica: não tem o que comer ou não tem o minimamente necessário para comer e sobreviver em condições propriamente humanas.

Feita uma desagregação dos dados por variáveis adicionais, os pesquisadores verificaram que falta comida em um em cada três lares com crianças até 10 anos.

Vera Magalhães - O voto útil e o abandono do barco

O Globo

Ciro Nogueira está pegando seu banquinho e saindo de mansinho. Diz que vai ali no Piauí e volta já. Será que volta?

A estratégia do QG de Luiz Inácio Lula da Silva em busca do voto útil conseguiu reverter a tendência de praticamente toda a campanha: Jair Bolsonaro perdeu o domínio da narrativa eleitoral a dez dias do pleito. Depois de esgotar todas as cartadas, mesmo a exótica viagem internacional no momento crucial da eleição, o presidente e seu entorno parecem atordoados, perdidos, desmotivados.

A pregação pelo voto “Lula já” surtiu efeito junto a juristas, artistas, economistas, adversários políticos e trouxe até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ex-alvo preferencial do PT, para o debate, ainda que com uma nota em que não dá nomes aos bois, só aos conceitos.

FH fez mais em entrevista há um ano para mim, aqui no GLOBO. Na ocasião, disse que, caso se configurasse um segundo turno entre Lula e Bolsonaro, não deixaria de se posicionar.

— Se ficar entre Lula e Bolsonaro, temos de escolher entre um dos dois. Da última vez, eu não escolhi. Desta vez não vou fazer isso. É preciso escolher. E eu não vou escolher o Bolsonaro.

Ele foi, portanto, elegante com a senadora Simone Tebet, candidata do MDB que tem o apoio do PSDB. Mas não resta nenhum sujeito indeterminado na sua nota cheia de sujeitos ocultos.

Bernardo Mello Franco – Brigando com as pesquisas

O Globo

Ao questionar credibilidade de institutos, presidente e aliados seguem mesma estratégia golpista

Aconteceu em Ariranha, município de 9 mil habitantes no interior de São Paulo. Um pesquisador do Datafolha entrevistava um morador local quando foi abordado aos gritos pelo bolsonarista Rafael Bianchini: “Vagabundo!”. “Só pega Lula!”.

Não satisfeito com os insultos, o eleitor do capitão atacou o profissional a socos e pontapés. Ele ainda saiu para buscar um facão, mas foi contido pelo filho antes de usá-lo.

A agressão não foi caso isolado. Bolsonaristas têm assediado e hostilizado pesquisadores em diversas regiões do país. Na semana passada, o Datafolha chegou a registrar dez ocorrências num único dia.

Em meio à escalada da violência, o presidente e seus aliados incitam o ódio contra os institutos. Ontem o presidente da Câmara, Arthur Lira, fez uma ameaça velada a empresas que medem intenções de voto. “Urge estabelecer medidas legais que punam os institutos que erram demasiado ou intencionalmente para prejudicar qualquer candidatura”, tuitou.

Eliane Cantanhêde - A onda do voto útil

O Estado de S. Paulo

Está escrito que a onda do voto útil vai crescer, mas ainda não chegou à sua excelência, o eleitor

A onda do voto útil, comum na reta final das campanhas, já começou e começou forte, com os artistas puxando a fila, os intelectuais indo atrás e um personagem-chave, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, dando aos tucanos e ao próprio centro uma sinalização a favor de Luiz Inácio Lula da Silva, mas, mais ainda, contra Jair Bolsonaro.

Apesar de não citar Lula e Bolsonaro, o texto de FHC não deixa dúvida, ao defender o combate à pobreza e à desigualdade, direitos iguais independentemente de raça, gênero e orientação sexual, valorização da educação e da ciência, preservação do ambiente, fortalecimento das instituições e recuperação da imagem internacional do Brasil.

É tudo que separa Lula e Bolsonaro, logo, é fácil identificar quem está de um lado e do outro nessas questões tão fundamentais. FHC redigiu o texto, não com políticos, mas, sim, com três intelectuais: o ex-chanceler Celso Lafer, o diplomata e seu assessor internacional Miguel Darcy de Oliveira e o diretor do Instituto FHC, Sérgio Fausto.

