sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Dora Kramer: Crítica e autocrítica

- Revista Veja

O Brasil pode criar novas balizas para o exercício do contraditório

Ainda sob os efeitos do azedume geral, pode ser difícil pensar em produzir limonadas a partir da colossal quantidade de limões encruados nas almas e entalados nas gargantas país afora. Não falo de pacificações ao molde de conversões forçadas por um bom-mocismo de ocasião. Tampouco me refiro a pregações por união nacional mediante a interferência da figura de um pacificador, dada a semelhança com o anseio por um salvador.

Tudo isso é mito. Civilizatório, realista e institucionalmente pedagógico é o aprendizado do exercício do contraditório dentro das balizas do bom-senso. A eleição de Jair Bolsonaro, do jeito e pelas razões (ainda a ser completamente desvendadas e catalogadas) que ocorreu, põe o Brasil diante de uma preciosa oportunidade de subir de patamar na qualidade das relações entre governantes e governados.

Por paradoxal que soe, esse caminho foi aberto pelo ambiente de acirramento extremo que vem tomando conta do país já há algum tempo e que chegou aos píncaros durante a campanha eleitoral. Tivemos um processo inédito do qual resultou uma situação também sem precedentes. Nenhuma das eleições anteriores, desde a retomada do voto direto para presidente, produziu uma vitória que aborrecesse com tanta estridência tal volume de eleitores. O mesmo teria ocorrido caso o vencedor fosse o oponente, diga-se.

Helio Gurovitz: Bolsonaro, a imprensa e o ardil do populismo

- Revista Época

Bolsonaro, a imprensa e o ardil do populismo Jair Bolsonaro ainda é uma esfinge. A campanha eleitoral, ditada pela polarização e pelo discurso raivoso, não permitiu que suas propostas fossem analisadas em detalhes, nem submetidas a debates com visões antagônicas. Seu programa de governo começa a ganhar forma agora, ditado pelas circunstâncias das articulações políticas. Sua personalidade será decisiva para determinar o êxito do governo. 

Nas primeiras declarações e movimentos depois da vitória, ele procurou se mostrar sereno e conciliador, em contraste com a rebeldia, a agressividade e as ofensas que marcaram a carreira de deputado e a campanha. Tentar vislumbrar a realidade que existe atrás do “mito” Bolsonaro continua a ser um desafio, diante da falta de conhecimento de qualidade sobre sua ascensão. Quem estiver interessado em conhecer em profundidade o novo presidente terá enorme dificuldade.

Com exceção de um livro publicado pelo próprio filho Flávio no ano 2000, a única biografia disponível de Bolsonaro saiu neste ano. Publicada pelo jornalista Clóvis Saint-Clair diante da oportunidade oferecida pela corrida eleitoral, tem os defeitos inerentes a um livro produzido às pressas. 

Monica De Bolle: Conversa na Igreja Universal

- Revista Época

A bancada evangélica, para minha surpresa, defende a abertura comercial sob diretrizes não apenas razoáveis, mas absolutamente recomendáveis.

Conversa na Igreja Universal “Da soleira do La Crónica, Santiago fita a Avenida Tacna sem amor: carros, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos espalhafatosos de pôsteres flutuando na névoa, o meio-dia cinzento. Em que momento havia o Peru se arruinado?” Essa é a abertura de Conversa no Catedral, de Mario Vargas Llosa, um de meus romances políticos prediletos.

Outro de meus romances políticos favoritos é O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, belíssima crônica da unificação italiana no século XIX. Os atropelos e impasses políticos e a tentativa da aristocracia de manter sua relevância política em meio às grandes mudanças são muito bem resumidos pelo personagem Tancredi na célebre frase: “Para que tudo permaneça igual, é preciso que tudo mude”.

Nas eleições de 2018, houve impressionante renovação no Congresso brasileiro, incluindo a bancada evangélica, que cresceu — agora são 199 deputados e 4 senadores. A Frente Parlamentar evangélica, composta por diversas agremiações, é quatro vezes maior do que as bancadas do PT e do PSL individualmente, embora haja sobreposições. Recentemente, li o manifesto da frente evangélica lançado em 24 de outubro, intitulado O Brasil para os brasileiros — afinal, não apenas essa bancada tem significativa representação na Câmara, como também já havia declarado apoio ao presidente eleito Jair Bolsonaro antes do primeiro turno. O documento está estruturado em quatro eixos: a modernização do Estado, a segurança jurídica, a segurança fiscal e a “revolução na educação”.

Luiz Carlos Azedo: Os intocáveis

- Correio Braziliense

“Moro deixa a carreira de magistrado às vésperas de mais um julgamento do ex-presidente Lula. No processo do sítio de Atibaia, as provas seriam até mais robustas do que as do tríplex de Guarujá”

O mais famoso investigador da história norte-americana era apenas um agente do Tesouro inconformado com o descumprimento da Lei Seca em Chicago. Eliot Ness (Chicago, 19 de abril de 1903 — Coudersport, 16 de maio de 1957) liderou a equipe de investigadores que conseguiu prender Al Capone e desmantelar a quadrilha. Por ter resistido a várias tentativas de suborno, a força-tarefa ficou conhecida como Os intocáveis e foi glamorizada pelo diretor Brian de Palma no filme do mesmo nome, lançado em 1987, com Kevin Costner no papel principal, coadjuvado por Sean Connery e Robert De Niro.

O Ness de carne e osso era um homem comum, que raramente andava armado. De 1935 a 1942, após a liberação da venda e consumo de bebidas alcoólicas, foi secretário da Segurança Pública de Cleveland. A boa reputação desmoronou, porém, em 1942, quando abandonou o local de um acidente de trânsito aparentemente provocado por ele. Após o episódio, perdeu uma eleição para prefeito e fracassou como empresário. Morreu pobre, de ataque cardíaco, em 16 de maio de 1957.

É meio inevitável a analogia com a indicação do juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, para o Ministério da Justiça, confirmada ontem pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, depois de conversa na qual recebeu carta branca para combater a corrupção e o crime organizado. Bolsonaro concordou com as propostas de Moro: “Ele queria liberdade total para combater a corrupção e o crime organizado e um ministério com poderes para tal”, disse o presidente eleito. Para a opinião pública, foi um gol de placa.

No livro Artes da Política: diálogo com Amaral Peixoto, de Aspásia Camargo, Lucia Hippolito, Maria Celina D’Araujo e Dora Rocha, o ex-interventor e ex-governador eleito do antigo Estado do Rio de Janeiro atribui parte do seu sucesso como administrador à escolha do seu secretário de Segurança Pública. Sem um bom chefe de polícia, segundo ele, ninguém consegue governar. Há controvérsias sobre essa relação entre o governante e o chefe de polícia, cujas atribuições e autoridade estão estabelecidas na Constituição de 1988, que garante autonomia à autoridade policial. A Polícia Federal é judiciária.

Superministros: Editorial | Folha de S. Paulo

Bolsonaro pretende governar com o menor número de pastas desde Collor

A proliferação do número de ministérios na administração federal —em particular na era petista, quando se atingiu o recorde de 39 órgãos com tal status— gerou justa indignação na opinião pública.

Era evidente, afinal, que o aumento do primeiro escalão se destinava, na maioria dos casos, a acomodar apaniguados e partidos ávidos por cargos e verbas, em detrimento da eficiência da gestão.

Daí se seguiu a percepção errônea, entretanto, de que a criação de pastas constituía causa da deterioração das finanças públicas. Essa noção foi alimentada, de forma demagógica, por forças políticas que apresentavam o corte de ministérios como solução indolor para a ruína orçamentária.

