quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Merval Pereira - Preparando a largada

O Globo

A corrida eleitoral pela Presidência da República ganha contornos mais nítidos à medida que o prazo fatal de abril se aproxima para que os candidatos mudem de partido, no caso do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, ou decidam se candidatar, como é o caso mais notório, do ex-ministro Sergio Moro.

Os próprios parlamentares estão em movimentação nos bastidores para a troca de partidos, a partir da fusão do DEM com o PSL, de que nasceu o União Brasil, um partido feito para ter posição de protagonismo na sucessão presidencial e no Congresso que nascerá das urnas em 2022. Será o maior partido da Câmara atual e com muito dinheiro, com a soma dos fundos eleitoral e partidário dos dois, muito à frente do PT — e, portanto, tem estrutura para disputar com qualquer partido.

Essa grandeza formal garante ao partido nascente as condições ideais para uma disputa nacional, embora isso não seja o suficiente. Temos exemplos da eleição presidencial de 2018, com Geraldo Alckmim, do PSDB, ficando para trás mesmo com o maior tempo de propaganda eleitoral na televisão e no rádio. E Ulysses Guimarães, do MDB, então maior partido do país, que terminou em quarto lugar em 1989. Nos dois casos, os favoritos foram atropelados por fenômenos eleitorais inesperados, Bolsonaro e Collor.

Míriam Leitão - Dória aguarda as águas de março

O Globo

O governador João Dória diz que pesquisas qualitativas mostram que quando a pandemia passar, e as pessoas voltarem à vida normal, seu esforço pela vacinação dos brasileiros será reconhecido. Hoje, nada do que Dória fez se transformou em intenção de voto e ele está focado em disputar as prévias do PSDB para ser candidato a presidente. Em entrevista de uma hora que me concedeu, Dória admite que há uma diferença entre o ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro, ainda que os defina como “dois extremos”.

Eu havia perguntado se não haveria uma diferença entre os dois, já que Lula não ameaçou a democracia ao governar, mas Bolsonaro faz isso desde o primeiro dia:

— Eu acho que eles são dois extremos, mas reconheço que há diferenças bastante patentes, como você colocou, entre Lula e Bolsonaro. Isso não implica em desqualificar Lula no campo da extrema-esquerda. Bolsonaro está no campo da extrema-direita com muito mais danos à democracia. Mas eu acho que quem propõe o controle da mídia não é um governo de centro-esquerda, mas sim de extrema-esquerda. Já Bolsonaro hostiliza, agride e ofende a imprensa e os jornalistas.

Dória criticou o presidente da Câmara, Arthur Lira, pela proposta de mudar o ICMS dos combustíveis, por ser uma forma de “pregar no peito dos governadores” a culpa pelo aumento dos combustíveis. Ele afirma que a ideia será rejeitada.

— Essa é uma visão simplória e populista que o Palácio do Planalto transferiu a Arthur Lira para ser o porta-voz. É uma medida ineficaz apresentada como se pudesse ser adotada, e como se fosse eficiente. Ela não pode ser adotada porque os governadores movimentarão as suas bancadas e é flagrantemente ineficaz. O ICMS de São Paulo sobre combustíveis é o mesmo há décadas, incide da mesma forma em todos os produtos, e é assim em todos os estados, mas o governo quer pregar no peito dos governadores a culpa pelo aumento dos combustíveis, do gás de cozinha. Então essa circunstância (a proposta de Lira) para ele ( Bolsonaro) é muito fácil. É dizer: me livrei do problema, a culpa é dos governadores.

Malu Gaspar - O conflito de Paulo Guedes

O Globo

Na campanha de 2018, não havia entrevista ou discurso em que Paulo Guedes não mencionasse os “piratas privados” e as “criaturas do pântano político” que haviam tomado conta da máquina estatal brasileira. Era comum ele prometer que o Brasil não seria o “paraíso dos rentistas e o inferno dos empreendedores” e que em sua gestão os “super-ricos” pagariam mais impostos. Mais de uma vez, o Posto Ipiranga de Jair Bolsonaro acusou antecessores tucanos de vazar informações sobre o câmbio para o setor privado. Nos púlpitos, foi implacável com desvios de conduta e conflitos de interesses dos outros.

Mas eis que surgiu um fato novo: um megavazamento de documentos de celebridades e políticos do mundo todo revelou que Guedes tem uma offshore ativa nas Ilhas Virgens Britânicas com US$ 9,5 milhões de capital e que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, já teve quatro empresas do tipo no Panamá (hoje fechadas).

Luiz Carlos Azedo - Um olho no Lula, outro no Moro

Correio Braziliense

Ao decidir depor presencialmente no inquérito que apura sua suposta interferência na PF, Bolsonaro faz um cálculo político

Como aquele sujeito que frita o peixe com um olho na frigideira e outro no gato, o presidente Jair Bolsonaro informou, ontem, ao Supremo Tribunal Federal (STF) que pretende depor presencialmente no inquérito que apura a denúncia do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, ao renunciar ao cargo, de que estaria interferindo politicamente na Polícia Federal. O STF estava para julgar se Bolsonaro poderia prestar depoimento por escrito nesse caso, mas o ministro Alexandre de Moraes informou ao presidente da Corte, Luiz Fux, que o presidente da República havia mudado de posição.

