sexta-feira, 30 de junho de 2023

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

CMN mantém meta e amplia prazo para o BC atingi-la

Valor Econômico

Não está descartado um ambiente mais favorável que o previsto que permita reduções mais rápidas da taxa de juros

O Conselho Monetário Nacional fez a coisa certa e decidiu ontem estabelecer para 2026, pelo terceiro ano consecutivo, a meta de inflação em 3%, com intervalo de 1,5 ponto percentual em ambas direções. Resolveu também ratificar as metas de 2024 e 2025 e inaugurar em 2025 a perseguição contínua da meta de 12 meses, que não mais se restringirá ao ano calendário, como tem sido desde a criação do sistema, em 1999. Para a decisão contaram um trabalho paciente do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em dissuadir o presidente Lula de ampliar a meta - ele chegou a mencionar 4,5% -, a reação fortemente negativa dos investidores diante da perspectiva dessa mudança e os resultados obtidos pelo Banco Central com o aperto monetário que, com o recuo da inflação, está prestes a iniciar um ciclo de corte de juros.

Poesia | Embriagai-vos (Charles Baudelaire)

 

Música | Nelson Sargento & Teresa Cristina - Samba agoniza mas não morre

 

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Opinião do dia – Antonio Gramsci* (Análise das situações: relações de força.)

“É o problema das relações entre estrutura e superestrutura que deve ser posto com exatidão e resolvido para que se possa chegar a uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período e determinar a relação entre elas. É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em via de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações (verificar a exata enunciação destes princípios). [“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para sua existência. Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que estes objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização” (Prefácio à Crítica da economia política). Da reflexão sobre estes dois cânones pode-se chegar ao desenvolvimento de toda uma série de outros princípios de metodologia histórica. Todavia, no estudo de uma estrutura, devem-se distinguir os movimentos orgânicos (relativamente permanentes) dos movimentos que podem ser chamados de conjuntura (e que se apresentam como ocasionais, imediatos, quase acidentais). Também os fenômenos de conjuntura dependem, certamente, de movimentos orgânicos, mas seu significado não tem um amplo alcance histórico: eles dão lugar a uma crítica política miúda, do dia a dia, que envolve os pequenos grupos dirigentes e as personalidades imediatamente responsáveis pelo poder. Os fenômenos orgânicos dão lugar à crítica histórico-social, que envolve os grandes agrupamentos, para além das pessoas imediatamente responsáveis e do pessoal dirigente. Quando se estuda um período histórico, revela-se a grande importância dessa distinção. Tem lugar uma crise que, às vezes, prolonga-se por dezenas de anos. Esta duração excepcional significa que se revelaram (chegaram à maturidade) contradições insanáveis na estrutura e que as forças políticas que atuam positivamente para conservar e defender a própria estrutura esforçam-se para saná-las dentro de certos limites e superá-las. Estes esforços incessantes e perseverantes (já que nenhuma forma social jamais confessará que foi superada) formam o terreno do “ocasional”, no qual se organizam as forças antagonistas que tendem a demonstrar (demonstração que, em última análise, só tem êxito e é “verdadeira” se se torna nova realidade, se as forças antagonistas triunfam, mas que imediatamente se explicita numa série de polêmicas ideológicas, religiosas, filosóficas, políticas, jurídicas, etc., cujo caráter concreto pode ser avaliado pela medida em que se tornam convincentes e deslocam o alinhamento preexistente das forças sociais) que já existem as condições necessárias e suficientes para que determinadas tarefas possam e, portanto, devam ser resolvidas historicamente (devam, já que a não realização do dever histórico aumenta a desordem necessária e prepara catástrofes mais graves). O erro em que se incorre frequentemente nas análises histórico[1]políticas consiste em não saber encontrar a justa relação entre o que é orgânico e o que é ocasional: chega-se assim ou a expor como imediatamente atuantes causas que, ao contrário, atuam mediatamente, ou a afirmar que as causas imediatas são as únicas causas eficientes. Num caso, tem-se excesso de “economicismo” ou de doutrinarismo pedante; no outro, excesso de “ideologismo”. Num caso, superestimam-se as causas mecânicas; no outro, exalta-se o elemento voluntarista e individual. (A distinção entre “movimentos” e fatos orgânicos e movimentos e fatos de “conjuntura” ou ocasionais deve ser aplicada a todos os tipos de situação, não só àquelas em que se verifica um processo regressivo ou de crise aguda, mas àquelas em que se verifica um processo progressista ou de prosperidade e àquelas em que se verifica uma estagnação das forças produtivas.) O nexo dialético entre as duas ordens de movimento e, portanto, de pesquisa dificilmente é estabelecido de modo correto; e, se o erro é grave na historiografia, mais grave ainda se torna na arte política, quando se trata não de reconstruir a história passada, mas de construir a história presente e futura: os próprios desejos e as próprias paixões baixas e imediatas constituem a causa do erro, na medida em que substituem a análise objetiva e imparcial e que isto se verifica não como “meio” consciente para estimular à ação, mas como autoengano. O feitiço, também neste caso, se volta contra o feiticeiro, ou seja, o demagogo é a primeira vítima de sua demagogia.”

