quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

O problema é que a mudança mudou - Rui Tavares

Folha de S. Paulo

O que um soneto de Camões nos ensina sobre os medos de hoje

Muita gente conhece o início do Soneto 53 (outros atribuem-lhe o número 45) de Luís de Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades". Menos conhecido e citado é o seu fim, que diz: "E, afora este mudar-se cada dia / Outra mudança faz mor espanto / Que não se muda já como soía".

Talvez seja por duas palavras desusadas no português contemporâneo, "mor" por maior, e sobretudo "soía" com o sentido de ser hábito ou costume, que o fim do soneto é menos citável ou hoje menos compreensível. Porque o que Camões nos está a dizer é, fundamentalmente, que a mudança já não é o que era. A mudança mudou.

Não admira que Camões sentisse isso, uma vez que ele nasceu (segundo se crê, faz agora 500 anos) numa das épocas da história que mais mudanças viram, da expansão da imprensa às guerras de religião na Europa e sobretudo à noção para eles inédita do Novo Mundo.

O papel dos símbolos – Roberto DaMatta

O Globo

A parede de um STF consciente do princípio da equidade deveria ser adornada com símbolos de outras religiões, além da cruz

Símbolos são coisas que representam outras coisas. Um sinal gráfico ou uma imagem podem representar um universo de ideias ou uma afinidade, filiação ou associação com entidades coletivas como partidos, crenças ou nações.

Simbolizar por meio de brasões tem o dom de concretizar crenças difíceis de resumir, como a cruz, as Armas Nacionais do Brasil e o Estado Democrático de Direito.

Escrevo isso a propósito da seguinte notícia:

— Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) formaram maioria nesta segunda-feira (25) a favor da validade da presença de símbolos religiosos em prédios governamentais, desde que a finalidade seja manifestar a tradição cultural da sociedade. O recurso que questiona a exposição desses símbolos em órgãos públicos, especialmente em unidades de atendimento ao público, está sendo analisado em sessão virtual. A controvérsia gira em torno de direitos constitucionais, como a liberdade religiosa e o princípio do Estado laico — que estabelece a neutralidade do Poder Público diante de concepções religiosas.

O parecer, com a devida vênia, carece de bom senso sociológico e de uma perspectiva histórico-cultural. O Estado laico nasce com o universalismo republicano e igualitário. Ora, é cristalino que não se pode permanecer “laico” estampando no salão nobre de uma Suprema Corte somente o símbolo da tradição cristã.

‘Não tô nem aí’ é senha para vale-tudo - Vera Magalhães

O Globo

Combate eficiente ao crime se faz com inteligência financeira e operacional, respeitando o devido processo legal

As palavras, na política, têm peso e normalmente implicações práticas. O governador Tarcísio de Freitas foi bastante incisivo em março deste ano ao defender as ações da Polícia Militar de São Paulo, que, já então, chamavam a atenção da própria Ouvidoria da polícia, do Ministério Público e de entidades de defesa dos direitos humanos pela explosão da letalidade e do uso de violência em operações.

— Nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta que eu não tô nem aí.

O dar de ombros orgulhoso daquele que, no fim das contas, é o chefe maior das polícias, foi lido como licença para acelerar. Àquela altura, a Operação Verão, deflagrada na Baixada Santista para combater o crime organizado nas cidades do litoral, havia resultado em 39 mortes de civis por militares. Foi encerrada oficialmente um mês depois, com 56 civis e dois policiais mortos.

O pacote fiscal e o medo do porvir – Zeina Latif

O Globo

A crise de desconfiança está instalada. O compromisso de Haddad de propor novas medidas, caso necessário, já está sendo testado

A má recepção dos investidores ao pacote do governo sugere que houve uma piora adicional do risco fiscal. Será isso mesmo?

O objetivo do pacote não é estabilizar a dívida pública, que deverá chegar a 84% do PIB em 2026, mas sim atender os limites para aumento de gastos previstos no arcabouço fiscal e entregar as metas orçamentárias (déficit primário zero em 2025 e superávit de 0,25% do PIB em 2026).

Isso não é pouca coisa à luz da deterioração fiscal. Afinal, as projeções do mercado para o déficit primário estão em 0,7% do PIB em 2025 e 0,5% do PIB em 2026 (descontado o pagamento dos precatórios de R$ 40 bilhões em 2025 e R$ 47,5 bilhões em 2026).

