sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Vinicius Torres Freire: Covid volta a matar mais velhos

Folha de S. Paulo

Depois da nova variante, pessoas mais frágeis voltam a ser vítimas mais frequentes da epidemia

ômicron seria uma onda de Covid de sintomas mais "brandos", se dizia. Talvez ainda se comprove que seja. Mas sabia-se que a proliferação imensa da nova variante mataria muito simplesmente porque infectaria muitos. Mataria em particular os mais frágeis, os mais velhos. Pois mata.

Em quatro semanas de janeiro, 38,4% dos mortos por Covid no estado de São Paulo tinham 89 anos ou mais (770 mortos de um total de 2.004). Em período equivalente de dezembro, eram 23,3%. Em novembro, 21%.

Houve também mais mortes "insignificantes", como dizem os bolsonaristas. Em dezembro, nenhuma criança com menos de 5 anos havia morrido por causa da doença. Em janeiro, foram 9. Dessas, 6 eram bebês com menos de 1 ano.

Luiz Carlos Azedo: A atuação do atual ministro da Saúde já é uma tragédia sanitária

Correio Braziliense

O número de mortes chegou a 625.085 pessoas. Nas últimas 24 horas, foram 672 óbitos. O aumento de casos nessa escala poderia ter sido evitado, não fossem a sabotagem oficial e o negacionismo

Enquanto o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, brinca de faz de conta que vacina as crianças e cria, a cada semana, novos embaraços e manobras diversionistas que confundem os pais das crianças, a escalada de morte por covid-19 no Brasil já contabiliza 672 óbitos nas últimas 24 horas, o que é um absurdo, em se sabendo que a variante ômicron é proporcionalmente menos letal. O aumento de casos ocorre numa escala que poderia ter sido evitada, não fossem a sabotagem oficial e o negacionismo dos que não se vacinaram, seguindo a orientação do presidente Jair Bolsonaro.

De quarta-feira para ontem, segundo dados reunidos pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), foram mais 228.954 novos casos. O número total de mortes chegou a 625.085 pessoas, de um total de 24,7 milhões de infectados. É mais do que evidente que a situação está fora do controle: na quarta-feira, foram registrados 570 mortes e 224.567 novos casos.

A cada dia surge uma nova polêmica criada pelo Ministério da Saúde, apesar das duras críticas de sanitaristas, infectologistas, virologistas, biólogos e outros especialistas. Para agradar a Bolsonaro, Queiroga e seus assessores trabalham para desacreditar as vacinas e confundir a sociedade quanto à segurança das doses pediátricas. Com ampla tradição de imunização em massa, graças a campanhas de divulgação de sucessivos governos, pela primeira vez, nos últimos 50 anos, isso não ocorre por iniciativa do Ministério da Saúde, que opera uma estratégia de desconstrução da política de saúde pública.

Hélio Schwartsman: Otan, Rússia e os jogos de guerra

Folha de S. Paulo

Na crise da Ucrânia, ponto de equilíbrio mais evidente é uma solução diplomática

A guerra é um assunto sério demais para ficar nas mãos de generais. Foi por isso que cientistas decidiram entrar no negócio. No Ocidente, fizeram-no principalmente por meio da Rand Corporation, o "think tank" criado em 1945 que se tornou um parque de diversões para matemáticos elaborarem cenários de guerra.

Não necessariamente o mundo se tornou mais pacífico. Alguns desses cientistas podiam ser mais "falcões" que os militares.

A empreitada, porém, foi útil. Como os matemáticos soviéticos estavam fazendo a mesma coisa que os americanos, desenvolveu-se uma linguagem comum formalizável que permitiu que a Guerra Fria fosse travada com os dois lados atuando sob as mesmas regras de base racional.

Antonio Corrêa de Lacerda*: Teto de gastos ou de investimentos?

O Estado de S. Paulo

A retomada dos investimentos é fundamental para fomentar o desenvolvimento

A Emenda Constitucional (EC) 95, aprovada no Congresso Nacional no fim de 2016, fixou uma regra impondo limite de gastos públicos para os próximos 20 anos. A medida, embora atenda ao “senso comum”, parte de uma premissa equivocada de que o Orçamento público, como analogia, deveria se equiparar ao orçamento doméstico: “|Só pode gastar o que arrecada”. No entanto, essa assertiva não vale para a macroeconomia, já que o Estado tem funções, assim como prerrogativas, que lhe são próprias.

O problema é que, no Brasil, diante da dificuldade em restringir os gastos correntes, como despesas decorrentes de emendas parlamentares, o Executivo acaba instado a reduzir os investimentos. Não por acaso o nível de investimento público, que já era baixo historicamente, caiu da média de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) no período 20132016 para pouco mais de a metade, 2,2%, em 2017-2021.

A queda da participação do investimento público coincide com uma das nossas maiores crises, cuja superação recomendaria justamente o inverso, ou seja, uma atuação anticíclica do Estado para gerar o “efeito multiplicador” do investimento público e provocar o “efeito demonstração” para o setor privado. Aí já temos a grande contradição da questão: a limitação do gasto público engessa o papel do Estado quando ele pode ser mais do que necessário.

