segunda-feira, 11 de outubro de 2021

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Afrouxando limites

Folha de S. Paulo

Congresso corrige defeitos da Lei de Improbidade, mas reduz risco para políticos

Prestes a completar três décadas de vigência, a Lei de Improbidade Administrativa ampliou sobremaneira os poderes outorgados ao Ministério Público pela Constituição de 1988 para deter políticos desonestos e maus administradores.

Ela abriu caminho para processar na área cível os que praticassem desvios e criou um instrumento potente para responsabilizar os que escapassem da esfera penal, punindo-os com perda de cargo e direitos políticos e obrigando-os a pagar pelos danos ao erário.

Na quinta (7), após mais de três anos de discussão, o Congresso concluiu a votação de um projeto que modifica vários dispositivos da legislação e submeteu o resultado ao presidente Jair Bolsonaro, para que sancione ou vete a nova lei.

A principal mudança introduzida pelo projeto restringe as punições por improbidade aos casos em que ficar comprovado dolo, ou seja, a intenção de lesar os cofres públicos. Ficam livres de sanções erros dos gestores, ou mesmo demonstrações de negligência.

Poesia | Fernando Pessoa - Como te amo

 

Música | Ana de Hollanda -Acalento (Aldir Blanc Inédito)

 

domingo, 10 de outubro de 2021

Merval Pereira - Inaceitável e indesejável

O Globo

O empresário Pedro Passos, sócio da Natura, deu recentemente entrevista ao Globo em que diz que o país tem que se afastar, na eleição presidencial do ano que vem, da polarização entre o “inaceitável”, referindo-se ao presidente Bolsonaro, e o “indesejável”, que seria o ex-presidente Lula. Passos cita algumas das características que tornaria “inaceitável” a reeleição de Bolsonaro: “Não é democrata, é perigoso, não tem programa, não tem empatia com a população”. Quanto a Lula, disse que “traz uma agenda velha, de atraso, de intervenção econômica”.

O que mais tornaria Bolsonaro “inaceitável” e Lula “indesejável”? A incapacidade de ambos de criar maiorias legítimas no Congresso é patente. Lula assumiu à frente de um partido forte que fundou, o PT, querendo distância do PMDB, que em 2002 representava a política fisiológica, a ponto de ter vetado um acordo do então poderoso José Dirceu com o partido.

Míriam Leitão - A dilacerante dor dos brasileiros

O Globo

Nem nos mais pessimistas cenários esse número apareceu. Nem nos piores pesadelos o país imaginou que poderia perder 600 mil vidas na pandemia. Se tentássemos escrever uma distopia, algum enredo de horror político, o presidente seria assim como o que governa o Brasil. Não visitaria hospitais, não consolaria as vítimas, proibiria as medidas de precaução, induziria o uso de um remédio ineficaz e impediria que seus ministros e assessores socorressem a população. E mentiria todos os dias. O que nós vivemos não estava escrito, previsto ou calculado. As marcas ficarão. Como disso o cantor e compositor Criolo, “a pandemia nunca vai acabar para quem perdeu um ente querido.” Ele perdeu a irmã.

Há quem diga que a CPI não dará em nada, que se perdeu, que poderia ter pensado em outra estratégia. Falta nessa análise tanto a visão global quanto a dos detalhes. A CPI foi o desabafo do país, de todos os que discordam dos rumos aviltantes do governo. Nos detalhes, a Comissão revelou um mundo de informação que apenas intuíamos e que agora estão expostas, irrefutáveis. Se isso vai se transformar em alguma punição contra os culpados não depende da Comissão Parlamentar. Se autoridades policiais, políticas e dos órgãos de controle fingirem não ver, serão cúmplices. Se o procurador-geral da República, Augusto Aras, continuar inerte e sinuoso, será cúmplice. Diante de todos os que falham neste momento dilacerante do Brasil estará uma lápide com 600 mil nomes.

Elio Gaspari - Para os doidos, fracasso é sucesso

O Globo / Folha de S. Paulo

Morrem 600 mil pessoas numa epidemia que o monarca republicano chamou de “gripezinha“, e a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ainda não se deu conta de que cloroquina é um medicamento ineficaz para a Covid

Na sexta-feira completam-se 140 anos do dia em que Machado de Assis começou a publicar a história do médico Simão Bacamarte, “O alienista”. Ele era “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua”. Essa obra-prima está na rede. Lendo-a, recua-se no tempo e descobre-se que o doutor Bacamarte tinha suas razões. Bem que D. Pedro II avisaria, oito anos depois, na noite em que o embarcaram para o desterro: “Os senhores são uns doidos”.

Morrem 600 mil pessoas numa epidemia que o monarca republicano chamou de “gripezinha“, e a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ainda não se deu conta de que cloroquina é um medicamento ineficaz para a Covid. Em dois anos, dois ministros da Saúde foram embora porque não queriam receitar a poção. Já o ministro da Tecnologia, um astronauta e coronel da reserva, garantiu, em abril de 2020, que pesquisadores do governo haviam descoberto um remédio contra o vírus. Não disse o nome, mas garantiu que ele estaria disponível em poucas semanas.

Os doidos estavam chegando, mas não se pode dizer que avançavam apenas sobre a saúde pública. Na semana passada, a Petrobras leiloou 92 blocos oceânicos e 87 encalharam por falta de interessados. Ninguém quis se meter com a exploração em áreas de proteção ambiental próximas à ilha de Fernando de Noronha e ao Atol das Rocas. O diretor da Agência Nacional de Petróleo veio à vitrine e anunciou: “O leilão foi um sucesso”. (No dia 1º de novembro começa em Glasgow, na Escócia, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas.)

Luiz Carlos Azedo - As almas mortas e a montanha

Correio Braziliense / Estado de Minas

O trauma vai muito além dos 600 mil mortos por covid-19. Milhões de pacientes passaram pelas enfermarias. O que mudou no modo de vida e na forma de pensar dessas pessoas?

