sábado, 14 de novembro de 2020

Merval Pereira - Política fora dos quartéis

- O Globo

Embora não se possa dizer que seja sensata uma pessoa que tem como ídolo o coronel Brilhante Ustra, denunciado formalmente como torturador, e aceita a tortura como arma de guerra, o vice-presidente, General Hamilton Mourão, tem defendido teses razoáveis desde o início do governo. E teve o cuidado de, eleito, não voltar a temas como a tortura, ou o autogolpe, que abordou na campanha presidencial.

Mais uma vez ele se sobressai, com posições razoáveis e sensatas, em relação ao presidente Bolsonaro que, para se vingar, já disse que Mourão é muito mais “tosco” do que ele, como se avisasse: não adianta querer me derrubar porque o Mourão é pior ainda. Pouco provável, pela formação acadêmica de um general de quatro estrelas, e pelas posições que tem tomado, pessoalmente ou na presidência do Conselho da Amazônia.

Aliás, foi nessa posição que Mourão trombou com Bolsonaro, ao ser revelada uma das propostas em estudo para conter as queimadas e as grilagens na região. “Expropriar propriedades rurais e urbanas acometidas de crimes ambientais ou decorrentes de grilagem ou de exploração de terra pública sem autorização" seria permitido através de uma emenda constitucional (PEC), uma demonstração cabal de que o governo estava se mobilizando para evitar o que hoje acontece na região.

Ricardo Noblat - O grande mudo volta a quebrar o silêncio

- Blog do Noblat | Veja

Recados do Comandante do Exército a quem interessar

Ao contrário do seu antecessor, o general Eduardo Villas Boas, que gostava de falar e que pelo menos uma vez pressionou o Supremo Tribunal Federal para que negasse habeas corpus pedido por Lula, o general Edson Leal Pujol pôs uma trava na língua desde janeiro de 2019 quando assumiu o comando do Exército.

Em julho daquele ano, baixou uma norma para frear o ativismo político de soldados e oficiais nas redes sociais. Vinculou suas manifestações ao que está “fielmente prescrito no Estatuto dos Militares e no Regulamento Disciplinar do Exército”. E para dar o bom exemplo, fechou suas contas no Twitter e no Facebook.

Quando o presidente francês Emmanuel Macron criticou o governo brasileiro por causa das queimadas na Amazônia, e Villas Boas, então assessor do Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República, falou em “ameaça de guerra”, Pujol tirou por menos. Disse à saída de uma visita ao Congresso:

– A França é um país de tradição de liberdade e de democracia. Certamente não há motivos para nós nos sentirmos ameaçados.

Em novembro de 2019, às vésperas de mais um aniversário da Proclamação da República, falou pela primeira vez. Numa curta ordem do dia com apenas sete parágrafos, valeu-se três vezes da palavra “profissão” ou “profissionalismo” para destacar o compromisso do Exército com a liberdade e a democracia.

Ascânio Seleme - Hora de eleger seu vereador

- O Globo

Tão importantes quanto o prefeito, os vereadores serão decisivos para o futuro da sua cidade.

Tão importantes quanto o prefeito, os vereadores serão decisivos para o futuro da sua cidade. Eles são os legisladores municipais, redigem e aprovam as leis que podem transformar comunidades, para melhor ou para pior. São os fiscais políticos da ação governamental do prefeito. Os vereadores são o ponto que mais aproxima o cidadão de quem vai dirigir a sua cidade.

Amanhã, o eleitor terá sua primeira e única chance de votar e eleger um representante seu na Câmara Municipal. Para prefeito, ainda haverá outra oportunidade no segundo turno de modo a se corrigir eventuais erros. Para vereador só há um dia, amanhã.

Cidadão honesto não vota em bandido. Portanto, os primeiros candidatos a serem descartados são os milicianos, os traficantes, os corruptos. Eles estão por todas as partes, espalham-se por vários partidos. Milicianos e traficantes se elegem sempre pela força do seu poder coercitivo nas comunidades mais vulneráveis. Corruptos ganham a vaga mentindo e comprando votos. O eleitor que negar o seu voto a eles estará ajudando a derrotá-los.

Além de riscar esses candidatos, é importante também conhecer melhor os que merecem ser votados. São muitos. Há candidatos bons em quase todos os partidos, com orientações políticas distintas, mas que por igual prezam o bem comum. Não será difícil escolher o que pareça mais preparado para percorrer o caminho que o eleitor gostaria de ele próprio seguir.

Há diversas maneiras para se conhecer os candidatos, e conhecê-los é parte da atividade cidadã que deve ser cumprida antes de se dirigir à urna. Como resta apenas um dia, pesquisar na internet ajuda. Aplicativos de jornais, como os do GLOBO que foram colocados no ar esta semana, auxiliam o eleitor a encontrar o candidato que mais se aproxime do seu perfil político.