Bruno Boghossian - A consistência da frente ampla

Folha de S. Paulo

União de divergentes é ferramenta poderosa, mas eventuais deserções podem provocar estragos

A expansão precoce do elenco que manifesta apoio a Lula mexe em alguns parâmetros da frente ampla que os petistas trabalham para construir. Quando adesões do tipo aparecem no segundo turno, o movimento é interpretado pela ótica do pragmatismo, já que a escolha é restrita. No primeiro, elas podem ter peso simbólico para mudar expectativas em relação a um futuro governo.

Em alguma medida, a chegada de políticos de centro-direita ao palanque do petista carrega esse potencial. Henrique Meirelles declarou voto em Lula e posou como uma espécie de selo para a economia. Já o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sinalizou apoio indicando uma convergência com a plataforma social do sucessor.

O motor da aproximação desses e outros atores com Lula é a oposição a Jair Bolsonaro. Eles tratam a derrota do presidente como prioridade e veem o petista como único candidato competitivo. Ainda assim, fizeram questão de destacar pontos de contato na agenda de governo.

Vinicius Torres Freire - O risco de golpe baixo na eleição

Folha de S. Paulo

Possível vitória apertada do petista pode incentivar artimanhas até eleição e depois dela

Quem está ansioso com o resultado da eleição deve continuar assim até a noite do domingo 2 de outubro. A indefinição ou um resultado apertado aumentam o risco de tumulto político ou de golpes baixos. Tomar cuidado com a segurança do eleitor e da apuração é tarefa ainda mais séria.

A quantidade de abstenções e de votos válidos pode pesar mais do que as inconstâncias do eleitorado na última hora. A julgar pelos dados do Datafolha desta quinta-feira, ondas de abstenção ali ou aqui, entre os mais pobres em particular, podem ter peso terminal. É o que indica o histórico do número de votos válidos/inválidos e de abstenção. Mais sobre estes números mais adiante, neste texto.

Sim, se pode especular que muita decisão relevante é tomada nessa última hora, embora esta seja uma eleição de decisões mais precoces, a julgar pelas declarações do eleitorado. Mais de 18% dos eleitores dizem que ainda podem mudar o voto. De resto, haverá ainda 8 dias de campanha e 1 de "reflexão", o sábado. Mas, se todos os eleitores ainda não totalmente decididos mudassem o voto para sua segunda escolha, ainda assim a eleição continuaria indefinida (sempre pelos números do Datafolha desta quinta-feira).

Reinaldo Azevedo - Ciro já escolheu, e eleitor escolherá

Folha de S. Paulo

Ao votar, você responde por si mesmo e por todos

Ciro Gomes, candidato do PDT à Presidência, está empenhado em combater o "fascismo de esquerda". Não se sabe exatamente o que é isso. Pregar voto útil seria uma das expressões desse mal. Fosse assim, ter-se-ia a solução, não o problema. O voto útil estaria para o "fascismo de esquerda" como o golpe para o fascismo de direita. Então se faça a luz. Mas é preciso ir das palavras que movem para os exemplos que arrastam.

Na quarta, em entrevista à Rede Vida, Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, voltou a fazer uma ameaça nem tão velada ao STF. Depois de reclamar de decisões do tribunal relativas a seus decretos ilegais sobre armas e a inquéritos que apuram agressões à ordem democrática, foi enigmático, como de hábito, com a garrucha da cintura: "Acredito que, depois das eleições, a gente resolva essa parada aí".

Mariliz Pereira Jorge - Ciro cava o próprio fim

Folha de S. Paulo

Candidato parece estar numa cruzada para enterrar seu futuro político

"O PT, se você deixar, bate a sua carteira...". É uma fala típica de Jair Bolsonaro, mas foi dita por Ciro Gomes em entrevista ao apresentador Ratinho. Na mesma ocasião, o candidato do PDT botou parte da culpa do problema da violência e do tráfico de drogas do país na "esquerda caviar": "o burguês lá da zona sul do Rio falando de combater o fascismo tá cheirando cocaína desbragadamente".

O tom bolsonarista adotado por Ciro tem funcionado tanto quanto enxugar gelo. Quanto mais ele bate no PT e em Lula, mais derrete. A virada esperada jamais veio. A eleição se aproxima e quem se aproxima de Ciro é Simone Tebet. A única coisa que cresce na campanha de Ciro é a rejeição e a antipatia por ele. O que ele faz? Diz que antigos apoiadores, como Caetano e Tico Santa Cruz, vão de Lula porque estão com a vida ganha.

