quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Vinicius Torres Freire - Plano Lula 3 para a indústria

Folha de S. Paulo

Crítica foi precipitada e estereotipada; há defeitos velhos e novidades interessantes

O plano de reindustrialização de Lula 3 não é tudo isso que dele estão dizendo. Em particular, não é tudo isso de ruim, segundo a opinião mais comum do economista padrão, "mainstream".

As reações ao anúncio do Nova Indústria Brasil (NIB) foram estereotipadas. Pouca gente leu as 102 páginas muito resumidas do projeto; pelo menos este jornalista não conhece quem seja capaz de avaliar o conjunto de tantas providências relativas a aspectos diversos dos setores público e privado.

Não se trata de reedição de políticas de Lula 2 e Dilma 1. Quanto a dinheiro, por exemplo, não está previsto endividamento exorbitante do governo a fim de inflar os fundos de empréstimo do BNDES.

O NIB terá recursos de uns R$ 300 bilhões em quatro anos (2023-2026), dos quais R$ 250 bilhões em empréstimos do BNDES.

São R$ 62,5 bilhões por ano, menos do que os R$ 100 bilhões dos desembolsos anuais do banco de 2022 e 2023.

Tostão - Existe uma inversão no aprendizado esportivo

Folha de S. Paulo

Crianças precisam se divertir com a bola antes de aprender técnica e regras

Na quinta-feira, dia 25, aniversário de São Paulo, que fará 470 anos, haverá a final da Copinha entre Cruzeiro e Corinthians. Seria aniversário de Tom Jobim, um dos maiores craques da história da música brasileira. É também aniversário de um grande número de cidadãos brasileiros, como este colunista, um idoso de 77 anos, racional, sonhador e independente.

Quero ver ainda a seleção brasileira ganhar mais uma Copa do Mundo e o Cruzeiro ser campeão do Brasileirão, da Libertadores ou da Copa do Brasil. Quero ver ainda o Brasil melhor, trocar muitas benesses, subsídios, fortunas em emendas parlamentares e fundos eleitorais por uma ação mais rápida e eficiente para diminuir os graves problemas sociais, como a violência, a má educação e a falta de saneamento básico e de água potável em quase metade das residências brasileiras, uma vergonha.

Poesia | Dois e dois são quatro - Ferreira Gullar com Narração de Mundo dos Poemas

 

Música | Xodó do Caboclinho - Nonô Germano (Sérgio Kirillos/Joca Leão/Jairo Gonçalves)

 

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Risco da nova política industrial é repetir erros da velha

O Globo

Histórico recomenda ceticismo sobre os planos do governo de investir R$ 300 bilhões até 2026

O governo abriu ontem mais um capítulo na longa história das políticas industriais brasileiras. Desta vez, o plano se chama Nova Indústria Brasil e prevê financiamentos da ordem de R$ 300 bilhões até 2026, a maior parte do BNDES. É verdade que o mundo tem sido palco de uma nova onda de ações governamentais para reavivar a indústria. Mas o pretexto da “onda global” não necessariamente justifica as medidas. O governo amontoou diversos objetivos num só plano: quer reduzir a pegada de carbono, obter autonomia em tecnologias de defesa, aumentar a participação da agroindústria, transformar digitalmente as empresas etc. Não disse, porém, como cada um desses objetivos se traduzirá em benefícios e incentivos.

Fortalecer a indústria é sonho antigo dos governantes. No mundo emergente, a industrialização sempre foi vista como elevador para o desenvolvimento. No Brasil, a desindustrialização aconteceu antes de o país ficar rico. No começo dos anos 1990, o setor industrial ocupava 23% da mão de obra. Hoje ocupa 19%. A redução se deve a uma combinação de fatores internos e à conjuntura global. O Brasil não foi o único país a sofrer desindustrialização, nem o mais afetado. Na Coreia do Sul, a mão de obra industrial caiu de 36% do total em 1991 para 25%. Nos Estados Unidos também, de 23% para 19%.

Merval Pereira - Sem controle

O Globo

A situação do PT está difícil e complicada como nunca. Do lado da direita, existem forças políticas de oposição muito fortes. Lula tem sido obrigado a engolir sapos de diversos tamanhos.

Quando o então presidente Bolsonaro desistiu de influenciar as decisões do Congresso e entregou ao Centrão a negociação do Orçamento, abriu mão de um poder que o Executivo já havia perdido, para manter uma base partidária fiel. Como seu interesse estava em outra ponta do processo político — na formação de uma base militar e popular, por meio das redes sociais, que lhe permitisse dar um autogolpe —, não se incomodou com a perda do controle do Congresso.

