quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Merval Pereira - Falar não é fazer

O Globo

Alexandre de Moraes deveria mostrar as provas e os indícios que o levaram a aceitar a busca e apreensão contra os empresários bolsonaristas

Os diálogos publicados pelo portal Metrópoles não indicam crimes. Pode-se discordar do que eles pensam — acho um absurdo que empresários de tal porte tenham visão tão estreita do país e do mundo, não deem valor a direitos fundamentais como a liberdade, não entendam que uma ditadura não ajuda nunca os negócios. E, se a intenção deles é aproveitar-se de uma ditadura para dominar o mercado e fazer alguma ação difícil de fazer num ambiente democrático, é mais grave ainda. Se têm uma visão tão estreita sobre a importância da democracia para proteger os cidadãos dos autoritários, do governante que acha que pode mandar em todo mundo e impede visões contrárias, mesmo minoritárias, de ser expostas, é lamentável, é criticável — mas não é crime. Nos diálogos não há nenhuma indicação de que estejam preparando um golpe, financiando um golpe, apoiando um golpe de maneira efetiva. Há apenas comentários de que preferem uma ditadura à volta de Lula. É um gosto discutível — não pelo Lula, mas pela ditadura —, mas eles têm direito de achar isso.

Existem pesquisas internacionais sobre o estado da democracia no mundo, e em vários países — inclusive no Brasil — muita gente diz que prefere a ditadura, que torna o país mais organizado, traz mais segurança. É um equívoco, uma visão deturpada do que seja o futuro de um país, mas não se pode prender todo mundo que deu essa resposta na pesquisa.

Malu Gaspar – Aposta de alto risco

O Globo

Medida incomodou juristas, mas muitos optaram pelo silêncio para evitar desgastes com o magistrado ou mesmo para não municiar apoiadores do presidente

O ministro Alexandre de Moraes começou a semana com tudo. Depois da histórica posse no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em que reuniu todo o ecossistema político em apoio às urnas eletrônicas, ainda pôde assistir a Jair Bolsonaro baixar o tom nas declarações sobre a segurança das eleições no Jornal Nacional.

O presidente fez o que pôde para não entrar em nova polêmica — e ainda afirmou acreditar que Moraes “pacificaria” a situação. Pacificador é justamente o título com que o ministro espera ser reconhecido ao final do processo eleitoral. Segundo seus interlocutores, ele quer passar para a História como o homem que evitou o golpe de Estado.

Todos esperamos que ele consiga. Ao aprovar a operação de busca e apreensão que quebrou o sigilo bancário de oito empresários bolsonaristas, porém, Moraes assumiu um risco alto.

É evidente que os alvos desta semana, integrantes do grupo de WhatsApp “Empresários e Política” exposto pelo site Metrópoles, adorariam ver Bolsonaro e os militares darem um golpe caso ele perca a eleição.

Eles mesmo explicitam isso, quando dizem: “Prefiro golpe do que (sic) a volta do PT. Um milhão de vezes”. Ou que: “O golpe teria que ter acontecido nos primeiros dias de governo. [Em] 2019 teríamos ganhado outros 10 anos a mais”.

Míriaim Leitão - Economia e democracia

O Globo

A democracia é o ponto central da proposta econômica feita por especialistas aos candidatos da oposição, explica Persio Arida

Democracia ou economia? Eis um falso dilema. “Há muitas vezes a percepção no mercado financeiro de que o que importa é a economia. Deixa a democracia de lado. É um enorme equívoco. Quando a democracia está afetada, a economia piora também. Como a gente viu em vários episódios da nossa história.” É o que diz o economista Persio Arida. Ele e cinco especialistas fizeram um conjunto de sugestões de políticas para o próximo governo, “democrático e progressista”, como definem no documento. As propostas não foram repassadas à campanha de Bolsonaro.

— Partindo do princípio de que o valor fundamental que devemos ter é a democracia, governos que nos parecem ameaçar esse princípio, como é o caso do presidente Bolsonaro, a ele não nos interessa dar conselhos. E não sei se a ele interessaria ouvir conselhos, tampouco — disse Persio em entrevista que me concedeu ontem na Globonews.

Luiz Carlos Azedo - Ciro Gomes esbanjou bom humor e fez propostas audaciosas no JN

Correio Braziliense

É inegável o papel positivo na candidatura de Ciro Gomes, mesmo que não chegue ao segundo turno, porque está fomentando o debate com um olhar para o futuro

Foi uma mudança da água para o vinho a entrevista do candidato do PDT à Presidência da República, Ciro Gomes, aos jornalistas Willian Bonner e Renata Vasconcellos, no Jornal Nacional (TV Globo), na terça-feira à noite, em comparação com a do presidente Jair Bolsonaro, na véspera. Ciro estava de bom humor, focado nas suas propostas e pautou a entrevista, que transcorreu de forma bem mais produtiva do que a de segunda-feira.