Joe Biden, a ruína dos democratas – Elio Gaspari

O Globo

Os republicanos vão mal, os adversários também

O sujeito não gostava de Donald Trump e em 2020 torceu pela eleição de Joseph Biden. Passou quatro anos fingindo não ter percebido que ele estava senil e torcia para que não disputasse a reeleição. Enganou-se. Depois do desastroso desempenho no debate com Trump, a caciquia do Partido Democrata forçou Biden a sair da disputa, e o sujeito passou a torcer por Kamala Harris. Deu no que deu: os republicanos fizeram cabelo, barba e bigode na última eleição.

Aproveitando o ocaso de seu mandato, Joe Biden valeu-se de uma prerrogativa dos presidentes americanos e perdoou seu filho Hunter, que se reconheceu culpado por vários crimes, inclusive evasão fiscal. Era um caso de cadeia na certa.

Tarcísio e a barbárie - Bernardo Mello Franco

O Globo

Com palavras e ações, governador de São Paulo estimulou polícia a atuar fora da lei

Tarcísio de Freitas prometeu investigar e punir os protagonistas dos novos casos de barbárie policial em São Paulo. O governador se disse contrariado com os PMs que mataram um homem pelas costas e atiraram outro de uma ponte. Os agentes devem estar surpresos com a súbita reprovação do chefe.

Tarcísio entregou a Segurança Pública a Guilherme Derrite, um capitão que conseguiu ser afastado da Rota por excesso de violência. Como secretário, ele mudou normas para proteger PMs acusados de praticar crimes. Disse que não queria punir quem “tira bandido de circulação”.

No início do ano, a polícia paulista produziu sua maior carnificina desde o Massacre do Carandiru. A chamada Operação Verão espalhou terror na Baixada Santista e deixou um saldo de 56 mortos. Os agentes taparam as câmeras corporais para não gravarem as execuções sumárias, mas foram premiados com elogios do governador.

O novo momento da PEC da Segurança - Fernando Exman

Valor Econômico

Ala política ganha força e coloca em xeque agenda liberal

Cidade Ademar, Zona Sul de São Paulo, madrugada de segunda-feira (2). Agentes da Polícia Militar dão ordem de parada para dois rapazes que trafegavam em uma moto. Os dois fogem e, depois de perseguidos pelos PMs, são capturados. Um é levado à delegacia, mas o outro, subitamente, é agarrado por um dos policiais em uma ponte e arremessado em direção ao rio. Um vídeo flagrou o momento.

Complexo da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, terça-feira (3). Os tiroteios começaram logo cedo, quando a Polícia Civil deflagrou nova fase da Operação Torniquete. Os bandidos reagiram, atearam fogo a barricadas na tentativa de impedir a ação para prender traficantes do Comando Vermelho, ladrões de carga e de veículos. Eram também procurados criminosos foragidos do Pará e do Ceará. Ônibus deixaram de circular. Escolas e postos de saúde não abriram.Guarulhos, Grande São Paulo, 12 de novembro. Um empresário, delator do PCC ao Ministério Público, desembarca de Maceió no aeroporto internacional de Guarulhos ao lado da namorada e é surpreendido quando pisa do lado de fora do terminal. Executado a tiros de fuzil em plena tarde, ele havia contratado policiais como seguranças, mas estes não estavam no local. Tudo filmado.

Torcida para o Congresso aprofundar o ajuste fiscal - Lu Aiko Otta

Valor Econômico

Visão média do governo é de que não há efetivamente um problema fiscal, alerta especialista

“Estamos numa sinuca de bico”, desabafou à coluna um integrante do governo. Diferentemente do padrão dos últimos dois anos, o dólar em disparada desde a semana passada não reflete primordialmente as turbulências do mercado externo. Desta vez, foi coisa nossa mesmo, pontuou.

Para relembrar: na semana passada, o governo anunciou medidas de ajuste no Orçamento pelo lado das despesas. Junto, veio a proposta de elevar a isenção do Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil. O combo elevou o dólar para acima de R$ 6, o que puxa para cima a inflação e leva o Banco Central pesar a mão nos juros.

A coluna questionou a diversos integrantes do governo se, diante da reação ruim do mercado, há medidas adicionais em elaboração.

Uma fonte respondeu que o próprio pacote nem começou a ser analisado. E que cabem melhorias.

