sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Claudia Safatle - Governo quer mesmo zerar o déficit em 2024

Valor Econômico

Há ainda muitas dúvidas e incertezas em relação ao Orçamento do próximo ano

Fontes do Ministério da Fazenda garantiram que o governo mantém a meta de zerar o déficit primário em 2024; e sustentaram que não vai haver mensagem modificativa estabelecendo qualquer condicionante na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) ao cumprimento da meta.

São muitas as dúvidas e incertezas, porém, em relação ao Orçamento do próximo ano. A começar pelo fato de que, não tendo sido ainda aprovada a lei do arcabouço fiscal, ele terá que ser elaborado com base na lei do teto de gasto ou não? A ideia no Ministério do Planejamento é que o Orçamento, que tem que ser enviado ao Congresso até o fim deste mês, seja elaborado com base no arcabouço que foi aprovado pelo Senado, caso não seja aprovada a tempo, pela Câmara, a lei que define um conjunto de regras fiscais.

José de Souza Martins* - Livro para ler, livro para consumir

Eu & / Valor Econômico

O livro é instrumento ativo de ensino e aprendizado, mesmo fora da escola. É obra, como texto e produção física. Situa-se no campo da arte

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo anunciou a dispensa dos 10 milhões de livros didáticos fornecidos pelo governo federal para distribuição aos alunos das escolas paulistas. Em seu lugar optou pelo livro virtual, acessível pela internet. É uma inovação modernosa, antipedagógica. O secretário não explicou o que é para ele a natureza da diferença entre o livro físico e o livro virtual.

Faz objeção ao conteúdo desses livros físicos. Portanto, não conseguiu ou não achou necessário explicar aos educadores, aos pais de alunos e aos próprios alunos suas razões para, no intuito de impor um suposto conteúdo novo, impor também uma forma de deslivrar o livro do que lhe é próprio, de destituí-lo de sua forma de livro segundo a tradição e a cultura do livro.

Quando se fala em livro, fala-se também na forma da sua apresentação, de sua acessibilidade e de seu uso. Tradicionalmente, a forma do livro não se separa do seu conteúdo e do modo de usá-lo.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Deflação acrescenta riscos para o crescimento chinês

Valor Econômico

A lenta recuperação chinesa só pode ser acelerada com injeção do consumo, mas pacotes amplos de estímulos aos gastos das famílias nunca foram lançados

A China frustrou as expectativas de desempenho econômico, que eram grandes logo após ter abandonado as rígidas medidas preventivas contra a covid-19. O crescimento registrado no segundo trimestre do ano reduziu-se a 0,8% sobre o trimestre anterior, ante 2,2% no primeiro. Mesmo com a previsão de expansão de 5,5% para o ano, a menor em muito tempo, surgiram dúvidas de que seja alcançada. Depois de um Produto Interno Bruto (PIB) modesto, vieram mais um recorde de desemprego entre os jovens (21,3%) em junho, deflação em julho (-0,3%) e quedas de dois dígitos no comércio externo, tanto de exportações como importações. Estouro de bolha imobiliária, baixo consumo, crescimento menor e inflação negativa são sinais de que a economia aproxima-se de um ponto morto com altos desequilíbrios.

A China está ficando sem motores de crescimento. Nas ocasiões em que teve de enfrentar problemas na economia, as autoridades do Partido Comunista lançaram sucessivos e bilionários estímulos à infraestrutura, que relançaram as atividades. Ainda que possam fazê-lo novamente, o governo agora pensa duas vezes antes de usar os mesmos incentivos. A enorme bolha dos imóveis, agigantada por pacotes anteriores, estourou há dois anos com a falência da Evergrande e o espetacular endividamento das maiores incorporadoras, estancando um setor que produzia algo entre um terço e um quarto de um PIB de US$ 18 trilhões.

Poesia | Vladimir Maiakóvski - Comumente é assim

 

Música | Seu Jorge - Burguesinha

 

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Merval Pereira - Versões e fatos

O Globo

Anderson Torres é cínico ou incompetente. A investigações mostram que ele é mentiroso

A prisão do ex-chefe da Polícia Rodoviária Federal Silvinei Vasques por tentativa de sabotar a ida de eleitores do Nordeste para votar, a fim de prejudicar Lula, vem no dia seguinte ao depoimento cínico do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, que, de tornozeleira, garantiu não ter tramado o bloqueio de estradas no dia do segundo turno da eleição presidencial.