O ex-governador do Ceará afirmou que irá cortar os privilégios criados para acúmulo de renda e criticou a corrupção. Questionado sobre a dificuldade que teve em formar alianças nacionais em torno da sua candidatura, disse que irá mudar o modelo de governança política instaurado na redemocratização e que trouxe caos para os presidentes em todos os anos de 1989 até aqui. “A corrupção é feita por pessoas, e o desastre econômico e privilégios criados é o que faz com que o Brasil tenha cinco pessoas acumulando a renda das 100 milhões mais pobres e da classe média”, afirmou.

Maria Hermínia Tavares* - Devagar com o otimismo

Folha de S. Paulo

Parte significativa dos que votam em Bolsonaro se julga democrata

Os resultados da pesquisa do Instituto Datafolha sobre os brasileiros e a democracia dão certo conforto: três em cada quatro entrevistados preferem sempre o sistema de governo instituído já lá se vão 34 anos; para 12%, tanto faz; e só 7% defendem a ditadura.

Notável é a ínfima diferença que, no caso, separa os simpatizantes de Lula daqueles que se dizem desejosos de outro mandato para Jair Bolsonaro. A rigor, entre os eleitores declarados do ex-capitão, ligeiramente maiores do que entre os que preferem Lula são tanto o percentual dos que julgam que a democracia é sempre melhor quanto a proporção dos partidários da ditadura "em certas circunstâncias" —tendência, por sinal, já captada na sondagem do Eseb (Estudo Eleitoral Brasileiro) logo depois da votação de 2018.

Ou seja, um contingente significativo dos que afirmam a intenção de votar em Bolsonaro se julga democrata.

Ainda assim, uma interpretação otimista dos resultados do levantamento levaria à convicção —expressa, por exemplo, em editorial desta Folha na terça-feira 23/8— de que a democracia deitou raízes na opinião pública, a ponto de se transformar em valor popular.

Bruno Boghossian - O TSE chegou atrasado

Folha de S. Paulo

Bolsonaro sabe que mentiras se espalham com mais velocidade do que a resposta de autoridades

O Tribunal Superior Eleitoral levou 36 dias para derrubar o vídeo da reunião com embaixadores em que Jair Bolsonaro repetiu mentiras sobre as urnas. O ministro Mauro Campbell apontou que o presidente "insiste em divulgar deliberadamente fatos inverídicos" e que a conduta pode configurar uma prática abusiva.

A decisão indica que o tribunal conhece muito bem os métodos de Bolsonaro, mas continua sem um plano eficaz para contê-lo. O presidente só "insiste em divulgar deliberadamente fatos inverídicos" porque percebeu que suas mentiras se espalham com mais velocidade do que a resposta de qualquer autoridade. Além disso, sentiu que as punições são pouco dolorosas.

Naquela reunião com embaixadores, Bolsonaro fez estrago em tempo real, mas as falsas suspeitas sobre o sistema de votação continuaram no ar por mais cinco semanas —incluindo acusações desmentidas exaustivamente pelo próprio TSE.

Ruy Castro - Entrevistador faz cara de pôquer

Folha de S. Paulo

Quando o entrevistado percebe, foi levado pelo nariz pelo entrevistador

Entrevistador não faz cara irônica nem compungida. Entrevistador faz cara neutra, de pôquer. Suas perguntas serão diretas, exigindo respostas diretas. Entrevistador tem de saber escutar, ficar atento à resposta e, ao ver que o entrevistado está enrolando, interrompê-lo com firmeza, dizendo que ele não respondeu à pergunta. Entrevistador só muda de assunto quando se satisfaz com a resposta.

Entrevistador não diz que vai mudar de assunto quando muda de assunto. As perguntas, previamente preparadas, têm de se seguir umas às outras com naturalidade. Quando o entrevistado percebe, foi levado pelo nariz pelo entrevistador. Ao preparar cada pergunta, entrevistador já terá previsto possíveis respostas e formulado as perguntas seguintes de acordo. Políticos têm repertório limitado, donde pode-se prever como ele reagirá a esta ou àquela pergunta.

William Waack - O racha provocado pelo Supremo

O Estado de S. Paulo

As fortes críticas à atuação do Supremo deixaram de ser coisa de bolsonaristas

“Eles não são antidemocráticos, são apenas anti-stf.” A frase, dita com a normalidade de quem observa um fenômeno natural, é de um ministro do Supremo se referindo aos militares. Foi pronunciada ao ponderar no dia da operação da PF contra empresários bolsonaristas as consequências da ordem dada pelo colega Alexandre de Moraes.

No mesmo grupo anti-stf já se inclui considerável número de empresários dos mais variados segmentos. As idiotices golpistas expressadas por colegas deles apoiadores de Bolsonaro são rejeitadas com veemência pela imensa maioria. Embora rachadas, lideranças empresariais adotaram um princípio para ações políticas: o respeito às regras básicas do estado de direito.

Eugênio Bucci* - Tchutchuca: ontologia e faniquito

O Estado de S. Paulo

De que modo podemos entender as fontes pulsionais de tamanho siricutico presidencial na saída do Palácio da Alvorada, na quinta-feira passada?

Na manhã de quinta-feira passada, um jovem ativista digital de direita, Wilker Leão, foi até a portaria do Palácio da Alvorada e xingou o presidente da República de “Tchutchuca do Centrão”. (A rima em “ão” não há de ser em vão.) O que veio na sequência foi uma arruaça lastimável, que todo mundo já viu no celular ou nos telejornais.