“Diga- me, mãezinha, têm morrido camponeses seus? — Nem me fale paizinho — dezoito homens! Disse a velha com um suspiro. — E tudo gente boa que morreu, bons trabalhadores. É verdade que nasceram outros depois, mas o que valem? É tudo criançada; mas o fiscal chegou, mandando pagar a taxa por alma, da mesma forma. Os homens estão defuntos, mas eu tenho que pagar como se estivessem vivos.”

No livro Almas mortas, o escritor ucraniano Nikolai Gogol ironiza a servidão russa na época do czar Pedro, o Grande, que resolveu cobrar impostos sobre todas as almas. Cobrava até de quem não era católico, apesar de não ser nada religioso. Os proprietários de terras eram obrigados a pagar os impostos pelo número de servos, inclusive os que haviam morrido. Pável Ivánovitich Tchítchicov, o personagem central do romance, resolve ganhar dinheiro com isso.

Charmoso, educado, sagaz e boa pinta, usa de convencimento para enganar pequenos proprietários. Aproveita-se da burocracia russa ineficiente, e do regime de servidão e da miséria, para hipotecar almas como se todas estivessem vivas e, com isso, obter lucro. Se o proprietário vende uma alma, para Tchitchicov, o vendedor não perde nada. Pelo contrário, ele economiza no imposto que teria que pagar e ainda ganha uma quantia em rublos. Quanto ao comprador, essas almas mortas passarão a fazer parte do seu patrimônio.

Bruno Boghossian - Detonação controlada

Folha de S. Paulo

Ministro fala em corrupção e avisa que haverá operação mirando verba de parlamentares

O chefe da Controladoria-Geral da União deu um aviso curioso na última semana. Wagner Rosário disse não ter dúvidas de que existem casos de corrupção no pagamento de emendas indicadas por parlamentares e anunciou que a Polícia Federal deve bater na porta de alguns dos envolvidos em breve. “Todos nós vamos ficar sabendo no dia da deflagração das operações”, declarou.

O alerta é inusitado porque um investigador não deveria dar aviso prévio de suas ações. Além disso, Rosário é ministro de Jair Bolsonaro, um presidente que sobrevive no poder graças a essas emendas. Para completar, o chefe da CGU falou sobre as suspeitas numa audiência dentro Câmara, onde essa fatia do Orçamento é partilhada.

Hélio Schwartsman - O tribalismo inviabiliza a democracia?

Folha de S. Paulo

Ele não impede um país de se democratizar, mas exige adaptações

Li em vários artigos que os EUA fracassaram em implantar uma democracia viável no Afeganistão porque desconsideraram o caráter tribal do país. Não afirmo que essa análise esteja errada, mas é preciso qualificá-la.

Socorro-me aqui de "The WEIRDest People in the World", de Joseph Heinrich, livro que já comentei. São poucas as nações que lograram desenvolver uma psicologia não tribal, isto é, mais pautada pela crença no individualismo, no livre-arbítrio e na universalidade das leis do que ditada por sistemas de lealdades familiares. O fenômeno, também designado como psicologia "weird" (acrônimo inglês para "ocidental, educado, industrializado, rico e democrático"), é característico da Europa ocidental e de algumas de suas ex-colônias e pouco representativo da média da humanidade.

Janio de Freitas - Os ossos da eleição

Folha de S. Paulo

O principal figurante de 2022 ainda está silencioso: é o aumento da pobreza

pobreza aumenta, voraz, na horizontal e na vertical. Desta vez, com a pandemia como terceiro impulso, sem por isso evitar que os dois outros sejam talvez mais fortes do que nunca. O governo Collor foi um desastre criminoso, com a bondade solitária de sucumbir a meio do mandato, e nem desta Bolsonaro é capaz. Muito menos o será para deter o crescente empobrecimento. E ainda há o descaso histórico de todas as formas de poder, público e privado, diante do crime irreconhecido que é a injustiça social. Vírus, desgoverno, indiferença também são Os Três Poderes.

Entre as características da economia brasileira há muitos componentes importantes que jamais têm a honra de uma referência, ao menos, na prolixidade dos economistas propagados nas telas e nos papéis. Um bom exemplo é a correção salarial, na verdade, um acelerador da pobreza existente e da indução de empobrecimento. A regra básica dada a essa concessão dos poderosos foi não corrigir jamais.

Exceto nos anos chamados pelo reacionarismo de lulopetistas, e apesar do empenho de Sarney e Itamar, as incontáveis correções foram fixadas abaixo da correção de fato. Sem esquecer que a inflação declarada, como o PIB, é outra falcatrua antissocial, perceptível em ida a qualquer dependência do comércio usual.

Vinicius Torres Freire - A inflação perversa de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Surto de preços é piorado por desgoverno e queda violenta de renda

A inflação alta de Jair Bolsonaro pode até durar menos que a de outros dois surtos de carestia deste século. Mas é das mais perversas e politicamente daninhas, acontece em um momento em que os pobres perderam muita renda e sob um desgoverno histórico. Para ser honesto, qualquer governo teria dificuldade mesmo de atenuar este choque. Claro que o cruel, desumano e degradante Bolsonaro piora a situação.

Não apenas a inflação média está alta. A onda de carestia de comida é a pior desde 2003. O choque da conta de eletricidade é o segundo pior do século, assim como a alta do preço do botijão de gás e a dos combustíveis para veículos. São surtos que causam fome, asfixiam orçamentos já esquálidos, irritam os remediados que têm carro e afetam preços que são muito evidentes no dia-a-dia.

Essa conjunção aconteceu no início do governo Lula da Silva e ajudou a derrubar Dilma Rousseff. Acontece de novo sob Bolsonaro.