Rubens Ricupero* - A vitória de Joe Biden é uma boa notícia para o Brasil? Sim

- Folha de S. Paulo

Haverá espaço para relação construtiva, inclusive em meio ambiente e comércio

Para o Brasil, isto é, para o povo brasileiro, é bom. Para o governo Jair Bolsonaro, não tanto. Os leitores talvez não se lembrem da frase do general Juracy Magalhães: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Pois bem, neste caso ele teria razão.

Basta pensar no aquecimento global. Se não fizer mais nada além de voltar ao Acordo do Clima de Paris, Joe Biden já terá feito um bem imenso ao mundo e, portanto, à parte que nos cabe no planeta comum.

Para o nosso povo, abandonado pelo próprio governo diante da Covid-19, é ótimo que o novo presidente tenha a intenção de prestigiar a ciência na luta contra a pandemia, regressar à Organização Mundial de Saúde e liderar o esforço mundial por uma vacina.

Também será excelente para os amantes da liberdade que Biden convoque, como anunciou, uma Cúpula em favor da Democracia para discutir o aumento do autoritarismo, a luta anticorrupção e os direitos humanos. Quem não vai gostar são os que defendem torturadores, os nostálgicos da ditadura e do AI-5, que querem fechar o Congresso e o Supremo. Para os democratas, a notícia traz alento e esperança.

Demétrio Magnoli* - Guia prático do voto

- Folha de S. Paulo

Não vote em candidatos que invocam o espectro do inimigo do povo

Folha reverteu sua orientação tradicional, de proibir que colunistas utilizem seus espaços para declarar voto em candidatos. A tradição estava certa: preservava a esfera do discurso opinativo profissional, destinado a suscitar a reflexão e o debate, separando-o do discurso eleitoral, que se move segundo regras utilitárias. Por isso, recusarei a nova “liberdade”. No lugar de uma declaração positiva de voto, ofereço um guia eleitoral negativo.

Não vote em candidatos que:

1. Invocam o espectro do “inimigo do povo”. A crítica dura do adversário faz parte do jogo. Mas exibi-lo, explícita ou implicitamente, como “inimigo do povo”, revela uma alma antidemocrática.

Os regimes tirânicos apoiam-se no conceito de que as sociedades estão divididas entre cidadãos leais e traidores, aos quais se reserva a prisão, o degredo ou a morte. A figura retórica do “inimigo do povo” é a transposição dessa ideia às condições postas pelo sistema democrático.

Candidatos que operam por essa lógica estão cometendo uma fraude. O jogo democrático parte do pressuposto de que todos as candidaturas são expressões legítimas da pluralidade ideológica da sociedade. Tratar o rival eleitoral como “inimigo do povo” é violar as regras que asseguram o direito de candidatura do próprio acusador.

Hélio Schwartsman - Ditadura eleitoral

- Folha de S. Paulo

No dia da votação, estado de exceção se torna ditadura escancarada

Os EUA, mais uma vez, acabam de mostrar ao mundo os riscos de um sistema eleitoral descentralizado e sem padronização —e nem estou falando da extemporaneidade que é o colégio eleitoral.

Como cada estado faz mais ou menos o que quer, no tempo em que quer, não existe um instante inequívoco em que se possa identificar o vencedor. Normalmente, isso pode gerar confusão, mas não é um problema grave. Quando, porém, temos um Trump do lado derrotado, a falta de uma autoridade eleitoral central facilita contestações, que podem fragilizar a democracia.

No Brasil, padecemos do problema oposto, que são os pleitos hiper-regulados. Com efeito, a Lei Eleitoral (9.504/97) e as toneladas de resoluções da Justiça Eleitoral, que pretendem controlar cada aspecto das campanhas, transformam o período eleitoral num estado de exceção, no qual liberdades fundamentais, como as de expressão, reunião e investigação científica, ficam suspensas.

Cristina Serra - Canalhas, canalhas, canalhas!

- Folha de S. Paulo

Aos que contribuíram para o estado atual das coisas, repito Tancredo em 1964

Muitos que ajudaram Jair Bolsonaro a se eleger, sabendo quem ele é, agora fingem espanto cada vez que ele aumenta a voltagem das barbaridades que despeja de sua boca pestilenta. Teve até general escrevendo cartinha lamuriosa. Sentem-se traídos? Bem feito.

Apesar de suas evidentes dificuldades com a sintaxe, Bolsonaro sabe se expressar como poucos quando se trata de insultar alguém. Como fez em recente cerimônia, em que ofendeu o povo brasileiro e bravateou contra o presidente eleito dos EUA.

Bolsonaro arrasta o país ao ridículo mundial junto com sua figura grotesca, capaz de comemorar a interrupção dos testes da vacina contra a Covid e de lançar suspeitas infundadas sobre a imunização; aparelhar a Anvisa e destruir o que resta da credibilidade do órgão regulador, num momento em que a pandemia está longe de ser controlada. Isso é um crime contra o país.