Quem ouviu o depoimento de Torres, se não o considerar cínico, poderia classificá-lo de incompetente. As investigações estão mostrando que é simplesmente um mentiroso. Disse que viajou às vésperas da rebelião do dia 8 de janeiro sem ter a mínima noção de que caravanas de bolsonaristas se dirigiam a Brasília para uma grande manifestação. Apesar de ter sido nomeado secretário de Segurança do Distrito Federal dias antes e de ter recebido relatórios sobre a possível gravidade da situação.

Tanto que disse ter aprovado um plano de segurança que considerou exagerado, mas ter aceitado a sugestão dos subordinados. Dias antes, havia sido desbaratada uma tentativa de explodir uma bomba no aeroporto de Brasília, indicando que os inconformados com a vitória de Lula se mobilizavam.

Luiz Carlos Azedo - Tempo fechado para os bolsonaristas envolvidos no 8 de janeiro

Correio Braziliense

As investigações comprovam ações do ex-diretor da PRF Silvinei Vasques com o objetivo de impedir que eleitores do Nordeste comparecessem às urnas nas eleições passadas

A prisão do ex-diretor-geral da Polícia Rodoviário Federal (PRF) Silvinei Marques por ordem do ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo inquérito que investiga os atos golpistas de 8 de janeiro, representa um novo patamar das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mais dois auxiliares muito próximos do ex-presidente Jair Bolsonaro também estão em apuros: o tenente-coronel Mauro Cid, ainda preso num quartel do Exército, e o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, em restrição de liberdade (usa tornozeleira eletrônica e não pode sair de casa das 20h às 8h).

As investigações comprovam ações do ex-diretor da PRF com o objetivo de impedir que eleitores do Nordeste comparecessem às urnas nas eleições passadas. Essas ações foram planejadas, supervisionadas diretamente por Silvinei. Têm muita semelhança com táticas utilizadas pela extrema direita nas eleições da Flórida e podem revelar conexões internacionais da extrema direita brasileira.

Malu Gaspar - O dilema amazônico de Lula

O Globo

Um dos propósitos do encontro dos oito países que compartilham a Floresta Amazônica nesta semana em Belém, a convite do governo brasileiro, era demonstrar a força e a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva sobre os países da região, como parte de seu esforço para se tornar referência mundial em questões ambientais. Tal ambição gerou entre os ambientalistas grande expectativa de que a declaração final do evento trouxesse a promessa de zerar o desmatamento na Amazônia até 2030 ou, ao menos, estratégias para chegar lá.

Aos poucos, ficou claro que não havia consenso em torno do compromisso. Ainda assim, celebrava-se o fato de os países da Amazônia se reunirem depois de um hiato de 13 anos, reafirmando a disposição de preservar a floresta. Confiava-se, ainda, na força de uma cobrança conjunta aos países desenvolvidos, alguns dos quais campeões de poluição, para cumprirem suas próprias metas de financiamento a iniciativas sustentáveis das nações em desenvolvimento.

Míriam Leitão - Sangue no asfalto e a rotina do absurdo

O Globo

As chacinas no Rio, em São Paulo e na Bahia são mais uma mostra dramática de como o país tem errado na segurança pública

O sangue escorre do camburão. É Rio de Janeiro, na semana passada. Poderia ser na Bahia ou em São Paulo. Nas três chacinas em cada um desses estados, na última semana, a polícia matou 51 pessoas. Há 30 anos, o Rio assistia a duas chacinas quase simultâneas, a da Candelária e a de Vigário Geral. Em 92, houve Carandiru, em 95, Corumbiara, em 96, Eldorado dos Carajás. Não são casos isolados, nos últimos doze meses, segundo dados do Fogo Cruzado, houve 37 chacinas policiais no Rio e 29 na Bahia com, ao todo, 262 mortos.

A foto de Eduardo Anizelli, publicada na Folha de S.Paulo, em 4 de agosto, deveria parar o Brasil. O blindado da PM pingando sangue revela o quanto o país tem errado na segurança pública. O hoje desembargador José Muiños Piñeiro atuou como promotor nas chacinas da Candelária e de Vigário Geral e explica uma diferença.

—Corumbiara, Eldorado dos Carajás e Carandiru foram operações oficiais, a imprensa estava presente, havia a identificação dos policiais envolvidos. No caso das duas chacinas no Rio há 30 anos, os chacinadores eram policiais militares e alguns policiais civis, marginais e agentes da lei, que agiram clandestinamente. A foto no GLOBO dos 21 caixões era dantesca, humilhante — lembra Muiños.

Maria Hermínia Tavares * - Estamos condenados à barbárie?

