segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Fernando Gabeira - A emoção num museu de grandes novidades

O Globo

Suspeito que o próximo passo será criar CPI numa tentativa de jogar a culpa do quebra-quebra do 8 de Janeiro nos adversários

Um dos traços que tornam diferente o Brasil de hoje é o comportamento diante das eleições. No passado recente, divulgado o resultado, todos, vencedores e vencidos, voltavam para suas atividades cotidianas e iam pensar no assunto quatro anos depois.

Nesta semana, a disputa no Senado representou mais um turno de um confronto interminável. A extrema direita perdeu, mas tem uma incrível capacidade de racionalização. As derrotas são transformadas em vitória, e logo inventarão uma nova luta.

Suspeito que o próximo passo será criar uma CPI numa tentativa de jogar a culpa do quebra-quebra de 8 de Janeiro nos adversários. Dirão que petistas infiltrados foram os responsáveis, com a cumplicidade do governo federal. É um pouco a tática de culpar a vítima pela violência que se comete contra ela.

Edu Lyra - O Estado contra a pobreza

O Globo

Poder público precisa se abrir às experiências de ONGs e demais entidades que vêm revolucionando o combate aos problemas sociais

Uma andorinha só não faz verão, diz a sabedoria popular. O mesmo vale para a área social: iniciativas pontuais de combate à pobreza melhoram a vida de um grupo de pessoas, mas não têm a escala necessária para enfrentar nossos problemas estruturais.

O que fazer para que um programa desenvolvido no terceiro setor fique mais abrangente e impacte um número maior de comunidades?

A Gerando Falcões desenvolve há cerca de dois anos o Favela 3D — Digna, Digital, Desenvolvida. O cerne do programa é encarar a pobreza da favela como um fenômeno complexo, multidimensional, que, portanto, requer soluções simultâneas para vários problemas, do desemprego ao saneamento básico, da capacitação profissional à regularização dos imóveis. Trata-se de criar, em parceria com a própria favela, uma trilha para a dignidade, um modelo de ação que não se limite a amenizar a pobreza, mas que almeje derrotá-la.

Demétrio Magnoli - A fronteira ianomâmi

O Globo

Criminalidade amazônica conta com poderosos escudos políticos

 ‘Fazer a América’ — era essa a expressão empregada na América Portuguesa para a pilhagem de recursos naturais conduzida pelos colonos. O governo Bolsonaro removeu uma frágil linha de defesa que circundava a Terra Yanomami. Os garimpeiros estão lá “fazendo a América” — como fazem outros garimpeiros, madeireiros, evangelizadores, traficantes de drogas e armas nas vastidões amazônicas.

O Brasil moderno nasceu de sucessivas expansões da fronteira econômica. Na segunda metade do século XX, após a Marcha para o Oeste que culminou com a construção de Brasília, a Amazônia converteu-se na derradeira fronteira. “Integrar para não entregar” — sob o lema de curiosos tons “antiimperialistas” da ditadura militar, ondas de colonos nordestinos e sulistas deslocaram-se para o sistema de florestas e campinas equatoriais. Naquela hora, os povos indígenas começaram a ser exterminados.

Bruno Carazza* - Reconstrução e União, ou sem brigas por favor

Valor Econômico

Lula indica pouca ambição em suas prioridades para 2023

O jogo começou. Empossados os novos (e velhos) parlamentares e (re)escolhidos os presidentes da Câmara e do Senado, o ano político de 2023 iniciou-se oficialmente na quarta-feira (1/2).

Seguindo o protocolo, Lula enviou ao Congresso uma Mensagem Presidencial apresentando suas prioridades para o ano. O documento está estruturado em três partes: uma saudação inicial, um capítulo apresentando seu “Programa de Reconstrução e Transformação do Brasil” e o relatório da Equipe de Transição sobre o estado em que receberam o país de Bolsonaro.

Sergio Lamucci - Com ataques ao BC, Lula dificulta o próprio caminho

Valor Econômico

Críticas seguidas do presidente pioram as expectativas de inflação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu intensificar as críticas à autonomia do Banco Central (BC) e ao nível dos juros e das metas de inflação. Num cenário de desaceleração da economia, é possível que os ataques de Lula e de outros líderes petistas à autoridade monetária se ampliem, seguindo uma estratégia surrada e contraproducente. Lula já colheu uma piora significativa das expectativas de inflação e uma alta expressiva dos juros futuros, o que deteriora as condições financeiras. O resultado tende a ser o adiamento do início do ciclo de cortes da Selic, afetando as perspectivas de retomada da atividade econômica.

