terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Silêncio da direita sobre trama golpista remete a alerta para retrocesso democrático - Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Cientistas políticos afirmam há décadas que tolerância das elites com práticas autoritárias coloca democracia em risco

Foram poucos os representantes da direita e da centro-direita que alertaram para a gravidade dos indícios revelados pela Polícia Federal que apontam para uma trama golpista que tentou manter o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no cargo após a derrota em 2022.

Também foi pouco comentada por esse campo político a revelação de que um grupo de militares, segundo a investigação, planejou o assassinato do presidente Lula (PT), do vice Geraldo Alckmin (PSB) e do ministro Alexandre de Moraes (STF).

Já se esperava que aliados de primeira hora de Bolsonaro tentassem descredibilizar as conclusões da investigação. Mas a maioria das figuras de direita que não têm uma ligação umbilical com o bolsonarismo também escolheu permanecer em silêncio.

Outros buscaram minimizar as revelações, ressaltando a resiliência das instituições e da democracia brasileira. A PF concluiu, porém, que o golpe não foi à frente apenas porque o Alto Comando das Forças Armadas se negou a abraçar a tentativa —tenha isso ocorrido por convicção democrática ou por falta de condições de sustentar um governo autoritário sem apoio internacional ou popular.

A fraca reação de uma direita não intrinsecamente associada a alas radicais liga um alerta, já que cientistas políticos falam há décadas sobre a importância do rechaço das elites políticas a iniciativas autoritárias.

O entendimento predominante é o de que, sem o apoio dos moderados, setores extremistas têm menos chances de serem bem-sucedidos. Ou seja, a veemente condenação de atos autoritários por partidos e figuras políticas é um fator de proteção contra o retrocesso democrático.

Não é a primeira vez que grupos da política tradicional silenciam ou mesmo fazem coro diante de falas ou comportamentos antidemocráticos do ex-presidente. Nos últimos meses, havia ganhado corpo no Congresso a discussão sobre anistia aos manifestantes golpistas do 8 de janeiro.

Durante a Presidência, discursos autoritários de Bolsonaro foram muitas vezes aplaudidos por setores econômicos importantes.

Foi o que aconteceu, por exemplo, em junho de 2022, quando empresários ovacionaram o ex-presidente durante almoço na Associação Comercial do Rio de Janeiro, no qual Bolsonaro disse que não cumpriria ordens do Supremo.

No livro "Pessoas Comuns em Tempos Extraordinários: a Cidadania e o Colapso da Democracia", de 2003, a cientista política Nancy Bermeo, professora na Universidade Oxford (Reino Unido), desenvolve o conceito de "capacidade de distanciamento".

Bermeo defende que um dos fatores de proteção contra o autoritarismo é a disposição da elite política de se distanciar e condenar atos de violência, mesmo que eles tenham sido perpetrados por aliados, assim priorizando a democracia.

Em "O Colapso dos Regimes Democráticos", de 1978, o aclamado cientista político Juan Linz escreveu sobre o papel dos políticos "semileais" no declínio da democracia. Ele os definiu como aqueles que estão dispostos a encorajar, tolerar, esconder ou justificar ações que ultrapassam os limites democráticos.

"Os partidos tornam-se suspeitos quando, com base em afinidade ideológica, concordância com alguns objetivos ou políticas específicas, fazem uma distinção entre meios e fins. Eles rejeitam os meios como indignos e extremos, mas os desculpam e não os denunciam publicamente por concordarem com os objetivos perseguidos."

Linz escreveu ainda que a violência política, os assassinatos, as conspirações e os golpes militares malsucedidos são testes para identificar os semileais.

O conceito de Linz foi recuperado pelos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Zibblat em "Como Salvar a Democracia". Eles responsabilizam os Republicanos que apoiaram Donald Trump a despeito de suas manifestações antidemocráticas, abrindo caminho para a invasão do Capitólio ao não reconhecerem prontamente sua derrota em 2020.

