terça-feira, 29 de novembro de 2022

Merval Pereira - Hora de parar

O Globo

Bolsonaristas sentiram-se abandonados e reagiram à presença de Eduardo Bolsonaro no Catar

A revolta que a aparição do deputado Eduardo Bolsonaro no jogo do Brasil contra a Suíça na Copa do Mundo do Catar provocou em bolsonaristas nas redes sociais mostra bem o clima delirante em que se envolvem os que buscam um “terceiro turno” da eleição presidencial, acampando em torno de quartéis, reivindicando uma intervenção militar para evitar a posse do presidente eleito Lula em 1º de janeiro. Sentiram-se abandonados pelo filho Zero Três de Bolsonaro, entendendo que ele estar vibrando com o futebol do Brasil no Catar é sinal de que nada acontecerá no país nos próximos dias. Mas é preciso que esses lunáticos parem de agir como guerrilheiros, perseguindo seus supostos inimigos pelo mundo afora.

O que aconteceu no Catar com um dos maiores ícones da cultura brasileira, Gilberto Gil, é repugnante. Mais perigoso ainda é justificar a perseguição política como se ela nada significasse. O empresário de Volta Redonda Ranier Felipe dos Santos Lemache admitiu que fazia parte do grupo que assediou moralmente Gil e sua mulher, Flora, mas negou tê-lo xingado.

Ele não entende (ou finge não entender) que perseguir uma pessoa para criticá-la ou xingá-la em locais públicos ou privados é crime, pois todos têm o direito de pensar e agir como quiserem sem ser perseguidos ou moralmente atacados. É preciso desnaturalizar essas atitudes, pois a vida em sociedade pressupõe a convivência entre contrários. A liberdade de expressão não permite ataques e acusações levianas, que devem ser reparadas na Justiça.

Míriam Leitão - Hora da política e da conciliação

O Globo

Em Brasília, Lula começa articulações para base de apoio. Em São Paulo, empresários buscam conciliação com novo governo

A PEC da Transição foi protocolada, mesmo sem consenso, para ser negociada. Agora a discussão passará a ser sobre um fato concreto. O presidente eleito Lula começou ontem uma maratona de reuniões e conversas nesta semana, que é decisiva. Além de negociar a PEC, ele passará a fechar os nomes dos ministérios. Na área política, Lula está montando a sua coalizão de governo. No meio empresarial, um encontro realizado no fim de semana em São Paulo permitiu que integrantes do novo governo e empresários, mesmo os que tiveram posições públicas a favor de Bolsonaro, conversassem e se entendessem. O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tiveram uma conversa a sós por cerca de quarenta minutos.

Carlos Andreazza - E orçamento secreto?

O Globo

É preciso lembrar que o orçamento secreto não acabou. Não acabou com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro. Por que vai subitamente esquecido? Não ficou de repente menos grave. Não pode haver se tornado, de ontem para hoje, admissível. Criado por Bolsonaro, a própria assinatura no contrato que pactuou a sociedade entre o governo e o consórcio parlamentar que tinha em Ciro Nogueira, senador feito ministro, o embaixador, o orçamento secreto não acabou.

Está aí. Nunca tão influente. Adensando-se no ocaso do governo. Tornando-se incontornável para a ascensão do próximo.

O orçamento secreto. Um dos grandes vencedores da eleição, sob as barbas do Supremo Tribunal Federal (STF). O maior vencedor do primeiro turno, impondo-se aos cálculos políticos — sim, temos isso — de nossa Corte constitucional. Grande vitorioso e também grande eleitor. O orçamento secreto. Reelegeu-se, como sistema de controle de poder concentrado, e reelegeu o Parlamento. Reelegeu o esquema autoritário que reelegerá Arthur Lira presidente da Câmara.

Cristovam Buarque* - Um estadista para o mundo

Correio Braziliense

Os grandes novos problemas são planetários, mas a solução para cada um deles requer decisões que se chocam com os propósitos e prazos dos eleitores nacionais

Na COP15, em Copenhague, o presidente Obama disse que "não há presidente do mundo". Mostrava a dificuldade para cuidar do problema planetário das mudanças climáticas, usando políticos comprometidos com suas respectivas nações para atender desejos imediatos e individuais de seus eleitores.

As revoluções científica, tecnológica e geopolítica integraram os países e suas populações e criaram problemas que se tornaram planetários e de longo prazo, mas a política continua restrita a cada país e ao prazo da próxima eleição.

Não há presidente do mundo, nem diplomata planetário. Os diálogos entre nações continuam sem visão do conjunto dos seres humanos e seu futuro comum. Os grandes novos problemas são planetários, mas a solução para cada um deles requer decisões que se chocam com os propósitos e prazos dos eleitores nacionais.