Alvaro Costa e Silva - O Bolsonaro que ruge

- Folha de S. Paulo

Ao sugerir que o Brasil poderá entrar em guerra contra os Estados Unidos, presidente mergulha as Forças Armadas na chacota

Sobrou mais uma vez para as Forças Armadas, cuja desmoralização é o maior e mais bem realizado trabalho do governo. Não cabe mais citar o lugar-comum "Freud explica" para justificar as ações do capitão que, eleito presidente, passa a humilhar militares de alta patente, reduzindo-os a recrutas zeros. Ao sugerir que o Brasil poderá entrar numa guerra contra os Estados Unidos, Bolsonaro autorizou a chacota geral.

"Apenas a diplomacia não dá. Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora", disse o presidente, em seu mais recente ataque de pelanca, referindo-se a possíveis sanções econômicas do candidato eleito Joe Biden para impedir o desmatamento da Amazônia. Aparentemente sem se importar com o tamanho do buraco em que o Exército está metido, o general Mourão entrou na onda e gozou a declaração do chefe: "É uma figura de retórica".

Míriam Leitão - As contas que os prefeitos verão

- O Globo

As cidades estão com suas contas em situação melhor do que os estados, apesar da pandemia. Mas nem por isso os prefeitos eleitos amanhã ou no segundo turno podem relaxar. O ano que vem será difícil. Neste ano de pandemia, as receitas próprias dos grandes municípios caíram, mas as transferências da União aumentaram e compensaram a queda. O resultado é uma situação boa diante da crise econômica que o país vive. Uma das fontes mais importantes de arrecadação das cidades é o ISS, mas o setor de serviços está se recuperando de forma lenta, incerta e heterogênea.

Para entender como estão as contas das cidades, cujo destino está sendo disputado nas eleições que começam amanhã, conversei com a Secretaria do Tesouro e uma economista especializada no assunto, Vilma Pinto. O que eles disseram vai na mesma direção. Quem olha os números das prefeituras do país pode ficar com a impressão de que está tudo bem e que há base para os planos que os candidatos têm oferecido na tentativa de atrair o eleitor. Serão anos difíceis, na verdade, que vão exigir muito do administrador. As receitas estão no azul, na maioria das capitais, mas a transferência da União deste ano foi um caso excepcional. Ela não se repetirá à frente.

Adriana Fernandes - A hora da verdade

- O Estado de S.Paulo

O mínimo que o governo deve garantir é a aprovação de um Orçamento decente e crível

A contagem regressiva começou. A hora da verdade da agenda de projetos econômicos do governo chega daqui a dois dias, depois do primeiro turno das eleições municipais.

Não tem mais desculpas nem dá mais para apontar o dedo a alguém ou algum evento pela demora. Será na segunda-feira. É quando saberemos se o presidente Jair Bolsonaro, sua equipe econômica e líderes no Congresso estão de fato com um plano coordenado para um acordo de votações essenciais até o fim do ano. Será a prova de fogo dessa articulação.

Por enquanto, a desconfiança prevalece, e o risco fiscal deve continuar no radar até a aprovação do Orçamento de 2021. A indefinição e as incertezas sobre o Orçamento têm levado investidores a procurarem proteção no dólar.

O day after das eleições acontece num momento em que há indicadores favoráveis antecedentes da economia (aqueles que apontam previsões para o futuro), mostrando que a atividade continua em processo de recuperação, como serviço, indústria e comércio, numa retomada depois do abalo da pandemia do coronavírus

João Gabriel de Lima - Da turma de Marx à turma de Mark

- O Estado de S.Paulo

A campanha para prefeituras mostra consistência de vários candidatos da nova safra

A turma do anime e do videogame está pronta para invadir, novamente, os gabinetes do Brasil. As eleições para prefeito confirmarão uma forte tendência do pleito legislativo de 2018: a chegada de uma nova geração à vida política brasileira. O podcast Política Sub 30, apresentado por Adriana Ferraz Paulo Beraldo, jornalistas do Estadão, traçou recentemente o retrato dos parlamentares jovens que brotaram de todos os lados do espectro político, de Dani Monteiro a Kim Kataguiri, de Tabata Amaral a Enrico Misasi. Vários integrantes da mesma turma disputarão o voto nos municípios brasileiros.

É uma geração que, contrariando a praxe de Brasília, não espera quinta-feira para pegar um avião e ir ao encontro de suas “bases”. Eles não têm bases – têm redes. Estão em contato em tempo real com os movimentos que os elegeram, as universidades onde estudaram, os centros de pesquisa nas áreas em que atuam. O caso sobre o auxílio emergencial, narrado há algumas semanas neste espaço, é ilustrativo. Para ajudar a colocar o projeto de pé, 163 organizações se uniram e se mantiveram em conexão permanente com jovens congressistas. Até o último minuto, os técnicos da aliança faziam cálculos e passavam à deputada Tabata Amaral.

Entrevista | ‘Se você acredita na democracia, acredita no voto’, diz Boris Fausto

O historiador e cientista político ressalta a importância da votação, mesmo diante de uma crescente crise de representatividade no regime democrático

Mílibi Arruda | O Estado de S.Paulo

No dia 15 de novembro, os brasileiros vão às urnas no primeiro turno das eleições 2020 para eleger prefeitosvice-prefeitos e vereadores de suas cidades. No País, o voto é obrigatório, mas, além de ser um dever, é também um direito do cidadão de escolha de seus representantes.