Esse não parece o caso do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), cujo intento é reduzir o número de ministérios dos atuais 29 para algo em torno de 15 —a menor cifra desde os 12 do início do governo Fernando Collor (1990-1992).

Sergio Moro na Justiça: Editorial | O Estado de S. Paulo

Ao escolher o juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça, o presidente eleito Jair Bolsonaro foi coerente com seu discurso de campanha, fortemente marcado pela promessa de combate à corrupção - e, como se sabe, esse combate, simbolizado pela Operação Lava Jato, teve naquele magistrado um de seus próceres nos últimos quatro anos. “Sua agenda anticorrupção, anticrime organizado, bem como respeito à Constituição e às leis, será o nosso norte!”, escreveu Bolsonaro no Twitter ao dar a notícia, ainda em tom marcadamente eleitoral.

Já Sergio Moro, ao aceitar o convite, declarou que o fez porque sua ida para o Ministério da Justiça, “na prática, significa consolidar os avanços contra o crime e a corrupção dos últimos anos e afastar riscos de retrocessos por um bem maior”. Ou seja, a Operação Lava Jato, que já tinha assumido traços nitidamente políticos em razão da ação militante de alguns de seus procuradores contra toda a classe política, terá agora status de Ministério.

Mais do que isso: se for confirmado o desenho do Ministério da Justiça projetado por Bolsonaro, Sergio Moro terá autoridade extraordinária em áreas importantes. A pasta poderá absorver o Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União e o Ministério da Segurança Pública, além do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), hoje vinculado ao Ministério da Fazenda.

Moro na Justiça reforça combate ao crime: Editorial | O Globo

Bolsonaro acerta ao ampliar estrutura de enfrentamento da violência e da corrupção

Se o candidato Jair Bolsonaro foi eleito com um discurso de apoio forte ao combate à corrupção, com citações favoráveis à Lava-Jato, seria um desdobramento natural ele, vitorioso, convidar o juiz Sergio Moro para o primeiro escalão do governo. Aconteceu, Moro aceitou, e a escolha é a de maior impacto positivo até agora.

A quem comentou com o juiz as repercussões negativas junto à oposição, principalmente o PT, Moro, com razão, disse que já é mesmo atacado desde sempre.

De fato, pois a militância petista sempre foi muito ativa dentro e fora do país em investidas contra o principal magistrado da já histórica Operação Lava-Jato.

A criativa banca de advogados de Lula, como esperado, já prepara recursos com argumentos de que a nomeação de Moro por um governo antipetista configuraria a parcialidade no julgamento do ex-presidente. Mas, para ter base sólida, a argumentação precisa atingir todos os juízes do TRF-4 (Porto Alegre), STJ e Supremo que já votaram contra Lula no tríplex do Guarujá, motivo pelo qual o ex-presidente está preso.

É hora de coerência: Editorial | Veja

Sobretudo quando fala de improviso, Bolsonaro não expressa as mesmas ideias com a mesma firmeza, deixando a desconfiança que explica a cobrança insistente

O presidente eleito Jair Bolsonaro consagrou-se nas urnas com 57,8 milhões de votos, fez três pronunciamentos no domingo da vitória e, no dia seguinte, enfrentou uma maratona de entrevistas a cinco emissoras de televisão. É perceptível que Bolsonaro fica desconfortável com uma cobrança que não passa um dia sem ouvir: se pretende, mesmo, de verdade, respeitar a Constituição.

É fato que, em sua primeira manifestação depois da vitória, Bolsonaro leu um texto diante das câmeras de TV no qual assumiu um compromisso incontroverso. “Faço de vocês minhas testemunhas de que esse governo será um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade”, declarou, o que deveria ser suficiente para sepultar quaisquer dúvidas sobre sua fidelidade aos princípios constitucionais.

O problema é que, sobretudo quando fala de improviso, Bolsonaro não expressa as mesmas ideias com a mesma firmeza, deixando a desconfiança que explica a cobrança insistente. O caso mais emblemático refere-se à liberdade de imprensa, instituição basilar de todo regime democrático e garantida pela Constituição brasileira. Bolsonaro já disse que respeita e respeitará a liberdade de imprensa, mas também disse que a ditadura militar — cuja existência ele nega — respeitava a liberdade dos meios de comunicação e jamais praticou censura. Em entrevista ao Jornal da Band, afirmou que algumas reportagens não foram publicadas porque os textos continham mensagens cifradas endereçadas a grupos que pretendiam atacar autoridades.

O eleito: Editorial | Época

Presidente Jair Bolsonaro. Três palavras que eram impensáveis um ano atrás agora se tornaram o futuro do país, porque assim o desejaram 58 milhões de brasileiros. Tendo sido impulsionado pelas elites, Bolsonaro atingiu os rincões do Brasil e os estratos mais numerosos da sociedade. Aproveitou-se de um establishment complacente para impor-se a ele como alternativa viável e esperança única. E com 55% dos votos válidos obteve a vitória legítima que só o sistema democrático proporciona.

Outros 47 milhões de eleitores, no entanto, disseram: “Ele não”. Estes, somados aos 43 milhões que não votaram, anularam ou votaram em branco, formam uma inegável maioria de 90 milhões de brasileiros que não sufragaram o candidato do PSL. Para esses milhões de brasileiros — e para grande parte do restante do mundo —, o 38º presidente do Brasil é motivo de apreensão, dúvida e até desespero.

Depois de um ano e meio de tuítes erráticos e discursos incoerentes, de uma campanha calculadamente feita por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens, não é possível ter certeza sobre quem foi eleito presidente da República. Não se sabe como Bolsonaro executará as funções básicas do Poder Executivo. Não se sabe se ele tem alguma ideia do que significa liderar o país em questões candentes da política, da economia e da sociedade. Não se sabe se ele tem capacidade de se concentrar em qualquer questão e chegar a uma conclusão que se possa qualificar como seu projeto de governo.

Bolsonaro, o homem e seu tempo: Editorial | IstoÉ

Jair Messias Bolsonaro, o 38º presidente do Brasil, é o homem que captou o espírito do seu tempo, aquilo que os cientistas passaram a resumir na expressão alemã “Zeitgeist” para refletir as manifestações intelectuais, políticas e culturais de uma determinada época e geração. Bolsonaro parece ter entendido, como poucos candidatos, o clima de expectativas e necessidades dos eleitores que foram às urnas. Venceu contrariando todas as previsões, no bojo de um partido nanico, sem campanha, sem tempo de TV, sem alianças partidárias representativas, com parcos recursos e uma massa de opositores que se mantém numerosa. Há pouco mais de um ano, quando iniciou a caminhada, ninguém enxergaria qualquer chance nessa candidatura.

Quando tentou, pouco antes, a presidência da Câmara dos Deputados contra Rodrigo Maia, do DEM, obteve meros quatro votos dos parlamentares. Tinha dificuldades para encontrar uma legenda que o abrigasse e até mesmo um nome a vice. Era tido como personagem pitoresco, movido a arroubos radicais. Um xenófobo, homofóbico e racista de carteirinha, que abominava as liberdades de gênero e opinião, com um temperamento provocador, instigando emoções extremas. Bolsonaro erigiu, mesmo assim, um personagem sob medida para uso eleitoral nesse escrutínio. 