Luiz Carlos Azedo - PEC mantém Bolsa Família fora do teto por quatro anos

Correio Braziliense

Depois de muitas negociações, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu mesmo propor que o Bolsa Família fique fora do teto de gastos por quatro anos. Ontem, o senador Marcelo Castro (MDB-PI) protocolou a PEC da Transição, que mantém o pagamento de R$ 600 do Auxílio Brasil, rebatizado como Bolsa Família, seu nome de origem. Pela proposta, o valor referente ao programa fica fora do cálculo do teto de gastos entre 2023 e 2026. A proposta de emenda à Constituição retira do Orçamento da União até R$ 175 bilhões do programa de transferência de renda para não estourar o teto de gastos. Castro levou em conta o projeto inicial elaborado pela equipe de transição de Lula.

Segundo o ex-ministro Nelson Barbosa, um dos economistas de equipe de transição, a estratégia adotada foi definida pelos senadores e deputados petistas. “Vamos ver a evolução da PEC”, disse. O texto precisa ser aprovado a tempo de ser incluído no Orçamento da União de 2023. “É a estratégia que foi considerada mais viável do ponto de vista político”, explicou Barbosa.

A PEC da Transição precisa ser aprovada no Congresso até 10 de dezembro para que haja tempo hábil para os parlamentares analisarem o Orçamento de 2023, que precisa ser aprovado ainda este ano.

Andrea Jubé - A dupla aposta de Lula para 2026

Valor Econômico

PT levará Fazenda e Casa Civil, Alckmin terá o Planejamento

Em política, diz-se que a próxima sucessão presidencial começa a partir do resultado da eleição atual. Essa regra emerge ainda mais forte se o candidato vitorioso antecipa que não disputará a reeleição, como fez o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nessa lógica, as especulações quanto aos seus potenciais sucessores já fervilham com frenesi antes mesmo dele tomar posse.

O cenário mais provável esboçado para o primeiro escalão de Lula prevê uma dupla de petistas à frente das pastas mais influentes: Fernando Haddad no Ministério da Fazenda e o governador da Bahia, Rui Costa, na chefia da Casa Civil. Se esse desenho sair do papel, Lula governará com dois potenciais sucessores na direção dos ministérios de maior visibilidade.

Daniela Chiaretti - COP27: um sucesso e várias esquisitices

Valor Econômico

Em Sharm El-Sheikh, elogios a Lula e críticas ao número exagerado de brasileiros pelos corredores

Tuvalu, no Pacífico sul, é uma nação de nove ilhas. Fica perto de Kiribati, das Ilhas Salomão, de Fiji, daqueles lados do mundo de lá, na perspectiva brasileira. No pequenino país polinésio vivem 12 mil pessoas. Um dado importante: a altura máxima das ilhas é de sete metros. Fica fácil entender por que Tuvalu, Maldivas, Vanuatu e todo o grupo de pequenas nações insulares do Pacífico e do Caribe se tornam estridentes a cada conferência do clima das Nações Unidas. São territórios condenados a serem engolidos pelo mar - se as previsões científicas dos impactos climáticos estiverem, infelizmente, certas - e populações sem futuro em um mundo que aqueça além de 1,5°C neste século.

Eliane Cantanhêde – Agora, vai!

O Estado de S. Paulo

A mil por hora, Lula dá aval à PEC, ao anúncio de ministros e ao apoio a Arthur Lira na Câmara

O presidente eleito Lula deu aval nesta segunda-feira, 28, ao texto da PEC do Bolsa Família e para dois outros grandes anúncios previstos para esta terça-feira: quem serão os ministros-chave e, ora, ora, o apoio do PT e do PSB à candidatura do deputado Arthur Lira (PP-AL) para a reeleição à presidência da Câmara em fevereiro.

Essas três novidades desembocam numa única palavra: governabilidade. A manutenção do Bolsa Família em R$ 600 é um compromisso inadiável da campanha de Lula (como foi de Jair Bolsonaro também) com sua maior base de apoio, os pobres – nesse caso, miseráveis.

O mercado pode gritar o quanto quiser, mas Lula não tem alternativa, é garantir ou garantir os R$ 600 e, além de tudo, não é o novo governo que está estourando o teto de gastos. Quem explodiu o teto, a responsabilidade fiscal e, de quebra, a lei eleitoral foi o atual presidente Bolsonaro, em favor de sua reeleição, ou seja, dele próprio. E com o mesmo Congresso que está aí.

Maílson da Nóbrega* - Graves dramas fiscais que nem todos percebem

O Estado de S. Paulo

Um grande desafio do novo governo será mobilizar a sociedade e o sistema político em favor da diminuição dos gastos obrigatórios.

O tema fiscal tem ganhado proeminência. Ressurgiram definições estapafúrdias do gasto público, percepção de inevitável aumento da carga tributária e propostas para uma nova âncora fiscal. Coube a Lula reviver o equívoco de que gasto em educação e saúde é investimento (portanto, não deve se sujeitar a limites). É como se um rótulo pudesse mudar a natureza da despesa. Se mal financiada, não importa seu objetivo, ela impactará o endividamento e pode colocar em risco a solvência do Tesouro.

