quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Christopher Garman* - Ato mostra força eleitoral de Bolsonaro

Valor Econômico

Ato mostra realidade que contraria análises que previam uma pacificação do país após a eleição de 2022 e um declínio na relevância política do ex-presidente

Sob qualquer métrica, o ex-presidente Jair Bolsonaro atingiu seus objetivos com a manifestação realizada na Avenida Paulista no último domingo. Acuado diante de investigações contra ele e membros de seu círculo pessoal, Bolsonaro deu uma demonstração de força política.

Dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo apontam que entre 600 mil e 750 mil pessoas compareceram ao ato. Ainda que esses números não sejam precisos - ou sejam até mesmo inflados - as imagens deixam claro que a manifestação teve um tamanho considerável. Por sua vez, o pedido do ex-presidente para que os participantes evitassem cartazes criticando diretamente o Judiciário foi atendido - o que atenua o risco (relevante) de dar mais munição a ações judiciais contra ele. Finalmente, as grandes lideranças nacionais de direita compareceram ao evento.

A manifestação pode ser examinada sob duas óticas: suas repercussões de curto prazo ou que ela indica sobre o futuro da política brasileira. A segunda é bem mais relevante que a primeira.

Lu Aiko Otta - Receitas seguiram fortes em fevereiro

Valor Econômico

Desempenho da arrecadação é recebido com alívio nos bastidores da equipe econômica

Fevereiro ainda não acabou, mas os dados preliminares mostram que a arrecadação tributária seguiu robusta. Haverá queda em relação ao recorde histórico de janeiro. Por motivos sazonais, os ingressos de receita são maiores no primeiro mês do ano do que no segundo. Mas tudo indica que haverá, novamente, uma surpresa positiva.

O desempenho da arrecadação é recebido com alívio nos bastidores da equipe econômica. Também há grande torcida para que se confirme o anúncio, hoje, de um forte superávit primário nas contas do governo central em janeiro. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou um saldo positivo de R$ 77,9 bilhões para o mês.

Assim, ganha corpo a hipótese de o governo não tomar a impopular decisão de contingenciar despesas para cumprir a meta de zerar o déficit público neste ano eleitoral. A decisão será anunciada no dia 22 de março, com a divulgação do relatório bimestral com projeções de receitas e despesas para o ano.

Vinicius Torres Freire - Dinheiro largado no chão do governo

Folha de S. Paulo

Revisão de gasto é necessária para que país seja mais justo e eficiente, não apenas o governo

O governo antecipou o pagamento de R$ 30,1 bilhões em precatórios deste ano. Rendeu economia de R$ 2 bilhões em juros etc. contou a ministra Simone Tebet (Planejamento e Orçamento) a este jornalista. Não precisou bulir com ninguém, não cortou serviço ou benefício. Achou uma nota de R$ 100 no chão. Há outras por aí.

É muito dinheiro, R$ 2 bilhões. Faltam coisas tão elementares como ultrassom e remédio em hospital público, carteiras e material de limpeza em escolas etc.

É pouco dinheiro. Equivale a 0,1% do total da despesa federal em 2023, que foi de R$ 2,1 trilhões.

É dinheiro bem gasto? É pergunta necessária, claro, para qualquer item da despesa.

É preciso, possível ou recomendável cortar todos os ganhos obtidos com revisão de gastos e programas do governo? Não. Por exemplo, afora milagres, jamais será possível fazê-lo nas despesas com saúde pública, em que a necessidade é feia.

Igor Gielow - Recado da Paulista para Lula vai além de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Eleição na capital é teste para a musculatura antipetista apresentada na avenida

Se a multidão levada à avenida Paulista no domingo (25) de certa forma encarnou um epitáfio do poderio do bolsonarismo como forma de pressão de seu líder sobre as instituições, há sinais de uma movimentação social que deveria preocupar Lula (PT) e seu governo.

Jair Bolsonaro (PL) não ficou um centímetro mais distante das agruras judiciais que o esperam devido ao comportamento golpista por causa dos milhares que envergaram verde e amarelo. Seu tom amedrontado, deixando o serviço sujo para o pastor Silas Malafaia, confirma essa realidade.

Assim, fica fácil para o governo tergiversar e a esquerda em geral repetir o erro usual de tachar a totalidade dos presentes ao evento pseudoreligioso de gado, fascista ou algo do gênero.

Bruno Boghossian - Tarcísio perdeu o CPF na Paulista

Folha de S. Paulo

Se aliados descrevem o governador como um equilibrista, falta explicar por que ele sempre cai para o mesmo lado da corda

Tarcísio de Freitas disfarçou mal. Pegou o microfone, apertou velhos botões do patriotismo ("estamos aqui para celebrar o verde-amarelo") e lançou palavras genéricas sobre liberdade. Enquanto colegas exibiam uma dose de orgulho golpista, ele disse que era preciso entender um tal "desafio da representatividade".

