terça-feira, 20 de maio de 2025

Opinião do dia -: Karl Marx* (Democracia)

“Hegel parte do Estado e faz do homem o Estado subjetivado; a democracia parte do homem e faz do Estado o homem subjetivado. Do mesmo modo que a religião não cria o homem, mas o homem cria a religião, assim também não é a constituição que cria o povo, mas o povo a constituição. A democracia, em um certo sentido, está para as outras formas de Estado como o cristianismo para as outras religiões. O cristianismo é a religião ’preferencialmente’, a essência da religião, o homem deificado como uma religião particular. A democracia é, assim, a essência de toda constituição política, o socializado como uma constituição particular; ela se relaciona com as demais constituições como gênero como suas espécies, mas o próprio gênero aparece, aqui, como existência e, com isso, como uma espécie particular em face das existências que não contradizem a essência. A democracia relaciona-se com todas as outras formas de Estado como com seu velho testamento. O homem não existe em razão da lei, mas a lei existe em razão do homem, é a essência humana, enquanto nas outras formas de Estado o homem é a existência legal. Tal a é a diferença fundamental da democracia. "

*Karl Marx (1818-1883), Critica da Filosofia do Direito de Hegel, p. 50. Boitempo Editorial, 2005

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Maior risco da gripe aviária está na economia

O Globo

Vírus ainda não foi transmitido entre humanos. São essenciais medidas para garantir exportações

O caso de gripe aviária (vírus H5N1) detectado numa granja em Montenegro (RS) exige atenção redobrada das autoridades agropecuárias, mas não deve ser motivo de preocupação para a população. Não há até agora razão para temer nova pandemia. O exemplo recente dos Estados Unidos é ilustrativo. Lá, o primeiro sinal do vírus foi detectado em aves silvestres em janeiro de 2022. Em todo o ano passado, apenas 67 americanos foram infectados, e não há caso de transmissão entre humanos. A única morte registrada, de um idoso com saúde comprometida que cuidava de pássaros doentes, aconteceu em janeiro. No Brasil, outros vírus respiratórios para os quais há vacinas comprovadamente eficazes merecem mais atenção. De janeiro até 10 de maio, 2.966 morreram em decorrência deles.

Era só o que faltava - Merval Pereira

O Globo

Janja e Michele são ativistas políticas, embora de polos distintos, por isso muitos consideram uma possibilidade que se enfrentem um dia eleitoralmente

O que muitos temíamos está acontecendo. A disputa entre a primeira-dama, Janja da Silva, e sua ex-confreira Michelle Bolsonaro domina a cena política pátria, embora nenhuma das duas seja oficialmente candidata a nada. Por enquanto, é bom ressalvar. Mas, que as duas sabem tirar proveito político de suas imagens, isso sabem. Janja foi tão criticada pela intervenção sobre o TikTok na China, diante do líder chinês Xi Jinping, que tem conseguido reverter a situação, pelo menos entre grupos petistas. Não há dúvida de que o establishment do partido do governo, especialmente ministros e assessores mais próximos de Lula, não gostam da intromissão dela nos temas governamentais, muito menos de seu privilégio de ser a interlocutora favorita do presidente.

A divulgação do entrevero na China teve, evidentemente, a intenção de diminuí-la, mas, passado o primeiro instante, ela vem congregando apoiadores. Sua posição antiprotocolar, reafirmada ontem, agrada à parcela da esquerda mais revolucionária. Uma misoginia atribuída às críticas também ajuda. Mas dá vazão também a outras críticas vindas da direita, vocalizadas com gosto pela ex-primeira-dama bolsonarista. Michelle, que vende a imagem de ser uma evangélica radical, critica o que chama de “gosto de viajar” de Janja e gastos dispendiosos.

Trimestre melhor que os outros - Míriam Leitão

O Globo

O PIB do primeiro tri virá forte, mas a desaceleração da economia é inevitável diante da escalada de aumento de juros

O primeiro trimestre vai ter um crescimento forte, e o país vai ficar com a impressão de que os juros altíssimos não estão fazendo efeito. O Banco Central informou ontem que, pelas suas contas, o PIB do primeiro trimestre ficou em 1,3%. O Monitor da FGV calcula 1,6%. Mas os bancos projetam que o número a ser divulgado pelo IBGE será muito maior.

Bradesco estima o PIB no primeiro trimestre será 1,8%, contra o último tri do ano passado. A avaliação do banco é que será um PIB puxado pelo agro que está colhendo uma supersafra, mas também pelo consumo. Isso, contudo, não significa que os juros deixaram de desacelerar a economia. A avaliação que se tem no banco é de que o aumento do setor do agro será todo capturado no dado do primeiro trimestre e que o consumo tende a aparecer em desaceleração nos meses seguintes.