O Brasil passou por outras duas ondas compridas de inflação ruim depois de 1999, desde quando o Banco Central tenta conter os preços no sistema de metas. A primeira foi de novembro de 2002 a novembro de 2003, passando pelo pico de 17,2% em maio de 2003. A segunda foi de novembro de 2015 a fevereiro de 2016, com pico de 10,71%. Em setembro deste 2022, a inflação anual foi a 10,25%.

Eliane Cantanhêde - E se?

O Estado de S. Paulo

Brasil não quer fuzil, quer arroz, feijão, absorvente, vacina, ciência e... justiça

A boa notícia é que o porcentual de brasileiros vacinados com as duas doses aproxima-se de 50% e a pandemia está arrefecendo. A má notícia é que o Brasil atingiu 600 mil mortos, com média móvel ainda em torno de 450 a cada 24 horas (queda de dois Boeings por dia) e sequelas incômodas, zunindo nos nossos corações e mentes, em busca de respostas e responsabilização.

O pior, aparentemente, passou, mas centenas de famílias ainda perdem seus entes queridos todos os dias, há dúvidas quanto ao futuro e um rastro de dor: pelos mortos, os efeitos em muitos sobreviventes e a sensação desesperadora de que não precisava ter sido assim. Com o aperto no coração de quem chora a morte dos seus: e se?

E se o presidente da República fosse razoável, sensato, responsável, reverente à ciência? Se tivesse mantido médicos com autonomia e caráter no Ministério da Saúde? Se, em vez de dar ouvidos a filhos, terraplanistas e gabinetes paralelos, se guiasse pela OMS e as agências de saúde do mundo civilizado?

Pedro S. Malan* - Fazendo o diabo II?

O Estado de S. Paulo

O enorme desafio do Banco Central será ainda maior se não houver apoio do lado fiscal

Esse foi praticamente o título do artigo que publiquei neste espaço em 12 de outubro de 2014, entre o primeiro e o segundo turno das eleições daquele ano. A expressão havia sido usada em 2013 pela então presidente Dilma Rousseff: “Nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. No caso, busca por reeleição, no exercício do cargo. Como é sabido, seu marqueteiro a reelegeu fazendo o diabo a quatro.

O artigo concluía com observação sobre a herança que “(...) a presidente Dilma vem construindo em seus discursos e debates de campanha, em especial nos últimos dois meses, criando para si própria armadilhas adicionais às que construiu com as políticas que implementou ao longo de seus quatro anos. São estas que estão sob o escrutínio agora, quando a presidente pede ao eleitorado mais quatro anos do mesmo, já que não reconhece problemas e, portanto, não vê necessidade de mudanças para enfrentá-los”.

Deu no que deu, uma vitória de Pirro. A conta não tardou a chegar, mas quando isso ocorreu a recessão já havia começado (para só terminar em dezembro de 2016), a renda per capita caíra quase 9% e a taxa de investimento, cerca de 30%, e o número de desempregados já superava 13 milhões. Em parte, legado do “fazendo o diabo, custe o que custar”.

O comunicado divulgado ao final da reunião de cúpula dos chefes de Estado da Europa de junho de 2012 dizia: “Nós reafirmamos nosso compromisso de fazer o que for necessário para assegurar a estabilidade financeira na Eurozona”. Menos de um mês depois, o presidente do Banco Central Europeu (Mario Draghi), referindo-se aos custos políticos que alguns países pagavam para refinanciar suas dívidas, afirmou: “O BCE está pronto a fazer o que for necessário (wathever it takes) para preservar o euro”. E emendou: “Acreditem em mim, isso será suficiente”. Esse recurso retórico, que permitia antever a superação das conhecidas resistências alemãs, foi o que moveu corações, mentes e nervos nos mercados. Mais recentemente, já sob a covid-19, os países europeus acordaram a criação de um fundo de ¤ 750 bilhões para programas de investimentos nas economias da região. Algo que dificilmente ocorreria, não fosse a pandemia, a exigir o espírito do “whatever it takes” – expressão da qual o fazendo o diabo, custe o que custar vem a ser versão mais rústica.

Rolf Kuntz - Por que a inflação é mais dolorosa no Brasil

O Estado de S. Paulo

Balanço de Bolsonaro inclui mortandade, desemprego e inflação fora do padrão global

Inflação no Brasil é sinônimo de fome. Não falta comida, apesar da seca, mas falta dinheiro para comprar alimentos cada vez mais caros. Há um surto inflacionário em todo o mundo, mas por aqui a situação é especialmente dramática. Os preços pagos pelas famílias brasileiras subiram 10,25% nos 12 meses até setembro. No mês anterior a taxa acumulada havia chegado a 9,68%. Isso é mais que o dobro da média, 4,3%, registrada nos 12 meses até agosto nos 38 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Grupo dos 20 (G-20) a média foi de 4,5%. No Brasil, o custo da alimentação aumentou 12,54% no período equivalente a um ano. Na OCDE, a média no período anual encerrado em agosto ficou em 3,6%. Os dados nacionais foram divulgados na sexta-feira. No mesmo dia, os mortos pela covid chegaram a 600 mil, número explicável principalmente por erros e omissões do presidente Jair Bolsonaro e seus comandados.

O noticiário tem mostrado cenas de pessoas catando ossos, pelancas e restos de comida. Gente em situação pouco melhor tem conseguido comprar pés de frango. Pés e asas de aves foram sucessos de venda na grande crise de 19821983, quando o Brasil quebrou, teve de renegociar a dívida externa e se atolou em recessão. No ABC, famílias de operários ainda empregados formavam grupos de três para sustentar duas em piores condições.

Cristovam Buarque* - Falta confiança

Blog do Noblat / Metrópoles

Fracasso em leilão de poços de petróleos deve abrir os olhos para a importância do fator mais escasso hoje no Brasil: a confiança

O fracasso desta semana para leiloar poços de petróleo deve servir como uma lição para os economistas entenderem a importância do fator confiança na geração de riqueza. Até recentemente, a equação produtiva exigia três fatores: mão de obra, capital e recursos naturais. Com o tempo, passou-se a tratar a tecnologia – o chamado “como fazer”, como mais um fator de produção. O Brasil tem tecnologia e mão de obra, mas o petróleo continua no fundo do mar e sem gerar riqueza, por falta de capital para explorá-lo. O leilão visava superar esta falta e obter o capital necessário, mas fracassou porque a economia moderna requer mais um fator: confiança.