O governador paulista tentou fingir que aquele era um comício normal, num domingo qualquer. Exaltou obras de infraestrutura hídrica, citou um questionável milagre de expansão de ferrovias e disse ser grato a seu líder político —sem mencionar que os dois só estavam ali porque um deles corre o risco de ser preso por preparar um golpe de Estado.

Mariliz Pereira Jorge - Gente ignorante ganha eleição

Folha de S. Paulo

Tratar o bolsonarismo como um movimento de elite em 2024 é puro elitismo

É quase irresistível não fazer piada sobre os participantes da manifestação convocada por Jair Bolsonaro. Tudo tão caricato, mas o que vimos é mais alarmante do que cômico. Em público, integrantes do governo Lula ironizaram, enquanto o presidente reconheceu que foi "grande". Pelo menos temos um adulto na presidência.

Tanto faz se foram 185 ou 700 mil, era gente para dedéu na rua, sem falar de lives que reuniram mais de 200 mil pessoas e da mobilização nas redes, na quantidade de artigos, muitos desmerecendo o significado do ato, além dos que se lambuzaram em etarismo, racismo e elitismo. Por mais engraçado que seja, as senhoras que entoam Geraldo Vandré devem acreditar que lutam pela democracia e talvez estejam dispostas a pegar em armas para defendê-la da ditadura em que acreditam viver. O nível de dissonância cognitiva é grande, mas produzir meme não dissolve essa massa antidemocrática.

Wilson Gomes* - Construir pontes ou afiar facas?

Folha de S. Paulo

Em um cenário de radicalização, Lula precisa ponderar o que fala

Na semana passada, argumentei que Lula estava diante de uma escolha crucial entre abraçar ou rejeitar a "via bolsonariana".

Nos últimos quatro anos, vimos que governar é fazer declarações e decidir que se vai falar só para os seus, mesmo que sejam uma minoria, criar inimigos, provocar o outro lado, polemizar sempre, além de mostrar-se forte e viril, popular e amado ou vítima e vulnerável, conforme a conveniência.

Lula hesita, mas vai ter que optar. Afinal, ou ele constrói pontes ou afia facas; ou investe em uma nova maioria composta com quem não lhe fez juramentos de fidelidade e ainda o olha com desconfiança ou aposta tudo nos seus crentes e se assume como líder de seita.

O recente episódio de radicalização dos lulistas deveria servir como uma lição sobre as consequências da adoção da abordagem bolsonariana.

Marcelo Godoy - A prisão que desafia Moraes

O Estado de S. Paulo

Se há erro no caso de Martins, ele deve ser solto; a PF tem como saber se prova da defesa é válida

A virtù e o direito eram para Cícero premissas, o núcleo fundador de seu tratado sobre a República. Não é por outra razão que Francesca Nenci, ao analisar a obra De Re Publica do pensador romano, afirma que, por meio de uma concepção da virtude (virtus) estritamente ligada ao direito, o diálogo de Cícero se sustenta em um sistema de valores próximos à tradição ocidental do chamado republicanismo. A teoria ciceroniana tem como base a ideia de que o homem tem por fim natural a vida em sociedade onde possa realizar a parte melhor de si mesmo justamente no âmbito do Estado, como cidadão, em sua vita activa. O ministro Alexandre de Moraes conhece bem essas páginas. Poucos em Brasília sabem como ele a importância da virtù para um homem público. Sua trajetória é testemunha disso.

Poesia | Quando olho para mim, de Fernando Pessoa

 

Música | Marisa Monte e Paulinho da Viola - Dança da Solidão

 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Usar multidão contra a Justiça mostra que Bolsonaro não muda

O Globo

Não é tolerável numa democracia que ex-presidente use sua força política para atacar investigação sobre golpe

Alvo de investigação da Polícia Federal sobre tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente Jair Bolsonaro liderou uma gigantesca manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo. Quarteirões ficaram lotados com manifestantes vestindo camisas amarelas. Caravanas de ônibus chegaram de todo o país. Havia veículos de Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Pernambuco. A estratégia era evidente desde antes do ato: usar as ruas para tentar proteger Bolsonaro da Justiça. Isso ficou explícito quando o próprio Bolsonaro, microfone em mãos, afirmou querer “passar uma borracha no passado”.

As suspeitas sobre Bolsonaro, ministros e apoiadores são graves. Elas devem ser investigadas a fundo e, comprovada culpa, a punição deve ser severa. Tramar para subverter a vontade expressa pelo voto popular é o crime mais grave numa democracia. “Passar uma borracha”, como quer Bolsonaro, tornaria mais provável um novo plano de golpe no futuro. Seria também um ataque intolerável à noção, basilar numa democracia, de que todos são iguais perante a lei. Quem consegue atrair multidões para manifestações deve receber o mesmo tratamento dado a qualquer suspeito. Não dá para aceitar esse subterfúgio para pressionar a Justiça.

