sábado, 23 de julho de 2022

Marco Aurélio Nogueira* - Precisamos de uma política de civilização

O Estado de S. Paulo

Neste País carregado de possibilidades, estamos sem governo, há estímulos para a degeneração da convivência e se amontoam os problemas

A nossa é uma época estranha. Todas as épocas talvez sejam assim: quem vive nelas sempre pode ter a sensação do inusitado, de algo que não se manifestou antes. Mas a nossa é paradoxal demais. Encanta e assusta. Confunde, perturba, excita. Parece vazia de esperança e otimismo, como se temêssemos o que nos aguarda à frente.

Há grandes margens de liberdade e autonomia. Podemos escolher como viver a vida. Mas não nos damos conta das orientações que, insidiosamente, valendo-se de algoritmos e estratégias mercadológicas, modulam e padronizam os comportamentos coletivos.

Misturam-se a isso a desinformação induzida e a atuação de líderes autoritários, que minam os valores democráticos e manipulam parcelas importantes da população. Há governantes que governam contra seu povo e outros que combatem o sistema eleitoral de seu próprio país, depois de terem dele se beneficiado.

Vivemos em redes. A cada dia, mais pessoas caem nelas. Redes são prisões ou estradas para a autonomia? Isolam-nos em bolhas e nos roubam do contato com o mundo exterior, alienando-nos? Ou são estratégias de sobrevivência, lugares de fuga de uma realidade sempre mais difícil de ser suportada e compreendida?

Entrevista | Steven Levitsky - Há risco real de autogolpe no Brasil

Marcela Villar e Hugo Barbosa, especiais para o Estadão

A menos de três meses das eleições e com a recente onda de ataques ao sistema eletrônico de votação, há no Brasil a possibilidade de acontecer um episódio semelhante à invasão ao Capitólio, em Washington, nos Estados Unidos, quando apoiadores do ex-presidente Donald Trump ocuparam o Congresso daquele país em janeiro de 2021, após o republicano não ser reeleito. O alerta é do cientista político americano Steven Levitsky, autor do best-seller ‘Como as democracias morrem’. “Bolsonaro parece ter se inspirado no 6 de janeiro”, avalia Levitsky ao Estadão.

De acordo com Levitsky, que também é professor de política em Harvard, construir uma grande coalizão, que envolva partidos de diferentes posicionamentos ideológicos, é fundamental para derrotar autoritários e evitar que a eleição brasileira seja subvertida. “A melhor maneira de fazer isso é por meio de uma ampla coalizão que inclua forças de esquerda, centro e direita”, analisa.

Confira a seguir a íntegra a entrevista concedida ao Estadão.

Demétrio Magnoli - A expressão perdida

Folha de S. Paulo

Insistir no impeachment de Bolsonaro seria o único caminho decente para a democracia

Atônitos, os embaixadores assistiram a um espetáculo singular. Bolsonaro, chefe de Estado, comportou-se como líder de uma seita extremista (de direita ou esquerda) denunciando perseguições eleitorais conduzidas contra ele por um Estado maléfico.

Na sequência, o evento foi alvo de diversas notas críticas assinadas pelo presidente do Senado e pelos demais candidatos presidenciais. Nenhuma delas cravou a expressão precisa: crime de responsabilidade. Nossa democracia cambaleia.

Debati, em 2018, na Casa Folha da Flip, com o intelectual petista André Singer. O impeachment de Dilma ocorrera menos de dois anos antes e Lula encontrava-se preso. Singer sustentou a ideia de que o lulismo esgotava-se numa crise profunda. Discordei, argumentando que o lulismo seguia como alternativa viável de poder. Depois, concordei com a avaliação dele de que repetidos impeachments enfraquecem a democracia.

Acertei ao discordar; errei ao concordar. No fundo, o dilema abstrato não faz sentido. Impeachment é uma das últimas linhas de defesa da democracia: a faca grosseira que, cortando o abuso de poder presidencial, preserva o império da lei. O Congresso nunca avançou rumo ao necessário impeachment de Bolsonaro porque foi comprado pelo orçamento secreto.

Hélio Schwartsman - O cheque em branco do TSE

Folha de S. Paulo

Se quisesse, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderia tornar Jair Bolsonaro inelegível, tirando-o da disputa presidencial. As repetidas invectivas do capitão reformado contra as urnas eletrônicas são, além de falsas, tóxicas, pois representam um ataque ao cerne do sistema democrático, que são as eleições. Mas, mesmo que não fossem tão inapelavelmente democraticidas, o TSE teria como impedir o presidente de concorrer.

A culpa é do Parlamento, que, na Lei de Inelegibilidades, conferiu ao TSE uma espécie de cheque em branco, ao criar as figuras do abuso de poder econômico ou político, que significam qualquer coisa que os magistrados queiram, já que a norma não os define. Apesar dos amplos poderes, a Justiça Eleitoral não costumava interferir muito.