O presidente saía de sua residência para o expediente diário. O provocador, que se define nas redes como um “adepto do militarismo”, gritava repetidamente a palavra esdrúxula, tentando se aproximar do carro oficial do chefe de Estado. De celular em punho, filmava tudo. No muque, os seguranças procuravam contê-lo.

Enquanto transcorria o empurra-empurra, o governante ouviu a alcunha que lhe dirigiam e se irritou. Mandou parar o automóvel, saiu furibundo pela porta de trás e avançou na direção de Leão. Com uma das mãos, tentou agarrar o moço pelos colarinhos, mas não havia colarinho nenhum – a vítima vestia uma reles camiseta do São Paulo Futebol Clube, em cuja gola a iracunda autoridade fechou os dedos. Com a outra mão, o mandatário buscava arrancar o celular do são-paulino, intento no qual fracassou.

Adriana Fernandes – ‘La garantia soy yo’

O Estado de S. Paulo

As famílias que recebem o benefício são as maiores vítimas, em um mar de incertezas

Os marqueteiros da campanha do presidente Jair Bolsonaro querem escalar o ministro da Economia, Paulo Guedes, para garantir em público o compromisso com a extensão do valor do Auxílio Brasil de R$ 600 a partir de 2023.

A definição do momento certo e da forma para fazer isso é tratada como segredo de Estado na campanha.

A elevação permanente do piso do benefício de R$ 400 para R$ 600 é hoje assunto classificado como altamente sensível nas eleições porque daqui a cinco dias o governo terá de carimbar o Auxílio de R$ 400 no projeto de Orçamento de 2023 a ser enviado ao Congresso.

Maria Cristina Fernandes - Bom moço contra o voto útil

Valor Econômico

Presidente contém arroubos para evitar que onda antibolsonarista liquide a parada no primeiro turno

A contenção do presidente no “Jornal Nacional” é parte de sua estratégia para evitar que a onda do antibolsonarismo contamine a reta final da campanha e favoreça uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno.

Ao conter a propensão ao escárnio, Jair Bolsonaro não quis dar motivos para que seu eleitor se movesse em busca de tempos mais normais. Quis evitar, ainda, que os eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet tomem a raia do voto útil em Lula movidos por um basta a seus arroubos e à vergonha de ser bolsonarista. Sai a lacração e entra o bom moço.

Beneficiado pelo antipetismo em 2018, Bolsonaro agora teme o inverso. Por isso, conteve-se ante os questionamentos sobre o boicote do governo à prevenção na pandemia, o autoritarismo e o desleixo na educação.

Em 2018, além de Fernando Haddad, o antipetismo derrubou também o ex-governador Geraldo Alckmin. Em São Paulo, Estado que governou por quatro mandatos, Alckmin terminou em quarto lugar, com menos de dois dígitos, e Bolsonaro liderou, com 53% dos votos, sete pontos percentuais acima do desempenho nacional. No cômputo geral, Alckmin obteve 4,7% dos votos, quando as pesquisas lhe davam o dobro nas semanas que antecederam o primeiro turno.

Cristiano Romero - A 3ª fase de moderação do PIB da China

Valor Econômico

“Novo normal” pode cair para alta de apenas 3% ao ano

O mundo se acostumou, desde a década de 1990, a ver a economia chinesa crescer a taxas extraordinárias. Na primeira década deste século, o Produto Interno Bruto (PIB) da China avançou acima de dois dígitos durante quatro anos _ o pico foi a alta de 14,2% em 2007. Com a crise mundial de 2008, conhecida como a Grande Recessão, cujo epicentro foram as economias avançadas, o ritmo de crescimento chinês começou a moderar.

Em meados de 2007, a crise das hipotecas já havia atingido os Estados Unidos e iniciado o contágio das economias europeias. No mundo em desenvolvimento, em grande medida por causa da forte demanda da China por alimentos e matérias-primas, a turbulência nos principais mercados parecia algo distante, um problema que, acreditávamos, os ricos logo resolveriam.

Naquele ano, beneficiado pelo fato de produzir, com competência, o que os chineses buscavam no mercado internacional (além de bens de capital, principalmente da Alemanha, e tecnologia), o Brasil também acelerou o passo do crescimento _ o PIB avançou 6,1% em 2007, com a inflação razoavelmente sob controle (4,5%, na meta).

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Sob Bolsonaro, abertura comercial ficou na promessa

O Globo

Ao adotar um “liberalismo whey”, governo se viu refém do lobby dos ineficientes que só querem proteção

Jair Bolsonaro fez campanha em 2018 apresentando-se como um liberal. No programa de governo havia uma defesa enfática da abertura comercial: “A evidência empírica é robusta: países mais abertos são também mais ricos”. Correto. O que fez no governo? Muito pouco, se algo. Na semana passada, ele festejou ao anunciar a redução dos impostos de importação de suplementos alimentares, como whey protein, acessórios para motociclistas e praticantes de asa-delta. As medidas, disse ele, favorecem o “pessoal que gosta de malhar”. Esqueceu-se, porém, de olhar para o “pessoal que gosta de produzir”.