No prefácio da edição brasileira, os autores argumentaram que as instituições e os políticos lidaram melhor com a crise no Brasil, rechaçando com firmeza a ameaça democrática.

À época já havia contrapontos a esse entendimento, mas agora eles se acumulam.

Após a conclusão do inquérito da Polícia Federal, o ex-presidente Michel Temer (MDB), que chegou a aconselhar Bolsonaro durante crise institucional com o STF, afirmou que não vê riscos para a democracia e que não há clima para golpe.

Temer também minimizou a participação de militares no plano de assassinato narrado pela PF, dizendo que apenas alguns se envolveram.

O senador Ciro Nogueira, presidente do PP, escreveu nas redes sociais que tem certeza da inocência de Bolsonaro, seu aliado, mas não comentou as revelações.

Já o senador Sergio Moro (União Brasil), que largou a toga para virar ministro da Justiça do ex-presidente, com quem depois rompeu, disse que, sem a divulgação do relatório da PF, era "inviável qualquer juízo de valor". Seis dias depois que o conteúdo foi a público, ele ainda não havia se manifestado.

Questionado sobre o indiciamento de Bolsonaro, o governador de Goiás e presidenciável Ronaldo Caiado (União Brasil) afirmou: "E daí? A vida continua. Se eu fosse ficar preocupado com as pequenas coisas, eu não governaria". Cláudio Castro (PL), governador do Rio de Janeiro, disse que não acredita em tentativa de golpe e que havia pessoas "fazendo baderna".

Governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD) afirmou à Folha que "indiciamento não é sinônimo de condenação". "É preciso aguardar até mesmo para que o trabalho de investigação não seja comprometido, e os acusados não sejam vítimas de qualquer juízo de valor precipitado."

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), pupilo de Bolsonaro, sugeriu que a investigação "carece de provas", mas não detalhou seus argumentos. Homem forte de sua gestão em São Paulo, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, disse que aguardaria a quebra do sigilo, mas que "esta página está virada". "Que a gente possa identificar que não teve nada que pudesse contaminar a nossa democracia", afirmou ele.

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), e os presidentes do Republicanos, Marcos Pereira, e do MDB, Baleia Rossi, não se manifestaram.

Após a divulgação da conclusão da PF de que havia um plano de assassinato em meio à trama golpista, o MDB publicou nas redes sociais que era "fundamental apoiar total rigor nas investigações sobre o suposto plano de morte do presidente e do vice-presidente da República e do ministro do STF".

A assessoria de imprensa da sigla procurou a Folha após a divulgação desta reportagem, afirmando que a manifestação foi publicada por determinação de Rossi e lida na reunião da Executiva Nacional como posicionamento oficial do MDB sobre o tema.

3 comentários:

Anônimo disse...

E o Adélio Bispo hein Lobo solitário Desempregado tinha quatro celulares Dois laptops Andava de avião Ficava em hotéis
Quando foi preso Quatro supera advogados de Belo Horizonte desembarcaram em Juiz de Fora para fazer a sua defesa até hoje ninguém contou nem a polícia investigou quem pagou esses advogados e aí é fácil saber quem mandou matar o Jair Bolsonaro
Mas tudo ficou debaixo dos panos
E nada se descobriu até hoje e a imprensa finge que isso nunca aconteceu
No final vocês são cumpris disso tudo que está acontecendo no Brasil Espero que pague um dia por esse papel sujo de desinformar o povo brasileiro

Anônimo disse...

A devoção e submissão que vocês jornalistas têm Aos ministros da STF é no mínimo vergonhoso
Tudo isso tinha que ser tratado dentro do próprio Parlamento
O STF não tem essa prerrogativa , mas há muito estão usurpando os direitos dos legisladores desse país

Anônimo disse...

A ausência de ponto final nas frases fecha o diagnóstico deste mala.