Alvaro Costa e Silva - O presidente que queria ser eterno

Folha de S. Paulo

Para evitar a derrota, solução bolsonarista é sair na porrada

Até as emas do Alvorada sabem... Espera aí, as emas não, estas jamais foram enganadas desde que viram o novo morador do palácio pela primeira vez. Até as colunas do Alvorada sabem que Bolsonaro não aceitará o resultado das eleições. Ele se considera um presidente vitalício. Em seu messianismo cego, costuma dizer: "Quem me colocou aqui foi Deus. Só Ele me tira daqui".

É a maior vocação de golpista já surgida no país. Deputado que vivia fazendo rachadinha e elogiando a tortura em programas de auditório, jamais foi incomodado. Eleito à Presidência —não por Deus, mas pelo voto dos brasileiros nas urnas eletrônicas—, destruiu as instituições e construiu o ambiente corrupto que lhe sustenta as ações criminosas, aliando-se a generais igualmente golpistas, comprando a cumplicidade do Legislativo e silenciando a PGR.

Cristina Serra - O Rio de sangue de Cláudio Castro

Folha de S. Paulo

Morticínio é política de Estado nas sociedades em que não há lugar para todos

Cláudio Castro (PL) já pode ostentar os títulos de rei das chacinas, campeão dos banhos de sangue e governador mais letal da história do Rio de Janeiro. Três dos maiores massacres cometidos por forças policiais no estado ocorreram sob seu comando.

O do Jacarezinho, em maio do ano passado, com 28 pessoas assassinadas; o da Vila Cruzeiro, em maio deste ano, com 25 mortos, e agora o do Complexo do Alemão, com 19 vítimas (até o momento em que escrevo). Castro transformou a carnificina em espetáculo midiático-eleitoral.

Com cinismo nauseabundo, o carniceiro do Palácio Guanabara tentou empurrar a responsabilidade pela matança para Marcelo Freixo (PSB), seu principal adversário na disputa ao governo do Rio, e para "seu partido e aliados que proibiram nossas polícias de enfrentar esses bandidos em determinadas áreas. (...) Mas comigo não tem essa." Uma afronta explícita à decisão do STF, em vigor desde o auge da pandemia de Covid, de que a polícia só realize operações em favelas em situações excepcionais.

Ascânio Seleme - O Brasil voltou no tempo

O Globo

Em 2015, o francês Michel Houellebecq escreveu um livro de ficção em que mostra como seria a França num futuro não muito distante em que a maioria dos eleitores fosse de origem muçulmana e elegesse um líder do seu grupo com muitas das crenças fundamentalistas de seus ancestrais do Oriente Médio. Seria um desastre, claro. O país descrito pelo escritor regrediu no tempo, sobretudo nas áreas de costumes e cultura em razão da nova ordem instalada. “Submissão”, considerado na França como o livro mais polêmico daquele ano, foi coincidentemente lançado em Paris no mesmo dia do atentado à sede do jornal satírico Charlie Hebdo, que resultou em 12 mortes.

Mas o islamismo francês proposto por Houellebecq não se parece em nada com o dos radicais do Estado Islâmico. A transformação da França se dá por dentro, aos poucos, até se consumar. Claro, como toda ficção, o livro não tenta descrever uma nova realidade, mas uma realidade possível, embora improvável. Ainda assim, não se pode negar que há uma lógica no romance. Segundo projeções oficiais, até 2040 a maioria dos eleitores da Bélgica será de origem muçulmana. Muito provavelmente, as cabeças dos jovens muçulmanos belgas de hoje que forem eleitores daqui a 18 anos serão mais arejadas e modernas do que as de seus pais e avós imigrantes, mas ainda assim estarão assentadas na tradição islâmica.

No Brasil de Bolsonaro não foram necessários imigrantes muçulmanos para fazer deste um país mais conservador do que era há quatro anos, do ponto de vista moral, cultural e político. O componente religioso sempre importa numa transformação dessa ordem, e não foi diferente aqui. A comunidade evangélica ajudou a consolidar este quadro de retrocesso no Brasil, mas não é a única responsável. Se fosse um romance, a História do Brasil desde a eleição de 2018 seria mais improvável do que aquela contada em “Submissão”. Mas, por aqui já se pode visualizar as mudanças comportamentais provocadas pelo bolsonarismo.

Pablo Ortellado - Punitivismo de esquerda

O Globo

O sucesso do podcast “A mulher da casa abandonada” produziu um circo midiático. As reações do público mostram uma estranha mistura de sensacionalismo, punitivismo de esquerda e cultura das celebridades na era da internet.