Bruno Boghossian - Lula usa rejeição a Bolsonaro e investe no 1º turno

Folha de S. Paulo

Petista encontra espaço nos segmentos em que presidente enfrenta oposição mais forte

Os movimentos do eleitorado dão alguns sinais sobre a influência que a rejeição a Jair Bolsonaro (PL) pode ter sobre o desenho final do primeiro turno.

A nova pesquisa do Datafolha captou uma variação favorável à candidatura de Lula (PT) nos segmentos da população em que o atual presidente apresenta alguns de seus piores índices negativos nesta corrida.

Na última semana, Lula registrou ganhos entre os mais jovens, entre as mulheres e entre os eleitores de baixa renda. Em todos esses grupos, a rejeição a Bolsonaro parece consolidada, chegando a beirar a casa dos 60%.

A relação entre os números oferece duas informações que podem ser determinantes para os dez dias finais da disputa e para os esforços do petista em direção a uma vitória no primeiro turno.

Um dos pontos é a indicação de que Lula pode ter encontrado algum espaço para reforçar o núcleo de seu eleitorado. Aqueles três grupos em que o petista avançou já eram aqueles em que sua candidatura apresentava mais força no confronto com Bolsonaro.

Luiz Carlos Azedo - Voto útil pode reduzir distância entre Lula e Bolsonaro

Correio Braziliense

Numa campanha radicalizada, errar de “inimigo principal” pode ser fatal. Enquanto Bolsonaro concentra o fogo contra Lula, a oposição começa a se digladiar com muita agressividade na campanha

A campanha de voto útil deflagrada pelo PT para garantir a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno é a estratégia adotada pelo petista na reta final de sua campanha. O objetivo é volatilizar a candidatura do ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) e, com isso, atrair os eleitores que lhe faltam para ter mais de 50% dos votos válidos em 2 de outubro. A expectativa de poder que o favoritismo de Lula oferece, ao contrário do que acontece com os demais candidatos de oposição, é um fator de atração de apoios de personalidades, intelectuais e políticos do chamado centro democrático, que estão aderindo publicamente à campanha do petista. Lula está mais próximo de uma vitória no primeiro turno.

No caso de Ciro, o voto útil já está implodindo o PDT. O tom agressivo da campanha, porém, provoca forte reação de Ciro Gomes, que passou a tratar Lula como adversário principal nas últimas semanas, por ter a sua sobrevivência como líder político nacional ameaçada pelo esvaziamento progressivo de sua candidatura. Na prática, essa reação de Ciro reforça a narrativa adotada por Bolsonaro para aumentar o índice de rejeição de Lula, focada, principalmente, nos escândalos do mensalão e da Petrobras, e pelas condenações em primeira e segunda instâncias nos processos da Operação Lava Jato, embora essas sentenças tenham sido anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

FH pede voto a eleitores em favor da democracia

Ex-presidente tucano enumerou pautas do candidato em quem defende votar, como compromisso com o combate à pobreza e desigualdade e direitos iguais para todos; Lula agradeceu a declaração

Por Guilherme Caetano e Sérgio Roxo / O Globo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, publicou uma nota na manhã desta quinta-feira em que defende voto "pró-democracia" no dia 2 de outubro, data do primeiro turno das eleições. Com recados indiretos ao presidente Jair Bolsonaro, a nota não cita o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já recebeu o apoio de tucanos nesta campanha eleitoral. Mas a avaliação de alguns integrantes da coordenação de campanha do petista é de que a declaração de FH é um gesto de apoio a Lula.

Fernando Henrique enumerou diversas pautas do candidato em quem defende votar, como compromisso com o combate à pobreza e desigualdade e direitos iguais para todos, independentemente de raça, gênero e orientação sexual.