*Antonio Gramsci (1891-1937). Cadernos do Cárcere, v.3. p.36-8. Civilização Brasileira, 2007.

Elimar Pinheiro do Nascimento* - Fios do Tempo. Alain Touraine e o protagonismo feminino: uma homenagem

A configuração da nova sociedade ainda é imprecisa, mas para Touraine as mulheres são as atrizes principais das mudanças

Alain Touraine é um dos mais renomados sociólogos do mundo. Nos inícios de sua vida acadêmica lecionou na USP e estudou a América Latina, sobre a qual publicou alguns livros, com destaque para Palavra e Sangue (1988/1989).[1] Esteve sobretudo no Brasil e no Chile. É um dos criadores da expressão sociedade pós-industrial, presente em seu livro Société Postindustrielle (1969/1969). Trabalhou inicialmente nos campos da sociologia do trabalho e dos movimentos sociais.  Em 1989, na sequência de suas reflexões sobre a contemporaneidade, iniciou um ciclo de publicações sobre as transformações da sociedade moderna-contemporânea, por meio de vários livros, entre os quais O que é a democracia (1994/1996); Crítica da modernidade (1989/1997);    

Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes (1997/1999); Um novo paradigma. Para compreender o mundo de hoje (2005/2011); O mundo das mulheres (2006/2008).

A tese central de Touraine sobre as transformações da sociedade moderna-contemporânea encontra-se no livro Um Novo Paradigma. Segundo essa tese, no meu ponto de vista uma hipótese, a sociedade moderna-contemporânea teria conhecido três tipos de sociedade, cujos princípios organizadores (ou lógicas) são distintos entre si.

J. B. Pontes* - A intentona golpista e os kids preto

É profundamente lamentável e, até mesmo inacreditável, que após quase quarenta anos do fim da ditadura militar, quando a sociedade brasileira, cansada de tantos arbítrios, truculências e corrupção, manifestou-se de forma veemente exigindo a redemocratização do País, as Forças Armadas voltem a se envolver na tentativa de um golpe contra o Estado Democrático de Direito.

Recentes reportagens investigativas publicadas pela Revista Piauí, aliadas aos dados que estão vindo ao conhecimento público pelos inquéritos que estão em curso na Polícia Federal, escancaram a participação de uma enorme parcela de militares, especialmente do Exército, na intentona golpista que culminou no fatídico 8 de janeiro. Sem dúvida, esse lastimável “evento disparador”, tão almejado e incentivado, jamais teria ocorrido sem a omissão, complacência e apoio dos militares. E todos sabiam que o objetivo desses criminosos era causar uma comoção social e pressionar as Forças Armadas a promover a intervenção militar, agindo contra a ordem constitucional e a democracia.

A reportagem da Revista Piauí afirma que a análise dos vídeos dos atos golpistas de 8 de janeiro demonstra ações próprias de pessoas que tiveram treinamento militar. As imagens demonstram ações coordenadas, com emprego de tática militar, de planejamento e de artefatos bélicos de uso exclusivo das FFAA. Quando chegaram à Praça dos Três Poderes, por exemplo, os golpistas dividiram-se em três grupos: um deles dirigiu-se para o Congresso, outro ao STF e um terceiro para o Palácio do Planalto, o que evidencia planejamento, uma vez que a tendência natural de uma multidão é caminhar unida, numa única direção.

Merval Pereira - Palavras vãs

O Globo

Militares que aderiram à ideia de golpe tentam apagar as digitais e desfazer a cena do crime

É impressionante a irresponsabilidade com que militares da ativa, de alta patente, aderiram à ideia do golpe para impedir o presidente eleito, Lula, de tomar posse. Mais impressionante ainda é a tentativa de desfazer a cena do crime, ressignificando o sentido das próprias palavras, escritas com todas as letras em mensagens de WhatsApp.

O ex-presidente Bolsonaro, aliás, é a fonte dessa atitude cínica utilizada por seus seguidores, pois nega até mesmo vídeos, como se tivessem sido produzidos pela tecnologia deep fake. Uma das mensagens entre o coronel Jean Lawand Júnior, que trabalhava no setor de projetos estratégicos do Estado-Maior do Exército, e o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do então presidente Bolsonaro, revela o estado de espírito deste em relação às Forças Armadas.

O que, por si só, é demonstração de que em nenhum momento o Alto-Comando aderiu ao golpe que era tramado. O coronel Lawand apela por uma decisão de Bolsonaro por um golpe, e Cid afirma que o presidente não dará a ordem “porque não confia no Alto-Comando do Exército”. Ao que o coronel Lawand responde:

Míriam Leitão - Haddad entre o mercado e a política

O Globo

Ministro completa seis meses no cargo com vitórias no Congresso, mais confiança da Faria Lima e muitos desafios pela frente

O ministro Fernando Haddad disse que não anteciparia seu voto na reunião de hoje do Conselho Monetário Nacional. Mas deu indicações. Avisou que considera decidida a meta da inflação do ano que vem. Ela está em 3%. Criticou, como desatualizada, a forma de cálculo de hoje sobre o tempo do cumprimento da meta ao final de cada ano: “Quase a totalidade dos países saiu do ano calendário”. A alternativa é a meta contínua. Em longa entrevista que me concedeu ontem na GloboNews, Haddad criticou indiretamente o mercado, que “fetichiza” um determinado indicador, disse que o arcabouço deve ser aprovado e garantiu que a reforma tributária não vai aumentar os impostos para o setor de serviços e profissionais liberais. E explicou a boa relação com o Congresso.