O Brasil tem uma das economias mais fechadas do mundo. Sem poder importar componentes melhores e mais baratos que os fabricados localmente, o país produz e exporta menos do que poderia. No mercado interno, pagamos mais por produtos piores. Nossa eficiência é baixa, a produtividade patina, e a geração de renda e de empregos pena para deslanchar. Persistem a miséria e a pobreza que tanto afligem a população.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Os ombros suportam o mundo

 

Música | Marina Aquino - Tudo outra vez (Belchior)

 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Vera Magalhães - Para além do grupo de WhatsApp

O Globo

Judiciário tem combatido risco de ruptura institucional, mas precisa agir com transparência

Quando o então presidente do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli abriu o inquérito das fake news, em 2019, e entregou, sem sorteio, a relatoria a Alexandre de Moraes, a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, oficiou a Corte pedindo seu arquivamento, por solapar atribuição do Ministério Público Federal.

Citada por Jair Bolsonaro no Jornal Nacional para justificar seus ataques a Moraes e o que considera perseguição do ministro contra si, a ex-PGR era entrevistada do Roda Viva horas depois e disse, em resposta, que reviu sua posição. Para ela, a palavra final nesses temas tem, sim, de ser do Supremo Tribunal Federal (STF). E as instituições, avalia, estão vivendo um processo de ressignificação de seu papel para atuar na nova demanda que existe de defesa do Estado Democrático de Direito.

Essa reacomodação de papéis tem gerado alguns dos grandes solavancos institucionais que temos visto com maior intensidade no governo Jair Bolsonaro, dada sua insistência em negar princípios elementares da democracia, mas já se faz sentir desde ao menos o auge da Lava-Jato.

Não se sabe em detalhes o que motivou Moraes a determinar a operação de busca e apreensão contra oito empresários bolsonaristas flagrados pelo jornalista Guilherme Amado defendendo a preferência por um golpe de Estado a um novo governo do PT. Colegas próximos ao ministro do STF e presidente do TSE afirmam que ele não se baseou apenas numa conversa jogada fora no WhatsApp.

Elio Gaspari - Bolsonaro passou pelo JN

O Globo

O candidato aprendeu a ouvir perguntas de jornalistas

A grande notícia saída da entrevista de Jair Bolsonaro a Renata Vasconcellos e William Bonner é que ele aguentou os 40 minutos de perguntas. Por muito menos ele já insultou jornalistas, mandou que se procurassem vacinas “na casa da tua mãe” e abandonou uma entrevista com André Marinho que lhe perguntava se “rachadinha” era crime. (Em 2002 Lula abandonou a mesa de almoço da Folha de S. Paulo diante de perguntas de Otávio Frias Filho.)

Bolsonaro deveria ter aceitado a sugestão de submeter-se a um treinamento com profissionais. Preferiu treinar com ministros. Disso resultou um candidato defensivo. Parecia um boxeador querendo apenas ficar de pé até o fim do certame. Faltou-lhe qualquer vestígio de senso de humor.

Ele saiu da armadilha que ele mesmo criou ao hostilizar o Supremo Tribunal Federal, com a frase mágica da “página virada”. Contudo o livro de Alexandre de Moraes na presidência do Tribunal Superior Eleitoral tem mais páginas.

Não conseguiu explicar o mau desempenho de seus ministros da Educação. (O segundo da série, Abraham Weintraub, endossou o ataque de Wilker Leão que chamou-o de “tchutchuca do Centrão”: “Verdades são difíceis de engolir”.) Bolsonaro entrou numa realidade paralela quando disse que, em 2018, “não tinha Centrão”. Tinha desde o século passado e continuará a existir no mandato do próximo presidente, sempre o apoiando.

Bernardo Mello Franco - Dom Pedro sobe a rampa

O Globo

Monarquismo é a doença infantil do bolsonarismo; presidente tenta usar o coração do imperador em sua campanha à reeleição

A ideia foi bizarra até para os padrões do governo atual. A pretexto de festejar o bicentenário da Independência, Jair Bolsonaro mandou trazer de Portugal o coração de Dom Pedro I. O órgão desembarcou em Brasília na segunda-feira, mergulhado num pote de formol.

Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon morreu em 1834. Seu corpo foi enterrado no panteão real em Lisboa. O coração foi levado ao Porto, onde fica trancafiado numa igreja.

O órgão descansou em paz durante 188 anos. Agora saiu da urna de mogno para servir ao projeto político de Bolsonaro. À revelia, o imperador foi transformado em cabo eleitoral do capitão.

A víscera subiu a rampa do Planalto com honras de chefe de Estado. Aviões da Esquadrilha da Fumaça desenharam um coração no céu de Brasília. A artilharia de campanha disparou 21 tiros de canhão. Criancinhas cantaram o hino e agitaram bandeiras do Brasil.