Fabio Giambiagi: ‘Avant première’ para 2023

O Estado de S. Paulo

O debate sobre que País queremos ter precisa ser profundo, baseado em dados e sem agressões

Este ano teremos eleições. Precisamos ter uma reflexão acerca de que País queremos ter. E esse debate precisa ser profundo, baseado em dados e sem agressões. Com esse espírito, ao longo das próximas 30 semanas, em encontros quinzenais, irei expor um conjunto de 15 propostas para discussão, com vistas a alimentar o bom debate.

Cabe aqui fazer dois esclarecimentos. O primeiro é que os pontos estão longe de esgotar o conjunto de temas sobre os quais o governo terá que se debruçar em 2023 e são listados apenas como aqueles que a mim me parecem os mais relevantes em matéria econômica. E o segundo é que se referem à economia, porque essa é a área que conheço, o que de modo algum significa que não considere outros temas importantes e sim apenas é o reconhecimento das minhas limitações.

Vera Magalhães: Dá para recuperar o Orçamento?

O Globo

A segurança com que Ciro Nogueira atira em Lula, cuspindo no prato em que comeu, e vende uma certeza que não tem na reeleição de Jair Bolsonaro vem de um fator que será chave na eleição deste ano e que qualquer presidente eleito em outubro terá imensa dificuldade em reverter: o Orçamento da União foi privatizado, está nas mãos do Centrão, e é por isso que seus caciques não estão nem aí para quem vai vencer a eleição.

O avanço muito rápido dessa apropriação dos recursos e das políticas públicas pelos aliados do governo no Congresso é o que faz com que partidos como PL e PP permaneçam no barco de Bolsonaro haja o que houver, diga ele o que disser em relação a qualquer tema, de vacinação infantil ao cumprimento de decisões judiciais.

A ideia é secar as tetas da União até as eleições, pois é esse dinheiro, via Auxílio Brasil, emendas do relator, fundo partidário e outros mecanismos orçamentários aprovados pelo Parlamento e mantidas por um presidente que faz bravata de machão, mas é refém e inseguro, que vai assegurar não só a reeleição dos mesmos caciques de hoje, mas o aumento de seu exército.

Marcello Averbug*: Repartir para crescer

O Globo

Observando a série de declarações dos economistas vinculados aos candidatos à Presidência, percebe-se, além da escassez de criatividade, a incidência de um erro elementar quando mencionam o problema da desigualdade social.

Todos eles afirmam que a economia precisa primeiro crescer para depois serem implementadas políticas atenuantes da concentração de renda. Ignoram, portanto, que o correto é exatamente o contrário. Isto é: o esmaecimento dos extremos contrastes sociais constitui poderoso promotor do desenvolvimento econômico.

Nos primórdios do ideário desenvolvimentista brasileiro, tanto durante governos democráticos quanto autoritários, era comum ouvir afirmações do gênero “antes o bolo tem que crescer para depois ser distribuído”. Mas hoje, após a frequência de insuficientes e flutuantes momentos de crescimento do PIB, tornou-se evidente que se esperarmos o alcance de elevadas e estáveis taxas de expansão econômica, a melhoria da equidade social jamais acontecerá. Na verdade, essa espera é equivocada e danosa à nação.

Enquanto políticas públicas de caráter redistributivo não forem executadas, a economia continuará na mesma pasmaceira. Isto porque tais políticas expandem o poder de compra de substancial parcela da população, num montante suficiente para impulsionar investimentos e criar empregos.

Flávia Oliveira: Por mulheres no centro

O Globo

Em desalinho com a mobilização intensa por protagonismo político, sobretudo na última meia década, as mulheres brasileiras estão praticamente apartadas da corrida presidencial de 2022. A oito meses do pleito, a senadora Simone Tebet (MDB) é a única pré-candidata anunciada. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e a ex-ministra e ex-senadora Marina Silva (Rede) foram citadas como possíveis vices de Jair Bolsonaro (PL) e Ciro Gomes (PDT), respectivamente. Cenário mantido, será a menor participação feminina em eleições presidenciais neste século. No mesmo país que elegeu e reconduziu Dilma Rousseff (PT) ao Palácio do Planalto em 2010 e 2014.

Em 2002, Rita Camata (PMDB) e Dayse Oliveira (PSTU) foram vices nas chapas de José Serra (PSDB) e Zé Maria. Quatro anos depois, a então senadora Heloísa Helena disputou a Presidência pelo PSOL e Ana Maria Rangel pelo PRP, tendo Delma Gama como vice. Em 2010, a ex-presidente Dilma teve Marina Silva (PV) como adversária; Cláudia Durans (PSTU) foi vice de Zé Maria. Nas eleições 2014, Dilma, Marina (PSB) e Luciana Genro (PSOL) encabeçaram chapas; Célia Sacramento (PV), Sofia Manzano (PCB) e Cláudia Durans lançaram-se vice. No último pleito, Marina Silva, candidata pela terceira vez, já pela Rede, enfrentou Vera Lúcia (PSTU) numa campanha com recorde de mulheres como vices: as senadoras Ana Amélia (PP) e Kátia Abreu (PDT), a deputada Manuela D’Ávila (PCdoB), a líder indígena Sonia Guajajara (PSOL) e a professora Suelene Balduino (Patriota).