O melhor PIB em 13 anos e o futuro do país até 2026 - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Economia não mais apenas despiora, país volta a ficar mais rico; problema é saber quanto dura

Neste ano de 2024, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e do PIB (renda) per capita será o maior desde 2011, excetuada a recuperação de 2021, sobre o tombo da epidemia, que não conta. O PIB per capita também será o maior desde o pico de 2013. Os anos de 2022 a 2024 serão também o melhor triênio desde 2013. O Brasil parou de apenas despiorar e voltou a ficar mais rico, na média.

economia vai manter tal ritmo nos próximos dois anos? Sob quais condições? 

A pergunta é crucial e difícil, pois:

1)Ainda não há boas explicações ou dados que deem conta dos resultados muito imprevistos desde 2022

2)No horizonte, há encrenca grande: inflação em alta ainda maior, dívida pública crescendo sem controle, juros em alta para níveis inéditos desde 2015-16, afora breves momentos de 2022

3)Condições de crescimento prejudicadas: taxa de poupança em queda preocupante e previsível; taxa de investimento em alta, mas em nível baixo: está em 17,6%. Entre 2007 e 2015, esteve em 18% ao menos e, por seis anos, acima de 20%

Emendas pioram a democracia - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Emendas parlamentares ao Orçamento deixaram de funcionar como cola para coalizões e se tornaram ativo eleitoral para incumbentes

É até possível que o acordão entre Legislativo, Executivo e Judiciário sobre a tramitação de emendas parlamentares torne o processo mais transparente, o que é desejável, mas fica muito aquém de transformá-las em algo útil e não contraproducente para a sociedade.

Ao contrário de quase todo mundo, sempre fui contra a possibilidade de legisladores interferirem de forma paroquial no Orçamento. É verdade que, até um passado recente, as emendas ainda tinham uma função instrumental. Eram a forma pela qual os governos arregimentavam maioria no Congresso. O legislador que votasse de acordo com os interesses do Executivo tinha suas emendas liberadas.

O poder a qualquer custo - Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

O que dizer de alguém que arrastaria o país para uma guerra civil?

Agora é oficial. Um relatório detalhado da Diretoria de Inteligência da Polícia Federal, resultado de uma longa e minuciosa investigação, comprova que Jair Bolsonaro planejou manter-se no poder por meios ilícitos e violentos, chegando a colocar o plano em marcha. Bolsonaro e seu círculo íntimo —afinal, ninguém organiza uma operação dessa magnitude sem uma estrutura bem articulada e posicionada.

O relatório detalha quem foram os Goebbels, Himmler, Göring, Heydrich e Röhm de Bolsonaro. A maioria ostenta altas patentes militares —general, almirante, coronel, tenente-coronel—, mas também havia "juristas", políticos e até padre e juiz federal, deixando claro que o desprezo pela democracia não se restringe aos meios militares deste país.

Usaram Moraes contra o general - Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Oficiais queriam comprometer Stumpf; mas só conseguiram mostrar o próprio caráter

Melancia, covardes e comunistas. A Operação Psicológica montada pelos oficiais que pretendiam desacreditar o Alto-Comando do Exército para força-los a apoiar a manutenção de Bolsonaro no poder não poupou adjetivos quando buscava desacreditar os generais que se opunham ao golpe.

Mas um dos ataques causou um grande barulho na caserna: o uso do nome do ministro Alexandre de Moraes para difamar um integrante do Alto-Comando. A manobra atingiu o general Valério Stumpf, que, em março de 2022, deixou o Comando Militar do Sul para assumir o Estado-Maior do Exército. Naquele ano, o general foi um dos interlocutores da Força Terrestre com a Secretaria-Geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Orando a Pacheco e a Lira - Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Com Haddad acumulando tantas derrotas, sua credibilidade é muito baixa hoje 

A impressão que ficou, após o breve alívio no dólar e na curva de juros ao longo do pregão de sexta-feira passada, é que investidores, analistas, gestores de fundos e empresários estão depositando toda a esperança agora no Congresso para evitar que as contas públicas saiam novamente dos trilhos, como aconteceu durante o governo de Dilma Rousseff.

Só para lembrar: no auge do estresse do mercado após a divulgação das medidas de ajuste fiscal, o dólar tocou na máxima histórica de R$ 6,11. Mas chegou a ceder até abaixo de R$ 5,96 após as declarações do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira, na direção de priorizar – “com celeridade e boa vontade” – a votação do chamado pacote de cortes de gastos e também de condicionar a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil se houver espaço nas contas públicas. O alívio, porém, foi curto. E a semana encerrou com a moeda americana a R$ 6.

