sábado, 27 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Programa Voa Brasil é populismo sem sentido

O Globo

Não é papel do Estado criar plataforma para vender passagens aéreas mais baratas

Em março de 2023, quando o Ministério de Portos e Aeroportos anunciou a intenção de criar um programa de passagens de avião por até R$ 200, o plano parecia sem sentido. Depois de um ano e quatro meses, o Voa Brasil foi lançado na quarta-feira e, apesar do tempo investido em estudos e negociações, não mudou em nada a primeira impressão. Não é papel do Ministério de Portos e Aeroportos intermediar a venda de passagens de companhias aéreas privadas, assim como seria inaceitável que o Ministério dos Transportes atuasse em feirões de automóveis ou o de Desenvolvimento em liquidações de refrigeradores e batedeiras. Preocupado em agradar à classe média descontente com a alta dos bilhetes de avião, mais uma vez o governo apelou ao populismo.

Marco Aurélio Nogueira - Polarizações enrijecidas

O Estado de S. Paulo

A sensação que se tem é de que não há avanços, porque a energia se desperdiça na negação que um polo faz do outro

Apolítica democrática é polarizada: nela formam-se diferentes polos, que disputam o poder e o voto dos eleitores. Quando esses polos enrijecem, cai-se em um beco aprisionado por um conflito paralisante entre dois blocos que se excluem um ao outro.

Nas sociedades atuais, as polarizações não costumam ser ideológicas: não se distinguem pela apresentação de projetos consistentes de sociedade. Movem-se por elucubrações fantasiosas, desinformação e narrativas passionais, com as quais buscam excitar e seduzir mentes e corações. A extrema direita “fascista” cresce a partir daí.

Bolívar Lamounier - Anatomia da vertigem política

O Estado de S. Paulo

Nossos episódios associativos carecem de referências à vida pública, ou àquilo que Aristóteles denominou bem comum

Em 1835, Alexis de Tocqueville, um aristocrata e grande escritor francês, teve uma ideia deveras inovadora. Tornou-se, como direi, o primeiro cientista político moderno, observando de perto os fatos que o intrigavam, colhendo informações e fazendo entrevistas, com o objetivo de responder a uma indagação que até hoje nos atormenta. Queria entender por que o sistema político dos Estados Unidos evoluía firmemente no sentido de uma democracia pacífica, progressista e competitiva, enquanto na Europa, excetuada a Inglaterra, nem os países mais importantes pareciam capazes de se livrar de suas tradições dinásticas e autoritárias. Mesmo sua França natal, que fez a maior revolução dos tempos modernos, quase sucumbiu a um regime de terror, o que só não aconteceu graças à ação militar de Napoleão Bonaparte, que preservou muitos ganhos do processo revolucionário, mas implantou um sistema de governo que só após a 2.ª Guerra Mundial se firmou como uma democracia de alto desempenho.

Carlos Andreazza - Subsídios ao otimista

O Estado de S. Paulo

Os gastos obrigatórios dispararam. As despesas estão descontroladas

Saiu o terceiro Relatório de Acompanhamento de Receitas e Despesas Primárias. Já notícia velha. Atual – permanente – será a apreensão sobre o futuro da meta fiscal para 2024. Os números dão materialidade à descrença. Há os otimistas. (Há os espertos operadores do otimismo.) Há também os dados do mundo real: a arrecadação foi revisada para baixo, reduzida em quase R$ 6,5 bilhões; e as despesas aumentaram em R$ 20,7 bilhões.

Noutras palavras: frustração de receitas e gastos crescentes. Assim jaz, natimorto e ora exposto, o corpo do arcabouço fiscal. A Fazenda arrecadadora cuja fome de leão não consegue acompanhar o ritmo dos dispêndios.