No mundo global, dispondo do fator confiança, o capital, tecnologia e até mão de obra são obtidos no mercado internacional. Este leilão deve abrir os olhos para a importância do fator mais escasso hoje no Brasil: confiança nas regras, na moeda, na sustentabilidade, seja política, fiscal, social ou ecológica. Aparentemente, as empresas não se interessaram sobretudo pelo medo de que exigências mundiais por proteção ecológica venham impedir a exploração de petróleo em áreas consideradas santuários, como Fernando de Noronha, Amazônia, Polo Norte. Além disso, o próprio petróleo não passa confiança diante do seu papel na catástrofe ambiental. Apesar de seu uso na indústria não energética, investir em petróleo nos dias de hoje começa a ser como foi investir na produção de óleo de baleia para iluminar ruas quando se descobriu a iluminação elétrica.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Cassandra de ocasião

O Estado de S. Paulo

Os brasileiros que se virem para lidar com a carestia e o desemprego, porque do presidente só é possível esperar desculpas esfarrapadas e alarmismo oportunista

A inflação – que em setembro foi a maior (1,16%) para o mês desde 1994 – corrói mais a renda dos que menos podem, restringe o consumo, reduz os estímulos à produção e já assombra o governo incapaz de agir com eficiência e credibilidade diante das dificuldades que se acumulam. A seu estilo pernicioso de governar, marcado pela incapacidade de assumir responsabilidades que o cargo lhe impõe, o presidente Jair Bolsonaro adicionou outra característica nociva: uma espécie de alarmismo preventivo. Trata-se de anunciar que, segundo suas próprias palavras, “nada está tão ruim que não possa piorar”. Mas, se isso ocorrer, não será por falta de aviso. Será, como sempre ele diz, por culpa dos outros.

Bolsonaro tenta se justificar alegando que a alta dos preços não é um problema só do Brasil, é mundial. “Está reclamando que está alto aqui? Lá (nos Estados Unidos e em outros países) também está. Essa crise é no mundo todo. Não é só no Brasil”, disse, na sua live das quintas-feiras.

Poesia | Charles Baudelaire - A destruição

Sem cessar a meu lado se agita o Demônio;
Nada à minha volta como um ar impalpável;
Eu o engulo e sinto que me queima o pulmão
E o preenche de um desejo eterno e culpável.

Toma às vezes, conhecendo meu amor da arte,
A forma da mais sedutora das mulheres,
E, sob especiosos pretextos de rufião,
Acostuma meus lábios a filtros infames.

Ele me leva assim, longe do olhar de Deus,
Ofegante e morto de cansaço, até o meio
Dos campos do Tédio, profundos e desertos,

E lança em meus olhos cheios de confusão
Vestimentas imundas, feridas abertas,
E a aparelhagem sangrenta da destruição!


Música | Sueli Costa - Ator de pantomima (Aldir Blanc, Inédito)

 

sábado, 9 de outubro de 2021

Paulo Fábio Dantas Neto* - Guardiania e demagogia, armadilhas letais contra a ética republicana

“A moral é o cerne da pátria, a corrupção, o cupim da República. República suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos, que a pretexto de salvá-la, a tiranizam.  NÃO ROUBAR E NÃO DEIXAR ROUBAR! POR NA CADEIA QUEM ROUBE: EIS O PRIMEIRO MANDAMENTO DA MORAL PÚBLICA!” (Ulisses Guimarães – discurso na sessão de promulgação da Constituição, em 05.10.1988)

Quem tem hoje mais de 45 anos de idade e desde muito cedo se interessou pelo Brasil e pela política brasileira certamente entenderá por que a semana que transcorre entre os dias 5 e 12 de outubro é politicamente significativa, não importa em que ano estejamos. Ela começa com a data comemorativa de nossa maior conquista contemporânea (a Constituição de 1988) e conclui-se combinando a data da padroeira do Brasil com a da morte de Ulisses Guimarães, o líder político promulgador da mesma Carta, morte ocorrida em 1992, num acidente aéreo, ao sobrevoar a Serra da Mantiqueira, em feriado fatal. Entre os dois eventos, somente quatro anos, durante os quais a figura central da vida política brasileira nas duas décadas anteriores transitou do esplendor da consagração política e cívica ao amargor do ostracismo eleitoral. Ao falecer já não presidia seu partido, nem a Câmara dos Deputados. Um horizonte radioso perdera-se em densa nuvem, mas Ulisses foi dos raros que saíram da vida para entrar na História sem que para sabermos disso precisemos consultar livros. Seu corpo não foi encontrado. Sua memória virou vento a soprar, da altura da Mantiqueira, lições aos nossos ouvidos. Se cinquentões hoje podem acessá-la desse modo, que escrevam sobre ela aos mais jovens, carentes da sua partitura.

Neste 2021 atribulado houve quem cuidasse de lembrar dessas coisas. Do brado retumbante do Dr. Ulisses no seu maior outubro e do humor vívido do seu brando outono. Chegara-me, por amigos, o célebre discurso da promulgação da Constituição e uma gravação da entrevista que concedeu ao Roda Viva, alguns meses antes de nos deixar.

