terça-feira, 8 de agosto de 2023

Pedro Cafardo - Artilheiro Tiquinho, jogai por nós!

Valor Econômico

Conjunto de boas notícias indica que a recuperação da economia está a caminho, com investimentos públicos a influenciar a atividade econômica

Dois anos atrás, o documentarista João Moreira Salles, em Live do Valor, expôs uma tese jocosa, considerada “maluca” por ele mesmo, de que o desempenho do Botafogo Futebol e Regatas reflete, ao longo dos anos, o desempenho do Brasil.

Com um sorriso maroto de botafoguense fanático, Salles enumerou alguns fatos do passado para comprovar sua excêntrica tese. Nos anos 1950 e até 1963, o país viveu período de glória em vários setores, com industrialização, crescimento econômico, cinema novo, bossa nova e construção de Brasília. Foi também um período de glória do Botafogo e quando o Brasil ganhou duas Copas do Mundo, com a seleção mesclando principalmente jogadores do Fogão e do Santos.

A partir de 1964, vieram a ditadura militar e os anos de chumbo. O Brasil deprimiu-se, assim como o Botafogo. O time carioca só foi ganhar um título novamente em 1989, quando os brasileiros voltaram a votar para presidente. Também conquistou o campeonato brasileiro em 1995, quando o país venceu a hiperinflação com o Plano Real.

Maria Clara R. M. do Prado - Fragmentação geoeconômica

Valor Econômico

Dificilmente os países em desenvolvimento terão acesso às tecnologias de baixo custo em prol da energia limpa desenvolvidas pelos EUA e pela UE

Com sérias arestas ainda por aparar, o acordo de livre comércio entre o bloco do Mercosul e a União Europeia (UE) é um dos temas passíveis de apreciação, ainda que tangencial, pelos países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que se reúnem a partir de hoje em Belém. Há 28 anos, quando pela primeira vez foi assinado em Madrid o chamado “acordo quadro” - uma espécie de intenção formal preliminar desprovida de substância -, a questão da preservação ambiental passava muito ao largo das preocupações dos europeus.

Hoje, é a principal condicionante da UE para um desfecho definitivo do acordo, com possíveis implicações tarifárias vinculadas a exigências de cunho sustentável que arriscam estender ainda mais as discussões. Usar o pretexto da proteção ambiental para impor sanções aos futuros “parceiros” é uma forma de transfigurar os princípios da liberalização comercial.

Joel Pinheiro da Fonseca - Segurança x direitos humanos?

Folha de S. Paulo

É inevitável que se queira copiar pelo continente o modelo de El Salvador

Em pouco mais de um ano, o presidente de El SalvadorNayib Bukele, conseguiu cortar pela metade os homicídios no país, bem como dar à população a segurança de andar pelas ruas sem prestar satisfação a nenhuma gangue. Como o continente todo sofre com a violência e com as gangues —o Brasil, nem se fala— é inevitável que seu modelo queira ser copiado.

Bukele declarou estado de exceção em março de 2022 e passou a prender jovens suspeitos de integrar as gangues que mandavam no país; sem acusações formais, sem julgamento, às vezes a partir de uma simples denúncia anônima. A data do julgamento é marcada para dali seis meses, depois é adiada, remarcada; de modo que os jovens continuam presos por quase dois anos sem perspectiva de quando serão julgados. No máximo, passaram por alguma audiência coletiva. Foram mais de 70 mil presos até o momento. Menos de 10% foram soltos. O regime de exceção deveria durar um mês, mas já foi estendido 15 vezes.

Hélio Schwartsman - Populismo sanitário

Folha de S. Paulo

Lula sanciona ozonioterapia, apesar de ciência não dar aval à técnica

Lula sancionou a lei que libera a ozonioterapia, para a qual não existem boas evidências científicas de eficácia. O Congresso e o PT não resistem a um populismozinho sanitário.

Foi sob Lula 1 que o SUS abraçou as PICs, práticas integrativas e complementares, que é o nome pomposo para um conjunto de crenças sanitárias para as quais existe pouco ou nenhum suporte científico, como aromaterapiacrenoterapia ou a cura pelo toque. E foi sob o governo Dilma que o Parlamento aprovou e a então presidente sancionou a lei que liberava a fosfoetanolamina, a famigerada pílula do câncer que não age sobre o câncer. O STF depois derrubou a norma.

Temos agora um repeteco disso com a ozonioterapia. Lula não vetou a lei, apesar de todos os órgãos técnicos terem recomendado que o fizesse.

