quarta-feira, 8 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Elaboração do Enem exige filtro mais rigoroso

O Globo

Questões enviesadas sobre agronegócio e erro de ortografia revelam no mínimo desleixo

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que reúne 374 parlamentares, emitiu nota denunciando duas questões do primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado no último domingo. Na opinião da bancada ruralista, as perguntas têm “cunho ideológico, sem critério científico ou acadêmico”, por isso deveriam ser anuladas. Embora a denúncia possa parecer exagerada, ela deveria provocar uma reflexão sobre como são elaboradas as provas do Enem. Não há dúvida de que no mínimo houve desleixo, pois outra questão citava um texto reproduzido com um erro grosseiro de ortografia.

Desde que foi criado, em 1998, o Enem se tornou foco de todo tipo de controvérsia: vazamento de questões (houve novamente neste ano), gabarito errado, falhas na impressão dos cadernos, citações incorretas e avaliações negligentes de redações. Em 2015, um trecho da pensadora francesa Simone de Beauvoir sobre o feminismo já fora alvo de críticas de conservadores.

Vera Magalhães - Tributária é cavalo encilhado para Lula

O Globo

A sinalização dada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que deverá ser confirmada pelo plenário da Casa, ao aprovar uma reforma tributária complexa, cujos detalhes ficarão para um futuro algo remoto e com mais exceções do que todos gostariam é a mesma que a Câmara já indicava no primeiro semestre: independentemente da fome por cargos e emendas, o Congresso é majoritariamente inclinado a dar suporte à agenda econômica do governo.

Do governo, não. De Fernando Haddad. As recentes manifestações do presidente Lula e a revelação dos bastidores de como a meta fiscal passou a ser bombardeada por setores relevantes do Executivo, a começar da Casa Civil, evidencia que, hoje, o ministro da Fazenda brande sozinho a cartilha da responsabilidade fiscal, e está isolado na percepção de que o sucesso do governo dependerá muito da performance da economia, indissociáveis a primeira e a segunda.

Isso não se dá exatamente por vocação liberal ou republicanismo dos parlamentares. Em parte, o apoio a projetos como a tributária advém de uma percepção que acabou se massificando de que "o momento chegou". É bom para Haddad que o timing coincida com o seu.

Luiz Carlos Azedo - Contribuintes vão pagar pelos muitos subsídios e exceções da reforma

Correio Braziliense

Devido às mudanças no Senado, que criará 10 exceções a serem regulamentadas, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), quer “fatiar” a reforma tributária

Brasileiro ilustre, o geógrafo Milton Santos (1926-2001) era um especialista nas relações entre o atual modelo de globalização e as periferias do mundo e sua economia. Seu olhar sobre esse modelo de desenvolvimento era muito focado na compreensão das desigualdades e da exclusão social. Por isso, sua geografia desenvolveu novos conceitos sobre espaço, lugar, paisagem e região, nos quais o fator humano era central. Com 40 livros publicados e 20 títulos de doutor honoris causa, o geógrafo continua sendo uma referência mundial nas ciências sociais.

Os conceitos de Santos nos permitem ligar dois assuntos que estão na ordem do dia aqui no Brasil: o apagão provocado pelas chuvas em São Paulo e a reforma tributária em aprovação pelo Congresso. São exemplos de captura das políticas públicas por grandes interesses privados, em detrimento do que o professor Santos chamava de “vida banal” da população, ou seja, o cotidiano dos cidadãos. Nas periferias, isso tem o agravante da presença do tráfico de drogas e das milícias no espaço vazio criado pela ausência de políticas públicas eficientes e inclusivas.

Roberto DaMatta -O cru e o cozido da política

O Globo

Nas campanhas tudo se discute, menos a pedra fundacional da nação: o modelo elitista edificado na casa, jamais na comunidade

No nosso teatro público, o “político” faz o cru virar cozido. Tudo o que depende de respeito impessoal — este cru contido na lei que é a alma da cidadania e do igualitarismo democrático — é devidamente cozido em fogo brando depois que o “candidato” se transforma em “eleito”, é investido e personaliza um cargo público.

O cru está para o cozido assim como o candidato está para o eleito. A transformação de um no outro é obra da culinária “política”. Um cozimento rápido, rasteiro e revolucionário, pois leva o sujeito que quer se eleger a prometer mudanças ao governista reacionário, avesso a qualquer avanço.

Reparem: o “candidato” é sempre um revoltado que surpreende porque vai, digamos, redimir as tais contas públicas sempre desajustadas. Mas, uma vez “eleito” e enfaixado, as brasas da política iniciam o cozimento, e logo ele muda e volta ao programa onipotente dos populismos.