Na entrevista, as tiradas coloquiais são impagáveis e educam tanto quanto lições de lógica e sensibilidade políticas, cuja falta hoje é tanta, que virou um lugar comum apontá-la. O que mais impressiona, no entanto, é ver, com o passar do tempo, sua figura ficar cada vez maior e as pelejas do controverso varejo político, no qual não regateava em mergulhar, se diluírem na constatação principal: foi político com senso de medidas e proporções adequado para ser imprescindível na atitude de assumir sempre uma intransferível responsabilidade pelos atos (seus e de quem liderou) e pelas consequências que geravam.  Impermeável à perfeição, jamais fomentou nos correligionários, ou mesmo no povo, identidades consigo. Consciente de sua luminosa maleabilidade (que lhe levou, uma vez, a confidenciar ao país só agir sob pressão, em contraste com a firmeza férrea do gal. Geisel), nunca desejou subir aos céus porque já sabia voar com os pés no chão. No barro da política se sentia em casa enquanto as nuvens lhe eram estranhas. Prudentemente, viveu longe delas e, de fato, como a confirmar uma intuição sua, foi entre elas que encontrou a morte.

Ascânio Seleme - A maldição das tropas de choque

O Globo

Durante o período em que participaram do embate político, ficaram permanentemente sob os holofotes da mídia, mas nem por isso se deram bem

Foram muitas as tropas de choque montadas no Congresso para blindar chefes do Executivo de ações movidas contra eles, seus governos ou seus atos. Desde a redemocratização, houve cinco delas. Seus membros sempre foram parlamentares ligados fisiologicamente ao mandatário em questão. Durante o período em que participaram do embate político, ficaram permanentemente sob os holofotes da mídia, mas nem por isso se deram bem. Na verdade, com as exceções que confirmam a regra, quase todos os membros das tropas de choque saíram delas para o ostracismo.

A primeira, que deu origem ao nome, foi a que tentou sem êxito impedir o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Formada por alguns dos mais polêmicos parlamentares da época, tinha entre seus membros o mal afamado Roberto Jefferson, cassado anos mais tarde e preso há um mês por apologia do uso da força contra a democracia. Comandado pelo ex-deputado Ricardo Fiúza, o esquadrão colorido tinha ainda os ex-deputados Roberto Cardoso Alves, o Robertão, e Humberto Souto. Todos adotavam o mesmo estilo atropelador e não se incomodavam de estar alinhados a um governo notoriamente corrupto, incompetente e infantil.

Fiúza foi o parlamentar que cunhou a frase mais emblemática daqueles tempos, e que cabe até hoje em qualquer governo. “É dando que se recebe”, parte da oração de São Francisco de Assis, significava na linguagem política troca de voto por verbas e cargos no governo. Não funcionou. Tampouco a truculência do grupo, que é outra característica de toda tropa de choque, conseguiu evitar o afastamento melancólico do primeiro presidente eleito depois da ditadura. Fiúza perdeu a eleição seguinte e voltou quatro anos depois. Robertão morreu em acidente de carro em 1996. Souto não se reelegeu, foi indicado para o TCU e hoje é prefeito de Montes Claros, em Minas Gerais.

Alguns anos mais tarde, foi montada a primeira tropa de choque do PT para defender Lula na CPI do mensalão. Do agrupamento vale destacar a senadora Ideli Salvatti e os deputados Professor Luizinho e Ângela Guadagnin. Ideli não conseguiu se reeleger e evaporou. Ângela, conhecida pela dancinha da pizza no plenário da Câmara, tampouco foi reconduzida pelo eleitor. Luizinho teve apenas mais um mandato antes de desaparecer. A CPI não alcançou Lula, mas o estrago na base do governo foi enorme com a cassação de parlamentares, inclusive o ex-poderoso chefe da Casa Civil José Dirceu, o artífice do mensalão.

Carlos Alberto Sardenberg - O desmonte

O Globo

Segue em curso no país o meticuloso desmonte do combate à corrupção. Depois da “flexibilização” da Lei de Improbidade Administrativa, bem apelidada de lei da impunidade, aprovada no Congresso Nacional, o mais recente ataque vem por outro flanco. Reduzidos os possíveis crimes e penalidades praticados por administradores e/ou políticos, a tentativa agora é limitar e controlar a atividade do Ministério Público, não por acaso a instituição que investiga e acusa políticos.

Trata-se de uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) cuja tramitação dá bem a ideia da ampla frente do desmonte.

A PEC é de autoria do deputado Paulo Teixeira (PT-SP). Foi relatada pelo deputado Paulo Magalhães (PSD-BA), o partido de Gilberto Kassab, e “tratorada” pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, o chefão do Centrão. “Tratorada” — do verbo tratorar, criado nos bastidores congressuais — significa pular etapas na tramitação de um projeto, evitando assim mais debates, inclusive na imprensa.

A PEC deveria ter sido votada na semana passada. Saiu de pauta porque seus autores perceberam que, ainda, não têm os votos necessários (308, por se tratar de emenda constitucional). Mas Lira já garantiu que vota na semana que vem.

Pablo Ortellado - Facebook e a polarização

O Globo

Na última terça-feira, Frances Haugen, ex-funcionária da divisão de integridade cívica do Facebook, depôs no Senado americano. Seu depoimento aconteceu depois da publicação de uma série de reportagens no jornal The Wall Street Journal a partir de documentos internos da empresa vazados por ela.

As reportagens mostraram que uma mudança no Facebook passou a promover conteúdos politicamente divisivos e que a empresa preferiu não reverter essa mudança, mesmo sabendo dos seus efeitos, para não afetar a lucratividade do negócio. A denúncia foi comparada ao escândalo da descoberta de que as empresas de tabaco tinham feito estudos atestando que os cigarros eram viciantes e os esconderam do público para proteger a indústria.

Ela diz respeito às mudanças no algoritmo do Facebook que determina a ordem das postagens apresentadas ao usuário quando desce a barra de rolagem. Ao mudar o ordenamento, postagens e interações (curtidas, comentários e compartilhamentos) de pessoas mais próximas passaram a ser destacadas, em detrimento de conteúdos de amigos mais distantes ou páginas de instituições.