William Waack - O esforço que falta para a direita

O Estado de S. Paulo

Falta de nomes não é o maior problema da direita pós-Bolsonaro

Inelegibilidade é só o começo das atribulações de Jair Bolsonaro. Com ou sem um “mastermind” (que Jair supõe ser o ministro Alexandre de Moraes), o Judiciário se move para destruí-lo como pessoa física também – o “CNPJ” de pessoa política está sendo cancelado.

Não há sucessor designado e não há estrutura partidária ramificada do “bolsonarismo”, o que significa dizer que existem milhões ainda seduzidos pelo nome, mas não um movimento de massas que siga a direção apontada pelo “mito”. O que deve complicar a capacidade dele de “dirigir” correntes políticas sentado do lado de fora das linhas das disputas eleitorais.

Maria Hermínia Tavares* - As urgências do mundo

Folha de S. Paulo

Diplomacia presidencial parece começar a dar rumo ao protagonismo além-fronteiras

Em Paris, na semana passada, o presidente Lula discursou duas vezes. Para a multidão que participava do festival Power Our Planet, ao ar livre, no Champ de Mars, escalou nos decibéis ao cobrar dos países ricos uma paga pela devastação ambiental que promoveram para se tornar o que são.

À parte um momento de miopia autoprovocada —faz tempo, afinal, que também as nações menos desenvolvidas ajudam a fomentar o desastre planetário—, não disse coisa nova: ecoou o princípio das "responsabilidades comuns, porém diferenciadas", consagrado já em 1992 na Unfcc (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) e desde então integrado à diplomacia brasileira. O texto obriga os países membros da convenção a defender o clima "com base na equidade e em conformidade com suas respectivas capacidades".

Luiz Carlos Azedo - Por que será que nossos jovens não querem ter tantos filhos?

Correio Braziliense

Os indicadores sociais precisam ser confrontados com os resultados do Censo 2022, principalmente na educação, na saúde, na habitação, nos transportes e na segurança pública

No Natal de 1989, a criminalidade nos Estados Unidos atingiu um de seus índices mais elevados. Nos 15 anos anteriores, havia aumentado 80%. A partir dos anos 1990, começou a cair repentinamente, até atingir patamares equivalentes ao imediato pós-Segunda Guerra Mundial. As explicações eram as mais diversas: estratégias inovadoras da polícia, prisões mais seguras, mudanças no mercado de drogas, controle de armas, mais polícia nas ruas e outras medidas associadas à segurança pública, além do envelhecimento da população.

O economista Steven D. Levitt, da Universidade de Chicago, e o jornalista novaiorquino Stephen J Dubner analisaram todas essas hipóteses, inclusive aquela que atribui a queda da criminalidade ao envelhecimento da população, no livro Freakonomics, o lado oculto e inesperado que nos afeta (Editora Campus), para concluir que nada disso foi o fator determinante da queda da criminalidade. Embora os velhinhos fossem menos violentos que os norte-americanos mais jovens, chegaram à conclusão de que o fator determinante da redução da criminalidade fora a legalização do aborto, porque reduziu drasticamente a população de jovens em situação de risco.

Vinicius Torres Freire - O Censo e um país sem esperança

Folha de S. Paulo

IBGE mostra ritmo pequeno de aumento da população; Brasil vai precisar de mais imigrantes

O Brasil passa por um período de crescimento chinês. Quer dizer, o ritmo de aumento da população dos dois países foi parecido na última dúzia de anos, na casa dos 6%. A China, como se sabe, teve uma política muito dura de controle dos nascimentos. A população brasileira estaria crescendo pouco? Pouco por qual critério?

Antes de prosseguir, relembre-se que a taxa de crescimento calculada pelo Censo de 2022 causou surpresa. A população recenseada é de cerca de 203 milhões, 11 milhões menor do que aquela de projeções ou estimativas da Pnad, do IBGE. Por essas contas a população vinha crescendo a um ritmo anual na casa de 0,8% ao ano; pelo Censo, a pouco mais de 0,5%.

A diferença causa um certo furdunço, ainda pouco informado, pois faltam detalhes do Censo para se pensar o que houve. Pode bem ser que a calibragem das pesquisas do IBGE estivesse meio torta por falta de uma contagem de população de meio de década, para o que não houve dinheiro.