Respire fundo, 2027 vem aí - Pedro Doria

O Globo

Explodiu, na semana passada, o relatório AI 2027 — Inteligência Artificial em 2027. Tornou-se assunto prioritário no Vale do Silício. O texto, um calhamaço com mais de 60 mil palavras, é uma previsão crível, com linha do tempo detalhada, de como tudo mudará nos próximos dois anos, talvez três. Por vezes, parece coisa de ficção científica. Mas, diferentemente de outros arautos do apocalipse da IA, o texto é razoável do início ao fim. Por isso mesmo, apavorante. Seu autor principal, Daniel Kokotajlo, é um ex-engenheiro da OpenAI que deixou a companhia por medo do que era desenvolvido. É um tipo particularmente pessimista.

Alta de 1,6% no Monitor do PIB no 1º trimestre foi a mais forte em cinco anos, diz FGV

Alessandra Saraiva / Valor Econômico

Para especialista do Ibre FGV, após o resultado do indicador, não está descartado que o PIB, em 2025, possa crescer a uma taxa mais próxima a 3%, e não de 2% como se imaginava no começo desse ano

avanço de 1,6% da economia brasileira no primeiro trimestre na margem foi o mais forte desde dezembro de 2020 (3,8%), na comparação de trimestre ante trimestre imediatamente anterior, informou a Fundação Getulio Vargas (FGV), no âmbito do Monitor do PIB.

“Parece que, no início do ano, a economia está mais aquecida do que se imaginava”, afirmou Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais (NCN) do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV/Ibre).

O técnico detalhou ainda que, até o primeiro trimestre, o desempenho da economia no Monitor do PIB não foi puxado por uma ou outra categoria comparativa, e sim favorável, em diferentes comparações.

No Cone Sul, a direita cresce pelos extremos - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Tão ou mais preocupante que a IA na eleição argentina, é a direita tradicional ser engolida por Milei

Candidatos pró-Europa venceram na Polônia e na Romênia derrotando, como aconteceu recentemente no Canadá e na Austrália, os candidatos alinhados a Donald Trump. A extrema-direita avançou em Portugal, mas os conservadores e a esquerda ainda mantêm a capacidade de isolá-la. Foi na Argentina que a rodada eleitoral do fim de semana acendeu o sinal de alerta para o Brasil - pela manipulação via inteligência artificial de um vídeo na véspera da votação mas, principalmente, pela capitulação da direita tradicional (Maurício Macri) ante o presidente Javier Milei.

Até que saísse o resultado das eleições legislativas em Buenos Aires, o ex-presidente centrou fogo no vídeo em que aparece pedindo voto para o candidato de Milei (Miguel Adorni) em detrimento da sua candidata (Silvia Lospennato) como única alternativa contra o peronismo. O vídeo traz Macri, que engole as palavras, num tom monocórdico, com olhos, boca e cabeça cadenciados. A evidência de que se trata de uma imagem robótica não fica clara para quem assiste ao vídeo no celular, por onde circulou, graças às redes sociais.

Dilema no Fed - Mario Mesquita*

Valor Econômico

A ancoragem das expectativas não pode ser tida como certa

O ano começou sob o signo do excepcionalismo da economia dos Estados Unidos. O excepcionalismo refere-se à capacidade da economia americana de crescer consistentemente mais do que as demais economias avançadas e do que muitas emergentes também. Essa performance exuberante seria resultado de uma combinação única de estabilidade institucional, sistema legal independente e eficiente, desenvolvimento dos instrumentos financeiros e capacidade de atrair capital humano e financeiro para sustentar uma máquina de inovações. É inegável que o ecossistema de inovação que se observa nos EUA não tem equivalente em outros países, ainda que o setor de tecnologia da China também venha mostrando dinamismo e criatividade.

Velho, pobre, mal educado - Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

O Brasil envelheceu, não ficou mais rico e continua lendo e escrevendo mal. É este o retrato que pesquisas recentes nos mostram

O País jovem, tendo a porta aberta para um destino de prosperidade e bem-estar ao lado das grandes nações, parece ter-se perdido na história. O Brasil como que se conformou em ficar nas posições intermediárias na corrida mundial pelo progresso. E os brasileiros, em média, concordaram com isso. Muita coisa melhorou – e melhorou muito nas últimas décadas. Mas também em muitas coisas o Brasil patinou, quando não andou para trás. Não se trata de buscar responsáveis. Trata-se de entender como o Estado e a sociedade lidaram e lidam com as grandes questões que afetam a qualidade de vida de cada brasileiro.