Cristovam Buarque - Mais do mesmo

Veja

A nova reforma do ensino médio deixa a desejar (de novo)

Neste mês, o Brasil lançou uma lei para a reforma do ensino médio, a segunda em apenas seis anos. Mais uma vez, vê-se uma modesta manifestação de intenção legal sem ambição para assegurar a qualidade e a equidade necessárias à educação. Tampouco há estratégia para executar o que o projeto propõe: 3400 horas de aulas, inglês obrigatório (sem metas para formar jovens bilíngues), com escolas equipadas e professores formados. A nova reforma nem ao menos muda o conceito de ensino médio, imprensado entre o fundamental e o superior. Ele poderia ser redefinido como “conclusivo”, representando a formação da base de todos os brasileiros.

Oscar Vilhena Vieira - Justiça climática

Folha de S. Paulo

Emergência impõe mudança de comportamento, tanto do poder público quanto do setor privado

Justiça Federal do Amazonas proferiu na última semana duas importantes decisões no contexto de emergência climática em que estamos vivendo. Na primeira delas, um fazendeiro foi condenado pela derrubada ilegal e queima de mais de 5.600 hectares de floresta amazônica.

No segundo caso, a Justiça Federal suspendeu liminarmente a licença prévia concedida durante o governo Jair Bolsonaro (PL) para asfaltamento da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, por não ter levado em consideração dados técnicos sobre o impacto ambiental da obra sobre um território amazônico da dimensão do estado de São Paulo.

Hélio Schwartsman - Um grande mal-entendido?

Folha de S. Paulo

Estudo acadêmico sugere que polarização começa com erro de avaliação sobre posições prevalentes entre os adversários

E se a polarização política tiver origem num grande mal-entendido? Essa é a hipótese de um interessante artigo de Victoria Parker e colaboradores que circula como preprint e me foi enviado por um leitor (obrigado, Alexandre!). O título é "The Ties that Blind" ("Vínculos que Cegam"). É um artigo relativamente longo que combina os resultados de cinco estudos que avaliaram posições de democratas e republicanos nos EUA.

Dora Kramer - O dia depois de amanhã

Folha de S. Paulo

Se a oposição venezuelana ganhar, toma posse? Se tomar posse, poderá governar?

Criaturas do naipe autoritário de Donald Trump e Nicolás Maduro só respeitam quem os enfrenta; tratam com desdém os que os adulam.

O americano não fazia a menor questão de dar moral a Jair Bolsonaro quando ambos eram presidentes. O venezuelano fez questão de menosprezar o apreço que Luiz Inácio da Silva sempre lhe devotou ao receitar chá de camomila a quem, como Lula, tenha se assustado com as referências a "banho de sangue" e "guerra civil" em caso de derrota neste domingo (28).

Demétrio Magnoli - O observador

Folha de S. Paulo

Enviado por Lula à Venezuela verificará se Maduro é capaz de aceitar derrota eleitoral

Maduro prometeu vencer as eleições "por bem ou por mal". A Venezuela é uma ditadura singular, descrita pelo ditador como "união cívico-militar-policial". Faltou esclarecer que a "união" é gerida por uma máfia cleptocrática apoiada na intimidação, na violência e em extensas redes de clientelismo. Celso Amorim, enviado por Lula, observará se o regime é capaz de aceitar, por bem, a derrota eleitoral avassaladora indicada pelas pesquisas.

O chavismo nasceu das urnas, numa revolução nacionalista pacífica concluída pela Constituição de 1999. Nela estavam as sementes da lenta transição da democracia representativa à democracia plebiscitária, ou seja, à tirania da maioria. Foi isso que Lula caracterizou, com uma ponta de inveja, como "democracia até demais".

Pablo Ortellado - A oportunidade democrática da Venezuela

O Globo

Oposição tem chances reais de vencer, e Maduro vem sendo pressionado a aceitar a derrota se ela acontecer

Amanhã os venezuelanos vão às urnas escolher seu presidente. A eleição representa a primeira oportunidade real em décadas para resgatar uma democracia sufocada por 25 anos de populismo autoritário e tentativas fracassadas de golpes de Estado.