“Se você acredita na democracia - que é um regime com defeitos, mas esses defeitos podem ser reduzidos - você acredita no voto”, explica o historiador e cientista político Boris Fausto, de 89 anos.  Com pesquisas sobre história política do Brasil no período republicano ele explica que, embora as pessoas possam se frustrar com os eleitos, o voto é relevante porque garante a possibilidade de escolha. 

Como exemplo recente da importância do voto, ele cita as eleições americanas, em que a disposição a ir votar e a participação nas urnas foram decisivas para o resultado. “Hoje, o maior exemplo de que se deve votar encontra-se nos Estados Unidos”.

Além disso, Fausto aponta que a votação também garante a rotatividade no poder, impedindo que representantes fiquem por tempo indefinido nos cargos. Mas faz uma ressalva: não é só o voto que constitui a democracia. “Outras coisas devem ser adicionadas: os direitos do cidadão, das minorias e menor desigualdade social”.

Sobre a possibilidade de um alto número de abstenções neste pleito, o historiador diz que a pandemia de covid-19 contribui para o quadro, porém essa é uma situação que vem de antes. “Os desprestígio das eleições é algo que tem ocorrido em todo mundo. O Brasil faz parte deste fenômeno”.

Veja abaixo a íntegra da entrevista com o historiador Boris Fausto:

Bolívar Lamounier* - Rotos e esfarrapados

- O Estado de S.Paulo

Noves fora, não estamos na iminência de um retrocesso, estamos bem no meio dele

A disputa eleitoral deste ano nos Estados Unidos escancarou para todo o mundo a facilidade com que um país se pode deixar arrastar para a radicalização e, com ela, para o retrocesso.

Em 1967, Anthony Downs, um dos mais celebrados cientistas políticos americanos, elaborou um requintado argumento a fim de demonstrar que os Estados Unidos dificilmente cairiam em tal armadilha. Numa sociedade próspera, com apenas dois grandes partidos, sem tradições ideológicas comparáveis às da Europa, um candidato teria de pender para o centro, sob pena de se isolar e perder de lavada. A virtude estaria sempre no centro. Tal argumento podia ser lido como um retrato fiel do que acontecera três anos antes, quando o destempero radical do sulista Barry Goldwater empurrou o Partido Republicano para um abismo. Aquele pleito e a teoria de Downs casavam-se perfeitamente. Nada que ver, é claro, com a eleição de 2020. Ainda próspero, mas economicamente muito mais vulnerável, sem ideologias do tipo europeu, mas com algo muito pior, um racismo desabrido e crescente, a polarização se impôs no país desde a eleição de 2016.

Donald Trump não sucumbiu como Barry Goldwater. Ao contrário, mostrou-se altamente competitivo. Transformou a grossura verbal em potente arma política, a ponto de se apresentar como vítima de fraude nas urnas. Chega mesmo a declarar que não passará o cargo a Joe Biden no dia 20 de janeiro, como prescreve a lei. Quem diria, o modelo mundial de democracia subitamente transformado em ícone de república bananeira.

Claro, nós, brasileiros, rirmos do grande irmão do norte é como o roto rir do esfarrapado. Primeiro, porque não somos uma sociedade próspera: somos bem o contrário disso. Segundo, porque não temos dois partidos centenários, teoricamente capazes de moderar os enfrentamentos políticos. Temos 26 siglas representadas na Câmara dos Deputados, nenhum deles detendo sequer 20% das cadeiras, sendo, por conseguinte, muito mais parte do problema que da solução. No nível de Trump, ou aspirando a tal, temos no Planalto o sr. Jair Bolsonaro, que não transformou a pandemia num desastre muito maior porque não foi capaz, e porque o Brasil, nesse aspecto, tem pelo menos uma defesa de que os Estados Unidos carecem: um sistema público de saúde.

Raul Jungmann* - Amazônia: decifra-me ou te devoro

- Capital Político 

Dependendo do olhar que se lance sobre a Amazônia Legal, ora ela parece um gigante, ora um anão. Geográfica e fisicamente ela é indiscutivelmente superlativa: 61% do território nacional, com mais de 5.2 milhões de Km2; um terço de todas as florestas tropicais do mundo, 20% da água potável do planeta, idem maior bacia hidrográfica, maior rio, maior banco genético e diversidade.

Se fosse um país, a Amazônia internacional seria o sexto maior em extensão, espalhando-se por nove países sul-americanos. Na outra face da moeda, a região detinha apenas 8% do PIB em 2018, e 12.3% da população total do país, algo como 23 milhões de habitantes – destes, 69% concentrados nas áreas urbanas.