Luiz Carlos Azedo - Bolsonaro ganhou mais do que perdeu no JN

Correio Braziliense

A entrevista estabeleceu um padrão de questionamento dos entrevistadores aos entrevistados que deve se repetir com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

O presidente Jair Bolsonaro se saiu melhor do que a encomenda na entrevista concedida a Willian Bonner e Renata Vasconcellos no Jornal Nacional, segunda à noite. Cobrado insistentemente pelos dois apresentadores sobre temas que são as causas de sua alta rejeição, como a atuação durante a pandemia de covid-19 e a questão ambiental, saiu pela tangente, mentiu às vezes, porém, não perdeu a cabeça e partiu para a agressão verbal, como acontece na maioria das entrevistas “quebra-queixo” que concede, quando é confrontado por algum jornalista.

Nas redes sociais, durante a entrevista, bolsonaristas e petistas, principalmente, travaram uma guerra virtual que repercutia a sabatina em tempo real. Principalmente no Twitter, Bolsonaro perdeu as batalhas quando tratou das urnas eletrônicas e das ameaças de golpe, da crise da falta de oxigênio nos hospitais de Manaus e das vacinas. Também não ficou bem na fita quando negou corrupção no governo. Mas, se saiu melhor quando falou do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e da aliança com o Centrão. Na métrica do monitoramento das redes sociais, teve em torno de 35% de menções positivas e 65% de menções negativas. Não foi um mau resultado.

Hélio Schwartsman - Hostilidade à democracia deve ser considerada crime?

Folha de S. Paulo

Democracia tende a beneficiar-se de críticas bem-feitas

As investigações dirão se Alexandre de Moraes, do STF, acertou ao ordenar operações de busca e apreensão contra empresários bolsonaristas que defenderam um golpe de Estado no Whatsapp. Se a Polícia Federal encontrar indícios de que eles se organizaram para promover uma mudança ilegal de regime político, aí é processo e cana neles. Mas se eles apenas manifestaram hostilidade em relação à democracia, sem envolver-se em planejamento ou ações para derrubá-la, penso que isso não deve ser considerando um delito, mesmo tratando-se de bolsonaristas.

Meu ponto é que a lei pode e deve exigir que ninguém se envolva com sedições, mas não pode obrigar as pessoas a apoiarem a democracia. E quem não gosta dessa forma de governo deve ter o direito de dizê-lo. Uma interpretação muito rigorosa das leis de defesa do Estado silenciaria várias correntes de pensamento.

Bruno Boghossian - O golpismo em circulação

Folha de S. Paulo

Presidente usa risco como arma política, mesmo quando finge amenizar as próprias bravatas

Parecia até que o presidente havia sido tomado por mais um pressentimento. Horas antes de a Polícia Federal bater na porta de oito empresários que discutiam casualmente um golpe de Estado, Jair Bolsonaro dizia para 43 milhões de brasileiros que defender o fechamento do STF não era "nada de mais". "Para mim, isso daí faz parte da democracia", afirmou, no Jornal Nacional.

A afinidade de Bolsonaro com a ideia de uma ruptura democrática não é nenhuma novidade. Mas é interessante observar como o presidente emite um tipo de salvo-conduto e estimula o golpismo entre seus seguidores mesmo quando ele próprio age estrategicamente para reduzir o volume dessas bravatas.

Bolsonaro insiste na circulação da ameaça porque explora o fantasma do golpe como arma política. Em primeiro lugar, a retórica da ruptura ajuda o presidente a se vender como líder de uma guerra contra "o sistema" e manter o engajamento de seus apoiadores mesmo nos momentos em que ele parece frágil.

Mariliz Pereira Jorge - Primeira-ministra baladeira

Folha de S. Paulo

Mulher, jovem e festeira destoa no cenário masculino e sisudo da política

Só em 1960 uma mulher veio a ser eleita democraticamente chefe de governo. Foi no Sri Lanka. Hoje, cerca de 20 países são governados por uma pessoa do sexo feminino. É pouco. A política ainda é feita por homens e o mundo parece longe de se acostumar com a presença de mulheres em posições de poder, muito menos com aquelas que não se enquadram no estereótipo terninho, cabelo comportado, vida discreta.

Se não tivesse lido que era a primeira-ministra da Finlândia a moça dançando muito animada, o vídeo que circulou na internet nem teria me chamado a atenção. Há dúzias de clipes iguais no Instagram: gente jovem, um tanto calibrada, rebolando até o chão, em geral em frente a uma câmera de celular. É isso o que a maioria faz aos finais de semana.

Vera Rosa - O festival de besteira que assola o País

O Estado de S. Paulo

Horário eleitoral começa na esteira de ‘guerra santa’, ‘tchutchuca do Centrão’ e mais ameaça de golpe

Faltam apenas dois dias para a estreia da propaganda eleitoral gratuita na TV e no rádio. E, pelo espetáculo deplorável dos últimos dias, tudo indica que estaremos diante de um novo Festival de Besteira que Assola o País, o famoso Febeapá, como diria Stanislaw Ponte Preta.

Em uma disputa na qual até o “Cramulhão” foi importado da novela Pantanal para dar as caras na campanha, temas como possessão demoníaca, aborto, kit gay e fechamento de igrejas evangélicas voltam a aparecer. Um retrocesso sem fim.

Líder das pesquisas, o ex-presidente Lula (PT) quer levar a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) para o centro do debate. A presença de Marina é importante ativo para Lula, e não apenas por seu prestígio na área ambiental.

