sábado, 4 de setembro de 2021

Fernando Schüler - A polarização como vício

Revista Veja

Para um bom número de pessoas, ajudar a pôr fogo no circo se tornou um bom negócio. Mas um certo cansaço da gritaria já começa a se fazer sentir

A polarização está em toda parte. Os grupos de WhatsApp se tornaram uma empreitada difícil. Você entra em um grupo para discutir a obra de Santo Agostinho e uma semana depois passa a receber, de hora em hora, figurinhas, vídeos e “alertas” sobre Lula ou Bolsonaro. Nada contra, é um direito das pessoas. De certo modo, direito ao trivial. As coxas do Lula, o fumacê dos tanques em Brasília, o último golpe dado por não sei quem, tudo isso que parece divertir nosso cotidiano político, mas talvez não devesse.

Há um lado mais complicado nisso tudo. Além de explodir amizades e partidos (o Novo está aí para mostrar), a polarização obsessiva traz um problema à governabilidade do país. Gera um clima de incerteza que desestimula investimentos, prejudica a formação de consensos mínimos para reformas e, o mais importante, afeta o funcionamento das instituições, gerando incentivos para que seus titulares entrem em um tipo de jogo que jamais deveriam entrar. Nem aí para essas coisas, nos preparamos para assistir a mais dois dias de comícios, um “em defesa das liberdades” e outro “contra o fascismo”, num exercício de grandiloquência a gosto pela toxina política poucas vezes visto por estas bandas.

A polarização atende a um tipo de mercado. Diante do avanço dos meios digitais, parte da mídia abre mão do distanciamento jornalístico e passa a atender nichos de opinião que lhe garantam uma audiência fiel. Ganha espaço o jornalista-militante, o blogueiro, o youtuber, em múltiplas plataformas digitais. A regra é simples, como li por esses dias: “se você não causar”, se não for capaz de atiçar os instintos de uma tribo política, “não terá audiência”. Vale o mesmo para políticos, em busca de repercussão fácil. E em menor escala para magistrados, policiais ou promotores, alçados a líderes de opinião. Criou-se uma economia da polarização. Para um bom número de pessoas, ajudar a pôr fogo no circo se tornou um bom negócio.

Ricardo Noblat - À medida que se enfraquece, mais perigoso Bolsonaro se torna

Blog do Noblat / Metrópoles

Até que melhore, a situação ainda vai piorar muito

Quanto mais isolado fica, mais perigoso se torna Jair Bolsonaro. Quanto mais votos ele perde como candidato à reeleição, mais dobra sua aposta no golpe que o manteria no poder.

Se não há consenso político para derrubá-lo, também não haverá para fazê-lo ditador caso seja derrotado na eleição do ano que vem – mas isso não o impedirá de continuar tentando até lá.

“A situação ainda vai piorar muito antes que possa começar a melhorar”, disse, ontem, a este blog um ministro do Supremo Tribunal Federal. Com ele concordam políticos de todas as cores.

Hélio Schwartsman - Há chance de golpe no 7 de Setembro?

Folha de S. Paulo

Tudo o que não é proibido pelas leis da física pode acontecer

Tudo o que não é proibido pelas leis da física pode acontecer, o que inclui a possibilidade de a estátua do Borba Gato sair andando pela avenida Santo Amaro e de Jair Bolsonaro ser coroado rei no próximo dia 8.

Tais eventos, porém, têm uma probabilidade tão diminuta de ocorrer que podemos considerá-los na prática impossíveis. A chance de Jair Bolsonaro tentar dar um golpe não é, infelizmente, tão remota. Pelo contrário, é bastante real. A boa notícia é que a probabilidade de ter êxito numa empreitada dessa natureza é pequena e diminui a cada dia.

Cristina Serra - A demência golpista de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Melhor faria a oposição se o deixasse latindo sozinho neste feriado

Já chamei Bolsonaro de muita coisa: genocida, ecocida, sabotador-geral da República, agente de infecção, parceiro do vírus, arruaceiro. De fato, ele é tudo isso. Mas o qualificativo que melhor o define é terrorista. Sabemos disso desde 1987, quando a revista Veja publicou plano elaborado por ele para explodir bombas em quartéis em protesto contra os baixos salários da tropa.

Terrorismo e golpismo andam juntos. Não é coincidência que um de seus conselheiros, o general Augusto Heleno, tenha sido ajudante de ordens de Sílvio Frota, ministro do Exército do ditador Geisel, nos anos 1970. Linha-dura, como se dizia na época, Frota, um sujeito de mente delirante, tentou dar um golpe dentro do golpe contra Geisel, por considerar que o comunismo estava tomando conta do governo.

Adriana Fernandes – Transações tenebrosas

O Estado de S. Paulo

Perda de arrecadação com IR vai abastecer grupos já privilegiados

Na véspera das manifestações do Sete de Setembro, o presidente da CâmaraArthur Lira, impôs a votação da reforma do Imposto de Renda na marra e acelerou a apresentação do parecer da reforma administrativa na tentativa de mostrar que está tudo tranquilo como dantes no quartel em Abrantes, enquanto o presidente Jair Bolsonaro subia o tom dos ataques ao Supremo Tribunal Federal.

Lira conseguiu votar o seu projeto de reforma tributária, com apoio dos partidos de esquerda, mas não ganhou. Nem ele, nem o Centrão governista e, muito menos, os partidos de oposição que fizeram um acordão para aprovar o projeto numa votação marcada pelo atropelo e por negociações no escuro.