O inquérito que investiga supostas interferências de Bolsonaro fora aberto após as denúncias de Moro, mas as investigações foram intensificadas em agosto, por determinação de Moraes. O caso é uma das razões do estresse de Bolsonaro com o STF, principalmente depois que o então relator do caso, ministro Celso de Melo, defendeu o depoimento presencial do presidente. A Advocacia-Geral da União havia recorrido dessa decisão, mas mudou de posição. A AGU afirma que Bolsonaro “manifesta perante essa Suprema Corte o seu interesse em prestar depoimento em relação aos fatos objeto deste inquérito mediante compare-cimento pessoal”. Segundo Moro, Bolsonaro tentou interferir em investigações da PF ao cobrar a troca do chefe da Polícia Federal no Rio de Janeiro e ao exonerar o então diretor-geral da corporação, Maurício Valeixo, indicado pelo ex-ministro. Bolsonaro sempre negou.

Maria Cristina Fernandes - Aos eleitores, o inferno

Valor Econômico

Câmara desconvocou Braga Netto mas confirmou Guedes

A publicidade da conta em paraíso fiscal da principal autoridade econômica do país era tudo o que os dirigentes do PP que trabalham pela filiação do presidente da República poderiam almejar. A filiação traz otimismo para as ambições da legenda, que passam pelo cargo do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mas se concentram mesmo é no Orçamento de 2022. O constrangimento do ministro da Economia vem num momento tão propício que, não fosse a independência cristalina da fonte das informações que vieram à lume, daria pra pensar que foram encomendadas.

A retaguarda governista na comissão que aprovou o requerimento de convocação de Paulo Guedes era tão frágil que a defesa do ministro coube a um deputado do Novo que nem da base do presidente é. Da leitura do requerimento de convocação até sua aprovação, por 12 votos a 8, passaram-se duas horas, tempo suficiente para uma articulação capaz de transformá-la em convite, como no Senado, adiá-la ou cancelá-la, mas isso não aconteceu.

Até num governo de base mais frágil, como o da ex-presidente Dilma Rousseff, o então presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), foi capaz de anular a convocação de um ministro, Antonio Palocci, acusado, em 2011, de acumular um vertiginoso crescimento de sua consultoria. O atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), foi ágil o suficiente para encontrar firula regimental capaz de anular a convocação do ministro da Defesa, Walter Braga Netto, em abril deste ano, para explicar a picanha superfaturada na Defesa.

Cristiano Romero - A gênese da polarização política

Valor Econômico

Polarização nasceu do mensalão e acirrou-se na gestão Dilma

O fracasso do governo da presidente Dilma Rousseff (2011-maio de 2016), responsável por jogar a economia numa das mais longas e profundas recessões de nossa história, diminuiu em amplos setores da sociedade brasileira a resistência à adoção improvável e inédita de uma agenda liberal no país. A forte e improvisada intervenção de Dilma na atividade provocou o colapso da confiança tanto dos consumidores quanto dos empresários na economia. Para tentar reanimá-la, o governo da presidente partiu para uma forma de populismo fiscal que não se via por aqui desde o início do Plano Real.

O resultado daquela experiência foi a destruição da razoável situação fiscal deixada pelas duas gestões anteriores, a volta dos déficits primários nas contas públicas (conceito que exclui do cálculo apenas os gastos com juros), o crescimento explosivo da dívida do Tesouro Nacional e das taxas de juros administradas pelo Banco Central (BC), o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e, o pior dos males - porque "as consequências vêm depois", como costumava dizer o político pernambucano Marco Maciel, citando o Barão de Itararé -, o aumento sem precedentes da taxa de desemprego.

Nos 16 anos anteriores à ascensão de Dilma Rousseff à Presidência da República, durante os governos Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), o país viveu sob a égide de um consenso tanto na política quanto na economia. Na política, ambos reconheceram rapidamente que seria impossível governar este imenso país apenas com o apoio de seu próprio partido, mesmo somando os votos de aliados tradicionais. Isoladamente, suas legendas não contavam nem 20% dos votos da Câmara dos Deputados.

William Waack - Nem o Centrão resolve

O Estado de S. Paulo

Mas os caciques enxergam a chance de ocupar de vez o Executivo, pela via eleitoral

O parlamentarismo com dois primeiros-ministros é o mais novo evento político “jabuticaba”, aquilo que só existe no Brasil. Os presidentes das duas casas legislativas é que estão lidando diretamente com dois assuntos de enorme e imediato impacto sobre o bolso de todos e de ampla repercussão política: preços dos combustíveis e tamanho dos impostos.

A taxa de sucesso até aqui é baixa. As duas operações lidam com assuntos terrivelmente técnicos e complexos, afetados pelos naturais conflitos de interesses entre os mais variados segmentos, e dependem ainda do entendimento precário entre os entes da Federação, problemão por último evidenciado na pandemia. Mas o fato político expressivo é que a agenda política está nas mãos dos dois primeiros-ministros.

Sim, o ministro da Economia – sofrendo evidente desgaste político por conta de sua offshore – compareceu a reuniões com os dois primeiros-ministros que incluíam ainda representantes de municípios, Estados e Receita Federal. Pelo menos formalmente o Executivo estava lá, mas os presidentes da Câmara e do Senado deixaram bem claro ao público que são eles os condutores de todos os processos. São eles que se dirigem à população dizendo como e quando pretendem resolver os problemas.