A mestra ou responsável por essa mudança é uma velha atriz: a “política”. Essa arte de cozinhar em fogo lento que nós, os comuns, tachamos de “jeitinho”, “jogada”, “roubalheira” ou “malandragem”. Não deixa de ser lamentável que esse instrumento de paz e progresso, a Política (com P maiúsculo), tenha seu lado de tramoia e engano.

Bernardo Mello Franco – Saída à portuguesa

O Globo

Portugal acordou ontem com um escândalo no coração do governo. A polícia prendeu o chefe de gabinete do primeiro-ministro António Costa, do Partido Socialista. Ele entrou na mira de uma investigação que apura ilegalidades na exploração de lítio e na produção de hidrogênio verde.

Os agentes fizeram buscas em dois ministérios e no Palácio de São Bento, residência oficial do premiê. No início da tarde, Costa convocou a imprensa para um pronunciamento. Disse ser inocente, mas renunciou ao cargo que ocupava desde 2015.

“A dignidade das funções de primeiro-ministro não é compatível com qualquer suspeita sobre a sua integridade, a sua boa conduta e muito menos com a suspeita da prática de qualquer ato criminoso. Por isso, obviamente, apresentei a minha demissão”, afirmou.

Fernando Exman - O velho jeito de Lula gerar debates no governo

Valor Econômico

Executivo tenta reduzir os danos colaterais da declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Todo mundo sabia, em Brasília e no mercado, que o debate sobre a revisão da meta fiscal de 2024 ocorreria em algum momento. “Uma coisa é a meta, outra é o resultado”, diziam fontes oficiais e agentes do setor financeiro, referindo-se ao ambicioso objetivo de zerar o déficit no ano que vem. Esperava-se, contudo, um movimento mais organizado por parte do governo. E que a discussão fosse conduzida de forma a assegurar a credibilidade da política fiscal.

Mas até agora o Executivo tenta reduzir os danos colaterais da declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “Nós dificilmente chegaremos à meta zero, até porque eu não quero fazer cortes em investimentos e obras. A gente não precisa disso [meta fiscal zero]”, disse Lula no dia 27 de outubro, em café com jornalistas no Palácio do Planalto. “Eu não vou estabelecer uma meta fiscal que me obrigue a começar o ano fazendo um corte de bilhões nas obras. Se o Brasil tiver o déficit de 0,5% o que é? 0,25% o que é? Nada. Vamos tomar a decisão correta e nós vamos fazer aquilo que vai ser melhor para o Brasil”, completou.

Tiago Cavalcanti* - Uso e abuso da natureza

Valor Econômico

É essencial ter uma visão estratégica da preservação dos ativos naturais, inclusive para proteger nossa maior vantagem comparativa, o agronegócio

Cada vez mais temos a nossa disposição um amplo volume de informações para conduzir análises científicas e auxiliar na tomada de decisões de governos e instituições privadas. Há um número crescente de fontes disponíveis, contendo dados detalhados de variáveis tradicionais, como renda, emprego e preços, bem como de novas variáveis, como comentários postados nas redes sociais, informações pessoais coletadas por aplicativos em nossos celulares e mapas de uso da natureza.

Organizar todas essas informações e derivar estatísticas relevantes para governos, empresas ou instituições de pesquisas são funções desempenhadas por cientistas de dados e especialistas em “Big Data”. Este é um campo que tem experimentado crescimento em diversas áreas, como saúde, educação, finanças e advocacia, possuindo a capacidade de aprimorar os processos produtivos e aumentar a produtividade.

Lu Aiko Otta - Nova oportunidade de negócio com os EUA

Valor Econômico

Agenda da sustentabilidade não pode ser mais uma oportunidade perdida pelo Brasil

Brasil e Estados Unidos deveriam negociar acordos de cadeias de fornecimento, disse a esta coluna o CEO da Amcham, Abrão Neto. Ainda não há decisão a respeito. No entanto, ele considera que essa seria a melhor forma de produzir resultados práticos a partir dos interesses comuns aos dois países em áreas como segurança alimentar, preservação ambiental e transição energética.

Além disso, os acordos facilitariam a empresas brasileiras ter acesso aos fartos recursos que a administração do presidente dos EUA, Joe Biden, colocou em suas políticas industriais. Em dez anos, serão investidos mais de US$ 1 trilhão, o que fortalecerá a produção norte-americana e elevará a demanda por novos fornecedores.

Elio Gaspari - A bomba de Israel saiu do armário

O Globo

O ministro foi afastado, mas sua fala redesenhou a guerra

Numa breve entrevista a uma rádio israelense, o ministro Amichai Eliyahu, encarregado dos assuntos de Jerusalém, disse que jogar uma bomba atômica na Faixa de Gaza é “um caminho”. Foi logo suspenso pelo primeiro-ministro Netanyahu, e o líder da oposição, Yair Lapid, pediu sua demissão. Eliyahu explicou que falou na bomba “metaforicamente”. Tudo bem, mas falou. Jogar uma bomba atômica em Gaza seria maluquice, mas Eliyahu tirou do armário o poderio nuclear israelense.