Homem atirado da ponte lembra caso do Rio da Guarda – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Era noite de segunda-feira, 15 de outubro de 1962, Elias, Expedito e José foram amarrados e jogados no rio. Os três morreram afogados. Mais três viagens seriam realizadas

Treze policiais envolvidos direta ou indiretamente no episódio em que um agente jogou um homem dentro de um rio na região de Cidade Ademar, Zona Sul de São Paulo, foram afastados de suas funções pela Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo. Dois sargentos e 11 cabos e soldados estão sendo ouvidos. O fato ocorreu na madrugada de segunda-feira, após uma abordagem policial de duas pessoas, uma das quais é a testemunha do caso, que foi gravado. A vítima da violência policial estaria viva, mas não foi localizada.

Durante uma patrulha, os policiais deram ordem de parada a duas pessoas que trafegavam em uma moto. Os rapazes fugiram, e os PMs, então, iniciaram uma perseguição que terminou com a captura da dupla. Um deles foi jogado no rio por um dos policiais. O outro chegou a ser levado para a delegacia. Agora, é a principal testemunha do caso. Câmaras corporais dos policiais registraram o episódio, que representa uma escalada da violência policial em São Paulo, onde vigora uma política de endurecimento das ações repressivas da Polícia Militar.

Deficit de confiança - Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Foi um erro estratégico do governo dar ênfase ao papel fiscal do corte para equilibrar as finanças sem cuidar do papel mais importante: consolidar a confiança

Em artigo publicado neste jornal, Luiz Carlos Azedo diz que o presidente Lula aproveitou o pacote de corte de gastos para passar a ideia de ser Robin Hood, cobrando mais imposto de renda de quem recebe acima de R$ 50 mil e isentando quem recebe abaixo de R$ 5 mil por mês. A opção demonstra compromisso moral e social do presidente, mas foi equivocada ao apresentá-la na proposta que visava demonstrar seriedade fiscal. Ainda pior, o presidente ignorou que o corte de gastos não tinha função de apenas equilibrar as contas, mas sobretudo de fortalecer um fator fundamental nas economias nacionais contemporâneas: a confiança de agentes econômicos — consumidores, investidores, produtores, distribuidores, poupadores —, simplificadamente chamado de mercado. 

Gregório Bezerra: armas e chocolates - Marcelo Mário de Melo

Publicado no Jornal do Commércio, Recife-PE

Entrei na base secundarista do PCB, no Colégio Pernambucano, no início de 1961. Em 1962 tive um contato mais próximo com Gregório Bezerra, que coordenava a campanha de Miguel Arraes a governador de Pernambuco, enfrentando o candidato das oligarquias, o usineiro João Cleófas de Oliveira. Durante a campanha eu saía de tarde nos carros alto-falantes.  E à noite, de segunda a sábado, era anunciador dos comícios suburbanos. Ia no jipe dirigido por Gregório, que falava em três comícios por noite e, no final da jornada, vinha com o carro lotado, deixando companheiros em casa – eu, entre eles. Nos plantões no comitê, ouvi de Gregório muita história antiga, de resistência, protesto e prisão.

Foi nessa época que eu e a minha namorada judia escolhemos Gregório como nosso futuro padrinho de casamento.  Mas ela foi levada para Israel pela família e Gregório levado para a cadeia pela ditadura. E o casamento e as "reformas de base" na sociedade brasileira entraram por uma perna de pinto e saíram  por uma perna de pato. Fiz visitas a Gregório na Casa de Detenção do Recife e uma vez levei dentro do sapato um exemplar do jornal Combater, editado pelos comunistas pernambucanos. De 64 pra 65  rompi o ano com os presos políticos da Casa de Detenção, sem imaginar que ali também passaria uma temporada. Depois da sua volta do exílio, vi Gregório  poucas vezes. 

Julgamento de um candidato a carrasco - Aylê-Salassié Filgueiras Quintão

A invasão da Ucrânia  pela Rússia , há dois anos,  já resultou em mais de um milhão de mortos, feridos e desaparecidos  (Wall Street Journal:17.9.2024).  Até setembro, a  Rússia Ucrânia  teria perdido300 mil combatentes contra    130 mil  combatentes  da Ucrânia .  Dois milhões  de  russos fugiram do país;  12 milhões de ucranianos emigraram . Milhões de famílias  perderam seus lares e  milhares de crianças tornaram-se órfãos. Grandes obras públicas e  parte dos campos usados para produção de  alimentos  estão sendo destruídos. A fome já é vislumbrada em alguns lugares. 