Economistas defenderam ideias sem atentar para as características do sistema tributário e para a delicada situação fiscal. No caso da carga tributária, fala-se em elevar o Imposto de Renda (IR) via tributação de dividendos e/ou eliminação de privilégios como o abatimento de despesas de educação e saúde. Não se considera, todavia, que 49,25% (50% em 2025) dessa receita vai para Estados e municípios e fundos regionais de desenvolvimento. No Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), os Estados recebem mais 10% para compensar supostas perdas de receitas nas exportações. Até 1974, transferia-se apenas 10% de ambos os impostos.

Pedro Fernando Nery – A nova política industrial

O Estado de S. Paulo

Só poderiam ser beneficiados setores que, pelos dados, de fato são mais ‘complexos’

Queríamos Steve Jobs, terminamos com Joesley. O sonho de empresas inovadoras, liderando o desenvolvimento nacional e famosas globalmente, era a aspiração da política industrial.

Esta se refere ao conjunto de incentivos dados pelo Estado a setores específicos do empresariado, diante da avaliação de que o resultado será positivo para a coletividade. Depois de Dilma, a política industrial foi desidratada, mas agora o governo eleito prometeu reeditá-la. Como fazer?

A academia oferece um possível saída. Difundida nos últimos anos, a área conhecida como “economia da complexidade” defende que a estrutura produtiva de um país de fato determinaria, de forma causal, o seu crescimento. Afasta-se nesse sentido da ortodoxia, mas, por uma ênfase mais forte em dados e computação, não se aproxima também da heterodoxia.

Hélio Schwartsman - China desafia economistas

Folha de S. Paulo

Atos poderiam levar a uma mudança de regime, dando razão aos institucionalistas

Protestos na China se generalizam. Já faz algum tempo que a maioria dos filósofos da ciência não utiliza a capacidade de fazer predições como critério definitivo a separar a ciência de outros tipos de discurso. Ainda assim, cientistas adoram elaborar um prognóstico não óbvio e acertá-lo. Fazê-lo, mesmo que não tenha impacto decisivo em termos epistemológicos, conserva grande força retórica.

Uma previsão até aqui não realizada sobre a China que avexa economistas liberais, particularmente os da escola institucionalista, é a de que ditaduras são, no longo prazo, incompatíveis com a prosperidade econômica. Para eles, o crescimento sustentável só é possível quando as instituições políticas de um país são inclusivas e seus cidadãos gozam de liberdade para decidir o que farão de suas vidas e recursos. Isso ocorre porque a prosperidade duradoura depende de estabilidade social e de um fluxo constante de inovações, que resulte em ganhos de produtividade.

Cristina Serra - A violência que nos dilacera

Folha de S. Paulo

Lula terá que tirar as instituições da inércia para reverter o ambiente de insanidade

massacre em Aracruz, no Espírito Santo, nos dilacera como sociedade e nos lembra que escolas deixaram de ser o lugar seguro onde crianças, jovens e mestres devem florescer juntos.

O Brasil foi inscrito no mapa dessa tragédia em abril de 2011, numa escola do bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, quando um ex-aluno abriu fogo e matou 12 crianças e adolescentes. De lá para cá, contam-se, pelo menos, mais 11 atentados e carnificinas em escolas e creches. Há diferenças nas motivações e execução, mas os crimes se assemelham na brutalidade e covardia contra vítimas indefesas.

Alvaro Costa e Silva - 'Patriotas' querem que a Copa se dane

Folha de S. Paulo

Num bom sinal para a seleção, eles desistiram de usar a camisa canarinho

golpismo financiado é a única razão de viver para os bolsonaristas que não suportam a realidade nem aceitam passar à condição democrática de oposição ao futuro governo.

Para manter a ilusão acesa se alimentam de teorias conspiratórias e soluções inexistentes e delirantes: intervenção federal, artigo 142, regaste do código-fonte, mensagens cifradas, ajuda divina. Na visão distorcida deles, o Brasil já virou uma ditadura — "as saídas constitucionais se encerraram", escreveu no Twitter um golpista que vive nos EUA — e é preciso enfrentar um arquivilão de história em quadrinhos: o Cabeça de Ovo.

Joel Pinheiro da Fonseca - O Brasil de Neymar e de Gilberto Gil

Folha de S. Paulo

A paixão político-partidária está ditando a aprovação ou reprovação de dois gênios

Nada me tira da cabeça que o jogo contra a Suíça teria sido mais fácil se Neymar estivesse em campo. O craque fez falta. E olha que teve gente comemorando quando ele se machucou.

Ninguém é obrigado a admirar ninguém, e Neymar —assim como tantas estrelas— tem sua cota de atos pouco admiráveis. Mas não foram eles o que realmente gerou a antipatia atual de parte da opinião pública, e sim seu apoio ostensivo a Bolsonaro. Assim como o que motivou os xingamentos baixos a Gilberto Gil, também no Qatar, foi seu apoio a Lula.