Carlos Pereira - Juiz forte é a crença dominante

O Estado de S. Paulo.

A sociedade tem preferido um Judiciário forte e discricionário mesmo com riscos

Desde o julgamento do mensalão, observa-se um crescente protagonismo do Judiciário, especialmente do STF, na política. Com tal protagonismo, surgem também controvérsias sobre os limites da atuação “política” dos juízes. A maioria das interpretações desse comportamento proativo tem se concentrado na atuação individual de alguns juízes, como Joaquim Barbosa (mensalão), Sérgio Moro (Lava-Jato) e, atualmente, Alexandre de Moraes.

Em que pese as características individuais dos juízes serem relevantes, ofereço uma interpretação institucional da grande latitude de poderes que juízes alcançaram ao longo dos anos. No livro “Deliberate Discretion? The institutional foundation of bureaucratic autonomy”, John Huber e Charles Shipan investigam como legisladores elaboram estrategicamente as regras do jogo para que os resultados das políticas sejam consistentes com seus interesses.

Marcus André Melo* - O drama do país

Folha de S. Paulo

Na armadilha do mau equilíbrio, crescerá a percepção de conluio rentista

"A escolha do presidente da República continua a constituir o maior drama do país, seu único drama", argumentava Hermes Lima em 1955. E concluía: sob o presidencialismo, "crises de governo são, por definição, crises do Executivo". Sim, a eleição presidencial é o drama por que passamos no momento.

Futuro primeiro-ministro em nossa experiência parlamentarista, chefe da Casa Civil e juiz do STF, Lima foi fino analista do presidencialismo brasileiro. Ele apontava então algo estrutural: "Ao tratar de escolher o presidente, o país entra em estado de alarma e de confusão. Por quê? Porque o que se vai escolher é um ditador legal, uma fonte de poder político irresponsável, o homem no qual se encarnará, segundo Rui, o poder dos poderes, o grande nomeador, o grande contratador, o poder da bolsa, o poder dos negócios, o poder da força".

Lygia Maria - Fake news estatal

Folha de S. Paulo

Não é função da EBC servir a interesses político-ideológicos do governo

O futuro presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), jornalista Hélio Doyle, disse em entrevista para a Folha que, se depender dele, os veículos da organização tratarão o impeachment de Dilma Rousseff (PT) como "golpe".

Em matérias opinativas, não há problema. Afinal, o evento gerou análises divergentes. Contudo, no noticiário factual, é um erro técnico.

O jornalismo é um processo de conhecimento, assim como a ciência, e mantém com ela semelhanças e diferenças. Ambos se baseiam em métodos profissionais que visam à aproximação mais objetiva possível da verdade —e objetividade tem a ver com o método, não com o sujeito.

Ana Cristina Rosa - "Assunto de preto"?

Folha de S. Paulo

Quando se trata de punir racismo, país tem improvisação e pouca efetividade

A esmagadora maioria festejou, mas confesso que fui tomada por uma sensação de estranhamento em relação à euforia quanto à sanção da Lei 14.532/2023, em janeiro.

O dispositivo alterou a legislação sobre crime racial e o Código Penal para tipificar a injúria racial como racismo e determinar penas de suspensão de direito em caso de o crime ser praticado no contexto de atividade esportiva ou artística, além de penalizar o racismo religioso, o recreativo e o praticado por funcionário público.

Num país onde a intolerância com religiões de matriz africana é crescente, pareceu esquisito que alguns dos principais problemas relacionados ao chamado "racismo religioso" não tenham sido contemplados. Temas como incitação ao ódio, indução à violência, ataques a templos, agressões físicas e constrangimentos a crianças nas escolas ficaram de fora.

Além disso, considerando o fato de que os problemas dos brasileiros, em geral, estão muito mais associados à insuficiência na aplicação do arcabouço legislativo existente do que à sua escassez, é possível que muito pouco ou nada se altere na prática.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Está na hora de rever os absurdos da Lei Eleitoral

O Globo

Depois de campanha marcada por reclamação de excessos do TSE, é preciso revisar legislação anacrônica

A campanha eleitoral foi marcada por reclamações de excessos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Com o objetivo de combater a desinformação, a Corte determinou suspensão de contas em redes sociais ou exclusão de conteúdos. Chegou a conceder direito de resposta ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, alvo de expressões e opiniões em comentários da rede Jovem Pan, acusada de desrespeitar o princípio da Lei Eleitoral que proíbe tratamento privilegiado (a emissora ficou sujeita a multa em caso de reincidência). A reação imediata foi tachar o TSE de censor.