Em 2007, as áreas protegidas (reservas indígenas + áreas ambientais + reservas militares) somavam 209 milhões de hectares, dos quais 53% em situação fundiária incerta, segundo o Imazon.  Em resumo, a gigante Amazônia é um “vazio de poder”, em termos econômicos, populacionais e políticos. Historicamente, apenas em 1953, no segundo governo Vargas, foi criada a SPVEA – Secretaria Para a Valorização Econômica da Amazônia, antecessora da igualmente impotente SUDAM.

Sérgio C. Buarque* - Desenvolvimento possível. E necessário

- Revista Será? (PE) 

O diagnóstico de Elimar Nascimento sobre a intensidade, a extensão e as causas da degradação ambiental (artigo intitulado “Adeus ao desenvolvimento” publicado na Revista Será?) é incontestável. No fundamental, concordo com as propostas apresentadas por ele para evitar um grande desastre ambiental ou, na melhor das hipóteses, deter a marcha da insensatez. No entanto, na sua tentativa de defesa da ideia de “decrescimento”, Elimar recorre a uma interpretação equivocada e injusta da proposta de desenvolvimento sustentável. Logo no início do seu artigo, afirma que o desenvolvimento sustentável “contém, necessariamente, a ideia de crescimento econômico, do ponto de vista material e, portanto, de uso de mais energia fóssil”.

O desenvolvimento sustentável não propõe o crescimento da economia e rejeita totalmente o uso de mais energia fóssil, embora não exclua a possibilidade de aumento do produto, desde que limitado pelas condições ambientais. O desenvolvimento sustentável, não custa repetir, propõe a mudança que leve a um equilíbrio crescente das dimensões econômica, social e ambiental. Cada uma dessas dimensões define os limites da outra, de modo que o crescimento da economia só é aceitável se não provocar degradação ambiental, o que é possível em determinadas condições estruturais e tecnológicas.

Marcus Pestana* - A reinvenção da democracia e o poder local

Amanhã elegeremos os novos prefeitos e vereadores dos municípios brasileiros. Muito papel e tinta têm sido gasto para discutir a crise da democracia representativa no mundo contemporâneo. No Brasil, além das características universais tivemos um processo específico e radical que foi a crise, entre 2014 e 2018, envolvendo simultaneamente recessão, desemprego, impeachment, Lava Jato e a desmoralização do sistema partidário tradicional. O resultado foi uma eleição em 2018 completamente disruptiva, com a eleição de outsiders para a Presidência da República e diversos governos estaduais nas asas da “nova política”. Pouco a pouco, e as dificuldades dos governadores do Rio de Janeiro, Santa Catarina e Amazonas não nos deixam mentir, fica claro que a “nova política” já nasceu velha. A própria oscilação do governo federal entre o presidencialismo de confrontação e o de coalizão, ao procurar apoio parlamentar do chamado “Centrão”, embaralham os conceitos de novo e velho, ainda mais a partir do esvaziamento da pauta anticorrupção, com a saída de Moro, e da perspectiva econômica modernizante, com a fragilização clara e crescente do antigo Posto Ipiranga, o Ministro Paulo Guedes.

As eleições municipais nunca tiveram carga ideológica elevada. A população é pragmática e quer saber quem é o líder local que pode melhor potencializar as energias presentes na sociedade municipal e ser o melhor gerente para a garantia de serviços públicos de qualidade para todos. Tanto que a polarização entre bolsonarismo versus petismo é totalmente periférica nesta eleição segundo a projeção das pesquisas.

O que a mídia pensa: Opiniões / Editoriais

O papel das Forças Armadas – Opinião | O Estado de S. Paulo

No Estado Democrático de Direito, ele está definido na Constituição e nas leis que tratam da atuação dos militares.

Em duas ocasiões recentes, o comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, manifestou de forma inequívoca o compromisso das Forças Armadas, em especial o da Força Terrestre, com a missão inarredável que lhes é atribuída pela Constituição. Em evento online promovido pelo Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE) sobre defesa e segurança, no dia 12 passado, o general Pujol afirmou que não só as tropas não querem “fazer parte da política”, como “muito menos deixar que ela entre nos quartéis”.

No dia seguinte, durante o Seminário de Defesa Nacional, realizado pelo Ministério da Defesa na Escola Superior de Guerra, o general Pujol voltou a tratar do assunto ao abrir a sua exposição sobre o plano estratégico do Exército enfatizando que a Força sob seu comando é e sempre será “uma instituição de Estado, permanente, e não de governo”, uma instituição cujo compromisso é “com a Constituição e com o País”.

As mensagens de Pujol foram reforçadas pelo vice-presidente da República. Ao portal G1, Hamilton Mourão disse que “não se admite política nos quartéis porque isso acaba com os pilares básicos das Forças Armadas, a disciplina e a hierarquia”.

São raras as manifestações públicas do comandante do Exército, sobretudo para tratar de tema tão sensível nestes tempos estranhos de flerte desabrido com ideias autoritárias. Qual é, afinal, o papel das Forças Armadas num Estado Democrático de Direito, como é o Brasil? Como impedir que a política “entre nos quartéis”, se o próprio presidente da República, o comandante em chefe das Forças Armadas, insiste em se utilizar delas para intimidar adversários e demonstrar prestígio político?