Alvavo Costa e Silva - Dinheiro acima de tudo

Folha de S. Paulo

O caminho da mamata envolvendo Bolsonaro passa sempre por Mauro Cid

Enquanto se aprofunda a investigação dos episódios de cunho golpista em torno de Bolsonaro, com a prisão do hacker Walter Delgatti e a devassa em endereços da deputada Carla Zambelli, cresce a certeza de que —acima de Deus, da pátria, da família, da ideologia, da liberdade e até do leite condensado— o ex-presidente buscava enriquecer de qualquer maneira e o mais rapidamente possível, pois no fundo sabia que a sopa iria acabar.

Quer dizer, iria acabar em termos. O pixulé do Pix continua pingando. Já bateu em R$ 17,2 milhões, e a meta é chegar a R$ 22 milhões, doados para supostamente pagar multas na Justiça. "Ainda sobra dinheiro pra tomar um caldo de cana e comer um pastel com dona Michelle", disse Bolsonaro, comemorando seu verdadeiro golpe de mestre, que deixa no chinelo o empresário de circo P. T. Barnum, autor da frase "Nasce um otário por minuto".

Dora Kramer - Nervos de aço

Folha de S. Paulo

Lula e Lira se enfrentam cuidando para não romper pacto de convivência e funcionalidade

Luiz Inácio da Silva adiou, mas finalmente entrou no embate pela sucessão de Arthur Lira na presidência da Câmara dos Deputados daqui a um ano e meio. Com o Orçamento de 2023 em jogo, na transição precisou aceitar a reeleição de Lira a fim de não construir um 7 a 1 na conturbada largada do governo.

Agora, diante de um cenário bem melhor, o presidente atua na toada de experts que consideravam que ele havia se entregado muito cedo e de maneira total ao controlador-geral dos deputados, reeleito com inéditos 464 votos no início do ano.

Lira, obviamente, detectou o movimento, e Lula tem consciência de que o, digamos, adversário, percebeu. Portanto, não há desavisados nem ingênuos nesse jogo em que um é Tom e outro é Jerry, não necessariamente com papeis similares na corrida de gato e rato.

Cristovam Buarque* - Sachs: pioneiro de ideias

Correio Braziliense

Um dos primeiros desbravadores da ideia de entender e cuidar do progresso levando em conta os limites ecológicos e o valor da biodiversidade

Em cada pessoa, a maneira de pensar depende de encontros marcantes ao longo da vida com professores, parentes, amigos; no meu caso, tive a sorte de encontrar Ignacy Sachs. Na semana passada, o mundo perdeu esse importante pensador. Por quase 60 anos ele fez parte daqueles que iniciaram a reflexão sobre os limites do progresso identificado com aumento da produção industrial e elaboraram propostas para uma reorientação no rumo da civilização em direção ao desenvolvimento sustentável, que, ainda em 1970, ele definiu como ecodesenvolvimento.

Foi um dos primeiros desbravadores da ideia de entender e cuidar do progresso levando em conta os limites ecológicos e o valor da biodiversidade. Sendo, por isso, necessário livrar a civilização da ânsia de aumentar a produção industrial e da voracidade por consumir produtos. Além de pensador e estrategista, Sachs foi um economista pragmático que ofereceu propostas concretas sobre como fazer funcionar economias sustentáveis em diversas regiões do mundo, inclusive na Zona da Mata e na Amazônia brasileiras. As mudanças climáticas fizeram suas ideias inovadoras serem aceitas, meio século depois de formuladas.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Estrago da pandemia na educação exige reação rápida

Valor Econômico

A revisão da reforma do ensino médio está sendo mal-conduzida

No afã de imprimir sua marca e rever as diversas medidas equivocadas do ex-presidente Jair Bolsonaro, o governo Lula tem feito muita coisa, mas parece estar andando em ritmo muito lento quando se trata da Educação, não condizente com a urgência necessária para recuperar os estragos causados pela pandemia.

O estudo “Policy Review: Melhores práticas para recompor aprendizagens”, do Lemann Center da Stanford Graduate School of Education, mostra um quadro bastante preocupante no Brasil, que está negligenciando temas como a alfabetização das crianças mais velhas, a evasão escolar e a recuperação do conhecimento perdido na pandemia (Valor, 3/8). Até mesmo nos lugares mais avançados em infraestrutura tecnológica para o ensino remoto, como o Estado de São Paulo, se constatou perda de aprendizagem de 60% em língua portuguesa e de 80% em matemática nos últimos anos dos ensinos fundamental e médio, mais acentuada do que os 60% registrados na Colômbia e os 55% dos EUA e da China, comparou o estudo de Stanford.

