segunda-feira, 8 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adiamento do PNE expõe dificuldade do Brasil na educação

O Globo

Incapacidade de traçar metas para o futuro é tão grave quanto não ter cumprido as traçadas no passado

A Câmara aprovou na semana passada a prorrogação do atual Plano Nacional de Educação (PNE) até 31 de dezembro de 2025 (ele expirou em 26 de junho). A decisão, tomada em comum acordo com o governo, é menos deletéria que a proposta original de estendê-lo até 2028. Mas não se pode dizer que seja positiva. As diretrizes traçadas dez anos atrás, quando a realidade educacional no Brasil era outra, ainda valerão por um ano e meio. A dificuldade de traçar novas metas é sintoma da dificuldade do Executivo e do Legislativo para cuidar da agenda de um setor prioritário.

A execução do plano atual, que atravessou quatro governos — Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva — se revelou um fracasso. Nenhuma das 20 metas estabelecidas em 2014 foi alcançada. Um balanço feito pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação mostrou que, de 38 indicadores, não mais que quatro foram atingidos. O Ministério da Educação sustenta que, na média geral, a execução de cada um dos objetivos foi de 77%. Mas isso não atenua o fiasco. Seria razoável não cumprir todas as metas. Não atingir nenhuma é injustificável.

Bruno Carazza - O mapa da mina da eleição municipal

Valor Econômico

Distribuição de recursos do fundão revela as estratégias de cada partido nas eleições municipais

Recife, São Paulo, Vitória, Rio de Janeiro, São Gonçalo, Contagem, Guarulhos, Fortaleza, Salvador e Feira de Santana. Na eleição de 2020, o Partido dos Trabalhadores (PT) aplicou R$ 39,4 milhões nas campanhas a prefeito dessas dez cidades - o equivalente a 20% do valor gasto pelo partido (R$ 196,6 milhões) em todas as candidaturas para prefeituras e câmaras de vereadores nos mais de cinco mil municípios brasileiros.

A taxa de aproveitamento desse investimento foi bastante baixa naquele ano. Dos dez candidatos com os maiores aportes petistas, apenas Marília Campos, de Contagem-MG, se elegeu. Marília Arraes (Recife), João Coser (Vitória), Dimas Gadelha (São Gonçalo), Elói Pietá (Guarulhos) e Zé Neto (Feira de Santana) tombaram no segundo turno; os demais (Jilmar Tatto, Benedita da Silva, Luizianne Lins e Major Denice) nem lá chegaram.

Fernando Gabeira - Os alarmantes ventos do norte

O Globo

Temo sobretudo pela intensidade das mudanças climáticas. Negacionistas podem voltar ao poder num grande país

O Sudoeste é um vento de chuva, aprendi no Rio. Se pudesse aplicar esse ensinamento à política, diria que os ventos anunciam mau tempo, furacões e tempestades no planeta. É fácil senti-los soprando nos Estados Unidos, com o fiasco de Biden no debate e a consciência crescente de que ele perdeu a capacidade cognitiva para governar o país de novo.

Isso aumenta as chances de Trump num momento em que a Suprema Corte chega a uma decisão aterradora. Decidiu que Trump tem imunidade parcial em processos a que responde. A sentença foi criticada pela juíza Sonia Sotomayor: “O presidente é, agora, um rei acima da lei”. Acusado de vários crimes, ele pode assumir a Presidência blindado pela própria Corte.

Demétrio Magnoli - Metamorfoses da direita

O Globo

Partido de Marine chegou ao limiar do poder, acabando barrado no turno final

Nos dois lados do Atlântico Norte, a direita tradicional experimenta crises profundas. A interpretação habitual coloca ênfase na ascensão de partidos da extrema direita. Mas a tendência principal é outra: a ocupação do espaço eleitoral da direita democrática e conservadora por uma “nova direita” organizada ao redor do nacionalismo.

O fenômeno manifesta-se nos Estados Unidos pela conversão do Partido Republicano num “partido de Trump”. Desde 2016, o movimento Make America Great Again (MAGA) tomou de assalto a antiga fortaleza republicana. O instrumento da conquista foi o sistema de primárias, pelo qual uma base militante minoritária tem a prerrogativa de selecionar as candidaturas às eleições gerais.

Dani Rodrik e Thomas Frickel* - Do Consenso de Washington ao de Berlim

Valor Econômico

Enfrentamos agora uma escolha entre uma reação populista protecionista, com todos os conflitos que isso implica, e um novo conjunto de políticas que atendem às preocupações das pessoas

As mudanças de paradigma no pensamento econômico dominante geralmente acompanham crises que exigem novas respostas, como ocorreu depois da estagflação - baixo crescimento e inflação elevada - ter atingido as economias avançadas na década de 1970. E pode estar acontecendo novamente, à medida que as democracias liberais confrontam uma onda de desconfiança popular na sua capacidade de servir aos seus cidadãos e enfrentar as múltiplas crises - que vão das alterações climáticas às insuportáveis desigualdades e aos grandes conflitos globais - que ameaçam o nosso futuro.