A nota tem um tom implícito contra o presidente Jair Bolsonaro (PL), cujo governo tem colocado em prática ações contra a preservação de florestas e a ciência, por exemplo. O próprio presidente faz ataques constantes às instituições, como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

"Como é do conhecimento público, tenho idade avançada e, embora não apresente nenhum problema grave de saúde, já não tenho mais energia para participar ativamente do debate político pré-eleitoral. Peço aos eleitores que votem no dia 2 de outubro em quem tem compromisso com o combate à pobreza e à desigualdade, defende direitos iguais para todos independentemente da raça, gênero e orientação sexual, se orgulha da diversidade cultural da nação brasileira, valoriza a educação e a ciência e está empenhado na preservação de nosso patrimônio ambiental, no fortalecimento das instituições que asseguram nossas liberdades e no restabelecimento do papel histórico do Brasil no cenário internacional", diz a íntegra da nota.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Voto útil e abstenção são as chaves do primeiro turno

O Globo

Lula tenta atrair eleitores de Ciro e Tebet, mas seu desafio será convencer os menos escolarizados a votar

Faltando nove dias, duas forças sobressaem na reta final da campanha eleitoral. Primeiro, a propaganda em favor do voto útil do líder nas pesquisas, o petista Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo, o efeito que a abstenção — não medida pelos institutos — terá no resultado das urnas. A primeira força é favorável a Lula, a segunda desfavorável. A resultante entre as duas determinará se a disputa pelo Planalto com o presidente Jair Bolsonaro acabará no primeiro turno ou se será necessária uma nova rodada no final do mês.

pesquisa Datafolha divulgada ontem mostra Lula com 47% das intenções de voto, 14 pontos percentuais à frente de Bolsonaro. O resultado é consistente com outros levantamentos. A medição do Ipec no início da semana também mostrou larga vantagem para o petista: 47% ante 31% de Bolsonaro. Acreditando que o “instantâneo” se manterá inalterado até o dia da eleição, os estrategistas da campanha lulista têm feito o possível para liquidar a disputa na primeira rodada.

O risco de Bolsonaro para a democracia tem sido brandido como argumento pelos petistas para tentar convencer eleitores de outros candidatos a votar em Lula. O PT, penalizado pelo voto útil repetidas vezes ao longo de sua história, adaptou às circunstâncias atuais o argumento que sempre usou.

Poesia | Jorge Luis Borges - Mudei o deserto

 

Música | Leila Pinheiro - Eu Sei (Renato Russo)

 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Merval Pereira - Mais do mesmo?

O Globo

Bolsonaro mostrou-se incontrolável e pensa que pode repetir 2018. Mas o mundo e o Brasil mudaram

O presidente Bolsonaro achou que repetindo o que deu certo em 2018 estaria reeleito em 2022, esquecendo que, entre as duas eleições, ele governou o país revelando o que realmente sempre foi: uma pessoa irresponsável, sem empatia, misógina, incompetente, que não teve sucesso em suas promessas liberais na economia ou no combate à corrupção porque não eram verdadeiras.

Assim como a adesão de Henrique Meirelles impactou setores que temem a volta do ex-presidente Lula, a permanência de Paulo Guedes à frente da economia ainda é uma âncora para a tentativa de reeleição de Bolsonaro. Mesmo que, durante seu mandato, a atuação do Posto Ipiranga tenha ficado abaixo das expectativas. Bolsonaro enganou a todos.

Uns porque achavam que as barbaridades que disse na campanha seriam contidas quando eleito. Falou-se até que os militares em postos-chave no Palácio do Planalto o conteriam em seus arroubos. Mas, como uma vez me disse o general Villas Bôas, Bolsonaro mostrou-se “incontrolável”, e os militares é que foram ou expelidos, ou domesticados por ele.

Outros estavam certos de que, como ele fazia questão de ressaltar, não entendia nada de economia e deixaria Paulo Guedes livre para comandá-la. Nada disso aconteceu. Guedes teve de engolir muitos sapos, aceitar diversas interferências de Bolsonaro, como a isenção dos militares da reforma da Previdência ou os buracos no teto de gastos com fins eleitorais. Diante de todos os reveses que sofreu, a resiliência de Paulo Guedes na defesa da reeleição de Bolsonaro ainda dá ânimo a parte dos apoiadores originais, na esperança de que seja possível fazer num segundo mandato o que não foi feito no primeiro.

Malu Gaspar - A primeira grande batalha de Lula

O Globo

Futuro do orçamento secreto definirá não apenas os primeiros meses de um possível governo do PT, mas a relação do Executivo com o Legislativo nos próximos anos

Ainda faltam alguns dias para a eleição, mas as placas tectônicas de Brasília já se movem na direção do que seus operadores consideram será o novo eixo do poder: a órbita de Luiz Inácio Lula da Silva. Na capital federal, quem entende do riscado já se comporta como se o cafezinho de Jair Bolsonaro estivesse frio.