Tinha a maioria que impediria qualquer tentativa de impeachment, e os partidos da massa heterogênea de políticos lhe foram fiéis na campanha eleitoral. O presidente Lula venceu a eleição com a mais estreita margem de votos dos últimos anos, mas herdou um Congresso adverso. Tem sido obrigado a engolir sapos de diversos tamanhos, especialmente com a derrubada de vetos e derrotas em votações no Congresso.

Carlos Andreazza - Refinaria da História

O Globo

Se há uma campanha de reescritura da História recente da bandalheira no país, em curso um movimento pela reabilitação de agentes corruptos, natural será que se tentem limpar também os objetos da corrupção. Donde o discurso fraudador sobre a Refinaria Abreu e Lima, exemplo de “volta por cima”.

O Brasil que volta consistindo também naquele que nada aprendeu. O crítico já acusado de fascista a favor da reencarnação do capeta. A adulteração do passado protegida — beneficiada, acelerada — por este 8 de Janeiro permanente; estado de vigília que, em defesa da democracia, autoriza variadas modalidades de autoritarismo virtuoso e tolera a imposição da História deturpada.

E então: o petrolão foi armação. Envolvido no complô o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que não desejaria uma Petrobras pujante.

Blitz refazedora do passado a se estender — potencialmente — até as piratarias do mensalão. Por que não? O bolsoportunista Valdemar Costa Neto, outrora sócio do lulopetismo, já farejou o possível alcance regenerativo das distorções sobre a verdade. Elogiou o presidente como gancho para atacar Moro, o corrompimento da Lava-Jato tendo o condão de desmontar o combate à corrupção e reabilitar biografias retroativamente. Injustiçado também ele, Valdemar. Por que não? Às favas o fato de que condenado antes da existência da operação.

Andrea Jubé - Lula e o medo de virar o Schumacher da política

Valor Econômico

Sucessão sempre foi um tema sensível e ambíguo para o presidente

A sucessão sempre foi um tema sensível e ambíguo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um querer e não querer.

Em 2014, ele se viu sob pressão do PT para que fosse candidato novamente no lugar da então presidente Dilma Rousseff, que tentaria a reeleição. Curiosamente, naquele ano, o “queremismo” lulista tinha como um dos expoentes a ex-prefeita e ex-ministra Marta Suplicy.

Um ano depois, amargurada com a reeleição de Dilma e com denúncias de corrupção contra o partido no âmbito da Lava-Jato, ela deixou o PT. Agora, passados dez anos do “volta, Lula”, Marta voltou ao PT pelas mãos de Lula para ajudar a legenda a reaver o comando da Prefeitura de São Paulo, em aliança com o Psol.

Pedro Cafardo - Ensino técnico, Pé-de-Meia e sonhos de Beneditos

Valor Econômico

Brasil tem presença de jovens no ensino técnico menor que a média de outros países, inclusive da América Latina

Forte, alto e magro, José Benedito (nome fictício) tinha tudo para ser um zagueirão. Desde garoto, destacou-se entre os coleguinhas do bairro pela estatura, que hoje chega quase a 1,90m. Era um gigante intransponível na defesa em jogos de futebol no terrão.

O tempo foi passando e Benedito teve de abandonar os amiguinhos do bairro, enquanto alguns já faziam testes na base de grandes times de São Paulo. Tendo pai ausente, aos 9 anos começou a ajudar a mãe, empregada doméstica, a sustentar a família, com cinco irmãos menores. Vendeu picolés caseiros no farol e ao mesmo tempo carregou tijolos como servente de pedreiro.

Assis Moreira - Política industrial: todos juntos

Valor Econômico

Modelos econômicos diferentes, mas apetite parecido em meio à competição tecnológica e geopolítica

O plano de nova política industrial no Brasil, anunciado ontem, provocaria anos atrás uma imediata chuva de advertências por parte de outros parceiros. Desta vez, porém, o anúncio do presidente Lula ocorre num cenário global de renascimento das políticas industriais e de expansão significativa de programas de subsídios, em meio à intensificação da competição tecnológica e geopolítica entre as principais potências.

Na prática, quase todos os países se envolvem sistematicamente em alguma forma de política industrial, especialmente grandes economias como os EUA, Europa e a China, apesar de seus modelos econômicos diferentes.