Não que os dois atos sejam moralmente equivalentes. Gritar insultos a um senhor de idade que passa é uma agressão consideravelmente mais baixa. O equivalente à comemoração pela ausência de Neymar da Copa seria se pessoas celebrassem Gil ter perdido alguma premiação internacional da música. Diferenças à parte, em ambos os casos o que vimos foi a paixão político-partidária ditando a aprovação ou reprovação de dois gênios de suas áreas.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Novo ministro da Fazenda precisará ter tarimba política

O Globo

São preocupantes declarações recentes de Lula e Fernando Haddad sobre contexto econômico

O futuro ministro da Fazenda, cujo nome deverá ser anunciado nesta semana pelo presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, precisa ter qualidades mínimas para que o governo tenha chance de sucesso. A primeira é entender os desafios. Na corrida das nações, o Brasil avança lentamente há várias décadas. Sem expansão sustentada do PIB, as oportunidades de emprego minguam, a renda cai, pobreza e fome se espalham.

Para colocar o país no rumo, o novo ministro terá primeiro de compreender os acertos e erros do passado. No lado positivo, vencemos a hiperinflação; criamos reservas cambiais para proteger a economia; melhoramos a capacidade da mão de obra graças a avanços na educação; promovemos uma reforma da Previdência e a reforma trabalhista que aperfeiçoou o mercado de trabalho; e demos independência ao Banco Central para que persiga as metas de inflação sem interferência política. Uma avaliação não ideológica dessas e de outras medidas benéficas será crucial para que não haja retrocesso.

É, por isso, preocupante que tanto Lula quanto o principal cotado para o cargo, o petista Fernando Haddad, tenham decepcionado em declarações recentes sobre a economia. Lula,é verdade, faz bem em pretender escolher um político para o cargo, que exigirá alta capacidade de articulação com os setores produtivos e negociação com o Congresso. Mas é preciso que seja um político com tarimba, disposição para o diálogo e uma atitude de aprendizado humilde diante dos desafios.

Poesia | Bertolt Brecht - Perguntas de um operário que lê (Narração de Mundo dos Poemas)

 

Música | Roberta Sá e Zeca Pagodinho - Pago pra ver

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Carlos Pereira - Nomeações de última hora

O Estado de S. Paulo

Indicações estratégicas no ocaso da elite política que se despede geram restrições

A cada transição de governo, com a chegada de uma nova elite política ao poder, surgem preocupações sobre a possibilidade de que a composição de vários órgãos de controle e de representação, como agência reguladoras, tribunais, comissões de ética, embaixadas etc, reflita estrategicamente as preferências da “velha” e não da “nova” elite.

A interpretação dominante é a de que a principal motivação do governo que se despede é a autoproteção. É racional supor que, ao nomear pessoas de confiança, a elite que sai estaria assim se protegendo contra potenciais retaliações da elite que entra. Será que a sociedade não poderia extrair algum benefício desse comportamento estratégico no crepúsculo de governos que perdem eleições?

Bruno Carazza* - Maldições da transição

Valor Econômico

Personagens ilustres mandam recado para Lula 3.0

Está sendo difícil a transição, especialmente para um economista tão famoso, sobre o qual se deposita muita esperança para a elaboração do programa econômico do novo governo.

O presidente eleito resolveu montar uma equipe eclética, com técnicos representando correntes econômicas distintas. No discurso, a proposta é explorar a diversidade de visões sobre os desafios brasileiros; na prática, porém, os diagnósticos e, pior ainda, os prognósticos entram sempre em conflito.

Para piorar, ninguém sabe muito bem o que se passa na cabeça do futuro presidente. Nas poucas vezes em que o economista teve oportunidade de se reunir com ele, a conversa é muito diferente da mensagem expressa em seus discursos e entrevistas.

A indefinição também vem da política. Para vencer a eleição, foi preciso construir uma frente ampla de apoio, que precisa ser contemplada no futuro ministério. Sobram pretendentes e faltam cargos de relevo. A briga nos bastidores do poder é sangrenta.

Sergio Lamucci - O rumo dos juros e o futuro de Lula

Valor Econômico

Uma política fiscal crível permitirá ao BC cortar a Selic mais cedo

Em janeiro, o novo governo vai assumir o comando do país enfrentando um cenário complicado na economia. Para lidar com esse quadro, criar condições para os juros caírem o quanto antes é a estratégia mais indicada para o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, exigindo que ele e sua equipe emitam sinais inequívocos de compromisso com a responsabilidade fiscal.

No início do ano que vem, a atividade deverá estar mais fraca, sofrendo especialmente o impacto do forte aumento da Selic, que desde abril de 2021 subiu de 2% para 13,75% ao ano. Além disso, haverá o efeito da desaceleração global e do esgotamento dos estímulos adotados pela administração de Jair Bolsonaro para tentar reverter a qualquer custo a sua baixa popularidade.