De rebanho e vaquinhas - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Quem cai no golpe da vaquinha? Os que votam em Flordelis, Brazão, Zambelli, Ramagem...

Após praticamente cinco meses de recesso, recesso branco e feriadões reais ou por conveniência, eis que o Congresso Nacional anuncia que vai começar a funcionar e a votar nesta semana pelo menos duas pautas, regras mais claras e rígidas para impedir fraudes contra aposentados e pensionistas e instalar “or not” instalar a CPMI do INSS.

É uma velha prática: quando o caldo entorna, a turma toda se une para dar uma resposta à sociedade, encenar que está muito empenhada em resolver o problema do momento e buscar holofotes... até o novo escândalo, quando começa tudo de novo. No Executivo, cria-se um grupo de trabalho que logo é esquecido. No Congresso, projetos engavetados surgem de repente nos plenários e também não dão em nada.

Cara de pau - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O viajante Hugo Motta, de passagem pela ilha da fantasia, teve a coragem de publicar isto em rede social: “Comuniquei aos líderes da Câmara dos Deputados que, na próxima semana, pautarei a urgência de projetos de lei destinados a impedir fraudes no INSS. Seguindo e sempre respeitando o regimento da Casa, vamos analisar, reunir e votar tudo o que pode compor um Pacote Antifraude. Esse tema, que é urgência para milhões de brasileiros, é urgência para a Câmara dos Deputados”.

Uau! Falou até em urgência. Urgência “para milhões de brasileiros”. Falou isso em 2025. Urgência para os brasileiros roubados desde – pelo menos – 2016. E roubados – o papo aqui é reto – sob chancela do Parlamento, pelo menos desde 2019. O cronista, um cético, desconfiado mesmo diante da previsibilidade com que, assaltado já o trigo, Maria Antonieta propõe brioches, foi ver para crer. Para crer em tamanha audácia. Duvidei de início.

Restrição ao ensino a distância mira profissionais de direito e da saúde – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A nova política do ensino a distância foca profissões que estão sendo muito impactadas pelo aumento de número de profissionais e uso intensivo de tecnologia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, nesta segunda-feira (16/5), decreto que proíbe a realização de cursos de direito, medicina, enfermagem, odontologia e psicologia a distância (EaD). Somente poderão se realizar no formato presencial, devido à necessidade de atividades práticas, laboratórios presenciais e estágios. Os demais cursos da área de saúde e as licenciaturas também terão de ser realizadas nos formatos presencial ou semipresencial com regras rígidas para as atividades a distância.

O ensino a distância no Brasil estava virando uma bagunça, com a proliferação de faculdades de baixa qualidade, que lançam milhares de profissionais despreparados no mercado de trabalho, inclusive em áreas que colocam em risco a segurança jurídica dos seus clientes e a saúde da população, sobretudo onde os profissionais não são concursados. Entre 2011 e 2021, o número de alunos em cursos superiores de graduação na modalidade EaD aumentou 474%, enquanto as matrículas em cursos presenciais diminuíram 23,4% no mesmo período. Em 2023, o número de matrículas na EaD alcançou 4,91 milhões de alunos, representando 49,2% do total de matrículas no ensino superior brasileiro.

O progressismo está em derrocada no mundo - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

A mudança na tecnologia da informação é central nesse processo

Erik Kaufmann, professor da Universidade de Buckingham, em artigo no Wall Street Journal, anuncia o início da era "pós-progressista" na política ("Welcome to the Post-Progressive Political Era", 14/5). Depois de algumas décadas em que as pautas progressistas acumularam vitórias —chegando a parecer o curso inevitável da história—, agora a maré virou.

A questão mais visível é a pauta trans, que foi de bandeira progressista a tema espinhoso. Mas não para por aí. Políticas de diversidade e inclusão de maneira geral estão sob ataque, bem como a imigração em massa. Não é apenas uma reação ao excesso de bandeiras identitárias ou ao politicamente correto, embora esses excessos sejam reais. As sociedades —até mesmo os jovens— estão mais conservadores.

Lula vê sua coalizão sorrir com Bolsonaro - Ranier Bragon

Folha de S. Paulo

Cúpula da superfederação União-PP, aliada formal do petista, se empenha em enviar sinais à oposição

Nunca antes na história é um dos bordões queridos de Lula.