A demanda por anistia chegou ao absurdo quando Bolsonaro admitiu a existência do documento conhecido como “minuta do golpe”. “Agora, o golpe é porque tem uma minuta de um decreto de Estado de Defesa. Golpe usando a Constituição? Tenham santa paciência”, disse Bolsonaro. Na versão dele, o rascunho de decreto encontrado na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, instalando Estado de Defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), era inofensivo. Nada mais longe da verdade. O objetivo da minuta era mudar o resultado das eleições de 2022, vencidas por Luiz Inácio Lula da Silva. De constitucional, não tinha nada. A partir da delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, a PF investiga os indícios de que o ex-presidente tenha participado da redação final do texto.

Merval Pereira - Sinal de alerta

O Globo

Infelizmente, dependemos do surgimento de um líder equilibrado e popular para colocar o trem no trilho novamente

Há dois aspectos a analisar em relação à manifestação bolsonarista de domingo na Avenida Paulista. O primeiro, mais superficial, é a tentativa de escapar de punições pela marcha golpista que culminou com a invasão da Praça dos Três Poderes em janeiro de 2023. Não há nenhuma razão para que seja levada a sério. A pressão popular não tem força para paralisar a investigação em andamento, já praticamente encerrada com a definição de um quadro claro de frustração de um golpe de Estado.

Havia o temor de que a prisão de Lula, depois de condenado por duas instâncias da Justiça, como rezava a lei na ocasião, pudesse levar a um confronto, e nada aconteceu. Nada acontecerá também com uma eventual prisão de Bolsonaro.

O outro aspecto, esse mais profundo, é a resiliência de uma liderança radicalizada de extrema direita, apesar de tudo o que aconteceu no país desde que o capitão chegou ao poder por circunstâncias alheias a suas capacitações.

Míriam Leitão - A encrenca que o ato não resolve

O Globo

Bolsonaro mostra que consegue levar um grande público às ruas, mas não é com aglomeração que ele se livrará das contas que têm que prestar à Justiça

O ex-presidente Jair Bolsonaro pretendia com a convocação de seus seguidores para a Paulista ter uma “fotografia”, como disse. Demonstrou que consegue levar muita gente para a rua e isso já se sabia. Contudo, não é de mais uma aglomeração que ele precisa. Bolsonaro tem que saber como responder a todas as dúvidas sobre a tentativa de golpe de estado que ele conduziu. Ele produziu contra si abundantes provas. Essa é a encrenca que a manifestação não resolve. No ato, ele acabou comentando o que alegava desconhecer, a minuta do decreto golpista. O ex-governante disse que aquele documento não era golpe, apenas previa estado de sítio, estado de defesa, convocação do conselho da República. Tudo previsto na Constituição, como ele disse. No final, isso o complica um pouco mais na investigação da Polícia Federal.

Com a fotografia ele queria, claro, ameaçar quem tem a responsabilidade de pedir e determinar sua prisão. Esse era o objetivo, mostrar que ele tem o povo ao lado dele. Não surtirá efeito. O que precisa agora é ter bons argumentos para os seus interrogatórios, boas defesas para os processos aos quais responde e responderá pelos crimes que cometeu. Bolsonaro não falou diretamente contra o ministro Alexandre de Moraes e terceirizou esse papel para Silas Malafaia, que distorceu a história recente do país.

Luiz Carlos Azedo - Ato pró-Bolsonaro mostra sua resiliência política

Correio Braziliense

Bolsonaro foi cauteloso, num ano de eleições municipais, para não se isolar politicamente. Muito mais do que por temor a uma eventual prisão, que agora o transformaria em vítima

Há controvérsias sobre o número de participantes do ato em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, domingo, na Avenida Paulista. O Palácio dos Bandeirantes, por meio da Secretaria de Segurança Pública, inflacionou os números para 600 mil pessoas, chegando a 750 mil se incluídas as ruas adjacentes. Imagens da multidão de apoiadores são usadas nas redes sociais de Bolsonaro para corroborar essa avaliação. O Monitor do Debate Político Digital da USP, grupo de pesquisa que o cientista político Pablo Ortellado coordena, também utilizando imagens e inteligência artificial para identificar as cabeças dos participantes, apontou a presença de 185 mil. Mesmo assim, é muita gente.

Essa é diferença é importante para avaliar o grau de mobilização dos bolsonaristas que vestem amarelo, mas o problema para o governo Lula são os que não se vestem de “patriotas” nem estavam lá, mas apoiam Bolsonaro e também avaliam que o fato de estar sendo investigado em razão do 8 de janeiro de 2023 é uma perseguição política. O objetivo do ato claramente foi demonstrar apoio ao ex-presidente, que, na semana passada, prestou depoimento à Polícia Federal (PF) e permaneceu calado, como os generais Walter Braga Netto e Augusto Heleno, ex-ministros do seu estado-maior na Presidência.