Impressiona que as mulheres estejam perdendo espaço justamente quando a escalada autoritária do presidente da República exige das instituições e da sociedade civil a defesa intransigente da democracia. O Brasil parece querer retornar para o modelo em que, de novo, no centro do palco estão os homens, brancos, heterossexuais, idoso ou de meia-idade. Mulheres, negros, indígenas, LGBTIs, jovens defenderam a diversidade, lutaram por presença em espaços de poder. Mas seguem preteridos, tanto nas chapas quanto nas propostas de governo. Poucos se lembram que, de cada cem eleitores brasileiros, 53 são do sexo feminino. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que, no eleitorado nacional, 77,4 milhões são mulheres e 69,1 milhões, homens.

Pedro Doria: Um baseado na cara de Moro

O Globo

A cena é surpreendente. Na última segunda-feira, durante uma transmissão de quatro horas, o ex-ministro Sergio Moro falava sobre a possibilidade de um segundo turno entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Lula (PT) quando um dos dois entrevistadores começou a tossir. Quem conhece Monark, um dos âncoras do Flow, sabe exatamente o que ele estava fazendo. Mas, caso alguém tivesse dúvida, o editor na mesa de corte decidiu realçar. Por três segundos, cortou a câmera de Moro para a de Monark justamente na hora em que ele pegava o isqueiro sobre a mesa para reacender seu baseado, àquela altura já queimado para além da metade. Maconha, diferentemente de tabaco, apaga. Tem de reacender mesmo de tempos em tempos. O ex-ministro da Justiça, pessoalmente um homem conservador, seguiu falando sobre o que achava de Bolsonaro e Lula.

Os candidatos estão conversando direto com os eleitores em inúmeros programas de nicho, sejam podcasts, vídeo ou ambos, para audiências que às vezes se contam na casa dos poucos milhares, noutras para lá dos milhões. É, por muitos motivos, um tipo de campanha digital de melhor qualidade do que a de 2018, empesteada de mentiras e ancorada nos perfis falsos das redes sociais.

Nos dias seguintes à entrevista de Moro ao Flow, amplamente debatida nas redes sociais, o pré-candidato pedetista ao Planalto, Ciro Gomes, levou ao ar um react em seu canal do YouTube. Ciro vem chamando Moro para um debate faz já algumas semanas, principalmente pela arena da internet. O ex-juiz escorrega. Numa briga em que a arma é a retórica, ele teria mesmo dificuldades. Um react, na linguagem da internet, é a transmissão ao vivo da reação de alguém a outro vídeo. Abrem-se duas telas, toca um trecho de Moro no Flow, dá-se uma pausa, Ciro comenta e por aí vai.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

São inaceitáveis os obstáculos contra vacinação infantil

O Globo

Era de esperar que, após os obstáculos iniciais, muitos deles criados pelo próprio presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a vacinação infantil no país avançasse sem maiores sobressaltos. Mas não. Em algumas cidades, pais que levam os filhos aos postos de saúde são surpreendidos com exigências descabidas, como a obrigatoriedade de assinar um termo de consentimento, medida que contraria as normas do Ministério da Saúde e funciona como um desestímulo à vacinação.

Como mostrou reportagem do Jornal Nacional, pelo menos duas capitais — Salvador e Belém — estão cobrando o termo de consentimento para vacinar as crianças. Na capital baiana, os pais precisam preencher um longo formulário antes da imunização. A exigência se repete em cidades de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Mato Grosso.

No estado do Rio, como informou O GLOBO, o termo de responsabilidade estava sendo exigido pelas prefeituras de Itaguaí, Nilópolis, Japeri, Araruama e Mangaratiba. Em Itaguaí, autoridades de saúde chegam ao cúmulo de cobrar, além da autorização, cópia dos documentos dos responsáveis e da criança, absurdo que não tem amparo na legislação. Também funcionam como desestímulo alertas feitos nos postos sobre efeitos adversos das vacinas, que são raros. Algumas cidades recuaram após a repercussão negativa do caso.

Os argumentos para justificar a exigência são ridículos. Prefeituras alegam que é para evitar que posteriormente pais acusem o município de aplicar a vacina sem autorização — isso nunca existiu em outras campanhas. Afirmam ainda que seguem orientação do Ministério da Saúde, o que não é verdadeiro. A nota técnica do ministério recomenda que o termo seja assinado apenas na ausência dos pais ou responsáveis pelas crianças.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Descoberta da Literatura:

No dia a dia do engenho,

toda a semana, durante,

cochichavam-me em segredo:

saiu um novo romance.

E da feira do domingo

me traziam conspirantes

para que os lesse e explicasse

um romance de barbante.

Sentados na roda morta

de um carro de boi, sem jante,

ouviam o folheto guenzo ,

a seu leitor semelhante,

com as peripécias de espanto

preditas pelos feirantes.