Nos anos 1960 e 1970, enquanto muitos países latino-americanos amargavam ditaduras militares, a Venezuela viveu um longo período de estabilidade democrática. Em 1958, os três principais partidos do país, a Ação Democrática (social-democrata), o Copei (democrata cristão) e a União Republicana Democrática (social-liberal), firmaram um pacto de estabilidade democrática pelo qual se comprometiam a reconhecer o resultado das eleições e se alternar no poder. O acordo tentava evitar que o país retornasse à ditadura militar que o governou de 1948 a 1958. O pacto cívico e republicano, firmado na cidade de Punto Fijo, permitiu à Venezuela viver 30 anos de estabilidade, com alternância de poder entre sociais-democratas e democratas cristãos que lembrava as democracias europeias.

Eduardo Affonso - Deus e o diabo na terra do Estado laico

O Globo

Políticos sabem que, numa democracia, só o voto salva — e o caminho mais curto para a salvação passa pela oferenda

Deus pode até estar em todos os lugares, mas em nenhum é tão onipresente como na política.

Bolsonaro O tinha como cabo eleitoral, encabeçando uma versão revista e recauchutada da Santíssima Trindade: “Deus, pátria e família” — sendo a pátria a crucificada, e a família seu próprio clã. Ainda que o Brasil estivesse acima de tudo, Deus estava acima de todos. Tão acima que, apesar de onisciente, não perceberia as rachadinhas, o comportamento criminoso durante a pandemia, a devastação ambiental, a venda das joias, a incitação ao golpe e uma penca de outros pecados passíveis de penitência bem maior que dois pais-nossos e quatro ave-marias.

Como quem acende uma vela para si mesmo e outra para o diabo, Deus não tem preconceito ideológico nem desampara quem o procure. Lula garante que sua volta ao poder foi coisa d’Ele — cometendo a heresia do machismo linguístico ao chama-lO de “o homem lá de cima” (linguagem neutra, só no discurso escrito, né?).

Carlos Alberto Sardenberg - E não é para desconfiar?

O Globo

Governo entrou janeiro prevendo superávit para as contas deste ano; seis meses depois, a projeção já tinha virado para um baita déficit

E depois o ministro Haddad reclama quando o pessoal desconfia do cumprimento das metas do arcabouço fiscal. Reparem: o governo entrou janeiro prevendo superávit para as contas deste ano; seis meses depois, a projeção já tinha virado um baita déficit. E isso mesmo com o ministro cumprindo a tarefa de turbinar as receitas.

Nos meios econômicos, o pessoal acredita em contas. Com os números conhecidos nesta semana, a desconfiança torna-se dominante. No Orçamento para este ano, aprovado no Congresso, previa-se superávit de R$ 9 bilhões para o governo federal, boa folga diante do déficit zero estabelecido no arcabouço. No passar dos meses, os números ganharam tons de vermelho toda vez que se refazia a conta. Concluído o primeiro semestre, a projeção já era de um déficit de R$ 44 bilhões, arredondando.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Tropicões de Javier Milei

CartaCapital

Contra a crise cambial, as drogas de sempre da farmácia de manipulação fiscal

Informa a edição do jornal O Globo, de 20 de julho de 2024:

“O presidente da Argentina, ­Javier Milei, denunciou tentativas de ‘corridas cambiais’ contra seu governo nesta semana e voltou a criticar o diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Rodrigo Valdés, acusando-o de beneficiar a gestão anterior e de ter ‘más intenções’ com o país.

– Ele tem más intenções em relação à Argentina. Ele não quer o bem para o ­país. Ele foi contemplativo com o governo anterior e não conosco, que somos exemplo de esforço fiscal. Ele tem outra agenda – disse Milei em conversa com um canal de streaming, referindo-se a Valdés.”

Marcus Pestana - As voltas que o mundo dá

Apesar de ser uma economia relativamente fechada, o Brasil é altamente dependente da exportação de commodities e da entrada de investimentos diretos estrangeiros para o financiamento de seu balanço de pagamentos. Portanto, as oscilações no cenário internacional impactam diretamente na dinâmica da economia brasileira e em nossos interesses nacionais.

O fato mais marcante que ainda teremos em 2024 são sem dúvida alguma as eleições americanas. As fragilidades pessoais expostas do presidente Joe Biden, após um bom governo, levaram Donald Trump, um ator político supostamente aposentado pela história, após a invasão do Capitólio e seus múltiplos processos no judiciário, a uma surpreendente posição de favoritismo nas eleições. A substituição da candidatura dos democratas por Kamala Harris zera o placar e recupera a competitividade do partido de Obama, Clinton e Biden.