As consequências podem agora ser vistas nos Estados Unidos, onde o ex-presidente Donald Trump tem boas chances de vencer as eleições presidenciais de novembro. Da mesma forma, um governo de extrema direita poderia assumir o poder na França após as antecipadas próximas eleições. Para evitar políticas populistas perigosas que exploram a raiva dos eleitores e para evitar grandes danos à humanidade e ao planeta, temos de abordar urgentemente as profundas causas do ressentimento das pessoas.

Assis Moreira - A situação na França e a instabilidade global

Valor Econômico

A extrema-direita não chega ao poder agora, mas amplia sua presença na paisagem política francesa

A esquerda e os centristas conseguiram bloquear o acesso da extrema-direita ao poder na França na eleição de domingo, numa enorme reviravolta em uma semana de campanha. A questão agora é se vão conseguir realmente agir para evitar que essa mesma extrema-direita de Marina Le Pen consiga ganhar a eleição presidencial de 2027.

O Reunião Nacional, o partido da extrema-direita, não chega ao poder agora, mas aumentou bastante seu número de deputados na Assembleia Nacional e assume de vez um espaço inescapável na cena política francesa.

O partido não conseguiu a vitória desenhada no primeiro turno, em razão da mobilização da enorme frente republicana, mas está mais potente e reconfigurado, na linha da extrema-direita implantada na Itália, na Hungria, nos país escandinavos. Sem falar do avanço dos neo nazistas na Alemanha.

A Nova Frente Popular, uma coalizão que vai da extrema-esquerda à social-democracia, ganhou graças também a votos de eleitores de direita com valores republicanos - ou seja, a esquerda obteve votos, e muitos, de quem não queria a extrema-direita.

Humberto Saccomandi - Esquerda e centro vencem na França, mas conseguirão governar juntos?

Valor Econômico

Coligação da Nova Frente Popular (NFP) já é heterogênea, e deverá governar com o bloco centrista Juntos, liderado pelo presidente Emmanuel Macron

A aposta do presidente Emmanuel Macron, de antecipar eleições para conter o avanço da extrema direita na França, deu certo afinal. Mas resultou num Parlamento sem maioria e extremamente fragmentado. E levará, possivelmente, a um novo governo fraco, que terá dificuldade de adotar políticas coerentes e de enfrentar desafios impopulares, como reduzir o déficit público, que é uma prioridade na economia.

A coligação Nova Frente Popular (NFP), que terá a maior bancada na Assembleia Nacional, é composta por cinco partidos, que vão do centro-esquerda (socialistas e verdes) até a extrema-esquerda (comunistas, França Insubmissa e anticapitalistas). Essa coligação, em si já heterogênea, deverá governar com o bloco centrista Juntos, liderado por Macron, e que também é formado por cinco partidos, que vão do centro-direita ao centro-esquerda.

Vagner Gomes de Souza - Croissant com Pão de Queijo

Blog Voto Positivo

Escrever no “calor da hora” em que se faz a contagem dos números de assentos das eleições legislativas francesas é uma lição para aqueles que gostam de exercer a análise de conjuntura. Em 72 horas, o Labour Party (após mais de uma década no isolamento do “culto a identidade” de uma nostalgia com temperos pós-modernos) renasceu como se fosse fênix numa vitória eleitoral com um programa “saquarema” (centralizador nas decisões políticas) para enfrentar o desafio de uma Inglaterra pós-Brexit.

Tamanho resultado deve ter movido às decisões de uma juventude globalizada e liberal a ir as urnas na França. A costura da “grande política” se fez pela via da renúncia de nomes em favor de quem estivesse em condições de vencer a candidatura da extrema-direita. Havia uma aposta das forças do populismo reacionário de que a abstenção seria sua vantagem diante da expectativa de um eleitor de esquerda que não votaria numa candidatura pró-Macron. Todavia, os avanços da desconfiança na legitimidade democrática não foram suficientes diante do desafio de evitar um “mal maior”. Assim, os sucessores da Frente Nacional em aliança com os herdeiros de uma “centro direita” prisioneira do extremismo acabaram em terceiro lugar no número de assentos.

Sérgio Abranches - Não é a extrema-direita que ganha, os que estão aí é que perdem

Correio Braziliense / O Estado de Minas

É o fracasso dos velhos modelos de política e das velhas soluções de políticas públicas, em descompasso crescente com as necessidades do povo

O segundo turno na França, neste domingo, foi a maior surpresa de todas, disse o colunista político Alan Duhamel. O líder da extrema-direita, Jordan Bardella, viu a vitória escorrer pelos dedos como pérolas de mercúrio após ter ganhado o primeiro turno. Reagiu raivosamente, “venceu a aliança da desonra”. Mas a única desonra foi para seu grupo. A coalizão da esquerda decidiu se unir à centro-direita de Macron, numa aliança republicana raríssima para derrotar a extrema-direita, renunciando às candidaturas menos competitivas, e foi a mais votada. Macron tem uma chance de ouro, oferecer o cargo de primeiro-ministro à Nova Frente Popular para uma coabitação republicana, na qual ele cuidaria da política europeia e global e a esquerda trataria de encontrar soluções domésticas para os problemas do povo. Seria um desafio para ambos, assegurar a estabilidade da coabitação e encontrar uma fórmula de consenso para a migração.