Unidos no rolo compressor, carimbaram um projeto ruim e com distorções que aumentam, sim, a regressividade do sistema tributário. O momento, pós-pandemia que acentuou a miséria, exigia uma reforma da tributação decente com uma mudança no sistema na direção de maior progressividade. Os mais pobres deste País não ganharam com o texto aprovado.

João Gabriel de Lima - As ruas, a democracia e o 7 de Setembro

O Estado de S. Paulo

Nossa democracia vibrante, batizada nas ruas, não pode ser abalada por radicais

O batismo de nossa democracia se deu nas ruas, com a campanha das Diretas-Já. De lá para cá, as manifestações se incorporaram ao cotidiano de nossa vida política. Manifestações que costumam ser civilizadas na forma – até para o padrão de regimes de liberdade mais maduros, como França e Estados Unidos – e democráticas no conteúdo. Protestamos contra a inflação, por sistemas de saúde e educação “padrão Fifa” e por leis mais duras de combate à corrupção – ou seja, pelo aprofundamento dos aspectos sociais e éticos de nossa democracia. 

Se as ruas foram a pia batismal do nosso regime de liberdade, a certidão de nascimento foi a Constituição de 1988. Mesmo com algumas contradições, ela nos desafia a implantar um Estado de bem-estar social. Além disso, ao passar o poder para as mãos dos civis, nossa Constituição estabelece de forma clara o papel dos militares. Em seu livro Dano Colateral, a jornalista Natalia Viana lembra como foi redigido o artigo sobre a “Garantia da Lei e da Ordem”. No texto fica claro que o Exército não é um “poder moderador”, podendo atuar apenas quando convocado por poderes civis. 

Marcus Pestana* - Pátria minha

O grande poeta Vinicius de Moraes, no exílio, durante os obscuros anos de ditadura, rascunhou carinhosa homenagem em forma de poema ao seu país. “A minha pátria é como se não fosse, é intima. Doçura e vontade de chorar, uma criança dormindo. É minha pátria. Por isso, no exilio, assistindo dormir meu filho, choro de saudades da minha pátria”. “Não te direi o nome, pátria minha. Teu nome é pátria amada, é patriazinha, não rima com mãe gentil. Vives em mim como filha, que és. Uma ilha de ternura, A ilha Brasil, talvez”.

Aproxima-se o 7 de setembro. No próximo ano, completaremos 200 anos de Independência. Infelizmente, em 2021, estamos envoltos numa névoa de temores, rancores e ameaças.  O 4 de julho, nos Estados Unidos, é estuário do sentimento de patriotismo do povo americano, independente de convicções políticas ou ideológicas. Assim também é a comemoração da Queda da Bastilha, no 14 de julho. Esse feriado de 2021 seria um bom momento de pausa para reflexão sobre nossa trajetória como povo e Nação, nossas virtudes e mazelas, nossos avanços e desafios. Mas o país estará dividido.

George Gurgel de Oliveira* - O 7 de setembro: a afirmação da República e da Democracia

O que acontecerá no Brasil, no próximo dia 7 de setembro, quando estaremos comemorando os 199 anos de independência do Brasil. O que temos a comemorar? Quais são os nossos desafios históricos e atuais no caminho de uma sociedade democrática e sustentável?

O que está acontecendo no Brasil e com o Brasil a partir da vitória de Bolsonaro, sua chegada à Presidência da República e como tem sido o exercício do mandato bolsonarista e quais são as forças políticas que viabilizaram sua chegada ao poder e ainda o apóiam hoje neste cenário preocupante da vida política, econômica e social brasileira, às vésperas do 7 de setembro?

No Brasil, a polarização da cena política, acentuada de uma maneira contundente nas últimas eleições presidenciais, levou Jair Bolsonaro à Presidência em 2018. As forças conservadoras chegaram ao poder pelo voto, com apoio dos militares, através de uma liderança que foi menosprezada até às eleições pelos partidos hegemônicos da política brasileira que venceram a maioria das eleições, desde a Constituição democrática e cidadã de 1988.

Assim, a vitória de Bolsonaro foi uma consagradora vitória das forças conservadoras, do discurso econômico neoliberal, de uma participação efetiva dos militares que voltam à cena política e a derrota daquelas forças políticas fiadoras da transição democrática e que estiveram de maneira alternada no centro do poder no Brasil, nos últimos 30 anos. Foi principalmente a derrota do PSDB e do PT, de como agiram e exerceram o poder durante os mandatos na Presidência da República, antes da eleição de Bolsonaro.

O que ainda está por vir neste cenário de discursos extremados que dominam o cenário político brasileiro em plena pandemia?

Quais são as alternativas e as bandeiras a serem defendidas que nos levem à afirmação e à comemoração da democracia tão duramente conquistada pela sociedade brasileira no próximo 7 de setembro?

Elimar Pinheiro do Nascimento* - Duas ou três ideias antes do 7 de Setembro

Especialistas, amigos ou conhecidos, têm-me dito que não há qualquer possibilidade de golpe militar no Brasil nos dias de hoje. Como já vivi um bom tempo, desconfio. Nas vésperas do golpe de 1964, ainda garoto, escutava a conversa dos mais velhos de que não havia possibilidade de golpe porque Jango tinha um esquema militar. Alguns anos depois, já estudante universitário, pensei ir viver no Chile e consultando amigos que conheciam o país, todos me disseram, em 1972, que não havia possibilidade de golpe, Chile não tinha esta tradição e os seus generais eram constitucionalistas. Se os especialistas de ontem falharam porque os de hoje não falharão?