Em março de 2019, o Conselho Europeu, que reúne os líderes do bloco comunitário, convidou a Comissão Europeia a apresentar uma nova "política industrial assertiva que permita que a UE continue sendo uma potência industrial". A avaliação em Bruxelas é de que a Europa não pode se dar ao luxo de perder a corrida por certas tecnologias avançadas consideradas cruciais no século XXI.

Luiz Carlos Azedo - Nova política industrial de Lula não convence

Correio Braziliense

"Com o programa anunciado ontem, Lula gera a desconfiança de que optou pelo "capitalismo de estado" como modelo de desenvolvimento. O mercado reagiu negativamente"

Com o programa anunciado ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gera a desconfiança de que optou pelo "capitalismo de Estado" como modelo de desenvolvimento. O mercado recebeu com a desconfiança a Nova Política Industrial anunciada ontem, em Brasília, da qual são protagonistas o vice-presidente Geraldo Alckmin, ministro do Desenvolvimento, Industria e Comércio Exterior, e principalmente o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. A ausência do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, gerou especulações de que haveria um racha na equipe econômica. O resultado foi a alta do dólar e a queda na Bovespa, indicadores que refletem a desconfiança dos investidores, quando o resultado deveria ser uma injeção de otimismo nos agentes econômicos.

Cristovam Buarque* - Coisas de Brasília

Correio Braziliense

Lula resgatou uma coisa de Brasília, adotada aqui entre 1995 e 1998, e a expandiu para todo o Brasil: a ideia de depósito em poupança no nome de alunos do ensino médio para ser resgatado quando eles concluírem seus cursos

Nosso imaginário vincula Brasília à arquitetura e às artes plásticas: Athos Bulcão, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Burle Marx. Esses nomes e suas obras são tão marcantes que esquecemos nossas contribuições que são "coisas de Brasília": Clube do Choro, Plebe Rude, Capital Inicial, Legião Urbana. Tendemos a esquecer que experiências sociais e políticas que saíram daqui se espalharam e ajudam a mudar o Brasil.

A mais conhecida coisa de Brasília é a Bolsa Escola, desenhada na UnB em 1986 e implantada de forma pioneira pelo governo do Distrito Federal a partir de 1995. Com o mesmo nome, em 2001, o presidente Fernando Henrique levou o programa para 4 milhões de brasileiros. Em 2003, com o nome de Bolsa Família, o presidente Lula estendeu a todos que precisavam de uma renda mínima para sobreviver. Embora reduzindo o papel educacional — mudança no nome, retirada da gestão pelo MEC e incorporação de outros grupos beneficiados, não mais apenas as mães com filhos na escola —, o programa não perdeu sua origem como coisa de Brasília.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Mercado de carbono: aliado ou concorrente?

Na expectativa de descobrir novas fontes de receita para amparar   a economia, o governo brasileiro vem propagando um "futuro" baseado no ciclo comercial do carbono e na importância da bioenergia. Serve, no mínimo, de apoio para a discussão sobre    "oneração" e “desoneração" fiscal tributária, pontos de inflexão política.

Para além disso, faz ressurgir das tais "memórias do esquecimento” uma das políticas públicas que mais alavancaram a economia brasileira nos anos 60 e70:  a Lei no 5.106, de 02.09.de 1966, que permitia investimentos em reflorestamento, por parte de pessoas físicas e jurídicas, até o limite de 50% do imposto de renda devido. Tirou o Brasil de uma cultura extrativista, inconscientemente predatória, para criar milhares de empresas e empregos de base florestal no País. 

Eliane Cantanhêde - A nova polarização do Brasil

O Estado de S. Paulo

Mais do que a guerra de Israel, é a posição de Lula que divide empresários e intelectuais

Em sua reação a uma fala impensada do ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) voltou a pedir “equilíbrio e moderação” das lideranças e autoridades diante da guerra de Israel e acrescentou: “Para não importar as tensões do Oriente Médio para o Brasil”. Parece tarde demais. Assim como famílias e amigos romperam por causa da polarização política interna, empresários, artistas e intelectuais guerreiam a favor e contra a posição do Brasil sobre os ataques israelenses aos palestinos. O bombardeio é por manifestos e em torno de uma palavra: genocídio.

Com uma biografia estonteante, de altos e baixos, Genoino foi por décadas o homem do diálogo entre esquerda, centro e direita no Congresso, o melhor porta-voz informal do PT para jornalistas e uma imprescindível presença entre as várias tendências petistas. De todos os condenados do mensalão, foi o que pagou o preço mais injusto.