Caiu nas graças do povo, tendo como reflexo mais de 57 milhões de votos – feito extraordinário para quem mal havia emplacado meia dúzia de projetos de lei na longa temporada de quase 30 anos e sete mandatos no Congresso. No fundo, no fundo, Bolsonaro surfou a onda de um sentimento difuso da população, misturando medo e esperança, desencanto e rebeldia. No Brasil, como de resto em boa parte do mundo, há uma espécie de histeria conservadora que impacta a vida das pessoas e coloca de ponta-cabeça comportamentos e princípios, resvalando no retrocesso.

O capitão reformado despontou por encarnar esses valores. A evangelização do moralismo entrou na ordem do dia. Não é difícil encontrar quem aposte em transformações concretas na rotina dos brasileiros por conta dessa ascensão da ultradireita por aqui. Nas escolas, livros didáticos podem ser revistos e o hábito, superado faz tempo, de cantar o Hino Nacional antes das aulas pode voltar a vigorar. Na TV, programas de cunho erótico-sexual já começam a sofrer com o fenômeno da baixa audiência. Nas ruas, o patriotismo virou moda. Sinal de “novos” velhos tempos. Nos idos de 60, o então presidente Jânio Quadros, tido como um delegado de costumes, celebrizou-se não apenas pela vassoura na mão a varrer corruptos como também por proibir o biquíni na praia e multar apostadores do jogo de bicho e das corridas de cavalo. 

‘Moro me ajudou politicamente’, afirma Bolsonaro

Em entrevista em sua casa, presidente eleito também se refere a juiz da Lava Jato como ‘soldado que vai à guerra sem medo de morrer’

Roberta Pennafort / O Estado de S. Paulo

RIO - O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), definiu ontem o juiz Sérgio Moro como um “soldado que está indo à guerra sem medo de morrer” e afirmou que o magistrado terá mais poderes para combater a corrupção e o crime organizado no Ministério da Justiça do que teve até hoje à frente da 13ª Vara Federal Criminal em Curitiba. Em entrevista concedida ontem em sua casa, no Rio de Janeiro, Bolsonaro se comparou a seu futuro ministro e disse que “cresceu politicamente” a partir de episódios como a Operação Lava Jato e o escândalo do mensalão.

“O trabalho dele foi muito bem feito. Em função do combate à corrupção e à Operação Lava Jato, as questões do mensalão, entre outras, me ajudaram a crescer, politicamente falando”, disse o presidente eleito.

Bolsonaro descartou a possibilidade de a Lava Jato ser enfraquecida com a saída de Moro de Curitiba, alegando que outros juízes vão assumir o trabalho que vinha sendo feito pelo futuro ministro. A magistrada substituta na 13ª Vara Federal de Curitiba, Gabriela Hardt, ficará à frente dos processos até que seja escolhido um novo juiz titular (mais informações à pág. A8). O presidente eleito – que depois do atentado sofrido em setembro passado passou a contar com forte esquema de proteção em todos os seus deslocamentos – também comparou as restrições de segurança sofridas pelo magistrado às suas.

“Temos de reconhecer o trabalho dele. É um homem que perdeu a liberdade de comprar um pão na padaria, de passear com a família no shopping. Costumo dizer que não só ele, como eu, temos menos direito do que alguém com uma tornozeleira, tendo em vista a questão da segurança.

Supremo. Na eventualidade de abertura de uma futura de vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente eleito disse que não teria problema em perder o ministro par nomeá-lo para o posto. Em 2020, ao completar 75 anos, o ministro Celso de Mello terá de se aposentar compulsoriamente. No ano seguinte, outra vaga se abrirá com a saída de Marco Aurélio Mello.

“Não ficou combinado, mas ele, tendo um bom sucessor, estamos abertos a isso (ida de Moro para o STF). A decisão dele é difícil, está abrindo mão da carreira, 22 anos de serviço, para enfrentar um desafio. Não tem compromisso de tempo. Para mim, ele fica ad eternum lá (no ministério)”, afirmou ele.

Jornais e agências são barrados em entrevista coletiva

Equipe de Bolsonaro dá acesso somente a emissoras de televisão e sites; questionado, presidente eleito diz que não faz restrição

- O Globo

O staff do presidente eleito, Jair Bolsonaro, proibiu a entrada de parte dos profissionais de imprensa que aguardavam o começo de uma entrevista coletiva, na tarde de ontem. Apenas emissoras de televisão e sites foram autorizados a entrar no seu condomínio, na Barra da Tijuca, apesar da solicitação de credenciamento ter sido feita por todos os repórteres. Jornais e agências internacionais foram barrados.

Uma agente da Polícia Federal destacada para fazer a triagem dos veículos autorizados alegou questões “de espaço físico” para impedir a entrada de representantes de todos os jornais e das rádios presentes. Em outro momento, ela afirmou que a autorização dos profissionais era “de dentro para fora”, explicando que a ordem partiu de dentro da casa do Bolsonaro. Ao todo, 21 pessoas tiveram a permissão para ir à entrevista.

Questionado sobre os critérios para a seleção dos repórteres, Tercio Arnaud Tomaz, que se apresentou como assessor de comunicação do presidente eleito, afirmou que apenas TVs participariam da entrevista, apesar de profissionais de sites terem sido autorizados. É praxe, no entanto, que coletivas de autoridades permitam a participação de todos os meios profissionais de comunicação.

Durante a entrevista, questionado sobre o porquê de veículos impressos, como O GLOBO, Valor, “Folha de S.Paulo” e “Estado de S.Paulo”, além de agências internacionais, terem ficado fora da coletiva, Bolsonaro respondeu:

Indicação de Moro provoca críticas e elogios

Para Luiz Fux, do STF, a escolha atende aos anseios da população, enquanto o ex-ministro Ayres Britto diz que a ida do juiz para o governo põe em dúvida a independência do Judiciário; o meio político também se divide

Carolina Brígido, Cleide Carvalho, Natália Portinari, Sérgio Roxo, Dimitrius Dantas, Silvia Amorim e Amanda Almeida | O Globo

A indicação do juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça e Segurança Pública foi elogiada pelo ministro Luiz Fux , do Supremo Tribunal Federal (STF), por entidades de magistrados e de delegados da Polícia Federal, além de integrantes da força-tarefa da Lava-Jato. Eles destacaram, sobretudo, o trabalho de Moro no combate à corrupção. O ex-ministro do STF Ayres Britto foi voz dissonante. Para ele, a migração do juiz para o governo compromete a imagem do Judiciário, que deve zelar pela separação e independência dos Poderes.

Nomeio político, a decisão de Mo rode integrara equipe de Jair Bolsonaro (PSL) foi criticada por opositores do presidente eleito. Para eles, o novo cargo coloca em xeque a isenção do juiz à frente da Lava-Jato. Já apoiadores do capitão da reserva comemoraram, dizendo que Moro “estenderá seu rigor” ao Executivo.

O ministro Luiz Fux afirmou que a escolha atende aos anseios da população:

— Excelente nome. Imprimirá no Ministério da Justiça a sua marca indelével no com bate à corrupção e na manutenção das nossas instituições democráticas, prestigiando a independência da PF (Polícia Federal ), MP( Ministério Público) e Judiciário. A sua escolha é a que a sociedade faria, se consultada. É um juiz símbolo da probidade e da competência. Escolha por genuína meritocracia.

Já Ayres Britto afirmou que a decisão de Moro coloca em suspeição a independência da Justiça:

— O Judiciário se define pelo desfrute de uma independência que não pode ser colocada em xeque. Os magistrados devem manter o máximo de distância dos outros dois poderes. Isso não parece rimar com o espírito da coisa de um membro do Judiciário pedir exoneração e já se transportar, com mala e bagagens, para um cargo do Poder Executivo.