Poesia | Fernando Pessoa - Segue o teu destino

 

Música | Ana Carolina e Luiz Melodia - Cabide

 

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Paulo Fábio Dantas Neto* - Coalizão como valor positivo para a qualidade da representação e da democracia

Um artigo do cientista político Fernando Abrucio (“Lula III e o desafio da coordenação” - Valor Econômico – 04.08.23) é o pretexto deste breve texto que comporá a coluna, neste final de semana. O artigo citado é instigante não tanto por ter trazido ao debate uma reflexão inédita. O próprio Abrucio e outros competentes observadores e estudiosos da atualidade política brasileira têm tecido, desde a montagem do atual governo, um fio analítico que o artigo reitera e sobre o qual assenta o seu argumento.  O que mais instiga é o grau de maturação e o nível de argumentação com que se expõe essa interpretação, dando acesso a uma visão mais abrangente e persuasiva da mesma, ao apresentá-la com clareza pedagógica e uma sistematicidade que desafia, com êxito, limites de espaço de uma coluna na imprensa.

Abrucio inicia formalizando a interpretação a que aludi acima. Nas palavras do autor, “O principal problema institucional brasileiro pode ser definido hoje, sinteticamente, pela palavra fragmentação, e sua solução passa pela ideia de coordenação”. Realmente, a fragmentação tem sido frequentemente posta, em análises de conjuntura e mesmo em reflexões mais abrangentes sobre o nosso sistema político, senão como um impeditivo, ao menos como um sério fator a dificultar uma governação eficaz. Assim, uma suposta (in)governabilidade, ou quase isso, seria o risco de fundo, a evitar pela coordenação.

Fernando Gabeira - Como a polícia pode matar a democracia

O Globo

O perigo de uma virada política a partir do medo dos eleitores é uma possibilidade

Desde quando voltei do exílio, observei a violência urbana no Brasil. Comissões de direitos humanos, experiência in loco, reportagens — tudo isso me dá um sabor de fracasso na política de segurança pública na redemocratização.

Essa chacina no Guarujá, que já levou 16 vidas, é tratada como um fato histórico em São Paulo. Aqui no Rio, quando ainda contavam os mortos por lá, dez pessoas tombavam na Vila Cruzeiro. Ações policiais com grande número de mortos tornaram-se um fato cotidiano, foram naturalizadas.

Não há dúvida de que políticos conservadores no poder estimulam essa política, cuja eficácia se mede pela quantidade de corpos estendidos no chão. Infelizmente, a polícia baiana, comandada por um governo de esquerda, mata com a mesma intensidade de todas as outras.

Por que preferimos a força bruta à inteligência e às informações de qualidade como base das ações policiais? Por que somos incapazes de prever certos acontecimentos que estão diante de nós? Fiz duas reportagens — uma em Angra dos Reis, outra em Paraty — para mostrar como o tráfico armado se desloca para cidades turísticas. O que acontece no Guarujá é apenas a confirmação dessa tese. Não há estratégia de segurança diante de mudanças sociais tão evidentes.

Ruy Castro - O que sumiu e o que voltou

Folha de S. Paulo

Perdeu-se a arte de bater carteiras e desaprendemos a aplaudir sentados, mas está de volta o estrogonofe

Começou há algumas semanas, quando me gabei de ter sido um grande chutador de tampinhas, daquelas de refrigerante, soltas nas calçadas. Dias depois, um leitor perguntou se eu era capaz de dar o piparote com o sapato na borda da tampinha, fazê-la subir e matá-la no peito do pé. Humilhado, tive de confessar que não. E, agora, outro leitor, para meu opróbrio supremo, escreve para dizer que no peito do pé era fácil ---ele queria ver era se o sujeito fazia, como ele, a tampinha pousar no lado do pé. Tudo isto porque observei que, por falta das próprias, ninguém mais chuta tampinhas pelas ruas.

Marcus André Melo* - A 'coalizão monstro' e suas consequências

Folha de S. Paulo

À medida que o presidencialismo de coalizão se normaliza, a malaise política poderá aumentar

Chamar a aliança que dá sustentação ao governo atual de "coalizão Frankenstein" capta apenas sua heterogeneidade e falta de coesão. Não se trata de gerigonça brasileira; na portuguesa, os membros ocupavam espaços contíguos no espaço ideológico. Tampouco é frente ampla ou governo de salvação nacional, que se caracteriza por acordos pré-eleitorais, não pós-eleitorais, e não incluem o núcleo duro de suporte ao regime que se vai.

"Coalizão monstro" é o termo adequado para referir-se a algo inédito nas democracias: uma coalizão assombrosa de 16 partidos (com a possível inclusão do PP e do Republicanos)! O bloco parlamentar que elegeu Arthur Lira era apenas o prenúncio: reunia 20 dos 23 partidos da Câmara (87% do total): eram 496 parlamentares ou 97% dos membros da casa. O bloco reuniu, entre outros partidos, o PT e o PL.