Andrea Jubé - Do batismo ao trio, Bolsonaro recorre à religião

Valor Econômico

Governo Lula e a esquerda precisam reagir com uma resposta com teor religioso, mas em esferas distintas

Quem não se lembra da cena? Era agosto de 2016, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff caminhava para o fim, o PT agonizava, e o então deputado federal Jair Bolsonaro se deixou batizar no rio Jordão, em Israel, pelo pastor Everaldo Pereira, de uma das ramificações da Assembleia de Deus. Tudo registrado pelas câmeras, e depois replicado nas redes sociais.

Além de religioso, Everaldo também era presidente nacional do PSC, ao qual Bolsonaro era filiado. Na ocasião, o deputado fluminense já percorria o país como pré-candidato à Presidência, e tentava criar laços com o público evangélico.

Meses depois, Bolsonaro trocou o PSC pelo PSL, e se elegeu presidente. Em 2020, o pastor Everaldo foi preso, acusado de corrupção na área de saúde, por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) - na mesma operação, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, também do PSC, perdeu o cargo. Everaldo foi solto um ano depois, tornou-se vice-presidente do Podemos, e o resto é história.

Carlos Andreazza - Vestiu a toga e foi à missa

O Globo

Não houve festa. Não daquelas, pagas por associações de magistrados, em que o empossado canta para empresário que tem pendências no Supremo. Flávio Dino vestiu a toga e foi à missa.

Posse discreta; não livre — Deus sempre vendo — de prévia reunião VIP. Modalidade de folia petit comité. Há imagens. Daniela Lima, da GloboNews, documentou. Numa sala contígua ao plenário, ministros em rodinhas com enrolados cujo foro é o STF.

Posse discreta e concorrida, não convidado o comedimento, ausente a impessoalidade, barrada a prudência.

Estava lá, num dos bolinhos, sorridente, com o sorridente imperador do Senado Davi Alcolumbre, o ministro Juscelino Filho, deputado pelo Maranhão, cujas remessas de emendas a municípios do estado estão sob investigação. O maranhense Dino — ex-colega de ministério do investigado — é o relator. Declarar-se-á impedido?

Rana Foroohar* - O comércio global precisa de revisão

Valor Econômico

Correção de desequilíbrios de longo prazo entre países superavitários e deficitários deveria estar no topo da agenda da OMC

John Maynard Keynes previu os atuais problemas comerciais. Em 1944, em Bretton Woods, ele defendeu um sistema comercial global que visasse os desequilíbrios persistentes entre os países superavitários e os deficitários, em vez de o policiamento de violações comerciais pontuais. Pena que não foi isso que conseguimos.

Com o início da 13º reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) ontem, suspeito que a discussão em torno do comércio continuará sendo pequena e tecnocrática. Isso ignora o principal problema, que é o fato de os desequilíbrios de longo prazo entre os países deficitários e as nações superavitárias terem criado uma economia e uma política insustentáveis ao redor do mundo.

Corrigir isso exige mais do que ajustes graduais. Requer uma reorganização radical do sistema comercial global. O pesquisador sênior do Carnegie Endowment e economista Michael Pettis defende isso em um novo artigo que se baseia no livro de 2020 “Trade Wars Are Class Wars”, do qual é coautor.

Os países deficitários, especialmente os EUA, mas também o Reino Unido, a Austrália e o Canadá, não vêm tendo outra escolha a não ser equilibrar a perda de empregos no setor industrial com o excesso de dívida, resultando em economias mais frágeis e financeirizadas.

Enquanto isso, os países superavitários - sobretudo a China, mas também Taiwan, Coreia do Sul e Alemanha - conseguem criar empregos, mas permanecem presos a uma demanda interna fraca porque as famílias estão, direta ou indiretamente, subsidiando a indústria transformadora.

Daniela Chiaretti - O capitalismo consegue resolver a crise climática?

Valor Econômico

O negacionismo climático é ponto cada vez mais caro à extrema direita no ano eleitoral mais importante do século

“Agora o negacionismo climático se tornou uma espécie de tatuagem tribal da extrema direita.” A frase é do jornalista Claudio Angelo, coordenador de política climática do Observatório do Clima, rede com mais de 90 organizações no Brasil com essa agenda. O OC, como a organização é carinhosamente chamada, foi uma das vozes mais críticas à política de desmonte do sistema nacional de meio ambiente promovida nos anos de governo Bolsonaro.

A metáfora de Angelo pode ser transposta a três inquietações contemporâneas. A primeira diz que os sacrifícios exigidos pela descarbonização da economia abrirão oportunidades e novos empregos, mas também deixarão gente sem renda e perspectiva, e, por isso mesmo, pesam nas urnas.

A pauta verde não costuma eleger políticos. A crise climática é complexa e difícil de comunicar. Enfrenta discursos negacionistas sem compromisso com a verdade e de gente que habita Terras planas. “Não é simples um político se levantar para essas questões. Esses temas, de fato, não dão muita visibilidade e muitos estão apanhando por conta de hastear bandeiras de diversidade, inclusão e meio ambiente”, concorda Carlo Pereira, CEO do Pacto Global da ONU no Brasil.