Pelo Twitter, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aprovou a indicação: “Moro na Justiça. Homem sério. Preferia vê-lo no STF, talvez (seja) uma etapa ”, escreveu, também em uma rede social .“A corrupção arruína apolítica e o país. Se Moro a combater, ajudará”, completou.

Monarco - Aurora da minha vida

Frederico Garcia Lorca: Volta de passeio

Assassinado pelo céu,
entre as formas que vão para a serpente
e as formas que buscam o cristal,
deixarei crescer meus cabelos.

Com a árvore de tocos que não canta
e o menino com o branco rosto de ovo.

Com os animaizinhos de cabeça rota
e a água esfarrapada dos pés secos.

Com tudo o que tem cansaço surdo-mudo
e mariposa afogada no tinteiro.

Tropeçando com meu rosto diferente de cada dia.
Assassinado pelo céu !

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Opinião do dia: Cármen Lúcia

Não há direito democrático sem respeito às liberdades, não há pluralismo na unanimidade, pelo que contrapor-se ao diferente e à livre manifestação de todas as formas de pensar, de aprender, aprender e manifestar uma compreensão do mundo é algemar liberdades, destruir o direito e exterminara democracia.

Impor-se a unanimidade universitária, impedindo ou dificultando a manifestação plural de pensamento, é trancar a universidade, silenciar estudantes e amordaçar professores. A única força legitimada a invadir uma universidade é a das ideias livres e plurais. Qualquer outra que ali ingresse sem causa jurídica válida é tirana, e tirania é o exato contrário da democracia.

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Cármen Lúcia, é Ministra do STF, na relatoria do processo das operações policias em universidades, 31/10/2018.

William Waack: Brasil, Trump e o PCC

- O Estado de S.Paulo

EUA seguem mesma política de Obama no tocante ao País: bem pouco interesse

Os americanos não perdem tempo e sinalizaram em menos de 24 horas ao presidente Jair Bolsonaro qual é a agenda da preferência deles. O tuíte de Trump para Bolsonaro falava em “military” e “trade” – em português, defesa e comércio. No dia seguinte o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo, pôs mais dois itens de caráter, digamos, “regional”, mas os itens que mais importam na visão americana deste pedaço do mundo: Venezuela e crime organizado.

Por mais que a campanha de Bolsonaro tivesse se empolgado com aspectos que a tornavam similar à famosa vitória de Trump, a recíproca não é verdadeira. Em relação a Obama, que tanto adora detestar, Trump prossegue a mesma política no tocante ao Brasil: relativamente bem pouco interesse.

Quando falou do Brasil recentemente, Trump utilizou uma linguagem ameaçadora. Acabara de encurralar México e Canadá numa revisão do acordo comercial que engloba os países da América do Norte. E aproveitou, então, no seu tom triunfalista habitual, que iria agora “atrás de Índia e Brasil”. Países que, na visão de Trump, tratam de maneira desleal empresas americanas.

Roberto Macedo: Bolsonaro precisa de uma reforma pessoal

- O Estado de S.Paulo

Esse enorme abacaxi caiu no colo de Bolsonaro, cuja propaganda andou dizendo "pode Jair se acostumando". Mas se não resolver esse e outros graves problemas, virá o "Jair já era".

Jair Messias Bolsonaro, capitão reformado do Exército, enfrentará em Brasília muitos e grandes problemas. Alguns, de enorme magnitude e de difícil solução, são carentes de reformas específicas, como a previdenciária e a tributária.

Mas ele precisa fazer também uma reforma de si mesmo, começando por cair na real e perceber que sua vitória não resultou de sua genialidade. Como disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, o ser humano é ele e as circunstâncias. Ou seja, suas ações pessoais são importantes, mas circunstâncias favoráveis ou não também podem contribuir, e muito, para seu sucesso ou fracasso. Bolsonaro foi claramente beneficiado por uma onda de descrença e desilusão com políticos tradicionais e com o lulopetismo. Essa onda veio também da insatisfação com a crise econômica, que entre outras mazelas trouxe enorme desemprego. Some-se a isso a corrupção endêmica, também envolvendo políticos, que, felizmente, passou a ser desnudada pelo Judiciário. E a falta de segurança que grassa pelo País, entre outros aspectos. Até a facada que sofreu em Juiz de Fora, um episódio lamentável, revelou-se circunstância favorável, pois estimulou a compaixão e a solidariedade de muitos eleitores e o poupou de debates de alto risco com outros candidatos.

O talento de Bolsonaro esteve em perceber essa onda favorável e surfar nela para que o povo o sufragasse nas urnas. Não é pouca coisa, mas sem essas circunstâncias o cenário eleitoral poderia ter sido outro. No fim, ele ganhou a eleição, mas também a imensa responsabilidade do cargo de presidente e dele se esperam soluções para os muitos e graves problemas de que o Brasil padece.

Zeina Latif*: O semblante do político

- O Estado de S.Paulo

A bronca é generalizada e vai além da crise econômica, reclama-se da ação estatal

Com as urnas apuradas, vieram os discursos do vencedor e do derrotado.

O derrotado sorria e exibia um semblante leve, quase aliviado. Um desavisado acharia que ele teria ganho a eleição. Fernando Haddad provavelmente sabe que o PT teria muitas dificuldades para governar e fazer o País crescer. Além do isolamento político do partido, a agenda petista não dá conta dos desafios da economia. E com 2022 logo ali, o partido estará na confortável posição de oposição. Que ela seja responsável, pensando no bem do País.

O vencedor, por sua vez, exibia semblante tenso e abatido. O desafio de governar passou a pesar sobre seus ombros. O Brasil não é um país fácil e o momento atual é particularmente difícil.

Não se sabe ainda qual o escopo da aguardada agenda liberal. As falas do futuro ministro da Economia são contundentes, mas ainda superficiais e conflitantes com as dos conselheiros políticos de Jair Bolsonaro. Caberá ao futuro presidente arbitrar os conflitos, superando seu desconhecimento de políticas públicas e a inexperiência na gestão pública dele e dos que o rodeiam.

A pouca experiência do novo governo seria menos preocupante não fossem o quadro econômico frágil, as reformas fiscais urgentes e a sociedade ansiosa por mudanças. Uma combinação assim não era vista, possivelmente, desde o governo do presidente Fernando Collor.

Merval Pereira: Não aprendeu nada

- O Globo

Derrotado por sentimento majoritário antipetista e antilulista, PT mantém-se na posição de dono da esquerda

Parafraseando Talleyrand, ministro dos Negócios Estrangeiros por quatro vezes e o primeiro primeiro-ministro da França com Luis XVIII, o PT não esqueceu nada, não aprendeu nada. Talleyrand se referia aos Bourbons, que reassumiram o poder na sequência da Revolução Francesa, que havia decapitado Luis XVI, e não entenderam os novos tempos. Foram derrubados novamente anos depois.

O PT, depois de ter sido derrotado por um sentimento majoritário antipetista e antilulista, mantém-se na posição de dono da esquerda brasileira, anunciando uma oposição sem trégua ao novo governo, a partir do patético discurso da derrota de Fernando Haddad. O fracasso parece ter-lhe subido à cabeça, e também à da presidente do PT, Gleisi Hoffmann.