Alvaro Costa e Silva - Cláudio Castro está dando defeito

Folha de S. Paulo

Investigado pela PF, governador elogia Lula pensando na própria pele

Cláudio Castro claudica. Vive atualmente seu pior momento. Incapaz de rebater as críticas à atuação do governo diante das chuvas que castigaram o estado, deixando 12 mortos; imóvel, como se tivesse pés e mãos amarrados, para enfrentar o problema da segurança pública; e pendurado num rombo de R$ 8,5 bilhões no orçamento de 2024.

Ainda vê o cerco da Polícia Federal se fechar em torno dele, correndo o risco de não terminar o mandato. Um fato já trivial no Rio, cujos governantes, ao longo dos últimos 50 anos, a começar pelo cacique Chagas Freitas, construíram uma azeitada máquina de corrupção, populista e clientelista, que se move por meio de mecanismos ocultos e autômatos. Não importa quem esteja no comando. Voraz, o sistema iguala vocações, mediocridades, partidos e ideologias. É uma espécie de vício político contra o qual não se consegue lutar.

Adriana Fernandes - Imprevisibilidade tributária

Folha de S. Paulo

Até onde o governo vai apertar os botões para arrecadar mais?

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou em 2024 mantendo a pressão para fazer o ajuste fiscal pelo lado da arrecadação, mas terá que sinalizar o quanto antes qual será o limite para o aumento da carga tributária.

Parte da queda dos investimentos do ano passado pode estar relacionada, na visão de alguns economistas e empresários, às incertezas sobre até onde o governo vai apertar os botões para arrecadar mais. O tema também já entrou no radar da própria equipe econômica.

Enquanto o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu em torno de 3% em 2024, os investimentos tiveram um desempenho muito ruim. No terceiro trimestre, registraram a quarta queda consecutiva, mostrando que a capacidade produtiva no Brasil não está se expandindo como se esperava.

Joel Pinheiro da Fonseca - Nova indústria com plano velho?

Folha de S. Paulo

'Nova Indústria Brasil' ameaça repetir os fracassos de Dilma, Lula e Geisel

Com o governo indo atrás de toda exceçãozinha tributária que ele possa cortar para arrecadar um pouquinho mais, seria de se esperar que, na hora de investir o dinheiro, ele usasse do mesmo rigor, sendo impiedoso com gastos ineficientes, certo? Certo??

Infelizmente, parece que com o "Nova indústria Brasil" o governo vai investir muito (R$ 300 bi) com o que já deu errado. Exigência de conteúdo nacional, crédito subsidiado e compras do governo.

Não é preciso ser um fundamentalista de mercado para ver o problema aí. Afinal, o Estado tem um papel no crescimento econômico. A Coreia do Sul não chegou aonde chegou sem papel ativo do governo. Mas tão importante quanto os casos de sucesso, é lembrar quando a política industrial fracassou, como no Brasil. DilmaLula, Geisel; a política industrial brasileira já torrou muito dinheiro e empobreceu muita gente.

Hélio Schwartsman - Lula é um oportunista

Folha de S. Paulo

Presidente muda discurso ao sabor de seus interesses, o que traz descrédito para a política

Lula é um oportunista, no que o termo encerra de positivo e de negativo. Quando viu que enfrentaria uma disputa difícil contra o então presidente Jair Bolsonaro, o petista veio com o discurso da frente ampla para salvar a democracia e convidou o ex-adversário Geraldo Alckmin para compor a chapa, na posição de vice.

Com isso, conseguiu atrair o voto de eleitores que faziam restrições ao PT, mas tinham ainda mais medo de Bolsonaro. Deu certo. Lula venceu por estreita margem.

Dora Kramer - A força do trator

Folha de S. Paulo

Aliança com o STF pode ter forte reação se Congresso for posto de escanteio

O governo vem tentando dourar a pílula no caso da medida provisória da cobrança de imposto sobre as folhas de pagamentos das empresas contempladas com a desoneração, aprovada com ampla maioria no Legislativo. O ministro da Fazenda diz que a decisão final será do presidente da República, que faz discurso criticando o empresariado por excesso de ganância.

Na cena real não é nada disso. Lula acusa os empresários porque não pode chamar de gananciosos os congressistas para não arrumar mais confusão do que já arrumou tentando testar os limites do Parlamento na afronta explícita a duas decisões inequívocas. Fernando Haddad tenta suavizar e disfarça dizendo que a decisão cabe ao presidente, mas já está tomada pelo Congresso.