Os argumentos em favor da impossibilidade de golpe hoje são outros. O que é normal, afinal, a sociedade brasileira é mais complexa e mais moderna, e o contexto internacional, com o fim da guerra fria, é melhor acolhedora de um processo de ruptura com a democracia. Não haveria, hoje, motivos de golpe, nem apoio social ou internacional. Será?

No plano internacional os apoios, imediatamente, não virão da América do Norte ou da Europa, mas da Rússia, por interesse geopolítico, e da China, sobretudo por interesse econômico. Um e outro país não tem qualquer apreço pela democracia ocidental, e suas relações internacionais, como é de hábito, são absolutamente pragmáticas. A resistência das democracias ocidentais duraria quanto tempo? E como se expressaria?

Internamente há um apoio social relevante, embora não mensurável. Parte do empresariado, das classes médias e dos setores populares é autoritária, racista e homofóbica. Ou seja, um golpe não estará de todo despido de apoio social.

O argumento de que o líder do movimento golpista é alguém despreparado e imprevisível não corresponde ao que a história nos tem ensinado. Tanto Hitler quanto Mussolini eram figuras medíocres.

Opinião do dia – Karl Marx*

 

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

*Karl Marx, Teses sobre Feuerbach (1845)

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Reforma ruim e na hora errada

O Estado de S. Paulo

Tributação envolve questões múltiplas e complicadas. Paulo Guedes insiste em promover um arremedo de reforma. E na hora errada

Atolado em dívida, pressionado para gastar e com muita dificuldade para cumprir suas obrigações, o governo federal ainda poderá perder cerca de R$ 21,8 bilhões de receita, se a reforma do Imposto de Renda (IR) aprovada na Câmara for transformada em lei. Os senadores ainda poderão barrar ou modificar a proposta, evitando ou atenuando o desastre. Sancionado na forma atual, o projeto causará uma perda de arrecadação de R$ 41,1 bilhões à União, aos Estados e aos municípios. Para os governos subnacionais a sangria deverá chegar a R$ 19,3 bilhões. Os cálculos foram solicitados ao economista Sérgio Gobetti pelo Comitê Nacional de Secretários Estaduais da Fazenda.

Numa votação apressada e baseada em acordos coordenados pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), deputados aprovaram um texto qualificado como “projeto secreto” pelo tributarista Luiz Bichara, citado pelo Estado. O documento final apresentado pelo relator, Celso Sabino (PSDB-PA), nem sequer foi protocolado. Não houve tempo para análise e mais uma vez funcionou o famigerado rolo compressor.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - Morte e Vida Severina (Trecho)

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

Música | Joyce Cândido e João Bosco - Rancho da Goiabada (João Bosco e Aldir Blanc)

 

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Fernando Gabeira - Turbulência nas alturas

O Estado de S. Paulo

O bolsonarismo não tem resposta para a vida real e vive de bandeiras artificiais

A semana foi marcada por um fato decisivo: o empresariado que apoiou Bolsonaro vai, aos poucos, abandonando o barco. A maneira como isso está sendo feito é um pouco típica do Brasil, mas ainda assim o fato não ficou obscurecido por ela.

Fiesp e Febraban iam lançar um manifesto pedindo a harmonia entre os Poderes. Nada mais tranquilo e ao mesmo tempo inofensivo. A pressão do governo foi intensa e a Fiesp decidiu não divulgar o manifesto. No entanto, o agronegócio, que emprega milhões e tem antenas com o mundo, decidiu publicar seu próprio manifesto, independentemente das reações do governo.

No caso da Febraban houve ameaças reais de abandono da entidade pela Caixa Econômica e pelo Banco do Brasil, que também entenderam o pedido de harmonia dos Poderes como uma crítica a Bolsonaro.

Ainda assim, o fato de o manifesto não ter sido publicado oficialmente não deixa de ser uma evidência de como alguns setores dominantes no Brasil têm medo do governo, mesmo depois de terem perdido sua simpatia por ele. Muito provavelmente, essas entidades estão tão paralisadas pelo medo que hesitaram em lançar votos de fim de ano com a mensagem “paz na Terra aos homens e mulheres de boa vontade”.

Como Bolsonaro iria interpretar isso, ele que considera essencial comprar fuzis e uma estupidez comprar feijão? Seria uma crítica indireta ao presidente e os detentores do PIB não querem provocar ninguém.

Eliane Cantanhêde – O novo ‘nós e eles’

O Estado de S. Paulo

O PT uniu o ‘nós’, Bolsonaro rachou o ‘eles’: centro, direita, classe média e o capital

Se o PT instalou o “nós contra eles” no País, o governo Jair Bolsonaro conseguiu reunir de novo o “nós” e rachar o “eles”: o empresariado, o setor financeiro, o agronegócio, as PMs, as Forças Armadas, as igrejas, a classe média, o centro e a direita. E assim chegamos ao “nós” do PT contra um “eles” fracionado, difuso, um estouro da boiada.