Para algumas figuras nada bobas do Centrão, do Judiciário e da elite da burocracia estatal, passada a eleição, teremos um presidente diferente. Se depois a aposta não se confirmar, sempre será possível fingir que nada aconteceu enquanto Bolsonaro lutava pela sobrevivência política.

Não é por outra razão que velhos amigos do petismo no Centrão, como os deputados Mário Negromonte (PP-BA), Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) ou Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), voltaram a frequentar gabinetes e restaurantes com emissários de Lula e aos poucos retomam o prestígio dentro de seus partidos.

A questão é que, se não há grandes dúvidas no Planalto sobre os resultados da eleição, há, sim, muita incerteza sobre o dia seguinte, por uma única e bilionária razão: o orçamento secreto. O destino dessa verba definirá não só o rumo dos primeiros meses de um eventual governo Lula, mas toda a relação do Executivo com o Legislativo nos próximos anos.

Míriam Leitão - O sentimento do eleitorado

O Globo

O eleitor julga o candidato à reeleição pelo todo do seu governo, e não por um só momento, seja ruim ou bom. Esse é o maior problema para Bolsonaro

O sentimento do eleitorado está piorando em relação a Bolsonaro. Isso num momento em que os indicadores de inflação, crescimento e emprego melhoram neste trimestre que antecede à eleição. A explicação desse enigma é a de que o eleitor julga o candidato à reeleição pelo todo, e não por um momento, seja ruim ou bom. O reverso dessa situação, que confirma o fenômeno, aconteceu com Fernando Henrique, em 1998. Os meses anteriores à reeleição foram de crise cambial e recessão, mas FHC havia consolidado o Plano Real. O eleitor julgou seu governo como um todo e deu a ele uma segunda chance. Ele venceu no primeiro turno.

Está ocorrendo neste trimestre de julho a agosto uma forte deflação. Ela é resultado, em parte, de manipulação de preços de combustíveis e de energia. Não havia, contudo, afetado os alimentos. Agora, começam a cair os preços também de alimentos e isso será visível no IPCA-15 a ser divulgado na semana que vem. A atividade subiu, puxada por serviços — setor que está mais próximo às pessoas —e o desemprego caiu. Deveria estar melhorando a percepção do governo, pela ligação conhecida entre economia e política. E por que não está?

Luiz Carlos Azedo - Pesquisas refletem disputas na campanha de Bolsonaro

Correio Braziliense

Possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno aumenta a tensão na campanha do presidente, onde o marketing político e a gestão da economia batem de frente e o candidato gera fatos negativos

A 11 dias da eleição, a campanha à reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) vive o momento de maior tensão até agora, em razão da estagnação — e até mesmo de recuo — nas pesquisas de intenção de votos divulgadas nesta semana. Ontem, a da Genial/Quaest mostrava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente, com 44% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Bolsonaro (PL), com 34%. Depois aparecem Ciro Gomes (PDT), com 6%, e Simone Tebet (MDB), com 5%, e Soraya Thronicke (União Brasil), com 1%. Os demais candidatos não pontuaram. O primeiro turno das eleições está marcado para 2 de outubro.

Dez pontos de vantagem não são suficientes para Lula vencer o pleito no primeiro turno. Mas a campanha deflagrada pelo PT e seus aliados em favor do voto útil, com a mobilização de artistas, intelectuais e personalidades da sociedade civil, começa a tirar votos de Ciro e pode também atingir uma parcela de eleitores de Simone. Essa possibilidade aumenta a tensão na campanha de Bolsonaro, onde as disputas políticas estão ocorrendo em duas frentes — o marketing político e a gestão da economia.

Na área do marketing, há praticamente duas campanhas. Uma é comandada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), com apoio do ex-secretário especial de Comunicação Social (Secom), Fabio Wajngarten, e do ministro das Comunicações, Fábio Faria, que não esconde o desconforto com as pesquisas. No começo da semana, questionou os resultados da última pesquisa Ipec (Antigo Ibope), que indicavam Lula com 47% das intenções de voto, 16 pontos percentuais à frente de Bolsonaro, 31%.