Celso Rocha de Barros - O golpolão do PL

Folha de S. Paulo

É preciso que o mundo político puna Valdemar e seu partido pela adesão ao golpismo

Quando o Partido Liberal de Valdemar Costa Neto resolveu apoiar o golpe de Estado de Jair Bolsonaro, todos os que acompanham política brasileira concluíram a mesma coisa: é por dinheiro. Ao mesmo tempo, todos se perguntaram: de onde está saindo o dinheiro para o Golpolão do PL?

A resposta é simples: em 2022, os fascistas de Bolsonaro concorreram pelo PL. Graças a isso, o partido, que sempre foi meio ladrão, mas até outro dia não era fascista, defensor de assassinato em massa por falta de vacina ou da legitimidade de que se "pinte um clima" entre adultos e meninas de 14 anos, tornou-se a maior legenda da Câmara.

Segundo a jornalista Maria Cristina Fernandes, se Valdemar não abraçasse o golpe, a ala bolsonarista do PL deixaria a legenda antes da posse do novo Congresso. O tamanho da bancada determina quanto cada partido vai receber dos fundos partidário e eleitoral. Por isso, Valdemar precisa segurar os fascistas no PL até que eles sejam contados a favor dele na divisão dessa grana.

Marcus André Melo* - O que explica o tamanho dos ministérios no Brasil?

Folha de S. Paulo

Só acordos programáticos e instituições de controle fortes impedirão que governos de coalização degenerem em predação

"Não se assuste, é o governo que cai." "Mas eu ouço aclamações..." "Então é o governo que sobe. Não se assuste. Amanhã é dia de cumprimentá-lo!"

A imprensa tem noticiado a criação de dez novas pastas ministeriais, um aumento de 40%, número que será provavelmente ampliado. Sim, os partidos da base potencial do governo "querem um carinho", como afirmou um senador do PT. A expectativa é que a distribuição das pastas irá reger-se pela realpolitik de governos de coalizão. Ou, pelo menos, deveria: dela dependerá a governabilidade futura.

Governos de coalizão são encontrados em 80% dos sistemas parlamentaristas e em mais da metade dos presidencialistas e semipresidencialistas; são a regra mais que exceção, ainda que para alguns analistas pareça uma patologia institucional. E ela implica em partilha de poder —o que na prática se manifesta na distribuição do portfólio ministerial e de postos de comando nas estatais.

Ana Cristina Rosa - O antirracismo e os negócios

Folha de S. Paulo

São Paulo promove nesta semana 1ª Conferência Empresarial ESG Racial

Quando será que as empresas em operação no país vão finalmente perceber que atuar de acordo com parâmetros ambientais, sociais e de governança —o chamado ESG, do inglês "environmental, social and governance"—, focando também em ações antirracistas, é bom para os negócios?

Nesta semana teremos um vislumbre do nível de maturidade do tema em nossas corporações. Nos próximos dois dias (29 e 30), acionistas de grandes empresas, representantes do terceiro setor, investidores institucionais, CEOs e integrantes dos movimentos sociais negros debaterão o tema em São Paulo na 1ª Conferência Empresarial ESG Racial.

Lygia Maria - A ética em primeiro lugar

Folha de S. Paulo

Respeito a costumes de culturas diversas não é argumento para solapar direitos humanos

A Copa no Qatar gerou uma intensa discussão sobre os direitos humanos, pois o regime teocrático do país reprime de forma dura, pela lei, comportamentos que vão do consumo de álcool à homossexualidade.

Durante o evento, foram proibidas manifestações de apoio à causa LGBTQIA+, como as bandeiras com as cores do arco-íris. Nem mesmo jogadores puderam usar braçadeiras com o símbolo.

Reacionários, tanto no Brasil como no exterior, justificaram a ação com o argumento de que se deve respeitar a cultura de outros países.

Fernando Gabeira - Neverlândia, o país do abismo cognitivo

O Globo

Precisamos de pelo menos algumas verdades consensuais, como a noção da forma da Terra

Não é a primeira vez que visito a Neverlândia. Mas agora vivemos um momento diferente. O país precisa de conciliação, mas é prisioneiro das muitas realidades paralelas.

Conciliação não significa ausência de discordância, luta política ou mesmo caneladas. Mas, para que o debate resulte em algo positivo, é preciso certa realidade consensual. Não sou especialista em planejamento de viagens aéreas. Mas creio que seria muito difícil conceber o tráfico planetário imaginando a Terra plana. Precisamos de pelo menos algumas verdades consensuais, como a noção da forma da Terra ou a certeza de que dois e dois são quatro.

O universo político brasileiro é dividido por um abismo cognitivo. Diante de pessoas rezando na porta dos quartéis, tentando contato com alienígenas ou mesmo cantando o hino nacional para um pneu, é fácil afirmar: vivem numa realidade alternativa. O interessante é observar que os debates bolsonaristas defendem exatamente o oposto. Diante da indiferença em relação ao drama na porta dos quartéis e às múltiplas manifestações ao longo do Brasil, afirmam: vivem numa realidade paralela.