Folha de S. Paulo

Em 2022, a violência tirou a vida de cerca de 48 mil brasileiros

Entre o final de julho e o começo de agosto, somaram 45 os mortos em operações policiais contra o tráfico de drogas na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Do total, uma vítima era agente da lei. A tragédia escancara a brutalidade em que estamos imersos.

Em 2019, segundo o Observatório Global da Organização Mundial da Saúde, só dez países tinham taxas de homicídio maiores do que o Brasil. Formávamos um time da pesada com países a que não costumamos nos comparar: África do Sul, Lesoto e oito vizinhos latino-americanos ­—El Salvador, Honduras, Colômbia e Venezuela, além de quatro nações caribenhas.

Bruno Boghossian - O verde possível de Lula

Folha de S. Paulo

Limites que presidente desenha vão balizar decisões e conflitos inevitáveis sobre o tema

A sabotagem ambiental de Jair Bolsonaro deu a Lula uma vantagem e uma desvantagem. Bastou restabelecer padrões de preservação para entregar resultados e tirar o país da classe de pária. Por outro lado, o contraste criou sobre o governo uma pressão por metas ambiciosas que não estão na agenda do presidente.

A Cúpula da Amazônia teve um certo gosto de frustração para grupos que defendem a adoção de obrigações ambientais rigorosas pelos países da região. O documento final do encontro deixou de fora uma proposta de corte acelerado na exploração de petróleo e amenizou um compromisso de desmatamento zero.

Ruy Castro - Bolsonaro, finalmente, ex

Folha de S. Paulo

Do Pix ao Drex, só não se lhe poderá perguntar as horas. Ele botou à venda seu Rolex

Justamente agora, que aposentei meu talão de cheques e comecei a me habituar ao Pix, os cérebros das finanças vêm aí com o Drex. É uma nova moeda digital, prima do Pix e com a mesma tecnologia das criptomoedas, só que, ao contrário destas, à prova de hackers e apta à transferência de gigantescas quantias sem o controle do Banco Central. Pelo que li, o Drex já está circulando em fase experimental desde março, o que significa que foi concebido no ano passado, quando Bolsonaro ainda tinha certeza de vitória nas eleições, eternização no poder e impunidade perpétua.

Maria Cristina Fernandes - Se Minas quebrar, é o Brasil todo que paga

Valor Econômico

Minas Gerais e Rio Grande do Sul têm a pior nota na classificação dos Estados a partir de sua capacidade de pagamento feita pelo Tesouro Nacional

O Tesouro Nacional mantém uma classificação dos Estados a partir de sua capacidade de pagamento. É parecida com aquela que as agências internacionais de risco fazem sobre os países para orientar investidores. Até no uso de letras para classificar se parecem. Apenas dois Estados, pelo último dado, de novembro de 2022, obtiveram a letra D, mais baixa das notas: Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Que o rebanho bovino de Minas, pela importância para a economia e para a culinária nacional, seja deixado em paz nesta contenda em que o governador do Estado se meteu. O que importa é que Minas não caminhe para um calote porque quando isso acontece, e não seria a primeira vez, é o país inteiro que paga.

De acordo com este índice de capacidade de pagamento, o Capag, apenas sete Estados têm a melhor nota, A: quatro estão no Norte e Nordeste (PB, PA, RO e RR), um no Sudeste (ES) e dois no Centro-Oeste (MT e MS). Dos 13 Estados com B, nove estão no Norte/Nordeste (AL, BA, CE, PE, PI, SE, AC, AM e TO), três no Sul e Sudeste (PR, SC e DF). A nota C está restrita a três Estados do Norte e Nordeste (MA, RN, AP) e um do Sudeste (RJ).

Assis Moreira - Brics: o G-77 do B?

Valor Econômico

Brasil vincula ampliação a Conselho de Segurança da ONU e entrada no banco do Brics

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva surpreendeu no começo do mês ao apoiar a expansão do Brics, o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, atropelando o que a diplomacia brasileira vinha defendendo até agora.

O tema está no centro da agenda da cúpula dos líderes do Brics marcada para 22 e 24 deste mês em Joanesburgo (África do Sul). O Brasil se colocava contra a ampliação do número de países, para preservar o peso global e regional próprio dos sócios atuais. Além disso, a expansão tende a distorcer e dar outra dinâmica à agenda do grupo, inclusive sobre temas regionais que tornará uma convergência de interesses ainda mais difícil.

Jorge Arbache* - Investir na América Latina. Será?

Valor Econômico

AL e Caribe estão mais bem posicionados para apoiar o planeta na missão de evitar uma catástrofe ambiental

A mais importante fonte de atividade econômica das próximas décadas será a economia do baixo carbono. Afinal, teremos que praticamente reinventar em bases verdes quase tudo o que produzimos e consumimos e o como consumimos. Esta espetacular transformação resulta da necessidade e não de opção, mas estamos demasiado atrasados e corremos contra o relógio para evitar uma catástrofe ambiental.