Eliane Cantanhêde - Os ‘pobres coitados’ do golpe

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro calou a portas fechadas e produziu provas contra si a céu aberto

O ex-presidente Jair Bolsonaro não abriu a boca no que seria o seu depoimento à Polícia Federal, a portas fechadas, mas tratou de produzir provas contra si na manifestação de domingo na Avenida Paulista, a céu aberto, para milhares de bolsonaristas, mas também para a PF, o Supremo e quem mais quisesse ouvir. Está gravado, como a fatídica reunião do golpe no Planalto, e não tem como dizer que sua fala foi “deturpada”, “culpa da imprensa” e ele é alvo da “perseguição do ministro Alexandre de Moraes”.

Dora Kramer - Agora é tarde

Folha de S. Paulo

Se apela ao equilíbrio agora, Bolsonaro poderia ter feito o mesmo a tempo de evitar o 8 de janeiro

A necessidade pautou a prudência convocada por Jair Bolsonaro (PL) a seus admiradores no domingo (25) na avenida Paulista. Conduziu também o discurso dele, desprovido dos achaques autoritários de quando era protegido por imunidades e poderio presidenciais e ainda estava razoavelmente longe do alcance da Justiça.

Talvez o ex-presidente não tenha se dado conta de que cometeu um ato falho. O apego ocasional à serenidade contém evidência de que estava mesmo mal-intencionado quando silenciou por 40 dias após a derrota para Luiz Inácio da Silva (PT) e depois fugiu para os Estados Unidos no aguardo dos acontecimentos urdidos aqui por seus comparsas de conspirata golpista.

Hélio Schwartsman - Trajetórias paralelas

Folha de S. Paulo

Justiça brasileira se sai melhor do que a americana ao lidar com ex-presidentes que violaram pacto democrático

Donald Trump e Jair Bolsonaro integram a leva de políticos da direita antissistema que vem assombrando o mundo. Ambos foram eleitos presidentes e, ao fim de seus mandatos, após sofrer derrota nas urnas, embarcaram numa aventura golpista, pela qual tentaram subverter a ordem constitucional. Não obstante o desserviço prestado a seus países, seguem na condição de líderes populares.

Alvaro Costa e Silva - Jaguar e a invenção artística de Ipanema

Folha de S. Paulo

Nada bissexto, cartunista completa 92 anos neste 29 de fevereiro

Em 2006, quando retornou ao Rio depois de 28 anos de autoexílio em Londres, Ivan Lessa encontrou Jaguar no Bracarense, o boteco do Leblon. Em respeito, trocou a água de coco por um chope na pressão. Não foi bem aquela história de que, em se tratando de velhos amigos, não importa o tempo nem a distância, a intimidade se impõe imediatamente. Ao revê-lo, Jaguar ficou catatônico por dois minutos. Aos poucos o gelo derreteu, e eles se entenderam em meio às brumas do passado: a melhor pedida era a empada de carne-seca com catupiry.

Os dois se conheceram na revista Senhor, com Ivan bolando as sacadas dos cartuns de Jaguar. Juntos, toparam um frila publicitário, o lançamento de uma marca de cerveja, e fizeram, a partir de 1968, o melhor retrato artístico de Ipanema: a história em quadrinhos "Os Chopnics" (gozação com os beatniks), lançada no Jornal do Brasil e no Globo simultaneamente.

Cláudio Carraly* - Cultura nos Municípios Brasileiros: Rumo a Políticas Públicas Inovadoras

A cultura é um pilar fundamental da identidade de qualquer sociedade. No contexto dos municípios brasileiros, ela desempenha um papel crucial na promoção da diversidade, no estímulo à criatividade e na preservação do patrimônio histórico. No entanto, muitos municípios ainda enfrentam desafios na construção de políticas públicas inovadoras que possam impulsioná-la localmente. A cultura é o que nos conecta às nossas raízes, fortalece nossa identidade e nos proporciona meios de expressão, ela se manifesta em diferentes formas, desde festas tradicionais até a produção artística contemporânea, é um ativo inestimável, não apenas do ponto de vista social, mas também econômico. Municípios que investem em cultura frequentemente experimentam um aumento no turismo, uma economia criativa vibrante e uma população mais engajada, não à toa que nos últimos anos, devido a um verdadeiro desmonte dos mecanismos de apoio por parte do poder central, muito se deixou de avançar, portanto, é chegada a hora da retomada do crescimento.