Poesia | Seja forte, de Pablo Neruda

 

Música | Paulinho da Viola - Coração leviano

 

sexta-feira, 26 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Combate à fome exige eficiência de programas sociais

O Globo

Como explicar que o Brasil permaneça no mapa da ONU tendo ampliado gastos com pobres desde a pandemia?

É uma vergonha o Brasil continuar no Mapa da Fome das Nações Unidas. No triênio entre 2021 e 2023, 3,9% da população brasileira foi considerada subnutrida — ou 8,4 milhões de pessoas. Houve melhora em relação ao levantamento anterior, quando a subnutrição atingia 4,2%, mesmo assim o país está muito acima do limite de 2,5% por triênio, necessário para deixar a lista da ONU.

A vergonha é ainda maior porque, entre 2014 e 2020, o Brasil ficou fora do Mapa da Fome. Hoje apenas cinco países latino-americanos — Chile, Costa Rica, Cuba, Guiana e Uruguai — satisfazem ao critério das Nações Unidas para isso: prover a quantidade mínima de calorias e nutrientes para uma vida ativa e saudável a mais de 97,5% da população.

Fernando Abrucio - Sucessão da Câmara e a democracia

Valor Econômico

Está em jogo o destino institucional do Legislativo, um processo que envolve uma avaliação acurada sobre os avanços obtidos e diversos problemas que a Casa ainda tem

Os atores políticos não estão de olho apenas na eleição municipal. Uma disputa que está mexendo com a elite da classe política é a sucessão na Câmara Federal. Depois de um dos presidentes mais poderosos da história da Casa, o deputado Arthur Lira, alguns candidatos surgiram e há meses fazem uma das mais longas campanhas da trajetória recente do Congresso. Pergunta-se muito qual nome seria o mais adequado para manter o poder obtido pelo Legislativo, mas pouco se fala sobre qual projeto seria melhor para que essa instituição servisse melhor à sociedade e à democracia do país.

É inegável que o perfil dos candidatos vai afetar o futuro da Câmara Federal. Nomes, com suas trajetórias institucionais, fazem sempre diferença em política. Só que está em jogo o destino institucional do Legislativo, um processo que envolve uma avaliação acurada sobre os avanços obtidos e diversos problemas que a Casa ainda tem. E, por enquanto, os concorrentes estão mais ávidos em fazer jantares e conversas reservadas com caciques políticos e deputados do baixo clero do que em apresentar projetos que definam os rumos da instituição nos próximos anos.

José de Souza Martins - A força política da bajulação

Valor Econômico

A destruição até dos laços de família com a polarização manipulada pelo bolsonarismo gerou a desorganização política do país com o crescimento da desorganização social

Um dos aspectos mais preocupantes da política brasileira desde o fim da ditadura militar e, acentuadamente, desde a ascensão de Jair Messias à Presidência da República, é o do declínio do humor político. Sinal de que está em decadência a consciência crítica popular que, entre nós, se manifestava no riso.

O bolsonarismo trouxe consigo o ódio às diferenças políticas, a satanização dos diferentes e das diferenças, a intolerância em relação ao outro, suas ideias, seu modo de ser. Trouxe, sobretudo, a ideologia no lugar do saber, da ciência, da arte, da liberdade de pensamento, da consciência crítica, do discernimento e da criatividade.

Vera Magalhães - A receita de Lula até 2026

O Globo

Para o Planalto, se a economia ‘chegar bem’, o presidente é favorito, e possibilidade de Bolsonaro rever sua inabilitação também é considerada nula

Conforme antecipei em meu blog no GLOBO, o governo Lula entende que a fase de reformas deste terceiro mandato se esgotou. No cômputo do que foi feito, além da reforma tributária, entra o novo arcabouço fiscal. No do que deixará de ser enfrentado, a ideia de revisitar as regras previdenciárias e uma batalha para reformar o Orçamento.