Um bom exemplo vem de Minas Gerais, Estado politizado e avesso a radicalismos. De um lado, a Federação das Indústrias (Fiemg) fez um manifesto com uma leitura tão enviesada quanto absurda da realidade quanto a de Bolsonaro. De outro, duas centenas de empresários e executivos defendem a real democracia.

No seu “Manifesto pela Liberdade”, que confunde já no título, a Fiemg vê ataques do Supremo aos direitos individuais e à liberdade de expressão, quando a Corte faz o oposto: age para conter blogueiros, parlamentares e alucinados que pregam invadir o Supremo, atacar os ministros, desacreditar as eleições e incendiar o País com revólveres e fuzis. Isso não é “liberdade de expressão”, é crime.

Empresários e executivos mineiros se descolaram da Fiemg para defender um “grande pacto pelo Brasil” e defender a democracia: “A ruptura pelas armas, pela confrontação física nas ruas, é sinônimo de anarquia, que é antônimo de tudo quanto possa compreender uma caminhada serena, cidadã e construtiva. A democracia não pode ser ameaçada; antes, deve ser fortalecida e aperfeiçoada”.

Vera Magalhães - Bolsonaro perdeu a colher de chá do PIB

O Globo

Não é um fenômeno isolado a proliferação de manifestos e notas de repúdio contra os rompantes golpistas de Jair Bolsonaro partindo de importantes, e até aqui silentes, entidades ligadas ao empresariado produtivo e financeiro.

Esse pessoal carregou o caixão de Bolsonaro até a beira do cadafalso. Nem as mais de 580 mil mortes da pandemia fizeram com que mudassem o caminho. Mas agora, diante da oferta para se jogar com o presidente e o país ribanceira abaixo, acordaram do surto que vivem desde 2018 e deram um passo atrás.

Entre as múltiplas notas de defesa da democracia que pipocaram desde que Paulo Skaf prometeu consolidá-las sob o guarda-chuva da Fiesp, mas se escafedeu, chama a atenção a de expoentes pesos pesados do empresariado de Minas se contrapondo à federação das indústrias do estado, que preferiu se alinhar ao Planalto na retórica golpista contra o Supremo.

Por que ela chama a atenção? Porque traz entre os signatários o ex-secretário de Desestatização Salim Mattar, bolsonarista de quatro costados até ontem e mentor de algumas das vozes mais histriônicas do bolsonarismo incendiário. Porque rompe a tradicional “mineirice” de evitar críticas explícitas a governos centrais. Porque o governador do estado, Romeu Zema (Novo), é um dos que adoram morder e assoprar quando o assunto é Bolsonaro. E pelo simbolismo do título: Segundo Manifesto dos Mineiros ao Povo Brasileiro. O primeiro, em 1943, exigia o fim do Estado Novo e a redemocratização. Desencadeou um movimento que acabou na deposição de Getúlio Vargas dois anos depois.

Ricardo Rangel - Dia da Independência

Revista Veja

As perspectivas para Jair Bolsonaro não são nada boas

O 7 de setembro se aproxima e ninguém sabe o que esperar. A promessa bolsonarista era algo realmente perigoso, com muita gente armada, incluindo policiais, ameaça escancarada de invasão do Supremo e golpe de Estado. Mas o tom baixou, e o foco foi deslocado para uma defesa vaga da “liberdade” — não no conceito moderno, em que a liberdade de um termina onde começa a do outro, mas no da lei do mais forte: liberdade para desmatar, recusar máscaras e vacinas, comprar fuzil, mentir, difamar, ameaçar. É repugnante, mas não configura risco real.

A mudança de foco, entretanto, não tranquiliza. Ninguém controla uma turba depois de insuflada, e ela vem sendo insuflada há muito tempo, e o próprio Bolsonaro voltou a subir o tom. “Nunca outra oportunidade para o povo brasileiro foi ou será tão importante quanto esse nosso próximo 7 de setembro.” “Chegou a hora de nós, no dia 7, nos tornarmos independentes para valer.” “Esse norte será dado com muita força no próximo dia 7.” “Eu tenho três alternativas: estar preso, estar morto ou a vitória.” “Todo mundo tem que comprar fuzil.” “Se você quer paz, prepare-se para a guerra.” Em que pese Bolsonaro ser bravateiro, o recado é claro.

Dora Kramer - Pele de cordeiro

Revista Veja

Jair Bolsonaro cultiva viva a perspectiva de ruptura, por mais improvável que seja

É clássica a cena do bandido que bate a carteira do transeunte e sai gritando “pega ladrão” para tentar enganar a polícia e assumir o lugar da vítima. A imagem é muito usada para ilustrar inversão de valores em discursos políticos e se adéqua perfeitamente ao figurino adotado pelo presidente Jair Bolsonaro e companhia nos preparativos das manifestações do próximo dia 7.

A data pode ou não prenunciar um setembro negro. Vai depender de as multidões — sim, a coisa está sendo preparada para impressionar — incorporarem a troca de papéis mostrando-se convincentes na transmutação de defensores da repressão em vítimas da opressão.

Será bonito de ver. A começar do capitão da banda, será preciso uma dose oceânica de autocontrole geral. Os ativistas de variadas causas, entre caminhoneiros, evangélicos, policiais, militares, ruralistas e motociclistas, terão de evitar dar um pio sequer sobre a deposição de ministros do Supremo Tribunal Federal “na marra”.