Eugênio Bucci* - Regular as ‘big techs’

O Estado de S. Paulo

Nunca, desde as revoluções industriais, a exploração alcançou níveis tão torpes

Para Mark Zuckerberg, dono do Facebook, do Instagram e do Whatsapp, esta foi uma semana dos infernos. Na segunda-feira, uma pane tecnológica tirou do ar as três plataformas, no mundo inteiro, por um período de mais ou menos sete horas. No Brasil, a instabilidade começou no horário do almoço. Pequenas empresas, como restaurantes e oficinas de assistência técnica, que recebem pedidos pelo Whatsapp, tiveram de parar suas operações. Muita gente não tinha como trabalhar.

Assim foi para bilhões de pessoas. Isso mesmo: bilhões. Estima-se que 2 bilhões de seres humanos, diariamente, batem ponto – na verdade, batem o ponto centenas de vezes por dia – nos terminais do que os íntimos chamam de Face, Insta e Zap. Dois bilhões de almas. Muitas dessas almas não sabem ficar sem clicar nos ícones de Mark Zuckerberg. São viciadas. Algumas tiveram surtos de ansiedade. Foi uma segunda-feira nervosa. As ações do império despencaram algo como 5% na Nasdaq, em Nova York.

Adriana Fernandes - Pandora Papers e o projeto do IR

O Estado de S. Paulo

Revisão do projeto do IR é imprescindível. Não há justificativa para não tributar os investimentos em offshore

Independentemente do desfecho, a polêmica aberta pela revelação dos investimentos mantidos em offshores pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, torna imprescindível a revisão imediata do projeto de lei que altera o Imposto de Renda.

O projeto original do governo previa a tributação dos ganhos obtidos no exterior pelas pessoas físicas com investimento em contas abertas em paraísos fiscais. Nesses países, a tributação é zero ou quase nenhuma.

A medida foi retirada pelo relator do projeto na Câmara, deputado Celso Sabino. Essa e todas as outras do “pacote antielisão fiscal” que a Receita Federal incluiu no projeto para melhorar o combate de práticas de planejamento tributário, feitas pelos contribuintes para pagar menos imposto.

Celso Ming - O aquecimento do planeta e a escassez de energia

O Estado de S. Paulo

Na transição energética, por causa da grave crise do clima, falta de energia limpa deve ser vista como estrutural

O aquecimento do planeta pode parecer o problema de fundo, mas quase todas as discussões sobre o clima se concentram sobre o principal: escassez de energia limpa.

Até quando se fala em mercado de crédito de carbono, a questão ainda é produção de energia. Desmatamento é coisa séria, mas não é o tema mais importante quando se produzem conferências e mais conferências sobre a grave crise do clima.

A disparada dos preços do petróleo e do gás natural (veja gráfico) está sendo atribuída a problemas aleatórios ou localizados, um de cada vez. Foram ventos fracos que reduziram a produção de energia eólica e obrigaram ao aumento da utilização de energia térmica a gás. Foi a disparada do calor no último verão do Hemisfério Norte que aumentou o consumo de energia elétrica para refrigeração dos ambientes. Foi o desestímulo dado à produção de gás de xisto pela nova política ambiental do presidente Joe Biden que paralisou os investimentos no setor. Foi a suspensão da produção causada no Golfo do México pelo furacão Ida. Foi a retomada da atividade econômica depois da pandemia que passou a exigir mais energia. Foi a crise hídrica, como a que atingiu em cheio o Brasil, que exigiu mais geração de energia de fontes térmicas. Enfim, no mundo os preços da energia estão disparando, turbinando a inflação e colocando em risco o crescimento econômico global.

Bruno Boghossian - Um desconto com o centrão

Folha de S. Paulo

Petista e presidente investem em candidaturas ao Congresso para reduzir dependência do bloco

Quando esteve no poder, Lula arquitetou alianças que uniam o velho PMDB e a nata de partidos do atual centrão nas votações de interesse do governo no Congresso. Em seu giro de pré-campanha por Brasília, o petista indicou que vai buscar um desconto na relação com esse bloco se for eleito novamente em 2022.

O ex-presidente pediu que o PT invista em candidaturas à Câmara e ao Senado no ano que vem. A ideia é formar bancadas mais fortes para que um eventual governo não dependa tanto de legendas que estão mais distantes da órbita da sigla.

Uma sequência de três presidentes fracos ampliou o custo das relações do Planalto com o Congresso. Dilma Rousseff ficou nas mãos da Câmara, Michel Temer abriu mão de sua influência para sobreviver a acusações de corrupção, e Jair Bolsonaro escancarou os cofres do governo para fugir do impeachment.

Vinicius Torres Freire - Cabeça de Paulo Guedes está assando

Folha de S. Paulo

Deputados governistas veem ministro lento e querem assumir parte da economia

Paulo Guedes foi convocado pela Câmara para explicar os dinheiros que mantém lá fora. Foram 310 votos a favor da malhação do ministro da Economia, 142 contra. Ainda que tenha cumprido todas as formalidades, Guedes vai aparecer na mídia e nas redes como o ministro ricaço que “não acredita no Brasil” e diz as barbaridades de costume sobre pobres. É um sinal de desprestígio e de que parlamentares querem tirar uma casquinha demagógica de um assunto que se tornou mais “pop” do que o desgoverno da economia.