Carlos Pereira - Por que Lula recuou?

O Estado de S. Paulo

O presidencialismo multipartidário reduz liberdade para que um presidente se comporte de forma populista

As forças do mercado levaram rapidamente o presidente Lula a recuar da sua sanha populista de confronto com o Banco Central. Mas o que a maioria das pessoas não percebe é que o próprio sistema presidencialista multipartidário brasileiro cria enormes constrangimentos que reduzem os graus de liberdade de qualquer governante de desviar de uma crença que se torna dominante.

É economicamente e politicamente proibitivo desviar do equilíbrio macroeconômico que emergiu do Plano Real. Atores políticos, agentes econômicos e cidadãos desenvolveram fortes preferências pela estabilidade macroeconômica. Os anos intermináveis de hiperinflação e os seguidos planos que frustraram as expectativas de domá-la de forma sustentável geraram uma verdadeira aversão na sociedade ao descontrole dos preços.

Marcus André Melo - Lideranças e partidos

Folha de S. Paulo

Bolsonaro ascendeu rejeitando a velha política, mas se submeteu a ela quando sua agenda malograva

Jordan Bardella condicionou sua entronização como primeiro-ministro à obtenção de uma maioria absoluta por seu partido no Parlamento francês. Ao que Marine Le Pen abrandou afirmando que apenas formaria uma coalizão se pudesse "governar". Lideranças radicais rejeitam coalizões e tem arroubos majoritários. Apresentam-se como líderes majoritários, mesmo quando não o são. E formar coalizões significa barganhar, que é a essência da atividade parlamentar.

A França utiliza distritos uninominais e o número efetivo de partidos políticos é maior (3.7) que no Reino Unido (2.3) ou EUA (2.0) devido à existência de segundo turno. Trata-se de um multipartidarismo mínimo onde ainda há incentivos para uma competição pela mediana de preferências do eleitorado. Isto cria fortes incentivos para Le Pen desradicalizar seu programa. O que vem fazendo. Idem Giorgia Meloni. Tais incentivos são universais: veja-se a trajetória de Keir Starmer, que levou seu rival à esquerda, Jeremy Corbyn, a ser expulso do partido trabalhista.

Poesia - Soneto do amor total, de Vinicius de Moraes

Música | Clara Nunes - Juízo final (Nelson Cavaquinho)

 

domingo, 7 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova reforma da Previdência se tornou inadiável

O Globo

Estudos constatam explosão de benefícios, déficit crescente e um sistema insustentável

Passados cinco anos da última reforma da Previdência, está clara a urgência de outra. É preciso examinar pontos que passaram por correções suaves ou não foram alterados. É o caso da diferença na idade de aposentadoria de homens e mulheres, dos regimes especiais de servidores públicos, da aposentadoria rural ou dos benefícios assistenciais. A indexação de reajustes ao salário mínimo — que consumirá com o tempo todos os ganhos fiscais da última reforma — contribuiu para chamar a atenção para os desequilíbrios previdenciários. Mas, em razão da inexorável realidade demográfica, eles são maiores e mais profundos.

Um novo estudo de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstra o tamanho do problema. No início deste século, o regime do INSS que atende aos trabalhadores da iniciativa privada (RGPS) arrecadava receitas equivalentes a 84,7% das despesas. De lá para cá, o buraco só fez aumentar e, no ano passado, a arrecadação foi de apenas 65,9% dos gastos. Buscar o equilíbrio aumentando somente a alíquota de contribuição é irrealista. Atualmente, o empregado paga entre 7,5% e 14% do salário. Pelas estimativas do estudo, para custear o RGPS, a alíquota deveria ser de 36%. Um sistema com déficit progressivo é, por definição, insustentável.

Merval Pereira - Centro, volver

O Globo

O avanço da direita no Brasil e no mundo deve-se, na visão de muitos, à troca da ação da esquerda no campo social, priorizando atualmente temas identitários aos cuidados do cotidiano do eleitorado

Muitos de nós no Brasil estamos acostumados, nos últimos anos, a anular o voto ou a votar no “menos pior”, geralmente escolhendo um dos candidatos para evitar que o outro vença. Acaba que não temos projeto de país, políticas de longo prazo são exceções, como o equilíbrio fiscal do Plano Real ou o Bolsa Família. Este, por sinal, é um dos melhores exemplos de como uma política de Estado pode se desenvolver por governos de partidos diferentes, mas com visões coincidentes em alguns campos.