O podcast, produzido pelo talentoso jornalista Chico Felitti, investiga uma mulher misteriosa que habita uma mansão abandonada no bairro de Higienópolis, em São Paulo. A narrativa aos poucos revela que ela é Margarida Bonetti, uma brasileira de classe média alta que se mudou para os Estados Unidos e lá foi acusada, com o marido, de manter a empregada brasileira em condições análogas à escravidão. O marido foi julgado e preso pelo crime, mas ela conseguiu fugir para o Brasil e escapar da Justiça. Em São Paulo, permaneceu na casa da família com poucos recursos, e o imóvel foi aos poucos se deteriorando até chegar ao estado em que se encontra hoje. Como o caso aconteceu há mais de 20 anos, o crime prescreveu.

Eduardo Affonso - O futuro nos condena

O Globo

Quando os veganos dominarem o planeta, quem quer que tenha traçado uma picanha estará no índex dos canceláveis

O telescópio James Webb apresentou um grave defeito antes mesmo de ser lançado ao espaço. Não nas lentes e espelhos (que funcionaram magnificamente), mas no nome. O homenageado é um ex-diretor da Nasa, nascido em 1906, acusado de perseguição à comunidade LGBTQIAP+ nas décadas de 1950 e 1960.

Sim, não basta não ser homofóbico hoje, quando a homofobia é entendida como violação de um direito humano fundamental. É preciso não o ter sido no passado, sob a vigência de outra régua moral. Algo como receber multa retroativa por haver circulado numa rua cuja mão foi invertida. Você não estava na contramão em 1960, mas isso é irrelevante — perde pontos na carteira assim mesmo.

Ricardo Henriques - Aprender por toda a vida

O Globo

Os países devem ofertar uma educação focada na capacidade de aprender a aprender ao longo da vida, não mais vinculada a um emprego ou profissão

Às transformações da economia mundial, soma-se um processo de automação de atividades laborais, que pode extinguir 85 milhões de postos de trabalho até 2025, segundo o Fórum Econômico Mundial. Associada às mudanças da sociedade do conhecimento, isso significa que haverá menos demanda de habilidades e competências manuais, físicas e de cognição básica, e cada vez mais de leitura e análise avançada de dados, comunicação e negociação, criatividade, empatia e adaptabilidade, entre outras.

Para lidar com esse cenário, os países devem ofertar uma educação focada na capacidade de aprender a aprender ao longo da vida, não mais vinculada a um emprego ou profissão. Uma das estratégias é a diversificação do ensino médio, multiplicando e flexibilizando caminhos que levam à educação superior ou diretamente ao mercado de trabalho.

João Gabriel de Lima* - A luta de Maori contra Mr. Krudo

O Estado de S. Paulo

No game Wing, Mr. Krudo espalhou ‘fake news’ nas redes contra o movimento liderado por Maori

A vida não é fácil no planeta Tusor. Seus habitantes pagam por um erro crasso que cometeram nas urnas: eleger um populista. O carismático Mr. Krudo persegue universidades e demais organizações da sociedade civil, assedia jornalistas e espalha mentiras nas redes sociais. Felizmente, jovens como Maori estão atentos. Eles sabem usar ferramentas digitais para identificar “fake news” e desmascarar populistas.

Maori e Mr. Krudo são personagens do game Wing, criado pelo projeto Demos, “Democratic Efficacy and Varieties of Populism in Europe”. O Demos, que reúne professores universitários de todo o continente europeu, criou o conceito de “eficácia democrática” – o conjunto de competências que os cidadãos desenvolvem para participar da vida pública de seus países.

Adriana Fernandes - Bolsa de apostas na Petrobras

O Estado de S. Paulo

Lula, Bolsonaro e Ciro já avisaram que querem mudar a política de preços da estatal

A presidência da Petrobras é sempre um dos cargos mais cobiçados na troca de governo durante o período de transição. Nas eleições deste ano, a escolha ganha contornos ainda mais estratégicos.

Diante dos desafios impostos pela disparada dos preços do petróleo no mercado internacional e da inflação, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, e pela crise de abastecimento na Europa, a escolha passa a ser ainda mais importante na definição da política econômica no início do próximo governo.

A perspectiva é de que o problema dos combustíveis seguirá vivo em 2023. Mesmo que sejam prorrogados a desoneração de tributos e os auxílios extraordinários, como o bolsa-caminhoneiro, estaremos longe de uma solução estrutural.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Atacar as fake News

Folha de S. Paulo

TSE acerta ao enfrentar a desinformação, mas não pode descuidar da liberdade de expressão

Contra a proverbial lentidão da Justiça, o ministro Alexandre de Moraes foi célere no último domingo (17) ao tomar uma decisão provisória a favor do PT, que contestava a divulgação de notícias falsas em redes sociais de bolsonaristas.

Membro do STF (Supremo Tribunal Federal) e próximo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Moraes estava no plantão desta segunda corte quando determinou a remoção de conteúdos que, na sua avaliação, não passavam de mentiras veiculadas com o propósito de prejudicar Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Algumas das notícias derrubadas por prescrição do ministro faziam conexões falsas entre a facção criminosa PCC, o PT e o assassinato de Celso Daniel em 2002, quando era prefeito de Santo André (SP) e filiado ao Partido dos Trabalhadores.