Camila Rocha - Zema estimula radicalismo e conflito regional

Folha de S. Paulo

Mineiro politiza problemas reais de forma canhestra e xenófoba como plataforma para 2026

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, tem buscado dar guarida ao eleitorado mais radical no campo das direitas. Enquanto Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, vem sendo tachado de "covarde" e "vendido" por extremistas ao apostar na moderação, Zema opta por continuar a estimular o radicalismo político a despeito da fadiga da maior parte dos eleitores brasileiros com a lógica do "nós versus eles".

Após a invasão golpista de 8 de janeiro, o político do partido Novo foi interpelado no STJ (Superior Tribunal de Justiça) por uma declaração caluniosa. Zema afirmou publicamente que "autoridades trabalharam para que os ataques ocorressem, de forma que, colocando-se na posição de vítimas, pudessem obter supostos ganhos políticos perante a sociedade brasileira e a comunidade internacional", ecoando narrativas conspiratórias que trafegam em meios bolsonaristas.

Demétrio Magnoli - Gramas de injustiça

O Globo

Desde a Lei de Drogas (2006), ninguém é preso pelo porte de maconha para consumo próprio — se for da classe social “certa”. Mas há mais de 180 mil presos por tráfico de drogas (25% da população carcerária total), muitos dos quais jovens pobres condenados pela venda de pequenas quantidades de maconha. O STF tem, nos próximos dias, a oportunidade de frear a marcha dessa escandalosa injustiça social. Tudo depende, porém, de um acordo sobre gramas.

O carinha A compra maconha do carinha C para consumi-la. A lei vigente define os dois, A e C, como criminosos — mas prescreve prisão apenas para C. Como, porém, na ausência de um flagrante da transação, distinguir o consumidor (A) do “aviãozinho” (C)?

Segundo a lei, a polícia resolve o dilema por meio de uma avaliação do “local” e das “circunstâncias” da apreensão. Sob uma pátina superficial de coerência (A e C cometeram crimes), oculta-se uma cínica distinção de classe social: um fumará à vontade; o outro ingressará na universidade do crime instalada nas penitenciárias.

Carlos Pereira * - Oposição responsável é para os ‘fracos’

O Estado de S. Paulo

Partidos que ambicionam a Presidência precisam fazer oposição sistemática

Partidos que perdem eleições para cargos majoritários enfrentam um dilema de difícil solução. Deveriam se opor de forma sistemática ao governo ou seguir uma estratégia de oposição responsável? Esse dilema seria ainda mais acentuado em contexto de grande polarização política.

Um partido de oposição seria responsável quando apoiasse iniciativas do governo congruentes com a sua plataforma e/ou de grande apoio popular. Mas se oporia às proposições que fossem distantes das suas preferências e/ou tivessem um perfil controverso junto à sociedade. O problema é que a cada sucesso do governo com o apoio do partido de oposição, maiores seriam as chances de a oposição continue amargando essa condição. A estratégia dominante seria criar obstáculos ao governo para aumentar as chances de ser governo nas próximas eleições.

Bruno Carazza* - Políticos derrotados: onde vivem? o que fazem?

Valor Econômico

Reforma ministerial é oportunidade para descobrir o modo de vida dos políticos sem mandatos

A chamada de Sérgio Chapelin no Globo Repórter foi eternizada em memes que se multiplicam pelas redes sociais. De povos tradicionais isolados no meio da Amazônia a animais exóticos, é inevitável imaginar a voz do apresentador, acompanhada da trilha sonora do programa de variedades das sextas à noite: “De onde vêm? Como vivem? De que se alimentam?”

Inícios de governo e reformas ministeriais são oportunidades raras para trazer à luz uma espécie pouco estudada pela ciência: os políticos derrotados nas eleições. A imprensa e os cientistas políticos costumam monitorar os movimentos dos 513 deputados e 81 senadores. Sobre os políticos que não conseguiram se reeleger, porém, muito pouco se pesquisa.

A política brasileira é feita de ciclos. Embora haja milhares de cargos em disputa a cada dois anos, ficar sem mandato representa um problema existencial para os políticos, uma vez que ficam privados de seus dois principais meios de vida: dinheiro e poder.

O retorno de Lula provocou uma mudança no ecossistema brasiliense. Petistas puro-sangue e políticos de outras linhagens da esquerda migraram de todo o Brasil para a capital federal para ocupar cargos-chave da administração. Nesse processo, alguns parlamentares que não sobreviveram à lei da selva eleitoral ganharam uma nova chance com a nomeação de outros mais bem-sucedidos para a Esplanada dos Ministérios.