O Bolsa Família nasceu da união de vários projetos sociais iniciados em governos do PSDB, com o mesmo objetivo. Tornou-se política irremovível até mesmo com a ajuda do governo Bolsonaro, que nada tem a ver com a social-democracia que une PT e tucanos. A força eleitoral do Bolsa Família substituiu um projeto político que pretendia usar o mecanismo para dar poder a lideranças fora da política partidária, pois os prefeitos não teriam o controle do cadastro.

A ideia de Frei Beto, um dos principais assessores de Lula em seu primeiro governo, era usar o Bolsa Família como moeda de troca com as lideranças populares locais, criando um poder paralelo ao estamento político tradicional. Foi acusado de querer criar comitês soviéticos no interior do Brasil, especialmente com o embrião do Bolsa Família, o fracassado Fome Zero. Foi Patrus Ananias, então ministro de Desenvolvimento Social, quem vislumbrou o poder eleitoral do Bolsa Família, que voltou a ser controlado pelos prefeitos e garante até hoje a supremacia petista no nordeste brasileiro.

Míriam Leitão - A grande batalha é a democrática

O Globo

A agenda nociva da extrema direita em questões vitais, como o meio ambiente, mostra que os dilemas do mundo atual só serão enfrentados na democracia

A grande batalha, aqui e no mundo, neste momento da História, é a democrática. Esquerda e centro que não entenderem isso perderão, com reflexos na vida do planeta. A direita moderada que relativizar seus valores e se aproximar da extrema direita, por conveniência ou cálculo político, estará fortalecendo a corrente antidemocrática que avança em vários países. Só na democracia será possível enfrentar os difíceis dilemas do mundo como o extremo climático, a inclusão dos mais vulneráveis, a adaptação da educação à revolução tecnológica. A agenda dos extremistas de direita negligencia todas as questões vitais e ainda ameaça o pacto social que nos levou à democracia.

Os exemplos estão em toda a parte. Os franceses da esquerda e do centro têm hoje a chance de, unidos, vencerem a extrema-direita. Nos Estados Unidos, pior do que as demonstrações de fragilidade de Joe Biden, que parecem evidentes, é a falha da institucionalidade americana da qual eles tanto se orgulhavam. Nos últimos dias, Donald Trump colheu mais frutos dessa fraqueza da democracia e avançou para o seu objetivo. O sistema eleitoral, pensado pelos pais fundadores, é indireto e menos democrático do que o de outros países. Por outro lado, prometia blindar o sistema contra aventureiros. Foi assaltado por um aventureiro e quase sucumbiu. Agora aceita correr risco de novo.

Luiz Carlos Azedo - Progressistas, liberais, conservadores e as "mentes naufragadas"

Correio Braziliense /Estado de Minas

A nostalgia do passado é um fenômeno muito amplo, que afeta a extrema-direita e a extrema-esquerda, os fundamentalistas cristãos e os marxistas ortodoxos

O professor Mark Lilla é especialista em história intelectual, principalmente do pensamento político e religioso do Ocidente. Desde 2007, leciona Humanidades na Universidade de Columbia e colabora, regularmente, para o “New York Review of Books” e o “New York Times”. É autor, entre outros livros, de “A mente imprudente – Os intelectuais na atividade política”, que traz um perfil de pensadores que fecharam os olhos ao autoritarismo, à brutalidade e ao terrorismo de Estado; e “A mente naufragada – Sobre o espírito reacionário”, que apresenta o reacionário não como um conservador, mas como uma figura tão radical e moderna quanto o revolucionário.

Em 2016, Lilla criticou duramente o Partido Democrata ao analisar a vitória de Donald Trump, na qual questionou a fixação democrata pela questão da diversidade, pois o partido tornara-se um mero porta-voz dos grupos minoritários que não conversavam entre si. Na época, destacou que Bill Clinton e Barack Obama fizeram bons governos, mas isso não bastou para responder aos anseios e inquietações da maioria dos eleitores norte-americanos, diante de um processo inexorável de mudanças que gera muitas incertezas sobre o futuro individual.

É aí que os progressistas, focados nos direitos das minorias, e os liberais, cujas bandeiras já não dão respostas aos novos problemas, cederam espaço para o saudosismo de um passado imaginário. É um fenômeno que aparece com muita força na Europa e na América Latina. Aqui no Brasil, também. Hoje, por exemplo, teremos um grande encontro da extrema-direita em Balneário Camboriú (SC), com a presença do presidente da Argentina, Jair Milei, e do ex-presidente Jair Bolsonaro. Lilla examina esse fenômeno desde a eleição de Trump.

Bernardo Mello Franco - Avalanche na ilha

O Globo

Eleições britânica devolveu poder aos trabalhistas e puniu Partido Conservador por apostas no Brexit e na redução do Estado

Foi uma avalanche, como dizem os britânicos. Depois de 14 anos na oposição, o Partido Trabalhista festejou uma vitória histórica no Reino Unido. A centro-esquerda voltou ao poder com uma supermaioria. Conquistou 412 cadeiras, quase dois terços da Câmara dos Comuns.