Em curto prazo, teremos que encontrar os meios para acelerar a transição para essa nova geração de produtos e serviços verdes, o que vai requerer condições de produção distintas das que temos hoje. Para isto, serão necessários muita energia verde, muita água e muitos minerais da economia do baixo carbono.

William Waack - Muito falatório

O Estado de S. Paulo

Na diplomacia brasileira para o meio ambiente falta estratégia

O Brasil encontra dificuldades na sua “diplomacia ambiental”, descrita por Lula como “passaporte para uma nova relação com o mundo”. Além de ajudar a escapar do “lugar subalterno de fornecedores de matéria-prima historicamente a nós reservado”.

As dificuldades começam em casa. Ficaram claras na Cúpula da Amazônia, que terminou sem um compromisso sobre metas de desmatamento e exploração de energia fóssil na região. Como liderar se o próprio País empurra para adiante as metas de desmatamento e não define se vai ou não explorar petróleo na faixa tropical?

As mesmas dificuldades domésticas surgiram em relação à economia de baixo carbono. Os ministérios de Fazenda, Indústria e Comércio e Agricultura tinham chegado a entendimento para regular no Brasil o comércio de emissões de carbono. Simplificando, seria mirar os modelos internacionais para compra e venda de permissões para emitir gases de efeito estufa.

Adriana Fernandes - Haddad e a mudança da meta fiscal

O Estado de S. Paulo

O ministro da Fazenda fez uma aposta de alto risco, e agora está tendo de lidar com isso

O projeto do novo arcabouço fiscal ainda nem teve a sua votação concluída no Congresso, e o debate sobre mudança da meta fiscal de 2024 corre solto em Brasília.

Já era esperado que essa discussão acontecesse com o fim do teto de gastos e a sua substituição por um novo regime fiscal que precisa do aumento da arrecadação para abrir espaço para novas despesas. O problema, porém, chegou cedo demais.

Foi no dia 30 de março que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se comprometeu com a meta fiscal de zerar do governo em 2024. Naquele momento, havia desconfiança na política econômica e no projeto do arcabouço ainda em construção, além de pressão do PT por uma regra fiscal mais flexível.

Celso Ming - Um governo dividido sobre meio ambiente

O Estado de S. Paulo

Na Cúpula da Amazônia que culminou terça-feira com a assinatura da Declaração de Belém pelos chefes de Estado de 8 países, o mais importante não são avaliações do tipo “copo meio cheio meio vazio” sobre a qualidade das decisões tomadas, mas o fato de que o Brasil, e não só o governo Lula, não sabe bem o que quer em matéria de política ambiental.

O governo está dividido sobre explorar ou não explorar petróleo na Margem Equatorial. Está dividido até mesmo sobre perfurar um poço a mais de 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas apenas para saber o que tem e poder decidir, com conhecimento de causa, se convém ou não explorar produtos fósseis por lá.

Nem sempre um país tem decisão sobre tudo o que abrange a questão ambiental, que é bem mais ampla do que a da transição energética. Muitas vezes é necessária convergência política prévia para determinadas decisões. Mas, neste momento em que o planeta está queimando, é preciso sentido de urgência.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Governo busca atalhos para gastar com meta fiscal sob risco

Valor Econômico

“Jeitinhos” minam grande esforço da equipe econômica para dar confiabilidade ao novo regime fiscal

O governo terá dificuldades para cumprir as metas que estabeleceu no novo regime fiscal. Antes, porém, que as regras para as contas públicas sejam aprovadas - elas voltaram para o exame da Câmara, após modificações no Senado que podem ser rejeitadas - o Planalto já manobra para encontrar “jeitinhos” de excluir despesas do teto de gastos renovado. Em mensagem modificativa ao Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), pediu exclusão de R$ 5 bilhões de gastos que as estatais federais que não dependem de recursos do Tesouro farão no PAC. O sinal emitido pela manobra é muito ruim, pois põe em xeque antecipadamente a disposição de cumprir as próprias regras, que sequer estão em vigência.

O novo regime fiscal é mais condescendente com os gastos e a governança que o teto de gastos que o antecedeu. Mesmo assim, estabeleceu um sistema de contenção de gastos que não será de fácil execução. Os analistas de mercado e consultoria ouvidos pelo boletim Focus, do Banco Central, e Prisma Fiscal, do Ministério da Fazenda, não acreditam que as metas de resultado primário serão atingidas até 2026.