A ordem de Moraes também atingiu postagens que distorciam os fatos para dar a entender que o ex-presidente Lula teria igualado pobres a papel higiênico, ou então que associavam o PT ao nazismo e ao fascismo.

Poesia | Bertolt Brecht - Anos atrás

 

Música | Antonio Nóbrega - Segura no meu braço ( Capiba)

 

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Vera Magalhães - Bolsonaro é seu maior entrave eleitoral

O Globo

Presidente trabalha mais contra sua candidatura que a oposição, que erra ao lhe dar colher de chá

O ato golpista com os embaixadores na segunda-feira e as pesquisas variadas que apontam um estreitamento da diferença entre Lula e Jair Bolsonaro, tanto nacionalmente quanto nos colégios eleitorais mais importantes para definir a eleição, mostram que, hoje, o caos provocado pelo presidente é um entrave maior a suas chances de ser competitivo em outubro que as estratégias da oposição.

Lula e o PT deram uma enorme colher de chá para Bolsonaro se recuperar em diferentes momentos. Na fase mais aguda da pandemia, quando ainda não havia vacina, e o auxílio emergencial deixou de ser pago, e depois, quando ela saiu de sua fase mais aguda.

Enquanto o presidente armava, ao longo dos últimos dois anos, o discurso golpista, com a participação ativa de altos escalões das Forças Armadas, representado pelos dois últimos ministros da Defesa, Lula e o PT preferiram não lhe dar o combate direto, duro, olho no olho, na esperança de que ele seria contido e naufragaria sozinho.

A crença segundo a qual a eleição teria tudo para se decidir no primeiro turno — justamente por esse show de horrores que é o governo Bolsonaro, da emergência sanitária à destruição institucional, passando pela devastação ambiental e pelo desmonte da Educação — levou a um clima de “vamos ganhar a eleição, e amanhã a gente vê o estrago”.

César Felício - A virada é improvável

Valor Econômico

Será muito difícil Bolsonaro repetir a façanha de FHC

O governo acelera as providências para começar em 9 de agosto os pagamentos vitaminados do Auxílio Brasil, carro-chefe de outras medidas assistencialistas como o vale-gás dobrado e os vouchers para taxistas e caminhoneiros. Será portanto na segunda quinzena de agosto, mais ao redor do fim do mês, que será possível aferir a potência política do pacote bilionário em pleno período eleitoral.

A memória do que aconteceu há exatos 28 anos, no Plano Real, está bem viva. A nova moeda foi lançada oficialmente no dia 1º de julho, quando o petista Luiz Inácio Lula da Silva vinha de um Datafolha com 41%, ante 19% de Fernando Henrique Cardoso, aferidos em 13 de junho. No dia 26 de julho o tucano já estava com 36% e o petista com 29%. Em 8 de agosto daquele ano FHC alcançou 41% e Lula 24% e o cenário cristalizou, permanecendo relativamente inalterado até o pleito. Foi uma virada total, da derrota no primeiro turno para a vitória no primeiro turno, em menos de um mês.

E lógico que o impacto econômico na vida do eleitor comum que o Plano Real proporcionou não é comparável com o que o pacote de Bolsonaro terá. E o impacto político? No caso de 1994, houve transferência de voto direta de Lula para FHC. Cada voto que Lula perdia era um a mais no embornal do tucano. Cair cinco pontos portanto para o petista significava uma redução de dez pontos na distância para FHC, e ele caiu muito mais. Em 2022 uma parte do eleitor lulista passará ou voltará a ser bolsonarista? Para que fique claro: pela última pesquisa Datafolha disponível, uma virada se dará se dez pontos percentuais de Lula forem transferidos para Bolsonaro.

José de Souza Martins* - O sentido do bolsonarismo

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Não cuidamos de decifrá-lo, conhecer-lhe a origem, o enraizamento na sociedade, a ação corrosiva contra as estruturas frágeis da democracia, as alianças de interesses antissociais

O Brasil político tem perdido um tempo enorme com assuntos adjetivos da crise pela qual passa o país, tal o complexo cruzamento de realidades sociais e políticas desencontradas que ganharam corpo e visibilidade a partir do dia 1º de janeiro de 2019.

O bolsonarismo vitorioso é consequência do lento agrupamento da diversidade de anomalias e contradições que foram desdenhadas pelos partidos de motivação social. Tornou-se ele um aglomerado de resíduos antidemocráticos da democracia frágil, o negativo que encontrou sua lógica no conjunto de irracionalidades que deu vida à sua política do absurdo. Um sistema criado para assegurar o primado de uma política de crescimento econômico sem compromisso com o desenvolvimento social. Seu objetivo tem sido o de assegurar ganhos de Primeiro Mundo num país de Terceiro Mundo. A explosão da miséria, da fome, do desemprego detonaram esse modelo econômico.