De fato, talvez nunca antes tenha havido tamanha tranquilidade de partidos formalmente abrigados no governo operarem em sintonia aberta com a oposição.

União Brasil e PP —que vão formar uma superfederação— controlam quatro ministérios, a Caixa Econômica Federal e uma extensa rede de cargos regionais. Ainda assim, organizam comícios antigoverno, fazem declarações ácidas, impõem ultimatos e votam majoritariamente com a oposição.

Que o fracasso nos seja suave - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Enquanto os três Poderes olham apenas para os interesses de seus membros, país vai perdendo a chance de educar-se e enriquecer

"Suave fracasso" foi a expressão que ouvi muitos anos atrás da boca do embaixador Rubens Ricupero para qualificar o Brasil. Quanto mais o tempo passa, mais me convenço da precisão do diagnóstico.

Muita coisa aconteceu desde que saí em férias duas semanas atrás, mas nada mudou. Os três Poderes da República continuaram a dar sucessivas demonstrações de incúria. O Legislativo, cobrado pelo Judiciário a dar materialidade à norma que determina que as bancadas dos estados na Câmara obedeçam ao critério da proporcionalidade populacional —pilar da democracia representativa—, propõe uma regra que obviamente a viola.

Heitor dos Prazeres pintou o sete no samba - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Tema do enredo da Vila Isabel em 2026, Heitor dos Prazeres foi artista intenso, que ajudou a fundar Portela e Mangueira

Hoje diríamos que ele era um multiartista ou, vá lá, um influenciador. Melhor é chamá-lo de azougue do samba, um notável pioneiro na criação, propagação e fixação daquele que se tornaria o ritmo musical do país. Mesmo assim, Heitor dos Prazeres não é reconhecido como tal —circunstância que a Vila Isabel quer mudar com o enredo em sua homenagem no Carnaval de 2026.

Pouca gente sabe que uma frase sua —"A praça Onze era uma África em miniatura"— levou a que se adotasse o termo Pequena África para definir a região do Rio dominada pela música, visual, sociabilidade e religiões de matriz africana.

A contrademocracia nas legislativas de Portugal: o populismo na era da desconfiança - Vagner Gomes*

De onde vem a força do populismo contemporâneo? Essa seria uma instigante pergunta para os cientistas políticos uma vez que a ascensão das agremiações partidárias que se identificam com essa tendência iliberal ganha eleitores para exercer aquilo Pierre Rosanvallon chamaria de contrademocracia. A oposição ganha uma legitimidade pelo voto para exercer uma política de impedimento. Nesse “furor” de qualificar a desconfiança a aqueles que fazem parte do sistema político a décadas sem lhes conferir melhorias sociais, em tempos de estagnação econômica e crise do emprego, provavelmente os partidos antissistema se favoreçam nas ondas do populismo. As barricadas insurrecionais do século XIX migrariam para o parlamento e, na atualidade, o “jacobinismo digital” de parlamentares da extrema-direita muitas vezes bloqueia o debate legislativo.

Entrevista | Julio María Sanguinetti, ex-presidente do Uruguai

“Eu de gravata e Mujica com seu jeito chacareiro tivemos espírito de união”

Manoella Smith / Folha de S. Paulo

Primeiro presidente da redemocratização comenta relação com seu opositor e relembra como foram de 'inimigos' a 'colegas amistosos' em defesa do debate democrático

Personagem chave no processo de redemocratização do Uruguai, o ex-presidente Julio María Sanguinetti não esconde o respeito que nutre por José "Pepe" Mujicaque morreu na semana passada, aos 89 anos, após meses de tratamento contra um câncer de esôfago.

Apesar de serem opositores políticos —um, ícone da esquerda, e o outro, estrela da direita—, Sanguinetti diz que passaram "a ser colegas amistosos" e que trabalharam "pela reconciliação nacional".

"Pepe foi criticado: ‘O que você faz com esse burguês do Sanguinetti?.’ E a mim me diziam: ‘O que você faz com esse velho tupamaro?’. E eu respondia o mesmo a todos: ‘Senhores, queremos a paz ou não? A paz se faz entre adversários, não com seus próprios", afirma Sanguinetti em entrevista por videoconferência na sexta-feira (16), dias após a morte de Mujica.

Membro do tradicional Partido Colorado, ele governou o Uruguai em duas ocasiões: na primeira, de 1985 a 1990, encerrou um ciclo de 12 anos de governos autoritários. Depois, retornou ao cargo entre 1995 e 2000.