Demétrio Magnoli - Três cenários de paz na Ucrânia

O Globo

Kremlin renunciou temporariamente às metas originais da guerra

A palavra “paz” ressurgiu após a reconquista ucraniana de Kherson, uma derrota estratégica da Rússia. A Ucrânia está “pronta para a paz; paz para todo o nosso país”, declarou Volodymyr Zelensky. Vladimir Putin “disse repetidamente que estamos prontos para negociações — mas elas, naturalmente devem levar em conta a situação militar”, replicou um porta-voz do Ministério do Exterior russo. Paz significa coisas diferentes para Ucrânia e Rússia.

Diante dos fracassos militares, o Kremlin renunciou temporariamente às metas originais da guerra. No lugar de uma Ucrânia inscrita no “mundo russo”, Putin almeja uma longa trégua baseada na “situação militar” atual. As hostilidades seriam suspensas com a continuidade da ocupação russa de Luhansk e parte de Donetsk, além da faixa de terras meridionais que formam uma “ponte terrestre” entre Rússia e Crimeia.

Fusões reduzem fragmentação na Câmara

Aumento da concentração é reflexo das mudanças na lei, que instituíram cláusulas de desempenho e acabaram com a possibilidade de coligações nas disputas proporcionais

Jan Niklas / O Globo

Com a implementação das federações e as três fusões anunciadas por partidos desde o resultado da eleição, a Câmara dos Deputados deve iniciar a próxima legislatura com 16 bancadas — a menor fragmentação partidária desde 1999, início do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso.

O aumento da concentração é reflexo direto nas mudanças na lei, que instituíram cláusulas de desempenho (a partir de 2018) e acabaram com a possibilidade de coligações nas disputas proporcionais, novidade deste ano.

A consequência direta é a tendência de as negociações entre Executivo e Legislativo fluírem mais rapidamente, cenário que pode amenizar as adversidades para o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante de um Congresso que saiu das urnas com o bolsonarismo fortalecido.

Na semana passada, o Podemos anunciou que vai incorporar o PSC, agremiação que não ultrapassou a cláusula de barreira. Na sequência do primeiro turno, em 2 de outubro, também já haviam anunciado fusões Solidariedade e o Pros, além do PTB com o Patriota — nenhuma dessas legendas cumpriu os requisitos estabelecidos pela legislação.

Disparada nos preços de alimentos é um desafio para o novo governo

Para conter alta de custos, que afeta população mais vulnerável, especialistas recomendam uso de políticas públicas, como recomposição de estoques reguladores

Carolina Nalin / O Globo

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva elegeu como prioridade em sua campanha reduzir a fome no país. Mas, para além do desafio urgente de recompor o Orçamento a fim de garantir um Bolsa Família de R$ 600, o novo governo terá de lidar com uma alta inédita nos preços de alimentos.

Desde 2018, o custo da comida vem subindo bem acima da inflação, refletindo uma alta nos preços internacionais, mas também mudanças em políticas públicas, como a redução dos estoques reguladores. E não há sinais de trégua no horizonte. A combinação de efeitos climáticos adversos, guerra na Ucrânia e dólar valorizado deve manter os alimentos sob pressão em 2023.

— A pandemia perturbou os preços relativos dos alimentos. Além disso, tivemos uma série de problemas climáticos, que afetaram a produção, e conflitos geopolíticos. Outra questão é a taxa de câmbio, que está muito desvalorizada no Brasil, o que afeta preço de trigo, milho e preço de insumos — explica o economista Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP.

Fernando Carvalho* - Alexandre o Grande pela democracia

O ministro Alexandre de Moraes tem se revelado como a principal pedra no coturno do capitão Bolsonaro. Uma das razões foi o fato de Alexandre de Moraes no dia 29 de abril de 2020 ter suspendido a nomeação de Alexandre Ramagem, amiguinho dos filhos do presidente, para a diretoria geral da Polícia Federal. Alexandre de Moraes nunca foi esquecido por causa disso, tanto que um ano e quatro meses depois, Bolsonaro entrou com um pedido de impeachment de Alexandre de Moraes. O presidente fez isso em caráter pessoal, não comprometeu nem sequer a Advocacia-Geral da União. O resultado foi um fracasso. O presidente do Senado Rodrigo Pacheco submeteu a denúncia à Advocacia do Senado segundo a qual o documento carecia de tipicidade e de justa causa. Pacheco justificou sua decisão em nome da preservação da independência entre os poderes e arquivou o pedido.  A pretensão de Bolsonaro foi repudiada pelo STJ Superior Tribunal de Justiça, por ex-ministros de Estado, por associações de magistrados, de procuradores da República e de advogados. por partidos políticos e membros do Congresso nacional. E praticamente um consenso da sociedade civil. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Apesar do silêncio, Bolsonaro corre para nomear aliados

Valor Econômico

É preciso acompanhar com atenção as indicações que Bolsonaro fará até deixar de vez o Palácio do Planalto

O silêncio de Jair Bolsonaro (PL) desde a derrota para o presidente eleito da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tem gerado expectativas entre aliados e chamado a atenção da equipe de transição. Em mais uma eloquente entrevista, o vice-presidente Hamilton Mourão, por exemplo, argumentou que Bolsonaro saíra do pleito concluído no último fim de semana de outubro com um capital político de 58 milhões de votos e, portanto, estava mais do que apto a liderar a direita.