Para sair da teoria e das metáforas, hoje, num cenário de envolvimento do Irã na guerra, o quadro seria outro, e todos os envolvidos no conflito sabem disso.

Desde as explosões de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, militares e civis já cogitaram o uso de artefatos nucleares em campos de batalha. Entre 1950 e 1968, três presidentes americanos (Harry Truman, Dwight Eisenhower e Lyndon Johnson) recusaram pelo menos uma dúzia de pedidos para lançar bombas na Coreia, na China e no Vietnã.

Martin Wolf* -Vitória de Trump mudaria o mundo

Financial Time /Valor Econômico

Triunfo de Trump significaria que os EUA não estão mais comprometidos com as regras da democracia

Em 19 de novembro de 1919, o Senado dos Estados Unidos rejeitou o Tratado de Versalhes. Com essa decisão, os EUA retiraram seu poderio da manutenção do que tinha sido acordado com o fim da Primeira Guerra Mundial e deixaram essa tarefa para os britânicos e franceses, que não tinham nem a vontade nem os meios para levá-la adiante. A Segunda Guerra Mundial veio na sequência. Depois desse conflito, os EUA tiveram um papel muito mais produtivo. Hoje o mundo ainda é, em muitos aspectos, aquele que os EUA criaram. Mas esse será o caso por quanto tempo mais? E o que pode se seguir a isso? O resultado das próximas eleições presidenciais pode responder a essas questões, não apenas de forma decisiva, mas, lamentavelmente, de maneira muito ruim.

Pesquisas recentes indicam que o desempenho do presidente Joe Biden tem a desaprovação de quase 55% dos eleitores dos EUA. Elas também sugerem que hoje, a um ano das eleições, o ex-presidente Donald Trump está ligeiramente à frente de Biden nas pesquisas em que só os dois aparecem como opções. Por fim, elas apontam que Trump está à frente de Biden em cinco dos seis Estados “indecisos” mais importantes. Considerando-se tudo, uma vitória de Trump é clara e perturbadoramente plausível.

Paulo Delgado* - O ardil do terror

O Estado de S. Paulo

Em todo conflito há vilões e mocinhos, mas neste o ardil pega-trouxa do Hamas se superou ao arrastar parte do mundo para limpar sua sujeira

Nenhuma habilidade no uso da opinião esconde o insulto que é procurar explicação para o terror. Comprar sua versão no mercado da liberdade para desadmirar Israel poderá ser o maior feito do Hamas, se a indolência das nações democráticas continuar vestindo a roupa do interesse bordada com implicações morais. Qual o sistema político formulado pelo fanático? Somente um, o fanatismo.

A autoinvenção do terror quer reverter a seu favor a história do povo mais estigmatizado da Terra. O circo da acrobacia ideológica quer ser pró-palestina com sentimentos antiamericanos e antijudaicos. Num mundo de palavras doentes e verdades escondidas, a crônica da guerra não é boa. Reforçada pela diplomacia enlanguescida que não culpa o Hamas pelo caos, prejudica o Estado Palestino e humaniza o terror para recebê-lo na irmandade dos civilizados.

Quando o filósofo Jean-Paul Sartre criou o grupo Socialismo e Liberdade para organizar a resistência da França contra a ocupação nazista, convidou o escritor André Malraux para se unir a eles. Mudou a forma de agir ao ouvir do grande humanista e futuro ministro da Cultura de Charles De Gaulle: “O que precisamos para combater Hitler são tanques russos e aviões americanos, não um grupo de intelectuais bem intencionados”. A ação conjunta dos Aliados contra o terror pôs fim à Segunda Guerra Mundial.

Marcelo Godoy - A ameaça bélica que vem da Venezuela

O Estado de S. Paulo

Regime de Maduro quer anexar metade da Guiana e vira dor de cabeça para os EUA e para Lula

São cinco perguntas. Elas serão respondidas no dia 3 de dezembro pelos venezuelanos no referendo convocado pelo regime de Maduro para saber se o país deve anexar pouco mais da metade da vizinha Guiana. No momento em que o mundo vive as guerras da Ucrânia e de Gaza e assiste à ameaça chinesa a Taiwan, a Venezuela leva adiante o plano de tomar o território de Essequibo, uma área de 159 mil km² rica em petróleo e minérios.

Trata-se de uma disputa territorial que tem origem no século 19, quando a Inglaterra reclamou a região como parte de sua Guiana. Uma arbitragem internacional patrocinada pelos EUA lhe deu razão. O resultado foi contestado pela Venezuela e nova discussão ocorreu em 1966, quando a Guiana se tornou independente. Tudo foi retomado agora por Maduro.