Pelo novo regime, há o compromisso de déficit de 0,5% do PIB este ano, déficit zero em 2024, superávits de 0,5% e 1% do PIB em 2025 e 2026, com uma banda de adequação de 0,25 ponto percentual para mais ou para menos. As estimativas contidas no Focus preveem déficits de 1%, 0,8% e 0,5% nesse ano e nos dois seguintes. O Prisma Fiscal antevê déficits de R$ 101,7 bilhões em 2023 e de R$ 88,3 bilhões em 2024.

Há vários motivos para o ceticismo em relação ao cumprimento dos objetivos fiscais. Os investidores receberam com alívio o novo regime fiscal porque esperavam algo muito pior - uma gastança desenfreada e sem limites. As mudanças afastaram o pior cenário e limitaram muito as chances de um crescimento acelerado dos déficits. Como as regras preveem aumento real de gastos em quaisquer circunstâncias (mínimo de 0,6% real e máximo de 2,5%) há a suspeita de que o governo não se empenhará fervorosamente para atingi-las. Não há penalidades para o estouro das metas fiscais.

Poesia | Cecília Meireles - Timidez

 

Música | Moacyr Luz e Samba do Trabalhador - Pra que pedir perdão?

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Elio Gaspari - Tarcísio na pedagogia da enrolação

O Globo

O governador tem preparo e sabe do que está falando

Depois do anúncio de uma iniciativa desastrada para levar a pedagogia da rede pública de ensino de São Paulo para plataformas digitais, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, pareceu ter corrigido o curso, anunciando:

— Nós vamos encadernar [o material] e entregar impresso, encadernado. Ou seja, se o aluno quiser estudar digitalmente, ele vai poder, se ele quiser estudar no conteúdo impresso, ele também vai ter essa opção.

Se Tarcísio tivesse chegado ao governo de São Paulo depois de ter feito fama plantando couve, essa declaração seria aceitável. Ele foi um aluno estelar do Instituto Militar de Engenharia. Depois foi um administrador severo na faxina do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes e um correto ministro da Infraestrutura durante o governo Bolsonaro. Com essas credenciais, sabe do que está falando e, por saber, passou da pedagogia da truculência para a da enrolação.

Bernardo Mello Franco - A República dos patetas

O Globo

Lorotas de Anderson Torres e artimanhas de Mauro Cid combinam com espírito do governo Bolsonaro

Anderson Torres disse à CPI que a minuta do golpe era “imprestável” e seria jogada no lixo. Então por que o documento estava guardado no armário de seu quarto? “Por mero descuido”, respondeu o ex-ministro de Jair Bolsonaro.

Em depoimento nesta terça, o delegado abusou das histórias da carochinha. Sem corar, repetiu a conversa de que não entregou o celular à polícia porque teria perdido o aparelho na Flórida. O bolsonarista deveria cuidar da segurança de Brasília, mas voou para a Disney às vésperas dos atos golpistas.

Luiz Carlos Azedo - Deficit aumenta 30% enquanto Lira não vota o arcabouço fiscal

Correio Braziliense

Com a corda no pescoço, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, negocia o texto do novo arcabouço com o relator na Câmara dos Deputados, Claudio Cajado (PP-BA)

O governo Lula fechará 2023 com deficit primário de R$ 136,2 bilhões, equivalente a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB), 30% pior que o rombo previsto em março, de R$ 107,6 bilhões (1,0% do PIB), segundo estimativas da sua própria equipe econômica. A consequência imediata é a necessidade de bloqueio de verbas discricionárias nesse valor, uma vez que as regras do teto de gastos continuam em vigor. Ou seja, o governo terá de contingenciar gastos que não são obrigatórios, o que terá impacto nas políticas sociais e obras públicas.

O Orçamento deste ano estima um deficit fiscal de R$ 228,1 bilhões, rombo que o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, prometeu diminuir com medidas de recomposição de receitas e corte de gastos. A meta era reduzir o deficit do ano em torno de R$ 100 bilhões. Essa situação compromete o lançamento de projetos do governo, como o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e aumenta o poder de barganha da Câmara dos Deputados, que empurra com a barriga a aprovação do novo arcabouço fiscal.

Fernando de la Cuadra - La policía brasileña opera como una máquina de exterminio

¿Cuantos más necesitan morir para que esta guerra acabe?