Música | Gal Costa e Rodrigo Amarante - Avarandado

 

Poesia | Fernando Pessoa - Eu, eu mesmo

   
Eu, eu mesmo... 
    Eu, cheio de todos os cansaços  
    Quantos o mundo pode dar. — 
    Eu... 
    Afinal tudo, porque tudo é eu, 
    E até as estrelas, ao que parece, 
    Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças... 
    Que crianças não sei... 
    Eu... 
    Imperfeito?  Incógnito?  Divino? 
    Não sei... 
    Eu... 
    Tive um passado?  Sem dúvida... 
    Tenho um presente?  Sem dúvida... 
    Terei um futuro?  Sem dúvida... 
    Ainda que pare de aqui a pouco... 
    Mas eu, eu... 
    Eu sou eu, 
    Eu fico eu, 
    Eu... 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Fernando Gabeira* - Um grande exorcismo

- O Estado de S.Paulo

Se foi possível nos EUA, por que não aqui, com personagens tão caricatos?

A derrota de Donald Trump não só tranquilizou, como trouxe alento a muitos países no mundo. A expressão de Francis Fukuyama referindo-se ao exorcismo para definir a vitória de Joe Biden é muito precisa. Parece que tudo volta lentamente a um curso mais racional, menos imprevisível. O Acordo de Paris volta a ser um instrumento potencialmente eficaz para combater o aquecimento global. Angela Merkel saudou a volta de uma aliança transatlântica e suas possibilidades.

Alguns países se recusam a reconhecer a derrota de Trump. China, Rússia e Brasil estão entre eles, por motivos diferentes, creio. Na linguagem diplomática o atraso é uma mostra inequívoca de insatisfação com o resultado. Tanto a China quanto a Rússia contavam com o avanço do processo de decadência americana, encarnado por Trump e seu isolacionismo.

O caso brasileiro é de orfandade. Bolsonaro perdeu seu grande inspirador. E a política externa, comandada por Ernesto Araújo, não tem mais o que considera o líder do Ocidente que iria fazer prevalecer os valores morais sobre o materialismo reinante. Não se sabe de onde se trouxe uma figura laranja, cheia de problemas com o Fisco, rude com as mulheres, para o cargo de guardião do cristianismo.

A pior das ilusões foi a expectativa provinciana de Bolsonaro se tornar amigo de Trump. Este sabe que nações não têm amigos e está escorado no slogan “America first”. Objetivamente, fez de Bolsonaro um fiel seguidor, pronto para aprovar tudo em nome de uma pretensa amizade pessoal, ali onde estavam em jogo interesses nacionais. A exportação do aço foi taxada, Bolsonaro dilatou o prazo para a importação do etanol e colocou sua diplomacia num ato de campanha eleitoral na fronteira com a Venezuela, quando da visita de Mike Pompeo. Para dar mais uns votinhos a Trump na Flórida. O Brasil armou o circo que Pompeo precisava.

Merval Pereira - Paciência histórica

- O Globo

Mais fácil imaginar um país como o nosso, em uma região com uma triste história de golpes militares e ditaduras, temer uma intervenção militar do que os Estados Unidos. Mas vivemos em tempos tão estranhos que a insistência do presidente Donald Trump em não reconhecer a derrota na eleição presidencial para Joe Biden está levando os americanos a uma situação nunca vista, a de temer um golpe para Trump continuar no poder.

A disputa não vai apenas pelo lado da Justiça, onde se decidem os embates político-eleitorais nos Estados Unidos, mas também no campo militar. A demissão do Secretário de Defesa Mark Esper, e a nomeação de assessores leais no Pentágono trouxeram para a cena política um temor que não combina com a tradição democrática americana, mas com a atuação política de Donald Trump, que não gosta dos limites que as instituições democráticas impõem ao presidente da República.

A demonstração de desapreço pela liturgia democrática não deve passar disso, uma arrogância sem resposta institucional favorável. Protagonista de memes nas redes sociais que o transformam em bobo da corte, não no rei que gostaria de ser, Trump vai se deteriorando pessoalmente, mas também a maior democracia do mundo sofre com seus arroubos.

O fato de o país continuar seu cotidiano sem grandes alterações pode ser uma demonstração, mais adiante, de que a democracia tem meios de neutralizar as bazófias de Trump sem torná-las uma ameaça real. Aqui no Brasil, à custa de crises e ameaças à democracia, conseguimos controlar o nosso Trump tupiniquim.

Eliane Cantanhêde - Sem saliva, sem pólvora

- O Estado de S.Paulo

Como Geisel e Aureliano, Mourão dá um choque de realidade nos absurdos

A ira despudorada do presidente Jair Bolsonaro não é só contra o futuro presidente da maior potência do planeta e o governador do principal Estado do Brasil, mas também contra o seu próprio vice-presidente, o general de quatro estrelas Hamilton Mourão, que parece, no íntimo, se divertir com o descontrole e os absurdos do presidente, que vira piada mundo afora.