Haddad insistiu na “prisão injusta” do ex-presidente Lula, e Gleisi, na antevéspera da eleição, disse que o presente ideal para Lula seria indultá-lo. Só no dia seguinte se dignou a enviar um voto de boa sorte através do Twitter. As urnas disseram o que pensam sobre isso.

Depois dos discursos contundentes do senador Cid Gomes e do rapper Mano Brown, que jogaram água no chope petista ao denunciarem os equívocos cometidos pelo partido, e seu distanciamento do povo, foi a vez do candidato terceiro colocado na corrida presidencial, Ciro Gomes, que adotou uma posição de bom senso e anunciou um claro rompimento com o PT.

Ascânio Seleme: O PT voltou

- O Globo

Não durou muito a frente democrática proposta pelo PT durante o segundo turno, como tentativa de reunião de partidos e lideranças de centro e centro-esquerda para se opor à candidatura de Jair Bolsonaro. Dois dias depois da derrota nas urnas foram suficientes para Fernando Haddad perder o centro da mesa para Gleisi Hoffmann, a estrela vermelha substituir a bandeira verde -amarela, e o discurso radical tomar o lugar do diálogo para o entendimento.

O PT retomou o seu ímpeto e, pelos primeiros movimentos depois de domingo, já dá para dizer como vai ser a sua oposição ao governo Bolsonaro. Será feroz. Dura e feroz. E, como sempre, o partido vai usar e abusar de palavras como ódio, intolerância, violência, entreguismo, fascismo. Suas lideranças já falam, dois meses antes da posse do presidente eleito, como se vivêssemos no limiar do apocalipse. E o tom é exatamente igual ao que o PT promete atacar.

Em 2014, quando o derrotado Aécio Neves pediu ao TSE a cassação da chapa vitoriosa de Dilma Rousseff e Michel Temer, o PT acusou o tucano de mau perdedor e antidemocrático. Agora, ataca o recém-eleito presidente com a franqueza do péssimo perdedor. Parlamentares discursam na Câmara e no Senado repetindo serem donos de “milhões de votos dos brasileiros que votaram no PT e contra o fascismo”. O líder do partido, deputado Paulo Pimenta, anunciou que vai “resistir ao consórcio Temer/Bolsonaro”.

Bernardo Mello Franco: O alerta de Marina

- O Globo

Para a ex-senadora Marina Silva, a fusão das pastas do Meio Ambiente e da Agricultura causará um ‘retrocesso incalculável’ no campo

A fusão dos ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura causará um “retrocesso incalculável” no campo. O alerta é de Marina Silva, que se diz apreensiva com a medida anunciada pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.

“Ele disse que ia rever a ideia, mas parece que foi só estratégia eleitoral”, critica a ex-senadora. Ela define a proposta como “desastrosa”. “Hoje um ministério fiscaliza, o outro é fiscalizado. Um licencia, o outro é licenciado. Como vão ficar os conflitos de interesses?”, questiona.

Para Marina, ministra do Meio Ambiente de 2003 a 2008, a dissolução da pasta põe em risco órgãos como Ibama e ICMBio. “A mensagem que está sendo passada é de incentivo à contravenção. Quem fará o combate à grilagem e ao desmatamento?”, pergunta.

Carlos Alberto Sardenberg: Falta combinar com os eleitores

- O Globo

É prioritário buscar o equilíbrio das contas públicas, começando pela principal fonte de desequilíbrio, a Previdência

Há dois grandes obstáculos à expansão da economia brasileira. No macro, é o desajuste das contas públicas, com os déficits anuais e a dívida crescente. No micro, é o ambiente de negócios desfavorável à atividade das empresas.

Dentro do primeiro, o maior problema está na Previdência, pública e privada, que gera déficits e desigualdades. No segundo, o principal entrave está no sistema tributário. As empresas pagam impostos elevados e gastam muito tempo, energia e dinheiro para pagá-los corretamente.

Há provas. Hoje, de cada R$ 100 que o governo federal gasta, R$ 50 vão para pagamento de aposentadorias e pensões. Há sete anos, eram R$ 32 , ou 32% da despesa geral. E o sistema previdenciário não arrecada o dinheiro necessário para o pagamento dos benefícios. Resultado: o governo gasta cada vez mais com aposentadorias (e, portanto, cada vez menos com todos os demais serviços e investimentos) e usa a receita de outros impostos para financiar as aposentadorias.

Míriam Leitão: Chances e riscos do superministro

- O Globo

Superministério da economia pode dar certo, mas submeter ao ruralismo as questões ambientais e climáticas é sair do século XXI

A união de ministérios da área econômica pode dar certo, a dos ministérios da agricultura e meio ambiente não tem essa chance. O superministério da Economia exigirá de Paulo Guedes capacidade administrativa no setor público. Ele só tem experiência no setor privado. Guedes defende Banco Central independente e ao mesmo tempo está falando sobre assuntos privativos do Banco Central. A briga com a indústria pode levar à modernização da economia brasileira, mas só se for bem feita.

O futuro ministro Paulo Guedes precisará de bons quadros nas áreas satélites, capacidade de gestão, foco nas principais tarefas e inteligência na comunicação. Terá que ter habilidade para desarmar as bombas do campo minado que é a administração pública. Além das muitas funções da Fazenda, estarão sob o controle dele orçamento, gestão, planejamento, indústria, comércio internacional. Pode agir como um bom maestro ou ser engolido pela máquina.

Houve duas experiências de superpoderes. Delfim Netto foi o czar da economia e os ministros setoriais se submeteram a ele, com alguns atritos. Na democracia, o mandonismo czarista não funciona. O que dá certo é liderança eficiente. No governo Collor houve a única experiência semelhante à que será tentada agora. Deu paralisia administrativa e uma gestão caótica. Tudo vai depender de como será feito.

Bruno Boghossian: Os contrapesos da praça

- Folha de S. Paulo

Supremo e Congresso devem protagonizar tensões na era Bolsonaro

O sistema de contrapesos da praça dos Três Poderes deve passar por novas tensões a partir de 2019. A quarta-feira (31) em Brasília teve uma prévia da dinâmica das relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário com a posse de Jair Bolsonaro e do próximo Congresso.

Pela manhã, parlamentares tentaram pegar carona na popularidade do presidente eleito para votar um projeto que pode enquadrar movimentos sociais como terroristas. O alvo é o MST, mas o texto fala em punir atos que tenham “motivação política, ideológica ou social”.

Opositores de Bolsonaro argumentam que já existem penas previstas para quem incendeia, saqueia ou depreda ônibus e outros bens públicos. Eles dizem que o texto restringe o direito à manifestação.

Relator do texto, o senador Magno Malta (PR-ES) tentou aprovar o texto a jato na Comissão de Constituição e Justiça. Seus adversários queriam ganhar tempo com a convocação de uma discussão mais ampla sobre o tema.

Roberto Dias: Nem todo avanço avança

- Folha de S. Paulo

Algoritmos combinam com democracia?

A primeira fala de Jair Bolsonaro como presidente eleito ocorreu numa rede social. O novo governo inteiro será conhecido por posts.

Muito confortável para quem governa, esse canal de comunicação enxuga o espaço do contraditório. Do ponto de vista do jornalismo, não é o caso de ficar chorando pelos cantos —a desintermediação é um dado da vida. Donald Trump, o rei do Twitter, levou dois meses para dar uma entrevista coletiva como eleito.

Fosse um problema jornalístico, já seria grande. Mais profundo é o buraco para a sociedade, pois a relação entre democracia e tecnologia se insinua diferente da imaginada.