Mercadante nega a volta da política de campeões nacionais com o plano para a indústria: 'Não escolhemos parceiro'

Por Alvaro Gribel e Karolini Bandeira / O Globo

Presidente do BNDES diz que nova política industrial terá editais públicos e transparentes com 'rigor nas garantias'

O presidente do BNDESAloizio Mercadante, negou que a nova política industrial lançada nesta segunda-feira pelo governo Lula represente a volta da política de "campeões nacionais" que começou nos primeiros governos Lula e vigorou principalmente durante o mandato de Dilma Rousseff.

Por essa política, o governo concedia crédito direcionado a empresas consideradas competitivas em determinados segmentos para que elas liderassem o desenvolvimento industrial do país. Em alguns casos, o banco se tornou sócio de empresas que escolheu incentivar para que adquirissem outras empresas e se internacionalizassem.

Mercadante diz que o banco não vai escolher parceiros:

— O que é importante vocês registrarem nesta discussão: As consultas ao BNDES, em relação a 2022, cresceram 88%, temos R$ 270 bilhões em projetos tramitando. Essa é a esteira, o projeto entra, a gente analisa e aprova. E é aberto a qualquer empresa. A gente trabalha por demanda, não escolhemos parceiro. Temos editais, são transparentes, as linhas de crédito são públicas e estamos recebendo os projetos - afirmou.

Míriam Leitão - Indústria elogia plano do governo para o setor

O Globo

CNI afirma que a medida é positiva por focar em desenvolvimento sustentável, investimento em produtividade e inovação

Por Ana Carolina Diniz

A indústria recebeu positivamente ao lançamento pelo governo federal da nova política industrial do país com promessa de financiamentos de até R$ 300 bilhões até 2026. Segundo o BNDES, deste total, R$ 250 bilhões serão mobilizados pelo banco.

Em nota, a CNI elogiou o programa Nova Indústria Brasileira e considera que a iniciativa é "positiva por focar em desenvolvimento sustentável, investimento em produtividade e inovação e comércio exterior". Afirmou ainda que o "governo brasileiro está no caminho certo ao lançar uma nova política de neoindustrialização".

Vera Magalhães - Acertos e dúvidas da nova política industrial

O Globo

Aposta em inovação tecnológica, transformação digital e transição energética são pontos altos, enquanto ênfase no BNDES gera ceticismo

O Nova Indústria Brasil, nome pelo qual foi batizada a política industrial anunciada nesta segunda-feira pelo governo Lula, acerta ao apostar nos vetores certos em termos de setores que merecem investimento para se desenvolver, mas desperta ceticismo de analistas ao reafirmar velhas máximas de governos petistas que não tiveram êxito no passado, como a crença de que as cotas de chamado "conteúdo nacional" em compras e obras públicas vão alavancar determinados setores da economia, ou que o BNDES pode ser um grande impulsionador do crescimento econômico.

Os méritos da política vêm, portanto, do que ela tem de novo em relação aos governos anteriores. Diferentemente de muitos programas que são meras reedições dos mandatos anteriores de Lula e Dilma Rousseff, este focou em questões cruciais para o desenvolvimento econômico de qualquer país hoje, como inovação tecnológica, transformação digital e bioeconomia, com ênfase na transição energética.

PT cede e deve ter o menor número de candidatos em capitais

Por Lauriberto Pompeu e Camila Turtelli / O Globo

Legenda prevê lançar nomes próprios a prefeito em apenas 16 dos 26 estados onde haverá disputa; no restante, vai apoiar aliados. Mesmo com concessão, sigla não deve escapar de saias-justas

 De volta à Presidência após articular uma frente ampla de partidos em 2022, o PT deve ceder espaço a aliados nas eleições municipais deste ano e registrar o menor número de candidatos em capitais dos últimos 32 anos. O planejamento da legenda prevê lançar nomes próprios a prefeito em apenas 16 dos 26 estados onde haverá disputa. Nas demais, apoiará nomes de outras legendas, o que não vai impedir o partido de enfrentar saias-justas — seja no apoio a nomes do seu próprio campo político ou ao enfrentar siglas que compõem a Esplanada dos Ministérios.

A mudança de estratégia ocorre após um resultado pífio há quatro anos, quando o partido concorreu em 21 capitais, mas não conquistou nenhuma. O desempenho das últimas eleições foi considerado como o “fundo do poço” por dirigentes petistas, que agora preferem concentrar esforços onde há chance de vitória.