Quando acaba a saliva, tem de ter pólvora.” A patética ameaça de Bolsonaro foi dirigida a Joe Biden, mas poderia ter sido para Mourão, já que os dois estão sem se falar. Acabou a saliva e sobrou a pólvora entre eles, lembrando João Figueiredo e Aureliano Chaves. A diferença é que Figueiredo era general e Aureliano, civil; Bolsonaro é capitão e Mourão, general.

O último presidente do regime militar também era destrambelhado, não raro ridículo, mas não estimulava golpistas, nunca ameaçou presidente nenhum, muito menos o dos EUA, nem pôs a saúde dos brasileiros em risco por ignorância e autoritarismo. O médico sanitarista Paulo Almeida Machado foi muito bem no Ministério da Saúde.

Bernardo Mello Franco - Saliva e pólvora: razões para o descontrole de Bolsonaro

- O Globo

Na terça-feira, Jair Bolsonaro ameaçou trocar a saliva pela pólvora nas relações com os Estados Unidos. Já se passaram três dias e ele ainda não mandou a FAB bombardear a Estátua da Liberdade. A bravata só serviu para expor os militares ao ridículo. Os generais que se associaram ao capitão não podem nem reclamar.

Bolsonaro eleva o tom das sandices sempre que se vê em apuros. É uma tática conhecida. A cortina de fumaça ajuda a desviar a atenção e manter a tropa mobilizada. Na terça, não funcionou. Além de delirar com uma guerra impossível, o presidente marcou gol contra ao escancarar sua politicagem com a vacina. No mesmo dia, ele comemorou um suicídio, chamou os Brasil de “país de maricas” e disse que sua vida é “uma desgraça”.

O capitão tem motivos para exibir descontrole. Na semana passada, o Ministério Público do Rio denunciou o senador Flávio Bolsonaro por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A confissão de uma funcionária-fantasma agravou os problemas do Zero Um com a Justiça.

Luiz Carlos Azedo - Quanto pior, pior mesmo

- Correio Braziliense

O ministro da Economia, Paulo Guedes, antecipou que pretende prorrogar o auxílio emergencial caso a pandemia de COVID-19 tenha uma segunda onda

As eleições de domingo já estão razoavelmente desenhadas nas pesquisas de opinião, principalmente no chamado Triângulo das Bermudas — Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte —, que revelam opções prudentes dos eleitores. Estão preferindo manter os prefeitos Bruno Covas (PSDB), em São Paulo, e Alexandre Kalil(PSD), em Belo Horizonte, e trazer de volta o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), diante da desastrosa administração do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio de Janeiro.

Com exceção de Kalil, que deve ser eleito no primeiro turno — está com 63% de intenções de votos, contra João Vitor Xavier (Cidadania), que tem 8%, em segundo —, Covas e Paes provavelmente terão que suar a camisa no segundo turno, principalmente se os adversários forem Marta Rocha (PDT) e Guilherme Boulos(PSOL), respectivamente. Num balanço rápido pelas capitais, as expectativas de que o presidente Jair Bolsonaro teria influência decisiva nas eleições se confirmaram com o sinal trocado: está puxando os candidatos que apoia para baixo.

Os melhores exemplos são Celso Russomano, que liderava em São Paulo, cuja candidatura desidratou completamente e está fora do segundo turno. E a Delegada Patrícia (Podemos), no Recife, que parecia ir para o segundo turno contra o líder nas pesquisas, João Campos (PSB), mas, a partir do apoio de Bolsonaro, também definhou. Marília Arraes (PT) e Mendonça Filho (DEM) disputam o segundo lugar. Ontem, pesquisa DataFolha mostrou o porquê de o apoio de Bolsonaro se tonar tóxico nessas disputas eleitorais: sua rejeição aumentou muito, chegando a 50% em São Paulo.

Hélio Schwartsman - Um país de maricas

- Folha de S. Paulo

Somos, sim, covardes e medrosos, porque ainda não iniciamos o processo de impeachment

Hoje vou concordar com Bolsonaro. Peço antecipadamente desculpas pelo nível da linguagem, mas somos, sim, um país de maricas, no sentido de medrosos, covardes, poltrões. Somos tudo isso porque ainda não iniciamos um processo de impeachment contra o presidente, apesar do impressionante número de crimes de responsabilidade (e comuns) que ele acumula.

No último dia 10, uma terça-feira especialmente gorda, ele conseguiu, num intervalo de poucas horas, aniquilar a dignidade do cargo, colocar em perigo a saúde pública e ainda ameaçar ir à guerra contra os Estados Unidos, a potência militar hegemônica do planeta que nos derrotaria de olhos fechados. Os otimistas podem regozijar-se com o fato de que, desta vez, ele pelo menos não atacou o Legislativo nem o Judiciário, como fazia semanalmente até pouco tempo atrás.

Ruy Castro* - Demência de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Como nos submetemos por 21 anos a militares que se sujeitam a ser desmoralizados por um louco?