Todas as ações do TSE foram tomadas com base na lei eleitoral vigente, apesar de a Constituição, num antídoto contra a censura, garantir a liberdade de expressão em termos quase absolutos. O início da nova legislatura é um bom momento para o Congresso examiná-la e rever os pontos estranhos a outras democracias — tanto naquilo que ela impõe quanto no que omite.

As eleições são o único momento em que não existe liberdade plena de informação e expressão no Brasil, ao contrário do que manda a Constituição. Com base numa visão paternalista, os legisladores impõem que a Justiça Eleitoral tome decisões que limitam a cobertura jornalística. Como resultado, os veículos de comunicação não têm segurança jurídica para exercer seu papel editorial de forma livre, privando o eleitor de informações, análises e opiniões úteis. Haverá sempre o risco de veículos agirem de má-fé, deixando de praticar jornalismo para fazer propaganda política. Noutras democracias, cabe ao público separar o que presta. Talvez a nossa ainda seja jovem, mas legisladores deveriam evitar formas draconianas de combater o mau jornalismo.

Poesia | Para viajar basta existir - Fernando Pessoa

 

Música | Escuta Boêmio - Coral Edgard Moraes e Getúlio Cavalcanti

 

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Entrevista | Barbara Walter: ‘Os cidadãos não podem ficar à parte e esperar que a democracia sobreviva sozinha’

Referência em estudos de extremismo, Barbara Walter diz que declínio da democracia começou com ascensão das redes sociais e dos algoritmos e que instituições e sociedade civil fortes contêm arroubos autoritários

Por Thayz Guimarães / O Globo

À medida que as democracias recuam e os cidadãos se tornam mais polarizados, as guerras civis se tornarão ainda mais generalizadas e durarão mais do que no passado. Esta é a premissa do novo livro da cientista política Barbara Walter, “Como as guerras civis começam — e como impedi-las” (Zahar), que vem sendo comparado pela crítica ao best-seller “Como as democracias morrem”, de Daniel Ziblatt e Steven Levitsky.

Em entrevista ao GLOBO, Walter, que é professora de Assuntos Internacionais na Escola de Política e Estratégia Global da Universidade da Califórnia e uma referência internacional nos estudos sobre violência política e terrorismo, falou sobre o declínio das democracias em todo o mundo, mídias sociais, algoritmos, ascenção da extrema direita, Donald TrumpJair Bolsonaro e a cartilha seguida por eles, e também indicou caminhos para as sociedades fugirem das armadilhas antidemocráticas.

Alessandro Janoni* - As diferenças das peças do mosaico no eleitorado

O Globo

É urgente a compreensão dos vetores de composição da opinião pública para diagnóstico dos pontos de ruptura

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, propôs um pacote antigolpismo que vai da criação de guarda nacional no Distrito Federal à aplicação de multas contra redes sociais e a leis mais duras no combate a atos antidemocráticos, como os que ocorreram em Brasília em 8 de janeiro. Vigiar e punir, como ensina o filósofo.

No entanto a principal vacina, o ministro já tinha aplicado nas primeiras declarações depois do episódio. Dino se preocupou em não generalizar o perfil dos envolvidos e deixou claro que se tratava de um grupo minoritário, não representativo de eleitores de Jair Bolsonaro (PL).

A fidelidade ao ex-presidente alcança em média 15% dos brasileiros, segundo escala elaborada pelo Datafolha. É um estrato que adere à maioria das pautas reacionárias ostentadas pelo bolsonarismo radical. Em percentual, parece pouco, mas, projetando sobre o eleitorado, o contingente totaliza cerca de 20 milhões de pessoas.

Luiz Carlos Azedo - Três fatos, o rastro e a motivação dos golpistas

Correio Braziliense

Bolsonaristas exibiram músculos suficientes para abrir uma CPI no Senado sobre os fatos ocorridos em 8 de janeiro, com propósito de intimidar o ministro Alexandre de Moraes

A denúncia do senador Marcos Do Val (Podemos-ES) de que teria se reunido, na Granja do Torto ou no Palácio do Alvorada, com o presidente Jair Bolsonaro e o ex-deputado Daniel Silveira, que está preso, para tratar de uma operação de inteligência na qual gravaria uma conversa comprometedora com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, a fim de afastá-lo das funções, parece um conto de carochinha, mas não é. Três episódios são objetivos para justificar uma grande investigação: primeiro, a troca de mensagens por celular entre Do Val e Silveira; segundo, o encontro com Bolsonaro e Silveira; terceiro, o relato feito do Do Val ao ministro Moraes, na sede do próprio Supremo.