Bruno Boghossian - Lula, Arthur e Elmar

Folha de S. Paulo

Sinal precoce de apoio a candidato do presidente da Câmara pode criar problema para 2025

Lula decidiu pular no barco de Arthur Lira três meses antes da eleição para a presidência da Câmara. O petista fez as contas e percebeu que estava longe do apoio necessário para emplacar um candidato alinhado ao governo. Para evitar um choque prematuro com o centrão, fechou apoio à reeleição do líder do grupo.

A mais de um ano e meio de uma nova eleição para o comando da Casa, o governo piscou mais uma vez. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, mandou para Lira o sinal de um acordo para apoiar o nome escolhido pelo presidente da Câmara para sucedê-lo em 2025. O favorito é Elmar Nascimento, líder da União Brasil.

Maria Cristina Fernandes - Seis meses depois, uma fórmula de governo

Valor Econômico

Cerco sobre Lira devolve a Lula a iniciativa legislativa

Levou seis meses, mas o governo Luiz Inácio Lula da Silva parece ter encontrado uma fórmula. Não é definitiva nem resolve tudo, mas encara o enrosco legislativo, o maior que encontrou e sem o qual não consegue destravar a economia.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-PL) angariou plenos poderes à medida que sua gaveta se encheu de pedidos de impeachment contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Tomou conta do Palácio e passou a agir para consolidar, sob quaisquer governos, os poderes de seu grupo político. Agora prova do próprio veneno.

A retomada legislativa do Executivo dá-se pelos mesmos meios. O cerco da operação Hefesto sobre “Arthur” tem permitido a Lula construir pontes com o Legislativo. O grande teste para a eficácia desta fórmula será a aprovação do arcabouço fiscal mantendo de fora do teto de gastos o Fundeb.

O orçamento permitirá que se respire acima da linha d’água e que se pense em algo parecido com uma base na Câmara. E os méritos nem podem ser atribuídos ao governo. São todos de Lira. Vazamentos? Sempre haverá. Tanto de um lado quanto do outro. Além da Polícia Federal e do Ministério Público, havia 14 advogados com acesso ao inquérito. O problema foi outro.

Lira continuou a agir, ante um presidente que desafiou, como se estivesse perante aquele que era seu aliado/refém. Só isso pode explicar a existência, numa toca de gatunagens, de livros-caixa dos gastos mais comezinhos de “Arthur” datados de abril deste ano. Quatro meses depois da posse, “Arthur” continuava a entrar sem bater e deitar no sofá com os pés sujos sem se dar conta que o contrato de aluguel da casa passara para outro inquilino.

Assis Moreira - O século dos asiáticos?

Valor Econômico

Estados Unidos, com 4% da população mundial, geram 25% da produção global, posição mantida desde 1980, observa “The Economist”

Acompanhei recentemente a Beyond Expo 2023, uma das maiores exposições asiáticas de tecnologias de consumo, saúde e sustentabilidade, na região administrativa especial de Macau, China. Durante o evento, alguns membros da elite intelectual da Ásia manifestaram uma análise comum sobre rumos que o mundo pode tomar.

Kishore Mahbubani, ex-diplomata de Cingapura que foi presidente do Conselho de Segurança das Nações Unidas (janeiro 2001-maio 2002) e é membro do Asia Research Institute, deu o tom, não hesitando em listar “quatro certezas” futuras, em meio às turbulências atuais.

Para ele, a primeira certeza é que o século XXI será o século asiático, assim como o século XIX foi o século europeu, e o século XX foi o século americano. O século asiático será “um retorno à norma”, porque na maior parte do tempo as duas maiores economias do mundo sempre foram as da China e da Índia. “Os 200 anos de domínio ocidental na história mundial foram anormais”, insistiu.

Malu Gaspar - Lisboa é uma festa

O Globo

O último domingo marcou o aniversário do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mas o dia não lhe trouxe boas notícias. A revista piauí e a Folha de S.Paulo publicaram que a Polícia Federal havia encontrado no carro do motorista de seu ex-assessor Luciano Cavalcante anotações de pagamentos de quase R$ 500 mil para um certo “Arthur”.

Cavalcante é um dos alvos do inquérito que apura o desvio de R$ 8 milhões na compra de kits de robótica para escolas de Alagoas com dinheiro do orçamento secreto.

Lira não se abalou. Naquela noite, ele e a namorada celebraram com amigos no Praia no Parque, um bar de Lisboa sediado no elegante Parque Eduardo VII. À mesa, além do vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira (Republicanos-SP), e do vice-presidente do União Brasil, Antônio Rueda, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STFGilmar Mendes era paparicado pelos comensais.

Adriana Fernandes - Qual é o peso de SP na reforma?

O Estado de S. Paulo

Posição de enfrentamento do governador Tarcísio impacta o cenário das negociações

Uma leitura rápida pelo histórico de tentativas frustradas da reforma tributária em 35 anos é suficiente para identificar o peso do governo de São Paulo para barrar seu avanço no Congresso.

O próprio vice-presidente Geraldo Alckmin, hoje um ferrenho defensor da reforma tributária, já foi um entrave quando governador do Estado.

O que sempre se disse ao longo desses anos é que São Paulo, sozinho, representa “meia reforma”, pelo tamanho que o Estado representa na arrecadação.