Já Mujica, ex-guerrilheiro, ajudou a criar o MPP (Movimento de Participação Popular), a força com mais congressistas dentro da Frente Ampla. Foi eleito deputado em 1995 e ocupou a Presidência entre 2010 e 2015.

À coluna, Sanguinetti relembra seu último encontro com Mujica, em março, durante um evento realizado na casa do Partido Colorado, em Montevidéu, em comemoração aos 40 anos da democracia. Diz que um dos maiores legados do esquerdista é o de "se transformar e se retificar" e comenta bastidores da decisão de renunciarem em conjunto ao Senado em 2020.

Entre Mundos: A Sabedoria do Oprimido - Cláudio Carraly*

Nos interstícios do poder e da cultura, forma-se um tipo particular de conhecimento: o saber do oprimido. Trata-se de um acúmulo ampliado, plural, muitas vezes invisível aos olhos das epistemologias dominantes, mas profundamente potente. O sujeito marginalizado, especialmente aquele oriundo das periferias do mundo, do sertão ao sul global, da favela às ex-colônias, carrega em si não apenas a gramática de sua própria existência, mas também a linguagem do poder que o oprime, ele é bilíngue em estruturas de dominação.

Tomemos como ponto de partida nosso país, o jovem do nordeste, migrante real ou simbólico, desde cedo precisa se alfabetizar não apenas nas letras da escola, mas nos códigos de prestígio do centro dominante. Aprende a reconhecer sotaques, gírias, referências midiáticas, posturas esperadas e até as caricaturas e estereótipos que fazem dele e da sua gente. Decifra as narrativas do Sudeste, as músicas das rádios nacionais, as estéticas dos grandes jornais, não apenas compreende, mas muitas vezes reproduz, com domínio técnico e profundo senso analítico. Vive em trânsito.

Enquanto isso, o jovem das regiões centrais, herdeiro inconsciente do monopólio narrativo, permanece alheio à riqueza dos dizeres de quem está longe demais das capitais, desconhece completamente as tradições, signos e saberes que são profundamente ricos. Esse desnível não é casual, trazendo para discussão o aspecto transnacional, ele expressa o que Boaventura de Sousa Santos chamou de epistemologias do sul: formas de conhecimento historicamente marginalizadas, silenciadas, apagadas por um sistema-mundo que universalizou a experiência do Norte global como a norma, e a do Sul como exótica, essa vista como subalterna ou folclórica. A força do saber periférico está em seu caráter híbrido e adaptativo: O oprimido precisa compreender mais que o opressor para sobreviver, resistir, resinificar e crescer.

Poesia | O tempo passa? Não passa, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Mônica Salmaso | Partido alto

 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Opinião do dia – Karl Marx* (A vontade humana}

“Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada.”

*Karl Marx (1818-1883). “O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852”, p.7. Os Pensadores, Marx, v. II. Editora Nova Cultura /Abril, 1988.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adoção de moeda alternativa ao dólar envolve riscos

O Globo

Predomínio da divisa americana nos negócios globais foi ameaçado por Trump, mas substituição não é trivial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender na semana passada a adoção de uma alternativa ao dólar nos negócios internacionais. Lula manifestou preocupação com a “vantagem imensa” que os Estados Unidos obtêm por emitir a principal moeda do planeta (o dólar domina 88% do comércio global e 57% das reservas internacionais). A ideia não é nova. Quando ministro das Finanças do governo Charles de Gaulle, o futuro presidente da França Valéry Giscard d’Estaing batizou tal vantagem de “privilégio exorbitante”.

Graças à demanda por dólares e papéis de seu Tesouro, os Estados Unidos têm o “privilégio” de pagar juros mais baixos para tomar dinheiro emprestado. Com isso, podem financiar déficits públicos crescentes sem se preocupar com crises cambiais ou corridas contra sua moeda. Em contrapartida, a valorização do dólar encarece as exportações. Por isso os arautos do trumpismo a criticam como artificial e atribuem a ela a desindustrialização.

Uma crise no topo do mundo – Fernando Gabeira

O Globo

Com os anos, percebi que meu retiro espiritual estava baseado numa área explosiva, um grande perigo para a estabilidade mundial

Desculpem um tema tão distante, mas veio à memória uma viagem que fiz ao Himalaia, ainda no fim do século. O estopim foi um atentado contra turistas em Pahalgam e o perigo de guerra nuclear entre Índia e Paquistão. Foi uma viagem mais voltada para o espírito. Tomar um chá no topo do mundo, sei lá. Kashmir ainda era uma palavra em inglês, que supunha ser masculina.