Falar em quarteladas e invasões, nem pensar. A palavra “golpe” poderá ser dita, desde que aplicada na contramão, para firmar fileiras contra os que lhes querem tolher a liberdade de se expressar violentamente em prol de um país de administração militar.

César Felício - Movimento defensivo

Valor Econômico

Elite empresarial sabe o que não quer, mas falta projeto

De onde menos se espera, daí é que não sai nada, como dizia o Barão de Itararé. Historicamente não se encontram muitos exemplos de engajamento das federações de indústria na defesa de valores democráticos. O recuo constrangedor de Paulo Skaf na publicação de seu anódino manifesto e o mais constrangedor ainda documento da Fiemg, defendendo a liberdade de expressão de propagadores de ódio na internet, demonstram a tese nos dias de hoje.

No passado, tome-se um exemplo: em 1977, o presidente da Fiesp, Teobaldo De Nigris, responsável pela construção da sede da entidade em forma de pirâmide que marca a Avenida Paulista, veio a público para falar sobre a abertura “lenta, gradual e segura” que o presidente Ernesto Geisel promovia. Era 18 de agosto, ele acabava de ser reeleito para mais um mandato à frente da entidade e Geisel era desafiado dentro dos quartéis pelo ministro do Exército, Sylvio Frota, que queria manter o regime fechado.

O comentário foi: “Ingressar na chamada democracia, que tanto admiramos, poderá nos trazer complicações, pois precisamos, primeiro, ordenar mais o nosso desenvolvimento.” Segundo De Nigris, “isso poderia nos trazer muita confusão, pois ainda é prematuro”. A ditadura já tinha 13 anos.

Fernando Abrucio* - O sentido do sete de Setembro bolsonarista

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O teor autoritário das manifestações previstas para o Sete de Setembro preocupa, mas o pior é a agenda que Bolsonaro defende e quer levar adiante

Dia da Independência do país, em vez de ser uma data comemorativa, virou um grande ponto de tensão. A pergunta que não quer calar é: qual será o sentido do movimento bolsonarista no Sete de Setembro? É possível antever três significados neste evento. O primeiro é tentar emparedar as instituições que estão freando o autoritarismo de Bolsonaro e dizer que, se preciso for, um golpe pode ser dado. O segundo é mostrar que o presidente tem uma faixa de apoio social que evita o impeachment e já o coloca no segundo turno. Mas há um terceiro aspecto que poucos têm discutido. Trata-se de definir, claramente, a agenda central do presidente Bolsonaro para o resto do mandato e para caso ele continue governando o Brasil, pelo voto ou não.

O que mais tem causado apreensão em vários setores da sociedade é o caráter antidemocrático que orienta o bolsonarismo. Vários manifestos surgiram no último mês, artigos foram escritos na imprensa denunciando posturas golpistas, lideranças congressuais, inclusive governistas, estão muito preocupadas e, ademais, também há a possibilidade de manifestações de rua contrárias ao presidente entrarem em choque com o séquito de fiéis bolsonaristas.

José de Souza Martins* - Terra indígena

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

São reiteradas as tentativas de grupos minoritários fazer-nos à força um povo homogêneo e até racista, mediante burla de valores que teoricamente subscrevemos

A decisão que o STF está tomando quanto ao direito dos nossos indígenas à terra de seus carecimentos culturais e materiais de sobrevivência decide também o que é ser brasileiro. Se apenas o ser residual e inautêntico da categoria apátrida dos postiços e homogêneos ou os todos do nosso nós, nossa autenticidade na diversidade.

Ou, ainda, se haverá para os indígenas a justiça compensatória a um direito reiteradamente violado pelos brancos, apesar de decorrente de posse imemorial de terras que são historicamente suas. Ou se, numa questão só aparentemente territorial, decretará sua extinção ou sua sobrevivência como protagonistas de uma pátria democrática, alicerçada no direito à igualdade jurídica na diferença social e cultural que representam.

Não se trata apenas da sobrevivência das populações indígenas. Trata-se da sobrevivência do Brasil como nação multiétnica, pluralista e democrática. São reiteradas as tentativas de grupos minoritários e de interesse econômico, político e racial de fazer-nos à força um povo homogêneo e até racista, mediante a burla sistemática de valores que teoricamente subscrevemos e na prática violamos.

Claudia Safatle - O manifesto da Fiesp e a “viúva Porcina”

Valor Econômico

Avalia-se se ainda é necessária a divulgação do documento, depois que ele já foi publicado de maneira não oficial e teve repercussão inesperada na imprensa

Mesmo depois das manifestações de desagrado do governo Bolsonaro e, em particular, das ameaças do presidente da Caixa, Pedro Guimarães, aos bancos, não houve retirada de assinaturas do manifesto dos empresários, conduzido pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Ao contrário, na terça-feira, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, enviou e-mail às entidades empresariais reabrindo o prazo de adesão para até hoje, sexta-feira, sob o argumento de que, além das representações do setor privado que haviam apoiado o manifesto, inúmeras outras deixaram claro o desejo de serem signatárias. “Em menos de 24 horas recebemos mais de 200 adesões das mais representativas entidades brasileiras. Dezenas de outras entidades também manifestaram interesse em participar”, diz o e-mail assinado por Skaf.