A posição de enfrentamento do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a pontos basilares do modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) da reforma apadrinhada pelo governo Lula impacta o cenário das negociações.

Eugênio Bucci* - Inteligência artificial: isso deve nos assustar?

O Estado de S. Paulo

Sim, o incômodo com a técnica é antigo, bem antigo, mas a escala do que ela vem aprontando é absolutamente inédita

É razoável e sensato temer a inteligência artificial? Em seus arranjos mais complexos, que conjugam centenas de bilhões de parâmetros em frações de segundos, ela ameaça o lugar dos seres humanos em governos, empresas, na ciência e na guerra?

Ou esse tipo de preocupação não passa de paranoia infantil? Pensemos um pouco. Será que as máquinas ditas inteligentes são apenas ferramentas anódinas, mais ou menos como as pontes sobre os rios, as brocas de dentista, as colheres de pau, os gravadores de voz ou os estetoscópios? Os computadores que falam sozinhos, escrevem, leem e até conversam com os mortais em qualquer idioma não oferecem nenhum perigo? São inofensivos?

Até aqui, há opiniões para todo gosto. Uns são “apocalípticos”, para usar o adjetivo popularizado por Umberto Eco. Outros, mais do que “integrados”, desfilam esfuziantes e deslumbradérrimos com seus óculos de realidade ampliada. Estamos no meio de um imenso tecnoflaflu. A questão, no entanto, é mais séria que um embate entre torcidas.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Censo impõe desafio urgente ao Brasil

O Globo

Esgotamento do bônus demográfico não dá alternativa além de investir em produtividade e eficiência

A divulgação pelo IBGE dos primeiros resultados do Censo 2022, depois de sucessivos atrasos, confirmou a expectativa de desaceleração no crescimento populacional e surpreendeu pelo ímpeto da queda. Os dados revelam uma população de 203.062.512, inferior aos 207.750.291 estimados numa prévia já com os dados do Censo em dezembro. Nunca, desde que a pesquisa começou a ser feita, em 1872, a população brasileira cresceu tão pouco — apenas 0,52% ao ano nos últimos 12 anos.

O baixo crescimento populacional impõe vários desafios. O maior decorre do fim da imagem de um país essencialmente jovem, substituída pela de um país envelhecido, sem que o Brasil tenha aproveitado os benefícios do contingente mais jovem na força de trabalho, conhecido como “bônus demográfico”. Dados recentes a ser confirmados pelo Censo mostram que o envelhecimento dos brasileiros segue em ritmo acelerado. Em 2012, metade dos brasileiros (49,9% ) tinha menos de 30 anos. No ano passado, 43,3%. A fatia correspondente aos idosos (60 anos ou mais) foi de 11,3% a 15,1%.

Poesia | Fernando Pessoa - Sentes, pensas e sabes que pensas e sentes

 

Música | Norma Bengell - A noite do meu bem

 

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Vera Magalhães – Revés de Bolsonaro é chance para Lula

O Globo

Iminente inelegibilidade do antecessor dá ao presidente também a chance de se aproximar de evangélicos

O inferno astral que se inicia para Jair Bolsonaro, com a iminente inelegibilidade graças a uma de dezenas de vezes em que ele usou o cargo para investir contra o sistema eleitoral brasileiro, dá a Lula a chance de recuperar terreno perdido para os setores mais fidelizados pelo bolsonarismo no processo de rápida radicalização da sociedade iniciado em 2013.

O agronegócio é um deles. O presidente está certo quando se espanta com a aversão demonstrada pelos grandes empresários rurais a ele e ao PT. Afinal, em seus dois primeiros governos a exportação de produtos agrícolas cresceu mais, em média, que no mandato de Bolsonaro. A produção de grãos aumentou de forma equivalente. O que desequilibra a estatística a favor do ex-presidente é o crescimento do PIB do agro, bem superior nos últimos quatro anos.

Ainda assim, isso não justificaria a verdadeira ojeriza manifestada por expoentes do agro à volta de Lula ao poder. Trata-se de um coquetel que mistura o discurso anticorrupção encorpado na Lava-Jato e apropriado por Bolsonaro, a investida do ex-presidente para armar o campo e seu discurso de depreciação das pautas ambiental e indígena e da reforma agrária.

Bernardo Mello Franco - O Coronel e o capitão

O Globo

Covardia de Jean Lawand Junior combina com novo tom de Bolsonaro diante da Justiça

O coronel Jean Lawand Junior é um bolsonarista típico. Fala grosso na internet, mas afina na hora de assumir seus atos. Depois da derrota do capitão, o oficial se esgoelou no WhatsApp em defesa do golpe. Ontem ele tentou se fazer de inocente na CPI.

O militar passou ao menos um mês incentivando uma quartelada. Em mensagens enviadas ao tenente-coronel Mauro Cid, pregou uma ação militar para subverter o resultado das urnas. Queria que Jair Bolsonaro desse “a ordem” para botar os tanques na rua.