As manchetes parecem sugerir que a ilha se pintou de vermelho. Não foi bem assim. Apesar do triunfo, os trabalhistas receberam 500 mil votos a menos que na última eleição. O que definiu o resultado foi a derrocada do Partido Conservador, de direita. Sua votação despencou de 44% para 24% em cinco anos.

A bancada conservadora encolheu de 372 para 121 cadeiras — pior desempenho em quase dois séculos. Ao admitir a derrota, o primeiro-ministro Rishi Sunak reconheceu que os britânicos estavam com raiva de seu partido. “Sinto muito”, desculpou-se, no discurso de despedida.

Dorrit Harazim - Férias no Rio

O Globo

Eliana é negra. Já encostaram uma arma em sua cabeça quando retornava de uma festa com um amigo branco

Pano rápido #1. Quarta-feira, início de noite, bairro de Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Cinco meninos entre 13 e 14 anos — três negros e dois brancos — voltam de uma pelada. Estão de férias, mãos abanando. Nem mochila levam. Vestem o clássico traje conforto (camiseta/bermuda/chinelo de dedo). Uma câmera de segurança mostra o grupo atravessando a rua. Param na portaria do prédio em que reside um deles. Ele entra. Dez segundos depois (sim, 10 segundos), uma viatura policial irrompe na cena. Zunindo, com as portas já escancaradas, o carro atravessa a pista, e dele saem dois policiais de armas apontadas para os meninos na calçada. Três deles, negros, são abordados com truculência, obrigados a ficar de costas com mãos na parede. O quarto adolescente recebe tratamento diferente — ele é branco. O porteiro de prédio a tudo assiste. Não interrompe seus afazeres. Motoristas e pedestres também não. Vida que segue.

A história terminaria aqui. Ou melhor, talvez terminasse alhures e muito mal para os “suspeitos”. Por sorte, o amiguinho branco consegue falar: os três meninos negros são filhos de diplomatas estrangeiros, vieram de Brasília a passeio. Dois são filhos dos embaixadores do Gabão e de Burkina Faso, o terceiro é filho de uma assistente do embaixador do Canadá. Forma-se uma encrenca diplomática, o Itamaraty pede desculpas formais aos pais dos jovens e cobra uma “apuração rigorosa” do governo do Rio de Janeiro. Que “fundada suspeita”, além da conhecida filtragem racial, teria levado os PMs à truculência tão gratuita? A Ouvidoria da Polícia Militar do Rio de Janeiro informa “aos que se sentiram ofendidos” que devem “formalizar suas denúncias”.

Eliane Cantanhêde - Aos ‘amigos’, tudo

O Estado de S. Paulo

Troca-troca: entra a Comissão de Mortos e Desaparecidos, sai da pauta a previdência dos militares

Depois de longa negociação, Planalto e Forças Armadas (FA), com mediação da Defesa, chegaram a um acordo que pode não ser o melhor, mas é o mais conveniente: o governo reabre a Comissão de Mortos e Desaparecidos e não se fala mais em mudança na previdência dos militares – pelo menos, por ora. Remexer o passado, com os implicados já na reserva ou mortos, é uma coisa; mexer no presente, com todos os interessados vivos e na ativa, é muito mais complicado.

Parecer da Defesa, de 2023, já era a favor da recriação da comissão, mas, antes de embarcar para a China, na sexta-feira, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, disse à coluna que é preciso distinguir a Comissão de Mortos e Desaparecidos, criada no primeiro ano de governo de Fernando Henrique, da Comissão da Verdade, que vigorou nos anos de Dilma Rousseff. A que está de volta é a de FHC.

Marcelo de Azevedo Granato - Ódio na política

O Estado de S. Paulo

A promoção do ideário democrático fica comprometida num ambiente em que o ódio ultrapassa a dimensão individual para se tornar um sentimento aglutinador

O escritor russo Anton Tchekhov afirmou que o amor, o respeito e a amizade não unem as pessoas da mesma forma que o ódio comum a alguma coisa. Uma afirmação que soa como um diagnóstico do momento vivido pela política brasileira. Prova recente disso foi a pesquisa realizada por cientistas políticos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de São Paulo (USP), que concluiu que a filiação partidária tem aumentado no Brasil especialmente por conta da rejeição dos filiados aos adversários do campo político oposto. Cerca de 70% deles consideram, em algum grau, a aversão e o ódio ao rival político como motivos relevantes para aderir a uma legenda.

Realizada nos anos de 2020, 2022 e 2023, com 32 partidos, essa pesquisa teve abrangência nacional e buscou descobrir, por meio de questionários enviados a filiados e dirigentes partidários, as motivações para a filiação partidária, os elementos que incentivam a participação em atividades dessa natureza, assim como os partidos mais odiados e rejeitados no País.