Dorrit Harazim - Haja paciência!

O Globo

A sanha da extrema direita em brecar o governo Lula 3 já deu sinais suficientes de que rondará Brasília enquanto não for cortada sua raiz

 ‘Nossa época é essencialmente trágica, por isso recusamo-nos a ver nela a tragédia. Mas o cataclismo já aconteceu; estamos entre ruínas, começamos a reconstruir pequenas casas, refazer pequenas esperanças. O trabalho é árduo: o caminho para o futuro não será tranquilo. Apesar de tudo, damos a volta, arrastamo-nos sobre as pedras. Só nos resta viver, não importa quantos céus tenham caído.’ Assim começa o primeiro parágrafo do clássico de D. H. Lawrence “O amante de Lady Chatterley”, lançado em 1928 e proibido até 1960. A obra tratava de sexo e traição de modo explícito demais para a época, mas poderia servir para retratar o estado atual da nação brasileira. São muitos os céus que caíram e não param de cair sobre o país.

Elio Gaspari - A rede Americanas foi depenada

O Globo

Bem remunerados, diretores venderam R$ 244 milhões em ações da empresa no segundo semestre de 2022. A discussão sabia-não-sabia irá para os tribunais, a menos que ocorra uma trégua simulada

Com todo mundo brigando com todo mundo, é possível que a encrenca da rede varejista Americanas caminhe para uma falsa trégua. Seguiria o ensinamento do grande sambista Morengueira em seu “Piston de Gafieira”:

“Quem está fora não entra

Quem está dentro não sai.”

Apareceu um rombo estimado em mais de R$ 40 bilhões e, salvo o executivo Sérgio Rial, que ficou alguns dias à frente da empresa, tocou o alarme e afastou-se do cargo, ninguém sabia de nada.

O trio de grandes acionistas (Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles) informaram que “jamais tivemos conhecimento e nunca admitiríamos quaisquer manobras ou dissimulações contábeis na companhia”. A auditora PwC e os bancos que davam crédito à rede nunca tocaram o sino. Os responsáveis diretos pela administração da empresa ao longo dos últimos anos estão calados. Ninguém sabia de nada, mas o espeto vai também para fornecedores de mercadorias.

Eliane Cantanhêde - Não se salvam todos

O Estado de S. Paulo.

Generais antes tão admirados agora correm o risco de virar alvo e sofrer quebra de sigilo

Entre mortos e feridos, não se salvaram todos na investida do ex-presidente Jair Bolsonaro para usurpar a imagem das Forças Armadas, triturar biografias e embolar nomes de militares das mais altas patentes com os de gente da estirpe de um Daniel Silveira e de um Marcos do Val, golpistas de chanchada.

O que faziam no time desses tipos, e de figurinhas religiosas carimbadas, o general Augusto Heleno, o almirante Flávio Rocha e o tenente-coronel Mauro Cid? Alunos “nota 10” nas academias militares, desprezaram o próprio brilho e deslizaram para um pântano perigoso, ao lado dos generais Walter Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Paulo Sérgio Nogueira.

Uns mais, como Heleno e Braga Netto, outro menos, como Ramos e Paulo Sérgio, entram no alvo de investigações e suspeitas sobre conluios nada a ver com o “Deus, Pátria e Família” que atraiu milhões de pessoas, jogou milhares em torno de quartéis e justificou o vandalismo nos três Poderes. Rocha escapa.

Celso Rocha de Barros -Marcos do Val entregou Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Não será difícil perceber que a imagem final do quebra-cabeça será do ex-presidente tentando um golpe

O senador Marcos do Val (Podemos-ES) entregou à revista Veja conversas com o ex-deputado Daniel Silveira, de dezembro do ano passado. Nas conversas, Silveira lhe propõe participar de um golpe de Estado, coordenado por Jair Bolsonaro (PL) e mais quatro "pessoas muito importantes e relevantes", "cinco estrelas".