Nem mesmo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), depois de alguns banqueiros terem recebido ameaças do presidente da Caixa de serem excluídos de negócios com o banco estatal - segundo reportagem da jornalista Malu Gaspar, publicada em “O Globo” -, retirou ou pretendia retirar sua adesão aos termos do manifesto. Aliás, Caixa e Banco do Brasil falaram em se desfiliar da Febraban, em protesto, caso a entidade mantivesse apoio ao texto, e pediram, ontem, uma nova reunião do conselho da federação para rediscutir o tema, o que foi negado. No fim do dia de ontem a Febraban soltou nota reafirmando os termos do manifesto e se desvinculando da Fiesp. O que significa que os bancos não se associam a eventual decisão da indústria de não mais divulgar oficialmente o texto.

Armando Castelar Pinheiro* - Um PIB sem surpresas

Valor Econômico

Há incerteza sobre os impactos do clima e preocupação com os efeitos da forte alta no risco político

O PIB divulgado nesta quarta-feira pelo IBGE, com contração de 0,05% no segundo trimestre, ante o anterior, gerou consternação e levou a revisões, para baixo, das projeções de crescimento para este e o próximo ano. O principal motivo para isso foi o resultado ter vindo não apenas negativo, mas abaixo das previsões, que apontavam para alta de 0,17%, na média das 61 instituições consultadas pelo Valor (globo/3zEaDy4).

Quanto essa aparente surpresa com o resultado do PIB justifica essa reação? Nada, ou muito pouco, julgo eu. Os analistas parecem estar focando no viés de suas previsões; mas, como lembram D. Kahneman, O. Sibony e C. Sunstein em seu ótimo “Noise: A Flaw in Human Judgement”, o julgamento humano, especialmente o preditivo, é em geral não apenas viciado, mas também “noisy” - ou seja, não costuma acertar o alvo, mesmo quando é não viciado.

O que aconteceu desta vez, viés ou a variância implícita em qualquer previsão? Ora, o desvio padrão das 61 projeções coletadas pelo Valor é de 0,17 ponto percentual (p. p.). Portanto, qualquer intervalo de confiança razoável conteria o resultado do PIB obtido pelo IBGE. Podemos concluir, assim, que o resultado veio em linha com as previsões do mercado, revelando, como apontaram Anaïs Fernandes e Marta Watanabe no Valor, “atividade estável”, “com avanço dos serviços e declínio de indústria e agropecuária”.

Bruno Boghossian – O Supremo como bedel

Folha de S. Paulo

Tribunal avisa que vai aplicar a lei se presidente fizer o que promete há semanas

Pela terceira vez na mesma semana, um ministro do Supremo foi a público alertar que o processo golpista liderado por Jair Bolsonaro pode ser alvo de punições. Ao abrir uma sessão do tribunal, Luiz Fux disse que manifestações políticas são legítimas, mas sugeriu que os participantes estejam "cientes das consequências jurídicas dos seus atos".

O STF assumiu o papel constrangedor de bedel no playground do autoritarismo presidencial. Bolsonaro avisa há semanas que vai explorar os protestos de 7 de setembro para tentar escapar dos limites que a democracia impõe a seu poder, mas a corte ainda acredita ser necessário avisar que vai aplicar a lei se ele fizer o que promete fazer.

Ruy Castro - Fogo no Bolso-stag

Folha de S. Paulo

Nada como fomentar a baderna e o caos para exigir medidas extremas -vide o Reichstag

Na noite de 27 de fevereiro de 1933, em Berlim, o fogo irrompeu no edifício do Reichstag, o Parlamento alemão. Os bombeiros foram alertados, mas, ao chegarem, o prédio já tinha sido tomado. Poucas horas depois, o governo (chefiado por Adolf Hitler, recém-nomeado chanceler) anunciou a prisão em flagrante do ativista Marinus van der Lubbe, 24 anos, quase cego e com problemas mentais. No dia seguinte, por instância de Hitler, o presidente Paul von Hindenburg suspendeu as liberdades civis. Iniciou-se a caça aos políticos de oposição, com prisões em massa e perda de mandatos. O Partido Nazista empalmou o poder e Hitler passou a governar por decreto.

O incêndio nunca ficou bem esclarecido. Hitler atribuiu-o aos comunistas desde o primeiro minuto e, pela manhã, a imprensa de Berlim já comprou essa versão. Mas, um mês depois, Walter Gempp, chefe dos bombeiros e que comandara a operação, foi demitido ao denunciar que o alerta viera com atraso e ele fora proibido de usar todos os recursos contra o fogo. Em 1937, Gempp foi detido por “abuso do cargo” e condenado à prisão, onde foi estrangulado e morto em 1939. De Van der Lubbe, guilhotinado em 1934, disse-se que teria sido instrumentado pelos nazistas para atear o fogo. Em 1998, o Estado alemão o inocentou.

Reinaldo Azevedo - Que as ideias tenham consequências

Folha de S. Paulo

'Crime como liberdade de expressão' não contamina apenas os fascistoides nas redes 

Que coisa! Luiz Fux, presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça, fez um pronunciamento nesta quinta alusivo ao 7 de Setembro. Não se refere apenas aos 199 anos de Independência. É claro que o repúdio à convocação para o golpe de Estado, que vai ganhar as ruas na terça, está na raiz de sua fala. E temos de ler e ouvir, então, o óbvio, mas necessário: “Num ambiente democrático, manifestações públicas são pacíficas; por sua vez, a liberdade de expressão não comporta violências e ameaças”.