Sergio Lamucci - As incertezas fiscais e o ciclo de queda dos juros

Valor Econômico

Se quer dar segurança ao BC na redução da Selic, o fundamental é o governo atuar para diminuir dúvidas que continuam a existir sobre as contas públicas

O novo arcabouço fiscal contribuiu para o clima de maior otimismo sobre o Brasil dos últimos meses, em combinação com a aprovação da reforma tributária pela Câmara dos Deputados, o desempenho melhor que o esperado da economia e o cenário externo mais favorável, além do bom resultado das contas externas. O dólar opera abaixo de R$ 5 há semanas, e a agência de classificação de risco Fitch elevou a nota de crédito do país de BB- para BB. No entanto, algumas incertezas importantes sobre as contas públicas continuam a existir, ainda que a nova regra tenha afastado riscos mais extremos e iminentes.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Cúpula deve ampliar combate à destruição da Amazônia

Valor Econômico

É importante que a integração ganhe ímpeto e bons propósitos se consumem em políticas eficazes

Da preservação da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, depende o sucesso ou fracasso das iniciativas contra o aquecimento global. A Cúpula da Amazônia, que reunirá está semana os 8 países por onde ela se espraia (Brasil, Peru, Equador, Venezuela, Colômbia, Bolívia, Guiana e Suriname), traz a promessa de mudar o jogo contra o desmatamento e, com políticas adequadas, zerá-lo até 2030. Esse é um dos resultados possíveis do encontro da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), o primeiro desde 2009.

O governo brasileiro tem interesse na aprovação de medidas urgentes para conter a destruição acelerada da floresta, que encontrou seu auge recente no governo de Jair Bolsonaro. Belém, a capital de um dos Estados que mais desmatam no país, sediará a cúpula, assim como a COP30, em 2025. Politicamente, o governo Lula quer garantir uma posição internacional de destaque realizando um continuum de ações em um calendário no qual o país assume em breve a Presidência do G-20 e termina abrigando o encontro global anual sobre o clima daqui a dois anos.

Poesia | Castro Alves - Adormecida

 

Música | Chico Buarque e Clara Buarque - Dueto

 

domingo, 6 de agosto de 2023

Merval Pereira - Chanchada II

O Globo

Dá vergonha mesmo de ser brasileiro diante de um comportamento tão escrachado de um militar graduado assessor de um presidente da República

O que não faria Carlos Manga, o mais icônico diretor de chanchadas da Atlântida, ou Woody Allen, que no filme "Bananas" mostra um bando de guerrilheiros pedindo 300 sanduíches numa cidade do interior de um país sul-americano, ironizando o que aconteceu em Ibiuna no Congresso clandestino da UNE em 68, se tivessem nas mãos o seguinte roteiro: um tenente-coronel do Exército brasileiro, ajudante de ordens do presidente da República, negociando a venda de um relógio de luxo que recebeu de presente de um governo estrangeiro? Mais: que um hacker estelionatário se reuniu com militares no Ministério da Defesa para ajudá-los a montar uma estratégia para provar que as urnas eletrônicas eram violáveis?

O papel dos militares no governo Bolsonaro ganha cada vez contornos mais bizarros, sem que o ministério da Defesa assuma oficialmente uma repulsa a comportamentos que desonram a corporação. Justamente por questões corporativas, não há o rigor que costuma ocorrer quando regulamentos são descumpridos.

Bernardo Mello Franco – O poder visto de perto

O Globo

Em livro póstumo, jornalista mostra como personalidade de governantes ajuda a moldar seus mandatos e influi nos rumos do país

Itamar Franco havia acabado de assumir a Presidência quando mandou a Receita promover uma devassa nos laboratórios farmacêuticos. A auxiliares perplexos com a medida, explicou: sua cozinheira havia se queixado de um aumento abusivo nos remédios.

“Ele conversou à noite com dona Raimunda”, cochichavam os assessores, a cada vez que o chefe anunciava uma nova intervenção na economia. O voluntarismo se tornaria uma marca do mineiro, que definia o próprio temperamento como mercurial.

É inevitável: a personalidade dos governantes ajuda a moldar seus mandatos e definir os rumos do país. A constatação motivou a jornalista Cristiana Lôbo a escrever “O que vi dos presidentes — Fatos e versões”, que terá lançamento póstumo no dia 29. O livro foi finalizado por Diana Fernandes, ex-coordenadora de Política do GLOBO em Brasília. As duas começaram o projeto em 2016, em meio à crise que culminaria na derrubada de Dilma Rousseff.