Maria Cristina Fernandes - O que teme o eleitor

Valor Econômico

Ao suspender parte dos decretos que liberalizaram armas e munições, Supremo ajudou a tirar o eleitor do armário

Nas duas últimas grandes cartadas da campanha bolsonarista, o 7 de Setembro e o funeral da rainha Elizabeth, Silas Malafaia foi o único personagem, além da primeira-dama, a se fazer presente ao lado do presidente, em ambos os eventos. Esta onipresença explica a investida de Bolsonaro sobre o eleitor que, indetectável nas pesquisas, provoca as surpresas de uma campanha marcada pela ausência de adesivos e bandeiras nos carros, nas janelas e nos muros das casas.

Pastor de um ramo da Assembleia de Deus, maior denominação evangélica do país, Malafaia já foi cabo eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, José Serra, Marina Silva e Aécio Neves. Aproximou-se de Bolsonaro em junho de 2013, na esteira das manifestações, quando o então deputado se engajou contra a lei anti-homofobia.

Malafaia esteve na linha de frente de sua campanha, em 2018, quando Bolsonaro teve 11,6 milhões de votos a mais que Fernando Haddad no eleitorado evangélico (69% x 31%) no segundo turno. Foi um montante superior à diferença total de votos (10,7 milhões) pró-Bolsonaro. Vem daí a centralidade do voto evangélico para a eleição do presidente.

Com o governo em mãos e a percepção de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, buscou se diversificar as razões do voto. Não bastou. Lula está à frente de Bolsonaro entre aqueles que recebem o Auxílio Brasil e o eleitor atribui as medidas do governo na economia à busca pela reeleição.

Maria Hermínia Tavares* - Bolsonaro, o candidato anormal

Folha de S. Paulo

Nada é normal na sua lida para permanecer no Palácio do Planalto

Da sacada da casa do embaixador brasileiro em Londres, o presidente Bolsonaro berrou, para o pequeno grupo de apoiadores aglomerado na rua, que qualquer resultado diferente de sua vitória no primeiro turno seria indício de que "algo anormal aconteceu dentro do TSE".

Mais tarde, em entrevista a um blogueiro simpatizante, repetiu o mote, antecipando o que deverá ser a sua reação em face da derrota que as pesquisas indicam. Se não há por que esperar anormalidades nem na votação nem na contagem eletrônica dos sufrágios, a campanha que as precede reduz a pó o padrão ao qual o país se habituou já lá se vão três décadas.

Bruno Boghossian - Bolsonaro o cabo eleitoral do voto útil

Folha de S. Paulo

Índices de rejeição ao presidente se tornam fator determinante de possível migração de eleitores para Lula

Os índices de rejeição a Jair Bolsonaro se tornaram o fator determinante daquilo que pode ser um movimento de voto útil em Lula no primeiro turno. A consolidação desses números acima do patamar de 50% elevou para o presidente o risco de o eleitor antecipar uma decisão de interromper seu governo.

Além de conquistar ou recuperar votos, Bolsonaro também precisa administrar essas taxas de rejeição para continuar no jogo. O presidente enfrenta um desafio nessa área porque o eleitorado tem mostrado uma resistência firme a seu nome e emitido sinais de sensibilidade a fatos negativos produzidos por ele.

Vinicius Torres Freire - Sinais de virada precoce para um governo Lula 3

Folha de S. Paulo

Antes mesmo da posse, um novo governo terá de fazer alianças e remendar o Orçamento

O voto útil, o risco de alguma violência, de gracinha dos generais fiscais de urna e um par de disputas estaduais são os assuntos deste fim de campanha. Uma debandada precoce para Lula da Silva (PT) começa a surgir na conversa, embora uma decisão já no 2 de outubro ainda esteja no universo do aleatório.

O assunto não é motivado exatamente por adesões tais como a de Henrique Meirelles ao lulismo e de outras figuras simbólicas. Meirelles foi eleito deputado federal pelo PSDB em 2002, presidente do Banco Central de Lula de 2003 a 2008, ministro da Fazenda da "Ponte para o Futuro" de Michel Temer, do MDB "com Supremo, com tudo", de 2016 a 2018, e secretário da Fazenda do tucanato em estado terminal de João Doria, 2019 a 2022.

Meirelles ora está no União Brasil, união instável entre o DEM, o velho PFL, e parte do partido que Jair Bolsonaro alugou em 2018, o PSL. O outro bando de bolsonaristas originais, por assim dizer, foi parar no PL. A enumeração quase caótica dessas siglas não é por acaso.