Poesia | Nada é impossível de mudar, de Bertolt Brecht

 

Música | Fernanda Abreu - Samba do Carioca (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes)

 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

PEC dos Militares representa passo na direção correta

O Globo

Medida combate politização das Forças Armadas, mas não disciplina polícia nem acesso a cargos civis

Com a retomada dos trabalhos no Congresso, ganhou destaque no Senado a Proposta de Emenda à Constituição conhecida como PEC dos Militares. De autoria do senador Jaques Wagner (PT-BA), o texto altera as regras para integrantes da ativa das Forças Armadas concorrerem em eleições. Se aprovada, os militares que decidirem buscar uma vaga no Legislativo ou Executivo passarão para a reserva no momento da candidatura. Dado o histórico do governo Jair Bolsonaro, com militarização de cargos civis, politização dos quartéis e tentativa de golpe, a medida seria um avanço institucional. Mas, embora seja um passo necessário, o alcance precisaria ser ampliado para surtir o efeito pretendido.

Miguel de Almeida - O sopão bolsonarista

O Globo

Vladimir Herzog, jornalista e também dramaturgo, em menos de 24 horas foi torturado e morto

Quase 50 anos nos separam da manifestação (com nossos recursos) em apoio ao golpista Bolsonaro e a missa em memória de Vladimir Herzog (1937-1975). Celebrada na Catedral da Sé, em São Paulo, em protesto pelo assassinato do jornalista nos porões do DOI-Codi, um centro de tortura, ela marca o início da queda da ditadura militar. Milhares de pessoas, dentro e fora da igreja, vigiadas pelos arapongas de sempre, com ostensivas viaturas policiais no entorno, protestaram contra o arbítrio do regime.

Trata-se de momento seminal e fundador na História brasileira, visto como o dia em que foi deixado de lado o medo de enfrentar as forças da repressão. Até então, dezenas de adversários da ditadura haviam sido mortos, torturados ou “desaparecidos” — e as reações ainda não tinham alcançado dimensão pública. Com a censura imposta à imprensa, poucas informações alcançavam a população. Celebrada em ato ecumênico, trazia no altar o rabino Henry Sobel, o pastor presbiteriano Jaime Wright e o arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Como diz no documentário “Coragem”, de Ricardo Carvalho, disponível no YouTube, o cardeal Arns resumiu a intenção da luta que ganhava as ruas:

— Os militares não mandam na nossa liberdade.

Fernando Gabeira - A guerra que mata e os jogos verbais

O Globo

Apesar do discurso de frente ampla, a esquerda apresenta uma política bem mais próxima de uma visão partidária

A frase que Lula disse na Etiópia repercutiu fortemente durante toda a semana. Tão fortemente que não há muito mais o que falar, exceto extrair algumas lições sobre nossa pátria amada, salve, salve.

Ouvi um repórter anunciar que a reunião do G20 trataria de três temas: as guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza e o embate diplomático entre Brasil e Israel. Meu Deus, pensei, como podem colocar no mesmo plano duas guerras reais, com gente morrendo ou sendo mutilada, com uma disputa verbal entre duas chancelarias?

Claro que o G20 não abordou o tema, mas o tom das reportagens deixa bem claro como superestimamos as situações em que o Brasil é protagonista.

Duas repercussões políticas também me impressionaram. De um lado, deputados propondo o impeachment de Lula por causa de sua frase. De outro, a declaração de Celso Amorim de que a fala de Lula sacudiu o mundo e potencialmente ajudaria a acabar com a guerra.

Irapuã Santana - Projeção e maniqueísmo

O Globo

Será que a pessoa em quem votamos eventualmente não errará? Será que ela errar faz automaticamente com que estejamos errados?

A declaração do presidente Lula na Etiópia a respeito do que vem acontecendo na Faixa de Gaza abriu espaço para mais uma grande briga política no Brasil.

Existem muitas denúncias sobre como o primeiro-ministro de Israel vem agindo, inclusive na própria comunidade judaica. É, pois, razoável falar em crimes de guerra cometidos pelo governo israelense.

Se parasse por aí, Lula não estaria sozinho, considerando que outros líderes mundiais também vêm repudiando o ocorrido. No entanto ele foi além e declarou:

— O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu. Quando Hitler resolveu matar os judeus.

Nesse momento, ele se isolou.

Guga Chacra fez uma observação interessante sobre o caso ao afirmar que Lula “não escolheu o genocídio armênio, ele não escolheu o genocídio de Ruanda. Tivemos massacres na guerra da Bósnia, na guerra de Kosovo, teve a invasão dos Estados Unidos ao Iraque, a guerra da Síria, a guerra da Rússia, a invasão da Rússia à Ucrânia. Ele coloca como se fosse algo único. Não é algo único, de forma alguma”.

Marcus André Melo - Antiviralatismo desvairado

Folha de S. Paulo

País tem vantagem no plano internacional devido ao lugar na política global da mudança climática, mas comete sucessivos fiascos em grandes conflitos mundiais

Não é a primeira nem a segunda vez que o presidente Lula comete erros estapafúrdios e faz comparações bizarras. Em 2009, quando Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito, em um contexto em que dezenas de candidatos foram impedidos de se candidatarem e o abuso de poder deflagrou protestos naquele país e fora dele, Lula afirmou que não era "a primeira vez que um partido de oposição que perde reclama muito". E comparou a teocracia iraniana com os EUA: "não podemos esquecer nunca da primeira eleição do presidente Bush. As pessoas acataram os resultados apesar das dúvidas".