Segundo auxiliares de Lula, o caminho que o presidente vislumbra até 2026 tem como carro-chefe o crescimento acima de 2% nos quatro anos de gestão, acompanhado do aumento no emprego e na renda e de uma gestão fiscal suficiente para entregar a meta proposta. Será suficiente? No entendimento do Planalto, se a economia “chegar bem”, o presidente é favorito.

Andrea Jubé - Os palcos eleitorais de 2024 como prévia de 2026

Valor Econômico

Nacionalização das eleições marcará disputas municipais

Já ficou claro que a nacionalização das eleições municipais, em uma espécie de terceiro turno do pleito de 2022, ou prévia de 2026, transcende a disputa em São Paulo entre o prefeito Ricardo Nunes (MDB), candidato à reeleição, e o deputado federal Guilherme Boulos (Psol).

Na capital paulista, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) apoia Nunes e emplacou o vice do emedebista, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) caminhará com Boulos, e indicou uma vice petista, a ex-prefeita Marta Suplicy.

São Paulo será o palco mais emblemático do novo round entre lulismo e bolsonarismo. Mas não será o único.

Flávia Oliveira - Efeito Kamala

O Globo

Empolgação em torno dela lembra a vitória de Barack Obama em 2008

Quis o destino que a desistência de Joe Biden de concorrer à reeleição e, na sequência, apontar a afro-asiática Kamala Harris — filha de mãe indiana e pai jamaicano — como substituta na corrida à Casa Branca ocorresse no mês que o Brasil consagrou como Julho das Pretas e na semana em que se comemora o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, 25 de julho. A decisão anunciada na tarde do último domingo ativou o entusiasmo de uma campanha, até então, bastante morna do Partido Democrata.

Bernardo Mello Franco – O julgamento de Biden

O Globo

Resultado da eleição em novembro definirá lugar do atual presidente na História

A pouco mais de cem dias das urnas, Joe Biden desistiu de concorrer à reeleição nos EUA. Não acontecia desde 1968, quando Lyndon Johnson jogou a toalha em meio à Guerra do Vietnã. O presidente anunciou a decisão pelas redes sociais, como convém aos tempos modernos. Na quarta-feira, explicou suas razões em pronunciamento na TV.

Biden disse que a democracia americana está em risco. Sustentou que é preciso preservá-la, mesmo que isso signifique abrir mão de ambições pessoais. “Reverencio este cargo, mas amo mais o meu país”, afirmou. “Decidi que o melhor caminho é passar o bastão para a nova geração”, prosseguiu. Pode parecer altruísmo, mas é só realismo político.

Laura Karpuska - Brechas

O Estado de S. Paulo

Partidos vivem uma realidade distante, e tomam decisões esquecendo-se do eleitorado

A confiança no governo não está das melhores no mundo. Não é um fenômeno novo. A pesquisa anual do Instituto Pew Research revela que, há décadas, os americanos têm perdido a fé na capacidade de seus líderes de governar pensando no bem comum. A decepção se alimenta de crises econômicas, do consumo desenfreado de notícias enviesadas nas redes sociais, de uma inundação de fake news e do conhecimento de malfeitos de políticos corruptos e comprometidos com pequenos grupos de interesse. A incapacidade dos partidos políticos de seguir uma agenda que verdadeiramente considere a vida das pessoas comuns apenas agrava a situação.

Celso Ming - A chaga dos lixões

O Estado de S. Paulo

O Brasil continua sendo o país dos lixões. Em 2022, o setor de resíduos emitiu aproximadamente 91,3 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e). Foi responsável por 4,0% das emissões totais de gases de efeito estufa do território brasileiro, como mostram os dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa. Cerca de 65% dessas emissões provieram dos resíduos em aterros e lixões.

Enquanto não cuidar dessa chaga, o Brasil não conseguirá cumprir as metas de descarbonização previstas, sem o que não conseguirá enveredar para a era da economia verde.