Míriam Leitão - A democracia e o impensável

O Globo

Bolsonaro e Trump tentaram insurreições para mudar o sistema eleitoral e a democracia ainda não sabe consertar este estrago institucional

Brasil e Estados Unidos viveram tantos ineditismos nos últimos anos, que o anormal passou a ser o cotidiano. Agora, pouco nos assustamos com presidentes respondendo a processos por conspiração contra a democracia ou por incitar seguidores a invadir sedes de poderes. Ou por tentar permanecer no poder mesmo diante da derrota eleitoral. Tudo seria considerado bizarro se contado a nós anos atrás. Isso nunca aconteceu antes. E com tal intensidade que as pessoas ainda estão anestesiadas.

Há muito em comum entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. Os últimos dias mostraram de novo os paralelos. Ambos estão muito encrencados e a cada semana novas evidências aparecem de uma sucessão de ilegalidades. Respondem a vários processos na Justiça, são acusados de diversos crimes e investigados por conspiração. Trump foi indiciado pela terceira vez por tentativa de alterar o resultado das eleições. Bolsonaro é investigado por participação em atos golpistas. A diferença entre ambos é que o ex-presidente brasileiro está inelegível, e o ex-presidente americano tenta voltar ao poder e lidera as pesquisas das primárias americanas.

Elio Gaspari - Tarcísio no estilo de Witzel

O Globo

Truculência policial é coisa velha, mas pedagógica é novidade

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, despontou como uma alternativa política, dando um toque de civilização à polaridade que envenena a vida nacional. Em poucos dias, com guinadas surpreendentes, ele entrou num caminho que se parece com o rumo paleolítico do ex-governador do Rio, Wilson Witzel.

A Polícia Militar barbarizou no Guarujá e, numa medida da confusão, na segunda-feira, enquanto a Ouvidoria falava em dez mortos, o governador falava em oito, defendendo a operação. Passados os dias, a conta chegou a 16, com as habituais denúncias de execuções.

A truculência policial é coisa velha. Tarcísio já foi contra as câmeras individuais para os PMs, mudou de opinião, mas não consegue que elas funcionem em operações como a do Guarujá.

Enquanto o governo de São Paulo oferecia uma chacina em nome da segurança pública, o secretário de Educação, Renato Feder, trouxe uma novidade, a truculência pedagógica, na embalagem de luxo das ferramentas digitais.

Com uma canetada, o governo de São Paulo recusou 10 milhões de volumes impressos que receberia do Ministério da Educação por intermédio do Programa Nacional do Livro Didático, o PNLD. Feder anuncia que esse acessório secular será substituído por ferramentas digitais.

Em tese, é o progresso que chega. Na prática, virá a balbúrdia. O governo federal é o maior comprador de livros do Brasil. O PNLD distribui mais de 200 milhões de exemplares, num negócio perto de R$ 2 bilhões.

Dorrit Harazim - O impensável

O Globo

Faltam 15 meses para o pleito de novembro de 2024. Há uma Justiça no caminho de Trump

Que ninguém se engane: será o julgamento político do século. Por enquanto, a laboriosa cobertura jornalística dos processos criminais contra Donald Trump ainda é inversamente proporcional à lassidão da opinião pública diante do emaranhado de acusações. Aos poucos, contudo, a Justiça avança. Desbarata o cipoal. Uma primeira frente contra Trump foi aberta em abril numa Corte distrital de Nova York, com 34 acusações de registros contábeis fraudulentos envolvendo, entre outros, uma atriz pornô. Todos os atos a que terá de responder nesse processo são anteriores a sua eleição em 2016. As outras 40 acusações de retenção e ocultação de documentos de Estado, com obstrução da Justiça, referem-se a crimes praticados já como ex-presidente derrotado nas urnas. Esse pacote será julgado num tribunal de Miami. É o processo federal apresentado nesta semana no Tribunal Distrital de Washington pelo promotor especial Jack Smith que tem maior potencial de sugar a atenção mundial quando for a julgamento. De gravidade máxima, esse lote é o único a tratar de crimes cometidos pelo réu enquanto ainda ocupava a Casa Branca: conspiração para fraudar a nação, conspiração para obstruir o processo eleitoral, obstrução de um procedimento oficial, conspiração contra o exercício de um direito constitucional (o do cidadão, de seu voto ser validado).