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Procura da Poesia

 

Música | Ultimo Regresso - Getulio Cavalcante e Bloco da Saudade

 

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Milei dá lição de disciplina fiscal para o continente

O Globo

Argentina terá superávit pela primeira vez em 16 anos. Inflação está em queda e popularidade dele se mantém

Quando completar o primeiro ano na Presidência da Argentina na semana que vem, Javier Milei terá muito o que comemorar. Apesar do perfil provocador, seu governo tem sido até o momento uma força de estabilização. Ao assumir, a economia flertava com a hiperinflação. De 25% em dezembro de 2023, o índice mensal caiu a 2,7% em outubro. O ano de 2024 fechará em recessão, mas o PIB tem se recuperado e deverá voltar a crescer em 2025. Apesar de o choque ter levado a pobreza ao pior nível em 20 anos, Milei conta com a paciência dos argentinos. Tem aprovação de 49% dos eleitores— acima dos dois antecessores a esta altura do mandato.

A busca do equilíbrio - Merval Pereira

O Globo

É uma vitória o Congresso assumir a obrigação de ser transparente e de explicar a origem e a destinação das verbas liberadas

A reação dos parlamentares às exigências do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino para o pagamento das emendas a que têm direito mostra que o interesse deles é particular, e não coletivo, como deveriam ser seus projetos. O ministro nada mais fez do que detalhar o que já era exigido quando mandou parar de pagar as emendas: a transparência do envio dos recursos do Tesouro Nacional a que cada parlamentar tem direito.

Incomodaram-se os senhores deputados e senadores com critérios técnicos exigidos pelo ministro do Supremo, como identificação do deputado que endereçou a emenda e de quem a recebeu, prefeitura ou organização não governamental. Também uma boa inovação foi exigir que as emendas para Saúde sejam aprovadas pelo ministério seguindo “orientações e critérios técnicos” estabelecidos por ele e por comissões de gestores estaduais e municipais.

A lógica política e a econômica - Míriam Leitão

O Globo

Governo continua explicando as medidas fiscais, mas dólar sobe de novo puxado também pela ameaça de Trump contra os Brics

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, tentou explicar a lógica da negociação interna no governo para dar legitimidade política às medidas fiscais, ao falar a um banco em São Paulo. Pode ter pregado no deserto. Explicou que a demora na divulgação devido à negociação com os ministérios atingidos não é ruim nem enfraquece o ministro da Fazenda. Ruim seria anunciar tudo, exatamente como a Fazenda elaborou, e no dia seguinte receber críticas de todos os ministérios. “Até para que fique claro, a resposta política bem articulada significa que a gente não vai ter problema no governo”, disse, acrescentando que Casa Civil e a Fazenda estão mais alinhadas do que nunca.

Supremo decide o futuro das redes - Pedro Doria

O Globo

Quando uma plataforma escolhe impulsionar alguma informação, deveria ser responsável

O Supremo Tribunal Federal volta nesta semana ao julgamento do artigo 19 do Marco Civil da Internet. A primeira frase, assim posta, parece coisa em burocratês do tipo muito difícil de entender. Mas não é difícil de entender que a decisão pode mudar radicalmente a maneira como entendemos internet no Brasil. O que está em jogo é o debate que temos todos, coletivamente, tido insistentemente nos últimos anos: qual a responsabilidade das plataformas digitais pelo que é publicado nelas.

A interpretação habitual do artigo 19 diz que é nenhuma:

— O provedor somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências.

É o que diz o texto da lei. Quer dizer, a não ser que venha uma ordem de juiz, devidamente assinada e com todos os carimbos, as redes sociais não são obrigadas a fazer nada.

A Marinha vai à luta pela defesa de privilégios - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Vídeo em homenagem ao dia do marinheiro retrata brasileiros na vida boa enquanto os oficiais da Força dão duro na defesa do país

A comemoração do dia do marinheiro, 13 de dezembro, foi antecipada para domingo, quando a Marinha fez troca da bandeira no Pavilhão Nacional. A cerimônia foi marcada pela exibição de vídeo de 1min16s na Praça dos Três Poderes.