Murillo de Aragão - Conflito ao modo brasileiro

Revista Veja

Os trabalhadores do país não estão interessados em luta de classes

Um episódio patético — a invasão da bolsa de valores por movimentos sociais ligados a partidos políticos — desperta a atenção para o tema do conflito social no Brasil. Em pleno século XXI, o Brasil se presta ao ridículo de manifestações desse tipo. Por quê? A desigualdade social e a precária educação permitem que uma massa de manobra de ignorantes se preste a esse papel de servir a “Pinks e Cérebros” da política. O evento teve pouca ou nenhuma repercussão.

O fato de haver manifestações que caem no vazio da cidadania deve ser observado. Principalmente por não representarem nem o campo nem a agenda do conflito social do século XXI. Por exemplo, imaginemos que a solução dos ideólogos comunistas para a agricultura fosse implantada no país. Quantos milhões de brasileiros morreriam de fome, como morreram na União Soviética e na China? Longe de ser perfeito, o nosso modelo de agronegócio trouxe fartura para o campo e, de certa maneira, proteção ao meio ambiente.

Aqui não faço um juízo de valor das ideologias, no entanto não posso deixar de dizer que o grande valor da esquerda foi inserir temas na pauta política que resultaram no aperfeiçoamento do capitalismo. Em compensação, o “reacionário” Bismarck foi introdutor de políticas sociais avançadas. Assim como Vargas, o “pai dos pobres”, que fez a CLT inspirada na Carta del Lavoro, de Mussolini. O mundo, ideologicamente falando, é uma grande salada juliana. As boas soluções não vêm carimbadas por ideologia. São fruto da observação desprovida de preconceitos e com muita reflexão.

Fernando Schüler* - O país da vergonha

Revista Veja

O fim da miséria é nossa fronteira civilizatória, no século XXI, tanto quanto o foi, no século XIX, o fim da escravidão

A imagem causou algum impacto. Um homem ainda jovem, Luis Vander, agachado, catando um resto de carne, no caminhão. “Vai aí e pega uma pelanquinha”, diz ele, “salga e manda pra casa.” Luis é morador de rua na Glória, pedaço do Rio que cansei de cruzar quando trabalhava ali perto, na Cinelândia. Vez por outra encontrava pessoas morando na rua, como quase todo mundo encontra nas grandes cidades brasileiras. É o país da vergonha, com o qual já nos acostumamos. Marcelo Neri, da FGV, contabiliza 13% da população vivendo abaixo da linha de miséria. Para quem alimentou a expectativa, uma ou duas décadas atrás, de que eliminaríamos a miséria e daríamos um “salto civilizatório”, não deixa de ser um soco na cara.

A pobreza é um tema que muita gente evita, me disse um colega, porque acentua uma sensação de impotência sobre o país. A miséria caiu de 20%, no início dos anos 1990, para algo próximo a 6%, em 2014, e muita gente acreditou que as políticas sociais eram a chave desse processo. Quando da crise de 2014/2016, em apenas um ano perto de 2 milhões de brasileiros cruzaram, para trás, a linha da miséria. Descobrimos que a chave era o crescimento econômico. A transferência de renda importa, mas não decide o jogo. Ela reduz o que Sendhil Mullainathan chama de “armadilha da escassez”, o círculo vicioso que inibe os muito pobres a dar os passos difíceis (buscar um emprego, estudar) para superar a própria miséria.

Oscar Vilhena Vieira* - A era do reconhecimento

Folha de S. Paulo

É difícil eliminar as múltiplas esferas de injustiça que estruturam uma sociedade sem que a questão da diversidade seja colocada no centro do debate político

“Entre a esquerda e a direita, continuo preta”. A frase desconcertante da intelectual e militante negra Sueli Carneiro sintetiza a insuficiência da chamada política tradicional em enfrentar a questão de setores historicamente discriminados.

Mesmo a esquerda tradicional, historicamente mais empática aos processos de inclusão, demonstra dificuldade em lidar com as diversas formas de discriminação que bloqueiam a plena realização da dignidade para determinados grupos. Nesse sentido, é difícil eliminar as múltiplas esferas de injustiça que estruturam uma sociedade sem que a questão da diversidade seja colocada no centro do debate político contemporâneo. Por isso Sueli precisa enfatizar que continua “preta”. Sem que a dignidade dessa condição seja reconhecida, não avançaremos um passo.

O conceito moderno de dignidade, que no passado designava posições de honra e distinção, foi formalmente democratizado por autores como Rousseau e Kant, exigindo que toda pessoa seja merecedora de igual respeito e consideração, pelo simples fato de ser pessoa.

Demétrio Magnoli - Uma ilusão de cor

Folha de S. Paulo

Caracterizar a escravidão como sistema econômico é o contrário de legitimá-la

Fazendeiro branco, escravo negro: a imagem icônica produz a ilusão de que a escravidão moderna foi um sistema de dominação racial. De fato, porém, foi um sistema econômico.

A escravidão acompanhou a humanidade durante milênios. Nas mais diferentes sociedades, inclusive na África, gente de todas as cores escravizou gente de todas as cores. O capitalismo mercantil acelerou a produção e o comércio de incontáveis mercadorias –e, também, de escravos. Na sua moldura, o tráfico atlântico forneceu africanos escravizados para as Américas.

Nas Américas, o largo predomínio de escravos africanos resultou da circunstância econômica de que o tráfico transatlântico garantia oferta regular e barata de cativos. Africanos não foram convertidos em escravos por serem negros, mas porque o comércio oceânico despontou como um dos maiores negócios da época.

Na África, reinos poderosos escravizavam seres humanos, conduzindo-os a entrepostos litorâneos para vendê-los aos agentes do tráfico atlântico. Os cativos eram transportados em navios europeus ou norte-americanos.

Hélio Schwartsman - O vírus da religião

Folha de S. Paulo

Sacerdotes são valiosos demais para ser mandados para a cadeia

Os números impressionam. Segundo a comissão independente que investigou atos de pedofilia na Igreja Católica francesa, membros do clero abusaram sexualmente de 216 mil crianças e adolescente nos últimos 70 anos. Isso dá 3.085 estupros por ano, ou 8,4 novos casos por dia.