Embora as coisas contadas

e todo o mirabolante,

em nada ou pouco variassem

nos crimes, no amor, nos lances,

e soassem como sabidas

de outros folhetos migrantes,

a tensão era tão densa,

subia tão alarmante,

que o leitor que lia aquilo

como puro alto-falante,

e, sem querer, imantara

todos ali, circunstantes,

receava que confundissem

o de perto com o distante,

o ali com o espaço mágico,

seu franzino com o gigante,

e que o acabassem tomando

pelo autor imaginante…

Música | Gal Costa - Garota de Ipanema

 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Malu Gaspar: A valsa de Lula e Ciro Nogueira

O Globo

O ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, fez uma provocação em entrevista ao GLOBO. “A que ponto chegamos: o Lula, que teve o seu processo anulado, ser juiz, dizendo que tem Centrão do bem e Centrão do mal. Lula tem condições de ser juiz em nosso país? Acho um pouco demais.” E atacou: “O Lula que conheço e que as pessoas vão conhecer na campanha é o Lula da Gleisi (Hoffmann), do Zé Dirceu, do (João) Vaccari. (...) As pessoas não querem esse grupo do PT de volta ao comando do país. Acompanho pesquisas qualitativas. Quando se coloca o Lula ao lado dessas pessoas, a rejeição é total.”

Lula nunca afirmou literalmente que existe um Centrão do bem e outro do mal. Mas o ex-presidente vem justificando a necessidade de fechar aliança com Alckmin com o argumento de que, mais do que ganhar a eleição, é preciso governar. E já repetiu de variadas formas que, se vencer a eleição, não quer se tornar refém do Centrão no Congresso, como Bolsonaro se tornou. Alckmin e os tucanos seriam, segundo essa tese, uma espécie de vacina contra o fisiologismo patrocinado por Ciro, Lira e companhia, que controlam cinco ministérios, dezenas de cargos e bem mais de R$ 150 bilhões do Orçamento.

Só que, embora esteja rompido com o PP de Ciro e Lira e com o PL de Valdemar Costa Neto, que já lhe prestaram muitos serviços no passado, Lula arrasta asa para o PSD de Gilberto Kassab e para setores do MDB — que também são Centrão e têm entre seus membros uma cota de bolsonaristas. É por isso que Ciro adotou a expressão “Centrão do bem”, que ele também usa em conversas privadas, ao comentar o argumento lulista.

Tanto Ciro quanto Lula sabem que não existe tal divisão. Centrão é Centrão. É aquela parcela da classe política que está sempre no governo, seja qual for. Da mesma forma que já chamou Bolsonaro de fascista no passado e depois desdisse tudo ao entrar no governo, Ciro não terá nenhum problema em passar uma borracha no que vem afirmando sobre o PT, se Lula ganhar.

Maria Cristina Fernandes: Lula despe figurino Biden

Valor Econômico

Inspiração sumiu quando o pacote de estímulos teve, como consequência indesejada, a maior inflação dos últimos 39 anos

Em maio do ano passado, em entrevista à rede de comunicação pública dos Estados Unidos, PBS, Lula elogiou o pacote enviado por Joe Biden ao Congresso para estimular a economia a reagir ao freio da pandemia: “Temos que fazer o que Biden já fez nos EUA em sua última declaração sobre a economia. Aumentar nossa base monetária, para que possamos dar condições de sobrevivência ao povo brasileiro.”

O pacote foi saudado por muitos como uma vingança da história a favor do Estado indutor do desenvolvimento. Até um livro (“Bidenomics nos Trópicos”, FGV, 2021) foi organizado pelos economistas Nelson Barbosa e André Roncaglia para discutir a experiência neokeynesiana do governo Biden. A idade e a eventual sucessão de outro populista de extrema-direita levou a entrevistadora americana a citar a perspectiva de Lula vir a se transformar no “Biden brasileiro”.

Na segunda-feira, ao reagir a um jornalista que lhe perguntara se a inflação seria uma fraqueza nas eleições legislativas, o presidente americano, aparentemente sem se dar conta de que o microfone estava ligado, disse: “Não, é um grande trunfo, que filho da puta estúpido.”

No dia seguinte, Paul Krugman, um dos maiores defensores do pacote de estímulos, reconheceu a inflação, que fechou 2021 em 7%, o maior índice dos últimos 39 anos, como um efeito indesejado da política expansionista. Antes, porém, culpou o mensageiro. Em sua coluna no “The New York Times” atribuiu ao “poder da narrativa” o que chamou de reação “desmesurada” da opinião pública americana à alta da inflação.

No percurso entre o pacote e a inflação, seu proponente sumiu do discurso lulista. Na entrevista em que abriu o ano eleitoral, o ex-presidente citou 17 vezes os Estados Unidos, mencionou Barack Obama, George W.Bush e Donald Trump, mas não mencionou Biden nem as medidas de seu governo.

Cristiano Romero*: Lula: 1.0, 2.0 ou 3.0 (Dilma Rousseff)?

Valor Econômico

Alckmin como vice é a nova ‘Carta’ de Lula aos “brasileiros”

Líder nas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial deste ano, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda emite sinais ambíguos sobre seu programa econômico. Fundador do PT, principal e incontestável líder da legenda há 40 anos, Lula, não se apega hoje ao ideário anacrônico de parte da esquerda que o acompanha nem ao reformista com que exerceu o início de seu primeiro mandato como presidente (2003-2006).