Roberto DaMatta - Sobre urnas e votos

O Estado de S. Paulo

No mundo civilizado, primeiro se arruma o país. No Brasil, primeiro se arrumam os vencedores

Uma poderosa reflexão sobre as urnas como um instrumento de escolha de governantes foi feita por Machado de Assis no conto A Sereníssima República, publicado em 1882. É Richard Moneygrand, meu velho mentor harvardiano, indignado com a tentativa de ilegitimar a urna eletrônica feita por Bolsonaro, quem fala num e-mail.

Você analisou esse conto, diz meu amigo, que tem um pouco de Kipling e antecede Kafka, porque o seu centro é a comunicação de um erudito Cônego com aranhas. Tendo aprendido o idioma das aranhas, o pesquisador - a pedido delas - sugere a adoção do regime republicano no qual o poder passa por meio de urnas e votos. É obvio, portanto, que a urna e o voto sejam envoltos numa atmosfera peculiar, porque são substituídos da velha sucessão por sangue, feita nas casas reais. 

Fernando Exman - Uma ampulheta sobre a mesa de Bolsonaro

Valor Econômico

Governo aguarda medidas populares se converterem em votos

A menos de 40 dias do primeiro turno, a campanha à reeleição do presidente Jair Bolsonaro corre contra o tempo.

Dia após dia, integrantes do comitê monitoram os sinais vitais da economia com a tarefa de saber quando a já perceptível melhora nas expectativas de agentes econômicos chegará à ponta. Ou, em outras palavras, tentam prever se e quando essas mudanças nas projeções em relação ao crescimento da economia e à inflação de 2022 se converterão em votos.

Não é uma conta simples. Em público, adotam o discurso segundo o qual o Brasil vai melhor do que outros países. Isso foi dito, por exemplo, na segunda-feira pelo próprio presidente a milhões de telespectadores durante sua entrevista ao “Jornal Nacional”. Mas não importa. A portas fechadas, trabalha-se como se uma ampulheta estivesse sobre a mesa. Há pressa. E não se descarta a possibilidade de novas notícias positivas serem produzidas nas próximas semanas a fim de acelerar esse processo.

Daniel Rittner - Estatais querem uma nova lei do saneamento

Valor Econômico

Propostas serão apresentadas a presidenciáveis

No início, as privadas não eram nem um pouco privadas. As latrinas públicas de Roma podiam ter 20 assentos ou mais em íntima proximidade, com os usuários conversando animadamente, como hoje andamos juntos de ônibus. O rei Charles II (1660- 1685), da Inglaterra, levava ao banheiro dois assistentes. Em Londres, era comum observar cidadãos agachados em plena rua, aliviando-se à luz do dia.

O hábito das necessidades em solidão não veio acompanhado de cuidados coletivos. As fossas sépticas em bairros pobres da adensada capital britânica na revolução industrial raramente eram limpas e frequentemente transbordavam. Fezes humanas, bem como resíduos industriais e animais mortos, iam parar no rio Tâmisa. Ensaiou-se uma solução em 1778, quando foi patenteada a primeira descarga moderna. O tiro saiu pela culatra. As famílias passaram a despejar, no projeto de vaso sanitário, todos os restos das casas. Havia entupimentos e odores insuportáveis. O drama só foi resolvido com a invenção de Thomas Crapper (entendedores entenderão a excrescência do sobrenome, que é apenas acaso).

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Bolsonaro mente e é autoritário — mas não perde o prumo

O Globo

Entrevista ao JN demonstrou por que, apesar das barbaridades, ele continua um candidato competitivo

Sobraram mentiras e faltou um compromisso inequívoco com o respeito ao resultado das urnas na entrevista que o presidente Jair Bolsonaro concedeu à bancada do Jornal Nacional como candidato à reeleição. Nisso, não houve surpresa. A novidade foi o comportamento mais sereno que tentou adotar, é verdade que nem sempre com sucesso.

Cobrado a assumir o compromisso público de que não contestará o resultado da eleição, Bolsonaro adotou uma postura ambígua que lhe permite, ao mesmo tempo, dizer aos críticos que recuou e afirmar ao aduladores que foi coerente. Depois de um vaivém de perguntas precisas e respostas evasivas, disse que poria um “ponto final” e aceitaria o resultado desde que as eleições fossem “limpas e transparentes”. É pouco, pois manteve uma brecha aberta a futuras contestações — e confusão — caso perca. Também atribuiu às Forças Armadas o papel de árbitro do assunto, absurdo que não encontra amparo constitucional. Seu lado autoritário transpareceu quando se negou a criticar seguidores que defendem a ditadura e um golpe para mantê-lo no poder. “Quando alguns falam em fechar o Congresso, é liberdade de expressão deles”, afirmou. “Eu não levo para esse lado.” Como Pilatos, lavou as mãos do golpismo que ele mesmo incentivou.