Os responsáveis por isso teriam sido de 2.900 a 3.200 pedófilos entre os 115 mil padres que atuaram de 1950 a 2020. A comissão, vale destacar, foi criada por iniciativa da conferência dos bispos da França, que pediu perdão às vítimas e à sociedade.

O que chama quase tanta atenção quanto o volume de abusos é a política de acobertamento sistemático por parte das autoridades eclesiásticas. Elas não só não denunciavam os crimes como, em alguns casos, expunham crianças aos predadores sexuais. Por quê?

João Gabriel de Lima - Uma viagem aos Brasis da vida real

O Estado de S. Paulo

Nossa diversidade rima com desigualdade e com problemas que nunca são resolvidos

O diretor de teatro Jé Oliveira mora em São Paulo, tem 37 anos e ensaia a peça Gota D’Água, de Chico Buarque, com um grupo de atores negros. O nome artístico do poeta João Fialho Cordeiro da Silva, de 57 anos, é Miró da Muribeca. Em versos satíricos, ele descreve o cotidiano da cidade onde vive, Recife, enquanto declama versos de seu poeta favorito, o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Maria dos Santos tem 79 anos, vive na Bahia e descende de um sobrevivente da Guerra de Canudos. Ela se lembra de quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa entrevistou seu pai para o épico A Guerra do Fim do Mundo. 

Jé, Miró e Maria são personagens de um livro que mostra, como poucos, o Brasil da vida real: Viagem ao País do Futuro, da jornalista portuguesa Isabel Lucas. O Brasil não cabe numa única viagem, e a autora cruzou o Atlântico várias vezes para retratar os diversos países dentro de nosso país. Nesta semana, ela vai falar sobre sua obra no Folio, um equivalente português da Festa Literária de Paraty, numa mesa sobre o Brasil (da qual também participarei). Isabel Lucas é a entrevistada do minipodcast da semana.

Bolívar Lamounier* - Três demônios no meio do caminho

O Estado de S. Paulo

O Brasil atual não está meramente estagnado, está retrocedendo, rumo a uma crise séria.

Todos temos o direito de especular sobre o futuro; e podemos fazê-lo como os adivinhos da antiguidade romana, que examinavam as entranhas de certas aves, ou como os economistas de hoje em dia, que recorrem a projeções estatísticas dificilmente compreensíveis por mortais comuns.

Nos dias que correm, dezenas de estudiosos nos têm alertado para a gravidade e a ubiquidade das ameaças que pairam sobre o convívio social, a democracia e a própria humanidade. Alguns discorrem sobre tragédias de alcance mundial, como as epidemiológicas e as climáticas, outros sobre reles práticas criminosas, como o hackerismo – que de uma hora para outra podem paralisar engrenagens essenciais da atividade econômica. Mas não percamos tempo tentando prever o final dos tempos, como fez Auguste Comte, imaginando um mundo inteiramente regido pela ciência, ou como Karl Marx, que julgou haver antevisto o fim das desigualdades sociais. Atenhamo-nos ao Brasil e a um horizonte temporal de duas décadas – um pouco mais ou um pouco menos.

Estabelecida a regra de jogo, peço vênia para expor minha avaliação. O Brasil atual não está meramente estagnado, está retrocedendo, resvalando para uma crise séria, antevéspera de um possível abismo. O que temos à nossa frente não é apenas uma pedra no meio do caminho, como escreveu o poeta Drummond. São ao menos três pedras, grandes e aterradoras. Três demônios. Ei-los: 1) a estúpida polarização política que se configurou a partir da eleição presidencial de 2018; 2) a corrupção sistêmica, que os sapientes constituintes de 1988 tornaram quase impossível de ser combatida; e 3) a lerdeza de nossas elites no tocante ao imperativo de efetivar reformas que todos sabemos serem essenciais para o desenvolvimento econômico e social.

Ricardo Rangel - A palavra é ‘nazista’, mesmo

Revista Veja

O depoimento de Tadeu Andrade na CPI sobre a Prevent Senior é de arrepiar

Em seu depoimento na CPI, o advogado Tadeu Andrade narrou seu calvário nas mãos da Prevent Senior. Depois de submetê-lo a um tratamento experimental, e perigoso, sem autorização, a empresa decidiu retirá-lo da UTI e deixá-lo morrer.

Tadeu Andrade teve sorte: a resistência firme de sua filha, assim como o médico que sua família teve condições de contratar, salvaram sua vida. Outros pacientes, com certeza, não tiveram a mesma sorte e acabaram no cemitério.

O depoimento de Andrade está em linha com o relato dos médicos George Joppert, Andressa Joppert e Walter Correa e da advogada Bruna Morato, que contou que a expressão “alta também é óbito” era corriqueira na Prevent Senior.

Marco Antonio Villa - Bolsonaro ganha tempo

Revista IstoÉ

O presidente sabe que não tem nenhuma chance de se reeleger. A cada dia fica mais claro seu isolamento político. O Sete de Setembro foi seu dobre de finados

Quando Fiori Gigliotti, sempre no segundo tempo — e já próximo do final do jogo —, dizia, com sua voz inconfundível: “O tempo passa torcida brasileira!”, uma angústia tomava conta do torcedor que estava ouvindo seu time ser derrotado. O “passa” era alongado, significando que o fim da partida estava chegando e a derrota se avizinhava. Este é o sentimento em relação ao atual momento político brasileiro. O tempo passa e Jair Bolsonaro ganha uma sobrevida. Quer, a todo custo, chegar a 2022 no cargo de presidente da República. Sabe que aí ganhará uma espécie de salvo-conduto — faça o que fizer — para as eleições de outubro. E sua permanência no cargo, associada à sua candidatura à reeleição, vai transformar o processo eleitoral em um cenário de guerra, de guerra civil. Essa é a sua estratégia: chegar a 2022 e impedir que o País possa encontrar nas eleições um caminho democrático e civilizatório para enfrentar na terceira década do século XXI os graves problemas nacionais.