“Após o fim da Guerra Fria, a sabedoria ocidental guiava-se por duas crenças: que a democracia liberal iria se espalhar pelo planeta e que a tecnologia seria o vento a empurrá-la”, escrevem Nicholas Thompson e Ian Bremmer em artigo neste mês na Wired. “O cenário atual da revolução digital é diferente”, dizem eles, mostrando como o regime ditatorial chinês se vale da computação.

A tecnologia beneficia não só regimes totalitários, afirma o sociólogo Paolo Gerbaudo em outro artigo deste ano. “Muitos movimentos populistas na história se caracterizaram por um espírito inovador.”

Vinicius Torres Freire: Superdúvidas na economia de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Ruído na informação cria dúvidas sobre câmbio, Previdência e até sobre a independência do BC

O presidente foi eleito faz quatro dias. Difícil, claro, que se esclarecessem dúvidas sobre o que Jair Bolsonaro fará na economia, muitas, dado o mistério que foi sua campanha. Mas não convinha criar mais confusão. Por exemplo.

Dúvida 1.
Dias antes de ser eleito, Bolsonaro falou de metas para o dólar. Nesta semana, Onyx Lorenzoni, ministro indicado para Casa Civil, disse algo (vago assim mesmo) sobre taxa de câmbio. Nesta semana, a equipe do programa econômico falou de vender reservas internacionais para abater dívida pública.

O superministro indicado para a Economia, Paulo Guedes, disse que poderia vender em tese até US$ 100 bilhões dos US$ 381 bilhões das reservas a fim de controlar uma desvalorização crítica do real (dólar indo a R$ 5).

Há fumaça nessa história de câmbio. Obviamente tratou-se do assunto no comando bolsonarista, mas, além de Guedes, ninguém entende do que se trata. Há fogo?

Luiz Carlos Azedo: O governo enxuto

- Correio Braziliense

“Bolsonaro falava em 10 ministérios. Agora, já são 15, incluídas duas polêmicas incorporações: Indústria e Comércio Exterior na Economia e Meio Ambiente na Agricultura”

A montagem de um governo mais enxuto, que caiba na Esplanada dos Ministérios, pode provocar uma crise no mercado imobiliário de Brasília, com o esvaziamento de dezenas de prédios e outros imóveis alugados pelo governo federal; afora isso, a ideia está sendo bem recebida pela opinião pública. É uma promessa que quase todos os candidatos fizeram, porém, muito difícil de cumprir.

Bolsonaro falava em 10 ministérios. Agora, já são 15, incluídas duas polêmicas fusões: a absorção da Indústria e Comércio Exterior pelo superministério da Economia, cujo titular será Paulo Guedes, um dos homens fortes do novo governo; e a incorporação do Ministério do Meio Ambiente pelo Ministério da Agricultura

No primeiro caso, a forte reação do lobby das indústrias provocou um recuo de Bolsonaro no segundo turno, mas acabou prevalecendo a intenção inicial. Ao anunciar a decisão, Paulo Guedes rebateu as críticas com o argumento de que a decisão fará bem à indústria, apesar dos industriais. A frase foi vista como uma demonstração de truculência e inabilidade política do novo ministro, mas precisa ser apreciada com mais objetividade e menos partidarismo.

A existência de um superministério da Economia é estigmatizada em razão do fracasso do Plano Collor, lançado pelo então presidente Fernando Collor de Mello, que havia confiado a pasta à economista Zélia Cardoso de Mello. O confisco das cadernetas de poupança, peça fundamental no plano para acabar com a hiperinflação, iniciativa voluntarista, virou um tiro n’água, porque frustrou fortemente a classe média que havia apoiado Collor, e o plano de combate à hiperinflação deu errado.

Entretanto, o trabalho feito pelo então Departamento de Indústria e Comércio, que havia substituído o antigo ministério, deixou o grande legado do governo Collor: abertura da economia brasileira à globalização. Na época, o então diretor de Planejamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luiz Paulo Velozzo Lucas, mais tarde eleito prefeito de Vitória pelo PSDB, foi convidado para o cargo. Entre os anos 1990 e 1992, sua equipe coordenou diversas ações para abrir e reestruturar a economia brasileira, entre as quais as negociações do Mercosul e da Rodada Uruguai do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), da Organização Mundial de Comércio.

José de Souza Martins: Democracia inacabada

- Eu & Fim de Semana | Valor Econômico

A polarização e o radicalismo que caracterizaram esta campanha eleitoral, sobretudo para a Presidência da República, não foram suficientes para evitar a exclusão de quase 42,5 milhões de brasileiros do processo eletivo, os que se abstiveram, os que votaram em branco e os que anularam o voto.

São os eleitores politicamente desalentados, os que não julgaram que os candidatos tivessem o adequado perfil para representá-los no exercício do poder. Se somarmos os votos e abstenções dos eleitores desalentados aos do derrotado, o eleito não teve o voto de 89,5 milhões de eleitores. Uma vez e meia o número dos que nele votaram.

Em princípio, democracia é assim mesmo. Eleitor não ganha nem perde. Ou ganha o país ou perde o país. Qualquer que seja o vencedor, vence para representar o povo, que é o dono do poder, e não para representar a si mesmo e os de sua facção. Quem vence tem que pensar também nas concepções de quem perde. Para juntar a todos em nome do direito à diferença e não para dividir o país.

Aqui, há muita confusão a esse respeito. Candidatos de esquerda e de direita não defendem suas candidaturas em nome do que a sociedade carece e quer, mas em nome de suas parcialidades. Faltam-nos partidos verdadeiros, com doutrina e princípios para referência dos candidatos. Falta nesses a formação política e a clareza da vocação, do chamado impessoal ao serviço da pátria.

Maria Cristina Fernandes: Bolsonaro encara a política de toga e farda

- Valor Econômico

Governo eleito blinda-se contra credores no Congresso

O cenário já anunciava um outro Jair Bolsonaro. Saíram os varais com lençóis pendurados e entrou uma parede com hera. O candidato estridente falando ao telefone e capturado por um celular agora era o presidente eleito, filmado em surpreendente serenidade pela lente do "Jornal Nacional" em sua casa. Atribuiu o discurso inflamado do domingo anterior à eleição ao clima de campanha, reconheceu a retórica agressiva, e até violenta, e pediu um voto de confiança aos eleitores de seus adversários para que possa se mostrar capaz de fazer diferente e unir o Brasil.

O presidente eleito não vai esperar que se cumpra seu vaticínio de campanha, o de ver o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva apodrecer na cadeia, para tentar tomar seu lugar no imaginário nacional. A começar da autoridade que paira acima de todos os embates de seu entorno. Quanto maiores as divergências, mais se torna imprescindível sua presença administrando ora a favor de um, ora a favor do outro com recurso à religião da qual o lulismo se serviu com mais parcimônia.

A partir de 1º de janeiro, para todas as suspeitas que recaírem sobre seu governo, o principal porta-voz será o apóstolo João, capítulo 8, versículo 32. Projeto saiu do Palácio com isenção de impostos sobre ração animal? Morte com tortura é registrada como homicídio de autoria desconhecida? A Lei de Acesso à Informação não está sendo cumprida? E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.

A Bíblia não bastará até porque seus arautos disputam espaço com outros segmentos da base do bolsonarismo. Quatro dias antes da eleição, a Frente Parlamentar Evangélica lançou um documento de 60 páginas mais bem acabado do que o plano de governo registrado pelo então candidato. Contrapõe-se ao monopólio da representação pelos partidos políticos e palpita em tudo, inclusive na infraestrutura, área sobre a qual os militares da reserva que cercam Bolsonaro parecem ter franco domínio.