Deborah Bizarria - O que motiva os protestos

Folha de S. Paulo

Não são apenas os fatores econômicos que levam as pessoas a se manifestarem

A partir da manifestação convocada por Jair Bolsonaro (PL) para este domingo (25), na avenida Paulista, dei-me conta de que políticos e lideranças sociais têm conseguido levar cada vez mais pessoas às ruas. Na última década, o Brasil tem testemunhado um aumento no número e na escala de protestos. Desde 2013, vimos movimentos estudantis, greves e protestos contra e a favor dos governantes do momento ou em torno de outras figuras políticas destacadas.

Esse panorama não é exclusividade brasileira, conforme apontado pelo estudo de Davide Cantoni e outros autores, que contou com assistência do pesquisador brasileiro William Radaic. A pesquisa analisou dados sobre 1,2 milhão de eventos de protesto em 218 países, cobrindo um período de 1980 a 2020. Esse volume de informação não só destaca sua onipresença como fenômeno mundial como aponta para a complexidade de suas causas e consequências. Através da análise estatística e do exame de literatura existente, desvendaram os padrões subjacentes aos atos, explorando tendências temporais, padrões geográficos e a relação com variáveis econômicas e sociais.

Igor Gielow - Ato grande e previsível mostra Bolsonaro sem armas para a briga

Folha de S. Paulo

Tarcísio comete ato falho de gosto duvidoso e diz que ex-presidente não é mais um CPF

Quando convocou o ato para se defender das acusações de ter tramado um golpe para se manter no poder, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deixou claro que tudo o que lhe interessava seria "a foto". Neste domingo (25), repetiu o enunciado.

E o conseguiu, como seria previsível para alguém que tem 25% da população bolsonarista convicta, uma fatia que não mudou de lugar durante um ano de revelações deletérias acerca de como seu grupo político de fato buscou rasgar a Constituição em nome do chefe.

Apesar da previsível multidão na avenida Paulista, um lugar conhecido por pontos comerciais em que pessoas fazem filas para tirar uma foto que durará dois segundos em rede social, Bolsonaro demonstrou neste domingo a exaustão de seus recursos.

radicalismo do 7 de setembro de 2021, quando no poder de fato instigou uma ruptura tão séria que a política tradicional remanescente, leia-se centrão, veio em seu socorro só para se ver agora na mira da Justiça, foi um eco distante.

Maria Cristina Fernandes - Ato de Bolsonaro na Paulista traz disputa por espólio e vírus resistente do negacionismo

Valor Econômico

No alto do pódio da disputa pelo espólio ficou ex-primeira-dama Michele Bolsonaro

ato em que Jair Bolsonaro carregou nas tintas de mártir, pedindo anistia para os presos do 8 de janeiro e reconhecendo a minuta golpista que poderá levá-lo à prisão, evidenciou tanto a disputa por seu espólio quanto a tentativa do ex-presidente de pegar carona numa “pacificação”, capaz de “passar uma borracha no passado”.

No alto do pódio da disputa pelo espólio ficou ex-primeira-dama Michele Bolsonaro com sua fala emocionada de fé e família para enfrentar a injustiça, ante um público mais velho, afluente e a exibir símbolos evangélicos, como as bandeiras de Israel e do leão de judá (metáfora bíblica de Cristo), vendidas por R$ 60.

Dos quatro governadores presentes – Jorginho Mello (SC), Romeu Zema (MG), Tarcísio Freitas (SP) e Ronaldo Caiado (GO) – o último é o mais focado. Sua determinação não deixa dúvidas de que a direita vai se dividir.

Bruno Carazza* - Bolsonarismo: forte no zap e nas ruas, fraco no Congresso

Valor Econômico

Sem mandato e inelegível, proposta de anistia de Bolsonaro é inviável

O bolsonarismo é um fenômeno que começou nas redes sociais e tomou as ruas. Líder de forte apelo popular, mais uma vez Jair Bolsonaro demonstrou força ao atrair milhares de pessoas vestidas de verde e amarelo no ato de ontem na Avenida Paulista.

Convocados logo após as ações da Polícia Federal no âmbito da Operação Tempus Veritatis, que investiga a participação do ex-presidente, integrantes de seu governo e membros das Forças Armadas no planejamento de um golpe e na organização dos atos democráticos de 8 de janeiro de 2023, seus apoiadores marcaram presença em peso.

O evento contou ainda com a participação de políticos bolsonaristas, além dos governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (União Brasil) e Jorginho Melo (PL).