Poesia | Filosofia, de Ascenso Ferreira

 

Música | Grande Fla x Flu, frevo de Carlos Fernando -

 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Avanço sobre Orçamento requer atenção do TCU

O Globo

Corte será decisiva para fiscalizar profusão de recursos distribuídos por meio das emendas parlamentares

O aumento no volume de recursos movimentados por meio das emendas parlamentares exige que o Tribunal de Contas da União (TCU) e as demais instituições de controle do Estado se tornem mais presentes. À medida que o Congresso conquista mais espaço no Orçamento, cresce a relevância do TCU, que atua como braço auxiliar do Executivo e do Legislativo e pode julgar casos envolvendo congressistas. Crescem, também, as pressões sobre a Corte.

Apesar de ela estar sujeita a nomeações políticas, o corpo técnico do TCU tem prevalecido na hora de aplicar multas quando constatados prejuízos ao Erário. Exemplo recente foi a descoberta de mais um desvio de verba parlamentar para bancar gastos familiares. Entre abril de 2022 e agosto de 2023, recursos destinados ao hoje ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), então deputado federal, foram usados para encher o tanque de veículos de sua mulher, de seu pai, de seu irmão e de sua cunhada. Sempre no mesmo posto do Recife. No período, foram abastecidos 48 veículos. A conta de R$ 105.500 foi despachada ao Tesouro. O Ministério Público que atua junto ao TCU apresentou representação para investigar o modo como Costa Filho distribuiu dinheiro público entre a família. Denunciado o caso, o gabinete do ministro reviu a papelada, e o dono do posto concluiu que seu estabelecimento “cometeu um erro contábil”.

Fernando Gabeira - Democracia e seus tremores

O Globo

Acontecimentos que passam de raspão na imprensa, às vezes fermentam nas redes. Ou são plantados como mais uma semente

Celebramos no 8 de Janeiro um ato que se chamou Democracia Inabalada. Isso nos transmite a impressão da força da democracia, depois das eleições e do fracasso de uma tentativa de golpe.

Quando olhamos de fora, pensamos: E la nave va. Mas esse imenso barco da democracia inabalada tem alguns furos que, lá na frente, podem resultar em algo como as revoltas de 2013. Em outras palavras, existem coisas que potencialmente podem colocar o povo contra a democracia.

Desde o século passado, quando se teorizou sobre a sociedade do espetáculo, é relativamente clara a ideia de que governos e sistemas não dependem apenas do que fazem. São determinados pela visão que se transmite deles pela mídia.

Começam aí minhas apreensões. Atualmente, essa visão não é apenas transmitida pela mídia, mas também, e fortemente, pelas redes sociais. Acontecimentos que passam de raspão na imprensa, às vezes fermentam nas redes sociais. Ou pelo menos são plantados como mais uma semente que adiante pode germinar.

Demétrio Magnoli - Catastrofismo climático

O Globo

A transição verde é cara e lenta

‘Quero que a sabotagem aconteça em escala muito maior que a atual. Não posso garantir que isso não provoque acidentes.’ A resposta do ativista climático sueco Andreas Malm a uma pergunta do New York Times sobre o risco de mortes em atos de sabotagem de movimentos ambientais não deve surpreender. Malm é autor de “How to blow up a pipeline” (“Como explodir um oleoduto”) — livro que não ensina a destruir nada, mas defende a ideia de ataques contra a infraestrutura de empresas de petróleo e gás. É, quase, o manifesto do ecoterrorismo.

Vandalizar patrimônio não é matar pessoas. Contudo o raciocínio que sustenta a sabotagem serviria, também, para legitimar o passo seguinte. A lógica de fundo reside na soma de duas ideias: 1) a sobrevivência das sociedades encontra-se sob risco iminente, derivado das emissões de gases de efeito estufa; 2) os mecanismos democráticos e a diplomacia fracassaram diante do poder econômico que sustenta os padrões vigentes de produção de energia. Afinal, de que valem patrimônios e vidas se o que está em jogo é o futuro da humanidade?

Cacá Diegues - Ainda o cinema nacional

O Globo

É preciso voltar a ouvir os cineastas brasileiros, que transmitem nosso testemunho do que somos

Terminei meu artigo do último domingo com uma frase muito simples que escancara as necessidades de sobrevivência do cinema brasileiro: “Os filmes estavam ficando cada vez melhores”, escrevi, “era preciso construir então a economia nacional que os iria expandir; e essa economia, como hoje, não poderia existir sem uma participação decisiva do Estado”.

O governo federal resolveu finalmente contribuir com essa “participação decisiva”, restabelecendo o compromisso dos que são responsáveis pela exibição de filmes no país. Cada sala de exibição teria que passar um filme brasileiro dentro de uma proporção de filmes estrangeiros ali exibidos.