A palavra que melhor define Lula é pragmatismo. Antes de o petista exercer o primeiro mandato, dúvidas sobre como ele governaria pululavam. Isso levou a maioria dos participantes do mercado a acreditar que, eleito, o ex-operário adotaria ideias de economistas da ala mais à esquerda do PT. Registro necessário: mercado somos todos nós, correntistas de bancos e compradores diretos e indiretos de títulos emitidos pelo Tesouro.

Até 2002, predominaram no PT propostas como fazer “auditoria” na dívida pública, suspender o pagamento da dívida externa, aumentar a presença do Estado na economia, controlar preços dos combustíveis _ entre outros preços públicos _, fortalecer o papel de empresas estatais, reestatizar companhias alienadas por governos anteriores, recriar órgãos públicos etc.

No início deste século, ideários como esse já haviam sido abandonados pela maioria das economias, inclusive, as do Leste Europeu pós-queda do Muro de Berlim. No Brasil, desde o primeiro governo civil da Nova República - de José Sarney (1985-1990) -, o que se procurou fazer foi justamente desmontar o modelo econômico propugnado por economistas do PT.

Não deixa de ser irônico o fato de o Partido dos Trabalhadores, fundado em 10 de fevereiro de 1980, nos estertores do regime militar, defender arcabouço econômico instaurado e consagrado durante a segunda metade - nos governos dos generais Ernesto Geisel (1975-1979) e João Figueiredo (1979-1985), em pleno regime de exceção, sob o qual o país viveu de março de 1964 a março de 1985.

Luiz Carlos Azedo: Federação de esquerda PT-PSB-PCdoB-PV avança, mas Lula quer ampliar alianças

Correio Braziliense

Pela legislação vigente, as federações terão que se manter durante quatro anos e serão verticalizadas, ou seja, se reproduziriam em todas as Unidades da Federação e teriam que valer para as eleições de 2024

Dirigentes do PT, PSB, PCdoB e PV avançaram, ontem, na definição da federação que esses partidos estão constituindo, com base na nova legislação eleitoral. Os entendimentos, porém, continuam tensos em razão das disputas regionais. Os quatro partidos chegaram à definição quanto ao comando da federação: os petistas ficarão com 27 dos 50 lugares da assembleia diretiva, enquanto o PSB ocupará 15 postos. PV e PCdoB ocupariam quatro cada um.

O PT tem, hoje, 53 deputados; o PSB, 30; o PCdoB, oito; e o PV, quatro. Para equilibrar a relação entre o PT e as demais forças, já que o partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem maioria de assentos, as decisões seriam tomadas por maioria de dois terços e haveria um rodízio no comando da Executiva, que seria formada por um presidente e três vices, com um representante de cada partido.

Pela legislação vigente, as federações terão que se manter durante quatro anos e serão verticalizadas, ou seja, se reproduziriam em todas as unidades da Federação e teriam que valer para as eleições municipais de 2024, o que é um problema a mais. Os partidos estão enfrentando muitas dificuldades para conseguir reproduzir as federações em nível estadual e terão ainda mais, em nível municipal.

Como a nova legislação está exigindo que os partidos formem federações até 1º de março, ou apresentem chapas competitivas nos estados até as convenções, em junho, esse calendário está sendo considerado esquizofrênico. Os partidos recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que esse prazo seja prorrogado, de preferência até as convenções partidárias — ou seja, para depois da janela de transferência de partido, em março.

William Waack: Romper o ferrolho

O Estado de S. Paulo

Pressionada pelo duplo ataque de bolsonaristas e lulistas, 3.ª via busca ‘novidade eleitoral’

Parece que também Lula considera alta a probabilidade de Jair Bolsonaro não estar no segundo turno. Daí certa pressa em “garantir” o mais cedo possível uma ampla coligação para ganhar já no primeiro.

Lula seria poupado de dois cenários de alto risco. O primeiro é ter de enfrentar mais uma vez o “todos contra o PT”. Parte da militância petista, especialmente nos círculos intelectualizados, considera que Lula já passou da condição de vilão à de mártir. A esta altura do calendário, é uma postura temerária.

O segundo cenário de risco para Lula – se tiver de enfrentar um segundo turno – é o longo mês de negociações entre a primeira e a segunda votação com diferentes chefes de bancadas, capazes de extrair o máximo dele. Por isso mesmo, o esforço de articuladores do PT para formar uma bancada de no mínimo 257 integrantes, contando, além da esquerda, com uma eventual federação e/ou com PSB e PSD de Gilberto Kassab. É nesta complicada tarefa que Lula se concentra hoje.

José Serra*: Combater desde já as sequelas

O Estado de S. Paulo

Caberia ao governo tomar a iniciativa de assistir econômica e socialmente a população mais vulnerável

Na guerra sem quartel contra as vacinas, o Executivo Federal já foi derrotado pela opinião pública, apoiada nos governos estaduais e nas prefeituras. Refugiar-se na retaguarda e manter escaramuças nessa área foi o que restou ao Planalto, a seus prepostos no Ministério e ao grupo residual de empresários e profissionais politizados da área de saúde. Cerca de 70% dos brasileiros concluíram o ciclo completo de imunização contra a covid-19, e pouco menos de 20% receberam a dose de reforço. Já não há como privá-los da proteção imunológica a que têm direito.