Wilson Gomes* - O fim do Foro de Teresina e o que pensar sobre isso

Folha de S. Paulo

Um podcast assim é como um romance: cria apego, vínculo emocional, amigos íntimos

De repente, do riso fez-se o pranto. Acabou o Foro de Teresina, um dos podcasts de política mais amados pelos brasileiros, deixando um nó na garganta, desses de fim de histórias de amor. Para mim, o episódio de despedida do programa, na voz de Fernando de Barros e Silva, poderia ter ao fundo um desses deliciosos boleros de sabor almodovariano. "Lo nuestro se acabó y te arrepentirás/ De haberle puesto fin a un año de amor." E corta para Luz Casal, em "De Salto Alto", a desnudar a alma dos teresiners enlutados: "Te has parado a pensar lo que sucederá/ Todo lo que perdemos y lo que sufrirás?".

Não subestimem a importância do luto que se segue ao fim de algum produto cultural cujo consumo se dá por imersão. Leitores conhecem bem essa sensação de angústia ao terminar um romance longo que nos transportou para o seu universo. Aliás, nem se trata de consumo, mas de apreciação e de envolvimento, de uma relação em que os nossos sentimentos e a nossa imaginação estão tão implicados quanto a nossa mente. Sentimos falta das conversas, das pessoas, daquele mundo tão familiar, da dinâmica dos afetos, da companhia, de tudo.

Vinicius Torres Freire - A Enel e a fiscalização pífia das empresas privadas

Folha de S. Paulo

CPIs, agências reguladoras e outras instituições de controle rendem quase nada

No domingo à noite, parado em um sinal da Faria Lima, vejam só, o passageiro do carro ao lado abre o vidro para perguntar se havia um posto de combustível por ali. Sim, pertinho. Não estavam sem gasolina. Precisavam de diesel para um gerador, pois estavam sem eletricidade na pequena empresa deles. "Prejuízo feio, tudo estragando", disseram.

Que pobreza. E a gente mal fala dos oito mortos. Que desgraça.

São histórias banais, pois comuns de milhões de pessoas e comércios que tiveram transtornos diversos e prejuízos, sem eletricidade. Sem luz talvez fiquemos por mais tempo.

Hélio Schwartsman - Planos morais

Folha de S. Paulo

Não é tão difícil assim condenar terror do Hamas e resposta de Israel

Vamos lá, pessoal, não é tão difícil assim. Dá para condenar os brutais ataques terroristas do Hamas e, ao mesmo tempo, criticar a resposta israelense, que vem causando um morticínio entre palestinos. Os planos morais em que atuam um e outro não são idênticos, mas, para quem morre no processo, o resultado é rigorosamente o mesmo.

Por mais justa que seja a sua causa, ela não lhe dá o direito de entrar no território inimigo e assassinar civis desarmados, incluindo crianças, a sangue-frio. A violação moral do Hamas no 7 de outubro é incontestável, quer você abrace éticas deontológicas, da virtude ou consequencialistas. Se o ataque tivesse tido como alvo apenas militares e colonos armados, ele ainda poderia ser descrito como ato de resistência. Não foi o caso.

Poesia | Ode ao dia feliz - Um poema de Pablo Neruda

 

Música | Canção Pros Amigos com Lucy Rodrigues

 

terça-feira, 7 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

GLO de Lula é necessária, porém insuficiente

O Globo

Governo federal ao menos reconhece responsabilidade pela crise de segurança. Mas resolvê-la exige mais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfim se convenceu — ou foi convencido — de que a grave crise de segurança que o país atravessa não permite hesitação. Dias depois de afirmar que, enquanto fosse presidente, não decretaria uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) com presença das Forças Armadas, Lula anunciou um plano de segurança em que uma das principais medidas é justamente a GLO. Melhor assim. Qualquer iniciativa que possa contribuir para combater o crime organizado merece ser considerada, especialmente quando argumentos técnicos se sobrepõem aos político-ideológicos.

Merval Pereira - Novo começo

O Globo

O trabalho conjunto da Receita Federal e do Coaf com Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal é fundamental no combate permanente à criminalidade

O início da operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) nos portos e aeroportos do Rio e São Paulo e nas fronteiras internacionais de estados do Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul marca uma nova maneira de enfrentar a criminalidade ligada ao tráfico de drogas e às milícias, que pode ser efetiva se tiver caráter permanente.

A politização extremada, até mesmo das questões técnicas mais corriqueiras, fez com que a operação iniciasse com um debate paralelo desimportante, mas que acabou ganhando tons de gravidade inexistente. O presidente Lula, que não dispensa uma pirotecnia verbal, bravateou que não assinaria a GLO.