Só lentamente tem conseguido o Brasil político definir como atuar, nas eleições e também depois delas, como uma frente democrática contra o autoritarismo e a herança maldita que dele ficará.

Fernando Gabeira - Discurso de perdedor com ameaça de golpe

O Estado de S. Paulo

Só resta tentativa de golpe para conquistar pela força o que foi perdido em empatia e credibilidade. Missão quase impossível, nos tempos modernos

No momento em que os partidos preparam convenções, o que se espera dos candidatos são discursos sobre seu projeto de governo e o otimismo sobre a possibilidade de vitória.

Bolsonaro está na contramão. Ele reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para fazer um discurso de perdedor, levantando uma série de dúvidas sobre o sistema eleitoral, já amplamente respondidas.

Na verdade, Bolsonaro violentou os fatos muitas vezes. Usou indevidamente um inquérito da Polícia Federal para concluir o que não está nele: a possibilidade de alterar nomes e votos. Mencionou o questionamento do PSDB ao resultado das eleições, sem admitir que o partido ficou satisfeito com a resposta. Afirmou que o sistema não é auditável, quando este é um dos seus atributos, ao lado da segurança e da transparência.

Bolsonaro reuniu os embaixadores para caluniar o sistema eleitoral e alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). É algo que deveria ser punido pelas leis brasileiras, porque isso foi, inclusive, realizado num prédio público e tinha objetivos eleitorais.

Eliane Cantanhêde - Um país fora da casinha

O Estado de S. Paulo

Feminismo é ‘transtorno mental’, gays são ‘desajustados’ e o presidente achincalha o Brasil

O procurador Anderson Santos usou redes institucionais do Ministério Público para cobrar “débito conjugal” e “obrigação sexual” das mulheres com seus maridos e atribuir o feminismo a “transtorno mental”. De que profundezas do atraso e da loucura essa gente está brotando no Brasil, talvez do mundo?

A comparação direta é com o pastor e ex-ministro da Educação (!) Milton Ribeiro, que, antes de disparar um tiro acidental em pleno aeroporto de Brasília e de ser preso por suspeita de negociatas no MEC, declarou ao Estadão que jovens gays são “fruto de famílias desajustadas”. Para um, feminismo é “transtorno mental”. Para outro, homossexualidade é “desajuste”.

Essas posições não são isoladas, são parte de um tsunami que tentam chamar de “conservador”, mas é muito pior e absurdo e está impregnado em setores da sociedade, borbulhando exemplos aterrorizantes.

Luiz Carlos Azedo - PT submerge na campanha de Lula

Correio Braziliense

A ausência da convenção petista não é inédita, aconteceu em 2018, mas, naquela época, ele estava preso. Agora, não, só tem uma explicação: reforçar a imagem de que é o candidato da “frente ampla”

Não tem muita explicação a forma como o PT realizou sua convenção e da federação que lidera, integrada também pelo PCdoB e pelo PV, ontem, para homologar a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. O evento foi realizado a portas fechadas, sem grande divulgação. Após a reunião, Gleisi Hoffmann concedeu uma entrevista coletiva e anunciou a oficialização da chapa Lula-Geraldo Alckmin (PSB). Nenhum dos dois compareceu.

Gleisi choveu no molhado: “A primeira deliberação homologada é a indicação da candidatura à presidência de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência e de vice-presidência de Geraldo Alckmin. A segunda deliberação é a de coligação de PSol, Rede, PV e Solidariedade. A terceira é o número do candidato à presidência da República. Número 13, Lula”, afirmou. O PCdoB já havia tomado a mesma decisão na quarta-feira; resta ainda o PV, que deve se reunir virtualmente para endossar a proposta.

Reinaldo Azevedo - Também o capital contra o golpe

Folha de S. Paulo

Nada fora, acima ou contra as urnas, de acordo com a Constituição

Cobrei neste espaço, na semana passada, que o capital dissesse aos brasileiros se a democracia é um valor universal e inegociável ou se está disposto a flertar com um golpe de Estado. Algo se move. No dia 11 de agosto, a Faculdade de Direito da USP —as históricas Arcadas da São Francisco— reeditarão, em novo contexto, a célebre "Carta aos Brasileiros", de 1977, lida, então, por Goffredo da Silva Telles Jr., em repúdio à ditadura e em defesa do estado democrático e de direito.

Desta feita, trata-se de defender a liberdade já conquistada para que possamos transformá-la em qualidade de vida para os mais pobres, esconjurando as ameaças golpistas feitas pelo presidente da República. Diz a nova carta, de que sou um dos signatários: "Nossa consciência cívica é muito maior do que imaginam os adversários da democracia. Sabemos deixar de lado divergências menores em prol de algo muito maior: a defesa da ordem democrática."