Devemos, sim, absorver, com atenção, as lições que nos são ministradas pelo professor Jair Messias Bolsonaro. Não aprendemos apenas por intermédio do pensamento que nos fascina. O repúdio é um instrumento poderoso para estabelecer certas balizas. Atração e repulsa são parceiros inseparáveis, opostos e combinados. É fundamental, também na política, a definição clara do que não queremos para que possamos estabelecer a hierarquia das coisas que desejamos.

Bolsonaro não havia ainda completado o quinto mês de mandato, e seus milicianos digitais ganhavam corpo nas ruas, no dia 26 de maio de 2019, com manifestações em 156 cidades, segundo contabilidade publicada pela imprensa. À época, os fascistoides do milenarismo morista-lavajatista estavam juntos —por que não estariam?— no ataque organizado ao Congresso e ao Supremo.

Luiz Carlos Azedo - Queiroga saiu? Uma vírgula!

Correio Braziliense

A última do ministro da Saúde foi retirar a CoronaVac, a vacina do Butantã, do programa de reforço da imunizaçao, a chamada terceira dose

A notícia de que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, havia pedido demissão foi a sensação nas redes sociais, ontem, até ser desmentida pelo próprio. Em se tratando daquela pasta, cuja atuação na pandemia de covid-19 é investigada pela CPI do Senado, tudo poderia acontecer, ainda mais uma troca de ministros, porque três já passaram pelo cargo. A notícia era uma “barriga”, ou seja, uma notícia falsa no velho jargão jornalístico, geralmente publicada de forma involuntária, ou seja, algo muito diferente de uma maldosa fake news. Se bem que não é incomum um fato como esse se confirmar somente algumas semanas depois, por puro capricho de quem demite, porque a informação “vazou”.

A história toda começou por causa de uma vírgula, na coluna publicada pelo jornalista Matheus Leitão, no site da revista Veja, intitulada “Queiroga, pede para sair”. O texto faz um balanço da atuação do ministro e conclui: “Assim como todos os ministros da Saúde que já passaram pelo governo de Jair Bolsonaro, Queiroga demonstra fraqueza e apatia no cargo. Ninguém supera os erros de Eduardo Pazuello, mas talvez seja hora de Queiroga cogitar sua saída da liderança da pasta que se tornou o foco e a responsável por administrar a crise no país nos últimos meses”.

Vinicius Torres Freire - Bolsonaro, golpes e contragolpes

Folha de S. Paulo

Enquanto organiza um putsch, presidente sofre derrotas no Congresso e no empresariado

Jair Bolsonaro enfim conseguiu arrumar um turumbamba com boa parte da elite econômica. Seu pacote eleitoral e popular corre mais risco de ir para o ralo, ainda que, com pacote e com tudo, o povo vá passar mal por muito tempo. Por exemplo, nos últimos três anos, a inflação da comida aumentou quase 31%; o salário médio, 14,3% (o dos mais pobres, menos ainda). A poucos dias da pororoca golpista armada para o 7 de Setembro, vários caldos azedam.

A Fiesp soltou nota contra a reforma do Imposto de Renda, essa mixórdia tosca aprovada pela Câmara, aliás com apoio da esquerda. A Fiesp de Paulo Skaf quer apenas umas reduções de impostos, mas esse lobby pode dificultar ainda mais a aprovação dessa barafunda tributária no Senado.

Sabe-se lá o que vai sair do Senado, se é que vai, mas essa “reforma” do Imposto de Renda inclui um item do pacote eleitoral de Bolsonaro, a redução do IR para parte menor da classe média. De resto, pode ser que mexidas adicionais diminuam a receita de impostos, ajudando a piorar as perspectivas para a dívida pública, o que leva os donos do dinheiro, credores do governo, a cobrar mais caro pelos empréstimos, elevando os juros na praça em geral.

Febraban soltou nota a favor do “manifesto” das associações empresariais, aquele avacalhado pela Fiesp e atacado pelo governo, em particular pelos seus sequazes na economia, Paulo Guedes e Pedro Guimarães, presidente da Caixa, e pelo premiê colaboracionista, Arthur Lira, presidente da Câmara. De passagem, a nota da Febraban dá umas caneladas na Fiesp e diz que “respeita”, mas na prática ignora, as ameaças de Caixa e Banco do Brasil deixarem a associação. Deram uma banana para o governo. Os bancos, note-se de passagem, não gostaram nada da reforma do IR.

Rogério L. F. Werneck* - Aposta irresponsável

O Globo /O Estado de S. Paulo

País inicia a Semana da Pátria alarmado com as demonstrações de rua conclamadas pelo governo para o 7 de Setembro. O que se teme é que, em sua escalada de desestabilização, Bolsonaro possa ter desencadeado, agora, um processo com desdobramentos impensáveis que escapam a seu controle.

Em meio a este clima de alta tensão, o conceito de brinkmanship ajuda a entrever contradições dessa deplorável marcha da insensatez. A palavra, de tradução concisa difícil, significa a arte ou a prática de levar uma situação perigosa – uma confrontação “à beira do abismo” – além do limite do que pode ser considerado seguro, para conseguir determinado desfecho. O alto risco assumido, claro, tanto pode levar ao desastre quanto ao sucesso.