Carlos Andreazza - Milicianos

O Globo

Já está na praça “Milicianos”, o livro-reportagem de Rafael Soares, repórter especial do GLOBO. Vai à categoria do “tem de ler”, prateleira Malu Gaspar, ademais editado em altíssimo nível. Demonstração vigorosa-corajosa-rigorosa das possibilidades do jornalismo quando investido de fôlego. Lembrança também de quanto é decisivo valorizar e proteger o arriscado jornalismo dedicado às cidades — ao local. (Lembrança inútil, para a festa no palácio.)

E então me recordo de “Os porões da contravenção”, de Chico Otavio e Aloy Jupiara, volume cuja leitura combinada à da obra de Soares explica — fundamenta — por que não haverá mais meios estaduais, com polícias Militar e Civil, para sequer enxugar o gelo da segurança pública no Rio de Janeiro. (Está no ar, no Globoplay, a série “Vale o escrito”; sobre a guerra contínua — guerra miliciana — entre bicheiros no estado. Capitão Guimarães, o que decerto tomou Niterói com versos, citando Shakespeare.)

Míriam Leitão - O ponto central sobre o déficit

O Globo

Uma possível mudança da meta fiscal está sendo tratada de forma desastrada e tem poder destrutivo contra o próprio governo

A questão do déficit de 2024 não está ainda resolvida mas, sobretudo, não está entendida. Mais do que um número, entre zero e meio, o que se discute é que força terá o ministro da Fazenda para conduzir seu projeto. Como resultado de todo esse ruído, a mediana do mercado para o resultado primário no Boletim Focus saiu de 0,78% de déficit para 0,80%. A previsão de inflação em 2024 saiu de 3,90%, para 3,91%. Noves fora, nada. Mudança insignificante. Engana-se quem conclui que as consequências serão só essas.

Mais do que a mudança, a maneira desastrada como tem sido executada tem poder destrutivo. Olhando o panorama inteiro, o que se vê é que o ministro Fernando Haddad começou o governo sob enormes dúvidas de como exerceria o cargo. Desde o início, no entanto, ele mostrou saber para onde ir. Reduzir o déficit, aprovar um arcabouço fiscal para substituir o Teto de Gastos que fora desmoralizado pelo governo anterior, fazer andar a reforma tributária, combater a erosão da base tributária através de um trabalhoso exercício de fechar os buracos da evasão e da elisão fiscal. Esse é o programa e ele tem executado com persistência.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Lula e os ministros gastadores

Valor Econômico

No Brasil de Lula e Haddad, os sábios da Crematística buscam a magnésia capaz de debelar os males dos déficits primários

Jornalistas de escol e economistas qualificados pelos requisitos de mercado criticaram acerbamente as palavras do presidente Lula. Lula declarou que guardava esperanças. Esperanças no emprego do dinheiro público na consecução de obras de infraestrutura.

Antes de prolatar inconformismos com o debate contemporâneo a respeito do dinheiro, vamos tentar uma modesta, talvez necessária, caminhada.

Gideon Rachman - Guerra na Faixa de Gaza pode transformar o mundo

Financial Times / Valor Econômico

Apoio dos EUA a Israel pode prejudicar o apoio dos eleitores progressitas ao presidente Joe Biden em 2024, favorecendo Trump e Putin

“Things can only get better” (as coisas só podem melhorar) parecia o hino dos anos 1990. Lançada em 1993, quatro anos depois da queda do muro de Berlim, a música era a trilha sonora perfeita para uma década em que o apartheid terminou, a democracia chegou à Europa do Leste, a paz chegou à Irlanda do Norte e os acordos de Oslo prometiam um fim para o conflito entre Israel e a Palestina.

Nos anos 1990, o clima da época favorecia os defensores da paz, os democratas e os internacionalistas. Hoje são os nacionalistas, os promotores da guerra e os que vivem de teorias da conspiração que têm o vento a seu favor.

Andrea Jubé - Pesquisas alertam: não é a economia, estúpido!

Valor Econômico

Governo precisa governo intensificar a disputa política com a oposição e afinar a comunicação interna e externa

Um episódio em torno da entrega de ambulâncias do Samu 192 pelo Ministério da Saúde em São Paulo ilustra a urgência de que, a um ano das eleições municipais, o governo intensifique a disputa política com a oposição e afine a comunicação interna e externa, com eleitores do PT e do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Pesquisas recentes levadas a público, bem como levantamentos internos que circulam entre ministros do Palácio do Planalto, acenderam um sinal de alerta no governo ao demonstrarem que a melhora de índices econômicos - como a queda da inflação e do desemprego - não bastam mais para segurar o eleitor.