Desembarquei em Srinagar, uma cidade famosa pelas suas pensões no Lago Dal, as houseboats, que você alcança com pequenas embarcações, as shikaras. Dali, viajei uns 60 quilômetros até Gulmarg, que no inverno vira estação de esqui. Vi tropas de burros subindo a montanha, tocadas por homens vestindo sobretudos. A quietude do lugar, a sensação de estar num ponto alto do mundo eram fascinantes.

O problema acontecia quando voltava a Srinagar: sempre havia manifestações com a polícia quebrando o pau literalmente, porque eram cassetetes de madeira. Aos poucos, a viagem espiritual foi sendo atropelada pelo caminhão da História. O Kashmir virou Caxemira, espaço de um drama que começou antes da independência da Índia, mas se tornou agudo com a repartição do país.

A cara do Brasil - Miguel de Almeida

O Globo

A manobra de Hugo Motta para aumentar, e não diminuir, o número de deputados novamente deturpa a representação. Mas hoje ele é a face eleita do Brasil

De passagem pelo Brasil, anos atrás, perguntaram a Umberto Eco o que era afinal Silvio Berlusconi, então eleito primeiro-ministro. “Infelizmente ele é a cara da Itália de hoje”, respondeu. Não havia ali ironia, apenas cínico conformismo diante do personagem folclórico e corrupto. O Brasil de 2025 seriam os 315 deputados que votaram para aliviar o golpista Alexandre Ramagem e o chefe do bando? Ou seria o notório ex-ministro Carlos Lupi? Sem muito esforço: é Lula da Silva e sua Janja, ao lado de Nicolás Maduro, entusiasmado com o ditador Vladimir Putin?

Posso olhar para o lado, fugindo dos tipos eleitos pelo voto popular, e pensar em Alaíde Costa, que, aos 89 anos, lança um álbum avassalador: “Uma estrela para Dalva”, em homenagem a Dalva de Oliveira. É um Brasil com outro tipo de civilização, ainda educado e poético, que não precisa mostrar a bunda, como Anitta, em assanhada vulgaridade. Ao lado de Guinga, Antonio Adolfo e André Mehmari, entre outros, Alaíde oferece um repertório de canções — algumas de Herivelto Martins, com quem Dalva foi casada, como “Ave Maria no morro” — de quando o brasileiro acreditava no país do futuro. Mais certo se aferrar à definição de Oswald de Andrade, imbatível: “O Brasil é um monte de gente dando adeus”. Ou seria um “país de chegadas”?

O Copom vai continuar subindo a taxa Selic? - Alex Ribeiro

Valor Econômico

Existe a possibilidade de uma nova alta de juros em junho porque foi exatamente isso o que o Comitê disse na ata e no comunicado da sua reunião

Sim, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central pode continuar subindo a meta da taxa Selic, que atualmente se encontra em já elevados 14,75% ao ano. Mas essa é uma possibilidade, não uma certeza. E, cada vez mais, os ajustes de curto prazo vão ficando menos importantes - e o que vai contar é o sangue frio para manter os juros apertados pelo tempo necessário para colocar a inflação na meta.

Existe a possibilidade de uma nova alta de juros em junho porque foi exatamente isso o que o Comitê disse na ata e no comunicado da sua reunião. Na leitura de parte dos analistas econômicos, a ata foi mais suave que o comunicado e, portanto, o Copom deu pistas de que a Selic não sobe mais.

O lobby presente na educação à distância - Bruno Carazza

Valor Econômico

Decreto de regulação do EaD sofreu resistência de representantes do setor, contrários à melhoria na qualidade da formação de profissionais

Um decreto que o governo anuncia para hoje, apertando as regras para os cursos de educação à distância, movimentou os corredores e gabinetes de Brasília nos últimos meses. Representantes dos maiores grupos educacionais do país fizeram uma verdadeira blitz em diversos órgãos para suavizar a nova regulação e preservar uma fonte considerável de lucro.

Dados do Censo da Educação Superior, produzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que a oferta de vagas em cursos de educação à distância (EaD) cresceu 167,5% nos últimos cinco anos, enquanto na modalidade presencial elas caíram 13,5%.

Republicanos aposta em Tarcísio para o Planalto, apesar de obstáculos

Victoria Abel / O Globo

Entre os desafios do político é apresentar-se como opção viável ao posto, sem macular a fidelidade ao ex-presidente

Republicanos tem dobrado a aposta em Tarcísio de Freitas como candidato à Presidência em 2026, depois que pesquisas internas mostraram o potencial do governador de São Paulo para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva. Para chegar à corrida, porém, Tarcísio precisa enfrentar barreiras impostas por aliados e pelo próprio ex-presidente Jair Bolsonaro. Preocupado em evitar fissuras com seu padrinho político, o gestor tem dito publicamente que irá disputar a reeleição.