Mas há outros sinais relevantes de que a cabeça de Guedes está assando, embora não deva ser queimada por agora. O ministro vale mais como pato manco vivo do que morto.

Maria Hermínia Tavares - A onda anticorrupção se foi e nada deixou

Folha de S. Paulo

A certeza de que política e corrupção são unha e carne é disseminada entre os brasileiros

O forte sentimento de repulsa à corrupção foi central na crise que irrompeu em 2013 e desembocou na eleição de Bolsonaro daí a cinco anos. Cabe agora perguntar se terá algum papel nas urnas de 2022.

Décadas atrás, o pensador americano Theodore Lowi observou que o tema decerto tinha menos a ver com a presumível multiplicação das falcatruas —coisa difícil de medir— do que com a sua serventia como arma política em disputas acirradas. Argumentou ainda que, nessa condição, por não exprimir um compromisso permanente de partidos ou líderes, mais parecia uma sequência de ondas fadadas a perder força depois de arrebentar.

Ruy Castro - Sem Facebook e tudo bem

Folha de S. Paulo

2,7 bilhões de pessoas se desesperaram sem ele; mas, para outros 5,1 bilhões, não fez diferença

Na segunda (4), dia do apagão do Facebook e derivados, meu telefone fixo não tocou mais que o de sempre. Continuou a tocar pouco. Meu email também não recebeu mais mensagens que o normal. Só o bastante para me manter razoavelmente conectado ao planeta. E ninguém me bateu à porta em desespero por uma xícara de açúcar. Como a maioria de meus amigos e conhecidos sabe que não pertenço a redes sociais nem troco mensagens por WhatsApp e sequer possuo celular, as pessoas não tiveram de se rebaixar àqueles meios primitivos para se comunicar comigo —não mais que o de costume, o que fazem achando graça.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Medicina à deriva

Folha de S. Paulo

Casos Prevent Senior e Hapvida expõem falhas de entidades; CFM sai apequenado

Hospitais são estruturas extremamente complexas e, por isso, sujeitam-se à fiscalização de uma legião de entidades, aí incluídos o Corpo de Bombeiros, órgãos de vigilância sanitária nos três níveis de governo e comitês de ética.

Têm papel importante, também, os conselhos profissionais em suas versões nacionais e regionais. Fala-se aqui do Conselho Federal de Medicina (CFM), dos CRMs (regionais), do Cofen e dos Corens (na área de enfermagem) e de seus congêneres para farmacêuticos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e dentistas.

Há ainda, obviamente, os órgãos fiscalizadores genéricos, como o Ministério da Saúde, os ministérios públicos e, no caso de hospitais públicos ou que utilizem verbas públicas, os tribunais de contas.

A esta altura, pode-se perguntar como, havendo tantos agentes de regulação e monitoramento, não se evitou o festival de abusos agora sob investigação nos casos da Prevent Senior e da Hapvida durante a pandemia. A profusão de atores é parte da resposta.

Um bom modo de não responsabilizar ninguém consiste em multiplicar o número de fiscais. Ainda que as esferas de atuação de cada órgão estejam razoavelmente bem definidas, sobram zonas cinzentas.

Poesia | Pablo Neruda - Se você me esquecer

 

Música | Moacyr Luz - Mulher Lunar (Aldir Blanc Inédito)

 

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Rosângela Bittar - Atrás do próprio rabo

O Estado de S. Paulo

Tanto para Lula quanto para Bolsonaro, centro é uma palavra despida de conceitos

Dois candidatos a presidente e uma ideia fixa: a utopia do centro. Bolsonaro, que se acha predestinado a manter-se no poder, por sua conta e risco; e Lula, que se imagina garfado pela História e quer reaver o lugar.

O primeiro, só pensa em golpe. O segundo, em compensação por um golpe que não houve. Impeachment não é golpe. É processo político constitucional.

Lula acredita ter direitos adquiridos depois de vencer quatro eleições presidenciais, duas para ele mesmo e duas para um poste.

Ambos dedicam-se a reconquistar os votos do centro que, um dia, acidentalmente, foram seus. Imaginem, logo os eleitores do centro! Equidistantes dos extremos que os dois, de fato, representam. Há um impasse a romper. Sozinhos, não vencem. E os votos do centro mantêm-se ainda perplexos. Preferem a alternativa de esperar que surja o seu candidato confiável.

José Augusto Guilhon Albuquerque* - Varias ambições na falta de estratégia

O Estado de S. Paulo

Centrão opera como minoria de veto, mas é incapaz de convergir sobre agendas positivas

Estamos numa democracia representativa, e o cidadão é o único portador da soberania do Estado. Melhor dizendo: ainda estamos numa democracia e o Estado de Direito funciona, mas a insegurança jurídica é a única certeza. As instituições operam de maneira disfuncional. Os privilégios e as desigualdades crescem ou se consolidam. E a autoridade do cidadão sobre seus representantes sofre a ameaça de uma reforma eleitoral que esvazia, ainda mais, o papel do eleitor. Como se não bastasse, um golpe de Estado está em andamento desde 2019, ante a omissão dos Poderes da República.