Sondagens divulgadas recentemente, bem como aquelas confiadas ao ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Paulo Pimenta, indicaram queda expressiva na avaliação do governo no segundo semestre.

Luiz Schymura* - Pacto e vínculos agravam quadro fiscal

Valor Econômico

“Pedágios” acabam encurtando o espaço de manobra do governo de plantão

O governo vem tentando administrar as contas públicas a contento. Se por um lado procura construir caminhos para assegurar a sustentabilidade fiscal, por outro, trabalha para atender as enormes demandas da sociedade. Sem dúvida não é um equilíbrio fácil de ser alcançado.

No intuito de satisfazer essa intrincada equação, o governo se comprometeu a zerar o déficit já em 2024, obviamente, imaginando que conseguiria dispor do montante necessário para cumprir seu programa. Frente a esse quadro, o equilíbrio fiscal passou a depender eminentemente da elevação da receita. Não à toa, a arrecadação bruta da União em 2024 precisa de um reforço da ordem de R$ 170 bilhões. No entanto, por mais que o governo venha trabalhando junto à classe política e aos grupos de interesse organizados, a economia política não dá sinais de que viabilizará, em tempo hábil, a aprovação, no Congresso, das medidas necessárias para obtenção dos R$ 170 bilhões.

Eliane Cantanhêde - O tempo corre, o risco aumenta

O Estado de S. Paulo

O que americanos e europeus em Gaza têm que os brasileiros não têm? Poder

O que americanos e europeus têm que brasileiros não têm? A pergunta faz sentido diante do sofrido, atrasado e lento processo de retirada de 7 mil estrangeiros civis da Faixa de Gaza, iniciado na quarta-feira, 1.º/11, interrompido três dias depois e reiniciado ontem, sem um único dos 34 cidadãos da lista do Brasil a bordo, 15 crianças aí incluídas.

O governo Joe Biden, possivelmente na contramão da própria diplomacia americana, derrubou com um veto, único e arrogante, a resolução por uma “trégua humanitária” apresentada pelo Brasil durante seu mês na presidência do Conselho de Segurança da ONU. Depois, o mesmo governo Biden tentou emplacar e capitalizar, solitariamente, o que impediu o conselho de fazer coletivamente.

Luiz Carlos Azedo - Esquerdismo contaminou questões do Enem sobre o agro

Correio Braziliense

A tese da esquerda brasileira era de que o Brasil não poderia se desenvolver com latifúndio e dominação do capital estrangeiro. O que aconteceu foi o contrário

Há mais de 100 anos, a reforma agrária é uma ideia-força para a esquerda brasileira. Demorou para ter apoio popular e, a rigor, nunca se completou. É uma das faces do atraso brasileiro e nosssa iniquidade social. Em Portugal, a reforma agrária aconteceu na Revolução do Mestre de Avis (1383-1385), coroado João I. Foi uma revolução burguesa, que deu origem ao primeiro Estado Nação da Europa. A vitória da burguesia comercial e a reforma agrária impulsionaram tremendamente as indústrias naval e vinícola de Portugal, sem as quais não teriam ocorrido as grandes navegações.

No Brasil, a primeira oportunidade perdida foi na Independência, em 1822. José Bonifácio, em Apontamentos sobre as sesmarias, defendeu as pequenas propriedades, e a distribuição de terras aos indígenas, ex-escravos e colonos portugueses chegou a ser proposta por ele, para as “terras baldias”, numa estratégia de conciliação com os senhores de escravos. A prioridade dada ao arranjo institucional, no qual a monarquia foi a chave para manter a integridade territorial, e capacidade de fazer inimigos de Bonifácio inviabilizaram suas propostas, mesmo não havendo abolição.

Joel Pinheiro da Fonseca - O Enem é ideológico?

Folha de S. Paulo

Estudante não é chamado a se posicionar; é-lhe pedido que interprete autores

Sinais de que o ano se aproxima do fim: decoração de Natal nas lojas e discussões sobre a "ideologia" no Enem. Desta vez não foi diferente: a bancada do agro já pediu que o MEC anule três questões da prova, por terem "cunho ideológico".

Nos anos anteriores, a preocupação com a "ideologia" (fantasma que ninguém define direito) na prova se centrava em temas de sexualidade —lembremos da pergunta sobre o dialeto LGBT, em 2018, que fez tremer a família brasileira— e da ditadura militar, que chegou a ser banida da prova.

No campo da sexualidade, este Enem não ousou. Já a ditadura voltou a figurar, como deve ser. Ideológica era a decisão de censurar menção a um período importante de nossa história recente.