A primeira das dificuldades de Tarcísio é apresentar-se como opção viável sem macular a imagem de político fiel a Jair Bolsonaro. Por enquanto, a ordem é continuar a sinalizar para a disputa local e evitar o assédio de figuras do Centrão que o veem como a melhor alternativa para o Palácio do Planalto.

Falta coragem – Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Quem conseguir se apresentar como a melhor alternativa ao atual governo terá mais chances em 2026

O ex-presidente Michel Temer recentemente verbalizou um clichê político que poucos se arriscam a refutar. Trata-se da afirmação de que qualquer candidato da direita ou centro-direita precisa estar em paz com Jair Bolsonaro para ter viabilidade eleitoral. Essa é uma ideia que o próprio Bolsonaro faz questão de repetir sempre que pode, até porque é o que lhe sobra sem o direito de disputar eleições.

Temer recorreu a esse falso truísmo depois da reação à notícia de que ele havia iniciado conversas com governadores com ambições presidenciais sem a participação de Bolsonaro. O governador Tarcísio de Freitas, um dos que foram contatados por Temer, soltou um enfático “não” quando perguntado se existe direita sem Bolsonaro. Mas isso está longe de ser uma verdade incontestável.

Lula, Putin e a mentira - Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Stalin, ao aliar-se a Hitler, tinha, ademais, como objetivo aproveitar-se da situação da guerra, concretizando uma política anticapitalista e antidemocrática

Quanto mais o presidente Lula viaja, piores ficam a reputação internacional do Brasil e a sua própria imagem. A foto de Lula, na Rússia, com seus aliados autocratas e ditadores, apenas reforça seu pouco comprometimento com a democracia, além de ficar de fora do jogo geopolítico mundial, apesar de pretender o contrário. Alinhar-se com Putin, desprezando a Ucrânia, inclusive, nada dizendo a respeito de bombardeios de civis, alvejando mulheres, idosos e crianças, trai o humanitarismo que diz defender. Bolsonaro não foi reeleito por falar demais. Lula segue pelo mesmo caminho.

A Alemanha deve proibir a AfD? - Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Quanto mais um partido antidemocrático cresce, mais difícil combatê-lo

Oque fazer quando um número crescente de eleitores apoia um partido que representa uma ameaça à ordem democrática? Esse é o dilema que a Alemanha enfrenta. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que obteve 20,8% dos votos nas eleições federais em fevereiro e ficou em segundo lugar, foi oficialmente classificado, no início de maio, como uma organização “comprovadamente extremista de direita” pelo Escritório Federal de Proteção da Constituição (BfV). Na semana seguinte, o BfV anunciou que suspenderia a avaliação até que a Justiça decidisse sobre uma ação movida pela própria AfD contra a decisão – mas sem revogar a classificação anterior.

Inclusão e oposição: o legado da emenda 25 - Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Medida que permitiu reorganização de partidos e voto dos analfabetos foi tão ou mais importante que eleição de Tancredo

O ano de 1985 foi um marco para a redemocratização brasileira. Em janeiro daquele ano, o primeiro presidente civil depois de mais de 20 anos de ditadura militar, Tancredo Neves, foi eleito. Ainda uma eleição indireta, restrita aos membros do Colégio Eleitoral —composto pelos membros do Congresso Nacional e delegados das assembleias legislativas estaduais.

Tão ou mais importante que a eleição de Tancredo Neves foi a aprovação da emenda constitucional 25 (EC 25), promulgada em 15 de maio de 1985.

Aprovada por ampla maioria na Câmara e no Senado, a emenda alterou a Constituição de 1967 e incluiu previsão de eleições diretas para presidente ao final do mandato presidencial vigente, além de eleições diretas, em novembro de 1986, para prefeitos de capitais e outras cidades que até então se encontravam com sua autonomia limitada.

O Executivo enfraquecido e o paradoxo brasileiro - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

O poder dos presidentes tem crescido em todo mundo, até sob a forma de ‘presidencialização do parlamentarismo’

O Poder do Executivo se enfraqueceu sob Lula 3. Esse declínio teve início há cerca de uma década. Há aqui um paradoxo: em todo o mundo, tem ocorrido o contrário: o poder dos presidentes vem experimentando uma expansão secular de suas competências constitucionais. Mesmo em países parlamentaristas, tem-se observado o fenômeno que a ciência política classifica como "presidencialização do parlamentarismo", cujo traço mais notável é a perda da colegialidade dos governos de gabinete e o surgimento de líderes acima dos partidos.