Neste vídeo, cuja música de fundo é Cisne Branco, hino da Marinha, marinheiros tentam evitar que um navio afunde, fazem exercícios de sobrevivência no mar, salvam vidas nas enchentes e sobrevivem à selva. No que parece ser um requinte da inteligência artificial, um rosto assemelhado ao do ministro Fernando Haddad, rasteja na lama. Neste momento, sobre a música de fundo, aparece uma voz de comando “vocês terão que se acostumar”.

As cenas são intercaladas com as de um surfista na crista da onda, a praia cheia na zona sul do Rio, a prática de ioga numa praça, jovens no videogame, brinde com cerveja, uma criança soprando velinhas e uma torcida de estádio de futebol. Na cena final, enquanto puxa uma corda com uma cara de poucos amigos, uma marinheira pergunta: “Privilégios? Vem pra Marinha”.

O acaso brinca comigo (Albert Einstein) - Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

Valor Econômico

Derivativos passaram a “comandar” os movimentos dos ativos subjacentes, como as taxas de câmbio, e esta “inversão” submete as políticas econômicas a constrangimentos e conflitos nada triviais

“Em 1719, Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé, perpetrou um panfleto, ‘The Anatomy of Exchange Alley’. Aí, Defoe tratou dos mercados financeiros que surgem e avançam sob o patrocínio do recém-criado Banco da Inglaterra (1694). Suas considerações denunciam o risco de as instituições políticas do país se tornarem ‘vítimas’ dos jobbers”. (O significado desse significante flutua entre especulador e agiota).

“A capacidade destes últimos de manipular os preços dos mercados financeiros sugere o risco de lhes ser atribuído o poder de influenciar os interesses de toda a nação”.

No livro “A violência da moeda”, Michel Aglietta e André Orlean avaliam o comportamento dos agentes do mercado. “... A ideia de uma ordem natural é apenas um mito. Mesmo que no curso de uma fantástica catarse coletiva um desses relatos se eleve à soberania e se cubra com seus atributos, que repentinamente apague as paixões e pareça realizar seu desejo de universalidade, não se deve ver nessa brutal transformação a prova de uma adequação entre sua mensagem e uma naturalidade qualquer. Atrás dessa vitória de um grupo de interesses sobre os outros, há apenas o jogo da violência e essa é a maneira bem própria de se exercer um desejo particular e arbitrário para fazer convergir a ele todas as frustrações, todos os rancores privados...”.

A mãe de todas as bolhas - Ruchir Sharma

Financial Times / Valor Econômico

Os EUA agora atraem mais de 70% dos fluxos para o mercado global de investimentos privados

A ideia dos Estados Unidos como uma nação excepcional, superior aos seus rivais e, portanto, destinada a liderar o mundo, parece ultrapassada para a maioria dos observadores. Nos círculos políticos, diplomáticos e militares fala-se de uma superpotência disfuncional, isolacionista no exterior e polarizada em casa. Mas no mundo dos investimentos, o termo “excepcionalismo americano” está mais em alta do que nunca.

Unidos pela fé na força dos mercados financeiros dos EUA e sua capacidade de continuar superando todas as outras economias, investidores globais estão mandando mais capital para um único país do que nunca na história moderna. O mercado de ações dos EUA agora flutua acima do resto. Os preços relativos estão nos níveis mais altos desde que os dados começaram, há mais de um século, e as avaliações relativas estão no pico desde que os dados começaram há meio século.

Tudo pra última hora - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O Natal e o recesso estão bem aí, mas só agora Congresso, governo e STF acordam

No apagar das luzes de 2024, Brasília tem pressa para votar, julgar e decidir tudo o que foi empurrado com a barriga ao longo de um ano concentrado nas eleições municipais e nas revelações aterrorizantes sobre o golpe de Estado no governo anterior. As pautas de Câmara, Senado, Supremo e governo são extensas, mas o tempo é curto.

Você nem notou, mas a regulamentação da fundamental Reforma Tributária, em duas etapas, era a prioridade do ano, mas o primeiro semestre passou, a eleição acabou e ninguém mais fala nisso. A corrida do governo agora é pela aprovação dos projetos do pacote de gastos, inclusive uma proposta de emenda constitucional. E em condições adversas.