A tarefa de Marcos do Val seria tentar gravar uma conversa com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. Silveira afirma que "escutas utilizadas pelas operações especiais" e "veículo receptor" já estariam disponíveis para a execução do plano.

Vinicius Torres Freire - O plano Lula para endividados

Folha de S. Paulo

Programa talvez comece em março, mas ainda há dúvidas sobre como vai funcionar

Na semana que vem, Luiz Inácio Lula da Silva deve receber um projeto do Desenrola, o programa que tem como objetivo diminuir o valor de dívidas de pessoas inadimplentes, "negativadas" ou, como se dizia em tempos incorretos, "com o nome sujo na praça".

Como pode funcionar? Falta saber de detalhes práticos, ainda indefinidos ou sobre os quais gente do governo e de bancos não fala.

O programa vai permitir que endividados renegociem seus débitos, por sua conta? Não é bem assim.

Para entender o jeitão da coisa, considere-se a seguinte hipótese genérica. Bancos, varejistas e empresas de água, luz, telefone ou internet, por exemplo, têm dívidas atrasadas a receber de seus clientes (três quartos das dívidas atrasadas estão fora dos bancos, diz o governo).

Muniz Sodré* - O crime pede respeito

Folha de S. Paulo

Invasora detida em Brasília queixou-se: "Estão nos tratando como presos"

São numerosos os dados sobre pessoas com antecedentes criminais nos atos terroristas. Só o acampamento em Brasília registrou 73 delitos (lesões corporais, furtos) em dois meses. Não será por acaso que, em atentados ultradireitistas nos EUA, se registrem indivíduos com gravames penais. Entre trumpistas e seus êmulos brasileiros medeia um oceano de coincidências significativas tecidas pela relação íntima entre política e crime, traço essencial do fascismo.

Bruno Boghossian - O pesadelo do primeiro ano

Folha de S. Paulo

Embate público com o Banco Central é reação política a risco prolongado na economia

Quando ainda estava em campanha, Lula reconhecia que a economia daria trabalho na largada de um novo mandato. As contas do governo teriam que passar por ajustes, os ministros precisariam cavar resultados, e a atividade levaria alguns meses para reagir. Sentado na cadeira, o presidente percebeu que essa janela de tempo pode ser mais longa.

O petista passou a conviver com o pesadelo de atravessar todo o primeiro ano de governo num cenário de baixo crescimento e mercado de trabalho desaquecido. Auxiliares consideram que essa é a maior ameaça à popularidade de um presidente que chegou ao poder com uma promessa de recuperação econômica.

Cristovam Buarque* - O Brasil condenado pelo negacionismo político

Blog do Noblat / Metrópoles

Negar a tragédia social é uma forma de genocídio tão grave quanto ignorar a epidemia

A economia de um país não caminha por muito tempo sobre uma sociedade sem justiça social; tanto quanto a justiça social não caminha sobre economia ineficiente. A negação da necessidade de sociedade justa e a negação da necessidade de economia eficiente são dois negacionismos que condenam o Brasil a surtos de crescimento sem sustentabilidade social, ou surtos de avanços sociais sem sustentabilidade econômica.

A história do último século oscilou entre políticas econômicas sem sensibilidade social e políticas sociais sem conhecimento das regras da economia. Tivemos milagres econômicos que logo esbarraram na desigualdade como a riqueza se distribuía, na falta de educação de base, no transporte público caótico, na sua saúde e moradia precárias. Também tivemos momentos de políticas sociais que esbarram na falta de eficiência econômica levando a inflação, juros altos, endividamento, depredação ecológica.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Carnaval promete ser o melhor dos últimos anos

O Globo

Prefeituras precisam oferecer infraestrutura compatível com a volta dos desfiles e blocos às ruas

Não é difícil imaginar o êxtase que deverá tomar conta das cidades brasileiras nas duas próximas semanas, depois de inéditos dois anos de fantasias guardadas, instrumentos musicais silenciados e euforia represada pela pandemia. Nada mais previsível do que levar ao pé da letra os versos do samba-enredo da União da Ilha: É hoje o dia da alegria / E a tristeza nem pode pensar em chegar.