Luiz Carlos Azedo - CPMI dos atos golpistas ganha força com quebra de sigilos digitais

Correio Braziliense

Os políticos são movidos por seus objetivos, em alguns casos inconfessáveis; a burocracia zela pela legitimidade dos meios que utilizam. Quando existe uma não conformidade, sempre fica um rastro

Há muito a política deixou de ser monopólio dos políticos, militares e diplomatas, ainda que continuem sendo grandes protagonistas da história. Às vezes, as crises políticas ganham rumos imprevistos em razão de personagens improváveis: o irmão, a ex-mulher, o motorista, o caseiro, a secretária, quando surgem de forma inesperada no enredo, como fatos até bizarros. É o caso dessa história do Rolex que o ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, tenente coronel Mauro Barbosa Cid, tentou vender no mercado internacional de joias usadas, porém, sem certificado de procedência, cuja principal testemunha é uma ex-secretária.

Vazou um documento supostamente encaminhado à CPMI dos atos golpistas e de caráter sigiloso, cuja existência foi revelada por Camila Bomfim, da TV Globo. Ao rastrear os acessos aos arquivos da comissão, técnicos do Senado constataram que nenhum dos 12 integrantes da comissão autorizados examinou o arquivo do qual o documento fazia parte. Suspeita-se que alguém ligado a Mauro Cid, em busca de proteção, possa ter interesse no vazamento, mas não se sabe até agora quem seria.

Eliane Cantanhêde – Rolex, diamantes, ourives

O Estado de S. Paulo

Cid abre nova linha de investigação: a de um esquema internacional de joias

O Rolex cravejado de diamantes que o tenente coronel Mauro Cid vendeu, ou tentou vender, leva as investigações policiais para um novo campo explosivo, o de um esquema de joias entre a turma do ex-presidente Jair Bolsonaro e os EUA. Cid, que foi braço direito e ajudante de ordens (cada ordem!) dele, está no centro dessas investigações.

Segundo fontes responsáveis, há um novelo de conexões. O fio começou a ser puxado quando o Estadão revelou o estojo milionário de joias e diamantes da Arábia Saudita para a família Bolsonaro, que moveu mundos e fundos para tentar resgatá-lo da Receita Federal, com a, digamos, preciosa ajuda de Mauro Cid.

Lourival Sant’Anna - Trump e o exercício da mentira

O Estado de S. Paulo

Para se manter no poder, Trump converteu seus adversários políticos em inimigos do país

A denúncia formal de Donald Trump por tentar fraudar as eleições de 2020 e as reações do ex-presidente dão a dimensão dos riscos envolvidos na mentira e no desafio às instituições. Para mitigar o dano da derrota eleitoral e se manter competitivo politicamente, Trump se engaja em colocar seus seguidores contra o sistema de Justiça americano.

“Todo o nosso país está contando com você naquele que é certamente o capítulo mais sombrio da história de nossa nação em nossa batalha final para restaurar o poder aos cidadãos”, apelou um e-mail de arrecadação de doações da campanha de Trump, na quinta-feira, dia de sua apresentação à Justiça. “Precisamos provar quantos patriotas estão dispostos a defender pacificamente nosso movimento e salvar nossa república – mesmo quando o Departamento de Justiça de (Joe) Biden tenta prender o presidente Trump por toda a vida como um homem inocente.”

José Roberto Mendonça de Barros* - É bom calibrar o otimismo

O Estado de S. Paulo

Será indispensável reduzir a lista de exceções criadas na reforma tributária aprovada na Câmara

O Brasil não é, definitivamente, para principiantes. No início do ano, boa parte dos observadores e analistas atribuíam ao novo governo uma boa dose de força política, decorrente da eleição e de ter sobrevivido bem aos acontecimentos de 8 de janeiro. Mas viam também fraqueza do ponto de vista econômico, já que apontavam como provável a volta da heterodoxia e do fantasma de uma recessão como a que vivemos entre 2014 e 2016.

Passados seis meses, vemos um governo fraco no Congresso, mas forte na economia, com a consolidação de uma visão surpreendentemente otimista.

Queda consistente da inflação, melhora no desempenho econômico, aprovação de projetos importantes e evolução na perspectiva da nota do País foram os eventos mais relevantes para entender essa visão mais positiva que passou a predominar.

Celso Rocha de Barros* - Jair e Donald: dois golpes

Folha de S. Paulo

Para Bolsonaro, o que atrapalhou seu golpe foi o de Trump ter dado errado

"Apesar de ter perdido, o acusado estava determinado a permanecer no poder. Por isso, por mais de dois meses após a eleição [...], o acusado mentiu que o resultado da eleição foi alterado por fraude, e que ele, na verdade, havia vencido a eleição. Essas acusações eram falsas, e o acusado sabia que eram falsas. Mas o acusado as disseminou [...] para que suas alegações, sabidamente falsas, parecessem legítimas, criassem uma atmosfera nacional de desconfiança e raiva, e erodissem a fé do público na administração da eleição."

Não, ainda não é a sentença contra Jair. É o começo da acusação das autoridades americanas contra Donald Trump, apresentada semana passada.