Essa regra foi criada no Brasil no finalzinho do século XX por iniciativa de um grupo de cineastas convocado pelo governo de então para isso. Os filmes estrangeiros não eram em nada prejudicados pela iniciativa, pois o número de filmes nacionais que se beneficiavam da regra era proporcional ao número de seu resultado, em confronto com a renda total dos estrangeiros assinalada pelo valor de sua distribuição no país.

César Felício e Andrea Jubé - PT define objetivos para eleições

Valor Econômico

Prioridade é derrotar candidaturas alinhadas à oposição nas capitais e principais cidades do país

A ala política do governo estabeleceu três objetivos para as eleições municipais deste ano. Não se acredita que a disputa pelo comando das prefeituras irá afetar a eleição presidencial, mas existe uma aposta de que a polarização entre apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Jair Bolsonaro irá se aprofundar e a prioridade é derrotar candidaturas alinhadas à oposição nas capitais e principais cidades do país, para disputar o espaço político.

O segundo objetivo é eleger o maior número possível de vereadores do PT e de partidos que podem se comprometer com a reeleição do presidente. A ideia é acolher pessoas que fizeram o enfrentamento em defesa do PT e do presidente Lula e transformá-las em lideranças locais. A premissa é que uma base reforçada de vereadores dará capilaridade para os candidatos a deputado federal em 2026.

Bruno Carazza* - Emendas, ineficiência, crises e corrupção

Valor Econômico

Orçamento impositivo não combina com sistema eleitoral proporcional

Na semana passada, discutindo a recente obra de Rodrigo de Oliveira Faria (Emendas Parlamentares e o Processo Orçamentário no Presidencialismo de Coalizão) argumentei que o maior controle de deputados e senadores sobre o orçamento altera radicalmente o jogo da política no Brasil.

A execução obrigatória de um montante cada vez maior de emendas parlamentares tem implicações significativas sobre a governabilidade, a eficiência do gasto público e a propensão a novos casos de corrupção.

O fortalecimento do protagonismo do Legislativo sobre a aplicação do dinheiro público tem justificativas plausíveis. Práticas distorcidas, porém, tendem a levar a resultados bastante distantes das boas intenções iniciais.

Gustavo Loyola* - Mais um ano desafiador

Valor Econômico

Há um cenário internacional que longe está de ser favorável para as economias emergentes

Os desafios para a economia brasileira em 2024 são enormes. Não se trata de pessimismo fatalista, até porque uma boa gestão macroeconômica, mesmo em conjuntura adversa, poderia trazer resultados satisfatórios em termos de crescimento econômico e estabilidade de preços. A receita do sucesso continua sendo o velho e conhecido “tripé macroeconômico”: observância do regime de metas para inflação, câmbio flutuante e equilíbrio fiscal.

No cenário externo, não faltam riscos geopolíticos e macroeconômicos. O conflito no Oriente Médio, com crescentes ramificações, ameaça criar dificuldades logísticas para o comércio internacional, além de efeitos negativos sobre o mercado de energia. Quanto à guerra Rússia-Ucrânia, numa situação de impasse militar, nada indica que esteja próxima a um final satisfatório, o que representa uma permanente ameaça para a economia global.

Carlos Pereira - A chancela do protagonismo dos juízes

O Estado de S. Paulo

Supremas Cortes fazem uso da sua independência quando atuam de forma majoritária

O engajamento de Supremas Cortes na defesa da democracia é um fenômeno relativamente recente na América Latina.

No artigo How Latin America’s judges are defending democracy, Zambrano e coautores identificam que as Supremas Cortes da Colômbia, do México e do Brasil mostraram protagonismo contra iniciativas iliberais de governos, evitando retrocessos democráticos.

Na Colômbia, a Corte Constitucional se valeu da sua independência para declarar inconstitucional a terceira tentativa de reeleição do então presidente Uribe em 2010. Em 2023, a Corte expandiu a latitude de seus poderes ao decidir que pode suspender leis consideradas inconstitucionais ou decisões do Congresso que tragam danos à ordem constitucional.

Camila Rocha - Narcogarimpo, política e genocídio yanomami

Folha de S. Paulo

Atividade ilegal é motor econômico em Roraima, e população local continuará a rejeitar pautas ambientais

As trágicas imagens do genocídio yanomami em Roraima muitas vezes vêm acompanhadas da figura do garimpeiro. Tidos por parte da imprensa e dos movimentos sociais como "maus elementos", os garimpeiros são, em sua maioria, pessoas pobres, descendentes de migrantes nordestinos, que passaram a ocupar a região amazônica a partir das décadas de 1960 e 1970 com incentivo de governos militares.