“Ele tem que dar a ordem, irmão. Não tem como não ser cumprida”, suplicou. Em outro diálogo, o coronel disse que o presidente precisava escolher entre a ruptura institucional e a cadeia. “Ele não pode recuar agora. Ele não tem nada a perder. Ele vai ser preso”, insistiu.

Elio Gaspari - As mentiras que circulam nas redes

O Globo

Patranhas na política são uma coisa, na saúde, outra

É possível que nos próximos meses o Supremo Tribunal Federal e o Congresso retomem a questão do lixo eletrônico que circula na internet por meio das grandes empresas de tecnologia. Quando esse assunto estava na Câmara, as plataformas defenderam-se alegando que o projeto abria uma porta para a censura de ideias. Não abria, mas a cautela adiou uma decisão.

Enquanto a discussão girou em torno da censura de ideias, ela tinha algo de abstrato. Agora vê-se que o lixo vai além, enganando consumidores e prejudicando empresas. Uma única operadora de planos de saúde, a Amil, listou 231 casos de anúncios irregulares na rede em apenas seis meses. Num aspecto, prometem reembolsos impossíveis. Noutros, e são milhares, oferecem curas milagrosas e juventude eterna.

As big techs defendem-se dizendo que procuram filtrar o que levam à rede e que cumprem as decisões da Justiça quando ela determina a retirada dos materiais. É pouco.

O que sempre esteve em questão foi a cooperação das big techs para limpar a parte da rede que está sob seu domínio. Há anos elas oscilam entre a arrogância e o descaso. Quando a Justiça manda, elas cumprem. Só faltava que não cumprissem. Os danos empresariais provocados pelas mentiras sugerem que o Supremo possa tratar desse lixo de maneira diferente. Se é difícil quantificar o dano derivado de uma mentira política, isso é fácil no caso das patranhas empresariais.

Luiz Carlos Azedo - O ex-presidente Bolsonaro em seu labirinto

Correio Braziliense

As investigações sobre o 8 de janeiro estão complicando a situação do ex-presidente. Mesmo que novas provas não sejam incorporadas ao processo pelo TSE, sua inelegibilidade é dada como certa

Com perdão para a memória de Simón Bolívar, o Libertador, e parafraseando Gabriel García Márquez, a história do ex-presidente Jair Bolsonaro começará a ser contada a partir de seu julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que deve condená-lo à inelegibilidade até 2030. O ex-capitão, como o general de romance histórico da literatura latino-americana, construiu um labirinto do qual não consegue sair. Como o personagem fictício, cuja trajetória é fiel aos fatos históricos, Bolsonaro ingressa agora numa fase na qual toda glória se foi. Precisará de muita resiliência para enfrentar mais de uma dúzia de processos, sem a prostração e a angústia do mitológico caudilho de Gabo no final de sua vida.

Spoiler desse clássico da literatura universal: García Márquez, vencedor do prêmio Nobel de Literatura, ao contar a história de Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios Ponte-Andrade y Blanco, O Libertador, fala dos percalços da vida, do sofrimento e de sua sina cruel, que a realidade traz à tona sempre que pode, ao final da vida do caudilho.

O general em seu labirinto (Record), de 1989, começa de trás pra frente, nos últimos dias do caudilho venezuelano, durante sua derradeira viagem através do Rio Magdalena, quando rememora paixões, batalhas, derrotas e vitórias. Tecido pelas dores do declínio, seu labirinto é uma mente ambiciosa, muito inteligente e sagaz, que sonhou fazê-lo o chefe político e militar perpétuo de uma única grande nação, do México à Terra do Fogo, depois de conquistar a Venezuela, a Colômbia, o Equador e a Bolívia. O seu ocaso, porém, é cruel.

Hélio Schwartsman - Cabo eleitoral

Folha de S. Paulo

Dificilmente ex-presidente será um 'king maker' em 2024

Jair Bolsonaro será um bom cabo eleitoral? O PL pensa que sim. O partido já faz contas e espera que o ex-presidente prestes a tornar-se inelegível o ajude a eleger 1,5 mil prefeitos em 2024, quintuplicando o número de alcaides da legenda. Mas será que esse cálculo tem base ou é só um desejo meio delirante?

Quando o futuro é opaco, consultar o passado é um bom ponto de partida para as estimativas. E, a julgar pelo passado, Bolsonaro foi uma figura decisiva nas eleições de 2022 —ele conseguiu transformar um poste pessoal no governador de São Paulo—, mas teve um desempenho pífio como cabo eleitoral no pleito municipal de 2020. Na ocasião, o então presidente emprestou seu apoio a 13 candidatos a prefeito e a 45 a vereador. Desses todos, apenas 13 se elegeram, sendo só dois prefeitos, os de Parnaíba (PI) e Ipatinga (MG), que não são exatamente megalópoles.

Bruno Boghossian - O 'dedazo' de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Ex-presidente expõe aflição com sucessão e inventa 'bala de prata' para manter controle na direita

O governador Tarcísio de Freitas "é um excelente gestor" e poderia até concorrer ao Planalto em 2026, mas Jair Bolsonaro "teria de conversar com ele" antes de bater o martelo. A ex-primeira-dama Michelle "pode sair candidata", mas não tem experiência para ser presidente e funcionaria melhor como cabo eleitoral.