Dora Kramer - Os tira-teimas de 2024

Folha de S. Paulo

Eleição de 2024 será campo de testes para a força da polarização, entre outras situações

Na política há dúvidas recorrentes que a realidade costuma responder de modo contrário ao senso comum. Uma delas é sobre a influência do desempenho do Brasil na Copa do Mundo na eleição para presidente no mesmo ano; outra, que nos interessa aqui, é se as disputas municipais são uma prévia da corrida presidencial dois anos depois.

O histórico mostra zero reflexo do futebol no quadro eleitoral e quase nenhum efeito dos embates locais sobre o cenário nacional. O PT é um desses casos. Teve seu pior resultado em 2020 —183 prefeituras para quem já teve 624— e, em 2022, voltou ao poder com Luiz Inácio da Silva.

Hélio Schwartsman - Coisas da política

Folha de S. Paulo

Alocação de verbas federais por emendas parlamentares gera crueldades

Embora as pessoas adorem gritar nas redes sociais, na política real são as mudanças silenciosas que acabam se mostrando mais decisivas. Um exemplo é o advento de emendas parlamentares de execução obrigatória, que vão abrangendo fatias cada vez maiores das verbas orçamentárias livres para investimentos. Já comentei aqui como esse fenômeno reduziu os poderes da Presidência. Hoje quero analisá-lo do ponto de vista dos eleitores.

A "emendização" tomou proporções tais que o caminho mais fácil para comunidades terem acesso a verbas federais é encontrar um deputado ou senador para apadrinhar a causa. O sistema até que funciona para as populações que conseguem eleger um representante. Só que nem todas obtêm sucesso nisso. Se olharmos para o mapa do Brasil, encontraremos extensas áreas de deserto parlamentar, isto é, de municípios e regiões que não contam com um patrono federal.

Alvaro Costa e Silva - Lula no beco do crime

Folha de S. Paulo

Adversários vão bater sem trégua no problema da segurança

Durante a Eco-92, reunião com chefes de Estado e representantes de 179 países para discutir a preservação ambiental, ganhou força uma expressão que ao longo do tempo se transformou em clichê: sensação de segurança. O símbolo eram três blindados, com metralhadoras e lança-morteiros, que ficaram 12 dias apontando para a favela da Rocinha.

Vinte e cinco mil policiais civis, militares e federais e agentes das Forças Armadas vigiaram a conferência como se o Rio —que passou por uma cirurgia estética removendo mendigos das ruas— estivesse sitiado à espera da guerra. Os registros de violência caíram 37% nas zonas sul e central. No restante da cidade, os altos índices de criminalidade não se alteraram. Uma sensação de segurança localizada, temporária e falsa. Na mesma época da Cúpula da Terra, o ovo da serpente miliciana era chocado na zona oeste.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Perigosas fantasias orçamentárias

Depois de mandar para a prisão um punhado de políticos e até presidentes da República, passar por uma fase descarada de revisão das punições, e ser enterrada, a Lava Jato parece tremer no túmulo, acompanhando essa discussão insólita sobre o tal de déficit primário zero das contas públicas. "Ora, 0,5% ou 0,25% isso é nada!",  Dilma  quem o diga. Déficit primário é a diferença entre as receitas e as despesas do Governo, já descontados os juros da temerosa dívida pública, de R$ 6 trilhões, no montante  de R$ 700 bilhões anuais. 

Esses percentuais acima estão relacionados com o PIB, projetado em 2023 para R$ 2,7 trilhões, e representado , setorialmente, por  atividades na área dos  serviços, da indústria, da agropecuária, do consumo das famílias, do gastos do governo, dos investimentos, das    exportações e  importações. Como as receitas do Brasil não dão conta das despesas, os déficits são financiados pelo endividamento público seja interno ou no exterior. 

Ricardo José de Azevedo Marinho* - Olha, vê, repara

Além das definições patológicas para as diversas formas de má visão, os dicionários fornecem outra: quando existe a incapacidade de ver coisas que são muito claras e fáceis de entender ou de perceber com perspicácia sobre algum assunto. Isso é o que chamamos de má visão intelectual.

Essa característica costuma ser muito comum na política e afeta especialmente aqueles que ocupam posições dos extremos, seja à direita seja à esquerda. As causas dessa má visão parece ser a postura obtusa advinda do olhar doutrinário, as convicções de verdades absolutas que acreditam possuir, o desprezo por certa relatividade típica das regras democráticas e uma surdez crônica face às diferentes opiniões que consideram filhas do erro. Se junta a má visão a má audição.

Estas causas agravam-se quando, por estados de espírito normalmente efémeros, obtêm uma grande votação como normalmente acontece com o voto volátil e emocional que ocorre na nossa sociedade da informação.