Fausto vendeu sua alma ao bolsonarismo: uma tragédia brasileira - Fernando Castelo Branco*

O Povo (CE)

Em crise existencial profunda, tédio mortal e orgulho desmedido, vai até a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e faz um pacto com Mefistófeles, o diabo de Goethe, "o espírito que sempre nega". Que negou a pandemia, o distanciamento social, a vacina, que tentando um golpe de estado negou a própria democracia

Fausto, personagem de Goethe, é um homem sábio, "estudei filosofia, direito, medicina e, infelizmente, também teologia", aos 15 anos até venceu um prêmio literário em um concurso de redação sobre a vida e obra de Luís de Camões, e deixou a pequena Sobral para conhecer Lisboa às expensas do governo português. Um prodígio!

Fausto é não apenas um homem erudito, doutor em várias ciências, visiting scholar na Harvard Law School, é também o servo preferido de Deus, homem em quem se deposita a fé na humanidade. Confiante em sua tenacidade, Deus aceita o desafio, e permite que Fausto seja tentado pelo Diabo. "Enquanto ele viver na Terra, / Não te proíbo que o tentes. / O homem erra enquanto busca". E como erra, esse homem que busca.

Por que Janja incomoda a tantos – Guálter George

O Povo (CE)

Precisamos falar da socióloga Rosângela Lula da Silva, popularmente identificada como Janja, que vem a ser a mulher do atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e que assumiu protagonismo no cenário político dos últimos dias, "acusada" por gente da própria base de estragar os efeitos positivos de uma viagem do marido à China marcada por anúncios de investimentos e acertos bilionários para o Brasil. O que fez ela então, para carregar tal peso?

Antes de chegar ao episódio específico é preciso discutir o que tem representado a entrada de Janja na vida de Lula, em relação às suas consequências políticas. Há uma diferença abissal entre o comportamento dela e o da antiga cônjuge do petista, Marisa Letícia, esta sempre apontada como fundamental à trajetória dele pelo papel de dona de casa que cumpriu exemplarmente até quase à morte, que aconteceu em 2017. Diz-se, inclusive, que sem ela teria sido mais difícil até criar o PT diante do suporte que oferecia, de sua posição doméstica, para os encontros e reuniões do grupo precursor que tinha Lula como ponto central.

Criticar a primeira-dama não é misoginia - Lygia Maria

Folha de S. Paulo

Resposta de Janja a discordâncias em relação à sua fala sobre as redes sociais, durante evento na China, é tiro no pé do feminismo

Um dos maiores inimigos do feminismo é o uso de pautas caras ao movimento como escudo contra críticas a mulheres.

Por óbvio, nem toda discordância com atos ou falas de pessoas do sexo feminino é machista, ainda mais quando elas integram o campo da política. Nessas situações, principalmente, a crítica é uma ferramenta histórica de escrutínio do poder.

Tal escudo é nefasto porque coloca as mulheres num lugar irracional e vitimista. Parece que somos incapazes de demonstrar que uma oposição não se sustenta. Resta só a opressão ressentida e, às vezes, imaginária.

Leão XIV e os desafios do mundo contemporâneo - Manfredo Oliveira*

O Povo (CE)

Sabemos que estamos diante da possibilidade de nossa própria extinção de tal modo que a catástrofe ecológica se mostra hoje como o inimigo verdadeiro e, assim, constitui um desafio para humanidade inteira

Dirigindo-se ao colégio de cardeais, o papa Leão XIV afirmou que gostaria que renovassem juntos a plena adesão ao caminho que a Igreja universal percorre desde o Concílio Vaticano II. Entre várias características deste caminho, citou duas centrais: o cuidado amoroso com os marginalizados/excluídos e o diálogo confiante com o mundo contemporâneo.

Isto implica uma tomada de consciência dos traços da civilização técnico-científica que construímos na modernidade, em que a ciência e a técnica deram à ação humana um alcance de dimensão planetária, ampliando o horizonte de sua responsabilidade. A ação humana, tecnicamente potencializada, pode deteriorar, de forma irrevogável, a natureza e o próprio ser humano. Tal postura pressupõe uma dicotomia radical entre homem e natureza e compreende ciência e técnica como instrumentos de domínio.

Poesia | Presságio, de Fernando Pessoa

 

Música | Bella Ciao - Concerto per l’80esimo anniversario della Liberazione