Para nós que passamos 21 anos de vida adulta (1964-1985) sob a ditadura, os generais eram sujeitos sinistros, de óculos escuros, que nos ditavam quando, se e em quem podíamos votar, o que podíamos ler, ver, escutar, dizer e escrever e, se falássemos em instituições, direitos e liberdade, eles mandavam prender e arrebentar. Eles tinham as armas, as verbas e as canetas com as quais impor sua autoridade. E os porões, instrumentos de tortura e beleguins para aplicá-la. A mera visão de uma farda era intimidadora. Ela nos reduzia moralmente à menoridade, às calças curtas, à fralda.

Aí está algo incompreensível para um brasileirinho de hoje. Ele não entenderá como os militares podiam ter essa força. Para ele, militares são sujeitos que Jair Bolsonaro põe no governo, exibe nas redes sociais e logo começa a depreciar, diminuir, desmoralizar e, por fim, fulmina com a demissão. Em menos de dois anos, já fez isso com 16 generais, quatro brigadeiros e um almirante, e só entre os oficiais de alta patente.

Bruno Boghossian – O fiasco da contenção de danos

- Folha de S. Paulo

Ninguém teve coragem de usar a ferramenta mais eficaz: o impeachment de um presidente irresponsável

Na terceira semana de trabalho sob o governo Jair Bolsonaro, em fevereiro de 2019, a Câmara impôs ao presidente uma derrota vergonhosa. Mais de 350 deputados atropelaram o Palácio do Planalto e aprovaram a derrubada de um decreto criado para limitar a transparência de documentos públicos.

Bolsonaro recuou e revogou a norma dias depois, para fugir de um novo revés na votação do Senado. A decisão foi celebrada como um sinal de que os Poderes se levantariam contra os abusos do novo governo. Num canto qualquer de Brasília, alguém disse que as instituições estavam funcionando normalmente.

Passados 21 meses, a política brasileira continua presa a um esforço contínuo de contenção de danos. O presidente causa prejuízos ao país e comete seguidos crimes de responsabilidade, enquanto o Congresso e o Supremo se limitam a limpar uma pequena parte da bagunça.

Reinaldo Azevedo - Preparem-se! Bolsonaro quer confronto

- Folha de S. Paulo

Cerco a Flávio afeta o equilíbrio do presidente, que abre a tampa do bueiro

Jair Bolsonaro vai dar trabalho. O cerco dos fatos ao senador Flávio Bolsonaro afeta o seu equilíbrio instável, e ele abre a tampa do bueiro. Chama os brasileiros de “maricas”, ameaça os EUA com retaliação militar, mente sobre efeitos colaterais da vacina, anuncia a cura da Covid-19, mergulha numa espiral de demência.

Chega mesmo a ter um rasgo de sinceridade ao afirmar: “A minha vida aqui é uma desgraça, é problema o tempo todo, não tenho paz para absolutamente nada”. E lá vem um novo ataque aos de sempre, aos urubus: “Não posso mais tomar um caldo de cana na rua, comer um pastel. Quando eu saio, vem essa imprensa perturbar.”

Imagine aí, leitor, que atividades a palavra “nada” resume. Não enchêssemos tanto a paciência de Bolsonaro, não existisse um país para ele governar, em que ocuparia o seu tempo, além de tomar caldo de cana e comer pastel? FHC foi entrevistado logo depois de deixar o poder. Quiseram saber se experimentava alguma sensação de vazio, alguma melancolia de rei destronado.

Vinicius Torres Freire - A nova temporada de festas do corona

- Folha de S. Paulo

Negligência festeira e governo incapaz criam risco de verão sufocante: a Europa avisa

Parte da gente remediada, bem de vida ou rica que frequenta as praias do litoral norte de São Paulo marca grandes festas de fim de ano, noticia esta Folha. Aparecem relatos aqui e ali de hospitais privados cuidando de mais doentes de Covid-19, embora os dados não sejam bastantes nem para esboçar um chute de estimativa das internações recentes.

O governo paulista, que teria o mapa completo do problema, diz que não há tendência de aumento da ocupação de leitos por causa da epidemia.

As notícias da agenda animada de festas, no entanto, fazem lembrar da negligência do início da calamidade, das festas de casamento e outras aglomerações que ajudaram a espalhar o vírus como bombas sujas, radioativas.

Não há fatos que indiquem um repique da epidemia em São Paulo, na maior parte dos estados ou na média nacional. Mas, como se escrevia faz duas semanas nestas colunas, a Europa outra vez nos dá um alerta. Foi assim em fevereiro e março, para o que muita gente aqui ligou pouco.

Para resumir um assunto complicado, a situação em muitos países da Europa está por ora fora de controle, a julgar pelo número de mortes. Como as novas restrições e distanciamentos foram impostos no início do mês, ainda não dá para saber se tiveram resultado. Mas o espalhamento da doença, com ou sem restrições, vai danar a atividade econômica europeia em novembro.