Não há mais tempo a se perder com controvérsias sobre remédios, manobras para retardar a entrega das vacinas e dos testes, perseguição a técnicos e servidores que seguem a ciência, difusão de acusações forjadas sobre efeitos colaterais inexistentes nas crianças vacinadas, ou propaganda sobre remédios milagrosos. A seu tempo, o peso da lei recairá sobre o conteúdo criminoso, hoje sob investigação no Ministério Público, em decorrência das apurações da CPI do Senado sobre condutas que têm contribuído para prejudicar o combate à covid-19.

Eugênio Bucci*: A morte como piada

O Estado de S. Paulo

Um ser humano, sobretudo na hora da morte, merece de nós a nossa melhor expressão de respeito

O falecimento do escritor Olavo de Carvalho, na terça-feira, repercutiu nas redes sociais de um modo carnavalesco, brincalhão, satírico e apavorante. Uma avalanche de festejos virtuais fez da notícia fúnebre uma festa popular, como quando as torcidas comemoram a vitória do seu time num desses certames futebolísticos. Anedotas floresciam em toda parte, das mais chulas às mais elaboradas. Uns se divertiam com a boutade de que a onda de calor destes dias se deve à porta do inferno, escancarada para receber o novo inquilino. Outros preferiram replicar o post segundo o qual o morto, ao se instalar no endereço escaldante, havia declarado que o inferno é plano. Os mais líricos recuperaram um poema famoso do uruguaio Mario Benedetti, escrito em 1963, chamado Obituário com hurras: “Murió el cretino / vamos a festejarlo”. Por muitas horas, o escárnio divertido, espirituoso e ácido manteve seu ânimo. E foi isso, apenas isso, que me soou apavorante (esta é a palavra). Se a morte de alguém, seja esse alguém quem for, é motivo para o nosso regozijo mais ostensivo, a que teremos nos reduzido?

É claro que a minha percepção individual não pode ser generalizada. Aliás, nada aqui se pretende generalizante. Quando falo em redes sociais, estou me referindo apenas ao que delas posso ver ou saber, ou seja, falo de recortes exíguos e franjas infinitesimais de uma superindústria inapreensível. Olho as redes mais ou menos como os mendigos que viam televisão em frente às vitrines do Mappin. Eu as observo pelo lado de fora. Mesmo assim, mesmo vendo tão pouco, não gostei de ver a bolha que orbito exultando copiosamente porque alguém morreu.

Ruy Castro: Lá jaz Olavo de Carvalho

Folha de S. Paulo

Enterrá-lo aqui seria profanar os cemitérios cheios de gente que ele e Bolsonaro ajudaram a matar

Nenhum jornal impresso ou online deu a morte de Olavo de Carvalho em manchete no alto da primeira página. Deram-no na primeira página, certo, mas em muito menos espaço que reservariam à morte de um cantor sertanejo ou baterista australiano de rock. O Jornal Nacional foi ainda mais discreto —ignorou-o nas chamadas de abertura do programa e, em vez disso, destacou a morte em Mangaratiba (RJ) de três girafas trazidas da África para o zoológico do Rio. Olavo de Carvalho só apareceu no jornal propriamente dito por 1min15. As pobres girafas mereceram 4min44.

Perfeito. Também acho a morte de uma girafa mais importante que a de Olavo de Carvalho. As girafas, assim como os lêmures e os gnus, não discutem o óbvio. Sabem que a Terra é redonda, e olhe que nunca saíram dela e a espiaram lá de cima. Submetem-se à vacinação se necessário e não dão cursos de negacionismo por correspondência para zebras ingênuas. Além disso, raras girafas fumam cinco maços de cigarros por dia.

Bruno Boghossian: Lula vai além de Alckmin

Folha de S. Paulo

Petista aproveita rejeição a Bolsonaro e faz sinal precoce de abertura à centro-direita

Pouco depois de um encontro com Lula, em maio passado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez juras de lealdade ao PSDB. Disse que apoiaria um nome de seu partido à Presidência em 2022, mas acrescentou que, se o candidato tucano não chegar ao segundo turno, votará em qualquer um contra Jair Bolsonaro –"mesmo o Lula", completou.

O PT age para antecipar essa lógica do segundo turno. A ideia é aproveitar o favoritismo de Lula apontado pelas pesquisas, a descrença com a decolagem da tal terceira via e a sólida rejeição a Bolsonaro para atrair nomes de centro e centro-direita para o campo petista ainda nas etapas iniciais da campanha deste ano.

Maria Hermínia Tavares: Civilidade ou brutalidade na eleição

Folha de S. Paulo

Pleito deverá opor defensores da civilidade mínima às falanges da ignorância

Preocupado desde a primeira hora apenas com sua permanência no Planalto, Bolsonaro terminou por estimular a antecipação do processo eleitoral. Embora não tendo chegado à massa dos votantes, o assunto consome bom espaço na imprensa e nos partidos, despertando o interesse da delgada camada da opinião pública que acompanha o vaivém da política.

A menos de dez meses da ida às urnas, tudo pode acontecer, a começar da confirmação do cenário traçado pelas pesquisas: a disputa cristalizada entre a extrema direita bolsonarista e a esquerda moderada —hoje francamente favorita— personificada por Lula. Entre ambas, no território das forças de direita e de centro que rejeitam o ex-capitão, movimentam-se protocandidatos, embora nenhum deles já capaz de desfilar como líder da chamada terceira via.