Quem pagará a conta do ajuste? - Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Querer que um governo liderado pelo PT rompa com seus compromissos históricos é querer mudar o governo. Ainda que sem golpe explícito

Cortar R$ 1 trilhão em gastos do governo federal em cinco anos? Ou R$ 3 trilhões em dez anos? O anúncio de um programa com esse feitio provocaria celebrações com champanhe em certas áreas de São Paulo cujos frequentadores veem o governo de Luiz Inácio Lula da Silva não como responsável por enfrentar os imensos desafios econômicos e sociais que retardam o progresso, mas como o maior problema do País.

Se ainda não podem comemorar, pois tal programa não existe, os que convivem nessa região especial da cidade podem alimentar alguma esperança. Um grupo de deputados começou, há dias, a coletar assinaturas para apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) com essa meta. São necessárias assinaturas de 171 deputados para que a PEC seja protocolada, primeiro ato formal para o início de sua tramitação. Ainda não há garantia de que esse número seja alcançado. Mas o anúncio da proposta reforçou a preocupação com o ajuste das contas públicas. Por seu conteúdo, a PEC mostra também como se fazem as escolhas políticas que apontam quem vai pagar a conta.

A iniciativa dos deputados – Kim Kataguiri (União-SP), Julio Lopes (PP-RJ) e Pedro Paulo (PSD-RJ) – contém basicamente oito medidas. Parte delas coincide, pelo menos nas intenções, com as que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apresentou na semana passada e causou tanta revolta em certos meios financeiros, o que empurrou a cotação do dólar para seus recordes históricos.

Silêncio da direita sobre trama golpista remete a alerta para retrocesso democrático - Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Cientistas políticos afirmam há décadas que tolerância das elites com práticas autoritárias coloca democracia em risco

Foram poucos os representantes da direita e da centro-direita que alertaram para a gravidade dos indícios revelados pela Polícia Federal que apontam para uma trama golpista que tentou manter o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no cargo após a derrota em 2022.

Também foi pouco comentada por esse campo político a revelação de que um grupo de militares, segundo a investigação, planejou o assassinato do presidente Lula (PT), do vice Geraldo Alckmin (PSB) e do ministro Alexandre de Moraes (STF).

Já se esperava que aliados de primeira hora de Bolsonaro tentassem descredibilizar as conclusões da investigação. Mas a maioria das figuras de direita que não têm uma ligação umbilical com o bolsonarismo também escolheu permanecer em silêncio.

Outros buscaram minimizar as revelações, ressaltando a resiliência das instituições e da democracia brasileira. A PF concluiu, porém, que o golpe não foi à frente apenas porque o Alto Comando das Forças Armadas se negou a abraçar a tentativa —tenha isso ocorrido por convicção democrática ou por falta de condições de sustentar um governo autoritário sem apoio internacional ou popular.

A fraca reação de uma direita não intrinsecamente associada a alas radicais liga um alerta, já que cientistas políticos falam há décadas sobre a importância do rechaço das elites políticas a iniciativas autoritárias.

Churrascada na terra das milícias - Alvaro Costa e Silva

 

Folha de S. Paulo

Com o Rio sem segurança e sem água, o governador faz churrascada para Bolsonaro

Cláudio Castro está ameaçado de ter o mandato cassado por uso da máquina nas eleições de 2022. Em outra frente, Eduardo Paes não lhe dá trégua. Reeleito em primeiro turno, o prefeito segue em campanha para minar o grupo bolsonarista liderado pelo governador, o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, e o interminável Eduardo Cunha, contra o qual irá concorrer ao Palácio Guanabara em 2026.

Paes sabe que, entre outros, o ponto sensível na gestão Castro é a segurança. Uma bala de fuzil atingiu uma janela do condomínio de alto padrão, na Barra da Tijuca, onde mora o governador. Uma viatura da PM, trafegando na contramão da pista exclusiva do BRT como uma barata tonta, colidiu com um ônibus articulado. Os dois episódios recentes ilustram o fracasso e a anarquia de quem se elegeu com o discurso de combate à violência, mas perdeu o controle das polícias e atualmente é incapaz de entrar em áreas controladas pelo crime organizado.

O risco de fazer o mínimo - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

A escolha do governo é empurrar com a barriga o problema estrutural

Mercado financeiro e economia real parecem realidades discrepantes: de um lado, dólar passando de R$ 6, inflação fora da meta e juros futuros chegando a 15% ao ano; do outro, desemprego na mínima da série histórica a 6,2% e crescimento do PIB fechando 2024 perto de 3,2%.