Esta conotação mais ampla de brinkmanship convive com o significado mais preciso que o termo tem em teoria dos jogos, bem discutido há mais de 60 anos por Thomas Schelling – Prêmio Nobel de Economia de 2005 – no seu Strategy of Conflict. Envolve uma prática que diplomatas, estadistas e negociadores conhecem desde tempos imemoriais: a tática de criar um risco perceptível, e não completamente controlável, e deixar a situação fugir de certa forma ao controle para intimidar o adversário, na expectativa de que este recue, temendo o pior. Ou seja, temendo que quem o ameaça esteja de fato disposto a ir às últimas consequências, ultrapassando, se necessário, a borda fatal e arrastando-o consigo na queda.

Flávia Oliveira - Muito além da escassez de energia

O Globo

Não bastassem a turbulência político-institucional provocada pelo presidente da República, o PIB estagnado, a inflação galopante, a fome à espreita, a variante Delta do coronavírus se multiplicando, o Brasil se vê acossado por uma crise hídrica que ameaça bem mais que a oferta de eletricidade. No mesmo dia em que o ministro de Minas e Energia, almirante Bento Albuquerque, voltou à TV para apelar aos brasileiros por economia de luz — sem mencionar o tarifaço que vai até o fim do primeiro quadrimestre do ano eleitoral de 2022 —, Jair Bolsonaro, em campanha antecipada, cavalgava em Uberlândia (MG), numa cena mais constrangedora que heroica. A escassez de energia pressiona a inflação, freia atividade econômica e investimento, empobrece a população. É uma consequência da falta de água, não a única. E talvez nem seja a mais grave.

A crise hídrica explicitou-se no primeiro trimestre, ainda no período úmido brasileiro, de novembro a abril. O volume de chuvas foi o mais baixo em 91 anos. Os reservatórios das hidrelétricas dos sistemas Sudeste e Centro-Oeste, os mais relevantes, iniciaram a temporada seca nos menores níveis deste século, até piores que no 2001 do racionamento que sepultou o governo de Fernando Henrique Cardoso. O MME determinou a operação plena das termelétricas e anunciou interesse na importação de energia. Em boletins, o Operador Nacional do Sistema (ONS) tem feito alertas recorrentes sobre o provável nível crítico da oferta de energia no mês que vem.

Pedro Doria - As redes no 7 de Setembro

O Globo / O Estado de S. Paulo

As redes sociais viverão seu primeiro teste pesado no próximo 7 de Setembro. Em 6 de janeiro, quando o Congresso americano estava reunido para homologar a eleição de Joe Biden, o então presidente Donald Trump incitou a invasão do Capitólio. Trump vinha mentindo descaradamente nas redes, acusando fraudes eleitorais onde não havia — e todo espaço lhe foi permitido para que atacasse a democracia como se não houvesse consequência. Quando o Vale do Silício descobriu que palavras têm consequências no mundo real, que palavras radicalizam pessoas e podem levar à implosão de democracias, Trump foi expurgado das principais redes. Pois agora será a vez de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro tem tido espaço no Facebook, no Twitter e no YouTube para atacar sem qualquer traço de prova o processo eleitoral brasileiro. Mais recentemente, as redes que dão sustento ao presidente têm também incitado policiais militares à radicalização política. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que 27% dos PMs frequentam ambientes bolsonaristas radicais nas redes. Dentre os oficiais PMs, o que é mais preocupante, 23% estão nesses ambientes radicais. Um quarto. É muito. É inaceitável numa democracia.

São cidadãos armados, que, no exercício da função, não podem demonstrar preferência política, sendo incitados por um presidente da República que trata o atual ambiente político como uma guerra e prega o armamento da população.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Vetos contra o Estado Democrático de Direito

O Estado de S. Paulo

Cabe ao Legislativo proteger seu bom trabalho e derrubar os vetos de Jair Bolsonaro sobre a LSN

O Congresso cumpriu o seu dever. Revogou a Lei de Segurança Nacional (LSN, Lei 7.170/83) e assegurou meios para a defesa do Estado Democrático de Direito, com a previsão de novos crimes no Código Penal. Já o presidente Jair Bolsonaro fez sua parte pela metade. Sancionou a lei que revoga a LSN, mas vetou cinco pontos importantes para a defesa do regime democrático e o bom funcionamento das instituições republicanas.

Desde que se tornou patente a necessidade de revogar a LSN – o governo federal estava se valendo da Lei 7.170/83 para perseguir adversários políticos –, ficou também evidente que não bastava excluir a antiga lei, aprovada na ditadura militar. Ainda que imperfeitamente, a LSN protegia bens jurídicos importantes, especialmente em relação ao funcionamento das instituições democráticas.

Por isso, de forma prudente e seguindo a experiência internacional, o Congresso, no mesmo projeto de lei que revogou a LSN, definiu crimes que ameaçam ou impedem o pleno funcionamento do Estado Democrático de Direito. No entanto, com cinco vetos especialmente perigosos, o presidente Bolsonaro desfez o equilíbrio entre liberdade individual e proteção do Estado.

O Congresso estabeleceu dois novos crimes contra o processo eleitoral. Jair Bolsonaro vetou o crime de comunicação enganosa em massa (promover ou financiar campanha para disseminar fatos que sabe inverídicos, e que sejam capazes de comprometer a higidez do processo eleitoral; pena de um a cinco anos de reclusão). Sem pudor, tenta manter impunes as ações bolsonaristas contra o sistema eleitoral.

Poesia | Carlos Pena Filho - Desmantelo Azul

 

Música | Geraldo Azevedo - Lembrando Carlos Fernando