Para que isso ocorra, todavia, Mourão fez uma ponderação: o chefe do Poder Executivo teria que sair da reclusão autoimposta no Palácio da Alvorada e trabalhar politicamente. “O presidente Bolsonaro, quando emergir do retiro espiritual dele, vai compreender que ganhou esse capital. Acho que ele tem que se posicionar no espectro político, trabalhar politicamente. Vai ser a primeira vez desde 1989 que ele não tem mandato. São 33 anos, é uma vida. É ele entender que agora ele terá uma posição dentro do PL, de presidente de honra. Ou seja, aqui em Brasília, articulando, tem todo o capital para voltar muito bem em 2026. Desde que ele saiba explorar bem isso aí”, declarou ao Valor Mourão, senador eleito pelo Rio Grande do Sul.

Poesia | Embriaga-te - Charles Baudelaire

 

Música | Brasil Jazz Sinfônica com Ná Ozzetti & Zeca Baleiro - Tem francesa no morro

 

domingo, 27 de novembro de 2022

Luiz Carlos Azedo - Menos ambição e mais modéstia

Correio Braziliense

Os trilhos nos quais o novo governo deve e pode avançar são o fortalecimento da democracia, com respeito a suas instituições, e uma agenda ambiental de vanguarda.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito sem um programa de governo. Sua estratégia de campanha foi resgatar as realizações de seus dois mandatos, o que não foi suficiente para garantir sua eleição no primeiro turno, mas o deixou na cara do gol, no segundo. Para vencer, porém, teve que ampliar ainda mais as alianças e contar com a rejeição ao presidente Jair Bolsonaro, que era maior do que a sua, para se eleger por estreita margem de votos. Sendo mais específico, Lula teve 3,5 milhões de votos a mais no segundo turno; Bolsonaro, 7 milhões. Com toda certeza, a candidata do MDB, senadora Simone Tebet, os partidos que o apoiaram no segundo turno tiveram um papel decisivo nessa transferência de votos. A chamada "terceira via" foi esmagada pela polarização no primeiro turno, mas não a ponto de não fazer alguma diferença no segundo.

O drama de Lula ao assumir seu mandato é cumprir as promessas de campanha, principalmente o Auxílio Brasil/Bolsa Família de R$ 600 mil, que também serviu de plataforma para Bolsonaro junto às parcelas mais pobres da população, embora esse valor não tenha sido previsto no Orçamento da União de 2023. Lula gerou grande expectativa para os eleitores de baixa renda, principalmente as donas de casa, de que garantiria a comida na mesa, com direito a cerveja e picanha no fim de semana. Essa é a lembrança afetiva do seu governo no imaginário popular, como fora o frango a R$ 1 do Plano Real, na eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994.

Merval Pereira - Hora da definição

O Globo

Propostas de Jereissatti e Alessandro Vieira abrem caminho para uma solução para a PEC de transição que corresponde à necessidade, com controle fiscal

O desagrado dos agentes do mercado financeiro com a fala do provável futuro ministro da Fazenda Fernando Haddad reflete bem a relação conflituosa entre o presidente eleito Lula e o mundo financeiro que sempre existiu, uma tradução política da tendência anacrônica esquerdista do PT que, depois da China, deveria ter sido adaptada.

Apesar de o pessimismo do mesmo mercado ter sido desmentido na prática no primeiro governo Lula, que deu continuidade à política econômica de Fernando Henrique, ficou um gosto amargo devido ao final do segundo mandato e, principalmente, aos dois mandatos desastrosos de Dilma Rousseff, quando o PT implantou suas ideias econômicas próprias e levou o país a uma grave crise financeira.

Míriam Leitão - A verdade muito além do fiscal

O Globo

O que gera mais incerteza? O golpismo de Bolsonaro ou a falta de definição sobre a âncora fiscal do novo governo?

O ex-ministro Fernando Haddad foi falar com os banqueiros, em nome do presidente Lula, na sexta-feira e defendeu ideias civilizatórias, democracia, normalidade na relação entre poderes e respeito ao pacto federativo. A bolsa caiu e o dólar subiu. A explicação é que acharam que ele foi “vago”. Haddad não podia dar detalhes de coisa alguma, nem ministro é. Mas cabe pensar neste tipo de reação. Bolsonaro abriu guerra com o Judiciário, brigou com estados e municípios, não reconheceu a derrota nas urnas e até hoje conspira contra a democracia. O que gera mais incerteza? O golpismo de Bolsonaro ou a falta de definição sobre a âncora fiscal do novo governo?

