Folha de S. Paulo
O que um soneto de Camões nos ensina sobre os
medos de hoje
Muita gente conhece o início do Soneto 53
(outros atribuem-lhe o número 45) de Luís de Camões:
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a
confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas
qualidades". Menos conhecido e citado é o seu fim, que diz: "E, afora
este mudar-se cada dia / Outra mudança faz mor espanto / Que não se muda já
como soía".
Talvez seja por duas palavras desusadas no
português contemporâneo, "mor" por maior, e sobretudo
"soía" com o sentido de ser hábito ou costume, que o fim do soneto é
menos citável ou hoje menos compreensível. Porque o que Camões nos está a dizer
é, fundamentalmente, que a mudança já não é o que era. A mudança mudou.
Não admira que Camões sentisse isso, uma vez que ele nasceu (segundo se crê, faz agora 500 anos) numa das épocas da história que mais mudanças viram, da expansão da imprensa às guerras de religião na Europa e sobretudo à noção para eles inédita do Novo Mundo.