A história mostra que, no ano seguinte à tragédia da Gripe Espanhola, o país viveu o maior carnaval de todos os tempos. O roteiro que ora se anuncia não parece diferente. Cidades como Rio, Salvador, Recife, Olinda, São Paulo e Belo Horizonte, onde o carnaval de rua é forte, tentam controlar o desfile de blocos. Apesar da contenção, a previsão é de números superlativos. No Rio, a prefeitura autorizou 445 desfiles de 402 blocos no período entre 21 de janeiro e 26 de fevereiro, o domingo seguinte à Quarta-Feira de Cinzas. Entre eles, sete megablocos — como Cordão da Bola Preta, Bloco da Anitta e Monobloco —, maior número já registrado no carnaval de rua do Rio. Os cortejos atraem milhões num único dia.

Poesia | O Cão sem plumas - João Cabral de Melo Neto

 

Música | Alceu Valença - Estação da Luz

 

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Pablo Ortellado – Bolsonaro na articulação do golpe

O Globo

Discutir golpe é gravíssimo, não importa a versão

O senador Marcos do Val concedeu uma entrevista bombástica à revista Veja acusando o ex-presidente Jair Bolsonaro de incitá-lo a participar de um golpe de Estado.

Segundo o senador, Bolsonaro o contatou por meio do deputado Daniel Silveira. Do Val disse que, em reunião secreta no Palácio da Alvorada, o ex-presidente pediu que ele agendasse uma conversa com o ministro Alexandre de Moraes, com quem mantinha relações. A conversa seria gravada com equipamentos do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) que, segundo ele, estava a par do plano. Do Val tentaria arrancar do ministro uma inconfidência, dizendo que estava se excedendo nas decisões eleitorais, sem observar a Constituição. Na entrevista, Do Val foi categórico ao afirmar que o presidente fez diretamente a solicitação para que gravasse a conversa. Numa live com o MBL, no dia anterior à publicação da entrevista, foi ainda mais enfático e disse ter sido “coagido” pelo presidente a participar de uma tentativa de golpe.

Eduardo Affonso - Críticas, só amanhã

O Globo

Quantos anos serão necessários para que se possa questionar a complacência com os primeiros escândalos do novo governo?

Com quanto tempo de mandato será possível começar a criticar o governo Lula, sem que isso levante um tsunami de repulsa? Pelo que se viu até agora, ainda não é oportuno mexer nesse vespeiro. Talvez por estarem frescas na memória as cenas de barbárie dos ataques à democracia. Ou para não dar munição a inimigo tão insidioso, é melhor relevar pequenos, médios e grandes deslizes e focar no que interessa: nos livramos do fascismo; o que vier é lucro.

Não há, por enquanto, censura formal — o Ministério da Verdade continua embrionário (o óvulo da Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia e o espermatozoide do Departamento de Promoção da Liberdade de Expressão ainda estão nas preliminares). A tropa de choque da militância é que se encarrega de desqualificar as críticas e buscar motivações escusas para os críticos.

Alvaro Gribel - Lula contra os moinhos de vento

O Globo

A cruzada de Lula contra o Banco Central lembra a cena clássica do livro “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. Após fugir de casa em busca de aventuras, Quixote confunde 30 moinhos de vento com terríveis gigantes e parte para o confronto, ignorando os apelos de seu fiel escudeiro Sancho Pança, que o alerta sobre o engano, em vão. O BC, neste momento, pode ser tudo para Lula, menos um inimigo. Ao contrário, a confiança que Roberto Campos Neto e sua diretoria passam aos agentes econômicos — não só ao mercado financeiro — vem ajudando a manter o dólar e as expectativas de inflação sob controle, a despeito dos equívocos de discurso que Lula tem cometido na área.

Se existe um problema na economia, ele não está na política monetária. Os juros altos são a consequência dos desequilíbrios, e não a sua causa. A inflação subiu porque houve dois choques externos de oferta, um pela pandemia, outro pela guerra na Ucrânia, mas no Brasil eles são agravados pela forte indexação e pela crise fiscal crônica que permanece no país desde o segundo governo Dilma.

Carlos Alberto Sardenberg - Contraponto a Lula

O Globo

O fato de Lemann cometer um enorme erro na Americanas não tira o mérito de outras coisas que faz

Do presidente Lula, em entrevista à Rede TV!:

— Qualquer palavra que você fale na área social, “Vou aumentar o salário mínimo em R$ 0,10”, “Vamos corrigir o Imposto de Renda”, “Precisamos melhorar (a vida dos pobres)”, o mercado fica muito irritado.

E mais:

— Agora, um deles (Jorge Paulo Lemann, acionista principal das Lojas Americanas) joga fora R$ 40 bilhões de uma empresa que parecia ser a mais saudável do planeta Terra, e esse mercado não fala nada, ele fica em silêncio.