Lourival Sant’Anna - O alento da vitória dos trabalhistas

O Estado de S. Paulo

Vitória trabalhista reverte um processo de potencial desmembramento do Reino Unido

A vitória dos trabalhistas no Reino Unido representa um alento, diante da onda de nativismo, conservadorismo e abuso de poder que assola as democracias ocidentais. As eleições britânicas equivaleram a um plebiscito acerca dos últimos 14 anos de governos conservadores, associados a essas tendências destrutivas.

O Reino Unido foi a primeira democracia ocidental a sucumbir ao radical populismo, materializado na vitória do referendo do Brexit em 2016. Nesse sentido, talvez seja natural que se torne o primeiro país a superar essa onda, embora não haja garantias de que o ciclo tenha terminado: dependerá do êxito do novo governo.

Essa não é uma leitura que privilegia a “esquerda” em detrimento da “direita”. Sob a liderança de Keir Starmer, o Partido Trabalhista é fiscalmente responsável e não estatista, diferentemente da esquerda brasileira, por exemplo. Assim como aconteceu nos EUA, na França e na Itália, a direita britânica foi capturada por um líder que desvirtua os seus valores tradicionais.

Sylvia Colombo - Esquerda no Uruguai se fortalece

Folha de S. Paulo

Yamandú Orsi, do bloco Frente Ampla, ganhou de braçada a primária e desponta como líder na maioria das sondagens

Já virou lugar-comum ressaltar o Uruguai como um país especial na América Latina, onde prevalecem uma democracia organizada, o respeito às instituições, uma sociedade com excelente formação educativa, na vanguarda com relação à aceitação de vários direitos pessoais, ao mesmo tempo em que possui um Estado com ampla preocupação com a justiça social.

Os principais partidos do país são instituições antigas e bem estabelecidas. O atual governante, o Partido Nacional, ou Blanco, hoje mais liberal, nasceu em 1836, mesmo ano em que foi criado o Partido Colorado, hoje mais conservador. Enquanto isso, a Frente Ampla, que reúne vários partidos e agrupações de centro e de esquerda, estabeleceu-se em 1971.

Celso Rocha de Barros – Vitória da esquerda no Reino Unido

Folha de S. Paulo

Derrota dos conservadores mostra como é difícil ser situação no mundo pós-Covid, de crescimento baixo e juros altos

Partido Trabalhista deu uma surra nos conservadores e venceu as eleições britânicas por uma margem histórica, quase igual à goleada de Tony Blair em 1997. Ganharam 412 cadeiras no parlamento, 214 a mais do que na última eleição. É muita coisa.

Foi o fim de um ciclo de governos conservadores que começou com políticas de austeridade implementadas cedo demais após a crise do euro, passou pelo desastre do brexit e terminou com as menores taxas de crescimento do mundo desenvolvido. Não, não foi um sucesso

Talvez seja possível analisar a derrota dos conservadores como resultado das contradições originais do brexit.

Os setores da elite que apoiaram o brexit esperavam um Reino Unido muito mais integrado globalmente —Londres seria a "Singapura sobre o rio Thames".

Vinicius Torres Freire - O Brasil que surta e delira

Folha de S. Paulo

País afunda em debate econômico louco e ruim, paga caro e fica no mesmo lugar

Durante dois meses, o debate-boca sobre economia andou mais desvairado do que de costume. Foi aquela algaravia sobre déficits, isenções de impostos, juros e Banco Central.

Ao final do surto, Lula 3 não terá conseguido jeitinho de aumentar a despesa de modo relevante, para efeitos práticos, sociais ou políticos. A promessa de contenção de despesas anunciada por Fazenda e Planejamento deixa quase inalterada a perspectiva de que a dívida pública continuará a crescer.

Quanto ao déficit, pois, não aconteceu nada, para os que odeiam ou que amam contas no vermelho. Juros e dólar ainda mais altos deixaram um saldo ruim. Ficamos no mesmo lugar, com um futuro imediato mais danado.

Bruno Boghossian - Lula em campanha

Folha de S. Paulo

Presidente quer impulsionar aliados em outubro, mas também faz campanha pela própria popularidade

Lula nem tentou disfarçar o motivo da visita a Contagem (MG), no fim de junho. Ao lado da prefeita Marília Campos (PT), que vai disputar mais um mandato, o presidente lembrou que a lei eleitoral proíbe a presença de candidatos em inaugurações após 5 de julho. "Então, eu vim aqui hoje para poder fazer neste ano a única coisa pública com você", explicou.

O petista fez uma maratona antes que a janela se fechasse. Em nove dias, foram 11 eventos oficiais com pré-candidatos a prefeituras estratégicas. Em quase todos os atos, Lula abriu espaço para os aliados no palanque, soltou elogios e fez acenos pouco discretos, com a promessa de investimentos do governo federal.