O assunto da debandada aparece porque, na surdina ou abertamente, há novas adesões a Lula. Há gente do próprio PL, há gente do PSDB que não vê futuro nas ruínas do partido e outros adesistas no União Brasil. Parte do MDB que não aderiu a Lula na primeira leva já "manda sinais". O racha vai ser meio feio, mas parte do PSD de Gilberto Kassab vai aderir a um Lula 3.

Cristiano Romero - “Frente ampla” antevê um Lula mais liberal

Valor Econômico

Apoios de Meirelles e Reali Jr. fortalecem governo de coalizão

Nos últimos dias, interessados em assegurar a derrota do presidente Jair Bolsonaro (PL) já no primeiro turno da eleição, políticos identificados historicamente com a centro-direita decidiram declarar apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). À esquerda de Lula, o candidato Ciro Gomes, por sua vez, está sendo "cristianizado" por correligionários de seu próprio partido, o PDT.

Aos que se surpreendem com a adesão de seções regionais do PSDB à candidatura do petista, não custa lembrar que, quando Geraldo Alckmin se transferiu para o PSB e aceitou ser candidato a vice na chapa de Lula, o significado da aliança foi justamente o de unir, pela primeira vez no mesmo campo político, petistas e tucanos (ainda que, formalmente, o ex-governador tenha se filiado a uma legenda de esquerda, historicamente aliada ao PT).

A 11 dias da eleição, emergiu um senso de urgência na classe política. Marina Silva (Rede) deixou o PT no segundo mandato de Lula na Presidência (2007-2010), inconformada com o "pragmatismo" de Dilma Rousseff no trato das questões ambientais, bandeira histórica cara aos petistas. Na segunda-feira, anunciou apoio entusiasmado a Lula.

A declaração de apoio a Lula do ex-prefeito César Maia (PSDB-RJ), político que ao longo de sua trajetória transitou do brizolismo à centro-direita do DEM (hoje, União Brasil), mostra que vai se tentando formar, na véspera da votação, uma "frente ampla", como talvez nunca se tenha visto na história do país _ pode-se dizer que Fernando Collor foi afastado da Presidência pela maioria absoluta dos partidos com representação no Congresso e que seu sucessor, Itamar Franco, fez raro governo de coalizão.

Pedro Ferreira, Renato Fragelli* - Trabalho precário e promessas eleitorais

Valor Econômico

Problemas sérios são ignorados e políticas sólidas substituídas por expansões irresponsáveis de gastos

Faltando apenas dez dias para o primeiro turno das eleições, o eleitorado brasileiro assiste a uma competição entre os candidatos à Presidência para identificar qual deles é mais criativo em suas promessas irrealizáveis. Em particular, a geração de empregos é tema dominante.

Segundo a Pnad Contínua, no segundo trimestre deste ano a população economicamente ativa (PEA) atingiu 108,4 milhões de pessoas, e a taxa de desocupação, 9,3%. Dos 98,3 milhões de trabalhadores ocupados, a parcela constituída por trabalhadores formais (do setor privado e público) é de 57,4 milhões. Retirando-se os servidores estatutários civis, militares e empregados formais do setor público, chega-se a uma população com ocupação formal no setor privado de 48,3 milhões. Mas como a propaganda eleitoral promete especificamente “empregos”, e não apenas “ocupações”, é preciso retirar também desse último grupo os empregadores formais e os trabalhadores formais por conta própria. Feito isso, conclui-se que existem 37,3 milhões de empregados formais no setor privado, ou seja, apenas 34,4% da PEA.

Conrado Hübner Mendes* - Famintos, mas livres para buscar comida

Folha de S. Paulo

Criança com fome e sem escola resume futuro que Bolsonaro oferece

Muita coisa subiu e caiu no governo Bolsonaro. Muita coisa subiu e caiu por escolha governamental independente das contingências, do STF, das jornalistas, do vírus e do PT. Por opção consciente.

Subiu o superpatrimônio da família adquirido em dinheiro vivo, método de crime organizado; explodiram os supersalários militares, os desvios orçamentários para destinos secretos; subiram os ataques racistas, homofóbicos e neonazistas; subiu a violência contra a mulher. Inventou-se na oficina de criatividade bolsonarista o uso de crianças para incentivar violência armada, e o assédio a criança grávida por estupro, sob ordem de ministra.