Eliane Cantanhêde – Candidato ou não, ex-presidente move multidões e divide o País

O Estado de S. Paulo

Uma mostra de que o bolsonarismo vive

O ato deste domingo na Avenida Paulista confirma o que todos sabiam: o ex-presidente Jair Bolsonaro tem base popular, move multidões e divide o País ao meio, como já mostraram os votos de 2022. Isso, porém, não muda a realidade e as investigações da Polícia Federal e da Justiça contra Bolsonaro, seus generais, minutas de intervenção no TSE, anúncio de estado de sítio e a longa preparação de um golpe, que, frustrado, virou a invasão e depredação das sedes dos três Poderes.

Compareceram ao ato de domingo os governadores da linha de frente do bolsonarismo, como Tarcísio de Freitas, anfitrião, Ronaldo Caiado, de Goiás, Jorginho Mello, de Santa Catarina, e Romeu Zema, de Minas Gerais. Ok. O passado diz bastante do que eles foram fazer lá e o futuro dirá se a presença valeu a pena. No fim das contas, a história colocará tudo isso em contexto.

Diogo Schelp - Manifestação coreografada

O Estado de S. Paulo

Ato serviu para apertar os laços de lealdade que prendem alguns políticos a Bolsonaro

“Essa fotografia vai rodar o mundo”, disse Jair Bolsonaro em seu discurso diante de milhares de apoiadores na Avenida Paulista, ontem. A frase, com toda sua frivolidade, resume bem o que foi o ato. Primeiro, por expressar o quanto Bolsonaro anseia por ser reconhecido como um ator imprescindível da política nacional. Segundo, por expor que o real objetivo ali era o de produzir uma prova visual irrefutável da sua força política. E, terceiro, por sintetizar a ausência de conteúdo do seu discurso.

A manifestação coreografada cumpriu seu objetivo. Conseguiu confirmar que nenhum outro político no Brasil consegue mobilizar as massas com a mesma facilidade. Demonstrou a obediência dos apoiadores, que cumpriram a determinação de não exibir cartazes com mensagens golpistas e que foram capazes de se conter nas palavras de ordem contra o ministro Alexandre de Moraes, mesmo quando o pastor Silas Malafaia gritou que ele tinha sangue nas mãos pela morte na prisão de um dos réus do 8 de Janeiro.

Denis Lerrer Rosenfield* - Israel e os evangélicos

O Estado de S. Paulo

Se o governo petista seguir a via de expulsão do embaixador de Israel e de rompimento diplomático, o suicídio político estará consumado

Para além da indignidade moral do presidente Lula, abraçando teses antissemitas, revela-se uma monumental burrice político-eleitoral. Ganha ele a reprovação de ampla maioria da população brasileira, assim como consegue alienar-se do eleitorado evangélico que nele não se reconhece.

Do ponto de vista moral, sua conduta foi abominável ao equipar a autodefesa de Israel aos crimes de genocídio cometidos por Adolf Hitler. Israel foi agredido, atacado, por uma organização terrorista que, em poucas horas, conseguiu assassinar 1.200 pessoas em kibutzim e numa festa rave, para além dos sequestrados em seu poder, hoje mantidos em situações terríveis. Ao responder, visou ao Hamas, e não à população palestina, utilizada pelos terroristas como escudo humano. Numa guerra urbana e, mais especificamente, subterrânea, é muito difícil discernir um civil de um combatente. Que o digam os russos na Chechênia e os americanos em Mossul e Faluja. É certamente lamentável, mas fruto deste tipo de guerra.

Orlando Thomé Cordeiro - Eleições municipais e as redes sociais

Correio Braziliense

Conquistar voto é uma tarefa árdua que depende de muito trabalho desde o período da pré-campanha. Não tem solução mágica

Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via internet
Um grupo de tietes de Connecticut

Esses versos são da música Pela Internet, do genial Gilberto Gil, lançada em 1996, há 28 anos. Ele foi o primeiro artista brasileiro a transmitir um show ao vivo pela internet. Naquele tempo, a internet era vista como o grande ambiente para promover debates, conversas, compartilhar conhecimentos. Com o passar dos anos, o modelo de negócio das big techs acabou provocando uma deformação do papel inicialmente sonhado.

Como é de conhecimento público, a primeira utilização das redes sociais diretamente para a ação política foi na campanha de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos em 2008, uma estratégia absolutamente decisiva para sua vitória. De lá pra cá, tornou-se obrigatório atuar nesse universo em qualquer disputa eleitoral.

Outro ponto de inflexão nessa trajetória acontece em 2016, nas campanhas vitoriosas conduzidas pelos estrategistas que assessoraram os defensores do Brexit e a candidatura de Donald Trump, muito bem retratadas no livro Os Engenheiros do Caos, de Giuliano da Empoli. Sobre o tema, reproduzo a seguir o que escrevi na coluna publicada em 6/3/2020:

Poesia | Presságio, de Fernando Pessoa

 

Música | Francis Hime e Lenine - Corpo Feliz