O desastre econômico, social e moral produzido pela direita autoritária e a elevada rejeição popular a Bolsonaro —sua mais acabada encarnação— parecem estar levando alguns a prever que a volta das esquerdas é certa como o dia depois da noite e que elas podem não só ganhar sozinhas mas também governar sem alianças ao centro e além.

Desde a redemocratização, sob a liderança do PT, representaram uma força eleitoral a ser levada a sério, embora de desigual potência: vertebradora da competição pelo centro do poder, relativamente importante nas disputas estaduais e menos expressiva na formação das duas casas do Congresso.

De toda maneira, candidatos petistas jamais levaram a melhor no primeiro turno; vencedora, sua chapa nunca dispensou um vice que indicasse o intento de se entender com centro e mesmo a direita. Os governos do PT sempre se lastrearam, no Legislativo, em coalizões amplíssimas —bem mais heterogêneas daquelas que sustentaram Fernando Henrique durante oito anos.

Vinicius Torres Freire: Águas de março de inflação e eleição podem afogar Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Mercado acredita em mais carestia, alta de juros nos EUA pode afetar Brasil

A cada semana a guerra da inflação parece um pouco mais perdida para Jair Bolsonaro. Nesta quarta (26), foi divulgada a taxa do IPCA-15 de janeiro, que veio um tico acima da média esperada pelos povos dos mercados financeiros. Foi o bastante para montes de bancos, corretoras e consultorias elevarem seus chutes informados, previsões, para a inflação deste ano.

Antes de continuar: o IPCA-15 é a inflação medida de meados do mês passado, dezembro, no caso, a meados deste. O IPCA mensal, medida "oficial" de inflação para o consumidor, mede a inflação de um mês só, mês "cheio".

O problema vai bem além disso, de revisão pessimista das projeções da carestia, especialmente em termos políticos. Bolsonaro e o centrão estão ouriçados para aloprar, baixar impostos e fazer dívida extra de dezenas de bilhões de reais a fim de tentar baixar os preços de gasolina, diesel e a conta de luz (apenas tentar: nem isso pode dar certo). O tiro pode sair pela culatra, nas nossas fuças, porque um aumento de déficit pode ter efeito em taxas de juros e dar um sinal de que o governo pode tentar medidas ainda mais desesperadamente idiotas ou perigosas.

Alvaro Gribel: Inflação alta piora o cenário

O Globo

IPCA-15 acima do esperado em janeiro era tudo que o Banco Central não queria a uma semana da reunião do Copom

O IPCA-15 acima do esperado em janeiro já fez com que vários bancos e consultorias aumentassem as projeções para a inflação deste ano. Isso era tudo que o Banco Central não queria a uma semana da reunião do Copom. Mais do que o número, em si, o que chamou atenção dos economistas foi a composição do índice, com aumentos de preços em 75% dos itens, o maior patamar desde fevereiro de 2016. A inflação está espalhada, a taxa em 12 meses permanece em dois dígitos e a inflação de serviços também está alta. Com o aumento dos preços do petróleo, a Ativa Investimentos estima que a gasolina no país ainda está 16% abaixo dos preços internacionais, indicando que haverá mais pressões por reajustes nos combustíveis pela Petrobras.

Logo após a divulgação do IPCA-15 pelo IBGE, o Credit Suisse subiu sua estimativa para a inflação deste ano de 6% para 6,2%. A LCA consultoria aumentou de 5,5% para 6%, enquanto o Itaú Unibanco elevou de 5% para 5,3%. São só três exemplos, mas que indicam como o ano começou com uma forte piora das expectativas. O Banco Central já se comprometeu com um aumento de 1,5 ponto na reunião da semana que vem, o que levará a Selic para 10,75%, e ainda assim não está conseguindo controlar as projeções do mercado. O risco é que seja forçado a subir demais os juros e levar a economia a uma recessão mais severa.

Cora Rónai: A derrota do otimismo

O Globo

Fiz o que pude para não desanimar, mas a pandemia não tem aspectos positivos. Além do vírus, temos de brigar contra autoridades obscurantistas e debochadas

Quando a pandemia começou, tentei ver a situação pelo lado positivo. Foi muito difícil, mas havia alguns vagos fiapos aos quais nós, polianas inveteradas, podíamos nos agarrar: afinal, estávamos vivendo uma experiência rara, que passaria aos livros de História.

Qualquer pessoa de bom senso sabe que experiências históricas devem ser evitadas a todo o custo; mas também é sabido que pessoas otimistas por natureza, como é meu caso, não têm bom senso — as condições são excludentes.

O fato é que vimos imagens inéditas das grandes metrópoles inteiramente vazias; descobrimos pontos de luz e de solidariedade em vizinhos que cantavam nas janelas e tentavam transmitir coragem uns aos outros; vibramos com o aplauso coletivo para os heróis da área da saúde; aprendemos coisas que nem imaginávamos sobre vírus e transmissão de doenças.

Cheguei a escrever sobre a importância do nosso papel como testemunhas, e disse aos meus netos para prestarem muita atenção ao que acontecia à sua volta, porque, no futuro, os seus netos lhes farão perguntas sobre os tempos que vivemos.