A entrevista também deixou claro seu pendor incorrigível pela mentira. Negou ter xingado integrante do Supremo, apenas para ser contestado e se ver obrigado a admitir que chamou o ministro Alexandre de Moraes de “canalha”. Disse que, na pandemia, o governo socorreu Manaus em dois dias, quando o oxigênio levou nove para chegar, enquanto a cidade vivia um morticínio sem paralelo. Negou ter imitado pacientes de Covid-19 com falta de ar, quando as imagens estão ao alcance de qualquer cidadão.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Lira do amor romântico

 

Música | Teresa Cristina - Nem ouro, nem prata

 

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Merval Pereira - Bolsonaro distorce a verdade em entrevista ao Jornal Nacional

O Globo

Bolsonaro foi desmentido diversas vezes pelos fatos mostrados por William Bonner ou Renata Vasconcellos, como quando negou que tivesse xingado ministros do Supremo, ou que tivesse imitado pessoas com dificuldade de respirar devido à Covid

O presidente Bolsonaro saiu da bancada do Jornal Nacional sem grandes prejuízos, embora tenha repetido afirmações inverídicas e dado números sobre a economia que não refletem a realidade. Sua grande virtude foi não ter perdido as estribeiras, como costuma fazer quando é contrariado.

Houve no Rio um professor universitário famoso por seu conhecimento, mas também por seus muitos tiques, que se sobrepunham ao que ensinava. Certo dia, ele resolveu se controlar e passou a aula inteira sem tiques, surpreendendo seus alunos. No final da aula, ele foi visto atrás de um biombo tendo um ataque de tiques.

Com o presidente Bolsonaro acontece o mesmo. Há dias, ele está se controlando para não ter ataques nervosos, pois sentiu que seu ataque às urnas eletrônicas estava lhe tirando apoios dos eleitores. Ontem, na bancada do Jornal Nacional, ele, relutantemente, aceitou afirmar que aceitará o resultado das eleições, mesmo que perca. Tentou recuar, — “desde que as eleições sejam limpas” —, mas viu que não seria um bom passo.

Minimizou os ataques de seus seguidores às instituições, atribuindo-os à liberdade de expressão. Mas em nenhum momento ele perdeu o controle, mesmo quando defendia uma indefensável política de combate à pandemia de Covid. Nem mesmo a política ambiental tirou Bolsonaro do sério, embora tenha defendido que a ação do governo não é responsável pelo maior desmatamento da Amazônia. Mas admitiu que será preciso fazer um trabalho para mudar a má imagem que o Brasil tem hoje no exterior.

Míriam Leitão - Um candidato nas cordas

O Globo

Bolsonaro falou para a sua bolha, repetiu mentiras e ameaças e não aproveitou a entrevista do JN para convencer os indecisos

entrevista no jornal mais visto do país tem que ter o objetivo de atrair eleitores que não votam no candidato. Nesse aspecto, Jair Bolsonaro fracassou. No JN, ele voltou a levantar dúvidas sobre as urnas eletrônicas, defendeu a cloroquina, criticou o Ibama por ter destruído equipamentos de criminosos ambientais, defendeu, como padrão de ministro, Ricardo Salles, que chegou a ser investigado pela polícia americana, e negou que tivesse havido o escândalo no MEC, pelo qual Milton Ribeiro foi derrubado. E pior, manteve seu compromisso com a ameaça às eleições, dizendo que reconhecerá “se as eleições forem limpas”.

O que se viu foi um homem entrincheirado em sua realidade paralela, que confirma o que os seus seguidores querem ouvir, mas não constrói pontes para além dos que hoje, em torno de 30%, estão dispostos a votar nele. E mais uma vez mantém a dúvida sobre se respeitará o resultado das eleições.

Normalmente, a estratégia de qualquer candidato num espaço como esse é avançar sobre eleitores indecisos ou de outros candidatos, persuadindo-os. E o faz através de falas novas e convincentes ou ataques a adversários mais próximos. O presidente Bolsonaro nada falou do ex-presidente Lula. Não pareceu proposital, parte de estratégia, mas sim resultado de ele ter ficado na defensiva durante quase o tempo todo.

Carlos Andreazza - Haja formol

O Globo

'Não é simplesmente que deputados e senadores queiram a reeleição. O que se quer reeleger é o arranjo; o domínio sobre o Orçamento'

As eleições chegam e concentram as atenções; como se a atividade pública, de resto suspensa, só existisse na dimensão das campanhas eleitorais. É erro. Há um governo. Um cujos movimentos todos são por continuar governo. Há um governo pela reeleição. Não somente um presidente em busca de se reeleger. Note-se a diferença; a que estabelece o vale-tudo. Há um governo se alargando, colhendo — ainda mesmo plantando, à margem do que tiver sobrado da lei eleitoral.

Há um governo sem limites, que maquia postos de gasolina para forjar deflação ao mesmo tempo que estimula artificialmente o consumo e contrata endividamento e inflação prolongada. Contrata juros altos por mais tempo, juros que já impõem que brasileiros pobres e de classe média distratem financiamentos pela casa própria. Não está boa a vida de quem vai ao mercado. Boa está a dos generais, comendo antes do povo.

Há um governo — militar, lembre-se — pela reeleição. E ainda alguns meses, até dezembro, para que opere, aberta a porteira — arrombada — pela PEC Kamikaze. A boiada passa. Está passando.