Maldita é palavra feia e forte, mas a única possível para definir a herança deixada por Bolsonaro. Há uma devastação no país. Quem seleciona números para dizer que o país melhorou comete erros. Números nada dizem sem o contexto. O orçamento é inexequível. E é também uma arapuca que está tirando capital político e drenando as forças do governo eleito.

Na economia, a arrecadação subiu? Sim, mas em grande parte pela alta da inflação, o que é uma forma espúria de melhorar os dados fiscais. Algumas despesas cresceram em ritmo menor? Sim, mas porque não houve aumento real de salário mínimo em quatro anos e os salários dos servidores civis foram congelados, enquanto os dos militares subiam. A visão seletiva de alguns indicadores não permite uma análise do que está ocorrendo no país.

Elio Gaspari - Arthur Lira arrastou as fichas

O Globo

Presidente da Câmara colocou uma boa parte do Centrão no colo de Lula, antes mesmo de o governo ter começado

Goste-se ou não do deputado Arthur Lira, nas últimas semanas ele foi um mestre. Durante a campanha, Lula condenava sua posição de senhor das verbas do orçamento secreto. No dia da eleição, ele foi um dos primeiros a reconhecer o resultado. Nos dias seguintes, jogou parado enquanto o comissariado petista se enrolava com a PEC da Transição.

Passaram os dias, e no PT já se admite que ele seja reeleito para a presidência da Câmara. Só um sonhador poderia acreditar que um governo obrigado a enfrentar uma oposição feroz seria capaz de aprovar uma emenda constitucional, com os votos de três quintos da Casa, hostilizando seu presidente. O senador Renan Calheiros avisou que a PEC era uma barbeiragem, mas não foi ouvido.

Em poucas palavras, Lira colocou uma boa parte do Centrão no colo de Lula, antes mesmo de o governo ter começado. Na contrapartida, colocou uma parte dos planos de Lula no colo do Centrão.

O que parece ser um amargo limão poderá ser uma limonada. Lula precisa da paz política e, desde o século passado, o Centrão a oferece.

O problema está na relação do Planalto com os congressistas. Em seu primeiro mandato, Lula deixou que as coisas deslizassem para o mensalão e deu no que deu. Quando os maus costumes voltaram a explodir, já no governo de Dilma Rousseff, a encrenca estava na Petrobras e nas empreiteiras.

Bernardo Mello Franco – A polícia de Bolsonaro

O Globo

Criada para patrulhar rodovias, corporação virou braço armado do projeto de Bolsonaro

As instituições começaram a funcionar para Silvinei Vasques. O diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal virou réu por improbidade administrativa. É acusado de usar a estrutura e a imagem do órgão para favorecer a candidatura derrotada de Jair Bolsonaro. Vasques chegou ao cargo graças à proximidade com o primeiro-filho Flávio Bolsonaro. Nos últimos anos, encarnou como ninguém o aparelhamento do Estado a serviço do clã presidencial.

Na ação, o Ministério Público Federal enumerou oito momentos em que o policial fez campanha pelo capitão — sempre de farda e ostentando o distintivo da PRF. Em entrevista a uma rádio governista, chamou o presidente de “mito”. Em solenidade, entregou ao ministro da Justiça uma camisa com o número do candidato à reeleição. A série culminou com um pedido explícito de voto. Na véspera do segundo turno, Silvinei publicou a foto de uma bandeira do Brasil. A legenda parecia uma ordem aos subordinados: “Vote 22 — Bolsonaro presidente”.

Felipe Nunes e Thomas Traumann* - Eleição que calcificou o país

O Globo

Decisão do voto deixou de ser só a expressão de uma preferência política e passou a ser manifestação de uma identidade

Ao final da eleição de 2018, achávamos que o Brasil havia experimentado uma ruptura, em que as campanhas de TV e rádio, o uso da máquina pública e o financiamento eleitoral deixaram de ser ferramentas decisivas. Quatro anos depois, os fatos mostraram que a vitória de Jair Bolsonaro não foi uma ruptura — um evento capaz de interromper definitivamente uma tendência observada na História —, mas um acontecimento fora da curva. A derrota de Bolsonaro em 2022 mostrou que, mais que os instrumentos de campanha, são as profundas divisões na sociedade brasileira que determinam o resultado.

A campanha de 2022 mostrou que a decisão do voto deixou de ser apenas a expressão de uma preferência política e passou a ser manifestação de uma identidade. O interessante é que não se trata de mera compatibilidade partidária, mas de uma identidade consolidada em torno do sentimento do que é ser petista ou antipetista. Tomando emprestado um termo usado pelos cientistas políticos John Sides, Chris Tausanovitch e Lynn Vareck para descrever a polarização nos EUA pós-Donald Trump, a eleição de 2022 no Brasil calcificou o mecanismo de escolha, em que os interesses perderam força para as paixões.