O mercado falou, presidente. E protestou do modo mais firme que conhece: derrubou o preço da ação de R$ 12 para perto de zero, o que impõe perda enorme aos acionistas, inclusive Lemann. Além disso, todos os grandes bancos privados, credores das Americanas, manifestaram claramente seu desagrado, acionando na Justiça a empresa e seus acionistas principais. Claro que há, digamos, acionistas inocentes — aqueles que não exercem controle sobre a empresa e compram o papel para poupança. Esses minoritários, parte do mercado, também estão na Justiça cobrando atitudes mais responsáveis dos controladores, inclusive aporte substancial de capital.

Alvaro Costa e Silva - Os golpistas continuam

Folha de S. Paulo

Rogério Marinho concorreu à presidência do Senado de olho no impeachment de ministros do STF

A eleição para a presidência do Senado mostrou como a extrema direita irá se comportar ao fazer oposição ao governo Lula. A ideia é criar artificialmente um clima de radicalização, de terceiro turno interminável no país. Bate-bocas, ameaças, cartazes com provocações de moleque da quarta série, barulho, agitação e, claro, um chorrilho de mentiras nas redes sociais.

Um dia antes da votação, Bolsonaro aproveitou um evento público num restaurante da Flórida (cuja entrada custava de US$10 a US$50, dependendo da proximidade em relação ao palco) para mandar um recado aos cupinchas. Como de praxe, mais uma declaração golpista: "Pode ter certeza, em pouco tempo teremos notícias. Se esse governo continuar na linha que demonstrou nesses primeiros 30 dias, não vai durar muito tempo". Só faltou dar o prazo de 72 horas, como faziam os terroristas acampados em frente aos quartéis.

Hélio Schwartsman - Sigilo espúrio

Folha de S. Paulo

Voto secreto de parlamentar é curto-circuito da democracia representativa

Arthur Lira foi reeleito presidente da Câmara com 464 de 508 votos, e Rodrigo Pacheco foi reconduzido ao comando do Senado após derrotar o candidato bolsonarista pelo placar de 49 a 32. Cidadãos podemos apenas intuir como votou cada parlamentar, já que as eleições para a Mesa das Casas Legislativas são, por força dos regimentos, secretas.

Se há algo que tenho dificuldades em aceitar nas democracias representativas modernas é o voto sigiloso de parlamentares. Cada vez que um deputado ou senador toma uma decisão sem revelá-la a seus eleitores, cria-se um curto-circuito democrático, já que fica impossível para os representados aferir se seus representantes estão correspondendo a suas expectativas.

Demétrio Magnoli - Floyd, mas diferente

Folha de S. Paulo

O caso em 2020 nos EUA abriu uma janela de oportunidade que foi frustrada

O assassinato via sufocamento do negro George Floyd, em maio de 2020, por policiais brancos de Minneapolis deflagrou uma onda de manifestações que varreu os EUA. Há pouco, o assassinato do negro Tyre Nichols, via espancamento, por policiais de Memphis, detonou protestos menores – e uma indisfarçável perplexidade. A diferença é que os assassinos foram cinco policiais negros, numa cidade cuja polícia é chefiada por uma negra defensora da reforma policial.

"O sistema usa negros para matar negros" –o dogma, baseado na varinha mágica do "racismo estrutural", não obteve consenso. Cerelyn Davis, a chefe de polícia, sugeriu excluir o "fator racial" do debate. Os familiares da vítima não o excluíram, mas apontaram a complexidade do cenário.

João Gabriel de Lima* - Os crimes contra os Yanomamis

O Estado de S. Paulo.

Urge fazer um esforço consistente no resgate da cidadania e integridade dos Yanomamis

A tribo Yanomami foi tema de reportagem de capa da revista Veja em setembro de 1990. No texto, o jornalista Eurípedes Alcântara discorre sobre a riqueza cultural dos indígenas brasileiros, ao mesmo tempo que alerta sobre as doenças e mortes provocadas pelo garimpo ilegal. A legenda sob o retrato de uma família Yanomami enumera: “75% de anêmicos, 50% com infecção respiratória e 90% com doenças na epiderme”. O subtítulo da matéria resume o enredo: “A febre do ouro está dizimando velozmente os yanomami”.