A divergência, contudo, é só na aparência. Na realidade, ambos têm a mesma causa: é o gasto do governo que, ao mesmo tempo, aquece a economia e piora a perspectiva das contas públicas, levando ao pessimismo do mercado. Com o pessimismo, o real perde valor, a inflação sobe e o Banco Central tem que aumentar os juros.

Puro suco de Lula – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O presidente enquadra Haddad, que assim se enfraquece como alternativa eleitoral

Não tem jeito, Luiz Inácio da Silva é daqueles políticos que só confiam no próprio taco. Intuitivo, parece ter confiado nessa característica para desenhar o anúncio das ditas medidas de contenção de gastos em molde eleitoral, na certeza de que tudo se ajeita na economia desde que o "mercado" entenda o cálculo e se submeta às suas motivações.

Quando foi eleito presidente a primeira vez, intuiu que não governaria se adotasse o lema do gasto é vida. Entregou a condução da economia a Antonio Palocci sob os auspícios das bases da estabilidade definidas por Fernando Henrique Cardoso, enquanto no palanque discursava contra a "herança maldita".

A cegueira cambial - Roberto Luis Troster

Folha de S. Paulo

Volatilidade aponta que há espaços para aprimoramentos; permitir contas em dólares no país daria mais estabilidade ao câmbio e ganhos ao fisco

O ponto principal deste artigo é que a cotação da divisa norte americana é um problemão —e continuará a ser se não mudarem a política cambial. Apesar do nome de câmbio flexível, o regime cambial brasileiro é de câmbio volátil.

O câmbio flutuante é um regime em que a taxa de câmbio se ajusta automaticamente às condições da economia. As variações da produtividade do setor não financeiro em relação ao resto do mundo são compensadas com variações na taxa de câmbio. Há ajustes também em função da variação do diferencial entre as taxas de juros internas e as internacionais.

Dino libera emendas, porém, exige transparência – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

R$ 23,3 bilhões em emendas já foram pagos, menos da metade. Com isso, o governo terá de liberar R$ 25 bilhões neste final de ano para votar qualquer coisa no Congresso

Estava tudo parado no Congresso, agora as coisas vão começar a andar, para o bem, como a regulamentação da reforma tributária, ou para o mal, caso da PEC das Praias, veremos no decorrer das próximas semanas. Depois das eleições municipais, os parlamentares realizaram uma espécie de obstrução dissimulada, na qual se recusavam a votar propostas da maior relevância, porque as emendas parlamentares ao Orçamento da União continuavam suspensas. Aguardavam decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, que exigia a adoção de mecanismos que garantissem clareza e transparência na destinação dessas emendas.

STF mantém decisão de Dino e forma maioria para liberar emendas parlamentares

Lara Perpétuo, Júlia Portela / Correio Braziliense

Decisão foi confirmada por maioria dos demais ministros em sessão convocada pelo presidente da Corte, Luís Roberto Barroso

O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria, nesta segunda-feira (2/12), para liberar o pagamento de emendas parlamentares, bloqueadas desde agosto. A decisão monocrática do ministro Flávio Dino, enviada mais cedo ao plenário virtual, foi confirmada pela maioria ministros em sessão extraordinária convocada pelo presidente da Corte, Luís Roberto Barroso.

Por volta das 19h40, embora faltassem ainda o voto de cinco ministros, seis haviam votado a favor da liberação, formando maioria. Além de Dino, votaram favoravelmente Barroso, Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Os demais têm até 23h59 desta terça-feira (3/12) para depositar os votos.

Em agosto, Flávio Dino havia considerado que as emendas não atendiam a critérios de transparência e rastreabilidade. O Congresso pressionava o Judiciário para a liberação do mecanismo desde a semana passada, quando Lula sancionou um texto que garante mais transparência

Na manhã desta segunda, Dino estabeleceu ressalvas para garantir maior controle sobre repasses, com “total transparência e rastreabilidade”. 

Poesia | Graziela Melo - Palavras

Palavras
apenas
levemente
sussurradas,

em ouvidos
ávidos
de paixão!

Doce
melodia
desejada

por uma
alma triste
e um
enternecido
coração!!!

Suaves
carícias
proferidas

em sílabas,
verbos
e vogais!!!

Só hoje
é que
escuto
em tua
boca!

Depois...
adeus, e
não te vejo
nunca mais!!!

Música | Pablo Milanés - Yolanda (En Vivo Desde La Habana, Cuba)

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