Orlando Thomé Cordeiro - Eles vieram para ficar

Correio Braziliense

O fator comum aos recentes processos eleitorais na França e nos EUA é o crescimento da extrema-direita e sua aliança com a maior parte da direita tradicional que, por sobrevivência e/ou oportunismo eleitoral, se rendeu ao populismo

Neste mês de julho, dois processos eleitorais no cenário internacional foram destaque na mídia, um no início do mês e o outro nesta última semana. O primeiro foi o segundo turno da eleição legislativa na França. Com o a velocidade quase supersônica com que os assuntos entram e saem de pauta, vale a pena recordar o processo. Em junho, após a vitória contundente do partido de Le Pen nas eleições para o Parlamento Europeu, Macron, em um movimento tão inesperado quanto ousado, resolveu dissolver a Assembleia Nacional e convocar novas eleições (essa é a vantagem do parlamentarismo: as crises políticas são resolvidas com novas eleições, enquanto no presidencialismo a solução é o impeachment).

Marcus Cremonese - Antevendo o passado em que estamos vivendo.

Observatório da Imprensa

Em março de 2022 reli o "Turning Back the Clock", de Umberto Eco (Vintage Books, 2008). O livro é uma coleção de artigos e ensaios em que ele analisa o que chamou, no sub-título, de "hot wars and media populism".

Um desses artigos, de julho de 2003, publicado no L'Espresso, prendeu minha atenção. Neste, Eco comenta uma tentativa de Berlusconi, de "retirar a legitimidade do sistema judiciário italiano". Berlusconi era então primeiro-ministro, pela segunda vez (2001-06). Em tom de desafio, ele disse que "já que foi eleito pelo povo" ele não aceitaria "ser julgado por alguém que alcançou aquele posto no judiciário graças apenas à sua qualificação profissional".

André Roncaglia - O novo acordo de Bretton Woods precisa ir além das promessas

Folha de S. Paulo

Precisamos construir um novo arranjo internacional que empodere política e financeiramente países em desenvolvimento

Nesta semana, autoridades do mundo inteiro se reúnem no Rio de Janeiro para mais uma rodada de debates do G20, o grupo das nações mais ricas do mundo. A agenda é focada na reforma da tributação global de grandes corporações e dos super-ricos e no redirecionamento de recursos para o combate das causas e efeitos da mudança climática.

Dentre as pautas que derivam deste grande objetivo, está a reforma das instituições de Bretton Woods, que comemoram 80 anos desde a sua criação ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1944. Ali foram criados o Banco Mundial e o FMI (Fundo Monetário Internacional) com os respectivos intuitos de administrar um sistema monetário internacional e prover financiamento para o desenvolvimento econômico. Inicialmente operando com o regime de taxas de câmbio fixas, em um mundo já dominado pelo dólar mas ainda preso à fantasia do padrão ouro do período anterior às duas guerras mundiais.

Luiz Carlos Azedo - “Reeleição” de Maduro pode desestabilizar continente

Correio Braziliense

A situação da Venezuela é um desastre econômico e social. Mais: é uma ameaça à segurança política na América do Sul, em razão da militarização

Dos países da América do Sul, o que oferece maior risco à democracia na região, hoje, não é a Argentina, com seu presidente anarco-liberal Javier Milei, em razão de uma sociedade civil e estrutura política mais robusta, mas a Venezuela de Nicolás Maduro, que caminha no rumo de um regime autocrático nacionalista controlado por militares, com uma sociedade completamente desestruturada, cujos aliados estratégicos são Cuba, Rússia, China, Irã e Coreia do Norte.

O elo perdido com o Ocidente será a manutenção de Maduro no poder, por meio de uma fraude eleitoral já escancarada ou, caso isso não seja possível, um golpe de Estado. Não se pode falar em democracia plena na Venezuela com o sucessor de Hugo Chávez no poder. Para o Brasil, legitimá-lo com o conceito de “democracia relativa” será um grave erro. A democracia é um valor universal, ainda que a boa convivência com os vizinhos e a prioridade aos nossos próprios interesses econômicos, que são pilares da nossa política externa, venham a ser invocados nesse contexto.