Além dos desafios sanitários, econômicos e sociais que ameaçam nossa sobrevivência como nação livre, enfrentar a ameaça golpista é a condição necessária para enfrentar as demais. Encarar tal ameaça exige definir um objetivo, isto é, enfrentar, contornar ou adaptar-se a ela. Exige, também, mobilizar recursos para atingir esse objetivo inescapável: recursos de poder, econômicos, institucionais, políticos, de capacidade de gestão pública, de liderança, etc. Ou seja, confrontar-se com uma ameaça letal implica responder a esses elementos básicos de uma estratégia.

Falta um movimento decidido das instituições e de suas lideranças para cumprir tais requisitos. Em primeiro lugar, não há convergência, nem muito menos consenso, sobre a ameaça letal à Nação provocada pelo golpe em andamento.

Para alguns, o que deve ser combatido, acima de tudo, é a ameaça de perder as eleições, como é o caso de Lula, do PT, e de parte dos partidos de esquerda – e também de Ciro Gomes e João Doria, embora não necessariamente de seus respectivos partidos. A prioridade máxima do objetivo eleitoral obriga esses candidatos a adotarem uma estratégia ambivalente em face da ameaça de golpe. Para todos eles, é vital garantir Bolsonaro nas urnas e, para isso, é preciso mantê-lo no poder.

Roberto DaMatta* - Dentro do meu coração...

O Estado de S. Paulo

“Somos sensíveis, amorosos, desagradáveis e instáveis porque (querendo ou não) temos um coração. Grande ou pequeno, generoso ou sovina, vaidoso ou humilde, duro ou mole. Quando ele para de bater é sinal de que o nosso corpo anoiteceu na profunda indiferença da morte.”

Ademais – continuou Demostenes, um amigo de infância que se recupera de um ataque cardíaco hospedado aqui em casa –, o coração é uma gaveta ou uma imensa caixa-forte guardadora de sentimentos, acontecimentos e pessoas. Sendo músculo e bomba, ele tem afinidade com os atletas e com os que jamais deixam de trabalhar. Mas, como os velhos automóveis, pode parar de funcionar.

– Olha, Roberto – continuou Demostenes com a serenidade de velho amigo –, enquanto a anestesia dopava a minha consciência, eu ouvia a minha alma e a equipe de médicos que futucava meu coração. Pensei no dentista e, surpreso, descobri que tratar de uma cárie era pior do que a viagem que os cirurgiões faziam no meu coração.

– Verdade? Ainda bem que não doeu nada – falei entre o descrente e o aliviado.

Fernando Exman - Começa a temporada de trombas d'água

Valor Econômico

Sinais em discursos e reuniões de Lula demandam atenção

No Planalto Central, a primavera chega para aliviar o irrespirável ar que caracteriza o fim do período de seca. A estiagem é brutal. Mas, acostuma-se a conviver com os baixíssimos índices de umidade. Há até quem agradeça a previsibilidade que a seca proporciona e dela se aproveite para programar os fins de semana, feriados, viagens e eventos ao ar livre, algo que fica mais difícil de se fazer com o início da estação chuvosa.

É neste momento, também, que crescem as ocorrências de trombas d’água nos rios e cachoeiras da região, arrebatador fenômeno natural que passou a ser usado por petistas para descrever o retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à arena eleitoral.

Trombas d’água, como também são conhecidas as chamadas “cabeças d’água” em algumas regiões, exigem atenção. Elas costumam pegar de surpresa os mais incautos que, seguros de si, menosprezam os alertas do ambiente que os cerca.

Daniel Rittner - Onde está o Brasil nas cadeias globais de valor

Valor Econômico

País está muito mal posicionado, mas há oportunidades no ar

Na década de 1990, o comércio exterior de bens e serviços se organizou em torno das cadeias globais de valor. Trata-se de um arranjo produtivo com elevado grau de fragmentação, em que distintas atividades e etapas do processo industrial ficam espalhadas por vários países ou regiões. Cadeia de valor, em outras palavras, é o “caminho” da produção que um determinado bem percorre até chegar nas mãos do destinatário final. Esse caminho possui uma série de fases que se conectam: pesquisa e desenvolvimento, compra de insumos, fabricação, distribuição, venda, pós-venda (treinamento e manutenção).

Pegue-se o exemplo de um aparelho de telefone celular: ele pode ter seu projeto concebido no Vale do Silício, reunir peças fabricadas no Leste Europeu e baterias com lítio explorado na Bolívia, incorporar softwares desenvolvidos no Canadá e em Portugal, ser montado na China e concentrar a assistência ao cliente num call center na Índia.

Hélio Schwartsman - Encontros com a verdade

Folha de S. Paulo

Reino Unido perdeu, até o final de 2019, entre 20 bilhões e 40 bilhões de libras

Todo mundo mente um pouco, e políticos mentem mais. Mas há mentiras e mentiras. Há as, digamos, lavadas e as deslavadas. As lavadas são aquelas que o eleitor de alguma forma espera. É quase uma instituição candidatos rebuscarem o discurso sobre seus feitos pretéritos e exagerarem nas promessas de campanha. As deslavadas são mais perigosas. Elas às vezes se chocam com a realidade de uma forma que complicam o futuro do político que as proferiu.