Dora Kramer - A voz da gente

Revista Veja

Passa da hora de aqueles que se julgam com aptidão e preparo suficientes para concorrer à Presidência apresentarem aos brasileiros uma agenda de trabalho

Faz uns bons dias, praticamente um mês, que o país — ou parte dele — não é compelido a cerrar fileiras diuturnas em defesa da democracia. A mola propulsora desse tipo de discussão anda temporariamente desativada desde que o presidente da República foi convencido a afastar o dedo da tomada antes de se queimar completamente.

Nesse interregno de relativa paz institucional, abriu-se espaço para o que de fato interessa aos 213 milhões de brasileiros, entre os quais 147 milhões de eleitores: a vida real, com suas aflições cada vez mais agudas em tempo de crises e carestia.

Enquanto Jair Bolsonaro se abstém de criar confusões em lives, tuítes e cercadinhos, o Brasil tem a chance de se concentrar no que importa. Olhando para o futuro de horizonte próximo, pois do presente não há muito ou quase nada a esperar de um governante que desconhece o significado da palavra governar.

Portanto, passa da hora de aqueles que se julgam com aptidão e preparo suficientes para concorrer à Presidência daqui a um ano apresentarem aos brasileiros uma agenda de trabalho. Pauta concreta sem enfeites nem fantasias. Coisa de gente grande, ciente da gravidade da situação de um país há muito paralisado e hoje caminhando com rapidez ao retrocesso.

O que vemos, no entanto, não é nada parecido com um esforço de inspiração e de transpiração para mostrar aos brasileiros o rumo da recuperação do crescimento e da confiança, notadamente dos jovens cujo maior sonho hoje é se qualificar não para contribuir, mas para deixar o Brasil em busca das oportunidades que aqui lhes são negadas.

Marcus Pestana* - Alternativa democrática e novos rumos


Não passou desapercebido o seminário “UM NOVO RUMO PARA O BRASIL” promovido pelos partidos CIDADANIA, DEMOCRATAS, MDB e PSDB. Sobretudo, porque a mesa de abertura contou com a participação do ex-presidente do STF e ex-ministro, Nelson Jobim, e dos ex-presidentes da República Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Michel Temer, que em uníssono defenderam a democracia brasileira, a Constituição e as instituições republicanas em contraposição a setores que imaginam uma virada de mesa.

Foi quase uma ousadia a organização do seminário em tempos de redes sociais. A nova cultura social e política instalada com a revolução da internet e suas redes leva as pessoas a se expressarem em 280 toques do Twitter ou em gravações de 30 segundos no Youtube, Facebook, TikTok ou Instagram e implica em imensa dificuldade para a discussão de temas complexos de forma profunda, exigindo formulação qualificada de diagnósticos e alternativas.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Sem jornalismo, não há paz

O Estado de S. Paulo

Na relação entre jornalismo e paz, revela-se também a contribuição do leitor. Ao se informar em fontes confiáveis, ele colabora para um ambiente democrático mais tolerante e mais aberto

Nos tempos atuais – em que campanhas de ódio e desinformação esgarçam o tecido social e ameaçam a paz em todos os níveis da sociedade –, é especialmente significativa a escolha da Academia Sueca, concedendo o Prêmio Nobel da Paz de 2021 aos jornalistas Maria Ressa, das Filipinas, e Dmitri Muratov, da Rússia, pela “contribuição essencial de ambos para a liberdade de expressão e pelo jornalismo em seus países”. 

O prêmio aos dois jornalistas ressalta um dado fundamental sobre a paz. Ela não é resultado apenas de grandes acordos políticos ou de atos heroicos de solidariedade e compaixão em situações extremas, como fizeram, de forma admirável, tantos homenageados com o Nobel da Paz; por exemplo, Madre Teresa de Calcutá (1979), Lech Walesa (1983), Nelson Mandela (1993), Yitzhak Rabin (1994) ou Malala Yousafzai (2014). A paz é também fruto da informação confiável, produzida pelo jornalismo. Segundo a academia, a liberdade de expressão “é condição prévia para a democracia e para uma paz duradoura”.

Poesia | Joaquim Cardozo - Território entre o Gesto e a Palavra

Entre o gesto e a palavra: território escondido dentro de mim
Marcas de mortas visões; tentativas, indecisões, regozijos,
Entre o gesto e a palavra. Território:
Um silêncio, um gemido, um esforço imaturo
Possibilidade de um grito, modulação de uma dor.
— Ritmos mais doces que os das águas,
— Ternuras mais íntimas que as do amor
Entre o gesto e a palavra. Território
Onde as ideias se ocultam e os pensamentos se perdem
Os conceitos se escondem, os problemas se dissolvem
Entre o gesto e a palavra. Território.
— Os problemas da escolha, os princípios;
Transcendências: transparências, mediante
Uma luz que não se acende, existem
No território contido entre o gesto e a palavra.
— Um axioma, um lema, um versículo, um fonema,
Uma ameaça, uma tolice, o som velar, o eco,
Talvez a estátua de uma atitude.
Estão no campo depois do gesto
E antes da palavra.
Também estás para mim, amiga, entre esses dois expressivos
Entre alguma coisa de mímico ou de sonoro
Alguma coisa que é aceno ou que é voz:
Entre o de mim e o de ti: Tu estou
Tu vivo
Tu falo
Tu choro
Estás, mesmo que entre nós dois não exista
Um aparato gramático — uma sentença verdadeira
— ou uma síntese poética
Ilusória expressão com que se conformam os ingênuos —
Mesmo que a palavra se reduza a simples gesto verbal
Entre o gesto e este gesto há um infinito real.

In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.207-208. Poema integrante da série Mundos Paralelo

Música | Martinho Da Vila, Teresa Cristina - Unidos e Misturados