Em três décadas o enredo Yanomami se transformou em tragédia. Uma reportagem assinada por Ana Maria Machado, Talita Bedinelli e Eliane Brum, publicada em 20 de janeiro deste ano no site Sumaúma, contabiliza 570 mortes de crianças Yanomamis por causas evitáveis. As fotos que acompanham o texto chocaram o mundo.

Adriana Fernandes - Os recados de Lira

O Estado de S. Paulo.

Sinalização de que a reforma vem antes da âncora fiscal é perigosa para a equipe econômica

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), deixou dois recados importantes para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na entrevista coletiva dada na noite do dia da sua reeleição, quando o famoso Salão Negro já estava esvaziado.

O primeiro: a reforma tributária será votada antes do projeto de um novo arcabouço fiscal para substituir o teto de gastos. Lira confirmou a informação antecipada pelo Estadão de que o texto da reforma vai direto para o plenário da Casa. “A reforma está pronta para ir ao plenário”, disse sem meio-tom.

Miguel Reale Jr* - Genocídio

O Estado de S. Paulo.

Brota das condutas de Bolsonaro e de seu governo a revelação da intencionalidade comandada pelo desprezo à vida dos indígenas

O governo Bolsonaro deixou um rastro de destruição, da qual a barbárie de 8 de janeiro é exemplo. Porém chocam ainda mais as imagens do extermínio de centenas de crianças Yanomamis, reveladas pelo jornal Sumaúma, fruto da exploração ilegal de minérios nas terras indígenas.

Conforme a Hutukara Associação Yanomami, o monitoramento do garimpo em terra indígena indica que em 2018 havia a ocupação de 1.200 hectares, que em dezembro de 2021 quase triplicara, passando a 3.272 hectares.

No ano passado foi maior a invasão por garimpeiros, causando desmatamento, destruição de habitat e contaminação da água e dos solos. Houve a disseminação de doenças infectocontagiosas (em especial a malária), a contaminação pelo metilmercúrio e a subnutrição atingindo metade da população Yanomami, dando azo à pneumonia.

Marcus Pestana - O Congresso Nacional e a Agenda Nacional

O Congresso Nacional é o coração da democracia. Ali se expressam a pluralidade e a diversidade de interesses e opiniões. Dada posse aos eleitos e reeleitos, Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e, Rodrigo Pacheco, presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional, cabe agora baixar a poeira da polarização extremada que tomou conta da política nacional nos últimos anos. Os presidentes eleitos são políticos experientes e habilidosos com todas as condições de dirigir o parlamento brasileiro na discussão das questões essenciais que efetivamente interessam à população.

Dentro do desafio de reestabelecer os canais de diálogo e construir uma agenda produtiva é preciso reconhecer a total legitimidade da candidatura do senador Rogério Marinho, que representou o bolsonarismo na eleição interna do Senado, e frisar que é um quadro de altíssima qualidade intelectual e política e, como ele mesmo se autodefine, um “conservador clássico” a lá Edmund Burke e Roger Scruton. Assim também as candidaturas de dois excelentes deputados: Chico Alencar, representando as posições mais à esquerda, e Marcelo Van Hattem, expoente do liberalismo defendido pelo Partido Novo. 

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Sem surpresas

Folha de S. Paulo

Pacheco e Lira vencem disputa, mas isso não significa tranquilidade para Lula

Terminou sem surpresas a eleição para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado, com Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) reconduzidos aos respectivos postos de comando.

Prevaleceu o pragmatismo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que optou por uma estratégia de baixo risco. Escaldado com fracassos do passado, o presidente da República abriu mão de apoiar candidaturas petistas em ambas as Casas legislativas e aderiu aos dois favoritos.

Por motivos distintos, contudo, o resultado não garante a Lula vida tranquila no Congresso: não se dará de forma automática a aprovação de pautas relevantes para o Executivo, assim como o presidente não pode se considerar a salvo de surpresas oriundas do Legislativo.

Não que tenha sido uma vitória de Pirro. Mas a reeleição de Pacheco, obtida por 49 a 32, mostra que subsiste no Senado uma parcela expressiva interessada em atrapalhar os projetos do Planalto.

Sobretudo porque o segundo colocado, Rogério Marinho (PL-RN), apoiado pelo bolsonarismo, só não amealhou mais simpatizantes porque o governo Lula atuou para estancar a sangria, com tradicionais promessas de espaço —cargos e verbas— na administração.

Poesia | Fernando Pessoa - A Aranha do meu destino

 

Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Solidão