Subiram a pobreza, a fome, a população em situação de rua; explodiu o número de armados e o escoamento de armas legais para o crime organizado. Explodiram o desmatamento e o ataque a indígenas. Contrataram o subdesenvolvimento e o colapso climático: dilapidar o maior tesouro da economia do século 21 para investir em economia extrativista e neocolonial.

William Waack – O fosso é mais profundo

O Estado de S. Paulo

Eleições têm poucas chances de resolver ou pacificar profundas divergências políticas

O quadro geral da eleição presidencial mudou apenas em centímetros desde que o STF tirou Lula da cadeia e o tornou elegível. Não houve qualquer abalo sísmico, e cabe se perguntar qual teria de ser o tamanho de um terremoto político para alterar um confronto que, a rigor, é bastante profundo e já escancarado na corrida para a eleição de 2018.

Lamentava-se então (e desde sempre) que o fenômeno da “vassourada bolsonarista” sobre o lulopetismo significava o esfacelamento de qualquer “centrismo” entendido como posturas antagônicas a populismos de “esquerda” ou “direita”.

Como assinala o sociólogo Bolívar Lamounier, não estamos diante de polarização de período eleitoral. Mas, sim, diante de uma “terceira onda de desavenças” só comparável a eventos históricos como o getulismo/antigetulismo ou o período 1961-1964, que levou ao golpe militar.

Eugênio Bucci* - Pop-lulismo

O Estado de S. Paulo

O favoritismo de Lula sobe com o perfil de um movimento cultural, sem adquirir exatamente os contornos formais de uma frente ampla

Mais uma vez, as leis da política perdem a corrida para as leis do entretenimento. Na falta de uma frente ampla articulada por líderes de partidos diversos, com base em acordos programáticos, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva vai crescendo por meio de adesões descosturadas umas das outras, animadas por charges de WhatsApp e dancinhas de TikTok. Não há um pacto organizado, negociado; não há um programa mínimo. O que existe é um “clima” de adesão em cima da hora.

A coisa vem em ondas como o mar, numa empolgação meio carnavalesca. Um dia, Caetano Veloso faz uma declaração de apoio sorridente e cativante. No outro, o ex-ministro Henrique Meirelles, até então fã de João Doria, embarca na campanha do petista. Nesse ínterim, dirigentes do PDT deixam Ciro Gomes falando sozinho e conclamam os eleitores a votar em Lula para liquidar a disputa já no primeiro turno. Um grupo de cantores e cantoras grava mais um clipe que rapidamente viraliza. A conjuntura ganha o embalo de uma corrente festiva, sem plataforma suprapartidária. O favoritismo de Lula sobe com o perfil de um movimento cultural, sem adquirir exatamente os contornos formais de uma frente ampla.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Estadista de fancaria

O Estado de S. Paulo

Em sua viagem à Grã-Bretanha e aos EUA, Bolsonaro confirma sua incapacidade de agir como chefe de Estado e sua dificuldade de respeitar os limites, seja o do decoro do cargo, seja o da lei

Em seu recém-encerrado tour pelo exterior, o presidente da República, Jair Bolsonaro, tinha dois compromissos como chefe de Estado: participar do funeral da rainha Elizabeth em Londres e da abertura da Assembleia-Geral da ONU em Nova York. Esteve nas duas solenidades, mas em nenhuma delas participou efetivamente como chefe de Estado. Usando dinheiro público e a estrutura da Presidência, Jair Bolsonaro não se comportou como representante do Brasil, mas como um líder de facção política, fazendo comícios eleitorais onde se exigia uma conduta de estadista.

Diante de um histórico que inclui a imitação jocosa de um doente de covid com falta de ar, sabotagem do esforço para vacinar os brasileiros, propaganda de remédios ineficazes contra a covid, ofensas a jornalistas (principalmente mulheres), manobra para indicar um filho à Embaixada nos EUA, suspeitas de rachadinha e de lavagem de dinheiro na família, incentivo ao descumprimento da lei ambiental, desgoverno nas áreas da saúde e da educação e ameaça golpista de não reconhecer o resultado da eleição, talvez alguém possa pensar que se trata de um pecadilho a confusão feita por Jair Bolsonaro entre candidato à reeleição e chefe de Estado. Não é.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - E agora José? (Interpretação de Silvio Matos.

 

Música | Zizi Possi e João Bosco - Vida noturna (Aldir Blanc e João Bosco.