Poesia | Charles Baudelaire - Benção

 

Música | Paulinho da Viola - Pecado Capital

 

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Os dilemas regulatórios da inteligência artificial

O Globo

Conferência global conclui haver “potencial para danos graves”. Desafio é garantir avanço reduzindo riscos

Reunidos no Reino Unido na última semana, representantes de 28 países, entre eles Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Brasil e Índia, chegaram a um acordo para tentar entender e gerenciar os riscos trazidos pela tecnologia conhecida como inteligência artificial (IA), a habilidade de computadores processarem linguagens de modo praticamente indistinto dos humanos. “Há potencial para danos graves, até mesmo catastróficos, deliberados ou não intencionais”, diz o texto da Declaração de Bletchley, local da cúpula sediada pelo governo britânico, onde Alan Turing, um dos fundadores da ciência da computação, trabalhou na Segunda Guerra Mundial.

Nas últimas duas décadas, uma técnica chamada “aprendizado de máquina” permitiu que softwares pudessem interpretar, com extrema rapidez, quantidades enormes de exemplos e aperfeiçoassem respostas a desafios complexos sem ser programados especificamente para enfrentá-los. Computadores se tornaram imbatíveis em jogos de estratégia e noutras atividades sofisticadas.

Fernando Gabeira - A guerra contra as crianças

O Globo

Estrategistas não contam com a morte e mutilação infantil. Mas deveriam avaliar os traumas da guerra e da perda da infância

Não quero comover, emocionar, levar às lágrimas. Apenas perguntar: Que mundo é este em que 420 crianças são mortas por dia, sem que nada possamos fazer? Que mundo é este em que, entre 20 mil feridos, 7 mil são crianças? Que mundo é este em que crianças não podem dormir com o barulho das bombas, não podem brincar entre ruínas pontilhadas de corpos despedaçados?

Difícil aceitar um mundo em que não se trocam imediatamente crianças sequestradas pelo Hamas e crianças presas em Israel. Uma troca pura e simples, sem considerações aritméticas, do tipo um por um. Todas deveriam voltar para suas casas, no caso de ainda terem uma.

Alguns diriam que é ingenuidade supor que as guerras não sejam destrutivas. Sempre mataram, mutilaram e separaram entes queridos. Mas, ao longo do tempo, evoluímos. Criamos leis internacionais. A Convenção de Genebra tem quatro versões, precisamente porque não só definia crimes de guerra, como também expressava essa evolução civilizatória.

Miguel de Almeida - poder feminino

O Globo

Gleisi cumpre hoje o papel antes ocupado por Dilma Rousseff

Quiseram os astros (a Lua em gêmeos, presumo), e uma conjunção cósmica alinhou os três partidos maiores de esquerda do Brasil sob o comando de mulheres. Gleisi Hoffmann à frente do PT; Luciana Santos, no PCdoB; e Paula Coradi, eleita há pouco no PSOL. Nunca antes no Brasil ocorrera semelhante sintonia de gênero no meio progressista. Pode ser um sinal dos tempos, como pode não ser absolutamente nada. Talvez uma brincadeira astral. Ou não.

Por alguma injunção planetária, os três partidos apoiam o governo do presidente Lula. Portanto, sócios na alegria e na crise de segurança; na herança econômica de Paulo Guedes e na esperada exploração de petróleo na Margem Equatorial (como já ocorreu com a escravidão, seremos o último país do mundo a abandonar tal atraso); na pauta identitária (sempre me lembro do cãozinho militante subindo a rampa na posse; fofo) e no churrasco com Arthur Lira.

Ricardo Henriques - Transição demográfica e pacto intergeracional

O Globo

A forma como adaptaremos nossas políticas públicas poderá resultar no agravamento de desigualdades

Há dez dias, o IBGE divulgou novos números do Censo de 2022, revelando, entre outros pontos, um crescimento de 57% em 12 anos no número de brasileiros com 65 anos ou mais. É mais um dado a confirmar que caminhamos, em velocidade superior à prevista, na direção de uma estrutura demográfica mais envelhecida.

Essa transição, porém, ocorre em ritmos distintos em diferentes grupos populacionais, gerando implicações cruciais para a formulação de políticas públicas.

Marcus André Melo - Governo e mentira

Folha de S. Paulo

Quem defende a responsabilidade fiscal? Essa defesa é crível?

No governo de Cristina Kirchner (2007-2015), a inflação oficial anunciada pelo Indec (o IBGE argentino) entre 2007 e 2013 era, na média, 15 pontos percentuais inferior à real.

Empresas e instituições começaram a produzir índices alternativos. O governo então passou a multá-las, acusando-as de produzirem fake news.

A oposição reagiu criando o seu próprio índice, o "IPC Congreso". Em 2013, o FMI reagiu com uma moção de censura à Argentina que eventualmente poderia evoluir para proibição de empréstimos. Ou sua expulsão, por deliberadamente produzir informações falsas, como aconteceu com a Tchecoslováquia, em 1954.