Bruno Boghossian - Lula, Tebet e Marina

Folha de S. Paulo

Presidente aproveita ministras como ativos, mas poderia evitar trombadas requentadas

Lula submeteu Simone Tebet e Marina Silva a um novo par de testes. Primeiro, o presidente declarou que a ministra do Planejamento sabia "há muito tempo" que Márcio Pochmann comandaria o IBGE. Dias depois, o petista avisou que o veto do Ibama à extração de petróleo na Foz do Amazonas pode ser revisto.

O diploma de vencedor da eleição dá muitos poderes a um presidente. É dele a autoridade para escolher quem vai ocupar cargos e definir ações do governo. Nessas tarefas, o chefe fatalmente vai contrariar alguns ministros, mas requentar trombadas com auxiliares costuma ser uma opção pouco produtiva.

Tebet tentava sinalizar que o atropelo que sofreu com a confirmação de Pochmann no IBGE era página virada. A certa altura, disse que acataria qualquer decisão de Lula e que, até o anúncio feito pelo Planalto, nem sabia que o economista havia sido escolhido pelo presidente.

Muniz Sodré* - A miséria da cognição

Folha de S. Paulo

Atordoante é vislumbrar legislação feita por apedeutas, impermeáveis à compreensão da centralidade da educação no presente e no futuro do país

Nas redes, uma cena penosa do que se pode hoje chamar de miséria da cognição: a tentativa de diálogo entre um sênior professor de direito e uma jovem deputada na Câmara Federal. Ele procura explicar que toda compreensão implica um recorte da realidade, mas aferrar-se ao recorte com uma visão particular de mundo torna impossível o conhecimento. Ela reage, dizendo-se ofendida por ter ele ousado afrontar o plenário com "conceitos acadêmicos".

O incidente pode soar irrisório, mas é um caso sintomático do que Gramsci chama de "molecular", isto é, o processo reflexivo sobre formação da subjetividade, em que se declina o problema político da compreensão crítica de si mesmo, e não apenas do social. Implica pesquisar mudanças psíquicas: "as pessoas de antes não são mais as pessoas de depois", diz o pensador. Molecular, e não macrossocial com suas grandes categorias, é a base conceitual para se entender processos afetivos e protofascistas atuantes na quebra de contenções psíquicas, morais e cognitivas inerentes ao modo civilizatório.

Samuel Pessôa* - Início do ciclo de queda da Selic

Folha de S. Paulo

Política monetária ainda freará a atividade econômica por alguns meses

Banco Central iniciou na quarta-feira (2) um ciclo de redução da taxa de juros. O corte da Selic era totalmente esperado. Havia dúvida quanto à magnitude. Poderia ser de 0,25 ponto percentual (pp) ou de 0,5 pp. O corte foi de 0,5 pp, levando a Selic a 13,25%.

O placar da votação do Comitê de Política Monetária (Copom) foi de 5 a 4. O presidente Roberto Campos Neto deu o voto de minerva se alinhando com os dois novos diretores indicados por Lula e na direção contrária à Diretoria de Política Econômica e à Diretoria de Assuntos Internacionais.

A informação mais importante do comunicado divulgado logo após a reunião foi que "em se confirmando o cenário esperado, os membros do Comitê, unanimemente, anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário".

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Fim da ‘legítima defesa da honra’ é só primeiro passo

O Globo

Decisão unânime do STF é histórica. Judiciário terá papel essencial para conter epidemia de feminicídios

Em rara unanimidade, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram fechar definitivamente a porta para que assassinos de mulheres fiquem impunes, amparados na tese descabida da “legítima defesa da honra”. É um espanto que, por mais anacrônica que seja, ela ainda sensibilizasse tribunais. Não mais. Pela decisão do STF, o argumento não poderá ser usado nem nas investigações nem na fase processual. A Corte o considerou inconstitucional, por contrariar os princípios de igualdade de gênero, dignidade humana e proteção à vida. Num país em que os feminicídios se tornaram uma epidemia, a decisão de enterrar esse entulho jurídico não poderia ser mais oportuna.

O julgamento, motivado por ação do PDT, confirmou outra decisão da Corte de 2021, quando o plenário, também por unanimidade, corroborou liminar concedida pelo ministro Dias Toffoli contra a “legítima defesa da honra”. Toffoli considerou o argumento “desumano e cruel” e disse que contribuía para naturalizar a violência contra a mulher, ao “imputar às vítimas a causa de suas próprias mortes e lesões”.

Poesia | Catar feijão - João Cabral de Melo Neto

 

Música | Xande de Pilares canta Caetano Veloso - Gente