Marielle Franco, un día antes de ser asesinada

En la última semana, tres masacres cometidas por miembros de la Policía Militar y la Policía Civil de los Estados de Sao Paulo, Rio de Janeiro y Bahía, pusieron nuevamente en discusión la fuerza desmedida de que hacen uso las fuerzas policiales del país. Hasta el momento, por lo menos 45 personas fueron ultimadas en operaciones realizadas en esos Estados, aunque el número puede subir de acuerdo a defensores de los Derechos Humanos que siguen recabando informaciones sobre las víctimas. [1]

En los tres casos, por relatos de habitantes de esas comunidades se sabe de situaciones en que pobladores y trabajadores desarmados fueron fusilados sumariamente por la policía, sin derecho a legítima y amplia defensa. Solo en la ciudad de Rio de Janeiro, en lo que va de este año se han producido 33 masacres en favelas y áreas periféricas con 125 personas fallecidas. El perfil de la mayoría de los muertos o presos en estos “enfrentamientos” es el mismo: son jóvenes, pobres y negros.

Fernando Exman - Mês crucial para as discussões econômicas

Valor Econômico

Atual momento da economia brasileira demanda atenção

Viabilizado em grande parte pela credibilidade que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, construiu nos últimos meses no setor privado e no Congresso, o atual momento da economia brasileira demanda atenção. Agosto será crucial.

O mês avança carregando incertezas em relação ao texto final do novo regime fiscal, embora seu desenho geral já seja bem conhecido, à Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2024 e ao Orçamento do ano que vem. O Senado começa agora a debater a reforma tributária e o projeto que retoma o voto de qualidade do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), medidas fundamentais para se avaliar a sustentabilidade das contas públicas a longo e curto prazos, respectivamente.

Lu Aiko Otta - Para Mello, chegou a hora de fazer gol

Valor Econômico

Equilíbrio orçamentário depende em grande parte da aprovação da lei que devolve ao governo o voto de desempate no Carf

Palmeirense roxo, o secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, avalia que o campo de defesa do governo foi organizado no primeiro semestre e que chegou a hora de fazer gols. Para o ataque, conta, foram escaladas duas novidades: o plano de transição ecológica, a ser anunciado nas próximas semanas, e a neoindustrialização. São, na sua visão, iniciativas capazes de mobilizar investimentos e impulsionar o desenvolvimento do país.

As duas iniciativas dialogam com o campo defensivo construído ao longo do primeiro semestre: de um lado, a reconstituição de políticas sociais, a valorização do salário mínimo, o Brasil Sorridente, o Luz para Todos, o Minha Casa, Minha Vida. São iniciativas que contribuem para a geração de emprego e renda, comentou. De outro, medidas para ajustar as contas públicas, como o pacote para elevar receitas lançado em janeiro e a proposta do arcabouço fiscal.

Zeina Latif - Precisamos fortalecer o foco do Estado no cidadão

O Globo

É necessário um funcionalismo preparado, e um conjunto de regras que provejam flexibilidade à administração pública

A qualidade da burocracia estatal é um ingrediente essencial para o sucesso da ação do Estado, podendo se traduzir em maior crescimento econômico dos países, havendo evidência empírica nessa direção*.

Os alicerces são a meritocracia no recrutamento e no progresso na carreira, com utilização de incentivos corretos, e o devido accountability (monitoramento, prestação de contas e responsabilização). É necessário englobar desde os formuladores de diretrizes de políticas públicas até os servidores que atendem diretamente o cidadão.

Esse desafio não é exclusividade do Brasil, mas aqui o quadro é bastante complexo em função da combinação de fatores como: estabilidade plena dos servidores (e não apenas para carreiras de Estado), aspecto em que o Brasil destoa da experiência mundial; regras que fortalecem o corporativismo; e marco jurídico falho, que constrange o processo decisório (“apagão da caneta”).

Nilson Teixeira* - Céu azul com nuvens pesadas adiante

Valor Econômico

Falta de perspectiva de uma transformação estrutural mais profunda na economia justifica as nuvens carregadas no horizonte

A percepção dos participantes de mercado sobre os fundamentos domésticos melhorou bastante no decorrer deste ano em função das trajetórias mais benignas da atividade e da inflação, bem como da diminuição dos riscos fiscais e políticos mais adversos.

O PIB do 1º trimestre foi maior do que o projetado, elevando a mediana das projeções de crescimento em 2023 de 0,8% no fim do ano passado para os atuais 2,3%. Apesar de a inflação IPCA seguir a dinâmica antecipada, com os 2,9% acumulados no 1º semestre similares à previsão formulada no fim de 2022, a projeção para 2023 recuou para 4,8%, após ter alcançado 6,1% em abril. As expectativas de inflação para 2024, 2025 e 2026 também retrocederam para, respectivamente, 3,9%, 3,5% e 3,5%.