À beira de uma condenação que pode tirá-lo da próxima corrida presidencial, Jair Bolsonaro faz zigue-zague para não ser atropelado na própria sucessão. Em entrevista a Mônica Bergamo, o ex-presidente se recusou a apontar um substituto na direita e mostrou que fará de tudo para adiar a definição desse nome.

Mariliz Pereira Jorge - Bala de prata chamada Michelle

Folha de S. Paulo

O imbrochável parece que vai ter de engolir a fraquejada; espero estar errada

Jair Bolsonaro continua o mesmo. A entrevista concedida à jornalista Mônica Bergamo mostra que está mais em forma do que nunca. Raso, vitimista, desclassificado, fala com naturalidade sobre a hipótese de virar garoto-propaganda de imóveis nos Estados Unidos, avalia sua popularidade pelo fato de que encheu uma hamburgueria e comeu de graça: "Enchi a pança". Que pesadelo.

Como esse sujeito foi presidente do Brasil e quase se reelegeu para um segundo mandato? Não é uma pergunta retórica. A reportagem me rendeu um "meudeusdocéu" atrás do outro. Eu me pergunto como não perdemos a capacidade de nos chocar com tanta barbaridade, com tanta distopia. Talvez porque ele sempre conseguiu nos surpreender. Negativamente, claro.

Vera Rosa - Sem Bolsonaro, desafio de Lula é Arthur

O Estado de S. Paulo

Presidente da Câmara desconfia de investigações da PF e Centrão quer derrubar Padilha

Diante do julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode tornar Jair Bolsonaro inelegível por oito anos, a avaliação do núcleo duro do governo é a de que o problema do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora, tem outro nome. Em busca de votos da direita após a cassação dos direitos políticos do ex-presidente, dada como certa, a articulação política do Palácio do Planalto será posta à prova. E o desafio de Lula, nesse cenário, se chama Arthur Lira (PP-AL).

Líder do Centrão, o presidente da Câmara anda contrariado por não ter mais o controle da distribuição de emendas parlamentares. No diagnóstico do grupo de Lira, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, é o responsável por travar a liberação de R$ 9,9 bilhões que, com o fim do orçamento secreto, foram herdados por ministérios.

O Centrão passou a trabalhar para derrubar Padilha e se aproximou do chefe da Casa Civil, Rui Costa. Nesse serpentário, nada poderia ser mais simbólico do que a foto postada ontem nas redes sociais, mostrando Padilha, Costa e o líder do governo na Câmara, José Guimarães, sorridentes e com mãos entrelaçadas.

Fernando Exman - O que esperar do Ministério do Turismo

Valor Econômico

Celso Sabino tem se mantido discreto para não melindrar a atual titular da pasta

Mais uma leva de dados sobre o desempenho do setor de turismo era divulgada no Rio de Janeiro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas no último dia 15 de junho, quando começou a circular na capital federal, a quilômetros de distância, a informação de que o deputado Celso Sabino integraria a comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Pará, seu Estado natal. Não era uma viagem a passeio.

Decidido a aumentar sua base de apoio no Congresso, Lula colocava em prática os princípios da boa hospitalidade e oferecia ao União Brasil da Câmara o Ministério do Turismo. Sabino acabara de ganhar uma passagem, com escala, para a Esplanada dos Ministérios: teria apenas que fazer uma conexão de alguns dias, para que a exoneração da ministra Daniela Carneiro ocorresse sem turbulência.

Martin Wolf* - A reconstrução do mundo americano


Valor Econômico

A raiva e a decepção dos americanos da “classe média” são uma realidade perigosa

Quando os Estados Unidos falam, o mundo escuta. Afinal, trata-se da potência mais influente do mundo. Isso não se deve apenas ao seu tamanho e riqueza, mas também à força de suas alianças e ao seu papel central na criação das instituições e princípios da ordem econômica atual. O país teve um papel decisivo na criação das instituições de Bretton Woods, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Também promoveu oito rodadas sucessivas de negociações comerciais multilaterais. Ganhou a guerra fria contra a União Soviética. E desde o início dos anos 1980, pressionou por uma abertura ampla e profunda da economia mundial, recebendo a China na OMC em 2001. Gostemos ou não, todos vivemos no mundo que os EUA construíram.

Agora, sofrendo de arrependimento de comprador, decidiram reconstruí-lo. A secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, delineou os aspectos econômicos da nova visão dos EUA em um discurso proferido em 20 de abril. Sete dias depois, Jake Sullivan, o conselheiro de segurança nacional do presidente Joe Biden, fez um discurso ainda mais abrangente, embora complementar, sobre “renovar a liderança econômica americana”. Ele representou um repúdio à política passada. Isso poderia ser visto apenas como uma volta ao intervencionismo de Alexander Hamilton. Contudo, desta vez a agenda não é destinada a um país recém-formado, mas à potência dominante do mundo.