Bruno Boghossian - O voto da geração pós Lula

Folha de S. Paulo

Presidente pede que pais convençam os filhos e diz que garante celular funcionando

Jair Bolsonaro tem um plano peculiar para contornar o mau desempenho de sua campanha entre os mais jovens. Em dois eventos na semana passada, ele pediu que os pais tentem convencer os filhos a votarem nele, não em Lula. Como argumento, o presidente insinuou que o petista vai limitar o uso de redes sociais.

"É chegar para o mais jovem e falar: 'Olha, quem está garantindo o teu celular funcionar é o presidente. Será que do outro lado alguém quer controlar a mídia?'. É só mostrar para o garoto", afirmou Bolsonaro, durante um encontro da Assembleia de Deus em Juiz de Fora (MG). "Falem para os filhos de vocês."

Vinicius Torres Freire - Inflação ainda está bem viva

Folha de S. Paulo

Preços das commodities até compensa carestia do dólar, mas há outros problemas

O real voltou a ser uma das moedas mais desvalorizadas do mundo, seja em relação a um ano ou ao início da epidemia. Foi-se a melhora surpreendente que se viu de janeiro a abril (dólar a R$ 4,76, na média de abril, ante R$ 5,41 na última semana). Pegamos um dos bondes da desvalorização quase mundial em relação ao dólar, mas pegamos aquele que corre mais ladeira abaixo, quase como de costume.

A diferença agora é que, no que diz respeito a inflação, a resultante poderia não ser tão ruim, por um lado (o lado de preços de commodities). Mas a pressão inflacionária pode vir de outro lugar.

O preço de commodities relevantes, grãos básicos, açúcar, ferro e cobre, carnes e mesmo o do petróleo, por exemplo, passou a cair em ritmo que compensa a carestia do dólar no Brasil. Em reais, apenas o preço do barril do petróleo está mais caro (muito mais caro) do que no início do ano, por exemplo. É bom, mas é ruim: é medo ou sinal de recessão global.

Naercio Menezes Filho* - Dificuldades na área social

Valor Econômico

Agora, além de não resolver problemas crônicos, andamos para trás nas áreas em que havíamos avançado

Tivemos muitos problemas na área social nos últimos anos. Avanços importantes obtidos nas últimas décadas estão em risco pela falta de políticas públicas adequadas para enfrentar os efeitos da pandemia. O que poderemos fazer para reverter esta situação no futuro?

Vários avanços institucionais e políticas públicas foram construídos nos últimos 30 anos no Brasil. Estabilizamos a inflação, construímos uma rede de proteção social, universalizamos o acesso ao ensino fundamental, criamos o Sistema Único de Saúde e os programas de transferência de renda e democratizamos o acesso ao ensino superior. Foram criados institutos e políticas de proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas. Isto fez com que a desigualdade e a pobreza declinassem continuamente no período e que a situação das minorias melhorasse.

Claudia Safatle - Situação fiscal: governo e mercado divergem

Valor Econômico

Em um país com risco fiscal crescente a dívida não tende a cair

O Brasil deve fechar o ano com superávit primário nas contas do governo central, o que não ocorre desde 2013, e no consolidado do setor público. Mas, ainda assim, há uma desconexão entre as expectativas do mercado e os dados reais da política fiscal.

No Ministério da Economia, atribui-se essa desconexão a “sinais misturados” entre o que está ocorrendo no mundo, sobretudo nos países da Zona do Euro e nos Estados Unidos, que estão, agora, sob aperto monetário, e os indicadores domésticos.

Quando, nas conversas dos economistas oficiais com os do setor financeiro, alguém argumenta, por exemplo, que o Credit Default Swap (CDS) do Brasil, um titulo que funciona como indicador de risco de crédito de um país, piorou, ouve-se que sim, mas que piorou menos do que os dos demais países emergentes. E assim trava-se uma tentativa de persuasão.

Flávia Oliveira - Epidemia de brutalidade

O Globo

As estatísticas confirmam o que os casos tornados públicos diariamente já sugeriam

É das leituras mais dolorosas da robusta edição 2022 do Anuário Brasileiro da Segurança Pública o capítulo sobre violência de gênero. As estatísticas confirmam o massacre que os casos tornados públicos diariamente já sugeriam. Num dia, uma menina de 11 anos vítima de estupro tem cerceado o direito ao aborto legal, tanto pelo sistema de saúde quanto por autoridades judiciais. Noutra noite, uma equipe de enfermagem flagra o abuso de um anestesista a uma parturiente em pleno centro cirúrgico. Em cinco dias de julho, no Grande Rio, três casos bárbaros de feminicídio. Mais uma semana, e um procurador do Ministério Público Federal trata, em mensagens no grupo de colegas, o feminismo como transtorno mental e evoca a ideia de débito conjugal para subtrair das mulheres o direito ao sexo consensual.