Isso pode estar acontecendo agora no Reino Unido. Os defensores do Brexit juraram durante a campanha que o divórcio da União Europeia não apenas não lhes causaria dor como ainda lhes renderia dividendos econômicos que permitiriam investir 350 milhões de libras por semana no sistema de saúde. É claro que isso nunca foi verdade.

Vinicius Torres Freire - Gasolina para ricos, fome para os pobres

Folha de S. Paulo

Bolsonaro e Lira querem dinheiro de estados e cidades para bancar combustível

Jair Bolsonaro e Arthur Lira querem tirar dinheiro de estados e cidades para bancar também a redução do preço da gasolina de rico. Bolsonaro e Lira, o presidente da Câmara, querem diminuir o preço dos combustíveis para todo mundo por meio da redução da cobrança do ICMS, imposto estadual.

É uma mutreta que não tem sentido social, econômico ou mesmo efeito prático relevante. É uma tentativa de limpar a barra de Bolsonaro, suja também por causa da carestia dos combustíveis, em parte culpa de Bolsonaro-Guedes. O dólar por aqui foi às alturas também porque essa dupla promove baderna política e econômica. O real foi a moeda que mais se desvalorizou desde o início da epidemia, entre as 38 acompanhadas pelo FMI.

No plano Lira, a redução seria de centavos, se tanto, no caso de gasolina e diesel. Todo mundo teria direito à redução do imposto, à mesma redução do preço de gasolina e diesel, desde que consuma esses produtos ou compre bens e serviços que são afetados pelo preço dos combustíveis.

Maríliz Pereira Jorge - Bolsonaro derrete

Folha de S. Paulo

Inflação e economia minam a sua popularidade

 “A inflação está comendo a popularidade do presidente.” A avaliação é do diretor da Quaest, Felipe Nunes, sobre os resultados mais recentes de pesquisa, que vai da avaliação de Jair Bolsonaro a preferências do eleitorado para 2022.

Não por acaso, está na ordem do dia o desespero do governo em viabilizar o programa social que deve substituir o Bolsa Família e ganhar um carimbo de Bolsonaro. Tudo para tentar reverter a queda livre na qual despenca a reputação do presidente. Quanto menos favorecidos, mais críticos ao desempenho de sua gestão.

O pior resultado é entre as pessoas que ganham até dois salários mínimos. Para 58% a avaliação é negativa, 22% acham o governo regular, enquanto para 17% o saldo é positivo. A reprovação cai para 49% entre os que ganham mais de cinco salários. Nessa faixa, 26% o consideram regular e 24% têm opinião positiva.

Vera Magalhães - Desespero eleitoral inflaciona custo Bolsonaro

O Globo

Nunca houve um presidente da República que tenha provocado tantos retrocessos ao Brasil como Jair Bolsonaro nem um governo tão disfuncional quanto o seu. O fato novo a menos de um ano das eleições é que nunca existiu um candidato à reeleição com tantos flancos de exposição e tantos recordes negativos quanto ele. E isso é um fator a agravar exponencialmente o já impagável custo Bolsonaro.

Temos o primeiro presidente a buscar ser reeleito sem ter sequer um partido, que não lidera as intenções de voto, que tem o governo mais mal avaliado desde que o instituto da reeleição foi criado, que ostenta o maior índice de desempregados e que é, de todos os que disputaram novo mandato, aquele cujo governo enfrenta a maior inflação (acima dos 10% em 12 meses) um ano antes do pleito.

Saindo dos índices mensuráveis, quando se entra na seara política, o que se tem é um presidente isolado, inconfiável aos olhos das instituições, cujas decisões passaram a ser manietadas, quando não abertamente tuteladas, pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso.

Bruno Boghossian - Um ministro em duplo conflito

Folha de S. Paulo

Ministro protege patrimônio no exterior enquanto pede sacrifícios no Brasil

Ainda no primeiro ano de governo, Paulo Guedes avisou que o país deveria se acostumar com um real desvalorizado. “O dólar está alto? Problema nenhum, zero”, declarou. Na ocasião, ele descrevia os efeitos de uma nova política econômica, com juros mais baixos. Agora, os brasileiros descobriram que o patrimônio do ministro cresce a cada vez que a cotação da moeda americana sobe.

Agentes públicos devem afastar situações que afetem interesses particulares porque precisam evitar que suas decisões no poder fiquem sob suspeita. Guedes pode acreditar que o dólar nas alturas favorece a dinâmica atual da economia brasileira, mas a titularidade de depósitos no exterior faz com que o ministro protagonize um conflito duplo.

Luiz Carlos Azedo - Diga ao povo que saio

Correio Braziliense

Há um rosário de decisões de Guedes que o beneficiaram financeiramente, sem que tivesse que fazer uma nova aplicação em sua conta no exterior

Tem coisas no Brasil difíceis de entender. Por exemplo: Dom Pedro I, que proclamou a Independência, é homenageado com uma das menores ruas do Centro Histórico do Rio de Janeiro, nossa capital de 1763 até 1960, quando a sede do governo foi transferida para Brasília. Começa na Praça Tiradentes, ao lado do Teatro Carlos Gomes, e termina na Rua do Senado, com 141 endereços, 112 residências, 24 estabelecimentos comerciais, três prédios inacabados e 227 moradores, com uma renda média de R$ 1,143. Dependendo do prédio, o preço de um apartamento varia de R$ 3 mil a R$ 8 mil o metro quadrado.