Natalia Pasternak* e Roberto Simon**: Memória do Holocausto e pandemia

O Globo

O ex-chanceler Ernesto Araújo comparou medidas de isolamento social a campos de concentração nazistas. O senador Flávio Bolsonaro e o secretário de Cultura, Mario Frias, divulgaram um vídeo com trechos de “A lista de Schindler” e uma frase ao fim: “Não é a primeira vez que pessoas são classificadas em ‘essenciais’ e ‘não essenciais’”.

O ex-ministro Ricardo Salles disse que um artigo crítico a ele na imprensa alemã parecia “o que a própria Alemanha fez com as crianças judias”. “Omitir o uso da cloroquina é o mesmo que deixar judeus na dúvida entre chuveiro e câmara de gás”, segundo o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos. Para Augusto Nunes, da Jovem Pan, ações contra o dono de uma pousada em Fernando de Noronha que recusara a vacina lembravam “o autoritarismo nazista contra judeus”. E a lista continua.

Setenta e sete anos após a libertação de Auschwitz, o mundo observa hoje o Dia da Memória do Holocausto. No Brasil do extremismo político e da pandemia, a data exige uma reflexão especial.

O assassinato em escala industrial de milhões de judeus, além de outras minorias, foi arrastado ao centro do debate político por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, sobretudo no contexto da pandemia. Um ingrediente nesse caldo nefasto é a relativização do genocídio nazista, usado como arma retórica, “comparável” a supostas vítimas da luta contra a Covid-19.

Outro ingrediente, menos evidente, porém tão pernicioso quanto, é a disseminação da lógica negacionista.

Em sua prática e técnica, os negacionismos histórico e científico são duas faces da mesma moeda. Trata-se, em ambos os casos, de negar fatos bem estabelecidos por evidências, sejam elas resultado de experimentos controlados ou de robusta documentação histórica.

Sofismas contra a vacina se arvoram numa estrutura conhecida. “Não sou antivacina, mas os imunizantes para Covid-19 foram feitos rápido demais, são experimentais, não sabemos seus efeitos de longo prazo, a técnica é muito nova e pode interferir no seu DNA, há interesses da indústria farmacêutica.”

Note a estrutura: pega-se um detalhe que é até verdadeiro, como “foram feitos em tempo recorde”. Remove-se o contexto — a tecnologia básica desenvolvida ao longo de décadas, o esforço, a cooperação e o investimento inéditos trazidos pela pandemia — para encaixá-lo num quadro de conspiração.

Negacionistas do Holocausto argumentavam que a bula do veneno Zyklon-B, usado nas câmaras de gás, mandava ventilar o ambiente por 48 horas após seu uso. Então, como os nazistas poderiam entrar nas câmaras para retirar os corpos sem morrer? Contexto omitido: a bula pressupunha o uso do gás como inseticida, e não (por razões óbvias) para extermínio humano em massa, em galpões vazios e por carrascos com máscaras.

O negacionista, em todas as suas cepas, posa de questionador intrépido ou inocente curioso. Diz o senso comum que quem não tem nada a esconder não teme perguntas. Mas quem questiona querendo conhecer a verdade — e não tentando manipulá-la — ouve as respostas, não insiste na pantomima de que supostos enigmas de soluções bem conhecidas, aceitas pela comunidade de especialistas e reiteradas centenas de vezes, seguem “em aberto”.

Setenta e sete anos depois, há no mainstream brasileiro quem veja equivalência possível entre o judeu na câmara de gás e o dono da pousada. Quem use as ferramentas do negacionismo como arma política contra a promoção da saúde. A eles, repetiremos em uníssono, hoje e sempre: nunca mais.

*Pesquisadora na Universidade Columbia, é presidente do Instituto Questão de Ciência e conselheira do Instituto Brasil-Israel

**Jornalista e analista internacional, é mestre em política pública pela Harvard Kennedy School e conselheiro do Instituto Brasil-Israel

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

É reveladora piora do Brasil em lista global de corrupção

O Globo

É deplorável que o Brasil tenha caído duas posições no ranking global de percepção de corrupção anunciado nesta semana pela Transparência Internacional, organização de renome na área. Numa lista de 180 países, o Brasil passou a ocupar o 96º lugar. Trata-se da nossa terceira pior colocação na série histórica. O Brasil aparece empatado com Indonésia, Lesoto e Turquia, entre outros.

O contraste com dois de nossos vizinhos é vergonhoso. O Uruguai figura como 18º, junto a Japão e Bélgica. O Chile, 27º, está ao lado dos Estados Unidos. Sob qualquer ângulo que se analise, o Brasil decepciona. Está abaixo da média global, da média do G20 (grupo que reúne as 20 maiores economias), da média regional da América Latina e Caribe e da pontuação do Brics (sigla em inglês usada para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Para o presidente Jair Bolsonaro, eleito com a bandeira da anticorrupção, o resultado é tremendamente constrangedor. O ranking é feito com base num índice no qual 100 significa muito íntegro, e zero altamente corrupto. A pontuação do Brasil foi 38, a mesma registrada em 2015 e 2020.

Poesia | Cecília Meireles: Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Música | Gal Costa - A Felicidade