Bernardo Mello Franco - Voto nulo larga na frente na eleição do Rio

O Globo

Se disputa fosse hoje, Cláudio Castro e Marcelo Freixo seriam vencidos pelo candidato "Ninguém"

Depois de ter cinco ex-governadores presos e um cassado, o Rio escolherá em outubro o próximo inquilino do Palácio Guanabara. Até aqui, a disputa só despertou o interesse dos políticos. De cada dez eleitores, quatro pretendem anular o voto ou ainda não sabem quem escolher.

Se a eleição fosse hoje, o vencedor seria o candidato “Ninguém”. Nulos, brancos e indecisos somam 39%, informou ontem o Ipec. Depois aparecem Cláudio Castro, com 20%, e Marcelo Freixo, com 14%. Os dois estão tecnicamente empatados no limite da margem de erro.

Na pesquisa espontânea, em que não é apresentada uma lista de concorrentes, a apatia é ainda maior: 72% dos eleitores não sabem ou não querem apontar um candidato. Isso indica um cenário indefinido, aberto a surpresas e reviravoltas.

Pedro Doria - Bolsonaro questiona urna eletrônica por má-fé

O Globo

O principal ponto que garante a segurança da votação é que, apesar de tudo ser digital, nada ocorre na internet

Todo ano de eleição, nós, jornalistas, arranjamos algum jeito de produzir algo que seja explicando como funciona o sistema de votação brasileiro. No jargão das redações, é uma “matéria de serviço”. Sua utilidade é ajudar o eleitor a se nortear no dia do voto. É para que ele entenda o processo. Neste ano, explicar como funcionam a urna e a contagem dos votos, porém, não é mero serviço. É uma defesa ativa da democracia. E, sim, nosso sistema está entre os mais seguros e eficientes do mundo.

O principal ponto que garante a segurança da eleição brasileira é que todo o processo, apesar de digital, não ocorre na internet. Nem as urnas nem os computadores que contam os votos estão na grande rede. Em seu discurso, o presidente Jair Bolsonaro se aproveita de conceitos pouco compreendidos para deixar as pessoas inseguras. Confusas. A ação é de clara má-fé. O presidente da República mente, mente acintosamente, mente sabendo que está mentindo.

Rogério F. Werneck - A cada reeleição, nova devastação

O Globo

Estragos já constatados compõem um quadro assustador de demolição institucional

Mal refeito da devastação que Dilma Rousseff se permitiu perpetrar, para se reeleger em 2014, o Brasil se vê mais uma vez assolado pela sanha devastadora de um presidente irresponsável, disposto a se reeleger a qualquer custo, como se não houvesse amanhã. Não há país que aguente a recorrência de devastações de tais proporções, a cada oito anos.

Embora só faltem cerca de 70 dias para as eleições, os danos mais graves do desastroso projeto de reeleição de Bolsonaro ainda parecem estar por vir. Mas os estragos já constatados compõem um quadro assustador de demolição institucional.

Do ponto de vista estrito da política econômica, já no final do ano passado, o governo escancarou seu descompromisso com a preservação do regime fiscal. Alarmado com seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto, o presidente não relutou em promover injustificável calote de dívidas judiciais e uma mudança oportunista na regra de correção do teto de gastos, para viabilizar, às pressas, a concessão do Auxílio Brasil e outras expansões de dispêndio, em 2023.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

À vista de todos

Folha de S. Paulo

Suspeitas na Codevasf e no FNDE são vazamento em duto de dinheiro que une Bolsonaro e o centrão

A Polícia Federal fez uma operação para buscar provas de crimes nos contratos entre a empresa Construservice, possíveis laranjas e a Codevasf. O valor dos negócios dessa empreiteira com o governo avançou como nunca no governo de Jair Bolsonaro. O valor da estatal para os negócios do centrão com o presidente da República também.

A Codevasf faz parte do acordo por meio do qual Bolsonaro entregou ao centrão parte maior do Orçamento, controle de estatais e fundos públicos em troca de proteção. Em tese uma estatal, é na prática uma agência governamental estruturada como uma companhia a fim de facilitar o repasse de recursos para obras de infraestrutura no interior pobre do país, pois sujeita a menos procedimentos burocráticos. E como facilita.

A empresa é um escoadouro de verbas para pequenas obras e compras de máquinas. O dinheiro escorre por meio de emendas parlamentares obscuras, determinadas sem critérios técnicos de prioridade e eficiência.

A Codevasf é controlada por União Brasil e o PP, assim como o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, o FNDE, por PP, PR e PL —o centrão. O FNDE é a agência de repasse da maior parte do dinheiro do Ministério da Educação ao ensino básico, canalizado também por meio de sugestões de pastores indicados por Bolsonaro. Na Saúde, há esquema parecido.