Bruno Boghossian - A cilada de Maduro

Folha de S. Paulo

Governo Lula não terá nada útil a dizer sobre um processo dominado pelo regime chavista

Na maratona de encerramento da campanha venezuelana, Nicolás Maduro incluiu em seus discursos uma encenação. Do alto do palanque, o ditador simulou o pronunciamento que quer ouvir da autoridade eleitoral do país depois do fechamento das urnas: "Com 90% das mesas apuradas, a vitória do candidato Nicolás Maduro Moros é irreversível".

Transmitir aos apoiadores convicção na vitória é o mínimo que se espera de qualquer político que leve a sério a própria candidatura. No caso de Maduro, o domínio da máquina estatal e dos aparelhos eleitorais faz com que seja impossível deixar de lado algumas desconfianças.

Hélio Schwartsman - Maduro entregará o osso?

Folha de S. Paulo

Governantes da Venezuela têm muito a perder em caso de derrota eleitoral, o que pode levá-los a medidas extremas

Receio que Nicolás Maduro e seus lugares-tenentes já tenham queimado a linha da normalidade democrática. Não me parece muito realista o cenário em que, no caso de derrota no pleito presidencial do próximo domingo (28)entreguem o poder e se preparem para disputar a próxima eleição, como recomendou Lula. Pelas pesquisas de institutos independentes, o candidato da oposição unificada, Edmundo González, tem sólida vantagem sobre Maduro, o que é compatível com a escala da ruína econômica que o governo promoveu.

Poesia | Acontece, de Pablo Neruda

 

Leila Pinheiro, Guinga - Catavento e Girassol

 

quinta-feira, 25 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Segurança e meio ambiente são desafios olímpicos

O Globo

Olimpíada de Paris quer afastar o espectro dos atentados e deixar como legado o Sena despoluído

Com 10.500 atletas de 204 países (e a equipe de refugiados), a Olimpíada de Paris, que começa oficialmente amanhã, terá na segurança e no meio ambiente seus maiores desafios. Segurança porque, pela primeira vez, a cerimônia de abertura será realizada fora de um estádio, às margens do Rio Sena, demandando ações mais complexas, além da tarefa óbvia de proteger o público. Meio ambiente porque apenas duas construções foram erguidas do zero — o novo centro aquático e a Vila Olímpica, que ficarão como legado na região deteriorada de Saint-Denis.

De resto, num esforço de sustentabilidade, toda a Olimpíada será realizada em instalações já existentes ou temporárias. Em iniciativa ousada, os organizadores decidiram levar as provas de triatlo e maratona aquática para as águas do próprio Sena, onde o banho estava proibido havia um século.

Maria Cristina Fernandes - A investida contra o devedor contumaz

Valor Econômico

Nenhum projeto simboliza melhor a borra que entope o futuro do Brasil

O fim do recesso legislativo trará à tona nova tentativa de se votar a tipificação do devedor contumaz. Nenhum projeto simboliza melhor a borra que entope o futuro do Brasil. De um lado estão algumas das maiores empresas do país e o Ministério da Fazenda. Do outro, um punhado de empresas que competem por meio da evasão fiscal, parlamentares e dirigentes partidários cooptados.

A resistência a esta tipificação vale-se cada vez mais do poder de barganha dos interessados junto ao Supremo Tribunal Federal. Na defesa de devedores contumazes estão alguns dos maiores escritórios de advocacia do país, alguns dos quais com parentes de ministros e ex-ministros.

A turma da resistência oferece carona ao crime organizado, cada vez mais espraiado na economia, e deixa a pé não apenas políticas públicas desprovidas de bilhões de reais quanto o poder do Estado na garantia de um ambiente de negócios seguro.

Nelson Niero - A disparada do dólar não tem nada a ver com Lula

Valor Econômico

Austeridade fiscal passou longe dos discursos de campanha, e nem sequer foi apresentado uma versão final do plano de governo, para evitar polêmicas

Luiz Inácio Lula da Silva acertou em cheio quando chamou de cretinos os jornalistas de miolo-mole que mentem descaradamente ao dizer que os dólar sobe toda vez que ele abre a boca. O presidente deveria ter dito que correlação não implica em causalidade, para ensinar uma lição a esses ignorantes. Mesmo com indícios fortes, pessoas sensatas e sofisticadas sabem que é uma temeridade fazer esse tipo de alegação. Afinal, quando Lula fala, a única coisa que acontece é que o mundo se abre, se ilumina e se esclarece, como já decretou a filósofa. Simples assim. O dólar não sobe. Nunca.