Na época, o apoio estatal ao garimpo era explícito, tanto que, em 1969, foi construído em Boa Vista (RR) o Monumento ao Garimpeiro. Porém, com a demarcação de terras indígenas prevista pela Constituição de 1988, o garimpo se tornou ilegal em tais territórios, o que possibilitou o surgimento do narcogarimpo.

Ana Cristina Rosa - É preciso sair da superfície

Folha de S. Paulo

Enfrentar fatores institucionais que sustentam o racismo no ensino vai além de conceder bolsas e criar conta poupança

Há no Brasil um movimento pró-inclusão de bolsistas negros em universidades e escolas particulares de alto padrão. Na esfera pública, semana passada foi sancionada lei que cria uma poupança de incentivo à conclusão do ensino médio por estudantes de baixa renda.

Ótimo! São iniciativas muito importantes. Mas não dá para simplesmente aplaudir. Por mais nobre que seja, conceder bolsas de estudos e criar conta poupança não é o suficiente.

É preciso incluir, incentivar o respeito pela diversidade, ter professores negros, implementar um currículo com educação antirracista, investir na melhoria das condições de ensino (no caso das escolas públicas) e estar preparado para encarar os desafios impostos por realidades muito díspares.

Lygia Maria - Opressões imaginárias

Folha de S. Paulo

Denunciar preconceito onde não há é sinal de ressentimento pernicioso aos movimentos sociais e ao debate público

Ser uma vítima de opressão gera curtidas nas redes sociais. Não me refiro a opressões reais, que precisam ser denunciadas, mas às imaginárias. De modo consciente ou não, situações muitas vezes banais, que nada têm de racismomachismo ou homofobia, adquirem magicamente alguma dessas pechas.

Trata-se de um fenômeno pernicioso, que pode gerar não apenas injustiças, como cancelamentos e linchamentos virtuais, mas distorcer o debate público sobre o preconceito através de um moralismo tacanho.

Glenn Greenwald* - Propaganda pró-Israel

Folha de S. Paulo

Fantástico apresenta defensor do país como fonte neutra e exclui perspectiva palestina

A edição do último domingo (14) do Fantástico apresentou uma rápida e conveniente retrospectiva dos 100 dias da guerra entre Israel e Hamas. A matéria, em seu conjunto, é uma peça declarada de propaganda do governo de Binyamin Netanyahu, como vem sendo o grosso da cobertura da guerra pelo grupo Globo e pela grande mídia brasileira.

Desde o início, o teor da reportagem é idêntico à propaganda israelense. A repórter estava em Tel Aviv, mas não em qualquer parte da Palestina. No que diz respeito às acusações formais de genocídio contra Israel apresentadas à Corte Internacional de Justiça pela África do Sul, o programa incluiu apenas um representante de Israel, junto com Netanyahu, defendendo o caso, mas ninguém defendendo a acusação de genocídio foi ouvido.

A retórica da matéria incluiu imagens explícitas e emocionais de muitos israelenses feridos ou mortos em 7 de outubro, mas quase nada sobre civis palestinos mortos ou mutilados, um número cerca de 50 vezes maior. Nada foi dito sobre os milhares de palestinos mortos por Israel antes dessa data nem sobre os horrores da ocupação israelense da Cisjordânia e do seu bloqueio de quase duas décadas a Gaza.

Marcos Strecker - 2024 será uma reedição de 1968?

Revista IstoÉ  

Há 60 anos, a sociedade também estava rachada e a direita crescia. Mas, ao contrário do momento atual, a democracia se fortalecia

Mal o ano começou, dois eventos bombásticos mostraram as fortes emoções que devem sacudir o planeta em 2024. O ataque dos militares americanos e britânicos contra o grupo terrorista Houthi no Mar Vermelho confirma que o conflito israelense em Gaza começa a se espalhar para o Oriente Médio, o que, ao lado da guerra na Ucrânia, ameaça a economia mundial. Em Davos, os líderes mundiais apostam em desaceleração nos próximos meses. Nos EUA, a vitória acachapante de Donald Trump nas prévias de Iowa confirma que ele será o candidato republicano e provavelmente voltará à Presidência do país.

Poesia | Viagem na Família, Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Moraes Moreira - Chame Gente / Vassourinhas