Como já começamos a contagem regressiva para o Bicentenário da Independência, vale o desagravo. Essa lembrança veio em razão do trocadilho do título da coluna com a decisão de Pedro I de não regressar a Lisboa, contrariando as ordens das Cortes Portuguesas, em 9 de janeiro de 1822: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto. Digam ao povo que fico”. O Dia do Fico, referência à frase célebre, foi uma preparação para a proclamação da Independência, em 7 de setembro de 1822.

Elio Gaspari - De Pedro II@gov para Paulo Guedes

O Globo / Folha de S. Paulo

Senhor ministro,

De cá onde estou, há tempo o Barão de Mauá me mostrava assombrado vossas contas no “Encouraçado Internacional”, naquela possessão inglesa que hoje vocês chamam de paraíso fiscal. Como não podemos tratar com o que sabemos, só agora lhe falo. Repito o que disse aos oficiais que me escoltaram para o exílio em novembro de 1889: “Os senhores são uns doidos”.

Outro dia escrevi ao doutor Fábio Jatene, a quem vocês trataram como doido quando ele apontou para a gravidade da epidemia. Agora, escrevo-lhe para pedir-vos que atentem para a necessidade dos exemplos. O doutor Getúlio Vargas e o marechal Castello Branco pediram-me que o fizesse. Eles governaram o Brasil sem fortuna. Vosmicê a fez antes de ir para o ministério, sem se meter em traquinadas. Vosso problema é de outra ordem. Já chamou os miseráveis de invisíveis, reclamou das empregadas que vão à Disney e dos filhos de porteiros que chegam à universidade.

Cristovam Buarque* - Paulo Freire, hoje

Correio Braziliense

São raros os pensadores cujas obras atravessam o tempo: Paulo Freire é um desses. Por isso, estamos comemorando seu centenário. Eles têm em comum o fato de mostrarem o mundo de uma maneira diferente de como ele aparecia antes. Como Copérnico, que mostrou que a Terra girava ao redor do Sol, o que parecia impossível à época. Com ineditismo, Paulo Freire mostrou que a educação não se faz apenas do professor para o aluno, mas em uma interação entre eles e as coisas que os rodeiam. A partir dessa visão, revolucionou a maneira de alfabetizar os adultos. 

No lugar dos velhos métodos de ensiná-los como se faz com crianças, ele formulou o seu método: substituir o professor que chega com a cartilha pronta, por uma construída depois de pesquisa, identificando palavras que o aluno usa no seu dia a dia. No lugar de u-v-a igual a uva, m-a-n-g-a igual a manga, no lugar de n-e-v-e igual a neve, usar f-o-m-e como fome. Essa mudança simples, que hoje parece óbvia, representou uma mutação epistemológica, característica de um gênio. Paulo Freire deu o toque de mudança para explicar o mundo e dizer como transformá-lo. 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Divisão na oposição a Bolsonaro terá consequência na urna em 2022

O Globo

Faltando um ano para as eleições em que 145 milhões de brasileiros irão às urnas escolher presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais, as forças políticas contrárias ao presidente Jair Bolsonaro seguem divididas. No último sábado, em ato contra o governo organizado pelo PT e por outras siglas de esquerda, 71% dos 662 entrevistados na Avenida Paulista pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP, afirmaram que jamais participariam de manifestação com o Movimento Brasil Livre (MBL), organizador dos protestos contra Bolsonaro no dia 12 de setembro. Metade dos entrevistados disse o mesmo sobre o DEM, 42% a respeito do PSDB e 24% do PDT.

O pré-candidato pedetista, Ciro Gomes, chegou a ser agredido na manifestação. Atiraram uma garrafa na direção dele e arremessaram pedaços de madeira no carro que o transportava. A reação da liderança petista foi lastimável. Depois que Ciro propôs uma “trégua de Natal” na esquerda, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, tentou culpar a vítima pelas agressões. “Até agora é ele quem tem atacado a gente”, disse. Só depois acrescentou que “o PT nunca estimulou” a violência.

A manifestação se tornou um ensaio da campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A estratégia petista para 2022 depende do isolamento tanto de Ciro quanto dos partidos da centro-direita antibolsonarista. Não é à toa que, entre os entrevistados, 43% afirmaram que esquerda e direita deveriam fazer manifestações separadas.

Em pesquisa na manifestação da centro-direita em setembro, 78% disseram que direita e esquerda deveriam fazer protestos conjuntos. A rejeição à aproximação foi menor: 38% disseram que não participariam de protestos com o PT, 33% com a CUT e o mesmo percentual com o MTST. Novamente, isso reflete a estratégia dos candidatos associados à terceira via entre Lula e Bolsonaro, que só têm chance se promoverem uma união que ultrapasse o próprio círculo político. Não é casual que, no ato da centro-direita, 85% tenham dito ser necessária uma ampla aliança para o impeachment de Bolsonaro, ante 66% no da esquerda.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Música | Leila Pinheiro, Guinga - Navio Negreiro (Aldir Blanc Inédito)

 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Luiz Fux* - O único caminho

O Globo

Brasília, 5 de outubro de 1988. Os relógios marcavam 15h50 quando o plenário da Câmara dos Deputados reverberou o desejo de mudança que ecoava nas ruas do país. Nascia a Constituição Cidadã, fruto do trabalho intenso da Assembleia Nacional Constituinte, com a ampla colaboração de cidadãos, entidades representativas, agentes políticos e movimentos sociais.