Cristovam Buarque* - Nosso Guerra e Paz

Correio Braziliense

A leitura das 1.584 páginas dos três volumes do livro Escravidão, de Laurentino Gomes, passa a sensação das 1.575 páginas (na edição Nova Aguilar) do Guerra e paz, de Tolstói: um gostinho de quero mais. O leitor fica instigado a conhecer mais do tema e a continuar o prazer de ler. No caso de Guerra e paz, o leitor quer conhecer a continuação da história do povo russo. Com o Escravidão, queremos saber sobre a continuação desse sistema, mesmo depois da abolição. O próprio Laurentino Gomes conclui o livro com o capítulo "O dia seguinte", ao Treze de Maio, mostrando a abolição incompleta, 130 anos depois. Ele indica a desigualdade nas condições de vida entre negros e brancos e afirma que "o racismo se mantém como um traço característico da sociedade brasileira".

Fica faltando a história da escravidão no pós-abolição, como se os três volumes não bastassem para contar a saga do escravismo não terminado, cuja maldade tem o porte da barbárie do holocausto, do apartheid, persistindo sob a forma da desigualdade crescente, e durou muito mais e atingiu mais pessoas. A Lei Áurea foi duplamente escamoteada: não ofereceu educação, que não contemplava, e pagou indenização, que prometeu não fazer.

Luiz Carlos Azedo - O Centrão esvazia a terceira via para ocupar seu lugar

Correio Braziliense

Manter o controle do Congresso e garantir a reeleição de parlamentares aliados fazem com que o Centrão avance em direção aos parlamentares dos partidos de oposição

Com a entrevista do presidente Jair Bolsonaro ao Jornal Nacional (TV Globo), ontem à noite — que pretendo comentar amanhã, porque escrevo antes que aconteça —, iniciamos uma semana na qual as propostas dos candidatos a presidente da República chegarão ao amplo conhecimento dos eleitores. Ciro Gomes (PDT) participará na terça; o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na quinta; e Simone Tebet (MDB), na sexta. André Janones (Avante), que seria entrevistado na quarta, retirou a candidatura. As entrevistas esquentarão o clima político. O horário eleitoral de propaganda obrigatória de rádio e tevê começará no dia 26, sexta-feira.

Enquanto a disputa pela Presidência monopoliza as atenções nacionais, a disputa eleitoral pelas 513 cadeiras da Câmara Federal e 51 assentos no Senado ocorre numa espécie de lusco-fusco: é acompanhada nos respectivos estados, mas não em seu conjunto, como deveria. É sempre assim, o balanço vem depois do primeiro turno, quando se avalia se houve muita ou pouca renovação. No Senado, com certeza, será limitada pelo fato de que está sendo disputado apenas um terço das cadeiras, uma vaga para cada um dos 26 estados e Distrito Federal; na Câmara, é possível que a renovação seja a menor dos últimos tempos, porque o processo eleitoral e seus mecanismos de financiamento foram blindados para dificultar ao máximo a renovação política.

Andrea Jubé - Por que o voto das evangélicas será decisivo

Valor Econômico

“PT deve recuperar memória afetiva” dos governos Lula, diz pesquisadora

Impulsionador do presidente Jair Bolsonaro nas recentes pesquisas sobre a sucessão eleitoral, o voto evangélico foi decisivo na eleição presidencial de 2018. Para muitos analistas, aquele pleito foi a materialização da estatística de que aproximadamente 20% dos brasileiros, ou 31 milhões de eleitores, se identificavam como evangélicos.

Naquela disputa, pelo menos 21 milhões de evangélicos votaram no deputado Jair Bolsonaro, enquanto 10 milhões optaram pelo ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Reparem que a diferença entre ambos no segundo turno foi justamente de 10 milhões de votos: Bolsonaro obteve 57,7 milhões de votos (55,1%), contra 47 milhões (44,8%) do petista. Citado pelo antropólogo Juliano Spyer no livro “Povo de Deus”, o doutor em demografia José Eustáquio Alves afirmou: “Não há dúvida de que o voto evangélico foi fundamental para a eleição de Bolsonaro”. Segundo ele, “mesmo sendo um terço do eleitorado, as lideranças evangélicas são muito atuantes e estão colhendo o resultado de anos de ativismo religioso”.

Pedro Cafardo - As novas ‘missões’ de um Estado planejador

Valor Econômico

Planejamento, palavra maldita, precisa voltar à discussão

Quase um ano atrás, apontamos aqui alguns temas básicos na área da economia que exigiriam definições claras dos candidatos à sucessão presidencial, entre eles o teto de gastos, a reforma tributária e a emergência ambiental.

Agora que a campanha começou, chegou a hora de aprofundar a discussão. Já está claro que o teto de gastos, seja quem for o eleito, está com os dias contados e terá de ser substituído por outro mecanismo. Ele é uma trava ao crescimento e já foi desmoralizado seguidas vezes.

Forma-se também um quase consenso a favor de uma reforma tributária que aumente mais a taxação sobre impostos diretos, como o Imposto de Renda, e menos a dos indiretos, que atingem principalmente os pobres. Existe entendimento ainda a respeito da necessidade de taxação de dividendos.