Ribamar Oliveira: As reservas podem aumentar ainda mais

- Valor Econômico

Com o ajuste fiscal, o fluxo de recursos para o Brasil deve crescer

Se o governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro, conseguir aprovar as reformas necessárias para o reequilíbrio das contas públicas brasileiras, e todos nós torcemos para que isso aconteça, é muito provável que as reservas internacionais do país, que já são consideradas muito elevadas, aumentem ainda mais nos próximos anos.

Nesse cenário, com a avaliação do mercado de que o Brasil não corre mais risco de insolvência fiscal, é muito provável que ingressem muitos investimentos externos no país. "Eu não sei quanto, mas vai entrar muito dinheiro", avaliou Nathan Blanche, um dos sócios-fundadores da Tendências Consultoria Integrada.

Em conversa com o Valor, ele observou que as melhoras ocorridas nos mercados de juros e câmbio decorreram de ações de operadores em virtude da eleição de Jair Bolsonaro e da indicação de Paulo Guedes para o futuro Ministério da Economia. "Ninguém ainda, quer seja brasileiro, quer seja estrangeiro, tomou novas decisões de investimento de médio e longo prazo", explicou. "Isso só vai ser feito quando a solvência fiscal [do país] permitir."

Nesse momento, avaliou Blanche, os investimentos retornarão ao Brasil, mesmo diante da expectativa de redução da atividade econômica no mundo, como alguns estão prevendo. "O Brasil está barato e tem grandes oportunidades de investimento", disse. Há no mercado quem acredite que até US$ 100 bilhões poderão entrar no país.

Ricardo Noblat: Um freio no capitão e na sua tropa

- Blog do Noblat | Veja

Autoritarismo, não!

Será preciso mais do que um soldado e um cabo para amordaçar a justiça. Foi o que ficou provado, ontem, quando o Supremo Tribunal Federal (STF), pela unanimidade dos ministros presentes, declarou inconstitucionais as ações policiais autorizadas por Tribunais Regionais Eleitores às vésperas das eleições de domingo último e que atingiram pelo menos 35 universidades país a fora.

Na Universidade Federal da Paraíba, por exemplo, foi apreendida uma faixa onde estava escrito: “Mais livros. Menos armas”. O diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense foi obrigado a retirar da frente do prédio uma faixa com a inscrição: “Abaixo o fascismo”. Um juiz de Petrópolis, no Rio, confiscou a lista dos estudantes inscritos para um congresso de Direito.

“Polícia só entra na universidade para estudar”, ensinara o ministro Luís Roberto Barroso tão logo soube do que ocorrera. A ministra Cármen Lúcia, em decisão liminar, suspendeu de imediato os efeitos das ações. “Essas práticas contrariam a Constituição. Dificultar a manifestação plural de pensamento é amordaçar professores e alunos”, completou Cármen na sessão do STF.

Dos 11 ministros do tribunal, dois estavam viajando. Mas antes de viajar, Dias Toffoli, presidente do STF, manifestou-se na mesma linha de Cármen. E dos Estados Unidos, onde se encontrava, o ministro Luiz Fux fez questão de gravar um curto pronunciamento para mostrar que está do mesmo lado dos seus pares. O mais incisivo deles foi Celso de Mello, o decano da Corte.

Mello bateu duro em quem pretenda enfraquecer a democracia por estas bandas: “Regimes democráticos não convivem com prática de intolerância ou comportamentos de ódio. Grupos minoritários têm legítimo direito de oposição, uma vez que os grupos vencidos no processo eleitoral têm expresso mandato para opor-se. A voz da oposição não pode jamais ser silenciada”.

Uma vez que a liminar concedida pela ministra Cármen Lúcia ficaria de pé até que fosse confirmada ou revogada em sessão plenária, o STF poderia ter deixado para examiná-la no futuro, talvez depois das férias de fim de ano. Ao fazê-lo já, e da maneira que o fez, o tribunal quis mandar um forte recado a quem interessar possa: a depender dele, o autoritarismo não voltará.

Para estancar a sangria
A tentação de Moro

A guinada do juiz: Editorial | Folha de S. Paulo

Ao se aproximar do novo governo, Sergio Moro perde a isenção necessária para seguir à frente da Lava Jato

A sofreguidão com que o juiz federal Sergio Moro atendeu ao chamado do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), poucas horas após o fechamento das urnas, espantou até mesmo os observadores mais atentos da trajetória do magistrado.

Em entrevistas na segunda (29), o futuro mandatário mencionou Moro como um bom nome para o Ministério da Justiça ou uma vaga no Supremo Tribunal Federal, pelo papel que exerceu no combate à corrupção nos últimos anos.

No dia seguinte, o juiz disse que se considerava honrado pela lembrança e imediatamente passou a dar sinais de entusiasmo pela ideia do capitão reformado. Ficou acertado um encontro para que os dois se entendam nesta quinta (1º), no Rio.

Os movimentos surpreendem porque contrariam a reputação que o magistrado construiu com zelo nos quatro anos em que conduziu os processos da Lava Jato.

Sai de cena o profissional sóbrio que aplicou a lei com rigor e mandou para a prisão os figurões que se associaram para saquear os cofres públicos. Sobe ao palco o juiz inebriado pela adoração popular e pela chance de entrar na política.

Recuar no meio ambiente é errar antes da posse: Editorial | O Globo

Diluir na pasta da Agricultura ministério que trata do assunto não interessa ao mercado

Idas e vindas em anúncios feitos por futuros governantes podem ser entendidas como naturais neste momento, devido à fase de montagem de equipes. Mas sempre devem ser evitadas, porque afetam a imagem do governo que vai assumir, fragiliza sua posição antes do começo do jogo.

Se envolverem assuntos estratégicos, os danos são piores. É o que acaba de acontecer no caso da equivocada transferência das funções da pasta do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura, ideia aceita, mas depois afastada por Jair Bolsonaro diante de bem fundamentadas críticas.

Mas, na terça-feira, o presidente eleito voltou atrás mais uma vez, para reafirmar a diluição da pasta do Meio Ambiente na burocracia que trata da produção agropecuária.

O fato de esta proposta originalmente ter sido do presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antonio Nabhan Garcia, preocupa, porque indica prevalecer a visão atrasada de que a produção deve preponderar sobre a conservação, quando, na verdade, as duas esferas precisam se harmonizar. Afinal, a produção depende de solo preservado e da água disponível. Se florestas forem degradadas, o regime de chuvas será afetado, e a agropecuária padecerá.

Disposição bem-vinda: Editorial | O Estado de S. Paulo

O presidente eleito Jair Bolsonaro declarou que pretende atuar para que a reforma da Previdência seja aprovada ainda neste ano, antes de sua posse. “Semana que vem estaremos em Brasília e buscaremos junto ao atual governo, de Michel Temer, aprovar alguma coisa do que está em andamento lá com a reforma da Previdência, se não com todo, com parte do que está sendo proposto, o que evitaria problemas para o futuro governo”, disse Bolsonaro em entrevista à TV Record.

É reconfortante saber que o presidente eleito tem ciência de que, sem uma reforma da Previdência, seu governo corre o risco de ter “problemas” – um eufemismo singelo para o colapso das contas públicas e a consequente paralisia da máquina do Estado, sem falar dos efeitos funestos para o restante da economia.