Livro | Convite | Lançamento - Cristovam no Rio de Janeiro


Poesia | Fernando Pessoa - Tabacaria

 

Música | Marisa Monte - Feliz, alegre e forte

 

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Luiz Werneck Vianna* - Os gansos do Capitólio e nós

O negacionismo, seja lá o que isso for, é marca registrada desses tempos de governo Bolsonaro em sua revolta permanente contra os fatos, nega-se a pandemia com seu cortejo fúnebre de mais de 650 mil vítimas, as virtudes do direito social e do próprio direito como conquista civilizatória em nome de uma liberdade irrestrita dos indivíduos no espaço social em guerra entre si, a questão ambiental cuja degradação contínua ameaça a sobrevivência da espécie, e entre os mais afoitos, até a forma esférica da terra. Trata-se, na verdade, de uma ação combatente contra a razão e a ciência, típica do irracionalismo fascista com seu culto à supremacia da vontade na instituição da vida social. Noutras palavras, recusar realidade empírica a essa coisa tida por sociedade, pois quem sabe faz a hora, não espera acontecer, alardeia o voluntarismo político.

Sob essa sinistra orientação, nega-se a lisura do processo eleitoral realizado por urnas eletrônicas, prática usual bem-sucedida entre nós, coincidente com várias pesquisas eleitorais que apontam a vitória oposicionista por larga margem de votos, e se urde no preparo do que em linguagem popular significa melar a apuração eleitoral, possivelmente com o concurso de ações criminosas por parte de esbirros milicianos. O golpe está sobre a mesa disponível para o uso.

O cometimento desse ultraje que se premedita é de gravidade inaudita, e, caso ocorra, poderá suscitar um amplo movimento de indignação, nacional e extramuros. Na eventualidade, é preciso atentar para os cálculos dos estrategistas do golpe que contam com um tumulto superveniente para desferir o movimento desde sempre desejado, a restauração, remodelada, aqui e ali, do regime do AI-5.

Merval Pereira - Punição necessária

O Globo

Nada acontecer é como estarmos numa aparência de democracia, onde o autoritário de plantão faz o que quer

O presidente Bolsonaro confirmou a avaliação de que ele é seu principal opositor. Na patacoada que protagonizou no Palácio da Alvorada diante de embaixadores, parecia um líder da oposição numa daquelas repúblicas bananeiras que reprimem e impedem adversários de se pronunciar publicamente. Falava contra seu próprio país na função de presidente da República, com o desembaraço de quem acusava a oposição de tentar impedir sua vitória nas urnas em outubro.

Falava ao lado de líderes militares da reserva que pareciam garantir sua manifestação ao mundo para o caso de o palácio onde mora ser invadido. Só que os inimigos imaginários de Bolsonaro fazem parte da mesma estrutura de poder a que ele pertence, como chefe de um deles, o Executivo. Os ataques ao Judiciário soaram ainda mais desajustados quando disse que o fazia para defender a democracia. E que ela dependeria da ação mais aprofundada dos militares junto aos tribunais eleitorais.

Míriam Leitão - Bolsonaro fracassa mas risco continua

O Globo

Presidente atirou contra a democracia brasileira, mas a bala voltou-se contra ele mesmo

O presidente Jair Bolsonaro fracassou totalmente na sua investida contra as urnas eletrônicas. Recebeu de volta uma saraivada de reações fortes vindas de todas as áreas. As diversas notas do Ministério Público deixaram o procurador-geral, Augusto Aras, isolado e com a obrigação de responder à notícia-crime feita pelos seus colegas. O comunicado do governo americano, elogiando o sistema eleitoral brasileiro, deu o tom do ceticismo com o qual as acusações sem provas de Bolsonaro foram recebidas nas embaixadas de países com governos democráticos. A nota conjunta de delegados e peritos da Polícia Federal tirou dele o argumento de que a PF tinha constatado fragilidades no sistema eleitoral. O comunicado dos servidores da Abin mostrou que ele ficou quase totalmente sozinho nesse “putsch” do Alvorada.

Vera Magalhães - Recado dos EUA é direto para as Forças Armadas

O Globo

Nota e manifestação do porta-voz destacam necessidade de instituições seguirem papel constitucional

Tanto a nota da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil quanto a declaração do porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, reiterando a confiança do governo norte-americano no processo eleitoral brasileiro têm outro destinatário direto, além de Jair Bolsonaro: as Forças Armadas brasileiras.

Escaldado em tentativas da nova extrema-direita de tumultuar a democracia e contestar o resultado de eleições graças ao que Donald Trump promoveu internamente, o governo Joe Biden sabe que o apoio militar a aventuras deste tipo é a chave para o maior ou menor grau de risco de ruptura democrática.

Por lá, os militares foram firmes em deixar Trump falando sozinho quanto ao questionamento do resultado das eleições e o incentivo a atos como o que culminou na invasão do Capitólio.

Ao reiterar a expectativa de que as eleições ocorram de forma justa, livre e confiável, "com todas as instituições agindo conforme seu papel constitucional", o governo Biden comunica aos militares que o resultado das eleições será prontamente reconhecido por Washington.