Vinicius Torres Freire - Juros, déficit e nova direção do BC

Folha de S. Paulo

Receita do governo e nomeações de Lula vão influenciar inflação, Selic e taxas de mercado

A grande querela nacional sobre a queda de mísero 0,25 ponto percentual na Selic deve esfriar depois dessa ata da reunião da diretoria do Banco Central, divulgada nesta terça-feira. Deve haver um chorinho de corte da Selic, de 13,75% para 13,50%, em agosto.

O problema maior, como se tem escrito nestas colunas, é quão rápido a Selic vai cair e até que nível. Quanto a isso, nem a ata do BC nem as notícias da inflação por ora permitem estimar que a redução de juros seja rápida e grande.

Além do mais, daqui até o final do ano, dois motivos vão mudar a música da inflação e dos juros no mercado: o tamanho do déficit nas contas do governo e as novas indicações de Luiz Inácio Lula da Silva para a direção do BC.

Zeina Latif - Acertar o passo para o futuro

O Globo

Pesa o fato de os impostos sobre o consumo terem grande importância arrecadatória em um país com Estado grande

Há uma combinação de dois fatores no horizonte que aumentam a urgência de reduzir o custo da folha nas empresas: a reforma tributária de criação do imposto sobre o valor adicionado (IVA) — passo fundamental para destravar o crescimento sustentado — e o inevitável avanço no uso de tecnologias modernas.

As novas tecnologias tendem a reduzir a oferta de vagas em atividades operacionais e repetitivas, que são mais facilmente substituídas por máquinas. A automação e a robotização, há décadas, já vinham reduzindo o trabalho de “chão de fábrica”, enquanto as tecnologias digitais passaram a afetar bastante o setor de serviços. O uso de inteligência artificial é mais um passo nessa direção.

Lu Aiko Otta - Juro alto ofusca semestre positivo

Valor Econômico

Ata da mais recente reunião do Copom foi classificada nos bastidores do governo como “deselegante” e “inapropriada”

A ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) acendeu sinais de alerta no governo. Um diz respeito à perspectiva para a atividade econômica daqui por diante. Outro foi uma inédita crítica à política fiscal, classificada nos bastidores de “deselegante” e “inapropriada”.

Causou preocupação a elevação da taxa de juros neutra da economia de 4% para 4,5%. Indica que é preciso uma taxa um pouco mais elevada para se chegar a um ponto em que não haja estímulo inflacionário nem deflacionário.

Para um integrante do governo, quer dizer que os modelos utilizados pelo Banco Central estabelecem uma taxa de equilíbrio para o desemprego na casa dos 8,5%. E que não há espaço para a economia rodar num ritmo superior ao que se encontra, algo como 2% a 3%.

Pelo contrário, seria preciso desacelerar a atividade para fazer a inflação convergir mais rápido para a meta (3,25%, com 1,5 ponto percentual de margem de tolerância).

Nilson Teixeira - Difícil tarefa do economista de mercado

Valor Econômico

Incontáveis fatores imprevisíveis influenciam os fundamentos e fogem do alcance dos modelos

Os economistas de mercado que trabalham com análise de conjuntura têm sido acusados de má-fé com o governo de esquerda por terem previsto no fim de 2022 uma inflação mais alta e um crescimento mais baixo para este ano. De fato, a maioria dos analistas julgava que a eventual vitória do atual presidente seria acompanhada de medidas que contribuiriam para maior inflação e desaceleração mais expressiva da atividade. Apesar de reconhecer claro viés político por parte de alguns analistas, prefiro crer que a maioria errou suas projeções devido à leitura equivocada sobre a dinâmica da economia.

A capacidade preditiva dos economistas sobre diversas variáveis econômicas é baixa, mesmo quando o time é competente, bem formado e utiliza modelos e instrumentos sofisticados. A subjetividade - apelidada de arte por muitos - é determinante em muitas ocasiões, pois incontáveis fatores imprevisíveis influenciam os fundamentos e fogem do alcance dos modelos.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Copom cogitou anunciar queda de juros em agosto

Valor Econômico

Contribuiu para moderar a mensagem do Copom a expectativa sobre as decisões da reunião de amanhã do Conselho Monetário Nacional

A ata da reunião do Comitê de Política Monetária tornou explícito o que já estava implícito no comunicado emitido logo após o encontro: os juros começarão a cair. A novidade do documento foi a “avaliação predominante” de que isso poderia ocorrer já em agosto, o que não foi mencionado no comunicado que, no entanto, dava sinais na mesma direção.

Houve “divergência” no Copom em relação à comunicação dos próximos passos da política monetária. Na visão da maioria, “a continuação do processo desinflacionário em curso, com consequente impacto sobre as expectativas, pode permitir acumular a confiança necessária para iniciar um processo parcimonioso de inflexão na próxima reunião”. Houve acordo, porém, com os que acreditam que é melhor esperar “maior reancoragem das expectativas longas e acumular mais evidências de desinflação nos componentes mais sensíveis ao ciclo”.

Poesia | Carlos Pena Filho - A Charles Baudelaire

 

Música | Clara Nunes e Sivuca - Feira de Mangaio (1978)