Vera Magalhães - O negacionismo ‘apenas complementar’

O Globo

Autorização a ozonioterapia não é amparada por explicação técnica ou política e serve apenas para atiçar opositores de Lula

A decisão do presidente Lula de sancionar uma lei que autoriza o emprego de ozonioterapia no Brasil, a despeito de não haver nenhuma comprovação científica de sua eficácia e, pelo contrário, de existirem muitas evidências de que ela pode ser maléfica, parece se amparar no adendo de que seu uso será “apenas complementar”.

É como se essa expressão marota redimisse Lula e o governo de chancelar o mais acabado negacionismo — que, se já não fosse indefensável do ponto de vista científico, se mostra um desastre sob o aspecto político, uma vez que foi justamente a ozonioterapia uma das mandracarias vendidas pelo bolsonarismo no auge da pandemia de Covid-19, num discurso que negava a eficácia de vacinas, máscaras e distanciamento social na outra ponta.

Paulo Delgado* - O semelhante cura o semelhante

O Estado de S. Paulo

A gloriosa inventividade da medicina popular não é cativa do jugo bruto do poder médico, embora sofra ataque de quem se dispõe a desmoralizar a medicina milenar

Adeptos da homeopatia, a Rainha Elizabeth, Paul McCartney e Bill Clinton são sua melhor propaganda. Tente supor quais as principais manchetes médicas da última edição da imprensa mundial com o necrológio da vida na Terra derretida pelo calor. Certamente, se resumiriam a cinco boas notícias sobre saúde dos últimos 3 mil anos: Nasceu a acupuntura; Descobriram a homeopatia; Inventaram a psicanálise; Criaram a penicilina ; Transplantaram um coração.

Originado em sistemas humanistas cuja vocação é se dedicar a escutar o sofrimento e ajudar as pessoas a restabelecer a saúde, sem as distrações que a medicina biotecnológica produziu no corpo e na mente, só deveria ser permitido o exercício da medicina a quem confia na energia vital do corpo posta em liberdade para agir sobre as moléstias. A pretensão obsessiva de curar você de si mesmo que a medicina industrial pratica é uma boa oportunidade para se decepcionar com quem a defende. Médico é quem se recusa a ver um só sintoma e não anula a missão do corpo e do desejo de viver e vencer os fenômenos mórbidos que cercam nossa vida.

Fábio Alves - O teste do IPCA

O Estado de S. Paulo

A nova postura do Banco Central será testada com a divulgação da inflação de julho

Não são poucos os analistas que acreditam que o Banco Central correu um risco em termos de credibilidade da política monetária ao cortar a taxa Selic em 0,50 ponto porcentual, apesar de a sua projeção de inflação para 2024 ter se mantido inalterada em 3,4%, acima da meta de 3%, e ainda considerando como premissa uma redução menor dos juros, de 0,25 ponto, na reunião do Copom da semana passada.

Em outras palavras, o BC minimizou o peso que sempre deu para sua expectativa de inflação para definir os próximos passos da política monetária, preferindo agora, talvez, dar maior importância aos dados correntes de inflação, além de indicadores de atividade.

J. B. Pontes* - Aposentadoria compulsória de juízes: punição ou prêmio?

Existem no Brasil três categorias de servidores públicos que constituem verdadeiras castas aristocráticas: juízes, a elite política e os generais. O Brasil, um país de pobres, caracterizado como um dos mais desiguais do mundo, tem o judiciário e o parlamento entre os mais caros do mundo.

Nas Forças Armadas, os privilégios e benefícios são reservados aos oficiais, especialmente aos generais ou patentes similares, criando um enorme fosso relativamente aos praças (sargentos, cabos e soldados). A democracia instituída pela Constituição de 1988 passou longe da caserna.

O Congresso brasileiro é o segundo mais caro do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. E este elevado custo se deve, principalmente, aos privilégios extraordinários concedidos pelo Estado a estas estruturas aristocráticas de poder, o que representa uma evidente corrupção aos princípios basilares de um Estado democrático.

Wilson Gomes* - As vaquinhas improdutivas de Zema

Folha de S. Paulo

Governador ilustrou o sentimento do Norte e Nordeste de que só Lula os defende

Se Romeu Zema queria puxar a brasa para a sardinha de Lula e colocar mais obstáculos eleitorais no caminho da direita, além de projetar uma luz ruim sobre o consórcio de estados do Sul e do Sudeste, foi muito exitoso na entrevista que deu a Monica Gugliano e Andreza Matais, de O Estado de S. Paulo.