Em seus 245 artigos, a Carta Maior inaugurou um novo capítulo da história brasileira, concretizando um pacto nacional pela liberdade e pela igualdade de oportunidades, num ambiente sedimentado por valores republicanos e democráticos. O texto constitucional incorporou um catálogo monumental de direitos humanos, modernizou o Estado e dinamizou a economia, direcionando o país rumo ao desenvolvimento sem se descuidar do combate ao patrimonialismo e à corrupção, da erradicação da miséria e da redução das desigualdades sociais.

Esse novo Brasil elegeu a Constituição de 1988 como a principal porta-voz da soberania popular e se comprometeu com as liberdades públicas de expressão, de crença, de empreendimento econômico e de manifestações artísticas e científicas, duramente conquistadas ao longo de nossa história.

Na data de hoje, celebramos 33 anos da promulgação da Constituição. Daquela tarde até hoje, não percorremos um caminho fácil. Dois impeachments, inúmeros escândalos de corrupção estrutural e severas crises econômicas e políticas, entre outras instabilidades, testaram nosso projeto de nação. Mais recentemente, as instituições vêm atravessando o mais severo teste de resiliência e de confiança desde a redemocratização, intensificado por uma pandemia mundial que tem ceifado vidas e desafiado a economia com desemprego e inflação.

Merval Pereira - Missão: redução da desigualdade

O Globo

Recentemente, a propósito da tentativa de aprovar a volta dos jogos de azar no país, petistas denunciaram que o sonho de Bolsonaro é transformar o Brasil numa Cuba da época do ditador Fulgencio Batista, um cassino onde os americanos iam se divertir. Os bolsonaristas há muito atacam o PT afirmando que o ex-presidente Lula pretende transformar o Brasil numa ditadura como a cubana, regime apoiado pelo petismo.

O paralelo cruzado reflete bem a polarização que já está marcando a campanha presidencial antecipada do ano que vem e escancara o caminho que existe para uma candidatura de terceira via que tenha um projeto para o país que não seja nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O grande problema do mundo atualmente é a desigualdade de renda, que sempre esteve presente, mas ganhou dimensão planetária nos últimos anos, especialmente em países periféricos como o Brasil.

Não apenas no Brasil, a relação entre democracia e capitalismo já não é mais tão absoluta quanto foi nos últimos anos do século passado. Buscam-se modelos para aperfeiçoar a democracia representativa, que tem como um dos pilares a ideia de “uma pessoa, um voto”, criticada na China, pois não levaria às escolhas mais corretas, muito sujeitas a pressões financeiras.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - O pensamento (conservador) antiliberal

Valor Econômico

É assustadora a indigência cultural dos que se vêem acima dos cidadãos livres e iguais em sua diversidade

Instigado (ou provocado?) pelo avanço do pensamento conservador no Brasil e no mundo, cuidei de me entregar à releitura do livro de Karl Mannheim sobre o tema. “O Pensamento Conservador” é mais uma obra que enriquece os estudos do grande sociólogo, considerado o patrono da sociologia do conhecimento. Os leitores devem saber que ele escreveu um livro fundador - “Ideologia e Utopia” - para o desvendamento das raízes sociais e culturais do pensamento nos mundos da modernidade.

Mannheim morreu em 1947 aos 55 anos, na aurora do período mais glorioso e igualitário do capitalismo na Europa e nos Estados Unidos. Entre outras obras, escreveu os clássicos “Ideologia e Utopia” e “Ensaios Sobre a Sociologia da Cultura”. No livro “Liberdade, Poder e Planejamento Democrático”, publicado postumamente, cuidou do papel da educação no fortalecimento das democracias que acordavam dos pesadelos totalitários dos anos 1930.

Mannheim acolhe a ideia de Ortega y Gasset sobre o homem educado: aquele que se distingue pelo conhecimento das filosofias que regem sua época. Isso deveria ser complementado, diz ele, por um conhecimento dos fatos que permitam a todos formar ideias sólidas acerca do lugar do homem na natureza e na sociedade. Cabe à educação examinar os problemas de nossa sociedade, especialmente aqueles relacionados com a vida democrática. Uma vez tratadas essas questões fundamentais para o homem moderno, o estudante vai encontrar o lugar adequado para a boa formação profissional.

Ainda no livro “Liberdade, Poder e Planejamento Democrático”, Mannheim escreveu: “... não devemos restringir o nosso conceito de poder ao poder político. Trataremos do poder econômico e administrativo, assim como do poder de persuasão que se manifesta através da religião, da educação e dos meios de comunicação de massa, tais como a imprensa, o cinema e a radiodifusão”. Para Mannheim, deve-se temer menos os governos, que podemos controlar e substituir, e muito mais os poderes que exercem sua influência no “interior” das sociedades.