Havia dúvidas sobre o real compromisso de Bolsonaro com a reforma. Em sua trajetória como parlamentar, por ter servidores públicos como sua base eleitoral, ele sempre se posicionou contra mudanças no sistema previdenciário. Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro mal tocou no assunto – e, quando o fez, foi para dizer que qualquer reforma da Previdência deveria ser feita de forma “gradual”, pois, do contrário, “não passa” no Congresso.

Agora como presidente eleito, Bolsonaro felizmente manifestou disposição clara de realizar essa reforma o mais rápido possível, ainda que mantenha o tom cauteloso sobre a extensão das mudanças. “A melhor reforma da Previdência é aquela que passa no Parlamento”, disse o presidente eleito. “Se quiser impor 65 anos (como idade mínima), a chance de derrota é muito grande”, afirmou Bolsonaro, propondo então a adoção de uma idade mínima progressiva, crescendo ano a ano, até atingir os 65 anos que constam do projeto encaminhado por Michel Temer.

Discussão sobre uso das reservas é extemporânea: Editorial | Valor Econômico

Há várias áreas da economia brasileira com problemas graves, como as contas públicas, mas o setor externo não é um deles. Ao contrário: o país só não afundou desde a crise de 2008 e subsequentes porque passou a ter reservas internacionais suficientes. O flanco historicamente vulnerável desapareceu com a acumulação de US$ 380 bilhões. Paulo Guedes, indicado superministro da Economia do novo governo, fez anteontem um polêmico exercício teórico, pouco recomendável para quem sequer assumiu o cargo, ao dizer que não haveria problemas em gastar US$ 100 bilhões diante de um ataque especulativo. O efeito colateral da ação, disse, seria positivo, por abater a gigantesca dívida interna.

Os argumentos de Guedes são conhecidos dos economistas - o país tem reservas em excesso e seu custo não é desprezível. Entretanto, ninguém ousou gastá-las, por bons motivos. O Banco Central sempre deu primazia à atuação via swaps, preferindo queimar reais ou ampliar (reduzir) a dívida pública em vez de diminuir seu estoque de moedas fortes. É uma herança da tempestade de crises da dívida que abateu o país em 1982 e que nunca mais se repetiu desde 2008. É um tabu escorado na precaução, mas não um dogma. Questioná-lo é saudável, desde que na hora certa.

Há reservas em excesso? Desde que a China acumulou US$ 4 trilhões e os países emergentes, após a crise asiática, seguiram o mesmo caminho de acumular dólares, o Fundo Monetário Internacional começou a avaliar o nível adequado dessa proteção. Um princípio de ação subjacente desses países é que eles passaram a reunir dólares para não ter de depender daqueles desembolsados pelo Fundo, cheios de condicionalidades politicamente venenosas. A instituição, no entanto, desenvolveu parâmetros de avaliação que são importantes, porque tecnicamente relevantes e globalmente comparáveis.

80 Anos de “Vidas Secas”

Psicanálise da Vida Cotidiana

Carlos de Almeida Vieira | Veja

A editora Record nos brinda nesse ano com uma edição comemorativa do romance Vidas Secas, do nosso querido e um dos maiores escritores da Literatura Brasileira Graciliano Ramos. Minhas leituras do “velho Graça” remete à minha adolescência, na cidade de Maceió, onde tive a alegria de morar vizinho a uma casa de sua família, na rua do Macena, hoje, rua Dr. Cincinato Pinto, e ser amigo de um parente, Marcelo Ramos, colega do Colégio Diocesano, dos Irmãos Maristas.

Restrinjo-me hoje, não a falar do romance, mas tirar proveito das próprias palavras de Graciliano, editadas no início do livro, uma carta datada de 7 de maio de 1937, escrita por Graciliano Ramos, no Rio de Janeiro, para sua esposa Heloísa Ramos, que se encontrava em Alagoas. Diz a carta:

“Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma de uma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. É a quarta história feita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados. Tento saber o que eles têm por dentro”.

“Baleia” foi escrito como conto, logo após, anexada ao romance. É uma terna e triste verdade de que somos “baleia”, somos animais que sobreviviam ou sobrevivem da dependência dos outros, uma questão que repousa em toda a obra do Graça – a subserviência a serviço do outro-patrão; do outro explorador; mas também da alegria de servir, o que atesta a felicidade de baleia em viver na companhia de Juliano. Somos dependentes, às vezes estúpidos, no entanto também somos generosos na consideração pelo outro. “Sempre ficamos esperando preás”.

Podemos entender a metáfora do preá, usada pelo Graça. Olha que curioso: preá é um termo de origem tupi, “apé-reá (o que mora no caminho, o que se encontra nos caminhos”). Roedor herbívoro comum no Nordeste, de carne muito apreciada, “os olhos da treva”, no dizer de Gilvan Lemos. Graciliano nos faz pensar que muitos de nós somos devorados para alegria dos outros, o que torna a nossa vida, “Vidas secas”.
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Carlos de Almeida Vieira é alagoano, residente em Brasília desde 1972. Médico, psicanalista, escritor, clarinetista amador, membro da Sociedade de Psicanálise de Brasília, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e da International Psychoanalytical Association

Saravá disposição à baiana

Jorge Amado ganha biografia que narra sua trajetória de operário das letras e da política, um comunista que sempre amou o diálogo

Jan Niklas | O Globo

Em 88 anos de vida, Jorge Amado (1912-2001) escreveu mais de 40 livros, tornando-se o escritor mais popular do Brasil em sua época. Atuou ainda como jornalista e político, militando por anos no Partido Comunista Brasileiro. Viu desde a ascensão de regimes autoritários pelo mundo, nos anos 1930, até a abertura democrática brasileira na década de 80. Narrar a prolífica vida desse autor, que se confunde com a própria história da literatura e da política do Brasil, é o desafio que a jornalista e ex-curadora da Flip Joselia Aguiar assume no livro “Jorge Amado: uma biografia” (Todavia).

— Como se diz na Bahia, ele era um homem “avexado”, que trabalhava muito. A imagem dele é muitas vezes ligada a essa coisa contemplativa, à preguiça baiana. Dorival Caymmi, que era muito amigo dele, brincava com isso. Mas não: Jorge acordava às 4 horas da manhã, e quando não estava ocupado com livros estava escrevendo cartas ou participando de reuniões políticas —diz Joselia.

Entre dezenas de entrevistas, consultas a arquivos e cartas trocadas pelo autor com nomes como Erico Verissimo, Otto Lara Resende e José Olimpyo, a extensa pesquisa da autora durou sete anos — e rendeu descobertas.

Uma delas é o livro “Rui Barbosa nº 2”, que ainda não havia sido consultado por pesquisadores e estava guardado na Fundação Jorge Amado. Escrito pelo baiano em 1930, teria sido seu segundo romance publicado, mas acabou descartado pelo autor.

Coral Edgard Moraes e Getúlio Cavalcanti - Escuta Boêmio

Carlos Pena Filho: Olinda, do alto do mosteiro, um frade vê

(A Gilberto Freyre)

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
a linha do horizonte.

As paisagens muito claras
não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
ou claridade somente.

Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tem verdágua e não se sabe,
a não ser quando se sai.
Não porque antes se visse,
mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem
no olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
Só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino
Que possa haver nas vivendas
das aves, nas áreas altas,
muito além do além das lendas.

Os acidentes, na luz,
não são, existem por ela.
Não há nem pontos ao menos,
nem há mar, nem céu, nem velas.
Quando a luz é muito intensa
é quando mais frágil é:
planície, que de tão plana
parecesse em pé.