O curioso da história é que ele se vende como um sujeito que reconhece que ser eficaz na gestão e na articulação política pode não bastar sem uma estratégia de comunicação bem planejada e muito bem executada. Chega a exagerar na ponderação entre entregas políticas e comunicação no cálculo do sucesso eleitoral, como quando diz que Bolsonaro teve a eleição passada "totalmente na mão", tendo-a perdido apenas no discurso, na retórica, na polêmica. O governo Bolsonaro teria sido bom, nota 8, mas uma comunicação presidencial ruim pôs tudo a perder.

Do mesmo modo, o seu juízo acerca da esquerda é sobre um fracasso no desenvolvimento, compensado por retumbante sucesso na propaganda. Na prática, a esquerda nada tem, segundo ele, mas na comunicação ela rouba a admiração do governador, que não poupa expressões como "canto da sereia", "discurso sedutor" e "lavagem mental".

Bruno Boghossian - Os beneficiários do golpismo

Folha de S. Paulo

Virada de mesa manteria no poder Bolsonaro e seus aliados, mas isso deve ser só coincidência

Anderson Torres respirava golpismo. Como ministro da Justiça, participou da live de 2021 em que Jair Bolsonaro lançou suspeitas falsas sobre as urnas. Como conselheiro, frequentou o bunker instalado no Alvorada após a derrota na eleição e guardou um documento elaborado para virar a mesa. Como secretário de Segurança, acobertou a ameaça de invasão da praça dos Três Poderes.

A atuação diligente de Torres no bolsonarismo transformou seu depoimento na CPI do 8 de janeiro numa exibição de cinismo. O ex-ministro descreveu os ataques como um episódio imprevisto, tratou como maluquice algumas ideias que circulavam em seu próprio grupo político e tentou transferir responsabilidades para o campo adversário.

Bolsonaro fabricou por anos o combustível para uma revolta contra o resultado da eleição. Críticos e opositores levaram o risco a sério, assim como a turma em frente aos quartéis (além de grupos lá dentro). Mas Torres reproduz uma linha de defesa fantástica, em que os únicos céticos e inocentes seriam justamente os beneficiários de um golpe.

Mariliz Pereira Jorge – Lula tem sorte

Folha de S. Paulo

Parte do eleitorado de Lula jamais contestará suas decisões

A notícia da aprovação da ozonioterapia como tratamento complementar de saúde teve gosto de déjà-vu. Uma volta a 2020, quando Jair Bolsonaro montou um gabinete anticiência paralelo, demonizava as vacinas, e oferecia cloroquina até às emas do Palácio da Alvorada.

Mas, ao contrário do que houve na pandemia, quando a população estava ligada em todas as ações do abestado que comandava o país, a comoção pelo negacionismo de Lula tem sido pífia. Sim, negacionismo. O presidente ignorou a recomendação de entidades médicas, da Anvisa e da ministra da Saúde, Nísia Trindade.

Hélio Schwartsman - Gambiarras literárias

Folha de S. Paulo

Quem lê em papel retém melhor as informações aprendidas

Trocar inteiramente livros didáticos físicos por produtos digitais nunca foi uma boa ideia. Ainda que a tecnologia possa tornar as aulas mais atraentes, incorporando rico material de apoio, há uma montanha de evidências empíricas mostrando que a leitura em papel é mais eficaz do que a em tela. No suporte tradicional, o leitor dedica mais atenção à atividade e retém melhor as informações aprendidas.

Não é um efeito muito forte, mas ele aparece de forma consistente na maior parte dos estudos. Os livros da neurocientista Maryanne Wolf sobre o assunto são uma excelente fonte de dados e interpretações.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

BC delimita ritmo e alcance do ciclo de redução de juros

Valor Econômico

Não haverá intensificação do ritmo de queda da Selic sem que ocorram “surpresas positivas substanciais”

A ata da reunião do Comitê de Política Monetária que decidiu um impulso inicial mais potente para o ciclo de flexibilização monetária também delimitou seu ritmo e alcance. No plano de voo do Banco Central, não há hoje motivos para se esperar que os ajustes determinados de 0,5 ponto percentual para as próximas reuniões sejam mais intensos. Por outro lado, a política monetária seguirá contracionista até que a inflação atinja a meta, isto é, os juros reais permanecerão algo acima da taxa neutra, de 4,5%, indicando que a taxa Selic pode encontrar seu limite de baixa ao redor de 8%-8,5%, caso não haja mudanças positivas relevantes no cenário prospectivo.

Poesia | Pablo Neruda - Saudade

 

Música | | Aracy de Almeida - São coisas nossas (Noel Rosa)