Merval Pereira - Maduro em transe

O Globo

Maduro foi especialmente malicioso com seus companheiros de esquerda Lula e Gustavo Petro

A política está tão aloprada que o protoditador da Venezuela, Nicolás Maduro, saiu em defesa de Jair Bolsonaro e Donald Trump depois que o presidente brasileiro disse ter se assustado com o “banho de sangue” previsto, em caso de derrota no domingo, por seu antigo aliado.

Ao afirmar que as eleições no Brasil, nos Estados Unidos e na Colômbia não são auditáveis, ao contrário das venezuelanas, Maduro foi especialmente malicioso com seus companheiros de esquerda Lula e Gustavo Petro. Colocou-os ao lado do protótipo do direitista raivoso, Donald Trump.

Tratou especialmente Lula com requintes de maldade, logo ele, que já disse absurdos como “na Venezuela tem democracia até demais”, como se fossem todos do mesmo naipe. Para se defender do comentário de Lula, tocou num ponto nevrálgico, a lisura do sistema brasileiro de votação eletrônica, mesma tecla que Bolsonaro acionou e que deu motivo, em última instância, à tentativa de golpe bolsonarista.

Malu Gaspar - Lula, Maduro e o chá de camomila

O Globo

Nicolás Maduro não gostou de saber que Luiz Inácio Lula da Silva se disse assustado com a ameaça de que uma eventual derrota nas eleições do próximo domingo provocaria um banho de sangue. Pelo jeito, também não achou bom que Lula tenha aproveitado uma entrevista à imprensa internacional para afirmar que o banho tem que ser de voto e que o colega precisa aprender a respeitar o resultado das urnas.

De cima do palanque, Maduro respondeu: “Quem se assustou, que tome um chá de camomila”. E alfinetou: “Temos o melhor sistema eleitoral do mundo, são 16 auditorias. No Brasil, não auditam nenhuma ata”.

A troca de gentilezas pode fazer parecer que houve uma fissura na relação entre Lula e Maduro, como algumas fontes no governo andaram soprando nos bastidores. Os fatos, porém, não autorizam ir tão longe.

Luiz Carlos Azedo - Derrota de Maduro pode repetir a de Pinochet

Correio Braziliense

Maduro recorre a todos os expedientes para conter a oposição, sem sucesso até agora. A tática da oposição venezuelana se parece muito com a da oposição à ditadura chilena

Para manter a fachada de que os venezuelanos vivem num regime democrático como os demais países da América do Sul, o presidente Nícolas Maduro, sob grande pressão internacional, teve que convocar eleições presidenciais na Venezuela. Fez tudo o que pode e o que não poderia para retirar da disputa os adversários, porém, as pesquisas mostram que no próximo domingo pode ser derrotado pelo candidato de oposição Edmundo González Urrutia, o ex-diplomata que lidera a corrida presidencial com mais de 50% das intenções de voto, contra 20% de Maduro. Outros oito candidatos participam do pleito.

William Waack - Assombrações

O Estado de S. Paulo

O Brasil não consegue sair da discussão sobre contas públicas

A principal certeza sobre a questão fiscal e o governo Lula é a de que ela o assombrará até o fim do mandato. E deve se projetar também sobre seu sucessor, não importa quem seja.

A “predominância do fiscal” é uma maldição da qual seu governo não se livra mais até 2026 pelo menos. Significa dizer, do ponto de vista prático e imediato, que boa parte da política brasileira vai girar sobretudo em torno desse tema.

Ela já é uma disputa por migalhas do orçamento público, cada vez mais apertado por decisões políticas de Lula 3 – que estão encolhendo rapidamente seu espaço discricionário. Com ciclos previsíveis em função das datas que o Executivo é obrigado a cumprir, como acaba de acontecer com a apresentação do relatório bimestral de avaliação de receitas e despesas.