Muniz Sodré - Democracia demencial

Folha de S. Paulo

Transparece na perda das ilusões, rompimento das simulações sedimentadas que representavam a glória da América

confronto Biden/Trump ficará na história como um dos episódios mais deprimentes da política norte-americana, também como índice relevante da suspeita de que as democracias possam estar doentes, mais do que apenas enfraquecidas. Doença implica afetação negativa num organismo, suscetível de uma alteração essencial. Por analogia, ainda que mantidos os protocolos formais, os processos substanciais das democracias passariam por desencadeamentos morbosos que afetam povo e lideranças.

Hélio Schwartsman - Revoluções

Folha de S. Paulo

A prosperidade material experimentada hoje pelo terráqueo médio, por exemplo, é fruto das duas Revoluções Industriais

Numa época em que a ordem liberal vem sendo desafiada e sofre reveses, é natural que surjam obras que procurem apontar para as virtudes desse sistema que, aos trancos e barrancos, vem se consolidando no Ocidente. "Age of Revolutions", do jornalista Fareed Zakaria (CNN, Washington Post), é uma delas.

O autor se propõe a tentar entender como certos períodos da história concentram mudanças que deixam marcas profundas num país e por vezes no mundo. Nós os chamamos de revoluções. No livro, Zakaria investiga nove delas, cinco do passado (Holandesa, GloriosaFrancesa e a Industrial, em suas vertentes inglesa e americana) e quatro do presente (globalização, tecnologia, identidade e geopolítica).

Marcus Cremonese - Trump x Biden e a Realidade Inventada

Observatório da Imprensa

Tendo já vivido por mais de três décadas sob o sistema parlamentarista australiano, desenvolvi certo gosto em assistir debates pré-eleição. O recente “embate” presidencial nos Estados Unidos, em 27 de junho passado, difere drástica – e dramaticamente! – do que acontece aqui, a cada três anos, quando há eleições federais. 
A diferença é drástica porque no sistema parlamentarista, o líder de cada partido é quem vai para o debate levando – não em seu nome, mas em nome do partido – todas as ideias, projetos, planos, metas ou políticas a serem apresentadas. E sobretudo as promessas. O líder do partido vencedor nas urnas se torna o Primeiro-Ministro e dele as tais promessas são cobradas dia após dia. 

Já no sistema presidencialista, as metas ou projetos do partido acabam quase sempre sendo colocadas de lado. O que geralmente entra em cena é o indivíduo, a pessoa do candidato – no que fica mais fácil explorar qualidades e defeitos. Assim, o evento se torna um ato cênico e, especialmente no caso recente de Trump x Biden, um episódio altamente agressivo.

Poesia | Igual-Desigual, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Leila Pinheiro - Eu canto samba ( Paulinho da Viola)

 

sábado, 6 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Vitória de Starmer aponta caminho a políticos de centro

O Globo

Em vez de ideologia ou guerras culturais, sua campanha voltou o foco para questões de ordem prática

A vitória avassaladora do Partido Trabalhista nas eleições britânicas traz lições não apenas para o Reino Unido, mas para Europa, Brasil e um mundo atônito com o avanço da direita de feições nacionalistas e populistas. O novo primeiro-ministro, Keir Starmer, um social-democrata clássico, comandará uma maioria com um controle do Parlamento comparável à avalanche Tony Blair em 1997.

A primeira lição é que, mesmo numa época em que vicejam figuras histriônicas como Donald Trump ou o britânico Boris Johnson, um político de perfil mais pragmático que carismático ainda tem chance de vencer — e de vencer bem. Nada mais distante do discurso histérico das redes sociais que a serenidade acanhada de Starmer.

Entrevista | Heather Grabbe: 'Argumento nacionalista atrai europeu insatisfeito com economia’

Marcos de Moura e Souza / Valor Econômico

Acadêmica europeu Bruegel, analisa o voto de britânicos e franceses

Em uma semana de eleições no Reino Unido e na França, a pesquisadora do think-tank Bruegel, baseado em Bruxelas, Heather Grabbe faz uma avaliação sobre as demandas e insatisfações dos eleitores em um momento em que o populismo de direita ganha apoio pela Europa.

Professora visitante da Universidade College London e autora de artigos publicados no “Financial Times” e no site “Politico”, Grabbe diz nesta entrevista ao Valor que as diferenças de linha econômica entre partidos tradicionais estão cada vez mais apagadas e que a direita populista prospera reforçando mensagens sobre identidade e nacionalismo. No Reino Unido, embora o jogo se dê entre as forças convencionais - Trabalhistas e Conservadores -, Grabbe destaca o nível de aprovação da legenda direitista anti-União Europeia Reform. Enquanto na França, o segundo turno das eleições parlamentares no domingo deverá mostrar um avanço marcante da extrema direita de Marine Le Pen. 

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Pablo Ortellado - Direita populista mostra força

O Globo

Analistas se perguntam incrédulos por que os cidadãos se voltam para alternativas antidemocráticas, chauvinistas e racistas

O establishment está chocado com a força da direita populista nos Estados Unidos e na França. O Reunião Nacional, partido de Marine Le Pen e Jordan Bardella, deverá emergir do segundo turno das eleições parlamentares da França, amanhã, como força política mais importante do país. Nos Estados Unidos, as fraquezas de Biden fazem de Donald Trump o favorito para vencer as eleições de novembro. Aos avanços políticos nos Estados Unidos e na França se somam a vitória, na Holanda, do Partido da Liberdade de Geert Wilders (que por pouco não se tornou primeiro-ministro), o consolidado governo de Giorgia Meloni na Itália e a ascensão de Javier Milei na Argentina. A onda global do populismo de direita parece um tsunami irrefreável.

Na França e nos Estados Unidos, analistas se perguntam incrédulos por que os cidadãos se voltam para alternativas antidemocráticas, chauvinistas e racistas. Centristas e progressistas se questionam, perplexos, como os franceses podem votar em massa no partido herdeiro da Frente Nacional e como os americanos podem votar em Trump depois de um primeiro governo desastroso e de terem testemunhado a invasão do Capitólio.

Carlos Alberto Sardenberg - O mercado acreditou no governo. Perdeu dinheiro

O Globo

Se a economia vai bem no presente e tem boas perspectivas para a frente, as empresas ganharão

Vale o arcabouço fiscal, declarou o ministro Fernando Haddad nesta semana, depois de algumas reuniões com Lula. Não foi fácil. Precisou o dólar bater em R$ 5,70 para o ministro impor ao governo uma espécie de renascimento de sua agenda.

Há várias interpretações para o episódio. O arcabouço fiscal, como lembrou Haddad, está fixado em lei complementar desde agosto do ano passado. Que fosse preciso reiterar isso, quase um ano depois, demonstra que o mercado tinha razão quando desconfiou que o governo Lula, a começar pelo presidente, pretendia driblar as regras do arcabouço para gastar sem limites.

Essa descrença é recente. Há algumas semanas, o Boletim Focus, editado pelo Banco Central, mas resumindo as opiniões dos analistas de fora do governo, previa um cenário positivo para este e para o próximo ano: inflação em queda, juros idem e o dólar, imaginem, estável em R$ 5 até 2026.

Com base nesse cenário, os investidores fizeram suas apostas. Não são bem apostas, mas aplicações financeiras com base em dados e expectativas, com o objetivo de preservar o capital e obter lucros. Não são especulações no vazio. Têm ligação com a economia real. Se o país crescerá com inflação baixa e ganhos de renda, então o varejo venderá mais. Logo, comprem-se ações das companhias varejistas. De modo mais amplo, se a economia vai bem no presente e tem boas perspectivas para a frente, as empresas ganharão dinheiro. Logo, a Bolsa de Valores é um bom local para colocar seu dinheiro.

Eduardo Affonso -Vivemos a era do exagero

O Globo

Basta considerar esteticamente desagradável um corpo obeso para ser diagnosticado como gordofóbico

Nas novelas mexicanas de antigamente (ou nem tão antigamente assim), a vilã tinha cara de vilã, pinta de vilã, roupa de vilã — eventualmente, até tapa-olho de vilã. Bastava que entrasse em cena e sabia-se que boa bisca ela não era. Tudo — cabelo, tom de voz, adereços, maquiagem — conspirava para que não pairasse dúvida sobre sua abominável índole. Era um recurso dramatúrgico, impedindo que, ao coração do telespectador, ocorresse a ideia de balançar entre a mocinha (boa) e a vilã (péssima).

Pois mexicanizaram a política e a linguagem. Sim, apertem os cintos: a direita sumiu. A polarização agora entre é entre esquerda e extrema direita. De um lado do ringue — de calção vermelho, pés descalços e mãos nuas — temos a esquerda (progressista, democrática, de profundos valores humanistas, zelosa defensora dos pobres e oprimidos) e do outro — de armadura azul, portando o raio da morte — a extrema direita (fascista, desumana, de tapa-olho). Entre uma e outra, só o Centrão — pendendo para o lado vencedor, claro.

Hélio Schwartsman - Há luz no fim do túnel?

Folha de S. Paulo

Vitória trabalhista no Reino Unido contrasta com avanços eleitorais da ultradireita no Ocidente

Num mundo em que a ultradireita vem obtendo avanços eleitorais significativos, o Reino Unido, remando contra a corrente, acaba de proporcionar uma vitória maiúscula para o Partido Trabalhista, de centro-esquerda. O "maiúscula" não é licença poética. Com a apuração quase concluída, os trabalhistas obtiveram ao menos 412 das 650 cadeiras do Parlamento, um incremento de 214 assentos.

O interessante é que, em termos de proporção dos sufrágios, os trabalhistas não se saíram tão melhor. Cresceram só 1,7 ponto percentual em relação à votação anterior, de 2019. O que explica o resultado é o brutal declínio dos conservadores, que perderam 251 cadeiras e 20 pontos percentuais. Basicamente, os conservadores é que foram derrotados. Perder após 14 anos no poder é esperado; a magnitude da derrota é que chama a atenção.